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sábado, 5 de fevereiro de 2011

A conquista da Paraíba

A história que contarei aqui é desconhecida por muitos brasileiros e paraibanos...

A conquista e a fundação da Capitania da Paraíba representou um grande feito na história brasileira, feito este que fica relegado a obscuridade como tantos outros marcos da história deste país. Conquistar as terras nos arredores do rio Paraíba se revelou numa verdadeira guerra, que durou mais de dez anos, que envolveu as autoridades de Pernambuco, do Governo-Geral e da própria Coroa. Conquistar aquelas terras representava não apenas a superioridade portuguesa sobre os indígenas e os franceses que contrabandeavam pau-brasil nessa região, mas representava o acesso por via terrestre ao norte e consequentemente as riquezas daquela região; era dito na época que o pau-brasil destas terras eram de melhor qualidade do que se achava em Pernambuco, além disso, as terras paraibanas da zona da mata eram férteis e propícias ao cultivo da cana de açúcar.

As capitanias hereditárias foram criadas em 1534 (embora que a vila de São Vicente date de 1532, sendo a vila mais antiga a ser fundada no Brasil), nessa época duas capitanias se encontravam nesta região, a capitania de Pernambuco e a capitania de Itamaracá, para o norte estavam as capitanias do Rio Grande (hoje Rio Grande do Norte), do Ceará e do Maranhão (dividida em duas partes). Itamaracá fazia fronteira ao sul com Pernambuco ocupando hoje as terras do município de Igarassu, e se estendia ao norte até a chamada Baía da Traição, hoje município paraibano. Contudo os donatários de Itamaracá não realizaram uma colonização eficiente, grande parte do norte do território era inexplorado e controlado pelos índios, em especial os Potiguaras os quais comercializavam pau-brasil com os franceses na região da Baía da Traição, por longos anos essas terras ficaram fora da povoação portuguesa, os capitães donatários de Pernambuco culpavam o governo de Itamaracá por descaso com suas obrigações. No caso da Capitania do Rio Grande, a colonização dessa não tinha se efetivado por esta época, e o local residia abandonado pelos portugueses. As tentativas que foram implantadas desde sua criação em 1534 fracassaram. 


As primeiras capitanias hereditárias no Brasil anterior a 1585. Ao longo da história, outras capitanias foram criadas e desfeitas.
A situação mudou a partir de 1574, quando ocorreu o Massacre de Tracunhaém, ocorrido no engenho de Tracunhaém em Itamaracá, o qual ficava a alguns quilômetros da Vila de Goiana, fundada em 1570. A tragédia ocorreu devido a um mau entendido entre uma tribo potiguara e o engenho, no qual a filha do cacique que retornava para casa escoltada pelos irmãos fora "sequestrada" enquanto eles passavam a noite no engenho, isso aumentou a ira da tribo, a qual atacou e destruiu o engenho. Com tal episódio, o então rei de Portugal, D. Sebastião I, ordenou que aquelas terras fossem conquistadas de uma vez por todas. O rei ordenou que o governador-geral Luís de Brito fundasse uma cidade fortificada que seria a capital de uma nova capitania, já que o governo de Itamaracá não estava dando conta do recado, contudo o governador estava muito ocupado em Salvador e enviou o ouvidor-geral Fernão da Silva para Pernambuco, para resolver tal problema.

"Cabia ao ouvidor, com a tropa que pudesse reunir em Pernambuco, desoprimir os moradores de Itamaracá, pondo cobro pelas armas ao desassossego e agressividade do gentio paraibano. Chegando a Olinda, juntou um troço de soldados e muito resoluto marchou para a conquista da terra rebelde, disposto a castigar os potiguaras e seus aliados franceses". (ALMEIDA, 1978, p. 61).

Primeira expedição (1574)

A primeira expedição chegou ainda no ano de 1574 a foz do rio Sanhauá um dos afluentes do rio Paraíba, nessa região chamada de Cabedelo (pequeno cabo, atualmente é um município paraibano) Fernão da Silva tomou posse daquelas terras em nome do el-rei de Portugal, D. Sebastião I. Contudo, enquanto o ouvidor-geral acreditando que já estava tudo resolvido, que aquelas terras haviam sido de fato, já conquistadas mais uma vez, para a sua surpresa, ao invés dos índios se debandarem para o interior das florestas, eles os atacaram com grande ferocidade.
Em Lucena fica localizado o Forte Velho fundado em 1584. Pode-se ver entre Lucena e Cabedelo a foz do rio Paraíba do Norte e no meio a ilha da Restinga. A Baía da Traição marca o local onde os franceses costumavam desembarcar e onde várias lutas foram travadas.
"O ataque foi feito no velho estilo dos urros, das pulhas e das flechadas certeiras. Diante daquela investida inesperada, a tropa se tomou de pânico e arrancou pela praia, numa carreira desabalada, em demanda de Itamaracá, onde sabia encontrar refúgio seguro". (ALMEIDA, 1978, p. 63).

Fernão da Silva retornou para Salvador, derrotado e humilhado. No ano seguinte o governador-geral confiou a liderança de uma nova expedição ao seu sobrinho Bernado Pimentel de Almeida, dessa vez se enviaria doze navios com homens bem equipados, mas por azar do destino, os navios não chegaram a costa paraibana, ventos vindos do Norte, impediram que a frota que vinha de Portugal, avançasse, e a expedição não chegou a ocorrer. 

A expedição que não houve (1578)

Em 1577, o governo de Luís de Brito chegou ao fim, e este fora substituído por Lourenço da Velga, contudo não existem registros que apontem que o novo governador-geral enviou alguma expedição para a Paraíba, o que se sabe é que ele planejou fazer isso, escolhendo o seu ouvidor-geral Cosme Rangel, porém ele nunca chegou a levar a cabo alguma iniciativa.

Em 1578 o ouvidor Cosme de Macedo e o provedor Cristóvão de Barros foram incumbidos pelo governador-geral Lourenço da Velga de organizarem uma expedição para a Paraíba, mas problemas ocorridos em Portugal, levaram a expedição ser cancelada. Todavia, o historiador J. F de Almeida Prado, alega que ainda em 1578, João Tavares com o apoio do governo pernambucano partiu para a Paraíba a fim de negociar uma trégua com os indígenas, como também acertar acordos a respeito da exploração do pau-brasil na região, embora não tenha se saído bem com isso. Horácio de Almeida e outros historiadores não consideram a expedição de Tavares em 1578 como uma expedição oficial de conquista, mas apenas uma expedição diplomática particular. 

Segunda expedição (1582)

Rei Filipe II de Espanha e I de Portugal
Em 1582, a situação de Portugal e suas colônias havia mudado, o rei D. Sebastião havia morrido em 1578 numa batalha na Bárbaria (atual Marrocos) e fora substituído pelo seu tio o Cardeal-Rei Henrique I. Pelo fato de ser cardeal e pela idade avançada, o novo rei governou apenas por dois anos, e veio a falecer, sem deixar herdeiros, isso gerou um problema para a Coroa portuguesa no que resultou na ascensão do rei espanhol Felipe II como rei de Portugal, dando início a União Ibérica, período que marca a união dos domínios espanhóis e portugueses de 1580 a 1640. Felipe II se apresentara como candidato ao trono português, alegando parentesco com a Família Real Lusa, por parte de sua mãe. Além de Filipe II havia outros cinco pretendentes ao trono português, porém Filipe era o que possuía maior poder e recursos para conquistar o trono. Mas, antes do Cardeal-Rei ter morrido, ele já havia contratado o experiente navegador e comerciante Frutuoso Barbosa para liderar uma expedição à Paraíba em 1579.

"Fora Frutuoso Barbosa nomeado por alvará de 1579 capitão-mor por dez anos da região que devia conquistar, com vencimentos de duzentos mil cruzados anuais, mais a incumbência de coletar rendas". (PRADO, 1964, p. 73). 

Ainda em 1579, Frutuoso chegou com sua frota em Pernambuco, trazendo além de soldados e munição, famílias e casais de colonos. De fato, ele trouxera consigo sua esposa e filhos também. A ideia era que se a conquista fosse efetivada, aqueles portugueses seriam os novos habitantes da cidade que estaria para ser fundada na Paraíba. Porém, quando partiu para a mesma, ventos acabaram levando seus navios em direção as Antilhas, na ocasião, sua esposa acabara falecendo, e de lá, Frutuoso preferiu retornar para Portugal do que voltar para Pernambuco. O rei Henrique I faleceu, e depois de alguns meses de problemas com a sucessão, Filipe II assumiu o trono e dois anos depois decidiu enviar novamente Frutuoso ao Brasil, a fim de conquistar a Paraíba.

Frutuoso chegou com sua frota à Pernambuco, onde reuniu forças com o governo pernambucano, tendo apoio direto das vilas do Recife e Olinda (Olinda era a capital de Pernambuco nesta época). Duas frentes seguiram para a Paraíba, por mar seguiu-se a frota liderada por Frutuoso e por terra, cerca de 200 homens seguiam a pé e à cavalo, liderados por Simão Rodrigues Cardoso, capitão-mor e ouvidor de Pernambuco. Além de 200 homens brancos, Simão levou vários "índios mansos", como referia-se na época. 

As duas frentes chegaram a Paraíba, próximo a Cabedelo ou a barra do rio Paraíba, como alguns autores também se referem. Ao chegar lá, Frutuoso ficou sabendo de que naus francesas haviam sido vistas rio acima, ele fora de encontro a elas. Neste ponto há divergências nos relatos: os portugueses contam que a tropa de Frutuoso incendiou cinco navios de oito, e que os outros três conseguiram fugir, contudo na versão dos franceses, foram eles mesmos que incendiaram os navios, na impossibilidade de salvá-los, e para que não caíssem nas mãos dos portugueses.

Com a rápida vitória a tropa retornou para Cabedelo, porém parte das tropas se encontravam na Ilha da Restinga, local próximo dali, e outra parte havia ido explorar os arredores, e fora neste momento que um ataque surpresa ocorreu. Os franceses que não haviam fugido, uniram-se aos seus aliados potiguaras e atacaram os portugueses.

"Não andaram muito, quando os índios e os franceses, que estavam a espreita, caíram sobre eles e foram matando os que fugiam até junto aos batéis. Mais de quarenta homens ficaram prostrados no matagal, inclusive um filho de Frutuoso Barbosa". (ALMEIDA, 1978, p. 66).


Mapa mostrando os cursos d'água do Rio Paraíba e seus afluentes, como as atuais cidades de hoje e outras localidades. 
Frutuoso havia perdido a esposa e agora um dos filhos que se encontravam na expedição terrestre que fora pega de assalto pelos indígenas e franceses. Frei Vicente do Salvador conta que pelo menos quarenta portugueses morreram nesta emboscada feita principalmente pelos potiguaras que estavam em maior número e saíram de surpresa da floresta. Um dos navios da expedição, capitaneado por Gregório Lopes de Abreu, fora tomado pelos indígenas. Frutuoso ordenou que todos os homens recuassem para os navios e retornassem para barra do rio. Frutuoso planejou ir embora, mas para seu alívio a força terrestre comandada pelo capitão Simão chegara naquele dia. 

Frei Vicente do Salvador conta que a expedição permaneceu mais oito dias acampada na barra norte, no que hoje é o distrito de Costinha em Lucena, pois considerava mais seguro do que a barra sul (Cabedelo), porém, a expedição não conseguiu erguer o forte a tempo, e novos ataques dos potiguaras os forçaram a ter que abandonar a empreitada. 

Terceira expedição (1584)

Em 1584 o então governador-geral Manuel Teles Barreto decidiu enviar uma nova expedição à Paraíba. Frutuoso Barbosa comandaria novamente esta expedição, mas desta vez ele contaria com o apoio do general espanhol Diogo Flores de Valdez. Valdez veio para o Brasil atrás de glória, já que havia falhado em campanhas pela Europa, América do Sul e no Oceano Pacífico, e precisava recuperar sua reputação. Depois de meses de viagem e atrasos, Valdez que havia deixado o que hoje é a Argentina, chegou ao Rio de Janeiro e depois a Bahia.

"Só os detinham as esperanças que tinham de serem soccoridos da Bahia, onde haviam mandado por procurador um Antônio Raposo ao governador Manuel Telles Barreto com grandes protestos de encampação, o qual fez sobre isto junta e conselho em sua casa, em que se acharam com elle o bispo D. Antônio Barreiros, o general da armada castelhana Diogo Flores de Valdez, o ouvidor geral Martim Leitão e os mais que na matéria podiam ter voto, e se assentou que fosse o general Diogo Flores, e em sua companhia o licenceado Martim Leitão, com todos os poderes bastantes pera effeito da povoação da Parahiba e por provedor da fazenda e mantimentos da armada Martim Carvalho, cidadão da Bahia, os quaes todos aceitaram com muito animo e gosto, particularmente Diogo Flores, por ver, já que o jogo lhe succedeu tão mal no estreito, si ao menos podia levar este vinte de caminho". (SALVADOR, 1918, p. 276.). 

Em 1 de março, saindo da Bahia zarpou uma frota de nove navios, sete espanhóis e dois portugueses, nessa frota iam Frutuoso Barbosa, Diogo Valdez e o ouvidor-geral Martim Leitão a mando direto do governador-geral. Após 19 dias de viagem com maus ventos, eles chegaram no dia 20 de março em Pernambuco, onde Martim Leitão e o bispo D. Antônio de Barreiros deixaram a tripulação ficando em Recife. Martim Leitão empenhou seus afazeres organizando com D. Phillipe de Moura, nomeado capitão das tropas pernambucanas pelo capitão-mor Jorge de Albuquerque, em se organizar uma tropa que seguiria por terra. A tropa fora reunida na Vila de Igarassu de onde partiriam para a Paraíba. Antes de partirem após a Páscoa, Alvaro Bastardo enviou para D. Phillipe, 40 soldados para reforçar a tropa terrestre. Quando D. Phillipe chegou ao rio Paraíba, Diogo Valdez já havia queimado três navios franceses próximo a ilha da Restinga.

"Valdez queria o forte à margem esquerda do Paraíba, em frente à ilha da Restinga, onde incendiara as naus francesas. Frutuoso Barbosa era contra, queria na foz do rio, onde está hoje a velha fortaleza do Cabedelo". (ALMEIDA, 1978, p. 69).

Contudo os dois comandantes entraram num impasse, Valdez discordava de Frutuoso dizendo que a foz do rio não era segura para se estabelecer um povoado e um forte, por outro lado, Frutuoso também discordava de Valdez, isso contribuiu para deixar o clima mais tenso entre os dois comandantes, já que um não reconhecia a autoridade do outro. No fim, fora convocado um conselho e votou-se pela foz do rio como local do forte.

"A obra de taipa foi iniciada imediatamente e concluída em pouco mais de um mês, porque nela trabalhavam todos os soldados, índios domésticos e escravos. Anos depois o que restava da obra era apenas uma tapera dentro do mato e a denominação histórica de Forte Velho que ainda hoje guarda o lugar". (ALMEIDA, 1978, p. 70).

Em primeiro de maio Valdez batizou o forte ainda inacabado com o nome de São Felipe e Santiago (veja o mapa anterior, onde há a localização do forte, chamado de Forte Velho) em homenagem aos apóstolos, e consequentemente uma homenagem ao monarca das duas coroas ibéricas, Felipe II de Espanha e I de Portugal. Nessa época, Valdez havia nomeado seu capitão Francisco Castejon como alcaide (chefe de uma fortaleza), assim, Castejon teria maior autoridade do que o próprio Frutuoso a quem havia sido dado o direito de comandar aquela expedição, isso aumentou ainda mais as desavenças com Valdez. Diogo deixara Castejon no comando de 110 espanhóis e cinquenta portugueses, fora as tropas que D. Phillipe havia trazido consigo. Acreditando que seus serviços haviam sido concluídos com a construção do forte, o mesmo deixou a Paraíba e retornou para a Espanha a fim e buscar suas mercês prometidas pelo rei. 

Nas semanas seguintes, tropas fizeram excursões pelos arredores, e quem liderou inicialmente esta excursão fora Simão Falcão e posteriormente, fora a vez de Felipe de Moura, governador de Pernambuco. Uma aldeia fora encontrada nas proximidades, batizada de Campo das Ostras, já que havia coleta destes animais naquela área. Enquanto os portugueses comemoravam sua rápida vitória sobre a tribo local, não tardou que mais indígenas viessem ao seu encontro. Os cronistas da viagem dizem que o ataque súbito causou tanto medo que o próprio Felipe de Moura correu com muito medo de volta ao forte. Os índios os seguiram e atacaram o forte, as baixas que os portugueses tiveram foram de mais de 50 homens brancos, 400 índios domésticos e 100 escravos negros.

A situação ficaria ainda mais precária nas semanas seguintes. Valdez havia ido embora antes mesmo de toda essa confusão ter começado, para ele a fundação do forte mesmo sendo a contra gosto de sua escolha, encerrava sua missão ali. Frutuoso dividia a autoridade do local com Castejon, e os dois não se davam bem.

"Castejon estava por comandante da cidadela, Frutuoso por capitão da nascente capitania, um arrogante pelo temperamento e pela superioridade de sua força, o outro confiado na posição que lhe fora dada pelo Rei, ambos se odiando, ambos obrigados a morar juntos, porque o forte era o único lugar onde todos podiam estar ao abrigo do inimigo. A essa situação precária, exposta aos contratempos internos e externos, reduzia-se a conquista da Paraíba". (ALMEIDA, 1978, p. 72).

Cerca de 160 homens ficaram praticamente presos ao forte, com pouca comida, água e munição. Os índios ainda mantinham o cerco. Em um determinado momento eles conseguiram alcançar seus navios e pedir socorro a Pernambuco, onde o ouvidor-geral lhes enviou munição, comida e 24 soldados, mas isso não alterou em praticamente nada a situação, então quando a crise apertou, o próprio Castejon no mês de setembro pegou um navio e fora para Pernambuco conseguir reforços.

Em novembro Castejon retornou com pouca ajuda para o forte, porém para piorar a situação neste mês, alguns navios franceses haviam chegado a região. Os franceses desembarcaram na Baía da Traição mais ao norte, e seguiram a pé com armas para ajudar os potiguaras no cerco. Novamente um pedido de socorro fora enviado a Pernambuco, lá o ouvidor-geral que se encontrava doente se pôs imediatamente a lutar contra sua condição a fim de reunir o máximo de homens e recursos possíveis, dessa vez o capitão-mor de Itamaracá, Pero Lopes Lobo enviou apoio (Itamaracá estava praticamente arruinada nesta época, se limitando apenas a ilha de mesmo nome).

Com a chegada dos reforços, Castejon seguiu para a Baía da Traição onde derrotou os franceses. Com a vitória, aumentou-se o ânimo entre as tropas e logo a esperança. Contudo, esta história tomaria um novo rumo no ano seguinte. Em janeiro de 1585 outra tribo indígena, chamada de Tabajara chegara ao litoral, vindo dos sertões. Os tabajaras haviam sido expulsos de suas terras no litoral há vários anos pelos portugueses e pelos potiguaras, seus velhos rivais. Nesse tempo transcorrido, eles viveram praticamente como nômades até retornarem em 1585, sob a liderança de seu líder, Piragibe (braço de peixe, em tupi-guarani).

De início os tabajaras sitiaram o forte de São Felipe e Santiago, junto aos potiguaras, piorando ainda mais a situação dos portugueses, tal combate perduraria por alguns meses, até que outra expedição fosse enviada para ajudar.


Quarta expedição (1585)


Em meados do ano a quarta expedição fora formada, agora sob a liderança do próprio ouvidor-geral Martim Leitão, enfermo anteriormente. Leitão reuniu mais de 500 soldados, além de índios e negros para esta expedição, ele contou também com o apoio de ricos mercadores, capitães e de alguns membros da nobreza pernambucana (deve-se lembrar que se a conquista fosse concretizada, seria algo bem lucrativo, nesse caso muitos homens buscavam rendição de seus crimes prestando serviço militar, iam atrás de glória, terras e riquezas). Além de toda esta comitiva, Leitão levou dois jesuítas, Jerônimo Machado e Simão Travassos, os quais conheciam a língua dos potiguaras e tabajaras, e também seriam os responsáveis por realizarem os registros históricos da expedição.


"Martim Leitão, movido de grande fervor patriótico, foi o braço forte da conquista. Pela visão que tinha de como resolver o problema, convocou às armas todos os homens válidos de Pernambuco". (ALMEIDA, 1978, p. 78).


Em 5 de março a expedição de Martim Leitão cruzava as cercanias do rio Tibiri, hoje no território do município de Santa Rita, lá eles se depararam com os tabajaras de Piragibe. Ao invés de partir para o combate, ele preferiu tomar uma medida mais amistosa e enviou alguns missionários. Contudo, os tabajaras desconfiavam que isso poderia ser um truque para uma possível emboscada, a final eles tinham sido expulsos de suas terras pelos antepassados de muitos dos homens que estavam ali. As tentativas de fundamentar a paz demoravam cada vez mais e já parecia ser inviável. Após três dias de tentativas fracassadas, Martim Leitão decidiu prosseguir atacando a aldeia que se encontrava ali perto. A aldeia fora queimada e parte de sua população morta, outros fugiram por entre as matas, com a vitória, eles seguiram caminho pela região, e destruíram mais duas aldeias, até entrarem em conflito com um dos parentes próximos de Piragibe, contudo a aldeia havia sido abandonada há pouco tempo. Com a vitória, a expedição partiu em direção ao forte no litoral.

"O deplorável estado do forte causou a todos a maior consternação, já pelos estragos que apresentava, já pelo aspecto físico e moral dos que nele viviam prisioneiros. A fome e a doença reduziram as ruínas humanas os bravos soldados da conquista que mal se conservavam de pé. Era uma coisa piedosa de se ver, conforme o testemunho do padre Jerônimo Machado". (ALMEIDA, 1978, p. 81).

Frutuoso Barbosa ainda se encontrava no forte tão debilitado fisicamente, moralmente e psicologicamente, que na descrição do padre Jerônimo Machado, aquele pobre homem já não tinha mais forças para lutar por aquela terra que lhe fora prometida, para ele, sair daquele lugar era o que mais desejava na vida.

Enquanto Martim Leitão se manteve no forte, uma pequena expedição de trezentos homens foram enviada para a Baía da Traição a fim de atacar os franceses, contudo dois dias depois da chegada ao forte, 40 homens foram vítimas da câmara-de-sangue (infelizmente no livro não traz outro nome para esta doença, mas acredito que possa ser tuberculose) devido as péssimas condições higiênicas do local.

Dias depois ficou-se sabendo que a aliança entre potiguaras e tabajaras estava próxima da acabar, os potiguaras acusavam os tabajaras de não terem se esforçado para combater os portugueses, isso piorou a situação entre os dois povos que viria repercutir mais a frente. Em abril, Martim Leitão retornou para Olinda, deixando homens e provisões no forte na Paraíba, além de enviar mais tropas, alimentos, munição e outros recursos. No lugar de Frutuoso Barbosa ficou o capitão Pero Lopes de Sousa, capitão-mor de Itamaracá. Contudo em junho, Martim Leitão recebeu a notícia que Pero Lopes havia abandonado o forte e voltado para a ilha de Itamaracá, não tardou para que o próprio Castejon o alcaide do forte também abandonasse o local após vários ataques, com isso o forte fora abandonado. Castejon antes de abandonar o port ordenou que o mesmo fosse incendiado, provavelmente para que não caísse nas mãos dos potiguaras e franceses. Pelo fato do forte ter sido feito de madeira, o fogo o consumiu totalmente. 

"Do forte São Filipe, situado à margem esquerda do Paraíba, entre o rio Gargaú e o da Guia, não ficou mais que um montão de ruína e o nome que pegou no lugar, Forte Velho". (ALMEIDA, 1978, p. 83).

Martim pediu que Frutuoso liderasse mais uma expedição, mas este se recusou, então ele escolheu o capitão Simão Falcão, o qual já vinha ajudando desde então, porém o capitão adoeceu poucos dias antes da viagem, parecia que uma praga atormentava os portugueses e os impedia de conquistar aquelas terras.

Este mapa é de 1958, mas dá para se ter uma noção de alguns dos locais citados. De Igarassu a Baía da Traição, perfazia as fronteiras norte-sul da então Capitania de Itamaracá com sua capital na Ilha de Itamaracá. Hoje no então município de Santa Rita se encontra o rio Tibiri, local que durante a quarta expedição fora o palco da vitória das tropas lideradas pelo ouvidor geral Martim Leitão sobre os tabajaras, nesse local também seria construído o primeiro engenho da Paraíba e no século seguinte mais de 15 engenhos.
Quinta expedição (1585)

Se por um lado tudo parecia dá errado para mais uma expedição, a situação mudou nos fins de julho, quando dois índios enviados por Piragibe chegaram a Olinda a fim de falar com o ouvidor-geral. Piragibe propunha um acordo de paz e aliança aos portugueses se os ajudassem contra os potiguaras; Martim Leitão confiou a João Tavares, escrivão da Câmara e Juiz de Órfãos em Olinda, a liderança desta expedição.

Tavares partiu a 2 de agosto em uma caravela com apenas 20 homens e os dois índios, dentre todas as expedições esta fora a mais simples de todas. Em 3 de agosto ele firmou paz com Piragibe e dois dias depois em 5 de agosto ele escolheu um local para se fundar o novo forte e a cidade, nesse dia de Nossa Senhora das Neves, oficialmente a Paraíba estava conquistada e se criava a Capitania da Paraíba. Tal data marca o aniversário da cidade, contudo como aponta alguns historiadores e os próprios relatos do Sumário das Armadas, mais importante relato histórico da conquista da Paraíba, diz que a cidade começou a ser construída apenas em novembro por volta do dia 4. Porém, as informações documentais nos dizem outra realidade. 

Fundação da cidade

Após 10 anos de conflitos sangrentos, a Paraíba fora de vez conquistada, e como se disse na época, "sem nenhum tiro de espoleta". A vitória fora festejada com grande ânimo em Olinda e Recife. Em 29 de outubro, João Tavars, então capitão-mor interino da Paraíba, retornara para a capitania trazendo um grupo de trabalhadores, escravos e soldados pra começar erguer um forte na região do Varadouro, usada como porto natural. O forte ficou parcialmente pronto em janeiro de 1586. Pelo mesmo ano, João Tavares fora efetivado capitão-mor, e assinou as primeiras sesmarias (documento que distribuía terras para o cultivo). Duas sesmarias foram dadas para proprietários no campo e uma terceira no local onde viria a se construir a cidade, pois ainda em 1586, existia apenas o forte que era considerado uma povoação. Uma destas sesmarias doadas viria originar o Engenho de el-Rei, o primeiro engenho da Paraíba. 

Contudo, antes das casas começarem a serem erguidas e os demais prédios do governo, e outras construções, novos ataques dos potiguaras e franceses, e desentendimento com os tabajaras, levaram João Tavares a adiar o início das obras pela falta de segurança. Apenas em 1587 é que as casas, a prisão, o pelourinho, a câmara, o açougue, armazéns, etc., começaram a serem construídos. Fora criada a Rua Nova (atual rua General Osório) e a chamada ladeira de São Francisco, onde começou a ser construído em 1589 o Convento de São Francisco, o prédio religioso mais antigo da Paraíba. 

Em 1588, Frutuoso Barbosa retornou a Paraíba tendo sido nomeado pelo rei, como novo capitão-mor, substituindo João Tavares. Fora durante o governo de Frutuoso que a cidade de Nossa Senhora das Neves passou a ser chamada de Filipéia ou Filipéia de Nossa Senhora das Neves, em homenagem ao rei Filipe II. Frutuoso governou até 1591, quando deixou o cargo e foi embora do Brasil. 

Sendo assim, historicamente embora a Paraíba tenha sido fundada como capitania em 5 de agosto de 1585, a cidade de Nossa Senhora das Neves só veio a surgir em 1587. Em 1585 começou a erguer-se o forte no Varadouro, forte este que ainda hoje se desconhece o nome oficial, mas décadas depois passou a ser referido como Forte da Cidade ou Forte do Varadouro; em 1586, apenas o forte existia na região que era chamada de Povoação de Nossa Senhora das Neves, para finalmente 1587 a cidade surgir de fato. No entanto, o governo paraibano aceita como data de surgimento da cidade, 5 de agosto de 1585, celebrado como aniversário da cidade. 

A luta contra os potiguaras ainda perduraria até 1599, depois disso uma paz prolongada com os indígenas prevaleceria, apenas no século XVIII é que novos conflitos com os indígenas voltariam acontecer. Os franceses passariam a vir com menos frequência a Paraíba, mas posteriormente decidiram invadir o Maranhão. Mas, por fim a Paraíba, chamada de terra bravia, de terra indomável, que passou pelo reinado de dois reis sem ser conquistada, finalmente fora domada. 

NOTA: Em 1634 a Paraíba fora conquistada pelos holandeses, a capital passou-se a chamar-se Frederikstad em homenagem ao Príncipe de Orange. Em 1654 com a expulsão definitiva dos holandeses do Brasil, a cidade passou-se a se chamar Parahyba, e décadas depois fora chamada de Paraíba do Norte (devido ao fato de existir o rio Paraíba do Sul e o rio Paraíba do Meio) e manteve este nome até 1930, quando após o assassinato de João Pessoa, na época candidato a vice-presidente de Getúlio Vargas, a cidade fora novamente renomeada para João Pessoa, qual permanece desde então. Mas embora os holandeses tenham mudado o nome para Frederica, em alguns documentos holandeses, e até mesmo portugueses e espanhóis consta o nome da cidade sendo chamado de Parahyba. 
NOTA 2: O nome Paraíba significa em tupi "mar corrompido ou água má". Tal fato se devia as correntezas do rio, que dificultavam a navegação em certos pontos. No entanto, o diretor da Paraíba durante o Domínio Holandês, Elias Herckmans, apontara que o nome Paraíba significava "grande enseada" e não "mar corrompido" ou "água má". 
NOTA 3: A cidade mais antiga do Brasil é Salvador, fundada em 1549 pelo primeiro governador-geral Tomé de Sousa. A segunda cidade fora São Sebastião do Rio de Janeiro (hoje apenas Rio de Janeiro) fundada em 1565 por Estácio de Sá. Natal é a quarta cidade mais antiga, fundada em 1599.
NOTA 4: O título completo do Sumário das Armadas é, Sumário das Armadas, que se fizeram e guerras que se deram na conquista do rio Paraíba, escrito e feito por mandado do muito reverendo padre em Cristo, o padre Cristovão de Gouvêa, visitador da Companhia de Jesus de toda a província do Brasil. Porém não se sabe ao certo se fora realmente o padre Cristóvão de Gouvêa que escreveu este livro, alguns historiadores apontam que possivelmente fora Jerônimo Machado, que acompanhou o padre e fora testemunha ocular, e teria escrito este livro por volta de 1603. No entanto ainda existe um terceiro possível nome, o jesuíta Simão Travassos o qual também fora testemunha destas expedições, o historiador Capistrano de Abreu defendia esta hipótese. 
NOTA 5: Todavia, hoje não existe certeza acerca da identidade do autor do Sumário das Armadas. Contudo, o professor Guilherme Lins, sócio do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano disse para mim que sabe a identidade do autor. O professor Guilherme a mais de quinze anos vem estudando esta obra, e diz ter chegado a uma resposta. Infelizmente ele ainda não concluiu sua pesquisa e não encontrou nenhuma editora interessada em publicar o material que já se encontra pronto. 
NOTA 6: A Baía da Traição recebeu esse nome, devido a aliança entre os potiguaras e franceses, visto pelos portugueses como um ato de traição.
NOTA 7: O Rio Paraíba em alguns mapas portugueses antigos era chamado de Rio São Domingos, porém tal nome nunca chegou a se efetivar mesmo na época. 
NOTA 8: A rua ao lado do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano chama-se Rua Frutuoso Barbosa, embora o endereço do instituto fique na Rua Barão do Abiaí, rua de frente para a outra. 
NOTA 9: Inicialmente os portugueses batizaram o rio Paraíba com o nome de rio São Domingos. Em alguns mapas do século XVI pode-se ver tal nome para esse rio, contudo, o nome acabou não sendo usado pela população, que preferia usar o nome indígena, Paraíba. 

Referências Bibliográficas:
ALMEIDA, Horácio de. História da Paraíba - tomo I. 2a edição, João Pessoa, Editora Universitária da UFPB, 1978. (Capítulo II).
SALVADOR, Vicente de. História do Brazil de Frei Vicente do Salvador. Edição revista por Capistrano de Abreu. São Paulo, Weiszflog Irmãos, 1918. (Capítulos III ao XVI)
PRADO, J. F. Almeida. A Conquista da Paraíba: séculos XVI ao XVIII. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1964. (Capítulos 1 ao 5). 
ANÔNIMO. Sumário das Armadas. Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, tomo XXXVI, parte I, 1873, p. 5-90. 

Links relacionados:
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