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Leandro Vilar

segunda-feira, 14 de março de 2011

O Bardo

Mais renomado e ilustre poeta inglês da história, William Shakespeare, fora chamado em seu tempo de O Bardo, uma referência aos antigos poetas, cantores e contadores de histórias da Europa, os quais viajavam por estas terras, levando suas histórias colhidas dos mais diversos lugares.

No Brasil, a origem literária adveio de Portugal a qual desde o século XII já contava com as histórias e poemas cantados em cantos ou declamados por bardos e trovadores. No caso especifico do Brasil o trovador deu origem ao chamado repentista, como é mais designado no sul do país, e na região nordeste, os nordestinos herdaram mais da literatura de cordel, vinda diretamente de Portugal. Ambos estilos são de origem popular, sendo assim é comum haver a utilização de um forte coloquialismo e regionalismo na língua falada e escrita.

Mas, voltando a Inglaterra do século XVI e idos do XVII da época do governo elisabeteano em especial, dedicarei este texto a falar um pouco da vida e obra de William Shakespeare.

Vida e Obra


William Shakespeare nasceu na pequena cidade de Stratford-on-Avon em 23 de abril de 1564, filho do rico comerciante John Shakespeare (anteriormente policial e tesoureiro) e de Mary Arden, filha de uma respeitada família local. A infância e juventude de William é ainda envolta em mistérios, poucos dados se possuem desta época de sua vida, especula-se que ele tenha estudado na escola King Edward VI, onde tivera suas primeiras aulas de latim e literatura clássica. Quando completou 18 anos, ele se casou com Ann Hathaway, filha de um rico fazendeiro das redondezas. Ann lhe dera três filhos, Susana, e os gêmeos Hamnet e Judith. A partir de seus 28 anos, é que começam a surgir mais dados de sua vida e seus primeiros trabalhos como dramaturgo.

Em 1592, estreou no Rose Theatre em Londres uma peça chamada Harry the Sixth, a qual recebera uma boa crítica e se tornou um sucesso de público. Alguns historiadores acreditam que tal peça teria sido a primeira parte de Henrique VI (Henry VI). Em 1593, Shakespeare inicia propriamente sua carreira como poeta, publicando Vênus e Adônis (Venus and Adonis), e no ano seguinte o poema o Rapto de Lucrécia (The Rape of Lucrecia). Fora também em 1594 que Shakespeare entra para o grupo teatral Lord Chamberlain's Men em uma época que as peças estavam embaixa, nos anos seguintes ele passaria a atuar em algumas de suas peças.

Casa da Família Shakespeare em Stratford-on-Avon. 
Outro fato interessante fora que nesta época, Christopher Marlowe (1564-1593) e Thomas Kyd (1558-1594), dois dos mais célebres dramaturgos do período vieram a falecer, isso acabou abrindo caminho para o trabalho de Shakespeare, o qual se vira sem concorrência. E tal fato fora expressado pelo próprio autor em seu trabalho. Ele concluiu as três partes de Henrique VI, escreveu Ricardo III (Richard III), Tito Andrônico (Titus Andronicus), A Comédia dos Erros (The Comedy of the Errors), A Megera Domada (The Taming of Shrew) e dentre outras peças.

Em 1596 seu único filho Hamnet, veio a falecer, no mesmo ano Shakespeare produz sua primeira grande tragédia, Romeu e Julieta (Romeu and Juliet). Ele também escreveu a comédia, Sonho de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Dream) e O Mercador de Veneza (The Merchant of Venice). Nessa mesma época, o teatro voltara a dá lucros e Shakespeare começou a enriquecer e até comprou um título de nobreza para o seu pai. Em 1597 ele escreveu Henrique IV (Henry IV), e a companhia de teatro Lord Chamberlain se mudou para o Globe Theatre, palco que imortalizaria as grandes obras-primas de Shakespeare. A própria companhia apresentou muitas das peças shakesperianas para a própria rainha Elizabeth I (1533-1603).

"Também é de 1598 o reconhecimento de Shakespeare como o mais importante dramaturgo de língua inglesa: suas peças além de atraírem milhares de espectadores para os teatros de madeira, eram impressas e revendidas sob a forma de livros - às vezes até mesmo pirateados". (SHAKESPEARE, 2010, p. 7).

A fama de William Shakespeare cresceria ainda mais nos anos seguintes, com a publicação de suas novas peças dentre as quais, Henrique V (Henry V) em 1599, Como Gostais (As You Like It) em 1599-1600, Júlio César (Julius Caesar) em 1599, Hamlet em 1599-1601, considerada sua mais famosa tragédia, e Noite de Reis (Twelfth Night) escrito também nessa época.Em 1603 com a morte da rainha Elizabeth I, seu sucessor, Jaime I (1566-1625) contratara a companhia Lord Chamberlain permanentemente, assim a companhia passou a se chamar King's Men (Homens do Rei). 

Nos anos seguintes, Shakespeare escreveu outras de suas famosas tragédias e comédias, como Otelo, Macbeth, Medida por Medida (Measure for Measure), Rei Lear (King of Lear), Antônio e Cleopatra (Antony and Cleopatra) e Coriolano (Coriolanus). Em 1608 a King's Men, comprou um pequeno teatro onde passou a apresentar peças para um público mais seleto, contudo, Shakespeare contando com os seus 44 anos de idade, decidiu abandonar a vida no palco e deixou de ser ator, acredita-se que desde 1607 ele tenha feito esta escolha.

Tumba de Shakespeare
No mesmo ano ele deixou Londres e voltou a morar com a família em Stratford, onde ficaria até o fim de sua vida. Nestes anos que se seguiram, ele publicou sua coletânea de sonetos em 1609, ao todo foram 154 sonetos. Também escreveu quatro tragicomêdias, Péricles, Cimbelino (Cimbeline), Conto de Inverno (The Winter's Tale) e a Tempestade (The Tempest) a concluindo em 1613, sendo este seu último trabalho conhecido. William Shakespeare com 52 anos, morreu em 23 de abril de 1616, sua fama como dramaturgo, escritor, poeta e ator, lhe rendeu muitas homenagens em vida e na posterioridade, ele foi enterrado na Igreja da Santíssima Trindade (Holy Trinity Church). Nessa época suas filhas já estavam casadas, e ele deixou a maior parte de sua herança para sua filha mais velha, Susana. Contudo ainda existem mistérios acerca da morte de Shakespeare, ainda hoje não se sabe ao certo qual foi a causa de sua morte, alguns biógrafos sugerem que ele haveria passado mal (talvez tenha infartado), depois de um banquete feito ao dramaturgo Ben Jonson, um velho amigo seu. Além disso, ronda o mistério de se realmente ele deixara sua herança em maior parte para sua filha mais velha ou para sua esposa Ann.

"[Shakespeare]. Escreveu ao todo 38 peças, 154 sonetos e uma variedade de outros poemas. Suas peças destacam-se pela grandeza poética da linguagem, pela profundidade filosófica e pela complexa caracterização das personagens. É considerado unanimemente um dos maiores autores de todos os tempos". (SHAKESPEARE, 2010, p. 8).

"A obra dramática de Shakespeare funde uma visão poética e refinada (deleite da corte e da aristocracia) a um forte caráter popular, no qual os assassínios,  as violações, os incestos e as traições são os ingredientes mais leves para o divertimento do público". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, p. 5356).

Os reis de Shakespeare

Basicamente os dramas históricos de Shakespeare giram em torno das personagens de alguns reis ingleses, que se tornaram fontes para suas peças. Rei João (King John), Ricardo II e III, Henrique IV, V, VI e VIII, e por fim Eduardo III. Ricardo III, Henrique IV (duas partes) e Henrique VI (três partes) representam suas peças sobre os reis ingleses mais conhecidas e cultuadas. Todavia, nessas suas obras, envolve-se características não apenas dramáticas que chegam ao melodrama, mas também a tragédia e a comédia, fato este que a personagem cômica mais famosa de Shakespeare, Falstaff não aparece em uma comédia, mas na peça Henrique IV.

Os reis retratados por Shakespeare, foram homens problemáticos com vidas problemáticas; João I (1166-1216) fora alcunhado o Sem-Terra, porque se viu diante de uma guerra contra os barões feudais, que lutavam contra os abusivos impostos cobrados pelo rei; Ricardo III (1452-1485) vivenciou o duro conflito da Guerra das Rosas (1455-1485), conflito travado pela Casa de Lancaster contra a Casa de York, ambas as casas disputavam a coroa da Inglaterra, e tanto Ricardo III, como o próprio Henrique VI (1421-1471) vivenciaram tais conflitos, e por fim não citarei os demais devido a extensão do texto, já que me resta algumas coisas a mais a falar. A peça Henrique VIII, fala do pai da rainha Elizabeth I, o qual é conhecido por suas traições conjugais, seus seis casamentos, a execução de duas das esposas, e o rompimento com a Igreja Católica e a fundação da Igreja Anglicana.


"Seu ciclo de peças sobre os grandes soberanos ingleses, por exemplo, podem não se prestar a ensinar História - afinal, são amplamente ficcionais -, mas se revelam verdadeiras aulas sobre bravura e inveja, sabedoria e perfídia, lealdade e corrupção. Shakespeare leva o leitor ao âmago da psique". (WOOD, 2009, p. 45).

Mas, Shakespeare não se deteve apenas em explorar as conturbadas vidas dos monarcas ingleses, ele também fora mais além no passado, ao reviver a história dos últimos dias de Júlio César (100-44 a.C) e o intrigante romance do general romano Marco Antônio com a rainha do Egito, Cleópatra VII. E em outros momentos fora a imaginação quem falara mais alta, e num simbolismo profundo, Shakespeare criou as personagens de Hamlet, Macbeth, Rei Lear, etc. Nesse caso, ele voltou a explorar a vida da nobreza sob os pontos da tragédia, da interpretação do social, do psicológico, do sentimentos humanos que afloravam nestas personagens. Como exemplo, transcreverei aqui a famosa passagem da peça de Hamlet.

"Ser ou não ser - eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedras e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias -

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; Dormir;

Só isso. E com o sono - dizem - extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis uma consumação

Ardentemente desejável. Morrer - dormir -

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Os sonhos que hão de vir no sono da morte

Quando estivermos escapado o tumulto vital

Nos obrigam a hesitar: e é essa a reflexão

Que dá à desventura uma vida tão longa.

Pois quem suportaria os açoites e insultos do mundo,

A fronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,

A prepotência do mando, e o achincalhe

Que o mérito impaciente recebe dos inúteis,

Podendo, ele próprio, encontrar o seu repouso

Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,

Gemendo e suando numa vida servil,

Senão porque o terror de alguma coisa após a morte -

O país não descoberto, de cujo os confins

Jamais voltou nenhum viajante - nos confunde a vontade,

Nos faz preferir e suportar os males que já temos,

A fugirmos para outros que desconhecemos?

E assim a reflexão faz todos nós covardes.

E assim o matiz natural da decisão

Se transforma no doentio pálido do pensamento.

E empreitadas de vigor e coragem,

Refletidas de mais, saem de seu caminho,

Perdem o nome de ação. (Vê Ofélia rezando).

Mas, devagar agora!

A bela Ofélia!

(Para Ofélia.) Ninfa, em tuas orações

Sejam lembrados todos os meus pecados.

Controvérsias sobre a autoria

Outro mistério que cerca a vida do ilustre Bardo, diz respeito a acusações de que algumas das peças que ele escreveu, na realidade não foram de sua autoria, mas sim feitas por outros autores, como o Lord de Oxford da época, e o renomado político, advogado e filósofo natural Francis Bacon (1561-1626). Bacon também foi, alquimista, historiador e escritor, e possivelmente poeta.

"Uma das teorias mais persistentes é a de que Francis Bacon seria o 'verdadeiro' Shakespeare. Surgido no início do século 19 (ou seja, dois séculos após as mortes do filósofo e do bardo), o mito defende que as aspirações políticas e científicas de Bacon o teriam motivado a dissociar seu nome do teatro e da poesia, ofícios então considerados 'menores'. Entre as evidências apontadas pelos defensores da teoria está uma carta que Bacon escreveu a seu colega John Davis, em 1603, e na qual se autoproclama um 'poeta em segredo'. Haveria, ainda, nos versos de Shakespeare, inúmeras referências às obras de Bacon, bem como coincidência de termos utilizados por ambos". (SERJEANTSON, 2009, p. 74).

Boatos e especulações a parte, nenhuma destas teorias foram comprovadas, e Shakespeare ainda mantêm sua integridade como célebre autor.

Um poeta moderno

William Shakespeare nasceu em uma época que se formou após vários conflitos que acometiam o país, conflitos armados na Guerra das Rosas, conflitos religiosos, já que num período de vinte anos, a Inglaterra oscilou entre o catolicismo e o protestantismo, isso levou a revoltas e conflitos, tal problema se encerrou com a ascensão de Elizabeth I em 1558 ao trono, a qual definitivamente impôs o protestantismo como religião oficial do reino. Não obstante, após a morte do Bardo, a colonização inglesa cresceria pela América do Norte, e a Inglaterra nos dois séculos seguintes se tornaria o mais poderoso e próspero império ultramarino de seu tempo. Shakespeare nasceu no limiar destas transformações, quando o pensamento deixou as ditas "trevas" da Idade Média (algo que a historiografia inglesa, gosta-se de evidenciar) para a renovação da Idade Moderna. Lembremos que nessa época na Itália ocorria o Renascimento.

Assim, Shakespeare nasceu num momento de mudanças econômicas, politicas, sociais, culturais e religiosas, isso acabou contribuindo para seu trabalho já que o escritor sofre influência de seu tempo, dessa forma, a literatura shakesperiana, é uma literatura realmente que pode ser considerada moderna por vários aspectos, dentre os quais pode se destacar a influência do humanismo, onde Shakespeare de forma categórica soube explorar as relações sociais e as paixões humanas em suas tragédias e comédias.

NOTA: Hamlet é a tragédia mais longa de Shakespeare, quanto Macbeth é a tragédia mais curta.
NOTA 2: Shakespeare não fora o primeiro a escrever sobre Romeu e Julieta, tal história existe desde muito tempo antes do poeta ter nascido. Uma das versões que ele teria conhecido fora escrita por Arthur Brooke, publicada em 1562, sob o titulo de a Trágica História de Romeu e Julieta.
NOTA 3: Na peça Júlio César, Shakespeare imortalizou a famosa frase "Até tu, Brutus?".
NOTA 4: Richard Burbage, fora ator e sócio de Shakespeare, interpretou muitas personagens trágicas de Shakespeare. Seu primeiro papel de destaque fora em Ricardo III.
NOTA 5: O filme Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love) de 1998, vencedor de 7 Oscars, retrata de forma ficcional, a época que Shakespeare estava escrevendo a peça de Romeu e Julieta

Referências Bibliográficas:
SHAKESPEARE, William. Hamlet. Tradução de Millôr Fernandes, Porto Alegre, LPM, 2010. p. 5-8, 66-67.
SHAKESPEARE, William. Júlio César. Tradução de Beatriz Viégas-Faria, Porto Alegre, L&PM, 2009. p. 5-9.
WOOD, Michael. Dossiê: Shakespeare. Tradução de Suzana Schindler, Revista História BBC, v. 12, p. 44-49, 2009.
SERJEANTSON, Richard. Um novo pensar. Tradução de Amanda Nero. Revista História BBC, v. 12, p. 74. 2009.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 22, São Paulo, Nova Cultural, 1998, p. 5355-5356.

Link relacionado:
Tragédia e Comédia

3 comentários:

Historiando disse...

Olá Leandro,

muito interessante o seu blog!
Se tiver um tempinho visite o nosso também sobre história.
Obrigada,
Ana, Ligia e Paula

Leandro Raliv disse...

Envie-me o link do blog de vocês.

RITA MACEDO disse...

BELO TRABALHO! PARABÉNS!!!