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Leandro Vilar

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Magalhães e Elcano: a primeira viagem ao redor do mundo

Em 1519, iniciou-se uma das mais ousadas viagens marítimas da História, uma empreitada que reuniu cinco navios e 235 homens com a missão de se dar a volta ao mundo, numa época na qual não se tinha certeza da extensão da circunferência do planeta, numa época onde alguns ainda questionavam se o mundo era redondo ou plano. Seria uma viagem arriscada, sem garantias de sucesso, pois a rota estava incompleta, se viajaria por mares desconhecidos, onde lendas falavam que eram habitados por monstros e povos bárbaros. Uma viagem que não se sabia quanto tempo duraria. Essa foi uma jornada de homens corajosos, determinados a arriscar suas vidas numa expedição que nunca tinha dado certo antes. Se hoje reclamos de atrasos de algumas horas nos aeroportos, ou da lentidão do trânsito nas estradas, imagine viajar de navio, numa jornada que durou mais de 1000 dias, mais de três anos? Neste texto procurei contar um pouco da história da primeira viagem de circum-navegação do globo.

INTRODUÇÃO

Fernão de Magalhães (c. 1480-1521):


Fernão de Magalhães
Fernão ou Fernando nasceu em data ainda desconhecida por volta do ano de 1480 na vila de Sabrosa, na região de Tras-os-Montes, em Portugal. Outros historiadores mencionam que ele teria nascido por volta de 1470 na cidade do Porto, dez anos antes do que se supunha. Os Magalhães pertenciam a pequena nobreza lusitana, possuindo títulos de fidalgo e cavaleiro. Era filho de Rui de Magalhães e Inês Vaz Moutinho. Fernão tivera três irmãos: Duarte, Diogo e Aires, e duas irmãs, Isabel e Genebra. Sobre sua infância pouco se sabe, já que normalmente os biógrafos e historiadores não se preocupavam em relatar a infância, mas sabe-se que ainda na infância em data desconhecida, Fernão se mudou para Lisboa, onde foi educado junto com outros membros da nobreza. Ele também atuou como pajem no Paço, e exercido alguma função menor na Corte. Na época que Fernão ia crescendo até se tornar adulto, Portugal que já havia iniciado a Era dos Descobrimentos desde 1415, já possuía colônias e feitorias na costa Ocidental da África. Em 1498, a expedição de Vasco da Gama chegou a Calicute na Índia, em 1500, Pedro Álvares Cabral foi tomar posse das terras americanas acertadas em acordo com a Espanha pelo Tratado de Tordesilhas (1494), tais terras viriam a se tornar o Brasil. Depois ele seguiu com sua frota para à Índia. De 1500 em diante, várias expedições passariam a ir para a Índia a fim de negociar produtos portugueses e comprar as especiarias para revendê-las em Portugal e outros países.

Em 19 de dezembro de 1504, nos conta Arana (1864) que nessa data Fernando deixou pronto seu testamento, pois devido aos inúmeros perigos que os marinheiros enfrentavam, era comum eles antes de seguirem viagem deixar seus testamentos prontos. Fernando nessa época não era casado e não possuía filhos, então designou sua parte da herança para a sua irmã Isabel, que na época era casada com João de Silva Telles, um nobre que servia na corte. Uma das exigências que Fernão deixara foi que sua irmã desse o sobrenome Magalhães para seus filhos, como forma de perpetuar a linhagem da família. No ano seguinte ele embarcou na grande esquadra de vinte e dois navios que levariam o vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida, contudo não foi dessa vez que Fernão chegou a Índia. 

No meio do caminho, alguns navios foram aportando em cidades africanas onde os portugueses possuíam negócios. No ano de 1506 já na costa oriental da África, o vice-rei designou Nuño Vaz Pereyra que comandasse alguns homens o que incluiu Magalhães, para missões em visita a Quiloa e Sofala. Em Quiloa, os portugueses conseguiram derrubar o rei, e empossaram um novo monarca que era seu aliado. Não possuímos detalhes sobre suas missões em África como soldado, mas no começo de 1508 ele estava de volta a Portugal. 


Rei Manuel I de Portugal
O rei D. Manuel I (1469-1521) entusiasmado e contente com a fortuna que conseguia com o comércio das especiarias recebeu informações de outras terras para o leste da Índia, como Malaca e vários outros arquipélagos (atualmente tais ilhas formam a Indonésia), onde tais locais eram ricos em especiarias como cravo, noz moscada, baunilha, canela, etc. Logo, o rei ficou bastante interessado em enviar uma expedição para essa terra, a fim de criar uma colônia. Para isso ele nomeou Diego Lopez de Sequeira para fundar uma colônia e assumir como governador desta. Seu objetivo era seguir até o Reino de Malaca (hoje na Malásia). A expedição de quatro navios partiu a 5 de abril de 1508 de Lisboa, e entre seus membros seguia Fernão de Magalhães. Durante a viagem para a Índia, a expedição parou em Madagascar onde fizeram novo reconhecimento da ilha, e depois voltaram a seguir viagem até o Ceilão (atual Sri Lanka), de lá eles partiriam para Malaca, mas ventos desfavoráveis os obrigou a aportarem em Cochim na Costa do Malabar na Índia. 

Em 19 de outubro de 1509, Sequeira decidiu retomar viagem, eles partiram para o leste, passando próximo a ilha de Sumatra e finalmente aportaram em Malaca, mas diferente do que se esperava os malaios não aceitaram de bom grado estabelecer negócios com os portugueses e eles os atacaram, chegando a incendiar um dos navios, o que obrigou Sequeira a decretar que fugissem. 

No retorno para Cochim, a frota encalhou nos baixios de Padua no arquipélago Laquedivas próximo a Índia. Os nobres decidiram pegar os botes e partir para Cochim a fim de pedir socorro para o restante da tripulação. Magalhães o qual poderia ter embarcado, relutou em ir, alegando que não abandonaria seus companheiros. Posteriormente o restante da tripulação foi salva, e Magalhães passou a prestar serviços menores em algumas cidades indianas que faziam parte da rota comercial portuguesa.

Em 1511, Magalhães participou da expedição militar que conquistou Malaca, a tornando território ultramarino português. Segundo Arana [1864] sua participação na batalha lhe rendeu honrarias e boa fama. Posteriormente, Magalhães participou de viagens as ilhas de Banda e as ilhas das Molucas (também chamado de Malucas e Ilhas das Especiarias), todas atualmente na Indonésia. 


“La conquista de Malaca, tuvo grande importancia política i militar en casi toda el Asia.^Los soberanos de los diveros reinos de la Indo-China i de las islas inmediatas, mandaron embajadores a felicitar a Alburquerque i a solicitar su alianza. Los portugueses se encontraron entonces en situación de emprender nuevos viajes de esploracion en los mares vecinos para reconocer los innumerables archipélagos que circundan la parte oriental de aquel continente. Desde Malaca, despachó Alburquerque tres naves bajo el mando de Antonio de A breu, distinguido capitán que llevaba encargo dé reconocer las islas de Banda i las Molucas, famosas en el comercio por sus valiosas producciones de nueces moscadas i clavos de olor”. (ARANA, 1864, p. 25). 


Mapa mostrando a rota que Magalhães, Antônio de Abreu e Francisco Serrão seguiram após a conquista de Malaca em 1511. 
Francisco Serrão ou Serrano (?-1521), homem competente e destemido, salvou a vida de Fernão durante a investida dos malaios em 1509, desde então os dois se tornaram grandes amigos. Após visitarem algumas das ilhas das Molucas, Serrão seguiu para o norte, chegando a Ternate onde fizera contato com os nativos. Seu objetivo era ganhar o apoio dos mesmos, para se construir um forte e se fosse possível, fundar uma colônia. Já Magalhães e Abreu estes retornaram para Malaca, com os navios carregados de especiarias. Em 1511, Magalhães de volta a Índia tomou um dos navios que retornou para Portugal, estando de volta em casa no ano seguinte. 

De retorno a Lisboa, Magalhães foi elogiado pelo rei D. Manuel I pelos seus feitos, recebendo uma pensão e o título de fidalgo-escudeiro. Contudo, isso era pouco para Magalhães. De fato o título que ele recebera era baixo. No ano seguinte, ele se alistou para seguir no exército que iria combater na Barbaria (Marrocos), onde Portugal possuía o controle de algumas cidades como Ceuta. Por essa época, os conflitos entre os mouros e os portugueses haviam se agravado, e segundo Arana [1864] o rei português enviou pelo menos 19 mil soldados para a Barbaria, os quais estavam sob o comando de D. Jaime de Bragança (1479-1532), seu sobrinho. 

Magalhães serviu na Barbaria entre 1513 e 1514, tendo sido em uma das batalhas, ferido em uma das pernas, o qual lhe deixou sequelas pelo resto da vida, o deixando coxo. Chegou a participar das defesas das cidades de Fez e Mequinez. Contudo, Magalhães se usou de seu posto e realizou botins e negócios extra-oficiais, algo que lhe pendeu contra posteriormente. 

Ainda em 1514 ele retornou a Lisboa, onde procurou o rei, solicitando novas mercês (recompensas que o monarca oferecia em forma de títulos nobiliárquicos, cargos, provimentos, terras, pensões, etc.), todavia, D. Manuel ficou sabendo dos negócios extra-oficias de Fernão e lhe criticou por abuso de cargo e por não possuir direito em realizar botins, divisão destes e até mesmo negociar cativos de guerra em troca de recompensas. Além do rei se negar a dá qualquer recompensa para ele, Fernão também se irritou em saber que outros homens que fizeram menos do que ele na guerra, receberam mercês. 

Magalhães decidiu deixar por hora a vida de navegador e militar e se dedicou a estudar cartografia e geografia e a escrever um livro de memórias. O título do livro era: Descrição dos reinos, costas, portos e ilhas que há no mar da Índia Oriental desde o cabo de Boa Esperança até a China: dos usos e costumes ‘de seus naturais’: seu governo, religião, comércio e navegação, e dos frutos e efeitos que produzem aquelas vastas regiões, com outras notícias mui curiosas: composto por Fernando de Magalhães, piloto português que viu e andou tudo. Obra hoje rara de se encontrar.

Nestes anos de estudo, Magalhães conheceu o cosmógrafo, cartografo e astrônomo Rui Falero ou Faleiro, o qual se tornou um grande amigo seu e passou a cooperar em suas pesquisas e estudos. Além disso, Fernão mantivera correspondência com seu amigo Serrão o qual passou a viver em Ternate, tendo se tornado genro do sultão (muitas ilhas da Indonésia já haviam por aquele tempo tido contato com os árabes, e estes converteram muita gente ao islamismo). 

Suas cartas foram importantes para complementar relatos no livro de Magalhães, e também ajudaram em suas pesquisas geográficas. Fernão e Rui tinham planos de propor novas empreitadas comerciais para o Estado, contudo, ainda ressentido em desafeto com o rei, Magalhães, Rui e um irmão seu, chamado Francisco que decidiu participar dos planos dos dois, decidiram ir para a Espanha, procurar a atenção do monarca espanhol. Antes de deixar Portugal, Magalhães declarou que renunciava sua naturalidade portuguesa, pois os nobres estavam proibidos de servirem a outro rei sem autorização de seu monarca. Se desligando do Estado português, Magalhães poderia oferecer seu trabalho para outros reis. 

Magalhães chegou à Sevilha em 20 de outubro de 1517, os Faleiro viriam mais tarde. Passando a habitar a cidade, Fernão conheceu Diego Barbosa, um português de origem nobre que havia se exilado em Sevilha, por se desentender com o governo português, mas acabou ganhando a confiança do rei espanhol, o que lhe rendeu títulos, cargos e fortuna. Uma das filhas de Diego Barbosa, chamada Beatriz se casou com Fernão ainda naquele ano, no mês de novembro. O casal teve dois filhos, Rodrigo e Carlos, mas ambos morreram prematuramente. 

Todavia, antes do nascimento de seus filhos, Magalhães e os irmãos Falero procuraram apresentar suas propostas marítimas para a Casa de Contratación, com sede em Sevilha, órgão responsável pelos negócios marítimos. A proposta era interessante, mas ousada. Magalhães propunha uma rota alternativa para se alcançar as Ilhas das Especiarias (Ilhas Molucas), já que tanto Portugal quanto Espanha estavam bastante interessados e envolvidos no lucrativo negócio das especiarias, porém, os portugueses controlavam o comércio marítimo em alguns locais das Índias, além de praticamente monopolizarem as rotas marítimas para as Índias. Magalhães propunha que ao invés de se seguir por uma rota oriental que se contorna-se a África, ele sugeriu que se segui-se em direção as Américas, e se contorna-se a América do Sul

Nesse ponto, sua ideia era parecida com a de Cristóvão Colombo (1451-1506): se encontrar um caminho para as Índias, seguindo-se pelo Ocidente. Todavia, já se sabia que as Américas eram outro continente, embora não se soubesse ainda suas reais dimensões, mas Magalhães acreditava que era possível contornar a América do Sul e chegar e um oceano desconhecido (na realidade, ele já havia chegado ao Oceano Pacífico quando visitou as Molucas, contudo, naquela época não se considerava que aquelas águas fossem outro oceano, mas uma continuidade do Oceano Índico. Além dessa rota, ele também alegava que as Molucas pertenceriam a Espanha, pois sua localização condizia com os limites propostos no Tratado de Tordesilhas (1494), sendo assim, era de direito do rei de Espanha aquelas terras. 

Entretanto, os funcionários da Casa de Contratación não aceitaram a proposta de Magalhães. Possivelmente desconfiaram de sua ideia ousada, ou não tinham confiança em um fidalgo português que aparentemente estava traindo seu país, tentando vender rotas e mapas para os espanhóis. No entanto, posteriormente, um dos funcionários da Casa de Contratación, um cavaleiro de Burgos, chamado Juan de Aranda, se interessou pela proposta de Fernão. 

Juan escreveu uma carta dirigida ao príncipe herdeiro da coroa espanhola, Carlos de Áustria (1500-1558), que se tornou o rei Carlos I. Todavia, a carta não tivera resposta. Em 1518, Aranda propôs ir pessoalmente a Corte, a qual na ocasião se encontrava em Valladollid. Juan de Aranda, Fernão e Rui partiram em 20 de janeiro de 1518, durante a viagem, Aranda tomou rota diferente, enquanto Fernão e Rui seguiam junto da comitiva da duquesa Beatriz de Pacheco, a qual também se dirigia para a Corte. Na estrada, Magalhães recebeu uma carta de Aranda, o qual dizia que tivera uma resposta do rei, e este estava interessado em ouvir a proposta deles.

Juan Sebastián Elcano (1476-1526):
Juan Sebástian Elcano

Elcano ou Del Cano nasceu em Getaria, na província espanhola de Guípuscoa, sendo filho de Domingo Sebastián Elcano e de Catalina del Puerto. Sendo um dos três filhos do casal. Diferente de Magalhães, Elcano não pertencia a nobreza. Devido a proximidade com o mar e o movimentando mercado pesqueiro na região, Elcano ainda na adolescência se iniciou nos ofícios do mar, pois sabe-se que posteriormente já atuava como marinheiro em navios mercantis que seguiam para o Norte da África e pelo Mediterrâneo. Não se sabe muito de sua vida, mas em 1509 serviu na campanha militar organizada pelo cardeal Francisco Jiménez de Cisneros contra os mouros da cidade de Argel. Viajou algumas vezes a trabalho para a Itália, mudou-se para Sevilha onde estudou na Casa de Contratácion, e posteriormente se tornou funcionário na empresa. Em 1519 ele decidiu participar da expedição de Magalhães.


A EXPEDIÇÃO

Longos preparativos (1518-1519)

Em 23 de janeiro os três chegaram a Valladollid para se reunirem com o rei, mas antes que isso viesse a acontecer, Aranda, Magalhães e Falero entraram em discussão sobre de que forma seria dividido os lucro que eles adquirissem na viagem. Aranda sugeriu que se fizesse um documento garantindo a oitava parte ao rei, e solicitando que o mesmo financia-se toda a expedição, cobrindo todos os gastos, além disso, era proposto ao monarca que as terras descobertas seriam reivindicadas para a Coroa espanhola. 


Rei Carlos I da Espanha
Contudo, a reunião da Corte hispânica em Valladollid era para se confirmar a posse de Carlos I ao trono, pois na época ele só possuía 17 anos, falava pouco espanhol, pois nasceu em Flandres, e grande parte da sua comitiva era de flamengos (habitantes de Flandres, hoje região que compreende o norte da Bélgica). Carlos I também era chamado de Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico, daí em alguns livros chamá-lo de Carlos V e não Carlos I. Era necessário que as cortes espanholas confirmassem o novo rei. Todavia, a situação foi resolvida no momento, antes do rei voltar a seguir viagem para outras províncias indo buscar a lealdades de seus vassalos. Nesse primeiro momento surgiu novos desafios. O jovem rei estava entusiasmado em apoiar a expedição de Magalhães, contudo seus conselheiros e demais membros da Corte não viam com os mesmos olhos, chegando a dizer ao rei que era inviável patrocinar tal expedição. O bispo de Burgos, Juan Rodriguez de Fonseca era membro do Conselho das Índias e na ausência do chanceler, assumia como presidente do conselho. O bispo bastante interessado e envolvido nos negócios de Estado, decidiu antes de levar a palavra ao rei, averiguar por conta própria o projeto de Magalhães, e para isso ele fez que Fernão e Rui apresentassem seu projeto a cada ministro do reino, além disso, foi sugerido a elaboração de dois projetos: um no qual o monarca bancaria a viagem, e no outro parte da expedição seria custeada por recursos privados. 

Nessas semanas que se seguiram, Magalhães e Falero discutiram e debateram suas ideias para diante de diversas autoridades, recebendo boas e más impressões. Algumas das questões levantadas era se as terras que seriam descobertas se encontravam nos limites traçados pelo papa Alexandre VI o qual em 1494 reconheceu a autenticidade do Tratado de Tordesilhas, pois caso ao contrário, isso geraria problema com Portugal. 

Falero o qual usava um globo e outros mapas nas apresentações, mostrava com garantia que tais terras se encontravam nos limites espanhóis. Outra questão bastante questionada foi acerca do suposto estreito que Magalhães alegava existir ao sul da América do Sul. Baseado no mapa do cosmógrafo alemão Martin da Boêmia (1459-1507), Magalhães apontava que para o sul do Rio da Prata haveria uma passagem que os levaria até o outro lado do continente, até o oceano desconhecido (o oceano Pacífico), servindo aquela passagem como um atalho. 

Após dias de debates, o bispo de Burgos, começou a demonstrar confiança na proposta de Magalhães e Falero. Nessa época, um rico comerciante chamado Cristóbal de Haro o qual possuía negócios com Portugal, estava na época desentendido com o Estado português, e quando soube do projeto de Magalhães demonstrou interesse e se ofereceu em investir na expedição (ele custeou quase um quarto de todo o projeto). 

Com esse capital privado, Fernão e Rui cogitaram apresentar a proposta de que bancariam a viagem, mas em troca o rei Carlos I lhe concederia títulos nobiliárquicos, postos de almirante, assim como direito a algumas das terras descobertas, onde eles seriam nomeados legalmente senhores e governadores daquelas possessões ultramarinas, como também deteriam a vigésima parte de tudo que fosse produzido, pois o restante seria dado a Coroa, e também pelo período de dez anos, nenhum outro navegador ou comerciante poderiam comercializar em suas terras, apenas eles seriam os responsáveis ou quem lhe fosse designado. 

Após entrarem em consenso acerca das mercês que receberiam em caso de sucesso da viagem, o rei concordou em bancar a maior parte dos custos da expedição, pois houve investimento privado também. Então se iniciou os preparativos que duraram mais de um ano devido as viagens para se falar com os ministros, como também o preparo dos mapas, a escolha dos navios, a procura da tripulação, os altos gastos e outros problemas. Em 20 de março de 1518, o rei Carlos I concedia a Magalhães e Falero os postos de capitães da expedição, e tudo o que eles haviam proposto como pagamento. 

Nessa mesma data também se firmava a oficialização da expedição. O rei liberou 50 mil maravedis naquele momento. O irmão do rei, D. Fernando ofereceu 30 mil maravedis para o caixa da expedição de forma a agilizar os preparativos. Ao mesmo tempo que o dinheiro ia entrando no caixa, a Casa de Contratácion começou a procurar pelos pilotos, mestres e contramestres mais experientes para os contratar para expedição de volta ao mundo. 

Enquanto os preparativos caminhavam, novos problemas surgiram. O rei D. Manuel I ficou sabendo da viagem e que Fernão de Magalhães era o principal responsável por tal iniciativa. Temendo que a empreitada viesse a lograr êxito e isso pudesse ameaçar o domínio comercial português nas Índias o rei tentou procurar alguma forma de impedir a partida. De fato, se tomarmos o caso de Cristóvão Colombo, esse viveu vários anos em Portugal, chegando a se casar com uma portuguesa e ter filhos no país. 

No entanto, D. João II na época lhe negou apoio a sua expedição, mas Colombo conseguiu apoio do rei Fernando I da Espanha e obteve êxito em sua viagem, embora houvesse dúvida se aquelas terras seriam a Ásia ou um outro continente, mas de qualquer forma, a reação dos portugueses foi propor o Tratado de Tordesilhas dois anos depois da descoberta de Colombo, no intuito de não saírem perdendo pela descoberta do navegador genovês. 

O embaixador português, Alvaro de Costa se encontrava na Espanha na tentativa de negociar o casamento de Dona Leonor com o rei Manuel, além disso, ele foi notificado para pressionar o governo hispânico em desistir da viagem de circum-navegação, cancelando o contrato com Magalhães e Falero. Mesmo sob seus protestos o rei Carlos I manteve sua convicção e o projeto continuou a prosseguir. O bispo de Lamego, D. Fernando de Vasconcelos foi enviado na tentativa de oferecer mercês a Magalhães para este desistir da viagem. Segundo Aranda apud Faria e Sousa, houve a hipótese de até mesmo se assassinar Fernão em caso dele recusasse as mercês. 

Magalhães não foi assassinado, no entanto, os oficias da Casa de Contratácion como fala Aranda [1864], não gostaram de saber que o rei Carlos I havia aceito casar sua irmã Leonor com o rei português. Aranda não detalha o porque dessa reação, mas sabe-se que havia muita competitividade entre os dois países. Logo, os oficiais começaram a encontrar desculpas e motivos para retardar a organização da expedição. 

Chegaram a alegar falta de dinheiro, algo que irritou o jovem rei. Na tentativa de contornar esse problema, o soberano nomeou Magalhães e Falero com as cruzes de comendador da Ordem de Santiago, nomeando Magalhães que fosse a Sevilha (o mesmo se encontrava em Zaragoza), para supervisionar diretamente o trabalho na Casa de Contratácion em relação a sua viagem. Magalhães chegou em agosto de 1518 em Sevilha e pouco tempo depois, os problemas foram resolvidos. Não obstante, o embaixador português Alvaro de Costa ainda tentava persuadir o monarca espanhol a desistir da viagem. 

Em 1519 o bispo de Burgos escrevera entre o final de março e começo de maio várias cartas solicitando do rei que marcasse o dia da partida, que enviasse o quanto antes a expedição. Além disso, ele também sugeriu contratar menos homens para agilizar o processo, pois era comum os tripulantes receberem o salário adiantado, e dependendo do cargo que eles exerceriam poderiam receber vários meses de salário adiantado e isso significava mais custos iniciais para a expedição. 

O bispo Fonseca também conseguira o patrocínio de vários comerciantes e empresários, algo que colaborou muito no custeio da expedição. O bispo também foi o responsável por nomear como novo tesoureiro da expedição, Luís de Mendonza o qual acabou tendo desentendimentos com Magalhães durante a viagem, já que ele se tornou um dos capitães de uma das naus.

Em 8 de maio de 1519, Magalhães e Falero receberam do rei o manual de instruções contendo 74 artigos nos quais deliberavam os parâmetros que deveriam ser seguidos e respeitados na expedição. O manual deliberava sobre questões técnicas envolvendo o peso limite de carga para cada navio, a quantidade de água, comida, pólvora, etc., que seria levado em cada embarcação; regras de comportamento para o capitão e sua tripulação, regras de comportamento com os povos estrangeiros e com os reis bárbaros; recomendações comerciais, em caso de se comprar mercadorias ou se vender as mercadorias que estavam sendo levadas abordo, etc. A respeito desse manual, merece destaque o artigo 1 no qual recomendava-se evitar invadir o território português, e em caso de se aportar nas terras do rei de Portugal, manter a boa conduta e não causar transtornos. 

Em julho, alguns dos investidores particulares da expedição como Cristóvão de Haro e Juan de Cartajena, se dirigiram a Casa de Contratación discordando de algumas medidas da carta dada ao capitão Magalhães. O próprio se reuniu com os dois investidores para debater suas propostas e discordâncias. Além desse aborrecimento com os investidores, Fernão tivera que ouvir de Sebastião Alvarez, um agente enviado pelo rei Manuel para persuadi-lo de desistir da viagem. Novamente ele se negou as promessas apresentadas por Alvarez em nome do rei de Portugal. Posteriormente Alvarez foi procurar Falero na tentativa de convencê-lo a retornar a servir o rei português, mas Falero foi convicto em não abandonar o seu projeto e o serviço que agora prestava ao rei de Espanha. Data de 18 de julho de 1519 uma carta de Sebastião Alvarez relatando ao rei a resposta dada por Falero. 

No final de julho estava praticamente tudo pronto para a viagem partir. Cinco navios, os quais se chamavam Trinidad, San Antonio, Concepción, Victoria e Santiago já estavam totalmente equipados inclusive com os canhões, além do estoque dos suprimentos já estava pronto e organizado, aguardando apenas ser embarcado. Naquele momento a tripulação era formada por 265 homens. De acordo com Aranda [1864] em suas pesquisas a documentos da Casa de Contratación, até julho de 1519 o custo da expedição passava dos 8 milhões de maravedis, um valor bastante alto para época.

Magalhães pretendia nomear Francisco Malero para ser um de seus capitães, mas o mesmo o qual não se entendia bem com ele, recusou a oferta e preferiu permanecer em Sevilha onde pretendia organizar uma outra expedição para seguir logo após a partida da frota de Magalhães, mas dessa vez seguiria pela rota portuguesa. No final de julho realizou-se a cerimônia na qual o brasão de armas do rei era entregue ao comandante da expedição, neste caso Fernão de Magalhães. 

Contudo, Fernando tivera novo desentendimento com Rui, pois esse queria ser o responsável de receber o brasão durante a cerimônia celebrada na Igreja Santa Maria de la Victoria, inaugurada recentemente. Na cerimônia além de receber o brasão, o comandante era obrigado a fazer diante de várias testemunhas seus votos de lealdade ao monarca. O próprio Fernando também cobrou isso de seus capitães e da sua tripulação. 

Em 10 de agosto, sob o som de tiros de canhões, os cinco navios deixaram Sevilha pelo rio Guadalquivir e navegaram até o porto de San Lucár de Barrameda, onde aguardariam até o dia da partida. Nesse período nem todos os membros da tripulação se encontravam em Barrameda, por exemplo, Magalhães permaneceu mais alguns dias em Sevilha preparando seu testamento. Entre as recomendações que ele deixou em seu testamento estava a doação da décima parte dos rendimentos da expedição para quatro conventos em Sevilha, Aranda, Duero, Barcelona e Oporto. 

O restante de sua herança seria deixada para seu filho Rodrigo Magalhães que na época possuía apenas seis meses de vida, e para o seu outro filho (Carlos) que ainda não nascera, pois Beatriz estava grávida de alguns meses naquela época; e pelo fato de ambos serem menor de idade, Fernão nomeava seu sogro Diogo de Barbosa como tutor de seus filhos, e o doutor Sancho de Matienzo o qual era cônego de Sevilha e funcionário da Casa de Contratación, administrar parte dos bens envolvidos na expedição até que seu filho Rodrigo tivesse idade para administrá-los por conta própria, isso significava que as terras, fortuna e títulos que Magalhães negociara com o rei, passariam para o seu filho Rodrigo e o outro que estava por nascer. 


Localização de Sanlúcar de Barrameda na Espanha, de onde em 20 de setembro de 1519, partiu a expedição de Fernão de Magalhães para dar a volta ao mundo. 
Terminado a redação do testamento, e algumas questões burocráticas, além de ter escrito um memorial para o rei, Magalhães e outros dos capitães pegaram barcos e seguiram até San Lucár de Barrameda. Embora os navios tenham chegado a 10 de agosto, a frota só partiu mais de um mês depois. Nesse tempo, Fernão cobrou que todos os tripulantes fossem a missa todos os dias na Igreja de Nossa Senhora de Barrameda, e se confessassem com regularidade. Além disso, o capitão proibiu qualquer mulher abordo, sob pena de demissão. 

Os navios e a tripulação:

Antes de iniciar o relato sobre a viagem, falarei um pouco mais sobre os navios e alguns membros da tripulação. Todavia, existem livros que tratam em detalhes o relato da expedição, logo, optei em fazer um resumo, pois seria inviável abordar tudo nesta postagem, contudo, recomendo que quem tiver interesse, consulte a bibliografia utilizada, pois alguns dos livros se encontram na Internet para download gratuito, no entanto, é necessário saber ler espanhol do século XVI ao XIX, época que foram escritos estes livros, ou se preferirem, procure por versões atualizadas em em outras línguas. 

Especificações dos navios:

Trinidad:
Capacidade de carga: 110 toneladas
Preço da embarcação: 275.000 maravedis
Capitão: Fernão de Magalhães
Número de tripulantes: 62

San Antonio: 
Capacidade de carga: 120 toneladas
Preço da embarcação: 330.000 maravedis
Capitão: Juan de Cartajena
Número de tripulantes: 57

Concepción:
Capacidade de carga: 90 toneladas
Preço da embarcação: 228.750 maravedis
Capitão: Gaspar de Quesada
Número de tripulantes: 41

Victoria:
Capacidade de carga: 85 toneladas
Preço da embarcação: 300.000 maravedis
Capitão: Luís de Mendonza
Número de tripulantes: 42

Santiago:
Capacidade de carga: 75 toneladas
Preço da embarcação: 187.500 maravedis
Capitão: Juan Serrano
Número de tripulantes: 33

Embora esses números pareçam caros, tais navios eram de médio porte. Havia navios mercantis com maior capacidade de carga. Não obstante, se em julho haviam 265 tripulantes, no dia da partida apenas 235 seguiram viagem, pois o restante foi dispensado para se poupar mais gastos. Todavia, existem autores que apontam que não teriam sido 235 tripulantes, mas 230, 234 ou 237. Em alguns livros pode-se encontrar essa variação. Medina [1920] nos dá o nome e o soldo de 230 tripulantes e não encontrou o nome dos outros cinco. Além dessa variação acerca de quantos tripulantes haveria, isso também interfere no número de tripulantes que partiu em cada navio, podendo-se encontrar variações. 


Antonio Pigafetta
Entre alguns dos tripulantes que seguiam no navio Trinidad, capitaneado pelo próprio Magalhães, estava um malaio que foi batizado com o nome de Enrique o qual atuaria como intérprete, mas além disso, ele tinha a função de criado pessoal do capitão. Seguia também Duarte Barbosa, cunhado de Magalhães, e Alvares de Mezquita primo ou sobrinho de Magalhães. Embarcava também na Trinidad, um marinheiro, geógrafo e escritor italiano Antonio Pigafetta (1491-1534), mais conhecido pelos espanhóis como Antonio Lombardo. Pigafetta na ocasião ficou sabendo da viagem de Magalhães e se apresentou a Casa de Contratación para participar desta, contudo, avisaram que o recrutamento havia terminado, mas interessado de participar dessa grande viagem que ele imaginava que seria, ele pagou do próprio bolso sua passagem. Pigafetta se tornou conhecido na história dessa viagem por ser um dos sobreviventes que retornou em 1522, mas por ter escrito um diário que narra em primeira mão vários acontecimentos da longa expedição. 

"Pigafetta merece elogios, sobretudo pelo cuidado que teve em anotar dia por dia tudo o que via, tudo o que ouvia dizer e tudo quanto lhe sucedia a ele, a seus companheiros de viagem e à esquadra". (AMORETTI, 1985, P. 25). 

No caso de Juan Sebástian Elcano, este ingressou no cargo de mestre no navio Concepción. Posteriormente ao longo da viagem ele se tornaria capitão de um dos navios. Elcano teria entrado na expedição para ganhar dinheiro para pagar algumas dívidas, além de tentar recuperar seu nome com a Casa de Contratácion, já que estava sendo acusado de ter dado ilegalmente a carga de um navio espanhol para alguns italianos. 

Sobre os salários mensais, Medina [1920], nos informa o seguinte:
  • Fernão de Magalhães - 8.000 maravedis.
  • Mestre - 3.000  maravedis.
  • Contramestre - 2.000  maravedis.
  • Carpinteiro e calafate - 1.875  maravedis.
  • Lombardeiro (encarregados de manusear os canhões "lombardas") - 1.875  maravedis
  • Toneleiro (fabricante de barris e tonéis) - 1.500  maravedis.
  • Marinheiro - 1.200 maravedis.
  • Despenseiro (responsável pelos serviços de alimentação e pelos alojamentos) - 1.200 maravedis. 
  • Grumete (atuava em serviços simples como na limpeza e auxiliavam os marinheiros. As vezes era um aprendiz) - 800 maravedis.
  • Pajem (serviçal)  500 maravedis.
  • Outros (pessoas que exerciam outras funções como escrivão, cirurgião, barbeiro, capelão, etc.) - de 500 a 1.500 maravedis.
No caso dos demais capitães e pilotos, Medina [1920] fala que os salários variavam de 10.000 a 30.000 maravedis por ano. Além disso, alguns dos postos chegaram a receber cinco meses de adiantamento, como foi o caso do piloto Juan Sebástian Elcano. 

Merino [1899] nos aponta o número de tripulantes por nacionalidade:
  • 157 espanhóis
  • 24 portugueses
  • 22 italianos
  • 21 franceses
  • 5 flamengos
  • 3 gregos
  • 2 alemãs
  • 1 inglês
  • 2 africanos (nacionalidade não definida)
  • 1 malaio
  • 27 naturalidade desconhecida
O malaio chamava-se Enrique e teria nascido em Sumatra, ele era escravo de Magalhães e atuou também como intérprete. Os dois africanos que se desconhece de que países vieram, chamavam-se Antón e Juan. O inglês chamava-se Andres, e era natural de Bristol. Os dois alemãs chamavam-se Hans Vergue e Jorje Alemán (nota-se que traduziram o nome dele e o apelidaram). 

Para maiores informações sobre a expedição em respeito ao número de tripulantes, seus nomes, seus soldos e funções; as cartas de contratação dos pilotos reais; a relação da carga de cada um dos navios, etc., consulte o livro Hernado de Magallanes y sus Compañeros de José Toríbio Medina, 1920. 

De Barrameda ao Rio de Janeiro (1519):

Em 20 de setembro de 1519, os cinco navios levantaram âncora e içaram as velas, deixando o porto de San Lúcar de Barrameda. Quatro dias depois eles chegaram ao arquipélago das Canárias no noroeste da África. O arquipélago pertencia a Espanha. Onde aportaram na ilha de Tenerife. Nestes primeiros dias, tudo transcorreu bem, pois Fernão já era um navegador experiente e bastante disciplinado. Entre suas regras estava a condição que sua nau a Trinidad sempre iria a frente da frota; durante a noite os navios acendiam tochas chamadas de faróis, para marcar sua localização, e sinalizar mudanças de rumo, e mudanças nas velas. Durante à noite a tripulação se revezava em três turnos: o primeiro ao anoitecer, o segundo a meia-noite chamado medora e o terceiro de madrugada. Os turnos eram controlados inicialmente pelo capitão, o segundo pelo piloto e o terceiro pelo contramestre. 


Localização da ilha de Tenerife no arquipélago das Canárias. 
Ao chegarem em Tenerife eles se detiveram por três dias, e aproveitaram para se abastecer com carne, água e lenha. Lembrando que para se condicionar a carne a salgava-se, tal fato concedia alguns poucos dias para manter a carne própria para o consumo. Em 29 de setembro eles seguiram para o porto da Montanha Vermelha, onde permaneceram mais três dias aguardando a chegada de um navio que lhes trazia peixe para a viagem. Em 2 de outubro  de noite, eles voltaram a seguir viagem. 

No dia 3, Magalhães ordenou uma mudança na rota, mas não comunicou os demais capitães e pilotos, e Juan de Cartajena, foi questionar o comandante porque dessa desfeita. Magalhães que era um pouco soberbo, não gostou de ser contrariado por seu capitão, e alegou que era apenas uma correção simples de rota. Magalhães e Cartajena voltariam a se desentender posteriormente, pois ambos eram geniosos, e se revelaram nada amigáveis. 

Pelos dias seguintes, a expedição passou pelo arquipélago de Cabo Verde o qual pertencia a Portugal, então navegaram ao longo da costa da Guiné chegando até Serra Leoa. Nessa região eles foram pegos por uma calmaria, e os ventos além de não serem fortes se tornaram contrário, retardando a viagem por vários dias. Posteriormente, eles foram atingidos por uma tempestade com forte chuva que lhes acompanhou por vários dias seguintes enquanto eles atravessavam o Atlântico em direção ao Brasil.

Durante essa parte da viagem, novamente Magalhães e Cartajena voltaram a se desentender. Dessa vez por questões simples, onde era hábito se realizar uma missa toda à tarde (nos navios seguiam padres-capelães), e ao anoitecer os capitães enviavam mensagens de saudações para os outros, porém, a vaidade de Magalhães falou mais alto e ele não gostou da mensagem que Cartajena lhe enviara, onde se referia ao nobre capitão e mestre. Magalhães alegou que fosse chamado de comandante-geral, e não capitão. 

Posteriormente ele convocou uma reunião para deliberar sobre isso, alegando que Cartajena estava agindo de forma insubordinada. Durante a reunião os dois discutiram, e Magalhães lhe deu voz de prisão. Cartajena só não foi punido, pois os demais capitães intercederam. Contudo, Juan de Cartajena foi mantido preso no navio Victoria e destituído da capitania da nau San Antonio, onde o contador Antonio de Coca assumira o posto.

Pigafetta [1985] nos conta que durante os dias calmos (ou seja, sem tempestades), as vezes podia-se ver tubarões e outros peixes nadando próximo aos navios, e os marinheiros aproveitavam para pescá-los, garantido carne para aquele dia. Em 29 de novembro eles avistaram o Cabo de Santo Agostinho no Brasil (atualmente no estado de Pernambuco). De lá seguiram para o sul sempre mantendo a costa brasileira a vista, que na época era chamada de Terra de Santa Cruz. Pigafetta fala que eles avistaram alguns indígenas e conseguiram comida com eles, o que incluiu abacaxis, carne de anta, batatas e cana de açúcar. 

O problema é que alguns historiadores questionam se já havia plantações de cana no Brasil antes de 1532, todavia, existia na Alfândega de Lisboa em 1525, um regulamento taxando a cana de açúcar produzida no Brasil, isso seria um indicativo que antes do início propriamente da colonização, alguns pequenos canaviais teriam sido plantados próximo as feitorias que já existiam na colônia.

Em 13 de dezembro a frota aportou na Baía do Rio de Janeiro (atual baía de Guanabara). Era dia de Santa Lúcia, e Pigafetta [1985] relata que fazia muito calor naquele dia. A frota permaneceu 13 dias no local, mantendo bons contatos com os indígenas. Nos relatos fala-se que a tripulação ficou intrigada como os nativos em troca de receberem alguns objetos como cartas de baralho, cintos, anzóis, facas, etc., lhe forneciam vários alimentos em trocas. 

Eles mencionam que com uma carta conseguiram seis galinhas, lembrando que tais aves não são originárias das Américas, e em algum momento os portugueses a trouxeram e as deixaram por lá. No diário de Pigafetta ele faz descrições sobre a aparência dos indígenas e relata alguns de seus costumes. No dia 27 de dezembro já passado os festejos natalinos, o comandante ordenou o retorno a viagem, seguindo dessa vez para o Rio da Prata. 


Entrada da baía de Guanabara. Foto de Rick Ipanema. Na imagem pode-se ver o Forte de Santa Cruz da Barra, o morro do Pão de Açúcar, a cidade do Rio de Janeiro e ao fundo entre as serras, ver-se o Corcovado com o Cristo Redentor. Em 1519, por treze dias a expedição de Magalhães descansou nessa região.
Do Rio da Prata ao Oceano Pacífico (1520): 

Em 10 de janeiro de 1520 a expedição avistou o Cabo de Santa Maria, na embocadura do Rio da Prata. Pigafetta relata a trágica descoberta do espanhol Juan de Solis (c. 1470-1516) o descobridor do rio da Prata que foi vítima dos canibais da região junto com outros membros da tripulação. Pigafetta menciona brevemente tal acontecimento. Entre os dias 12 e 14 de janeiro fortes temporais deixaram o mar revolto, o que ameaçou a expedição e retardou seu progresso. 


Localização da foz do rio da Prata. 
A viagem prosseguia e eles avistaram duas ilhas cheias de lobos-marinhos e pinguins (na ocasião por desconhecer tais aves, Pigafetta os nomeia como um tipo de pato ou ganso). O mal tempo ainda continuou a acompanhá-los até que em 31 de março, dia de São Julião, a frota aportou em uma baía, a qual Magalhães batizara com o nome do santo. Temendo maiores problemas com as tempestades e a chegada do inverno, ele ordenou parar a viagem até o inverno passar, o que resultou em meses de espera, algo que desagradou parte da tripulação. 

No dia seguinte, 1 de abril, na época, feriado de Domingo de Ramos, onde se celebra a chegada de Jesus Cristo a Jerusalém, Magalhães ordenou que uma missa fosse realizada, e cobrou que toda a tripulação comparece-se e depois fosse se confessar, porém Ortega [1767] falara que os capitães Luís de Mendonza e Gaspar Quesada não acataram a ordem do comandante, e não liberaram suas tripulações. 

De acordo com os relatos, tanto o comandante quanto os que compareceram acharam aquilo bastante estranho. Naquela noite, Luís de Mendonza tramou com Antonio Coca e Gaspar Quesada para iniciarem um motim. Quesada libertou Juan de Cartajena que estava desde então preso, então os quatro iniciaram um complô para destituir o capitão-geral. Gaspar e Juan formaram um grupo de trinta homens e tomaram de assalto o navio San Antonio e prenderam Alvaro de Mezquita, um dos capitães de confiança de Magalhães. 

O mestre da embarcação Juan Elorriaga na tentativa de libertar Mezquita, foi esfaqueado por Gaspar, acabou morrendo. Gaspar assumiu como capitão da San Antonio, e Juan tomou de assalto o Victoria, enquanto o Concepción já estava sob o comando de Mendonza, logo, os rebeldes possuíam o controle de três dos cinco navios. 

No dia seguinte, os capitães rebeldes enviaram um mensageiro para o navio Trinidad, avisando a Magalhães sobre o motim. Na mensagem dizia que Fernão seria destituído do comando geral, e um dos três seria eleito novo comandante, e seria dado a ordem de se retornar para a Espanha, pois eles três como outros membros da tripulação estavam desacreditados sobre a existência de uma passagem no sul do continente e se realmente haveria êxito na viagem. Foi cobrado que Magalhães comparece-se a nau San Antonio para se reunir com os capitães rebeldes, mas ele agiu de forma contrária. 

Enviou Gonzalo Gomes de Espinoza e mais seis homens entregarem uma carta para Luís de Mendonza. Enquanto os sete estavam abordo e o capitão lia a carta, Gonzalo apunhalou Mendonza o matando. Em seguida Duarte Barbosa, o cunhado de Magalhães chegou com quinze homens armados e renderam a tripulação do Victoria. No dia 3 de abril, Magalhães ordenou que os três navios se mantivessem na entrada da baía para evitar que Quesada e Cartajena tentassem fugir em seus navios.

Gaspar de Quesada acabou sendo preso na nau Concepción junto com alguns membros da tripulação que lhe deram apoio no motim. Conseguido mais um dos navios, Magalhães ordenou que os canhões e as armas fossem prontos para se fosse necessário atirar na nau San Antonio, no entanto, Juan de Cartajena acabou se rendendo, e assim o motim estava terminado, contudo, Fernão decidiu punir os traidores. Em 4 de abril o corpo de Luís de Mendoza foi levado para a terra e foi esquartejado. A 7 de abril, Gaspar de Quesada foi decapitado e seu corpo também foi esquartejado, pois era costume esquartejar-se os traidores. Cartajena e os demais traidores foram poupados de morte, mas foram mantidos presos. 

Durante o mês de maio, Pigafetta [1985] relatou que apareceu na praia um índio gigante, o qual dançava e cantava, e estava jogando areia para cima. Fernão ordenou que um dos marinheiros fosse fazer contato com o estranho indígena, mas embora fosse grande, este o recebeu de forma amigável. Pigafetta nos relata que o índio tinha uma voz forte como o mugido de um touro, possuía cabelos escassos, e o seu corte lembrava o corte de cabelo dos frades; estava seminu, mas trajava um manto feito de pele de guanaco. Carregava lança e arco e flecha, tinha o rosto pintado de vermelho.

Magalhães fascinado com aquele estranho ser o chamou de patagão (pata grande), e posteriormente batizou aquela terra de Patagônia (Terra dos patagões). A Patagônia hoje compreende uma vasta região geográfica que engloba a Argentina e o Chile, embora sua maior parte se encontre em território argentino.


Em laranja o território da Patagônia. Em 1520, Magalhães criou esse termo para se referir aos nativos chamados de patagões. 
Nos meses seguintes, outros patagões voltaram a aparecer, dessa vez trazendo suas esposas e filhos. Pigafetta conta que as mulheres eram mais baixas, mas eram mais gordas e de aparência feia. Os gigantes eram amigáveis e trocavam comida por bugigangas, especialmente as feitas de ferro, como atesta Pigafetta. 


Desenho retratando um europeu diante dos gigantes patagões. 
Acerca da altura desses índios, acredita-se que eles não eram gigantes, pois teria sido um exagero por parte de Pigafetta em seu relato, contudo, assinala-se que eles tivessem uma estatura mais elevada que dos europeus, os quais naquela época a estatura média de um homem era entre 1,60m e 1,65m. Se os índios tivessem de 1,90 a 2,00 como sugerira Pigafetta, por essa perspectiva, eles seriam "gigantes" aos olhos dos europeus daquele tempo. Todavia, os antropólogos sugerem que os tais patagões que eles avistaram fossem membros do povo Tehuelches, os quais possuem uma média de altura de 1,80m.


Foto do século XIX de alguns índios Tehuelches, os supostos gigantes patagões que foram descritos na expedição de Magalhães. 
Em seu diário, Pigafetta dedica várias páginas a falar sobre os patagões e conta que o comandante ficou interessado em levar alguns deles para a Espanha, tendo ordenado a captura de dois deles, mas estes morreram meses depois durante a viagem. 

Em maio, um novo problema assolou a expedição. Nesse tempo, Magalhães havia designado o capitão Juan Serrano da nau Santiago seguir viagem para o sul para encontrar algum sinal da localização do estreito. Em sua viagem, o capitão descobriu em 3 de maio um rio o qual o batizou de rio Santa Cruz. O navio permaneceu seis dias na localidade, caçando lobos marinhos. O navio seguiu viagem para o sul até que no dia 22 de maio uma tempestade os pegou, os jogando contra um arrecife, o que fizera a embarcação encalhar. A tripulação que na época constava de 38 membros conseguiu se salvar, menos um escravo do capitão, o qual acabou se afogando, mas grande parte dos equipamentos, munição e viveres foram perdidos de vido ao navio se encher de água. 

Por oito dias eles aguardaram na esperança que sentido falta deles, o comandante enviaria um dos navios para investigar o ocorrido, mas o socorro não veio. Nesse tempo tentou-se resgatar algo do navio encalhado. A tripulação decidiu seguir por terra até retornar a baía de São Julião. Eles conseguiram voltar ao rio de Santa Cruz, onde conseguiram comida através da pescaria. Lá fizeram um barco para atravessar dois homens que seguiriam na frente indo em direção a baía, os quais segundo Pigafetta chegaram tão magros e abatidos que os demais quase não os reconheceram. Serrano foi nomeado capitão do Concepción.

Já estando todos de volta, Magalhães decidiu evitar mais problemas e ordenou que todos os navios se mantivessem na baía. Antes de partirem, ele ordenou que um padrão (uma grande cruz de madeira) fosse colocada em uma montanha nas proximidades da baía, a qual batizaram de Monte Cristo. O padrão sinalizaria que aquelas terras já haviam sido descobertas e possuía dono, neste caso, o rei de Espanha. 

A 24 de agosto, Magalhães ordenou que uma missa fosse realizada e a tripulação aproveita-se para se confessar. Na ocasião ele decretou exílio para Juan de Cartajena e o clérigo Pedro Sanchez de Reina. Lhes foi dado comida, água e vinho, mas ambos foram abandonados por conta própria como punição por terem participado e tramado o motim. Em seguida os quatro navios voltaram a seguir viagem. 

Em setembro e outubro eles passaram por fortes tempestades, mas os navios conseguiram aguentar. Em 21 de outubro tendo passado do meridiano 52, foi avistado naquele dia um cabo, o qual Magalhães batizou de Cabo das Onze Mil Virgens ou Cabo das Virgens em referência ao feriado de Santa Úrsula e a lenda das Onze Mil Virgens que teriam a acompanhado. 

Contornando o cabo eles avistaram o que parecia ser uma baía ou o tal estreito que tanto procuravam. O Estreito de Magalhães possui quase 600 km de extensão e por muitos anos antes da inauguração do Canal do Panamá em 1914, o estreito era a principal rota de navios para se ir do Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico. Além do estreito há a alternativa de se contornar o continente, passando pelo Cabo Horn, o extremo sul da América do Sul, embora seja uma viagem mais difícil. Todavia, por mais que o estreito nos séculos XVIII ao início do XX se tornou bastante movimentando, sua navegação não era algo fácil devido ao frio, a hostilidade da região onde há pouca caça disponível e lenha, assim como as repentinas mudanças nos ventos, tudo isso tornava difícil a travessia deste estreito.


O Estreito de Magalhães e algumas localidades descobertas durante a travessia. 
"Este estreito, como pudemos constatar em seguida, tem quatrocentas e quarenta milhas de comprimento, ou seja, cento e dez léguas marinhas de quatro milhas cada uma. De largura tem cerca de meia légua... O estreito é rodeado de montanhas muito altas e cobertas de neve. É tão profundo que mesmo estando bastante próximo da terra, não se encontrava fundo para âncora, nas vinte e cinco ou trinta braças". (PIGAFETTA, 1985, p. 69). 

Diante da entrada da suposta baía, Fernão ordenou que os capitães das naus San Antonio e Concepción o adentra-se e fossem explorá-lo. Naquela noite uma tempestade os atingiu, e segundo o relato de Pigafetta, a borrasca durou mais de 36 horas o que obrigou o navios Trinidad e Victoria terem que adentrar no estreito para evitar que fossem arrastados para longe da costa. Os navio San Antonio e Concepción também foram atingidos pela tempestade e os ventos os impulsionou para o oeste. Cinco dias depois eles retornaram até a entrada do estreito, chegou a se cogitar se eles teriam se perdido ou naufragado. Durante esse tempo eles avistaram o cabo da Possessão, a baía Boucault, e o Primeiro e Segundo Canais

“Estando en esa incertidumbre, divisamos con rumbo á nosotros á la Concepción y á la San Antonio; venían á toda vela é izadas las banderas, y cuando estuvieron cerca dispararon sus bombardas; prorrumpieron sus tripulantes en grandes exclamaciones de alegría, à las que pronto se unieron las de los otros dos barcos; después de haber dado gracias á Dios y á la Virgen María, continuamos reunidos la exploración del paso". (PIGAFETTA, 1899, p. 19). 

Os navios da expedição de Magalhães cruzando o Estreito de Magalhães. 
Posteriormente com o retorno dos outros dois navios e convicto que se trava de um estreito como lhe foi relatado pelos capitães e mestres das naus San Antonio e Concepción, Fernando batizou aquele estreito com o nome de Estreito dos Patagões, e anos depois foi renomeado para Estreito de Magalhães. 

A expedição voltou a seguir viagem pelo estreito até que se deparando com dois canais que seguiam um para o sudeste e outro para sudoeste, Magalhães ordenou que os navios San Antonio e Concepción cada um seguisse por um destes canais para averiguar até onde eles iam, e se algum deles sairia no outro oceano. Antes de chegarem a tal local, uma reunião aconteceu dias antes abordo do Trinidad reunido os capitães e os pilotos, onde o comandante indagava sobre suas explorações. 

Todavia, Pigafetta [1985] conta que em 8 de novembro o piloto da nave San Antonio, de nome Estêvão Gomez o qual alguns dizem que era primo de Magalhães, possuía inveja dele, e tramou uma traição. Durante a missão de investigar os dois canais, na calada da noite, Estêvão tendo convencido outros membros da tripulação, capturaram e prenderam o capitão Alvaro de Mezquita, então Estêvão tomou o controle e decidiu abandonar a expedição e retornar para a Espanha. De fato eles conseguiram retornar ao país, mas acabaram sendo presos por desertarem e por traição. 

Sem saber que a nau San Antonio havia desertado, a João Serrano, capitão da Concepción continuou a investigar seu trajeto e a aguardar o outro navio. Na ocasião a tripulação avistou fumaça de fogueiras em uma grande ilha, a qual chamaram de Tierra del Fuego (Terra do Fogo). Enquanto João Serrano prosseguia com sua investigação, Magalhães seguiu com seu navio acompanhado do Victoria até aportarem em uma baía bastante bela como descreveram, sendo abundante em sardinhas e madeira. Alegavam que aquela paisagem era muito mais agradável do que o outro lado do estreito. Pigafetta conta que aquela baía foi chamada de Baía das Sardinhas

"Havíamos entrado no canl sudoeste com os outros dois navios, e continuando nossa navegação chagamos a um rio que chamamos das Sardinhas, devido à grande quantidade que vimos destes peixes. Ancoramos ali para esperar os outros dois navios. Permanecemos quatro dias, tendo enviado uma chalupa muito bem equipada para que procedesse o reconhecimento do término deste canal que desembocaria em outro mar. Os marinhos da chalupa voltaram no terceiro dia e nos comunicaram que haviam visto o cabo onde terminava o estreito e um grande mar, isto é, o oceano. Todos choramos de alegria". (PIGAFETTA, 1985, p. 71).

Os tripulantes da chalupa avistaram um cabo que indicava o final do estreito, e esse cabo foi chamado de Cabo Desejado, pois como falara Pigafetta, eles desejavam encontrar o final do estreito, e o desejo se realizou. De volta a baía das Sardinhas o Concepción retornou, mas notando que o San Antonio não viera junto e depois que o capitão João Serrano falara que procuraram por alguns dias a nau San Antonio, Magalhães decidiu enviar o Concepción e o Victoria para procurar pelo restante do estreito. 

Arana [1864] menciona que o piloto Andres de San Martín falara ao comandante que provavelmente a nau San Antonio não havia se perdido, mas havia fugido, pois alguns membros da sua tripulação andavam comentando uma possibilidade de traição. Magalhães injuriado com aquilo, e não podendo mais nada a fazer, decidiu prosseguir a viagem, agora com dois navios a menos: um que encalhou e outro que desertou. 

A 27 de novembro de 1520 numa quarta-feira, eles passaram pelo Cabo Desejado e avistaram outro cabo, e sendo a nau Victoria que ia na frente, o novo cabo foi batizado de Cabo Vitória. Pigafetta relata que avistou-se algumas espécies de peixes, incluindo peixes-voadores. 


"Entre tanto continuaba su navegación por el Estrecho HERNANDO DE MAGALLANES , muy sentido de la falta que le havian de hacer los bastimentos cargados en la Nao S. Antonio, que desconfió yá enteramente volver á ver; y haviendo navegado en veinte dias como cien leguas desde la embocadura, salió por fina 27. de Noviembre á aquel espacioso mar, que no se sabe hirviese sulcado antes Nave alguna. En esta ocasión se mandó disparar toda la Artillería como por cumplido triunfo de sus esperanzas , comunicándose el regocijo , y gloria del General á toda la gente de la Armada, con cuya desconfianza havia tenido MAGALLANES, que combatir hasta entonces no menos que con la braveza de la mar, é inclemencia de los Elementos". (ORTEGA, 1769, p. 20). 

A longa travessia pelo Pacífico (1520-1521): 

O Oceano Pacífico é o mais extenso dos oceanos do planeta Terra com uma área de 180 milhões de km2, cobrindo um terço da superfície do planeta e representando sozinho quase a metade de todo território marítimo do mundo. Um verdadeiro "mundo de água". Dependendo da rota que se seguir pelo Pacífico pode-se passar semanas ou meses sem se ver terra, e no caso da expedição de Magalhães, eles passaram três meses sem avistar terra, sofrendo com a escassez de comida e água potável, além de sofrerem com os sintomas do escorbuto, o que ocasionou a morte de alguns membros da tripulação. 

A expedição de Magalhães não foi a primeira a chegar ao Pacífico, pois em 1513, Vasco Nuñez de Balboa já havia chegado a esse oceano, mas por se desconhecer suas dimensões e limites, não se sabia até onde ele ia, e alguns historiadores antigos creditam a Magalhães a descoberta desse oceano, mas embora ele não tenha sido o primeiro europeu a conduzir navios por aquelas águas, ele foi responsável por nomear esse oceano, nome que até hoje se mantém. 

"Chamamos este mar de Pacífico, por que durante estes três meses e vinte dias que gastamos na travessia e cerca de quatro mil léguas, não houve a menor tempestade". (PIGAFETTA, 1985, p. 82).


Mapa do Maris Pacifici de Ortelius, 1589. Na época ainda se desconhecia a verdadeira extensão e limites do Pacífico. O navio em destaque é a nau Victoria, o primeiro navio da Expedição de Magalhães que adentrou o oceano Pacífico. 
É evidente que embora seja chamado de Pacífico isso não significa que não haja tempestades nele, pois devido a sua vastidão fica difícil passar por tempestades. Pigafetta [1985] conta que os ventos foram favoráveis e eles percorriam de 60 a 70 léguas por dia, todavia, ele também no narrara os problemas de fome, sede e doença durante a travessia.

"Já não tínhamos mais nem pão para comer, mas apenas polvo impregnado de morcegos, que tinham lhe devorado toda a substância, e que tinha um fedor insuportável por estar empapado de urina de rato. A água que nos víamos forçados a tomar era igualmente pútrida e fedorenta. Para não morrer de fome, chegamos ao ponto crítico de comer pedaços do couro com que se havia coberto o mastro maior, para impedir que a madeira roçasse as cordas. Este couro, sempre exposto ao sol, à água e ao vento, estava tão duro que tínhamos que deixá-lo de molho no mar durante quatro o cinco dias para amolecer um pouco. Em seguida nós o cozíamos e comíamos". (PIGAFETTA, 1985, p. 81).

Ele também nos fala que os ratos se tornaram alimento ao ponto que membros da tripulação negociavam sua carne por alguns ducados. Além disso, eles também chegaram a comer serragem, e a água não era límpida, mas amarronzada e de gosto ruim. Alguns teriam chegado a tomar a própria urina. Além da escassez de comida e água que obrigou toda a tripulação a racionar o pouco que possuíam, o escorbuto foi uma das doenças que acometeu vários homens. 

O escorbuto é principalmente causado pela ausência de vitamina C na alimentação diária. Com baixos níveis de vitamina C, feridas começam a surgir na região da boca, afetando a gengiva, a língua e os dentes. As gengivas incham e as feridas não se cicatrizam e começam a soltar pus, a doer e incomodar bastante, além de ter uma aparência desagradável. A língua pode ficar empolada e bastante sensível, doendo ao se comer ou beber, a gengiva pode sangrar, a pessoa fica pálida, sente-se cansada. Os dentes também podem ser afetados tornando mais fáceis de cair, em alguns casos o escorbuto pode afetar as articulações do corpo as deixando doloridas, se não for tratado pode ocasionar a morte.

De acordo com Pigafetta dezenove membros foram vítimas dessa doença o que incluiu um dos gigante patagões o qual por várias semanas foi a companhia de Pigafetta, pois esse tentou aprender seu idioma e a lhe ensinar espanhol e italiano, assim como aprender a oração do Pai Nosso. De acordo com ele, o gigante se sentido muito mal teria pedido para ser batizado, e lhe foi dado o nome de Pablo, ele falara que o seu deus, chamado Setebos estava o convocando, que a sua hora estava próxima. Na ocasião o gigante teria beijado a cruz e dias depois faleceu. Além do patagão, um indígena brasileiro que se desconhece o nome também teria morrido. Não sabemos se os dezenove mortos foram membros da tripulação do Trinidad na qual seguia Antonio Pigafetta, ou refere-se o número total de tripulantes que morreram por essa doença.  

Avistando algumas ilhas no caminho (1521):

Em 24 de janeiro de 1521 eles avistaram uma pequena ilha e ali aportaram. Lhe foi dado o nome de ilha de San Pablo. Posteriormente avistaram outra ilha que foi chamada ilha dos Tubarones, devido a grande quantidade de tubarões. Contudo, essas pequenas ilhas eram desabitadas de pessoas, e não possuíam o que comer e nem água potável, Magalhães teria a chamado de Ilhas Desventuradas, então decidiram ir embora de lá, e nas semanas seguintes a tripulação começou a adoecer pelo escorbuto e pela má alimentação. Atualmente tais ilhas possuem outros nomes e pertencem ao território do Chile.

Mapa de algumas das ilhas que pertencem hoje ao Chile. Pode-se ver as ilhas Desventuradas, sendo as maiores chamadas hoje de San Félix e San Ambrosio, que na época de Magalhães foram chamadas de San Pablo e Tubarones. Embora possa se ver outras ilhas neste mapa, a expedição de Magalhães não as avistou.
Continuando a seguir viagem, sem avistar terra por alguns meses, Pigafetta nos relata um equivoco, onde mencionara que pela latitude que se encontravam, que era 20 graus eles estariam perto de Cipango e Sumbdit-Pradit que estava a 15 graus. Cipango era o nome pelo qual Marco Polo se referiu ao Japão quando escreveu seu livro no final do século XIII e começo do XIV. Já Sumbdi-Pradit seria uma ilha próxima a Cipango, o problema é que nesta ocasião a expedição estava no hemisfério sul, e as duas ilhas ficam no hemisfério norte. Não sabemos exatamente o por que de tão grosseiro erro de Pigafetta em se localizar tais ilhas, de qualquer forma a expedição não chegou a passar perto do Japão. 

Em 6 de março estando já no hemisfério norte, em latitude de 12 graus e longitude de 146 graus, avistou-se a oeste uma ilha e outras duas pequenas ilhas a sudoeste dali. O comandante ordenou que fossem aportar ali para procurar água e comida. Ao se aproximarem da costa avistaram pessoas em canoas com velas triangulares vindo na direção deles. 

Devido as velas triangulares das canoas dos nativos deu-se o nome de ilha das Velas Latinas, pois aquele tipo de vela era chamado no Mediterrâneo por esse nome. Foi dada a ordem para manter a cautela e a boa conduta, pois os nativos poderiam ajudá-los, e estes foram convidados a subir nos navios, mas em meio a essa confusão de gente que subia abordo, alguns deles roubaram um dos botes de um dos navios e fugiram. 

Após expulsar os demais, deu-se por falta do bote, e no dia seguinte Magalhães decidiu ir para terra acompanhado de quarenta homens segundo Pigafetta [1985] ou de noventa homens, segundo Ortega [1864]. Eles estavam determinados a recuperar o bote.

Se conta que houve confronto com os nativos, onde sete deles morreram e várias casas foram incendiadas (Pigafetta fala entre 40 e 50 casas). Além disso, a tripulação cometeu roubos, e temendo mais destruição, os ilhéus devolveram o bote roubado. Assim, Magalhães deu a ordem de retornar para os navios. Enquanto as naus preparavam para partir, os nativos vinham segundo Pigafetta em cem canoas, trazendo suas lanças e pedras para combater os europeus, então foi ordenado que os canhões disparassem e o som os afugentou. 

Pigafetta relata que aquelas pessoas eram de cor parda, embora as mulheres fossem mais claras e eram belas. Eram de estatura mediana como a dos europeus da época, eram robustos, possuíam longos cabelos negros e finos, andavam nus, embora que algumas mulheres usavam uma fina faixa para cobrir a genitália. Alguns homens deixavam a barba crescer e chegavam a amarra os cabelos nesta. Eles pintavam os dentes de vermelho ou preto, e alguns usavam chapéus feitos de folha de palmeira. 

Pigafetta também nos fala que aqueles bárbaros não possuíam leis, crenças e nem rei. Desconheciam o arco e a flecha, assim como as armas de fogo, e usavam lanças com pontas de pedra, ou madeira endurecida ou espinhas de peixe. Viviam em casas de madeira que possuíam janelas, teto de tábuas de madeira, tablado, e suas camas eram forradas com folhas de palmeira. Comiam aves, peixes, porcos, batatas, bananas, cana de açúcar e outros frutos. 

Após esse incidente, alguns passaram a chamar tal ilha de Ilha dos Ladrões. Hoje tal ilha é chamada de Guam e fica no arquipélago das Marianas, sob domínio dos Estados Unidos. 


Localização da ilha Guam, outrora chamada de Ilha dos Ladrões pela tripulação de Magalhães em 1521
Após recuperarem o bote roubado, e conseguido comida e água, dez dias depois a expedição cruzou 300 léguas rumo a oeste, então avistaram novas ilhas. Eles acabavam de chegar ao arquipélago das Filipinas. 

Descobrindo o arquipélago das Filipinas (1521): 

Nessa época o arquipélago das Filipinas era desconhecido para os europeus, possivelmente alguma embarcação portuguesa viajando para a China possa ter avistado alguma das milhares de ilhas das Filipinas, todavia o aumento entre o contato destes povos com os europeus se deu na expedição de Magalhães. Antonio Pigafetta dedica várias páginas a comentar aspectos culturais deste povo, contudo me limitarei a abordar alguns pontos-chave entre as relações de amizade e comércio propostas por Magalhães aos reis de algumas das ilhas. 

O arquipélago das Filipinas e formado por 7.107 ilhas, totalizando cerca 300 mil km2 de terras. Em 16 de março de 1521 a expedição avistou uma ilha chamada de Zamal (atual Samar) e para sudoeste desta avistaram a ilha Humunu (atual Guigam). No dia seguinte, Magalhães foi para terra, ordenou que tendas fossem erguidas para alojar os feridos e doentes, também ordenou que um porco fosse abatido para servir de almoço de domingo. Na ocasião era o quinto domingo da Quaresma, chamado de Lázaro, e sendo assim, Magalhães batizou aquelas ilhas com o nome de Arquipélago de San LázaroNa segunda-feira, alguns nativos vieram visitá-los.


Arquipélago das Filipinas. 
"Na segunda-feira, 18 do mês, pela tarde, estando em terra, vimos dirigir-se até nós uma barca com nove homens. O capitão determinou que ninguém fizesse o menor movimento nem dissesse palavra sem a sua permissão. Quando saltaram à terra, seu chefe dirigiu-se ao capitão-geral e procurou, através de gestos, expressar o prazer que tinham em nos ver. Quatro deles, que estavam mais adornados, ficaram entre nós, enquanto que os outros foram chamar seus companheiros que estavam pescando, tendo voltado com eles". (PIGAFETTA, 1985, p. 87).

Magalhães ofereceu comida para eles, e lhes presenteou com gorros, espelhos, tecido bocaxim e joias de marfim. Em troca, os nativos lhes deram peixes, cachos de bananas, cocos e um jarro com vinho de palmeira, que de acordo com Pigafetta eles chamavam de uraca. Esse foi o início do contanto entre os europeus e os nativos. Os mesmos disseram que em quatro dias estariam de volta trazendo arroz (umai), coco e outros alimentos. 

"Na sexta-feira, 22 do mês, os ilhéus cumpriram sua palavra e vieram com duas canoas cheias, com nozes de coco, laranjas, um cântaro de vinho de palmeira e um galo, para que víssemos que tinham criação de galinhas. Compramos tudo o que trouxeram. Seu chefe era um velho, que tinha o rosto pintado e usava brincos pendentes de ouro nas orelhas. Os integrantes de seu séquito usavam braceletes de ouro e lenços ao redor da cabeça". (PIGAFETTA, 1985, p. 89).

Posteriormente Magalhães foi convidado a seguir até uma outra ilha vizinha chamada Zuluan (atual Suluan) onde o chefe mostrou que aquela ilha produzia canela, noz moscada, cravos e pimenta. As especiarias chamaram muito atenção de Magalhães e seus homens, além do fato que o chefe usava joias de ouro, isso significava que poderia haver ouro nas ilhas ou ele conseguiu através do comércio. Não obstante, naquele tempo, os árabes já havia chegado as Filipinas por volta do século XIV, e algumas das ilhas mantinham contato com comerciantes árabes. 

A 25 de março eles voltaram a seguir viagem, continuando a explorar o arquipélago, eles avistaram as ilhas Cenalo, Huinagam, Ibusson e Abarien. Em 28 de março, a frota seguiu até uma ilha a onde haviam visto fogueiras na noite anterior. Eles chegaram a ilha de Massana. Alguns ilhéus se aproximaram em seus barcos dos navios, mas não ousaram subir abordo. Fernão ordenou que presentes fossem oferecidos para eles, então pegaram uma tábua amarraram numa corda, e colocaram os presentes sobre esta e desceram até um dos barcos. 

Eles pegaram os presentes e foram embora, mas retornaram duas horas depois, dessa vez vinham dois barcos maiores chamados de balangués de acordo com Pigafetta, e em um deles se encontrava o rei. Magalhães ordenou que seu escravo Enrique atua-se com intérprete, pois os nativos falavam a língua malaia.

O rei ofereceu presentes, mas Magalhães recusou a aceitá-los, contudo, o rei os convidou a ir a sua casa. Naquela noite eles atracaram próximo a casa do rei, e no dia seguinte, Enrique foi a terra avisar o rei, o qual retornou em um barco acompanhado de seis guerreiros e levando outros presentes, os quais dessa vez, Magalhães aceitou. Pigafetta [1985] conta que os presentes eram três vasos de porcelana cheios de arroz cru, cobertos por folhas; dois peixes dourados, etc. 

Magalhães deu uma túnica nas cores vermelho e amarelo, um gorro vermelho e outros presentes tanto para o chefe quanto para seus homens, onde se deu espelhos e facas. O rei abraçou Magalhães com muito ânimo, e o comandante apresentou-lhe o navio, a bússola e as cartas náuticas e pediu que Enrique explica-se as dificuldades que eles passaram para chegar até ali. 

Ainda naquele momento, Fernão pediu que os canhões e os mosquetes fossem disparados, a fim de mostrar aos nativos seu poder de fogo. Os mesmos ficaram espantados com aquilo. Para completar, pediu-se que um dos marinheiros se vesti-se com uma armadura, e outros o golpeassem. O rei de Massana ficou admirado com aquela roupa, e disse que aquele guerreiro poderia enfrentar sozinho cem homens. O monarca decidiu retornar para casa e pediu que dois dos europeus os acompanhassem para que passassem a noite em seu lar. Pigafetta e outro tripulante que não sabemos quem foi foram os escolhidos. 

"Quando pisamos em terra, o rei elevou as mãos para o céu e se voltou em seguida para nós, que fizemos o mesmo gesto, assim como todos os que nos seguiam. Depois o rei me tomou pela mão, fazendo o mesmo um outro com o meu companheiro. Caminhando deste modo chegamos a uma cobertura de palhas que havia um balangué de cerca de cinquenta pés de comprimento, semelhante a uma galera". (PIGAFETTA, 1985, p. 92).

Ele nos conta que os guerreiros permaneceram de pé, armados com lanças e escudos, enquanto isso eles dois, o rei e outros homens começaram a comer carne de porco e a beber vinho de palmeira. Pigafetta lembra que 29 de março daquele ano, era Sexta-feira Santa, logo, não deveria beber e nem comer carne vermelha, mas para não ofender o anfitrião. Á noite na ceia, comeu-se diferentes pratos com peixe acompanhado de arroz. Pigafetta conta que o filho do rei lhes fizera companhia, ele dividiu a refeição com o príncipe. Já o outro europeu esse ficou embriagado. 

Posteriormente, Pigafetta nos relata que o rei de Massana o qual se chamava Calambu, era senhor de Calagán, e o seu irmão que se chamava Siagu era senhor de Butuan. A ilha de Massana era um território compartilhado entre os dois irmãos, onde eles se encontravam para reuniões. Atualmente tais territórios compreendem a ilha de Mindanau, ou seja, é uma ilha só, onde inicialmente os europeus pensaram ser outras ilhas. 

Siagu foi visitar Magalhães e lhe deu presentes, assim como, lhe convidou a ir a sua ilha onde dizia possuir ouro e muitos objetos de metais preciosos. Pigafetta conta que esse rei estava vestido bem mais ricamente do que seu irmão. Usava argolas de ouro, vestes de algodão, usava anéis, tinha dentes com ouro incrustado, carregava uma adaga em uma bainha adornada. 

No dia 31 de março, Domingo de Páscoa fez-se uma missa para celebrar o santo dia, e na ocasião alguns dos nativos assistiram com curiosidade o rito, pois não entendiam a língua que o padre falava, e no caso ele rezava em latim. 


“Fuimos á tierra unos 50, sin armadura, pero con armas y lo mejor vestidos que pudimos. Antes de atracar los botes á la orilla, los barcos dispararon seis cañonazos en señal de paz. Al saltar á tierra, los dos reyes, que estaban esperándonos, abrazaron al capitán general, le hicieron colocar entre ellos y fuimos formados hasta el lugar en que se había de celebrar la misa, que era cerca de la playa”. (PIGAFETTA, 1899, p. 34).

De 1 de abril a 4 de abril, o rei Calambu pediu um favor a Magalhães, ele pediu alguns homens para ajudar na colheita de arroz. Magalhães indagara aos reis qual dos portos era o mais importante, eles lhes mencionaram os portos de Ceylon, Zubu e Calagan, mas disseram que Zubu (atual Cebu) era o mais importante destes. Fernão ficou interessando em ir a esta ilha, e o rei Siagu se ofereceu como guia. No caminho passaram por várias ilhas (alguns eram cidades na realidade, mas não sabemos o porque de Pigafetta se referir como ilhas) as quais Pigafetta relata seus nomes na época: Ceylon, Bohol, Canigán, Baybay, Gatigán, Polo, Ticobón e Pozón

"Domingo, 7 d abril, entramos no porto de Cebu. Passamos próximo de muitas aldeias, onde vimos casas construídas sobre árvores. Quando chegamos perto da vila, que tem o mesmo nome da ilha, o capitão mandou arriar as velas e foi disparada uma cerrada carga de artilharia, o que causou grande alarme entre os ilhéus". (PIGAFETTA, 1985, p. 98). 

Alguns membros da tripulação e um intérprete foram enviados para falar com o rei de Cebu, chamado de Humabon, o qual estava apavorado com o restante da população devido ao som dos canhões. O intérprete explicou que os tiros eram uma saudação de boas-vindas e que eles não ficassem preocupados, pois haviam vindo em paz. 

"O rei mandou que dissesse ao capitão que lhes dava as boas vindas, mas que o advertia que todos os navios que entravam em seu porto para comerciar deviam iniciar por pagar um imposto. E acrescentou que não fazia ainda quatro dias que este tributo havia sido pago por um junco de Sião, que comprou escravos e ouro. Chamou em seguida a um comerciante mouro que vinha também do Sião com o mesmo fim, para que testemunha-se a verdade que acabava de antecipar". (PIGAFETTA, 1985, p. 99).

Embora Pigafetta use o termo mouro, o homem em si talvez não fosse um árabe, mas um muçulmano de outra nacionalidade. O problema do uso da palavra mouro pelos portugueses, espanhóis e italianos é que ela se tornou um elemento genérico, passando a designar qualquer muçulmano independente da sua nacionalidade. O intérprete respondeu que o seu capitão não iria pagar tributo algum para outro soberano, pois ele servia apenas ao poderoso rei de Espanha. O muçulmano teria explicado para o rei acerca dos portugueses e suas conquistas nas Índias, e o intérprete confirmou tudo aquilo, e disse que eles não serviam ao rei de Portugal, mas ao rei de Espanha que eram muito mais rico e poderoso, e se o rei Humabon os quisesse ter como inimigos, o soberano espanhol enviaria centenas de navios com milhares de guerreiros para destruir a pequena ilha dele. 

O rei acabou consentindo com tais palavras e convidou os embaixadores para um desjejum e enviou saudações e presentes ao capitão-geral, posteriormente ele convidou os mesmos para firmar um acordo entre Cebu e Espanha, pois estava interessado em formar uma aliança com este poderoso soberano do Ocidente. Nos dias seguintes, o rei Humabon foi conhecendo melhor seus convidados, assim como se familiarizando com seus costumes. 

Algo que se deve ressalvar é que Cebu se tornou o foco de disseminação do cristianismo no arquipélago, pois embora os reis Calambu e Siaro tenham se tornado amigos e aliados dos europeus, também terem permitido a realização de missas e a colocação de cruzes em seus territórios, eles não haviam se convertido a fé cristã, contudo, o o rei de Cebu aceitou a conversão. Magalhães escolheu a data de 14 de abril, um domingo, para se celebrar o batismo do rei. 

"Foi montado na praça um tablado, adornado com tapeçarias e folhas de palmeiras. Mandamos à terra quarenta homens e mais dois armados dos pés à cabeça, para compor a guarda real. Quando o cortejo seguiu em direção ao local da cerimônia, os navios disparam toda sua artilharia, fazendo com que o capitão e rei se abraçassem emocionados. Subimos ao tablado, onde havia dois cadeirões revestido de veludo azul e verde, onde sentaram-se o soberano e nosso capitão-geral". (PIGAFETTA, 1985, p. 107).

Com o batismo do rei Humabon o qual adotou o nome de Carlos, Magalhães dissera que estava firmada sua aliança com o rei de Cebu e o rei de Espanha, e que futuramente outros navios espanhóis voltariam aquela ilha para negociar com eles, e, além disso, se fosse preciso ajuda para se enfrentar algum inimigo, o rei espanhol lhe enviaria ajuda. Magalhães cobrou que os vassalos do rei de Cebu o reverenciassem como rei cristão, e posteriormente a família real, assim como o rei Calambu e seus familiares também se converteram ao cristianismo. 

Fernão também apresentou a necessidade de converter o restante da população da ilha e das ilhas vizinhas, e nos dias seguintes batismos e missas foram realizados, até o comerciante muçulmano que eles haviam conhecido, aceitou a conversão. Pigafetta [1899] menciona que pelo menos 500 ilhéus foram batizados poucos dias depois, e no dia (ele não menciona a data) que a rainha foi batizada, mais 800 nativos foram batizados. 

Fernão também ordenou que os nativos destruíssem seus ídolos e os templos de seus deuses. Pigafetta conta que no dia 22 de abril, uma das aldeias se negara a conversão, então as casas foram incendiadas e uma cruz foi colocada no centro da aldeia. A destruição dessa aldeia repercutiria poucos dias depois.

"Os ídolos deste país são de madeira, côncavos ou escavados atrás, com os braços e as pernas separados e os pés voltados para cima. O rosto é grande e da boca despontam quatro presas semelhantes às do javali. Normalmente estão pintados". (PIGAFETTA, 1985, p. 111).

Magalhães descobriu que um dos filhos do rei Humabon estava gravemente doente, e eles realizavam libações e preces para seus deuses. Fernão ficou descontente com aquilo, pois havia pedido que eles renegassem seus deuses, mas eles responderam que era necessário para curar o príncipe, contudo, Fernão disse que se eles tivessem orado a Jesus Cristo, o mesmo teria sido curado. De acordo com Pigafetta, o príncipe aceitou ser batizado e dias depois estava curado. Foi um milagre, como ele relatou.

A 26 de abril notícias ruins chegavam aos ouvidos de Fernão de Magalhães. Perto da ilha de Cebu existia uma chamada Mactán, governada por dois reis, Zula e Cilapulapu. A aldeia que foi incendiada chamava-se Bulaia, e o rei Cilapulapu não pretendia se converter ao cristianismo e se aliar ao rei de Espanha, contudo, o rei Zula foi procurar a ajuda dos europeus, pois tinha interesse na aliança.

"Zula, um dos chefes da ilha de Mactá, enviou ao capitão um de seus filhos, levando duas cabras e para dizer-lhes que se não enviava tudo o que havia prometido não era por sua culpa, mas por causa de Cilapulapu, o outro chefe, que não queria reconhecer a autoridade do rei de Espanha. Mas, se o capitão quisesse ajudá-lo somente com uma chalupa de homens armados, se comprometia a combater e subjugar, na noite seguinte, o seu rival". (PIGAFETTA, 1985, p. 114).

Magalhães decidiu ajudar Zula e declarou guerra ao rei Cilapulapu. O rei Hemabon e outros dos capitães de Magalhães tentaram persuadir o comandante a desistir desse confronto, pois seria muito arriscado principalmente pelo fato de estarem em menor número. 

O confronto em Mactán, Magalhães morre em combate (1521):

No amanhecer do dia 27 de abril, Magalhães chegou a ilha de Mactán, acompanhado de 60 homens, vestidos com suas armaduras e portando seus mosquetes, além de ter ido também o rei Humabon com cerca de 20 ou 30 homens. Devido os recifes, eles não conseguiram levar os barcos até a areia, o que lhes impediu de desembarcar os canhões, e os obrigou a caminhar na água. De acordo com Pigafetta [1985;1899] o capitão-geral convencido que apenas aqueles 60 europeus seriam o suficiente para exterminar um monte de bárbaros armados com pedaços de madeira e pedras, pediu que o rei Humabon aguardasse com seus homens e assistisse aquela luta que seria uma vitória fácil.

Antes de iniciar o confronto, Fernão enviou um mensageiro propondo uma última oferta de paz para o rei Cilapulapu, cobrando que o mesmo reconhece-se como vassalo do rei Humabon, que se reconhece-se como vassalo do rei Carlos I de Espanha e que pagasse tributos para ambos. Se isso fosse acatado, eles não precisariam lutar, mas o rei Cilapulapu negou-se ao acordo. 

A guerra estava declarada. Magalhães seguiu em direção a aldeia deles acompanhado de 49 homens (Herrera apud Arana [1864] menciona que foram 55 homens que desembarcaram), pois os demais ficaram cuidando dos botes. De acordo com Pigafetta, os nativos haviam feito armadilhas, haviam cavado buracos na praia, e isso foi percebido antes que fosse tarde. 

Pigafetta conta que os inimigos estava em número de 1.500 homens, contra apenas 49 europeus, pois embora os europeus usassem suas couraças e suas armas de fogo a desvantagem era muito grande. Vale lembrar que a armadura que eles usavam não cobria todo o corpo, ela era composta principalmente por duas peças: o capacete e o peitoral ou couraça. Além disso, possuía ombreiras e protetores para os braços, contudo, as pernas estavam desprotegidas. No caso das armas de fogo, as mesmas só disparavam um tiro por vez, e não possuíam boa precisão a tiros a distância. 


Representação do traje militar usado pelos espanhóis e portugueses nos séculos XIV ao XVI. 
"Os ilhéus eram mil e quinhentos e estavam formados em três batalhões, que mal nos viram já se lançaram sobre nós com um ruído horrível. Dois batalhões nos atacaram pelos flancos e um terceiro pela frente. Nosso capitão dividiu sua tropa em dois pelotões. Os balestreiros e os mosqueteiros atiraram desde longe durante meia hora e causaram pouco dano ao inimigo. Mesmo que nossas balas e flechas atravessassem as delgadas tábuas dos seus escudos, apenas os feriam levemente, não os matando como nós esperávamos que fosse acontecer". (PIGAFETTA, 1985, p. 115).

Magalhães ordenou que as casas fossem incendiadas (20 ou 30 foram queimadas). Durante o conflito ele foi atingido duas vezes, a primeira por uma lança de ponta de ferro (talvez a lança tenha pego de raspão, pois já sendo coxo, isso dificultava sua mobilidade, e se tivesse sido ferido profundamente, não teria tido chance de fugir) e depois por uma flecha envenenada que acertou sua perna direita, cujo veneno era fraco, mas para causar dor do que matar. Ambos acertaram as pernas do comandante, ele decretou retirada. Alguns dos europeus já haviam fugido, sendo perseguidos pelos inimigos, no caso de Magalhães esse foi encurralado já a beira-mar, mas ainda continuou a lutar, até que um dos inimigos usando uma espada lhe feriu a perna esquerda o que o fez cair de vez ao chão e depois o matou. 


Gravura representando a luta final de Magalhães contra os nativos das Filipinas.  
O relato de Pigafetta possui alguns pontos curiosos: de acordo com ele, a luta durou mais de duas horas, contudo ao todo foram mortos 15 inimigos, e do lado dos europeus incluindo Magalhães foram 8 mortos e mais 4 nativos que haviam seguido com eles, totalizando 12 mortos. Um número muito baixo se considerando a quantidade de combatentes e o tempo de luta. De qualquer forma, não temos como nos aprofundar mais nisso, e passamos para adiante. 

Pigafetta que saiu ferido da batalha, conta que os capitães tentaram reaver o corpo de Magalhães, mas este foi levado pelos inimigos. Durante à tarde o rei Humabon enviou um mensageiro solicitando que o cadáver do comandante e dos demais soldados mortos fossem devolvidos, em troca lhe dariam a mercadoria que quisessem, mas o rei Cilapulapu se negou, dizendo que eles eram "troféus" de guerra. 

Retornando a Cebu, sem levar o corpo de nenhum dos mortos, foi feita uma reunião e Duarte Barbosa (em seu relato Pigafetta refere-se aqui como Eduardo Barbosa, embora que de acordo com Medina [1920], Arana [1864] e Merino [1899] não consta na relação de tripulantes, nenhum Eduardo Barbosa, teria sido um equívoco do autor ou este seria outro nome para Duarte?) e Juan Serrano foram escolhidos como novos comandantes da expedição. 

Em seguida, Pigafetta nos relata que os novos comandantes cogitaram zarpar o quanto antes, pois já consideravam de bom grado as relações firmadas com o rei de Cebu, o rei de Butuan e de Calagan, e outros senhores, e estava na hora de seguir para as Molucas, objetivo principal da viagem. Contudo, Pigafetta conta que no dia 1 de maio ocorreu uma traição dos nativos com os europeus, e entre os traidores estava Enrique, o escravo de Magalhães. O autor conta que Enrique foi ferido em combate, mas seus ferimentos eram simplórios, mas ele usou isso como pretexto para não trabalhar, e também alegou que seu dono havia morrido ele estava livre, mas Duarte Barbosa disse que ele seria dado a Beatriz Magalhães, quando eles voltassem para a Espanha, pois a alforria não lhe foi concedida.

De acordo com Pigafetta a traição que eles sofreram, onde o rei Humabon ordenou o assassinato de alguns europeus, teria sido incentivada pelo escravo Enrique. Todavia, não temos exatidão de até onde Enrique teria conspirado para essa traição. Pigafetta conta que não seguiu junto a comitiva de 26 homens, o que incluíam Duarte Barbosa e Juan Serrano, pois ele estava indisposto, devido ao ferimento que sofrera na batalha, onde foi acertado de raspão na testa por uma flecha. 

Entretanto, os 26 homens foram traídos, feridos, presos e mortos. Na ocasião, Juan Carvajo ou Carvalho, o qual era compadre de Juan Serrano, conseguiu fugir da armadilha e retornou a um dos navios. Então ouviu-se gritaria vindo da cidade, e os navios se aproximaram da praia disparando tiros de canhão. Juan Serrano apareceu ferido na praia. Ele gritava pedindo socorro, mas Juan Carvajo que havia "assumido" o controle na ocasião, recusou a ajudá-lo e decretou que fossem embora. Pigafetta que ouviu tudo, conta que Serrano amaldiçoou Carvajo por sua covardia e traição. Os vinte seis que haviam desembarcado foram mortos. Assim, Serrano e os demais foram abandonados e os navios foram embora. 

Rumo certo, caminhos incertos (1521):

A missão principal naquele momento era se chegar as Molucas, fazer acordos com os chefes locais, comprar mercadorias e depois retornar para a Espanha, contudo, havia um porém: nenhum dos homens abordo, sabia onde ficava as Molucas; apenas Magalhães havia visitado o arquipélago, e agora como ele estava morto, o restante da tripulação possuía um rumo certo, mas os caminhos para se chegar as Molucas eram incertos. 


A frota navegou para o sul, então aportaram na pequena ilha Bohol a qual fica dezoito léguas distantes de Cebu. Nessa ilha deliberou-se que Juan Carvajo fosse escolhido o novo comandante, e ao mesmo tempo optou-se por destruir a nau Concepción, a qual era a mais avariada de todas, e, além disso, o restante da tripulação não era o suficiente para levar os três navios. Arana [1864] menciona que a tripulação que partira de Cebu era formada por 115 homens, os quais seriam divididos nas naus Trinidad e Victoria.

Eles deixaram Bohol e retornaram a ilha de Mindanao, onde Pigafetta relata que foi convidado por um dos reis a acompanhá-lo e conhecer suas terras. Ele relata que avistou minas de ouro e que os nativos criavam muitos galos para serem usados em lutas (rinhas de galo). O rei Calanao foi bem gentil e atencioso com eles, e por várias semanas eles permaneceram na grande ilha, até que do porto de Chipit (localizado no sul da ilha) eles zarparam no final do mês de junho, e depois de passarem por outras ilhas menores no caminho, a 8 de julho de 1521 eles aportaram na costa de Bornéu (hoje a ilha é dividida por três países: Indonésia, Malásia e Brunei).


Localização da ilha de Bornéu. 
Pigafetta conta que a ilha de Bornéu era governada por um rei muçulmano e um rei pagão, os quais estavam em constante guerra pelo controle da ilha. No dia 9 de julho, o rei muçulmano enviou uma piroga (um tipo de barco grande) o qual possuía a popa e a proa da cor dourada, e trazia uma bandeira azul e branca, com um penacho de plumas de pavão no topo do mastro. Ele diz que o barco era muito bonito, e nele vinham músicos e oito velhos, os quais levavam presentes do seu rei para os recém-chegados viajantes.

"Nos ofereceram um vaso de madeira, coberto de seda amarela e cheio de bétel e de areca, raízes que mascam continuamente, com flores de laranjeira e de jasmim, além de duas gaiolas cheias de galinhas, duas cabras, três vasos de vinho de arroz destilado e canas-de-açúcar. Fizeram a mesma oferenda no outro navio, e depois de abraçar-nos, pediram licença e se foram. O vinho de arroz é tão claro como a água, porém tão forte que muitos de nossa tripulação se emborracharam. Este é chamado arach". (PIGAFETTA, 1985, p. 132).

Na tentativa de conseguir apoio do monarca muçulmano o qual se chamava Siripada, além de conseguir um guia que os levassem as Molucas, foi decidido que permaneceriam na ilha, aguardando o convite do rei. Seis dias depois, três pirocas com várias pessoas retornaram, e estes trouxeram novos presentes ofertado pelo rei. Em troca os europeus também deram presentes aos convidados. Um deles era um governador ou ministro do rei o qual convidou alguns dos membros a irem a sua casa para jantar e dormir, pois no dia seguinte, eles seriam levados ao palácio. Pigafetta e Gonzalo de Gomes Espinoza foram um dos convidados a irem para a casa do governador. Ao chegarem a cidade, eles aguardaram por cerca de duas horas como relata Pigafetta, até que dois elefantes chegaram e eles subiram nestes e foram levados até a casa do governador. No dia seguinte eles também foram de elefante até o palácio. 


"A cidade está construída junto ao mar, exceto a casa do rei e as de alguns chefes. É composta de vinte e cinco mil lares ou famílias. As casas são de madeira, sustentadas por grossas vigas para isolá-las da água. Quando a maré sobe, as mulheres que vendem mercadorias aproveitam para atravessar a cidade de barca. Protegendo o palácio real há uma grande muralha de pedras, com barbacãs à maneira de fortaleza, sobra a qual se vê cinquenta e seis canhões de bronze e seis de ferro. Dispararam muitas vezes durante os dias em que passamos na cidade". (PIGAFETTA, 1985, p. 135).


Guerreiros Dayak, o povo nativo de Bornéu. 
Pigafetta relata que as ruas estavam guarnecidas por vários soldados que empunhavam lanças, espadas e escudos, os quais mantinham vigilância e garantiam a segurança dos convidados. Ao chegarem ao palácio, havia vários guardas e cortesões, mas o interessante é que Pigafetta relata que eles não viram o rei naquele dia; o monarca ficava atrás de cortinas, e para se dirigir a palavra para ele tinha-se que se falar com um dos funcionários, que se reportaria ao seu superior e assim sucessivamente até um dos homens mais próximos do rei. 

"Nosso interlocutor nos advertiu que devíamos fazer três reverências ao rei, elevando as mãos juntas por sobre a cabeça e levantando alternativamente os pés. Depois das três reverências que nos haviam indicado, endereçamos nossa mensagem ao rei, fazendo-o saber que pertencíamos ao rei da Espanha, que desejava viver em paz com ele e não pedia nada mais além de comercializar com sua ilha". (PIGAFETTA, 1985, p. 134). 

O rei Siripada ficou interessado em saber que poderia firmar aliança com o rei de Espanha, então ele permitiu que os europeus pudessem comercializar em sua ilha, assim como cortar lenhas e buscar água. Depois de vários dias de tranquilidade, na manhã de 29 de julho, algo chamou a atenção da tripulação, vários barcos (Pigafetta fala em cem destes) navegavam em direção aos navios espanhóis, aquilo pareceu muito suspeito e ameaçador, então eles levantaram vela e partiram, mas alguns dos barcos maiores (juncos) começaram a emparelhar ao lado dos navios, e foi decretado que disparassem nos atacantes.

Um dos barcos foi capturado e um dos prisioneiros era filho do rei da Ilha de Lozón, e atuava como capitão-geral de Bornéu, segundo o relato de Pigafetta. Os navios conseguiram se afastar da ilha, contudo, no dia seguinte, Juan Carvajo na tentativa de resgatar os cinco espanhóis que haviam ficado na cidade de Bornéu (capital do reino muçulmano), o que incluía seu filho (o rapaz de nome desconhecido, nasceu no Brasil, sendo filho de uma indígena), contudo o rei Siripada negou-se a trocar o príncipe pelos prisioneiros espanhóis e alegou que os barcos não foram enviados para atacá-los, mas seguiam para a cidade dos pagãos, isso tudo havia sido um mal entendido. 

Juan Carvajo tentou recuperar seu filho, mas os demais membros da tripulação temendo que fosse uma armadilha decidiram abandonar os reféns e foram embora, levando consigo 16 prisioneiros, sendo três mulheres. Eles voltaram a seguir viagem para o nordeste, até que uma tempestade os atingiu, e um dos navios avariou o leme num recife perto da ilha Bibalón (atual Balabac nas Filipinas), foi decido se encontrar um porto seguro para realizar reparos nos navios. 

No dia 15 de agosto foi avistado 4 juncos carregados com cocos, um deles conseguiu se abordado e a carga foi saqueada, os demais fugiram. Posteriormente, eles atracaram em Cimbombón (ilha no sul das Filipinas), onde de acordo com Pigafetta devido a falta de ferramentas, demorou-se 40 dias para concluir os reparos, além das dificuldades de se conseguir madeira boa, pois essa ficava na serra, e havia muitos espinhos e urtigas no caminho. Na ilha também havia javalis e crocodilos. 

Juan Carvajo foi destituído da capitania, e Gonzalo Gomes de Espinoza foi eleito capitão da Trinidad e novo comandante da expedição. Juan Sebástian Elcano que era piloto da Concepción, foi nomeado capitão da Victoria. A destituição de Carvalho deveu-se principalmente a sua situação, pois o mesmo ficou bastante abalado com a perda do filho, e já não possuía condições psicológicas de chefiar a expedição. Terminado os reparos voltou-se a seguir viagem para a ilha de Paloán, e em 2 de setembro, um dos governadores da ilha, junto com seu filho, irmão e alguns criados foram capturados pelos europeus. 

Os três foram usados como reféns e em troca pediu-se alimentos: quatrocentas medidas de arroz, vinte porcos, vinte cabras e cento e cinquenta galinhas, estes foram os números descritos por Pigafetta, o qual conta que o resgate foi pago, e, além disso, acrescentou-se cocos, bananas, canas de açúcar e vinho. Os reféns foram soltos e a expedição retornou para Mindanao. 

Pelo restante do mês de agosto, setembro e outubro, os dois navios vaguearam com destino incerto, passando por várias ilhas até que eles chegaram a ilha de Sarangani em 27 de outubro, onde no dia seguinte capturaram dois nativos os quais conheciam a rota para as Molucas. 

"Seguindo as indicações de nossos pilotos, navegamos em direção Sul-Sudoeste e passamos entre oito ilhas, metade habitadas e metade desertas. São as ilhas de Cheava, Caviao, Cabiao, Camanuca, Cabaluzao, Cheai, Lipan e Nuza. Durante à noite, os dois cativos saltaram no mar e nadaram até a ilha de Sanghir. Todavia, sabendo que estava na rota certa, não se partiu em busca dos fugitivos. Posteriormente já no mês de novembro passou-se por mais algumas ilhas até que no dia 6 de novembro avistou-se as Ilhas Molucas, como confirmou um outro piloto filipino que havia sido capturado antes dos dois que fugiram. Pigafetta conta que a emoção foi tremenda nos dois navios e tiros foram disparados para se celebrar. Após mais de vinte meses de viagem, eles haviam chegado as Molucas, as ilhas das Especiarias como também eram conhecidas. 

Negócios nas Molucas (1521): 

Em 8 de novembro aportou-se próximo a ilha de Tadore ou Tidor (atual Tidore). Naquela época inicialmente, considerava-se que apenas cinco ilhas formavam as Molucas: Tarenate (Terenate), Tadore (Tidore), Mutir (Moti), Machián (Makian) e Bachián (Bacan), mas a medida que os portugueses e espanhóis foram conhecendo outras ilhas vizinhas, passou-se a englobar tais ilhas no arquipélago. Atualmente o arquipélago é divido em duas províncias indonésias: Molucas e Molucas do Norte.


O arquipélago das Molucas. As ilhas visitadas pela expedição de Magalhães ficam ao Norte. 
"Todas as Ilhas Molucas produzem cravos em espécie, gengibre, sagu, (que é a madeira que fazem o pão), arroz, nozes de coco, bananas, figo, amêndoas maiores que as nossas, romãs doces e acres, cana-de-açúcar, melão, pepinos, cabaça, um fruto que chamam comilicai (espécie de abacaxi) e que é muito refrescante  e do tamanho de uma melancia, além de outro fruto parecido com o pêssego e que chamam Guave (goiaba) e outros vegetais comestíveis. Também há azeite de coco e gergelim. De animais úteis possuem cabra, galinha e uma espécie de abelha que não é maior que uma formiga e que faz sua colméia nos troncos das árvores, depositando um excelente mel. Há muitas variedades de papagaios, entre eles um branco que chamam catara e outro vermelho chamado nori, que é mais apreciado não só pela beleza de sua plumagem, mas porque pronunciam mais claramente as palavras que aprendem. Um papagaio vale um bahar de cravos". (PIGAFETTA, 1985, p. 166). 

O rei de Tidore o qual também era muçulmano se encontrava na praia sentado sob um guarda-sol de seda, acompanhado de um de seus filhos que carregava o cetro real, e dois serviçais que traziam vasos de ouro com água e outros dois com bétel. O rei de acordo com o relato de Pigafetta, havia  a muito tempo sonhado com a chegada de forasteiros vindos de muito longe, e a Lua havia lhe confirmado que tal sonho se concretizaria, e com a chegada deles, o rei tomou aquilo como a realização de seu sonho e foi bastante simpático ao recebê-los, indo abordo com seu filho e criados, e eles trocaram presentes. 


Localização da ilha de Timor.
"Este rei é mouro, isto é, árabe, de uns quarenta e cinco anos de idade, e tem um aspecto muito bom. Sua vestimenta consistia em uma camisa muito fina, com mangas bordadas em ouro. Um pano lhe cobria desde a cintura até os pés. Na cabeça tinha um véu e seda e sobre ele uma grinalda de flores. Chama-se rajá sultão Manzor este soberano, que é tido como um grande astrólogo". (PIGAFETTA, 1985, p. 146). 

No dia seguinte eles voltaram a se reuni com o rei Manzor e este se mostrou bastante interessado em se aliar a Espanha, chegando a pedir que lhe desse o selo do rei espanhol e um estandarte seu, assim como, deixasse alguns membros da tripulação na ilha. O sultão também permitiu que eles pudessem comercializar na ilha e lhes prometeu grande carregamento de cravos-da-índia que mandou buscar em Bachián, pois os de lá estavam mais frescos. O sultão também confidenciou que estava interessado em formar essa aliança, pois era inimigo do sultão de Tarenate (atual Ternate), o qual era aliado dos portugueses, e sabendo que os espanhóis eram rivais dos portugueses, isso veio bem a calhar.

Não obstante, Pigafetta nos fala que na reunião eles ficaram sabendo a respeito de um português de nome Fernando Serrano, o mesmo que era amigo e possível primo de Fernão de Magalhães. Fernando Serrano havia deixado esposa, um filho e uma filha. Serrano havia falecido oito meses antes ainda naquele ano, tendo sido vítima de envenenamento, ordenado pelo sultão Manzor. 

Serrano havia tomado parte do plano do sultão de Tarenate em se formar um casamento forçado, obrigando que o sultão Manzor lhes entregasse uma das filhas e vários de seus filhos como reféns (Pigafetta conta que o sultão possuía 26 filhos, oito homens e 18 mulheres), para evitar uma grande guerra, Manzor concordou, e sua filha tivera um filho chamado Calanogapi, o qual Manzor procurava proclamar soberano de Tarenate, já que o sultão havia sido morto pela própria filha, e seus herdeiros disputavam o poder. Além disso, outras das filhas de Manzor eram casadas com os príncipes de Tarenate, mas parece que havia certa predileção por Calanogapi. 

No dia 11 de novembro um dos filhos do falecido sultão de Tarenate, chamado Chechilideroix se aproximou dos navios espanhóis, mas não subiu abordo. O comandante Espinoza ordenou que lhe fosse dado alguns presentes, mas isso não bastou para o príncipe subir abordo, contudo, ele enviou um escravo chamado Manuel o qual pertencia ao ex-escravo de Serrano, chamado Pedro Alfonso de Lorosa (o qual vivia na Ásia há dezesseis anos). Manuel era um nativo de Tarenate que foi convertido ao cristianismo e sabia falar português. O mesmo dissera que os príncipes da sua ilha estavam interessados em fomentar uma aliança com os espanhóis.

Pedro Lorosa aceitou o convite e apareceu a 13 de novembro, e relatou para eles o que ouviu nestes últimos meses, pois dissera que mensalmente navios portugueses vinham e Malaca as Molucas comprar especiarias. O capitão Tristão de Menezes lhe contou que há mais de um ano, Fernão de Magalhães havia partido da Espanha levando consigo cinco navios na tentativa de encontrar uma rota para as Índias seguindo pelo Oeste, contornando-se a América do Sul. 

Contudo, não se havia mais notícias deles, e, além disso, o capitão dissera que o rei D. Manuel I chegou a enviar duas esquadras uma para o Cabo da Boa Esperança no sul da África e outra para o Rio da Prata para interceptarem a expedição e Magalhães, mas essas chegaram tarde demais. Entretanto, prevendo que Magalhães tivesse chegado as Molucas, o rei português ordenou que D. Diego López de Sichera que se encontrava na Índia liderasse uma expedição ao arquipélago para confrontar Magalhães e sua tripulação, mas o capitão não apareceu devido a problemas que o sultão turco estava gerando no Mar Roxo (nome dado pelos árabes ao pedaço de mar que separa a África da Índia). Lorosa procurou se manter neutro, e não participar das desavenças entre os dois sultanatos. 


Cravos-da-índia, uma das cobiçadas especiarias. Além de cravos, os europeus iam buscar noz moscada, canela, gengibre, pimentas, mostarda, anil, açafrão, tomilho, coentro, etc.
No dia 15 de novembro, o rei Manzar avisou que ia a Bachián supervisionar o carregamento de cravo, o qual chegou no dia seguinte, sendo o primeiro de muitos. No dia 25, novo carregamento chegou, no dia seguinte o sultão os convidou para uma festa para homenageá-los. Pigafetta conta que eles suspeitaram daquilo, pois lembraram do ocorrido em Cebu, onde acabaram sendo traídos. Eles recusaram a oferta e alegaram que em breve partiriam, contudo, o rei veio visitá-los questionando o porque da pressa, então jurou diante do Alcorão e de Alá que não lhes causaria nenhum mal, isso convenceu os europeus a permanecerem pelo resto do mês de dezembro. De fato, o sultão cumpriu com sua palavra.

Entre os dias 7 e 9, três príncipes de Tarenate vieram visitá-los, acompanhados de suas esposas e alguns filhos. Na comitiva veio Pedro Larosa. Vários presentes foram trocados. Até o rei da ilha de Giailolo (atual Halmaera ou Gilolo, a maior das ilhas das Molucas), compareceu, pois o mesmo ficou fascinado com as armas de fogo, e foi visitá-los duas vezes. 

"Neste meio tempo, Pedro Alfonso de Lorosa, veio a bordo com sua mulher e todos seus pertences para voltar conosco para a Europa. Dois dias depois, Checilideroix, filho do rei de Tarenate, chegou com uma canoa repleta de homens armados e convidou Lorosa a ir com ele. Mas o português, suspeitando de sua má intenção, se protegeu muito bem dele e nos advertiu para que não o deixássemos subir a bordo". (PIGAFETTA, 1985, p. 160).

O comandante Espinoza negou o embarque de Lorosa após tal incidente, o mesmo retornou para sua ilha. No dia 15 de dezembro o comandante e vários dos tripulantes foram convidados para assistir o casamento de uma das filhas do rei Manzor, a qual se casaria com um dos irmãos o rei de Bachián. Manzor solicitou que os europeus homenageassem os convidados com um disparo da artilharia. No dia 17, o rei de Bachián mostrou interesse em formar aliança com a Espanha, algo que foi bem recebido. 

Estava previsto para se partir no dia 18 de dezembro. A nau Victoria já se encontrava em mar aberto aguardando apenas a Trinidad segui-la. Os reis de Tadore, Giailolo e Bachián, além de um príncipe de Tarenate se encontravam na praia para se despedir dos europeus, contudo, a Trinidad estava com dificuldade de se mover, e os marinheiros descobriram que havia água no porão. Espinoza ordenou que o navio fosse descarregado para se procurar os pontos de infiltração, mas nada foi encontrado. O rei Manzor ofereceu cinco de seus mergulhadores, chamados de búzios, para procurarem furos no casco, mas estes não conseguiram encontrá-los. O navio Victoria retornou e ancorou novamente, pois a viagem foi suspensa.

No dia seguinte, outros três búzios mais experientes não conseguiram encontrar também os furos, então o comandante Gonzalo Gomes de Espinoza decidiu permanecer na ilha com a tripulação do Trinidad, onde se descarregaria totalmente o navio e o levaria para a terra para um cais que seria construído, a fim de se consertar os furos, isso levaria semanas. Além disso, ele falara que procuraria seguir rota pelo oriente, atravessando o Pacífico e indo até a Nova Espanha (atual México), de onde a carga seria levada para o Oceano Atlântico e dela retornaria para a Espanha. 


Mas, para não perder mais tempo, foi deliberado que a nau Victoria deveria retornar a Espanha, e Juan Sebástian Elcano que era então seu capitão, e bastante experiente como piloto, foi incumbido de levar as novidades para o rei Carlos I, assim como concluir essa longa e grande viagem. 

Elcano retorna para a Espanha (1521-1522):

No dia 21 de dezembro, dia de São Tomás, por volta do meio-dia a nau Victoria iniciava sua viagem de retorno a Espanha. Durante a manhã os últimos preparativos foram feitos, o que incluiu levar as cartas dos tripulantes do Trinidad, a quais seriam entregues aos seus familiares. No Victoria seguiam 47 europeus e 13 nativos de Tadore, num total de 60 pessoa. Juan Carvalho foi designado como responsável de chefiar aos reparos no Trinidad e permaneceu com 53 europeus na ilha. Meses depois eles retornariam para a Espanha. 


Guiados por guias malaios (pelo fato da língua malaia ser falada em várias ilhas do sudeste da Ásia, os portugueses e espanhóis chamavam essa gente de malaios, embora que na realidade fossem vários povos diferentes), o navio Victoria passou por diversas ilhas que hoje compreende o arquipélago das Molucas; Pigafetta conta que na ilha de Cafi viviam pigmeus e na ilha de Sulach viviam canibais. 

Em 10 de janeiro de 1522 devido a uma forte tempestade, Elcano decidiu aportar numa ilha chamada Malua. Antes de aportarem eles tiveram dificuldades devido a correnteza e os ventos contrários. A ilha era habitada por pagãos, os quais Pigafetta também fala que eram canibais. Ele os descreve como sendo muito selvagens. Todavia, os nativos não lhe causaram problemas, e o navio teve que ficar ancorado ali por quinze dias, devido a um vazamento no casco do navio. 

Os danos não foram tão severos como no Trinidad, mas custou metade de um mês para ser reparados. No dia 25 de janeiro, um sábado, por volta das 22 horas, eles voltaram a seguir viagem e depois de cruzarem cinco léguas em direção ao sudoeste eles chegaram a ilha de Timor (atualmente a ilha é dividida em Timor-Oeste que consiste numa província da Indonésia e no Timor-Leste, um país independente). 

Elcano enviou Pigafetta e outros homens para comprar víveres, mas Pigafetta conta que o rei chamado Amabán ofereceu búfalos, porcos e cabras, contudo exigiu um preço muito alto, e o negócio não foi fechado, então eles foram negociar com outro chefe chamado Balibo, mas dessa vez, capturaram o mesmo e o ameaçaram de morte. O chefe concordou em lhes dá comida, então foi liberado. 

Para evitar que acabassem encontrado navios portugueses, Elcano decidiu seguir por uma rota muito mais longa e difícil: ao invés de navegar pela costa de Java, Sumatra, passar por Malaca seguir para a Índia e de lá ir para África, ele decidiu partir de Timor e seguir diretamente para a África, para o Cabo a Boa Esperança (hoje localizado na África do Sul). Entretanto, em seu relato Pigafetta dedica várias páginas a descrever os produtos, costumes e a contar algumas histórias e lendas que ouviu falar sobre várias ilhas e até mesmo sobre a Índia e a China, mas pelo fato de não ter visitado tais locais, omitirei tais relatos e darei continuidade a expedição. 

Elcano decidiu partir no dia 11 de fevereiro, seguindo curso até Sumatra e de lá cruzando o Oceano Índico até o Cabo da Boa Esperança. No meio da viagem, alguns sugeriram mudar a rota até Moçambique, contudo, aquela cidade era aliada dos portugueses e como Elcano sabia que Portugal estava procurando por eles, seria arriscado chegarem em Moçambique, em manteve as instruções de continuar a navegar diretamente para o cabo.


"Para doblar el cabo de Buena Esperanza habíamos llegado hasta los 42° lat. S. (155), pero estuvimos detenidos nueve semanas con el aparejo aferrado, porque reinaban vientos duríssimos del O. y del SO. que nos cogían de proa. Aquel cabo está á los 34° 30' lat. S., dista 1.600 leguas del cabo de Malaca y es el cabo más peligroso del mundo". (PIGAFETTA, 1899, p. 103). 

Originalmente quando o navegador português Bartolomeu Dias descobriu em 1488 o cabo, ele o chamara de Cabo das Tormentas devido aos fortes correntezas, ventos e o número de tempestades naquela área, contudo, o rei de Portugal, D. João II não gostou desse nome e o renomeou para Cabo da Boa Esperança. 

O Cabo da Boa Esperança, África do Sul. 
A 6 de maio de 1522 o Victoria cruzava o cabo, e Elcano decidiu seguir viagem direto para a Espanha. Pigafetta conta que por dois meses eles não pararam em terra, embora não estivessem tão longe da costa africana, e nesse tempo alguns membros da tripulação adoeceram e ao todo morreram vinte e um. No começo de julho devido a falta de comida e de água e a ameaça de mais mortes, Elcano decidiu realizar uma parada em Cabo Verde, território dos portugueses.

"Carecíamos completamente de víveres e se o céu não nos tivesse concedido tempo bom, teríamos morrido todos de fome. Na quarta-feira, 9 de julho, descobrimos as Ilhas de Cabo Verde e ancoramos na que chamam Santiago". (PIGAFETTA, 1985, p. 184).

O arquipélago do Cabo Verde.
Ao aportarem em Santiago, Elcano instruiu os homens que iriam até a cidade comprar comida, que mentissem acerca de onde estavam vindo. Sabendo que algum problema poderia ocorrer, ele ordenou que dissessem que o mastro havia quebrado e eles aportavam ali para concertá-lo e comprar comida, além disso, o navio estava vindo da América. Por duas vezes uma chalupa do Victoria foi buscar comida, mas na terceira vez os portugueses desconfiaram daquilo, e um dos homens acabou contando a verdade e o barco foi confiscado e ele e os demais foram detidos, totalizando 13 presos. Notando que barcos se aproximavam do navio, Elcano ordenou que as velas fossem içadas e que se partissem o quanto antes. Os 13 tripulantes foram deixados para trás. 

Tendo e abastecido com comida e água, decidiu-se seguir novamente viagem direto a Espanha e a 6 de setembro de 1522, num sábado, eles aportaram em San Lúcar de Barrameda, porto no qual haviam partido há mais de três anos. A bordo do Victoria chegavam dezoito homens, sendo que vinte um morreram durante essa parte da viagem, treze foram detidos em Cabo Verde, e Pigafetta conta que alguns fugiram antes ainda no Timor, em algumas das paradas que se fez, e outros foram executados por traição, embora ele não relate tais incidentes em seu diário. Os 18 homens chegaram bastante magros e enfermos. No dia 8 de setembro, eles já se encontravam em Sevilha, e quando chegaram dispararam os canhões em aviso e celebração. 

Representação do navio Victoria
Depois de percorrerem 14.460 léguas [de acordo com Pigafetta] e 1081 dias de viagem, eles retornavam para Sevilha, após darem a volta ao mundo, a primeira viagem de circum-navegação bem sucedida. A 9 de setembro, todos os 18 homens desembarcaram, e seguindo descalços, cada um carregando um pedaço da vela, eles foram em procissão até a Igreja de Nossa Senhora da Vitória (conhecida hoje em dia como Catedral de Santa Maria da Sede) e depois à de Santa Maria de Antigua, como havia prometido anteriormente. As vezes a História e o Destino são irônicos, o navio que completou essa grande viagem chamava-se Victoria, e a igreja que os 18 tripulantes se dirigiram para agradecer a Deus pelo retorno, é dedicada a vitória. 

Catedral de Santa Maria da Sede, a qual 1522, Juan Sebástian Elcano e seus homens foram agradecer pelo retorno da longa viagem. 
Os dezoito tripulantes que chegaram a bordo do Victoria eram:
  • Juan Sebastián Elcano
  • Francisco Albo
  • Miguel de Rodes
  • Juan de Acurio
  • Martin de Yudicibus
  • Hernando de Bustamonte
  • Hans Vargue 
  • Diego Gallego
  • Nicolas de Nápoles (Nicolas, o Grego)
  • Miguel Sanchez 
  • Francisco Rodriguez
  • Juan Rodriguez
  • Antonio Hernadez
  • Juan de Arratia
  • Juan de Santander
  • Vasco Gallego (Vasco, o Português)
  • Juan de Zubileta
  • Antonio Lombardo (Antonio Pigafetta)
Placa comemorativa na cidade de San Lucár de Barrameda com o nome dos 18 tripulantes que retornaram a 6 de setembro de 1522 a bordo do navio Victoria da Expedição de Magalhães. 
Considerações finais: 

Em 13 de setembro, Elcano recebeu uma carta do rei Carlos I lhe dando os parabéns por ter completado a jornada e lhe solicitava a presença a Corte. Entre aqueles que seguiram com Elcano estava Antonio Pigafetta o qual ofereceu seu diário de bordo ao rei, como sendo seu maior presente ao monarca espanhol, além de outros presentes. Contudo, Pigafetta dissera que seu livro era mais valioso que ouro e prata os quais poderia ofertar ao rei, pois naquelas páginas estavam a história dessa grande jornada. 

Durante a reunião, o rei Carlos I foi informado do incidente que houve em Cabo Verde e tratou de enviar uma carta ao rei D. João III de Portugal para liberar os espanhóis detidos e os enviar de volta ao seu país. Entre as mercês que o rei deu a Elcano estava uma pensão anual de 500 ducados até o fim da vida, concedeu alguns títulos, concedeu a permissão de possuir sua própria guarda pessoal, concedeu um brasão para sua família, onde estava escrito "Primus circundedisti me" (O primeiro que me circum-navegou). O restante da tripulação também recebeu mercês, inclusive a quarta parte da carga que o Victoria trazia foi dividida entre os tripulantes. Ortega [1764] nos conta que a carga era composta por 536 quintais de cravo-da-índia, alguma quantidade de canela, noz moscada e sândalo. 

Escudo de armas de Juan Sebastián Elcano.
Alvarez de Mezquita que era capitão do San Antonio, passou algum tempo preso, devido a ter sido enganado pelos traidores que lhe usurparam o controle do navio, mas naquele ano foi libertado. Carlos Magalhães o filho mais novo de Fernão havia morrido pouco tempo depois de ter nascido, e no ano de 1522, Beatriz e Rodrigo Magalhães haviam falecido. A herança e Fernão foi dividida entre as igrejas que ele deixou escrito no testamento e o restante foi dado ao seu sogro, Diego Barbosa. 

Antonio Pigafetta conta que depois seguiu viagem para Portugal para falar acerca da viagem que participou ao rei D. João III, como também lhe deu alguns presentes. De lá ele retornou para a Espanha e seguiu a França, onde presenteou o rei Francisco I, então seguiu viagem a Itália. Em 1523 seu diário foi publicado como livro na Espanha por ordem do rei Carlos I, posteriormente em 1525 foi publicado em Paris uma segunda edição. Tal obra consistiu no relato da primeira viagem ao redor do mundo, e de fato o título que Pigafetta deu ao livro era esse. 


Mapa com as rotas seguidas por Fernão de Magalhães e depois por Juan Sebastián Elcano. Alguns mapas possuem mostram as rotas de forma errada, assim como, a localização das Ilhas Desventuradas se encontram localizadas erradamente. Alterei esse mapa para corrigir tais erros.
Em termos econômicos a viagem foi um fracasso, pois a carga do Victoria e posteriormente do Trinidad não cobriram os gastos com a expedição, embora que devido a morte de vários tripulantes e a traição da tripulação do San Antonio, o governo suspendeu os pagamentos. Excetuando-se essa questão a viagem foi um sucesso, pois comprovaram a existência de um estreito no sul da América do Sul, o qual foi renomeado como Estreito de Magalhães; descobriu-se parte da extensão do Oceano Pacífico, descobriu-se uma nova rota para as Índias (a qual Colombo tentou encontrar), firmou-se acordos com senhores nas Filipinas e nas Molucas, pois posteriormente os espanhóis tornariam as Filipinas uma colônia e disputariam as Molucas com os portugueses. Se pois fim a dúvida de que o mundo era plano, definitivamente ele é redondo. 

NOTA: Em 1543, a expedição de Ruy López de Villalobos rebatizou as ilha de Samar e Leyete com o nome de Filipinas. Posteriormente o arquipélago de San Lázaro passou a ser conhecido como Filipinas, nome que conserva até hoje. O nome foi escolhido para homenagear o então rei Filipe II de Espanha, que também se tornou soberano de Portugal de 1580 a 1598, durante o período da União Ibérica (1580-1640).
NOTA 2: Além de nomear o estreito descoberto como Estreito dos Patagões, a 1 de novembro de 1520, dia de Todos os Santos, Magalhães rebatizou para Estreito de Todos os Santos. Apenas anos depois foi renomeado para Estreito de Magalhães. 
NOTA 3: Durante a travessia do Oceano Pacífico, Magalhães relatou que viu densas nuvens no céu noturno, nuvens de estrelas. Posteriormente, descobriu-se que se tratava de duas densas galáxias e foram nomeadas Nebulosas de Magalhães ou Nuvens de Magalhães
NOTA 4: Devido a inexistência da Linha Internacional de Data, Antonio Pigafetta quando se encontrava em Santiago no Cabo Verde achou estranho ser dia 9 de julho de 1522, pois ele pensava que fosse 8 de julho, pois acreditava que como navegaram para o Poente, navegavam contra a contagem habitual de tempo, e isso significava que estavam fazendo um dia a menos. Uma delegação foi enviada pelo rei Carlos I ao papa Adriano VI e o papa reuniu alguns astrônomos e outros estudiosos para averiguar o por que dessa diferença fuso horária. 
NOTA 5: Juan Sebastián Elcano faleceu em 4 de agosto de 1526 vítima de escorbuto durante uma viagem pelo Pacífico, a bordo do navio Victoria, enquanto participava da Expedição de García Jofre de Loaísa para se conquistar as Molucas para o reino de Espanha. 
NOTA 6: Antonio Pigafetta ao voltar a Itália e depois seguir para Malta, foi nomeado Cavaleiro da Ordem de Malta. De fato na segunda edição e seu livro, ele assina usando seu título de cavaleiro.
NOTA 7: Pigafetta era chamado de Antonio Lombardo, pois nasceu em Vicenza na região da Lombardia no norte da Itália.  
NOTA 8: A segunda viagem de circum-navegação concluída com sucesso foi feita pelo corsário e pirata inglês Francis Drake entre 1577 e 1580. Anteriormente, García Jofre de Loaísa tentou realizar uma segunda viagem de volta ao mundo, mas a expedição falhou nesse sentido. 

Referências Bibliográficas:
PIGAFETTA, Antonio. Primer Viaje Alrededor del Mundo. Tradução de Dr. Carlos Amoretti, notas por Manuel Wallis y Merino. Madrid, 1899.
PIGAFETTA, Antonio. A Primeira Viagem ao Redor do Mundo: o diário da expedição de Fernão de Magalhães. Tradução de Jurandir Soares dos Santos, introdução e notas de Carlos Amoretti. Porto Alegre, L&PM, 1985. 
MEDINA, José Toribio. El descubrimiento del Océano Pacífico: Hernando de Magallanes y sus Compañeros. Santiago do Chile, Imprensa Elzeveriana, 1920. 
ORTEGA, Casimiro de. Resumen Historico del primer viage hecho al rededor del Mundo, empreendido por Hernando de Magallanes, y llevado felizmente á termino por el famoso capitan español Juan Sebástian del Cano, natural de Guetaria en Guipuzcoa. Madrid, Imprensa Real da Gazeta, 1769. 
ARANA, Diego Barros. Vida i Viajes de Hernando de Magallanes. Santiago de Chile, Imprensa Nacional, 1864. 
ZUBIZARRETA, Nicolas de Soraluge y. Defensa del apellido familiar de Juan Sebástia Del Cano. San Sebastian, Estabelecimento Tipográfico de Oses, 1881. 

Link relacionado:
Portugal e a Era dos Descobrimentos

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