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Leandro Vilar

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Referências em Game of Thrones

A popular série de fantasia medieval Game of Thrones, exibida e produzida pelo canal HBO, baseada na série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo de George Raymond Richard Martin, definitivamente já é um fenômeno internacional, e uma das séries mais caras, assistidas e premiadas da história da teledramaturgia. Nos últimos anos têm se escrito sobre os livros e o seriado, artigos, livros, postagens em blogs etc. Todavia, também surgiram em alguns debates pela internet a dúvida acerca das referências históricas que aparecem nos livros e na série: seriam os Greyjoy uma referência aos vikings? Na Idade Média havia realmente essa disputa pelo trono? Os nobre viviam realmente em gigantescos castelos? As relações de vassalagem e suserania como são mostradas na série, correspondem a realidade? Havia comércio durante o feudalismo? 

Essas entre outras perguntas marcam presença nas pautas destes debates, apesar de que haja gente que diga que pelo fato da história possuir dragões, magia, mortos-vivos etc., isso a torne uma fantasia, sem conexão nenhuma com a realidade. Não é assim. O próprio autor George Martin em algumas entrevistas, já declarou que se baseou em acontecimentos históricos para conceber elementos de sua trama. Logo, a proposta deste texto é comentar a respeito de algumas referências históricas, mas também geográficas, mitológicas, lendárias etc., que se encontram presentes no universo fantástico das Crônicas de Gelo e Fogo. Para isso, optei em dividir em tópicos o assunto, a fim de facilitar a leitura. 

A Muralha:

No primeiro livro Guerra dos Tronos (Game of Thrones) e na primeira temporada da série, somos apresentados a Muralha (The Wall), uma gigantesca construção de gelo maciço, com 500 km de extensão e 200 metros de altura, construída 8 mil anos antes do presente dos acontecimentos da trama, por Brandon Stark, o Construtor, para proteger o Reino do Norte da ameaça dos Selvagens, Gigantes, Caminhantes Brancos entre outras feras que habitam aquelas hostis terras congeladas do extremo norte do continente de Westeros

Mas apesar de se tratar de uma construção fantástica que possui um importante papel na narrativa das Crônicas, pois é o local onde se desenrolam momentos cruciais, envolvendo a relação da Patrulha da Noite com os Selvagens, e no caso do seriado, o conflito com a mortífera ameaça do Rei da Noite e os Caminhas Brancos, a Muralha foi baseada numa construção real. No caso já li gente dizendo que devido as dimensões dela, a Muralha foi inspirada na Grande Muralha da China, mas não é bem assim. Martin não foi até o outro lado do mundo para colher inspiração, ele foi num lugar mais próximo, na Inglaterra, onde existem duas muralhas bem antigas, as quais serviram de inspiração. 

Ilustração da Muralha vista a partir do território selvagem. 
No século I d.C, dois imperadores romanos construíram no norte da Bretanha (atual Inglaterra), muralhas para proteger a fronteira, mas também evitar que os "bárbaros" Pictos descessem para saquear as terras do império. Pelo fato de que nem mesmo as poderosas legiões romanas conseguiram enfrentar o frio e o rigor das terras escocesas, o imperador Adriano (117-138) ordenou que uma longa muralha fosse construída para proteger seu império naquela parte do mundo. 

A construção se iniciou no ano de 122, tendo sido construída as pressas pelas legiões romanas. Em 126 ou 128 ela foi oficialmente concluída, possuindo na época 118 km de extensão. Mas diferente a muralha de Westeros, a Muralha de Adriano era algo bem mais simples, inclusive, o sucessor de Adriano, o imperador Antonino Pio (138-161), ordenou a construção de uma nova muralha, 160 quilômetros ao norte da fronteira estabelecida por seu antecessor. A Muralha de Antonino apesar de ser mais curta, possuindo 63 km de extensão, era em alguns trechos mais alta e melhor fortificada. Foi concluída por volta de 142. 

Porém, a influência as muralhas romanas para a obra de George Martin, fica mais clara quando olhamos o mapa de Westeros e Essos e os comparamos com a geografia real da Terra, algo que será comentado no próximo tópico. 

Mapa-múndi:

Nas Crônicas de Gelo e Fogo nos são apresentados mapas do continente Westeros, onde ocorre a maior parte da trama, do continente de Essos, onde acontecem vários acontecimentos importantes, especialmente relacionados com a trajetória de Daenerys Targaryen, além de ser mostrado também ilhas e silhuetas dos continentes e Sothoryos e Ulthos. Todavia, apesar do mapa de Westeros e Essos nos fascinar por seus detalhes geográficos, especialmente o primeiro, onde se notou mais esmero do autor em detalhar a geografia daquele continente. No entanto, Westeros não é fruto totalmente da mente de Martin, o escritor americano se baseou na geografia do Reino Unido para criar Westeros. 

Neste caso, o Reino Unido é formado pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e a região norte da Irlanda, além de uma série de ilhas. Porém, Martin considerou utilizar os mapas da Inglaterra, País de Gales, Escócia (que se situam na ilha da Bretanha) e toda a ilha da Irlanda em si, não apenas a porção norte. Na imagem comparativa abaixo, podemos ver como o mapa da Bretanha e da Irlanda serviram de inspiração para a criação do continente fantástico de Westeros. Ao mesmo tempo percebe-se que a Muralha de Adriano, fica situada numa faixa de terra bem similar A Muralha de Westeros, além do fato de que a Escócia representa a terra congelada e hostil em Westeros. 



É evidente que mudanças climáticas foram feitas, pois a Escócia apesar de fria, ainda assim não é um deserto gelado como o norte para além da Muralha de Westeros. Não obstante, o norte da Irlanda, que foi invertido, tão pouco é uma região de clima quente com direito a deserto, como é o caso de Dorne, no sul de Westeros. Apesar que Dorne foi inspirada na Península Ibérica e o norte do Marrocos. Inclusive os dorneses lembram em alguns aspectos físicos e culturais a cultura moura que se estabeleceu em Portugal e Espanha ao longo do medievo. De qualquer forma nota-se as semelhanças geográficas entre os dois mapas. Mas e quanto a Essos, Sothoryos e Ulthos?

O mapa do continente de Essos consiste numa adaptação do sul da Europa, já Sothoryos seria o norte da África, e Ulthos que se encontra no extremo oriente do mundo, equivale a Ásia. Neste caso, Sothoryos e Ulthos para os habitantes de Westeros, responsáveis pelo mapa-múndi mostrado nos livros e na série, consistem em terras exóticas e pouco conhecidas, daí nos seus mapas, estes continentes estarem incompletos.  


Os continentes e Westeros, Essos, Sothoryos e Ulthos, em mapa feito especialmente para o livro The Lands of Ice and Fire, 2012. 
Se comparado ao mapa da Europa, Essos, representa a porção sul do continente, englobando países como França, Itália, Grécia e a região do Bálcãs. Neste caso, as terras da Antiga Valíria, são similares a Grécia, inclusive a Baía de Escravos foi baseada no Mar Egeu e no Mar Negro, assim como, as cidades de Nova e Velha Ghis, Astapor, Yunkai, Meereen e a região de Qarth, são uma mistura da Ásia Menor, do Levante (Síria, Líbano e Israel) e do Egito (principalmente por causa das pirâmides e grandes monumentos). 


Mapa comparativo entre os territórios de Valíria e as terras da Baía dos Escravos, com o mapa da Grécia, o Mar Egeu e a Turquia. 
Alguns estudos apontam que as regiões de Westeros foram baseadas nas nações europeias: O norte para além da Muralhe geograficamente é a Escócia; Dorne foi inspirada em Portugal e Espanha, Jardim de Cima seria uma referência a França, o Vale seria a Suíça, Correrio e a região entorno do Tridente, uma alusão a Holanda e Bélgica, o Norte uma referência a Alemanha, as cidades livres de Essos seriam referências as cidades-Estados italianas, Valíria seria um misto de Grécia e Roma etc. De fato Martin não confirmou isso, apesar de dizer que realmente há influência em alguns casos.

O Longo Inverno:

Saindo um pouco da história, e agora adentrando o campo da mitologia, nos livros e no seriado, a Casa Stark tem como lema "O inverno está chegando". Desde o primeiro livro e da primeira temporada o lema é apresentado, e Ned Stark apresenta preocupação que os longos invernos que duram anos estejam perto de acontecer. Martin não explica porque existem verões e invernos que duram anos, simplesmente eles ocorrem há milhares de anos. O Norte devido a sua localidade, constantemente convive com a neve, pois mesmo nos verões frios chega a nevar um pouco. Todavia, quando se fala do "Longo Inverno", até mesmo as terras ao sul do Tridente (marco de divisão entre o Norte e o Sul), chega a nevar. Dorne pelo que parece fica livre disso. 

De qualquer forma, essa ideia de longos invernos que durariam anos interruptos encontra um respaldo na mitologia nórdica. Em alguns mitos é dito que um dos sinais para o Ragnarök seria a chegada de um rigoroso inverno chamado Fimbulvertr (literalmente longo inverno), o qual duraria três anos consecutivos, lançando o mundo no frio e na escuridão. Pelo fato da mitologia nórdica ser baseada na geografia e no clima escandinavo, lá durante o inverno os dias são curtos e as noites são longas, daí se falar que no Fimbulvertr praticamente não haveria dia, apenas noite. 

Entretanto, os mitos informam que ao término do Fimbulvertr, o mundo estaria desolado, e os humanos que sobrevivessem a este, testemunhariam o confronto final entre os deuses e os gigantes, pois é dito que um dos sinais para o começo do Ragnarök é a condição do gigante Loki se libertar de sua prisão, e com isso ele decide convocar os mortos de Hel e os gigantes, para marchar contra os deuses. No caso das Crônicas de Gelo e Fogo sabe-se que os Caminhantes Brancos são a grande ameaça do Norte, isso mais do que os selvagens e os gigantes, pois eles conseguem transformar os mortos em zumbis. Isso de certa forma lembra a mitologia nórdica, principalmente em Game of Thrones onde o Rei da Noite tornou-se figura de destaque e a maior ameaça de todas desde a quinta temporada. O fato do Rei da Noite liderar um exército de mortos-vivos e que incluem alguns gigantes, lembra o que Loki faz no mito, apesar de ambas as figuras serem totalmente diferentes. 

Ilhas de Ferro e a pirataria:

Ainda é comum esse debate se os Greyjoy e a população das Ilhas de Ferro seriam inspiradas de fato nos vikings, ou trata-se apenas de um exagero por parte dos fãs dos livros e da série. Neste caso, tal povo que consistia em um dos antigos Sete Reinos é conhecido por sua marcialidade, arrogância e rudeza. Vivem basicamente da pilhagem, assaltando navios e outros territórios de Westeros e de outros lugares. Ou seja, são piratas natos e devotos. O próprio lema da Casa Greyjoy "Nós não semeamos", apresenta essa percepção de que eles não estão interessados na agricultura, pastoril, manufatura ou comércio, o negócio deles é tomar os outros para poder sobreviver. Porém, é informado que um dos fatores para essa vida e pilhagens se deva a condição que o solo das ilhas de Ferro seja pobre e em alguns lugares até mesmo infértil, o que forçaria seus habitantes a procurar comida em outro lugar.


O kraken é o brasão da Casa Greyjoy. 
Agora vamos as comparações. Muitos alegam que o fato de os vikings terem sido um povo bravo, rude e guerreiro é a principal semelhança que se encontram com a população das Ilhas de Ferro, algo que inclusive alude a severidade aquele território e sua gente. Todavia, essa noção é pautada principalmente no estereótipo do viking, cuja imagem vem sendo desenvolvida desde o século XIX. Apesar de os vikings realmente terem sido guerreiros, exploradores e conquistadores, levando guerra para várias regiões da Europa, eles não era um povo exclusivamente marcial e pirata. 

Diferente dos homens das Ilhas de Ferro os quais se dedicam a guerra e a pilhagem, relegando demais afazeres aos escravos, os vikings para além de guerreiros, eram agricultores, pastores, caçadores, pescadores, construtores, artesãos, comerciantes etc. Não havia uma força armada oficial e tão pouco nacional antes do século XI, além do fato que os homens não viviam o tempo todo ocupados com ofícios militares. Quanto a pilhagem, isso ocorreu, mas nota-se que em determinadas épocas era mais recorrente que outras, diferente do estereótipo de que os vikings saiam todo ano para saquear. Outro fato importante a salientar é que os vikings também foram exímios comerciantes, tendo criado rotas comerciais da Suécia a Constantinopla (atual Istambul na Turquia), e até mesmo encontram-se relatos de comerciantes vikings negociando com mercadores árabes na região do Mar Cáspio. Entre os séculos VIII e XI algumas cidades norueguesas, suecas e dinamarquesas prosperaram com base no comércio regional e continental.

Martin conta que os habitantes das Ilhas de Ferro adoram principalmente uma divindade, que é o Deus Afogado. O qual possui um salão submarino para onde vão os mortos beber cerveja, a qual é servida por belas sereias. Os vikings eram povos politeístas, cultuavam vários deuses e possuíam várias crenças acerca de mundos da morte. Curiosamente existia uma deusa chamada Rán, a qual possuía um salão submarino, que acolhia aqueles que morriam em naufrágios ou no mar. Em seu salão as pessoas beberiam cerveja. Nota-se aqui uma semelhança entre Rán e o Deus Afogado, apesar que na mitologia nórdica não existam sereias, elemento este que Martin acrescentou, além do fato que Rán é uma divindade de pouca expressividade nos mitos e no que se conhece da religião nórdica antiga. 

Outro fato interessante é que as Ilhas de Ferro possuem uma assembleia chamada Kingsmoot, convocada quando se existe uma crise para se definir a sucessão real. Tal assembleia para definir o próximo rei das Ilhas de Ferro é descrita no quarto livro, O Festim dos Corvos e é retratada na sexta temporada. Com a morte de Balon Greyjoy, o trono por direito passa para seu filho Theon, mas este não se encontra presente no arquipélago (na série ocorre o contrário, ele participa apoiando sua irmã). Devido a sua ausência, sua irmã Asha (Yara no seriado) lança sua candidatura ao trono, porém, dois de seus três tios, Euron e Victarion também entram na disputa. Além dos três Greyjoy, outros nobres do arquipélago também participam do Kingsmoot (isso no livro). No final, Euron vence a disputa. 

No caso dos vikings não havia assembleias como essa. Os reis vikings antes do século XI, quando os reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega finalmente se estabilizam, vivenciavam confrontos entre as dinastias que ambicionavam o controle do maior número de terras. A Dinamarca vivenciou menos estes conflitos, porém, a Noruega e a Suécia vivenciaram várias guerras entre casas nobres que disputavam os pequenos reinos. Não havia uma assembleia para definir quem seria o próximo rei, havia acordos, alianças militares e matrimoniais para assegurar o poder. 

Em linhas gerais os habitantes das Ilhas de Ferro não seriam propriamente baseados nos vikings, mas inspirado no estereotipo de piratas, pois muito do comportamento mostrado por este povo, lembra o que os piratas do Caribe faziam: viver como foras da lei, não obedecer ou reconhecer outros governos, vivendo sob sua própria conduta e liderança; não cultivarem a terra, ou criar animais, ou fazer comércio, mas viver basicamente do saque, roubos, assaltos e contrabando. Levarem uma vida severa e rude. 

Dothraki e a influência mongol:

Os dothraki são um povo de cavaleiros que habitam as grandes planícies do centro de Essos, as quais eles chamam de "Mar de Grama". Eles possuem uma capital sagrada chamada Vaes Dothrak "Cidade dos Montadores", mas as tribos vivem de forma nômade, praticando a pecuária extensiva, mas sobretudo vivem da pilhagem e em alguns casos atuam como mercenários. No primeiro livro e na primeira temporada vemos o príncipe Viserion Targaryen negociando com um chefe dothraki chamado Khal Drogo, para que este lutasse por ele no intuito de reconquistar o Trono de Ferro. Viserion oferece a própria irmã Daenarys em casamento, como parte do acordo. 

Nos livros é dito que os dothraki se dividem em khalasar, que é comandado pelo guerreiro mais forte, o qual recebe o título de khal. Sua esposa é chamada e khaleesi. Os khalasar costumam se reunir em sua capital para participar e algumas celebrações religiosas, levar escravos, oferendas e presentes, além do fato de que um novo khal deve se apresentar publicamente ao seu povo, para legitimar seu comando. Na cidade vivem as viúvas que um dia foram khaleesi, elas formam as Dosh Khaleen, e são obrigadas a jamais abandonarem a cidade, além de serem submetidas a levar uma vida de exclusão do restante da sociedade. 



Daenarys (Emília Clarke) como prisioneira dos dothraki, em cena da sexta temporada e Game of Thrones
Os dothraki são descritos como sendo selvagens cavaleiros, demasiadamente agressivos e de hábitos rudes e animalescos, verdadeiros bárbaros no melhor sentido da palavra. Porém, tudo isso não é fruto apenas da imaginação fértil de George Martin, algumas coisas associadas a este povo das estepes de Essos advém de um povo real, os Mongóis. 

Os mongóis entraram mais especificamente na História no século XIII, quando seu maior líder, o imperador Genghis Khan (c. 1160-1226) unificou os clãs mongóis e foi proclamado primeiro imperador de uma Mongólia unificada, dando início a uma série de longas guerras que fundaram as bases de um império continental. Em termos sociais os mongóis por séculos foram um povo nômade, vivendo do pastoril, coleta, caça e pesca e da agricultura quando possível. Era comum entrarem em conflito com outros clãs e até fazerem expedições de saque a povos vizinhos, especialmente os chineses, por serem os vizinhos mais prósperos. Tanto para os povos asiáticos quanto europeus, os mongóis ficaram conhecidos como bárbaros cruéis. Os chineses que se consideravam bastante civilizados, os viam como selvagens. Os europeus os consideravam monstros, devido a sua aparência, roupas, gritos e forma de lutar. De fato Martin soube usar isso ao criar os dothraki. 

Além de tais características outras podem ser citadas: a palavra khalasar é inspirada em canato (domínio de um khan). Por sua vez, khal é inspirado em khan (senhor). A cidade de Vaes Dothrak é inspirada em Caracórum, antiga capital do Império Mongol, que possuía papel mais de caráter político e religioso, do que ser um centro urbano. Uma cidade sem muros e basicamente formada por várias tendas. Algo que se assemelha com a descrição de Vaes Dothrak. Além dessas características citadas, dothrakis e mongóis prezavam muito pelos cavalos, mas enquanto para os dothrakis tais animais são sagrados e até mesmo divino, pois existe o Grande Garanhão, que é o principal deus deles, os mongóis cultuavam distintos deuses, sendo que um dos mais referenciados era Tengri, o senhor do trovão e do céu. Além de que os cavalos não eram vistos como sagrados ou divinos. 

Percebe-se que em termos comportamentais, sociais, estilo de vida etc., os dothraki são parecidos com os mongóis. Apesar que eles usem pouca roupa, diferente dos mongóis que devido ao clima frio das estepes, tinham que se agasalhar bem. E quanto os dothraki homens tem o hábito de deixar os cabeços e barba crescerem, os mongóis não possuíam isso, preferindo optar no lugar da barba, por um bigode e cavanhaque. 

O Titã de Bravos:

O Titã de Bravos consiste numa grande estátua de um guerreiro trajando armadura, e armado com espada e escudo, que guarda a entrada do porto da cidade livre e mercantil de Bravos na costa ocidental de Essos. Bravos é descrita como uma cidade mercantil bastante importante por abrigar o poderoso Banco de Ferro, mas apesar dessa concentração de dinheiro, a cidade é subdesenvolvida em vários bairros. Além disso, conta-se que seus fundadores foram escravos e gente pobre migrada do Império Valiriano após a destruição de sua capital. 

Mas voltando ao Titã, este consiste numa gigantesca estátua de granito e bronze erguida na entrada da cidade, cuja aparência é de um guerreiro trajado com armadura e elmo, e armado com espada e escudo. No livro não há uma descrição clara da estátua, mas na série ele lembra muito um hoplita grego. O propósito dessa grande estátua seria servir de sistema de defesa, pois lendas contam que caso a cidade fosse ameaçada, a colossal estátua ganharia vida para destruir os inimigos. Todavia, é revelado que luzes são acesas em seus olhos, assim como, fazem-se barulhos dentro de sua cabeça oca, dando a impressão que realmente a estátua estivesse a gritar ou a olhar. 


Cena da quarta temporada de Game of Thrones, mostrando o Titã de Bravos. 
A ideia como dita é inspirada no Colosso de Rodes, estátua de mais de 30 metros de altura erguida em local incerto na cidade de Rodes, capital da ilha homônima, no ano de 280 a.C. A grande estátua diferente de ser um mecanismo de intimidação e supostamente de defesa como o Titã de Bravo, o Colosso de Rodes possuía um aspecto político e religioso. Consistiu na estátua do titã Hélios, senhor do sol, antiga divindade solar cultuada pelos gregos até que o deus Apolo assumiu suas funções. Mas além de ser a estátua de um deus, o monumento foi erguido pelo rei de Rodes para celebrar a vitória contra a invasão macedônica ocorrida em 305 a.C. 

Todavia, as semelhanças entre Bravos e Rodes se encerram por aí. No caso, a geografia de Bravos com suas ilhas e canais lembra muito Veneza, a qual foi uma notória cidade mercantil desde o medievo. 

Joffrey e Sansa da vida real?

No segundo livro, e na segunda e terceira temporada, vemos a tentativa dos Lannister de unir a Casa Baratheon com a Casa Stark, ao tentar casar Joffrey Baratheon, então rei, com Sansa Stark, uma das herdeiras de Winterfell. No desenrolar da trama, na qual Sansa de início se mostrava apaixonada e encantada por Joffrey, a quem ela via como um "príncipe encantado", deixa de lado tudo isso, quando ele manda matar seu pai. Sansa passa a nutrir repulsa e ódio do jovem rei. Porém, mantida como prisioneira real na Fortaleza Vermelha, Sansa se vê no risco e ter que casar com Joffrey, apesar que isso não acabou ocorrendo. 

Todavia, o pretenso casal teve seus nomes inspirados num casal real, Joffre Bórgia (1482-1518) e Sancha de Aragão (1478-1506). Todavia esse casamento não ocorreu por uma relação de amor ou de ódio, mas e interesses políticos. Joffre era o caçula de quatro filhos de Rodrigo Bórgia (então papa Alexandre VI) e de sua amante Vannozza dei Cattanei, a qual era mãe também de Juan, César e Lucrécia. Enquanto os filhos de Rodrigo e Vannozza eram bastardos, pois um clérigo não poderia se casar, no caso de Sancha a situação era similar, pois ela era filha bastarda de Afonso II, rei de Nápoles. O casamento foi promovido por interesses políticos, cujo propósito era unir o papado com o reino napolitano. 

Na prática os dois personagens só compartilham o nome mesmo, pois Joffre não foi um homem sádico como o rei Joffrey. Assim como, Sancha não foi uma mulher frágil como Sansa, inclusive boatos diziam que ela traia o marido. Mas para encerrar, vejamos as comparações dos retratos dos dois personagens históricos com os atores do seriado. Curiosamente eles são bem parecidos!


Na esquerda Sophie Turner como Sansa Stark. Ao lado um retrato de Sancha de Aragão. Assombrosamente essa imagem de perfil é bem parecida.
Na esquerda o retrato do jovem Joffre Bórgia. A direita o ator Jack Gleeson como Joffrey Baratheon. 
Mortos-vivos, gigantes e dragões: 

Entre os seres fantásticos que se destacam nos livros e no seriado estão os gigantes, seres que aparecem a partir do terceiro livro, e ganham destaque na quarta, quinta e sexta temporadas da série, especialmente pelo gigante Wun Weg Wun Dar Wun, que acaba tornando-se no seriado mais importante do que nos livros. No caso os gigantes aparecem pouco nos livros e no seriado, são os sobreviventes de uma antiga raça que resistiu ao frio das terras congeladas para além da Muralha, como também aos conflitos com os selvagens, os Caminhantes Brancos e seus exércitos de mortos-vivos.

No caso dos Caminhantes Brancos, também conhecidos como Outros, são humanoides que aparentam ter a pele congelada ou seriam feitos de gelo. O principal traço que os destacam são seus frios olhos azuis, que proporcionam um olhar profundo e assustador. Nos livros pouco foi dito sobre essas estranhas criaturas que assombram todos aqueles que vivem para além da Muralha. A primeira menção aos Outros ocorre ainda no primeiro livro, apesar que eles se tornaram mais recorrentes através da série, onde aparecem mais vezes, além de que seu líder nomeado Rei da Noite, tornou-se o atual antagonista da trama, já que no livro, oficialmente este personagem não deu as caras ainda, é apenas mencionado como se fosse uma antiga lenda. Inclusive a origem do Rei da Noite no seriado é diferente da versão contada no livro. 


Cena da quinta temporada apresentando o Rei da Noite diante de seu exército de mortos-vivos. 
De qualquer forma, os Outros são responsáveis por trazer de volta a vida os mortos, tornando-os mortos-vivos ou zumbis (utilizando um termo mais corriqueiro hoje em dia). No caso, não se sabe ao certo como isso acontece. Provavelmente trata-se de algum tipo de magia, porém, todo aquele que é morto para além da Muralha ou assassinado por um zumbi, torna-se um morto-vivo. As únicas forma de mata-los é com fogo, vidro de dragão ou aço valiriano. 

Entretanto, das criaturas fantásticas dos livros e do seriado as que atraem mais atenção do público são os dragões. Em vários momentos é dito que a Dinastia Targaryen os criava aos montes, ao ponto de haver um local próprio para manter tais monstros. Alguns spin-off escritos por Martin, comentam mais a respeito dos dragões dos Targaryen, os quais trouxeram essas criaturas aladas consigo quando vieram de Valíria para conquistar Westeros. Mas enquanto esses dragões do passado não nos são apresentados nas Crônicas de Gelo e Fogo em Game of Thrones, nos resta acompanhar os três filhos de Daenarys, os dragões Drogon, Rhaegal e Viserion, nomes dados em homenagem respectivamente ao seu marido e irmãos, os quais todos acabaram morrendo. 

As feras aladas aparecem ainda como ovos no primeiro livro e na primeira temporada, e ao longo do desenrolar da história vamos acompanhando seu rápido crescimento. No quinto livro os três animais já estão consideravelmente grandes e causam problemas em Meereen. No caso do seriado, a presença dos dragões e o uso deles em ataques e na guerra é mais recorrente, inclusive rouba a cena várias vezes, ainda mais devido aos acontecimentos da sétima temporada, envolvendo eles. 


Daenarys em companhia de seus dragões Drogon (preto), Viserion (branco) e Rhaegal (verde), em cena da terceira temporada e Game of Thrones
Todavia, alguns devem está se perguntando: por que o autor decidiu comentar a respeito dessas criaturas? Já que eles são seres fantásticos e não existem? O que teria haver comentar essas referências? Como os livros e o seriado são baseados em alguns aspectos da Idade Média europeia (476-1453), é preciso saber que as pessoas daquela época realmente acreditavam que monstros fossem reais. Existem relatos orais, escritos e iconográficos que representavam histórias sobre gigantes, mortos-vivos e dragões. 

Na Alemanha, Inglaterra e Escandinávia era comum ouvir histórias de gigantes, (inclusive os gigantes povoam as mitologias de vários povos do mundo), e que em determinadas épocas do ano, especialmente entre os meses de outubro e janeiro, os mortos saiam de seus túmulos em forma física tendo o corpo normal, ou apodrecido, ou só em ossos ou como fantasma. Algumas dessas narrativas eram chamadas de caçada selvagem, marcha dos mortos, noite dos fantasmas etc. Diziam que estes espíritos retornavam ao mundo dos vivos para visitá-los, para se divertir, para se lamentar, para caçar, para viajar ou para assombrar e castigar os vivos. A coisa era tão séria que as autoridades civis e eclesiásticas recomendavam cautela nas noites em que se acreditavam que as fronteiras entre a Terra e o Inferno (pois os mortos que foram ao Paraíso, não voltavam) sumiam. 

Logo, a ideia de um exército e mortos-vivos, algo mais perceptível no seriado do que nos livros, realmente alude as crenças que os povos europeus do medievo acreditavam ser reais. A ideia que hoje possuímos que o natural e o sobrenatural sempre foram facilmente desassociáveis, não é exata. Por outro lado, não eram apenas os gigantes, zumbis e fantasmas que preocupavam os vivos, dragões também eram tidos como criaturas reais, que habitavam cavernas, e lugares ermos, os quais poderiam nadar ou voar e cuspiriam fogo. Os bestiários, enciclopédias sobre animais fantásticos e reais, dedicavam páginas a falar sobre dragões, além disso, tais criaturas eram pintadas e esculpidas mesmo nas igrejas, pois dragões simbolizavam o mal e Satanás. 

Fogo-vivo x Fogo-grego:

Uma das armas secretas usada por Aerys II Targaryen, o "Rei Louco", era o chamado fogo-vivo, um líquido altamente volátil e inflamável, cujas chamas são de um verde brilhante. Este líquido consegue queimar sobre a água e é difícil de ser apagado. Essa poderosa e perigosa substância foi desenvolvida há muito tempo por piromantes da Guilda dos Alquimistas, mas sua fórmula foi guardada em segredo. Inclusive o Rei Louco cogitou incendiar todo Porto Real (capital de Westeros), em um de seus surtos. Apesar de tal atrocidade não ter ocorrido, o fogo-vivo foi usado algumas vezes nos livros e na série. Os momentos mais memoráveis são a destruição da frota de Stannis Baratheon na Batalha da Água Negra, que é descrita no segundo livro e na segunda temporada, e no caso específico da série, o incêndio do Grande Septo, o maior templo de Porto Real. 


O incêndio de fogo-vivo sobre a frota de Stanni Baratheon, durante a Batalha da Água Negra. Cena do último episódio da 2 temporada de Game of Thrones
Todavia, essa poderosa arma química não é coisa da ficção, mas baseada numa arma real, o chamado fogo-grego. Não se sabe exatamente quando tal substância inflamável foi criada, mas atribui-se sua origem aos bizantinos por volta do século VII, os quais desenvolveram uma potente arma química que conseguia queimar intensamente e se espalhava com facilidade. O fogo-grego poderia ser usado como napalm, ou através de um lança-chamas, o quais espirrava chamas ou jogava o líquido volátil sobre as tropas ou embarcações inimigas, em seguida incendiado. 

A fé militante:

Há dois anos George Martin em uma entrevista, confirmou que sua inspiração para a Fé Militante, termo usado para designar a milícia sob comando do Alto Septão, o líder máximo da Fé dos Sete, foi inspirado nos cruzados e nas inquisições. No caso a Fé Militante foi instituída há muitos séculos em Westeros para promover a conversão a força das regiões que ainda não eram devotas dos Setes Deuses. No caso, a Fé Militante era dividida em dois segmentos: os Filhos do Guerreiro, grupo formado apenas pela nobreza, onde os cavaleiros lembravam muito as ordens militares religiosas surgidas na Idade Média no tempo das Cruzadas (XI-XIII). 

O segundo grupo tratava-se dos Pobres Companheiros e como o nome sugere, eram homens oriundos da plebe, os quais ajudavam os Filhos do Guerreiro, mas também exerciam outras funções de apoio, vigilância, fiscalização, perseguição, aprisionamento e execução. No caso, os Pobres Companheiros lembram os familiares que trabalhavam para as Inquisições, pessoas que se voluntariavam para ajudar nos afazeres dos tribunais eclesiásticos, cujo intuito era combater a propagação de heresias diversas. 

Os Pobres Companheiros em uma cena da quinta temporada de Game of Thrones. 
Nos livros e na série, os Pobres Companheiros tem mais destaque, pois a Fé Militante quando fugiu de controle, foi perseguida e banida pela Dinastia Targaryen, com isso eles deixaram de existir por mais de 200 anos. Todavia, Cersei Lannister para ganhar apoio para sua família e o governo de seu filho Tommen Baratheon, elege novo Alto Septão e restitui a Fé Militante, especialmente os Pobres Companheiros, algo que ocorre no quarto livro e na quarta temporada. Apesar que na série, essa milicia foi mais explorada. 

NOTA: Apesar de os Greyjoy usarem um kraken, uma criatura fantástica de origem escandinava, curiosamente nos mitos nórdicos da Era Viking, o kraken não é citado. Essa criatura é apenas mencionada em lendas e no folclore escandinavo séculos depois da Era Viking. 

Fontes:
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Guerra dos Tronos, vol. 1. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2010. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Fúria dos Reis, vol. 2. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2011. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Tormenta das Espadas, vol. 3. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2011. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: O Festim dos Corvos, vol. 4. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2012. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Dança dos Dragões, vol. 5. Tradução de Marcia Blasques. São Paulo, Leya, 2012.

Referências bibliográficas: 

BUTTERWORTH, Alex. Adriano, o injustiçado. Tradução de Ana Ban. Revista História BBC, v. 3, 2009, p. 26-33. 
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Média: nascimento do Ocidente. 2a ed. São Paulo, Brasiliense, 2001.
LANGER, Johnni (org.). Dicionário de mitologia nórdica: símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015.
LOYN, H. R (org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.
RUNCIMAN, Steven. A civilização bizantina. 2a edição, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977.

Referências da internet:
Hadrianus
O legado bizantino
Os mongóis
As inquisições
A saga viking
César Bórgia: o homem que inspirou o Príncipe de Maquiavel
Mitos e verdades sobre a "Idade das Trevas"














2 comentários:

Roberto disse...

O texto está bem completo. Pouca gente fala dos mitos da caçada selvagem, que me parecem ser o moto para os Outros.

Mas queria ressalvar que Martin já admitiu que as influências de Dorne são o País de Gales, Espanha e Palestina. Do mesmo modo, afiemou que além dos mongóis, os nativos americanos foram inspiração para os Dothraki (e fale-se na internet também dos Citas). Por outro lado, ele não confirmou, mas muitos leitores apontam as Ilhas de Mann como inspiração para os homens de ferro.

Caso lhe interesse, seria interessante um comentário adicional sobre isso.

Leandro Vilar disse...

Obrigado pelos seus comentários Roberto. Essa referência aos indígenas norte-americanos eu desconhecia. Embora os Dothraki a meu ver lembre mais os mongóis, talvez hunos e citas, povos das estepes asiáticas.

Quanto a Dorne, é interessante a ligação com Gales. Já a Ilha de Man é um dado a ressalvar, pois os vikings colonizaram aquela ilha, e a usavam para atacar a Inglaterra e Irlanda.