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Leandro Vilar

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Ser cavaleiro na Europa medieval

O cavaleiro europeu medieval se tornou com o tempo uma figura idílica e romanceada. Portador de nobreza, honra, coragem, força, dedicação e fidelidade. Trajando sua armadura de aço, cavalgando em seu corcel branco, ele brandia sua temerosa espada justiceira para punir os criminosos, massacrar os pagãos, hereges e infiéis, assim como, matar dragões e salvar donzelas presas em castelos. 

Mas essa visão romanceada da cavalaria europeia medieval não foi uma invenção dos séculos XIX e XX, mas uma construção artística e cultural que remonta a própria Idade Média, quando começaram a surgir as lendas de cavaleiros, contadas por cronistas, bardos, poetas, escritores, contadores de histórias, etc. De boca em boca, de livro em livro, as nobres façanhas de alguns cavaleiros se tornaram lendárias. 



Todavia, a proposta desse texto não foi se debater essa visão romanceada dos cavaleiros, mas apresentar quem realmente foram os homens por debaixo da armadura. Quais eram as implicações e deveres de um cavaleiro? Quem podia ser um cavaleiro? Como realmente eram suas armaduras e trajes? O que era o código da Cavalaria? O que foram as ordens de cavalaria? Além de assinalar alguns aspectos culturais acerca da origem da cavalaria, origens essas que remontam a lendas relacionadas a personagens lendários e até mesmo a personagens reais da Antiguidade. 

Origens da cavalaria europeia medieval:

A Idade Média foi o período que transcorreu do ano de 476 até o ano de 1453, marcada de início pela Queda do Império Romano do Ocidente, e marcada no seu fim, pela Queda do Império Romano do Oriente, mas conhecido como Império Bizantino. 

Pensar no cavaleiro medieval na Europa, é pensar que a ideia de cavalaria não foi igual ao longo de todo o período medieval, suas noções foram sendo construídas ao longo dos séculos, mais especificamente durante a Baixa Idade Média (séc. XI-XV). Curiosamente foi no final do período medieval que as histórias cavaleirescas e as lendas se tornaram mais populares, mas é preciso lembrar que os habitantes daquela época não delineavam um fim da Idade Média, e tão pouco chamavam seu tempo de Idade Média. Mas de qualquer forma, nos séculos XVI e XVII a Cavalaria e o cavaleiro perderiam seus status adquiridos no medievo. 

De qualquer forma retornemos a questão título desse tópico: quais seriam as origens da cavalaria europeia, não no sentido de organização militar, mas no sentido de um grupo, de uma ordem, de uma nobreza guerreira. O historiador holandês Johan Huizinga disse que foi entre os séculos XII e XIV que as lendas de origem da cavalaria começaram a despontar e a se tornarem populares, e temas de canções e poesias. Por sua vez, ele salientou que a noção de origem esteve profundamente embasada numa visão romanceada, e não realista ou histórica.

Algumas canções e poesias contavam que o ideal da cavalaria teria surgido na Roma Antiga, remetendo a figuras como Júlio César, como um de seus expoentes. Outras histórias falam do lendário rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, os quais teriam vivido na Bretanha dos séculos V e VI. Outros aludem ao rei Carlos Magno que reinou no final do século VIII e começo do IX. Alguns vão mais atrás no passado, retomando a época de Judas Macabeu (séc. II a.C), Alexandre, o Grande (séc. IV a.C) e até do rei Davi

Nota-se que nessa tentativa de se encontrar uma origem para a cavalaria no sentido de uma ordem, de uma instituição militar, remonta-se tanto a referenciais cristãos, judeus e até pagãos. Isso acabou levando a criação da história dos Nove Bravos ou Nove da Fama. Um grupo de honrosos cavaleiros provenientes da Europa e da Ásia em diferentes épocas, os quais representariam a nobreza e as virtudes as quais um cavaleiro deveria possuir.  


"O elemento cavalheiresco e o elemento renascentista estão igualmente confundidos no culto dos Nove Bravos (les neuf preux). A reunião de três pagãos, três judeus e três cristãos numa espécie de galeria de heroísmo encontra-se pela primeira vez numa obra dos princípios do século XIV, Les Voeux du Faon, de Jacques de Longuyon. A escolha dos heróis revela uma íntima relação com os romances de cavalaria. Lá aparecem Heitor, César, Alexandre, Josué, David, Judas Macabeu, Artur, Carlos Magno, Godofredo de Bulhões. Eustache Deschamps adoptou a ideia dos neuf preux de seu mestre Guillaume de Machaut e dedicou muitas das suas baladas ao assunto". (HUIZINGA, 1996, p. 51-52)

Armas dos Nove da Fama, Francisco Coelho, 1675. 
Jacques de Longuyon publicou seu livro em 1312, e poucos anos depois sua invenção havia se tornado popular entre os cantores, poetas e escritores. A história dos Nove da Fama deixou a França, passando a ser conhecida na Inglaterra, Espanha, Portugal, Sacro Império, Itália, etc. Novas versões surgiriam, mas mantendo o nome desses nobres homens que com seus feitos expressaram as virtudes pelas quais os cavaleiros deveriam se inspirar e seguir.

Nota-se que nessa ideia de Longuyon, ele procurou reunir diferentes visões e opiniões sobre a origem da cavalaria, o que nos revela como a origem era algo mais relacionado ao lendário e romântico, do que ao histórico, pois a própria ideia de História no período medieval é bem distinta de hoje em dia. Sua ideia deu êxito, pois séculos depois os artistas e até mesmo os cronistas continuaram a pelo menos até o século XVII fazer menções aos Nove da Fama. 

No entanto, saindo desse lado romanceado e lendário, passemos para conhecer o lado histórico, embora já de antemão, se possa dizer que não há um consenso de quando a cavalaria medieval como instituição e titulação nobiliárquica surgiu propriamente na Europa, pois desde o século V temos cavalarias atuando pelo continente, mas sem possuírem os atributos pelos quais ficariam conhecidos. Além disso, como será visto adiante, as ordens cavaleirescas começaram a surgir após o século XI, já sendo mais fácil delinear suas origens e história. 

Durante a Alta Idade Média, a cavalaria europeia existia em vários locais do continente, no entanto, não havia uma designação social que delimitava que apenas os nobres poderiam ser cavaleiros. Neste caso, qualquer homem que soubesse cavalgar e lutar, poderia se tornar um cavaleiro. Cavaleiros andantes atuavam como mercenários pelo continente, indo de feudo em feudo de cidade em cidade. Alguns se aliavam a grupos de mercenários ou passavam a prestar os seus serviços a algum aristocrata ou nobre, formando sua guarda pessoal ou sua tropa. Em outros casos, a própria população do feudo ou de uma fazenda era treinada na equitação para também combaterem a cavalo. A existência de exércitos regulares como visto no Império Romano deixou de existir, embora inda se conservasse com os bizantinos no sudoeste da Europa, e nos califados árabes. 

Cavaleiros ávaros enfrentando cavaleiros francos. Nessa época entre os séculos VI e VIII a ideia do nobre cavaleiro ainda não existia. 
“A guerra, como se sabe, é uma atividade perigosa, e tais reis tentavam então obter o maior séquito de bons guerreiros possível. Com mais guerreiros em sua comitiva, esses líderes poderiam se estabelecer com maior segurança e tranqüilidade sobre as regiões conquistadas, bem como mais facilmente conquistar novas terras. E, entre esses seguidores, os guerreiros que estavam melhores armados e equipados, inclusive com o cavalo, eram em sua maioria, preferidos aos simples fazendeiros equipados com frameas e escudos”. (FERRARESE, 2011, p. 2460). 

Por volta do século X começamos a delinear segundo Cardini (1989) mudanças sociais, políticas e econômicas na Europa centro-oeste, que repercutiram nas bases do feudalismo, como a divisão da sociedade feudal em três classes: os oratores, os bellatores e os laboratores


“A oração, os combates e o trabalho nos campos eram considerados, embora a um nível diferente de dignidade, como os três aspectos fundamentais da vida civil, os três pilares do mundo cristão”. (CARDINI, 1989, p. 57). 


Desenho ilustrando a convencional divisão da sociedade feudal europeia: os que rezam, os que lideram e guerreiam, e os que trabalham. Isso personificado na imagem do clérigo, do cavaleiro e do servo. 
Dessa forma a Igreja Romana passou a dispor de determinados privilégios, se isentando de pagar impostos, ao mesmo tempo em que descobriu nos nobres e aristocratas meios de expandir a religião pelo continente. Por outro lado, a aristocracia e a nobreza se tornaram mais poderosos, e passaram a formar feudos, reunindo em suas terras populações de pessoas livres, assim como, uma população de servos, que agora passariam através de contratos ficarem submetidos as exigências de um senhor feudal e presos juridicamente a sua propriedade. 

Mas nesse mundo feudal que começava a se formar entre os séculos X e XI, as guerras não haviam se cessado, e a necessidade de manter um exército para proteger as cidades, vilas e feudos ainda eram uma realidade bastante necessária. Incursões de povos tidos como "bárbaros" assolavam o norte-oeste do continente, enquanto no sul e sudeste os árabes causavam problemas aos bizantinos, italianos e aos iberos (ainda não existia Portugal e Espanha). Logo, passou-se a se construir nas regiões mais suscetíveis as invasões, castelos, como o caso da região de Castela e Leão, atualmente na Espanha. 


Castelo de Gormaz, no município de Gormaz, província de Sória, em Castela e Leão na Espanha. Construído no século X. 
Mas além de se erguer essas fortalezas, era necessário ter homens para se defender e também para se atacar, pois foi comum na Idade Média conflitos entre reinos, principados, condados, ducados, feudos, etc. A guerra se tornou uma realidade comum do homem medieval, como foi do homem antigo e até mesmo do homem da Idade Moderna. Mas no caso medieval, a Igreja Católica se apropriaria dessa realidade bélica a seu favor, defendendo as chamadas "guerras justas" e "guerras santas", algo que será comentando adiante, como foi o caso das Cruzadas (XI-XIII). 

Logo, nesse cenário beligerante, rural e esparsamente povoado, continuou-se a necessidade de manter tropas para a defesa, mas também para o ataque. Em geral os servos em caso de guerra eram obrigados a pegar em armas e compor as fileiras do exército do feudo, todavia, muitos servos não se dedicavam aos exercícios militares, já que possuíam outros afazeres como agricultores, pecuaristas, artesãos, comerciantes, etc. Havendo necessidade de se ter uma tropa devidamente treinada e equipada, passou-se a se designar homens especificamente para o serviço da guarda e da guerra, assim, se nota que parte dos homens engajavam-se no serviço militar. 

E no caso dos cavaleiros, a cavalaria havia se popularizado em alguns locais do continente ainda no século IX, como foi o caso do Reino dos Francos (atual França), onde o rei Carlos Magno fez muito uso dela em suas mais de 30 campanhas militares. Em outros Estados vizinhos ao reino Franco, a cavalaria também se tornava uma importante força de combate, porque eram os que melhor possuíam equipamentos de batalha, geralmente possuíam um treinamento de combate superior a da infantaria convencional, além do fato de que em campo aberto, a cavalaria poderia ser mortal contra a infantaria. 


“Acompanhado de tal séquito armado, motivado, unido e treinado, as chances de vitória em combate certamente melhoravam. E, com a vitória, vinha o butin, os espólios de guerra, que eram divididos pelo rei através de uma porção justa a cada um dos participantes, bem como pelos atos heróicos feitos em batalha. Por muitas vezes, eram os mais bem treinados, armados e descansados que demonstravam tais façanhas – sem contar o desejo do líder germano em manter seu grupo vinculado a ele ainda mais fortemente ao demonstrar uma liberalidade com os bens, uma largesse, que acabaria se tornando um dos ideais cavaleirescos no futuro (KEEN, 2008, p.13)”. (FERRARESE, 2011, p. 2461). 

Pintura medieval retratando uma cavalaria. 
Além disso, é importante mencionar que os exércitos medievais na maioria das vezes eram pequenos, formandos por algumas centenas de homens, diferente do que se ver em filme onde se apresenta exércitos com milhares de homens em combate ou cercando castelos, as guerras medievais na Europa, em geral foram de pequeno porte, logo, possuindo uma cavalaria de 50 homens, mais uns 200 soldados e uns 30 arqueiros, já se dava para fazer uma guerra, pois a ideia não era se conquistar grandes territórios, mas realizar expedições para capturar alvos específicos. 

Aquela visão de cercos a castelos, usando-se grandes exércitos, catapultas e torres de cerco não foi algo comum, tendo ocorrido em casos específicos, pois demandava muitos recursos, e nem sempre era viável atacar um castelo na tentativa de capturá-lo. No entanto, houve casos de batalhas com milhares de combatentes.

A noção de um exército profissional e regular, com o fim do Império Romano deixou de existir. Os Estados não possuíam um exército nacional, havia uma porção fixa de soldados e cavaleiros, mas havendo necessidade de campanha, convocava-se os homens livres e os servos para aumentar o contingente militar. Em alguns casos, a cavalaria que era vista por alguns como a força militar mais poderosa, fazia a diferença no campo de batalha. Logo, alguns senhores feudais passaram a procurar apoio não apenas no seu séquito de servos, mas em grupos especializados, em mercenários, os quais acabaram em alguns casos se tornando vassalos desses senhores, deixando de serem mercenários, para prestar lealdade a seu suserano. 

De fato, definir quando a cavalaria medieval se instituiu como uma nobreza guerreira e uma irmandade das armas, não é algo que se tem como precisar, logo, sugere-se que os séculos X e XI sejam o período que ela começa a surgir e nos séculos seguintes ela se constitui e se formaliza. Por um certo lado, como será visto adiante, cavalaria deveu muito a estrutura política, social e econômica do feudalismo, como local de desenvolvimento, pois foi dentro desse cenário que ela se criou de fato. 

O "cavaleiro medieval":

A cavalaria é uma força armada que existe a milênios, desde que os homens viram o potencial de se usar os cavalos no campo de batalha. Logo, em diferentes nações e culturas da Idade Antiga, o cavaleiro era o guerreiro que lutava a cavalo, embora que em alguns casos também significasse motivo para status social, como foi no caso da Grécia e de Roma, onde na sociedade romana surgiu a classe social dos equites, uma classe aristocrática. Todavia, em geral não havia essa divisão social tão marcante como viria a surgir na Europa medieval. 

Nos séculos XI e XII na Inglaterra, França e Sacro Império se encontra o uso da palavra latina miles para se referir a cavalaria. Todavia, tal termo possui diferentes aplicações desde seu surgimento, porém o historiador francês Georges Duby (1994) apontou que o termo que antes era reservado ao rei, príncipes e condes, passou nesse período a ser utilizado também para se referir aos cavaleiros, como forma de diferenciá-los dos demais soldados. Se nota aqui uma diferenciação militar, no entanto, passou também a surgir um outro tipo de diferença: a nobreza.

O cavaleiro medieval não era qualquer homem, mas passou a ser o nobre guerreiro, nesse caso, nobre não apenas em valores como os romances aludem, mas nobre em referência a nobiliarquia. Em alguns países da Europa Ocidental, cavaleiro se tornou um título nobiliárquico, como o caso da Inglaterra com o título de Sir, na França com Chevalier, na Espanha com Caballero, em Portugal com Cavaleiro, na Alemanha com Ritter e na Holanda com Ridder

Por mais que o cavaleiro fosse um nobre, consistia na titulação mais baixa, daí falar-se que os cavaleiros pertenciam a baixa nobreza ou a pequena nobreza. Por um lado se tornar cavaleiro para alguns era uma façanha, pois você adentrava ao ciclo da nobreza, mesmo que fosse da pequena nobreza, algo que não surtia muito efeito para os nobres de posições mais elevadas, mas se comparado ao restante da sociedade livre e servil, já conotava um status social elevado. 

Com o tempo, os cavaleiros passaram a dispor de brasões ou escudos de armas para representar suas casas e famílias, algo até então reservado aos nobres de titulação mais elevada. Nos torneios medievais se tornou comum ver a heráldica de tais cavaleiros como o seu símbolo. Mas embora o cavaleiro tenha se tornado um nobre, muitos cavaleiros eram de origem plebeia.


Brasão da família italiana Cavallaro. Percebe-se a influência da cavalaria no próprio nome dessa família, algo também visto em outros países europeus. 
“Entretanto, numa época onde o combate acontecia entre pequenos bandos com armaduras de couro reforçado, muitos homens livres não nobres, mesmo se relativamente pior equipados, também tinham a capacidade de se destacar na luta. Adquirindo prestígio com um golpe certeiro ou atos corajosos, eventualmente obtiam o patrocínio de um senior interessado em sua capacidade combativa. Dessa forma, muitos homens livres não nobres podiam receber maiores honras e bens, por vezes tornando-se então parte da nobreza: nessa época, essa característica era adquirida através do agir, ao invés de herdada. Essa noção permitiria, então, aos homens comuns tornarem-se nobres através das armas, e o fato de portar as armas, armaduras e cavalos distintos desses guerreiros montados enobrecia o homem e o permitiria manter sua posição, ao conquistar butins junto ao seu rei”. (FERRARESE, 2011, p. 2461-2462).

Bloch (1998) comentou que a noção cavaleiresca conseguiu se adaptar bem ao mundo medieval e feudal, pois ainda nessa época, a guerra era algo muito marcante na sociedade. Havia homens que realmente gostavam de lutar e participar de batalhas; para eles isso significava ser homem, está servindo o seu suserano e a Igreja. Nesse aspecto, é recorrente em alguns poemas e canções entre os séculos XII e XV ovacionarem a guerra, a mostrando não como algo totalmente ruim, mas como o local para que os homens de armas apresentassem seus feitos. 


“Habituado a não temer o perigo, o cavaleiro encontrava na guerra um outro encanto ainda: o dum remédio contra o tédio. Pois para os homens cuja cultura, durante longo tempo, permaneceu rudimentar e que - exceptuando alguns altos barões e os que os rodeavam - não estavam ocupados com pesados cuidados de administração, a vida decorria facilmente numa cinzenta monotonia. Assim nasceu uma vontade de diversões que, quando o solo natal lhe não oferecia alimento suficiente, procurava a sua satisfação em terras longínquas”. (BLOCH, 1998, p. 326).

Quando não havia guerras locais ou os gastos para se viajar eram muito altos, os cavaleiros passaram a se dedicar a outros afazeres o que incluiu o esporte, assim, por volta do século XI, mas apenas no XII em diante, começou a se popularizar os "jogos de cavaleiro", dentre as modalidades mais populares, estava a justa. Através desses jogos os cavaleiros poderiam se exercitar, testar suas habilidades, ganhar fama e dinheiro, pois havia prêmios para as primeiras colocações. Embora os "jogos de cavaleiro" se mantiveram até pelo menos o século XVII, a Igreja tentou bani-los várias vezes, por considerá-los violentos.

Representação contemporânea de uma justa.
Além dos homens que procuravam se destacar no campo de batalha, os quais em geral não possuíam nenhuma ligação pessoal com algum nobre, houve casos de que adolescentes eram enviados pelos seus pais para se tornarem escudeiros de cavaleiros (no entanto, havia escudeiros mais velhos). O garoto se tornava empregado do cavaleiro, mas também passava a dispor da possibilidade de receber uma educação diferenciada, como ler, escrever, cantar, lutar, etiqueta, etc. A ideia de tornar o jovem dependente de um cavaleiro, baseava-se na possibilidade de que ele pudesse conquistar glória no campo de batalha e assim viesse a ser feito cavaleiro. No entanto, nem sempre isso ocorria. 

Dom Quixote e Sancho Pança, os mais famosos cavaleiro e escudeiro da literatura. 
"Um certo número de linhagens senhoriais, sem dúvida, descendia de aventureiros partidos do nada, homens de armas transformados em vassalos enfeudados, à custa da fortuna do chefe. Outros tinham talvez por antepassados alguns dos camponeses ricos cuja mudança em rendeiros de grupos de tenures se percebe através de certos documentos do século X. Mas certamente que não era este o caso mais geral". (BLOCH, 1998, p. 336).

Ao se tornar cavaleiro o homem passava a dispor de influência social, pois passava a pertencer a pequena nobreza, passava a receber um soldo melhor, o que possibilitava ter servos, cavalos, roupas e equipamentos melhores. Dependendo de seus feitos no campo de batalha ou servindo em alguma missão designada por senhores feudais, nobres, bispos ou o rei, o cavaleiro poderia conseguir terras, propriedades, patentes militares e até outros títulos de nobreza. 

Mas em geral muitos não conseguiam isso, pois dos títulos de nobreza na Europa medieval, o de cavaleiro era o mais comum e o mais abundante, logo, não bastava apenas tornar-se cavaleiro, teria que se destacar entre os demais, se sua pretensão era conseguir riqueza, glória ou poder. Além disso, o título de cavaleiro não era hereditário, logo, o filho de um cavaleiro não seria um cavaleiro, embora pudesse herdar os bens de seu pai. 

Até aqui se notou que a ideia de ser um cavaleiro a partir do século XI, consistia em ser um nobre guerreiro e um combatente profissional, no entanto, outros dois aspectos se somam a isso: a vassalagem e o cristianismo. Embora que na literatura inclua-se os atos de heroísmo individual, as aventuras e os romances com nobres ou cortesãs. Mas de fato isso acontecia, embora não fosse recorrente. Por exemplo, notou-se que os cavaleiros franceses e italianos eram mais afeitos a aventuras, viajando para a Espanha e Portugal, para participar da Reconquista, ou viajando para a Terra Santa e o Egito. Tais cavaleiros procuravam por aventura, riqueza e fama. 


“A suserania-vassalagem consiste em uma relação estabelecida entre um suserano (dominus), um homem de posição mais alta, que concede um direito ou bem (feodum ou beneficium) para um vassalo (vassalum), um homem livre e muitas vezes nobre (não devendo essa interação ser confundida com a de senhor e servo, homem livre de posição mais alta para com homem preso à terra). Essa relação é bilateral: o suserano concede o feodum ao vassalo, tornando-o representante de sua autoridade, fornecendo os meios e ajuda necessária para a subsistência do vassalo, e criando um vínculo pessoal de lealdade; enquanto que, da parte do vassalo, este deverá cuidar do feodum de seu suserano, lutar junto de seu superior quando sair em guerra contra seus inimigos, e aconselhá-lo da melhor forma possível sempre que a ocasião surgir (FLORI, 2005, p. 58). Suserano e vassalo, então, são unidos através da lealdade e dos vínculos pessoais, e o cumprimento de seus deveres será objeto da honra destes homens de posses”. (FERRARESE, 2011, p. 2462). 


Desenho retratando um cavaleiro prestando juramento ao rei. 
"Eis dois homens frente a frente: um, que quer servir, o outro que aceita, ou deseja, ser chefe. O primeiro une as mãos e, assim juntas, coloca-as nas mãos do segundo: claro símbolo de submissão, cujo sentido, por vezes, era ainda acentuado pela genuflexão. Ao mesmo tempo, a personagem que oferece as mãos pronuncia algumas palavras, muito breves, pelas quais se reconhece «o homem» de quem está na sua frente. Depois, chefe e subordinado beijam-se na boca: símbolo de acordo e de amizade. Eram estes - muito simples e, por isso mesmo, eminentemente adequados a impressionar espíritos tão sensíveis às coisas vistas - os gestos que serviam para estabelecer um dos vínculos mais fortes que a época feudal conheceu". (BLOCH, 1998, p. 179).

O suserano poderia ser o rei, qualquer nobre, o papa, cardeais, arcebispos e bispos. Logo, o cavaleiro, assim como, outros nobres e plebeus poderiam prestar vassalagem a tais homens. A vassalagem se tornou algo comum nos Estados que adotaram o feudalismo na Europa, lembrando que nem todos os Estados vivenciaram o feudalismo, mas compartilharam ideias vassalagem. 

“Lentamente, assim os nobres foram se tornando cavaleiros, para defenderem seus territórios; enquanto que os cavaleiros, por serem defensores e ligados aos nobres, adquiriam direitos e deveres por sua nova posição. Um espírito de grupo, seja por treinarem juntos, seja por laços de fidelidade, seja ainda por apresentarem técnicas semelhantes e histórias parecidas, surgia entre esses homens, que reconheciam os cavaleiros, os bellatores, diferentemente dos servos, do povo, os rustici (que mais tarde seriam identificados, de forma geral, com a classe dos laboratores na sociedade tripartida). Aqueles protegeriam as terras de outros bellatores, dos inimigos, e estes então os alimentariam por sua proteção. E, tanto na defesa quanto no ataque, os antigos códigos de honra dos guerreiros germanos se mantinham: fidelidade ao líder, coragem, força, tenacidade, lealdade, honra, sagacidade, liberalidade com os ganhos, e várias outras características guerreiras (KEEN, 2005, p. 13). Um ethos, uma conduta que os diferenciava ainda mais dos que não lutavam (FLORI, 2005, p. 13-15)”. (FERRARESE, 2011, p. 2464).


Desenho retratando a Batalha de Lewes, em 14 de maio de 1264, em Sussex, Inglaterra. 
“O dever primordial era, por definição, o auxílio de guerra. O «homem de boca e de mão» deve, antes e acima de tudo, servir em pessoa, a cavalo e completamente equipado. No entanto, só raramente aparece sozinho. Além de os seus próprios vassalos, se os possui, se agruparem em torno do seu estandarte, as suas comodidades, o seu prestígio, o costume, por vezes, exigem-lhe que se faça acompanhar pelo menos por um ou dois escudeiros. Em contrapartida, não havia, geralmente, infantaria, no seu contingente. O seu papel no combate é considerado demasiado medíocre, a dificuldade em alimentar massas humanas consideráveis é demasiado pesada para que o chefe do exército possa contentar-se com os peões camponeses fornecidos pelas suas próprias terras ou pelas das igrejas das quais, oficialmente, se constituiu protector. Frequentemente, o vassalo está também sujeito a fazer guarda no castelo senhorial, seja só durante as hostilidades, seja -pois uma fortaleza não pode ficar sem vigilância- em qualquer tempo, por turnos, com os de categoria semelhante à sua. Se ele próprio possui uma fortaleza, deve pô-la à disposição do seu senhor”. (BLOCH, 1998, p. 248). 

No que se refere ao aspecto religioso, desde o século V havia cavaleiros cristãos, embora muitos fossem pagãos, pois o cristianismo ainda estava limitado aos antigos domínios do Império Romano. Nos século IX e X, tendo o cristianismo se espalhado por boa parte da Europa, o número de cavaleiros cristãos aumentou, no entanto, surgiu uma preocupação para a Igreja: o fato de que tanto cavaleiros quanto soldados, estavam cometendo crimes e atrocidades contra outros cristãos. 

Durante as batalhas havia relatos de que fazendas, aldeias e vilas eram invadidas e saqueadas, pessoas eram mortas e mulheres eram estrupadas. Embora que tais atrocidades voltaram a ocorrer nos séculos seguintes e principalmente durante as Cruzadas, onde os exércitos cristãos foram cruéis contra os judeus e os muçulmanos, ainda assim, a Igreja tentou mudar esse cenário agravante.

Visando se aproximar ainda mais da nobreza, assim como, também visando possuir vassalos que defendessem as terras da Igreja, e lutassem pelo Vaticano, alguns bispos e cardeais começaram a redigir cartas e comunicados nos quais convocavam os cristãos que lutavam para que prestassem juras de não ferir outros cristãos em vão, mas de punir os cristãos criminosos e hereges, defender os fracos e oprimidos, zelar pela honra, amor e paz, assim como, defender a cristandade das ameaças dos pagãos e dos infiéis (judeus e muçulmanos).

Dessa forma a Igreja Romana tentou assegurar que as atrocidades diminuíssem (pois elas não se cessaram), como também assegurou uma submissão da cavalaria a não apenas jurar lealdade ao rei e a outros nobres, mas também ao papa e a Santa Madre Igreja. O cavaleiro como passou no século XII a despontar como o "ideal de guerreiro" ou o "herói medieval", deveria ser o exemplo para os demais cristãos "militares" e civis, pois o cavaleiro deveria cultivar as virtudes de um herói, de um nobre e de um cristão, empunhando suas armas para defender a cristandade e a Igreja de Deus. Tais aspectos seriam reforçados com a criação das ordens militares religiosas. 


Cavaleiro templário orando.
“A concepção da cavalaria como forma sublime da vida secular podia ser definida como um ideal estético revestindo o aspecto de ideal ético. Tem por base a fantasia heróica e o sentimento romântico. Mas o pensamento medieval não permitia formas ideais de nobreza independentes da religião. Por essa razão a piedade e a virtude têm de ser a essência da vida do cavaleiro. A cavalaria, porém, nunca virá a realizar perfeitamente esta função ética. A sua origem terrena impede-lho. Porque na origem da ideia cavalheiresca está o orgulho que aspira à beleza, e o orgulho formalizado dá lugar à concepção da honra, que é o cerne da vida nobre”. (HUIZINGA, 1996, p. 50). 

A investidura e o código da cavalaria:

A imagem de homens ajoelhados diante de um nobre o qual impunha uma espada a colocando sobre o guerreiro, então profere algumas palavras as quais completam a cerimônia de investidura, é algo que ainda hoje é feito, como no caso da monarquia inglesa, no entanto, nem sempre foi assim. Dependendo do local e da época, as cerimônias de "armar cavaleiro" variaram. Logo, para essa parte do texto trouxe alguns exemplos que encontrei. 


Ordenação de um cavaleiro. Edmund Blair Leighton, 1900. Evidentemente que essa pintura possui um tom romanceado, pois normalmente as mulheres não participavam da cerimônia de investidura. 
Marc Bloch apontou que um dos ritos da cerimônia de investidura para cavaleiro, constava no ato de um cavaleiro mais velho entregar uma espada abençoada para o guerreiro que esta para ser armado cavaleiro, então em seguida, outro cavaleiro lhe colocava sua espada sobre o ombro deste ou lhe tocava no pescoço, depois para finalizar a cerimônia, se dava um tapa no pescoço ou no rosto do rapaz. De acordo com Bloch algumas cerimônias de investidura eram concluídas com esse ato hoje estranho para nós: esbofetear alguém na face. No filme Cruzada (Kingdom of Heaven) o personagem Balian de Ibelin (interpretado por Orlando Bloom) quando vai ser investido como cavaleiro, ele leva um tapa na cara; posteriormente quando ele decide tornar um rapaz que deseja ser cavaleiro, ele também dá um tapa na cara deste.

“Sabemos, por outro lado, que o bofetão era, nos costumes jurídicos da época um dos processos de comemoração mais. frequentemente infligidos às testemunhas dos actos de direito - em verdade, mais do que aos seus intervenientes. Gesto este concebido de início como tão essencial à cerimónia que esta, no seu todo, tomou o nome habitual de «adoubement» (dum velho verbo germânico que significava: bater); o primeiro sentido, segundo parece, era muito diferente e muito menos apenas racional. O contacto assim estabelecido entre a mão do que batia e o corpo do atingido transmitia de um para o outro uma espécie de influxo: tal como a outra bofetada que o bispo dá ao clérigo que ordena padre”. (BLOCH, 1998, p. 346). 

Além de se ajoelhar, ser tocado nos ombros, na cabeça ou no pescoço por uma espada e ser esbofeteado, a benção das armas e as orações também faziam parte da cerimônia de investidura, embora Bloch (1998, p. 350) assinale que não era obrigatório os cavaleiros benzerem suas armas e equipamentos.


“A consagração (ou o sagrado: consecratio é a palavra que se emprega a propósito dos reis ou dos esposos unidos pela bênção nupcial) do cavaleiro processa-se deste modo: habitualmente solene, no dia que é ataviado com o boldrié militar, deve vir solenemente à igreja, colocar o gládio sobre o altar e, pela oferenda assim feita em sinal de profissão solene, vota-se ele próprio ao serviço do altar e promete a Deus pôr-se ao serviço da sua espada, quer dizer da sua função (João de Salusbury, 1159)”. (DUBY, 1996, p. 325). 

Cavaleiro recebendo sua espada consagrada, da mão de um rei. 
“O gládio é o emblema da função de cavaleiro – como a coroa o é da função régia – e o cavaleiro jura servi-la. No ritual assim descrito e que, segundo parece, se tomou rigoroso depois que foram compostas as ordines de Besançon e de Cambrai, esse papel simbólico tem papel análogo ao da schedula, na sagração dos bispos. É testemunho de um compromisso. Serve de referência visível, tangível, às obrigações descritas”. (DUBY, 1996, p. 324). 

“A Igreja, numa palavra, tinha procurado transformar a antiga entrega das armas num «sacramento» -esta palavra, que se encontra na pena dos clérigos, nada tinha de chocante numa época em que, estando a teologia ainda bem longe da rigidez escolástica, era facilmente confundida sob esta designação qualquer espécie de acto de consagração. A Igreja não o conseguira totalmente, mas, pelo menos, tinha reservado uma parte para si, aqui mais larga, além mais restrita. Os seus esforços, ao distinguirem a importância que ela conferia ao ritual da ordenação, contribuíram grandemente para avivar o sentimento de que a cavalaria era uma sociedade de iniciados. E, como todas as instituições cristãs precisavam da sanção de anais lendários, a hagiografia veio em seu socorro. «Quando, na missa, são lidas as epístolas de São Paulo - diz um liturgista - os cavaleiros ficam de pé, para honrá-lo, pois ele foi cavaleiro.»”. (BLOCH, 1998, p. 350). 

Era o pretendente a cavaleiro que levava suas armas até o padre ou bispo para que esse as benzesse durante uma cerimônia solene. Em alguns casos o próprio bispo participava da cerimônia de investidura principal, entregando as armas benzidas ao futuro cavaleiro e até mesmo lhe dando a bofetada. Também era comum durante a investidura que o cavaleiro recitasse frases de juramento ou que aludissem sua servidão a Igreja e a Deus. Nesse juramento ele também poderia invocar os Doze Apóstolos, Jesus Cristo, Nossa Senhora, o Espírito Santo e os santos associados aos soldados e a cavalaria, São Maurício (? - c. 282), São Sebastião (256-286) e o mais conhecido de todos, São Jorge (275-303). 



Ícone bizantino do século XIV, retratando São Jorge.
Neste caso, São Jorge foi tomado em alguns países como Inglaterra, França, Portugal, Espanha e Rússia, como o grande referencial para os cavaleiros. Todavia é interessante mencionar que estes três santos eram soldados romanos que ao se converterem o cristianismo, se negaram a acatar algumas ordens que punham em questão sua fé, então foram martirizados. Essa ideia de martírio teria influenciado alguns cavaleiros a se dedicarem a causa cristã durante as Cruzadas. 

Nas canções, poemas e romances encontramos histórias de grande bravura e até mesmo de martírio, como foi o caso da Canção de Rolando (Chanson de Roland), na qual narra a história de um suposto sobrinho do imperador Carlos Magno, o qual faleceu em combate contra os mouros na Espanha. Esse suposto martírio ocorrido no final do século VIII tornou-se tema dessa famosa canção e de outras histórias; o cavaleiro cristão que confrontava os infiéis. Rolando se tornou o arquétipo do "cavaleiro herói".

Huizinga conta-nos que os ritos de investidura das ordens religiosas diferiam em alguns aspectos dos ritos laicos. 


“Porque a admissão na cavalaria, que era uma irmandade sagrada, era feita por meio de solenes ritos de iniciação. A mais complicada forma destes ritos mostra uma curiosíssima mistura de elementos cristãos e pagãos; o acto de rapar a barba, o banho e a vigília de armas vêm indubitavelmente dos tempos pré-cristãos. Aqueles que se sujeitassem a estas cerimônias eram chamados «cavaleiros do Banho», para distingui-los dos que eram armados por simples accolade. O termo deu ulteriormente lugar à lenda de uma ordem especial, a Ordem do Banho, instituída por Henrique IV, e depois ao estabelecimento de uma ordem real por Jorge I”. (HUIZINGA, 1996, p. 63). 


Cavaleiro prestando juramento a Igreja e a Deus, pondo suas mãos sobre a Bíblia
Em alguns casos, após o cavaleiro ser armado, se realizava um banquete para celebrar sua incorporação a irmandade das armas, ou o recém cavaleiro munido de seu equipamento bélico, realiza um desfile em seu cavalo ou participava de alguma atividade esportiva. As cerimônias poderia ter o caráter privado ou público. Normalmente as de caráter público contava com alguma autoridade do local, fosse um nobre ou um bispo. 

Entretanto quando o homem se tornava cavaleiro, ele não apenas adentrava a essa irmandade das armas através de uma cerimônia de iniciação e investidura, mas agora passava a ter que compactuar com um código moral específico dessa irmandade. Tal código chamado simplesmente de código da cavalaria, variou de região e de época, e no caso das ordens religiosas ele era mais rígido. 

Basicamente ao se tornar um cavaleiro, a vida social do homem mudava. Por um lado, ele deveria honrar sua lealdade ao seu suserano, dedicando-se a proteger ele, sua família, casa e propriedade. Por outro lado, ao se tornar um nobre, ele adentrava a um novo status social formado por hábitos e gestos, pois a nobreza não se misturava com a plebe e os servos. E num terceiro viés, havia a sacramentação da investidura de cavaleiro, o que conotava novos votos de dedicação e serviço a Igreja, como também seguir os deveres do rito católico: ir as missas, não consumir carne nas sextas-ferias e durante a quaresma, se confessar, etc. Mas somando-se a esses três aspectos unia-se os preceitos morais que embasavam a conduta moral que um cavaleiro deveria seguir ou pelo menos ter como referência.


“Assim, uma discriminação de, interesse capital introduzia-se no velho ideal de guerra pela guerra, ou pelo lucro: com este gládio, o investido defendera a Santa Igreja, especialmente contra os pagãos. Protegerá a viúva o órfão e o pobre. Perseguirá os malfeitores. A estes preceitos gerais, os textos laicos acrescentam ainda algumas recomendações mais especiais que se referem à conduta durante o combate: não matar o adversário indefeso; - a prática dos tribunais e da vida pública não participar num falso julgamento ou numa traição; se não puder evitá-lo, acrescenta modestamente, a Ordene de Chevalerie, abandoar o local; finalmente os incidentes da vida quotidiana: não dar maus conselhos a uma dama ajudar «se for possível», o seu próximo na aflição”. (BLOCH, 1998, p. 351). 

O cavaleiro passou a encarnar o ideal de justiça, honra, coragem e honestidade, algo não apenas idealizado nas artes, mas na própria percepção social na época, fosse por parte da cultura ou da ideologia católica, o cavaleiro era um servo armado de Deus, designado e abençoado para proteger os inocentes, fracos e oprimidos, como também designado a manter a justiça e a paz. 

Por esse viés, o código da cavalaria procurou promover em seus seguidores, virtudes dignas de admiração e de exemplo. Alguns reis passaram a serem retratados vestidos como cavaleiros, como o caso de Ricardo, Coração de Leão (1157-1199) e Filipe Augusto (1165-1223), como visto na imagem abaixo. O próprio Carlos Magno em representações posteriores aparece trajado como um cavaleiro.


Pintura de um manuscrito francês de 1261 retratando o rei inglês Ricardo Coração de Leão (direita) e o rei francês Filipe Augusto. Ambos os monarcas estão acompanhados por sua guarda real, e também trajam-se como cavaleiros. A única diferença entre os monarcas e seus vassalos, está na coroa. 
“Senhor muito santo, Pai todo poderoso... tu que permitiste, na terra, o uso do gládio para reprimir a maldade dos iníquos e defender a justiça; que, para protecção do povo quiseste instituir a ordem da cavalaria... inclinando para o bem o seu coração, faz com que o teu servidor aqui presente nunca utilize este gládio ou outro para lesar injustamente seja quem for; mas que se sirva sempre dele para defender o que é Justo e Honesto (Pontifical, Guillaume Durante, séc. XII)”. (BLOCH, 1998, p. 352-353). 

As ordens:

A cavalaria da Baixa Idade Média testemunhou a criação de dois tipos de ordens: as de origem eclesiástica surgidas no cenário das Cruzadas, e as de origem laica, criadas por reis, duques e condes. Neste caso costuma-se definir as ordens religiosas as chamando de ordens religiosas militares e a outra de ordens da cavalaria. Para o intuito dessa parte fiz menção a algumas ordens mais conhecidas, principalmente as religiosas pois foram o referencial e modelo para as ordens laicas surgidas nos séculos seguintes. Logo, precisamos conhecer brevemente o que foi o contexto das Cruzadas, mais especificamente da primeira Cruzada, pois as Cruzadas tiveram motivos e intuitos diferentes, indo para além de causas religiosas propriamente.



“O termo “cruzada” é raro e recente: não aparece no latim medieval antes da metade do século XIII e seu correspondente árabe (hurub assalibiyya = a guerra pela cruz) data somente de 1850. De fato, aos olhos dos orientais, as cruzadas permaneceram durante muito tempo como simples guerras iguais a tantas outras iniciadas pelos francos. Já estes, que eram antes de tudo peregrinos, se consideravam como “soldados de Cristo” e “marcados pelo sinal da cruz” (crucesignati, em italiano), sendo a partir desta última expressão que se formou, por volta da metade do século XIII, o termo “cruzada” (também do italiano cruciata). Os textos medievais em geral designam essas expedições como “a viagem de Jerusalém” ou “o caminho do Santo Sepulcro” (iter hierosolymitanum, via Sancti Sepulcri, em latim) e, já no começo do século XIII, quando o movimento se tornou mais regular, sob o nome de “passagem” (que podia ser “a pequena passagem”, “a grande passagem” ou “a passagem geral”). Subjacente a todas essas expressões se encontra a idéia da peregrinação: Joinville fala sobre “a peregrinação da cruz”. Ainda no século XIV, quando o Ocidente renuncia de fato, senão de direito, à reconquista de Jerusalém, as cruzadas são referidas pelo nome de “viagem a ultramar”. Entendemos aqui por cruzada, seguindo a orientação de H. E. Mayer e J. Richard, uma peregrinação de cunho militar decidida por um papa que concede a seus participantes privilégios temporais e espirituais e lhes determina o objetivo de libertar o Sepulcro de Cristo, em Jerusalém”. (MORRISON, 2009, p. 10). 

"Mas o que foram as Cruzadas? [...]. Mas simplificadamente podemos dizer que foram expedições militares empreendidas contra os inimigos da Cristandade e por isso legitimadas pela Igreja, que concedia aos seus participantes privilégios espirituais e materiais. Portanto, as lutas contra os muçulmanos do Oriente Médio e da Península Ibérica, contra os eslavos pagãos de Europa Oriental e contra os heréticos de qualquer parte da Europa Ocidental eram Cruzadas". (FRANCO JR, 1989, p. 8-9). 

Houve várias Cruzadas durante a Idade Média, no entanto, normalmente a historiografia se concentra no estudo das Cruzadas ocorridas entre os séculos XI e XIII na Ásia Menor, Terra Santa e Egito. Todavia, a principal função inicial das três primeiras cruzadas era se resgatar o controle da Terra Santa, a libertando das mãos dos muçulmanos, dessa forma a Igreja visava realizar o sonho de trazer para o seu controle, Jerusalém e as terras em sem seu entorno, as quais eram os cenários bíblicos de toda a tradição judaica-cristã-islâmica. 

Embora os muçulmanos considerem que Jerusalém seja uma cidade santa, para os cristãos e judeus tal importância é bem maior, logo, conseguir se apoderar desse local, de suas terras e rotas de comércio asseguraria a expansão dos domínios da Igreja Romana, reforçaria sua autoridade sobre a Europa cristã, como também serviria de uma nova porta de entrada para a cristianização da Ásia. No entanto, foi apenas na Primeira Cruzada (1097-1099) que se obteve o êxito em se conquistar Jerusalém e a Terra Santa, a qual viria a ser perdida anos depois.

No entanto, já tendo apresentado essa simplista visão do que foram essas Cruzadas, passemos para comentar o surgimento das ordens militares religiosas, pois inicialmente a Primeira Cruzada foi patrocinada em grande parte por vários senhores feudais que reuniram seus exércitos e marcharam para a Terra Santa. Mas ao término dessa cruzada, tendo se estabelecido Reinos Latinos pela Terra Santa, alguns cavaleiros decidiram criar ordens religiosas como forma de assegurar a proteção desses reinos e os cristãos que ali viviam (os judeus e muçulmanos foram duramente perseguidos e até mesmo massacrados).

Uma das primeiras ordens militares que surgiram foi a Ordem dos Hospitalários, surgida por volta de 1070 em Amalfi na Itália, sob a iniciativa de comerciantes que visavam auxiliar o peregrinos que iam para Jerusalém ou Roma, como também prestar serviços de caridade. Com a eclosão da Primeira Cruzada, alguns membros da ordem seguiram na campanha, e em Jerusalém por volta de 1099 se constituiu um importante hospital na cidade, o qual foi um dos principais apoios aos cruzados. Tal hospital continuou a existir por vários anos. 

Bandeira da Ordem dos Hospitalários.
Em 1113 o papa Pascoal II reconheceu os Cavaleiros Hospitalários como eram mais conhecidos, como uma ordem militar religiosa, a chamando de Ordem de São João de Jerusalém. Assim os hospitalários que possuíam como referência a regra beneditina, se tornavam uma ordem de cavaleiros e outros adeptos, que possuíam como função inicial assegurar a segurança dos cristãos na Terra Santa, fornecendo comida, abrigo, atendimento médico e proteção. Posteriormente a ordem se espalharia para outros locais da Europa, firmando bases em Portugal, Espanha, mas principalmente na ilha de Malta, de onde em 1530 passou a se chamar Ordem de Malta

A ordem sendo oficializada pela Igreja, passava a dispor do direito de possuir uma regra monástica própria, de fato, muitas ordens religiosas se baseavam em três regras básicas: voto de celibato, voto de pobreza e voto de obediência. Assim, o cavaleiro que entrasse nessas ordens, passava a ter que prometer diante desse votos entre outros juramentos, como também deveria seguir condições. Logo, o cavaleiro de uma ordem militar, parecia ser um monge guerreiro, pois combinava as normas de postura que um monge deveria seguir, mas por outro lado, ele continuava a ser um nobre e um guerreiro. 

No entanto, das ordens militares religiosas a mais famosa provavelmente seja a Ordem do Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, mais conhecida como Ordem dos Templários, a qual surgiu após a Primeira Cruzada, mas ainda assim, com o intuito de defender os Reinos Latinos estabelecidos com a vitória cristã sobre os muçulmanos. 


Selo da Ordem dos Templários. Na imagem a esquerda, se ver dois cavaleiros montados num cavalo, o que conotava a ideia de serem "pobres" pois compartilhavam a mesma montaria. Na imagem a direita se ver uma representação do Templo de Salomão. 
“A Ordem do Templo ou dos Templários, a mais poderosa e famosa de todas elas, foi fundada no ano de 1118 por Hugo de Payens e, um ano depois, estabelece-se em Jerusalém, com a finalidade de defender os lugares santos. Originalmente se chamavam a si próprios de soldados pobres seguidores de Cristo e do Templo de Salomão. Formavam um pequeno grupo de cavaleiros que haviam concebido a idéia de defender e proteger os peregrinos que iam a Terra Santa. O êxito da primeira cruzada em 1099 havia novamente aberto Jerusalém e outros lugares sagrados aos viajantes europeus, porém a rota estava cercada de perigos. Os muçulmanos emboscavam os infiéis em pontos estratégicos, dizimando-os sistematicamente. Foi assim que Hugo de Payens, veterano da primeira cruzada, decidiu formar o grupo dedicado a proteção dos peregrinos. E em seguida aos êxitos obtidos, quando conseguiram por diversas vezes surpreender os muçulmanos antes que eles próprios emboscassem as caravanas cristãs, Hugo de Payens e seu pequeno grupo de cavaleiros organizaram-se como uma ordem religiosa. Ante o Patriarca de Jerusalém, juraram guardar as estradas e caminhos que conduziam aos lugares santos, protegê-los e abandonar a vida mundana para adotar uma existência de castidade, obediência e pobreza, assim como lutar com a mente pura para o verdadeiro e supremo Rei”. (GARTEN, 1987, p. 8-9). 

Em 1128, o papa Honório II oficializou a criação da ordem, tendo entre as várias recomendações lhe enviada, uma petição e uma regra monástica escritas por São Bernardo de Claraval, grande admirador dos Templários. Diferente dos Hospitalários, os Templários se dedicaram mais ao lado bélico, no entanto, forneciam alimento e esmolas aos cristãos, principalmente aos peregrinos e pobres. Além disso, eles praticavam os votos de celibato, pobreza e de obediência, sendo reconhecidos como vassalos apenas dos papas, não precisando decretar vassalagem a outro suserano. A ordem também estava isenta de pagar alguns impostos, e vivia de doações e dos espólios de guerra. 



Cavalaria templária. 
Os templários ao lado dos hospitalários foram as principais ordens militares a combaterem durante essas Cruzadas, pois outras das ordens importantes surgiram após o contexto dessa Cruzadas. Não obstante, os templários migraram de volta a Europa, se espalhando pela Itália, França, Inglaterra, Portugal, Espanha, etc. 

As ordens militares acabaram se tornando populares entre os cavaleiros, e muitos começaram a migrar para estas. Estima-se que os templários em seu auge chegaram a possuir pelo menos de 7 a 10 mil cavaleiros pela Europa. Alguns falam em número mais altos. Todavia, pertencer a uma ordem militar reforçava o ideal cristão imbuído na cavalaria da Baixa Idade Média, como também servia de status social, pois embora os cavaleiros tinham que fazer os votos religiosos, não significa que todos seguissem a arrisca tais votos. Os templários eram conhecidos como "pobres cavaleiros", mas a ideia de pobreza estava associada a simplicidade e não propriamente ao material, pois a Ordem dos Templários foi uma das mais ricas da Europa. 

Tantos os Hospitalários e Templários serviram de referências para a criação de outras ordens militares e até das ordens de cavalaria, mas antes de falar a respeito da segunda, listarei algumas das principais ordens militares, das quais muitas já não existem mais, mas algumas ainda continuam a existir, embora tenha deixado seu caráter militar, mantendo apenas o religioso ou o seu lado simbólico, já que a Igreja Católica se desvinculou-se da guerra.  
  • Ordem de São Tiago de Altopascio (c. 1075-1459)
  • Ordem dos Hospitalários (c. 1070 - atual)
  • Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém (c. 1099 - atual)
  • Ordem dos Templários (1118-1312)
  • Ordem de São Lázaro (c. 1098 - fundiu-se com outras ordens no séc. XV)
  • Ordem Militar de Santiago (1175 - atual)
  • Ordem Teutônica (1190 - atual)
  • Hospitaleiros de São Tomás de Canterbury (1191-1538)
  • Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria (1261-1556)
  • Ordem de Cristo (1318 - atual)
  • Ordem de São Maurício (1436-1572/fundiu-se com a Ordem de São Lázaro)
Cavaleiros Teutônicos combatendo cavaleiros mongóis no século XIII, durante as campanhas mongóis no nordeste-leste europeu. 
A partir do prestígio, riqueza e poder alcançados por algumas dessas ordens militares religiosas, alguns reis e outros nobres decidiram criar suas próprias ordens de cavalaria, sem estarem ligados propriamente ao intuito das "guerras santas" ou ao auxílio aos peregrinos e pobres. As ordens de cavalaria era uma forma de reforçar a vassalagem dos cavaleiros ao seu suserano, voltada mais para uma ideia de vassalagem para as causas do Estado, do que para as causas da Igreja. Embora alguns pretenderam que tais ordens atuassem também nas cruzadas. 


“Nos séculos XIV e XV a real importância das ordens de cavalaria, que existiam em grande número, era muito pequena, mas as aspirações professadas ao fundá-las eram sempre as do mais alto idealismo ético e político. Philippe de Mézières, sonhador político sem igual, desejava remediar todos os males do século por meio de uma nova ordem de cavalaria, a da Paixão, destinada a unir a Cristandade num esforço comum para expulsar os Turcos. Burgueses e trabalhadores podiam entrar nela, ombro a ombro com os nobres. Os três votos monásticos seriam modificados por motivos práticos: em lugar do celibato apenas se requeria a fidelidade conjugal. Mézières juntou-lhe um quarto voto, desconhecido nas precedentes ordens, o da perfeição moral individual, summa perfectio. (HUIZINGA, 1996, p. 63). 

“Semelhantemente Guillaume Fulastre escreve o seu livro do Velo de Ouro para demonstrar o elevado interesse e a sagrada importância da ordem, para que ela não fosse considerada uma obra de vaidade. Não era supérfluo chamar a atenção para os elevados objectivos do duque, a fim de que a sua criação pudesse ser distinguida das numerosas ordens de fundação mais recente. Não havia príncipe ou grande nobre que não desejasse ter a sua própria ordem. Orleães, Bourbon, Sabóia, Hainaut-Baviera, Lusignan, Coucy, todos ardentemente procuravam inventar emblemas bizarros e divisas impressionantes. A corrente da ordem da Espada de Pierre de Lusignan era feita de esses de ouro, a significar silêncio. O porco-espinho de Luís de Orleães ameaça a Borgonha com os espinhos, que lhe atira, segundo a crença popular, cominus et eminus. (HUIZINGA, 1996, p. 64).

Colar da Ordem do Tosão de Ouro. Inicialmente o tosão referia-se ao mito grego de Jasão e os Argonautas, no entanto, o grão-mestre da ordem, Jean Germain modificou essa simbologia, adotando a referência que o tosão não seria referente ao mito grego, mas ao tosão que o juiz Gideão usou no Antigo Testamento (ver livro dos Juízes, cap. VI ao VIII), o qual era descrito como um homem virtuoso e valoroso.
Diferente das ordens militares onde os votos eram obrigatórios, nas ordens de cavalaria, eles não eram necessários; o membro não precisava praticar o celibato ou o voto de pobreza, mas mantinha sua obediência a Ordem e ao suserano, embora que mesmo nas ordens militares nem todo os membros cumprissem com os votos, além do fato de que nem todo cavaleiro na Idade Média foi membro de alguma ordem. 

Algumas dessas ordens de cavalaria ainda existem hoje, mas com o caráter simbólico, concedendo medalhas aos eleitos. No entanto, após a Idade Média, durante a Idade Moderna, novas ordens de cavalaria continuaram a serem criadas, embora que as ordens religiosas começaram a não ser mais criadas e algumas foram suprimidas. Todavia, entre algumas das principais ordens de cavalaria do medievo podemos destacar:
  • Ordem da Jarreteira (1330-atual): fundada pelo rei Eduardo III da Inglaterra
  • Ordem da Estrela (1351-atual): fundada pelo rei João II da França
  • Ordem do Dragão (1408 - séc. XVI): fundada pelo rei Sigismundo II da Hungria
  • Ordem do Tosão de Ouro (1430-atual): fundada pelo duque Filipe III da Borgonha
  • Ordem de São Miguel (1469-1790): fundada pelo rei Luís XI da França
As ordens que surgiram na Idade Moderna, tiveram um papel mais ligado a questão simbólica da nobreza do que a guerra propriamente, pois embora a cavalaria ainda continuasse a ser empregada até o começo do século XX, ela foi perdendo muito da sua utilidade após o século XVII, devido ao crescimento do uso de armas de fogo no campo de batalha. Em povos que demoraram a utilizar armas de fogo, a cavalaria ainda se mantinha forte. No entanto, vale lembrar que as armas de fogo antes do século XIX, em geral só disparavam um tiro por vez, e eram eficientes a curta distância.

Por fim as ordens militares religiosas e as ordens de cavalaria contribuíram para reforçar, expandir e glorificar a autoridade e importância desses nobres guerreiros, desse estilo de vida em uma sociedade ainda apegada a guerra e noções marciais, respaldadas por ideários religiosos, dos quais, alguns associados a uma ideia de "guerra santa", principalmente contra os muçulmanos, devido a posse da Terra Santa, em especial a cidade de Jerusalém. Huizinga (1996) informa-nos que até o século XV ainda havia reis, duques, condes e papas interessados em se reaver Jerusalém. 

Armas e armaduras:

Para encerrar o texto, decidi comentar um pouco a respeito do armamento e equipamento utilizados em geral pelos cavaleiros, como também a fim de esclarecer uma dúvida que acomete muitos: afinal, os cavaleiros usavam ou não usavam aquelas armaduras que cobriam quase todo o corpo, como vemos nas pinturas, desenhos, filmes e jogos? 

Antes da instituição da cavalaria medieval da Baixa Idade Média, os cavaleiros usavam arcos e flechas como armas, mas com a profissionalização desse segmento do exército, e também o desprezo pela arquearia como força terciária (a infantaria era a secundária) numa batalha, ao ponto que os arqueiros recebiam um soldo inferior ao dos soldados. 

Além disso, com a melhoria dos equipamentos de proteção, flechas já não conseguiam mais perfurar as armaduras dos cavaleiros, logo, era inútil levar arcos num combate entre cavalarias, a não ser que fosse para matar os cavalos, ou cavaleiros que não usassem armaduras. Logo, os cavaleiros deixaram o arco reservado para o esporte e a caça, mas para o campo de batalha, passaram a continuar a usar principalmente espadas e lanças, mas também usavam maças, martelos e até manguais (uma haste com uma bola de ferro presa por uma corrente). 

No caso das maças e martelos a ideia era se partir os escudos e amassar as armaduras e elmos, já que as vezes a lâmina da espada não conseguia cortar a proteção. No entanto, a ideia de amassar a proteção não significa que os cavaleiros trajassem a icônicas armaduras de ferro que vemos na iconografia. Ao longo de grande parte da Idade Média, os cavaleiros usaram como principal vestimenta de proteção, a cota de malha, a qual consistia num emaranhado de pequenas argolas de ferro intricados, os quais formavam uma veste, a qual era colocada sobre o traje normal, para fornecer uma maior proteção contra flechas e cortes, embora, lanças e espadas conseguissem perfurá-las, e flechas disparadas a curta distância poderiam perfurá-la. 

Além da cota, ele também usava coletes feitos de couro cru entrelaçado e reforçados com rebites de metal. No entanto, pelo fato da cota de malha e o colete não serem eficazes contra todos os ataques, os cavaleiros passaram a usar pesados elmos de ferro e em alguns casos, usavam escudos.

Cavaleiros normandos combatendo com lanças e trajando cotas de malha. Tapeçaria de Bayeux, séc. XI, França. 
A medida que as guerras se tornavam mais difíceis e novas armas eram criadas na tentativa de atravessar as defesas, as armaduras tiveram que se aperfeiçoar. Nesse ponto começou a se delinear mais claramente a noção de cavalaria pesada e cavalaria leve, onde a primeira trajava uma armadura mais pesada, pois participavam do ataque direto, já a segunda, usavam uma armadura mais leve para garantir mobilidade e velocidade, usada mais no intuito da estratégia, de atacar rápido e se retirar. Quando a situação piorava, era necessário enviar a cavalaria pesada, no intuito de usar a força bruta.


Reconstituição contemporânea de uma cavalaria pesada bizantina do século XV.
Por esse fato, nem todo o cavaleiro trajaria o mesmo tipo de vestimenta, estando reservado a cavalaria pesada o uso da chamada armadura de placas, a qual foi uma invenção que passou a ser mais utilizada já no final do período medieval, sendo adotada por alguns cavaleiros entre os séculos XIV e XV. Nos jogos de cavaleiro, tal tipo de armadura se tornou preferencial para as competições.


Armaduras de placas do século XVI, já pertencentes a Idade Moderna. De fato tal tipo de armadura se tornou mais comum na Idade Moderna, entre os séculos XV e XVII.
O problema de se usar essas armaduras de placas as quais variaram seu formato e estilo, estava no peso, o qual diminuía a mobilidade tanto do cavaleiro quanto do cavalo, e o gasto, pois tais armaduras eram bastante caras por consumir muito metal, e nem todo ferreiro estava apto a forjá-las, e por sua vez nem todo cavaleiro possuía recursos para adquirir uma. Imaginar um exército trajado dessa forma, seria imaginar um grupo de algumas dezenas e não centenas. As pinturas que mostram vários cavaleiros trajando tal armadura de placas, na realidade ou se referia a uma pequena parcela da cavalaria ou uma idealização do pintor.


Nessa pintura retratando a Batalha de Castillon em 1453, no final da Guerra dos Cem Anos, o pintor francês Charles-Philippe Larivière idealizou as armaduras dos cavaleiros. Larivière pintou essa obra no século XIX, tendo como referencial as armaduras modernas e toda a iconografia romanceada da cavalaria medieval. Na prática, os cavaleiros do ano de 1453 já usavam armaduras de placas, mas não desse estilo. 
O uso de armaduras de placas se manteve até a primeira metade do século XVII quando elas passaram a serem substituídas por um peitoral, capacete e protetores para os braços e pernas, o que concedia menos peso e maior mobilidade, pois mesmo as armaduras de aço da época, não eram eficazes contra as armas de fogo, logo, se preferiu a mobilidade e agilidade do que tentar engrossar as armaduras que chegavam a pesar mais de 20 kg. 

Por outro lado, a cavalaria foi perdendo espaço como principal força de combate para a infantaria, agora recém equipada com novos armamentos e estratégias, como a criação de fileiras de lanceiros e alabardeiros os quais eram eficazes para interromper o avanço da cavalaria, além do uso de bestas e de armas de fogo, como o mosquete, arcabuz e a pistola. 

A nova infantaria viria a suplantar a cavalaria como principal força de ataque, embora a cavalaria ainda continuasse a atuar como força de apoio em alguns casos. No entanto, quando isso ocorreu, de longe a cavalaria já havia perdido muito de seu prestígio adquirido na Idade Média, e o cavaleiro moderno já não possuía os mesmos ares de heroísmo e romantismo de antes, embora essa ideia acabou permanecendo nas artes e na História.

NOTA: Embora o Rei Arthur teria vivido entre os séculos V e VI, a lenda arturiana só se tornou popular a partir do século XII com a reelaboração feita pelo clérigo inglês Godofredo de Monmouth (1100-1155), o qual fez menção a história de Arthur em seu livro Historia Regum Britanniae, onde ele elaborou uma lista de reis bretões, na qual consta o nome de Arthur. Posteriormente a Godofredo, outros autores ampliaram a história, acrescentando a espada Excalibur, Camelot, o mago Merlin, Lady Guinevere, a Fada Morgana, a Távola Redonda, etc. 
NOTA 2: Parte da fama que se atribui a Ordem dos Templários advêm das lendas que surgiram acerca da ordem, principalmente relacionadas com a descoberta de relíquias sagradas e conspirações. 
NOTA 3: Vlad II (1390-1447) foi membro da Ordem do Dragão, recebendo o cognome de Dracul (Dragão). Ele foi pai de Vlad Tepes III, conhecido também como Draculea ("Filho do Dragão") e Vlad, o Empalador, o qual serviu de inspiração para o Conde Drácula
NOTA 4: Os reis Ricardo, Coração de Leão e Filipe Augusto participaram da Terceira Cruzada (1189-1191).
NOTA 5: A cavalaria era uma prática masculina, Santa Joana d'Arc (1412-1431) foi uma das poucas exceções, onde uma mulher se trajou como um cavaleiro e teve voz de comando. 
NOTA 6: O uso de armaduras de placas não foi uma invenção medieval, os gregos e romanos trajavam armaduras feitas de placas de bronze já na Antiguidade. No final da Idade Média na Europa, tal tipo de armadura voltou a ser utilizada e na Idade Moderna foi aprimorada. 
NOTA 7: A concepção do cavaleiro herói, no século XX transpassou a ideia de um homem montado a cavalo. Batman é conhecido pelo epíteto de o Cavaleiro das Trevas (Dark Knight), o anime/mangá Saint Seiya ficou mais conhecido no Ocidente como Os Cavaleiros do Zodíaco

Referências Bibliográficas:
BLOCH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa, Edições 70, 1998.
CARDINI, Francisco. O guerreiro e o cavaleiro. In: LE GOFF, Jacques (dir.). O homem medieval. Lisboa, Editorial Presença, 1989. 
DUBY, Georges. As três ordens: ou o imaginário do feudalismo. 2a ed, São Paulo, Editorial Estampa, 1994. 
FERRARESE, Lúcio Carlos. A Transformação da Cavalaria na Idade Média: de grupo militar para grupo social dirigente. Anais do V Congresso Internacional de História, 2011, p. 2459-2468.
FRANCO JR, Hilário. As Cruzadas. 6a ed, São Paulo, Brasiliense, 1989. 
GARTEN, Juan de. Os Templários: Soberana Ordem dos Cavaleiros do Templo de Jerusalém. São Paulo, Traço Editora, 1987. 
HUIZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média. 2a ed, São Paulo, Editora Ulisseia, 1996. 
LOYN, Henry R. Dicionário da Idade Média. Tradução Álvaro Cabral, revisão Hilário Franco Jr. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997. 
MORRISON, Cécile. Cruzadas. Tradução de William Lagos. Porto Alegre, L&PM, 2009. 

Links relacionados:
A Era Feudal na Europa

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