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Leandro Vilar

domingo, 18 de junho de 2017

O que é o Fascismo?

Tornou-se recorrente nos últimos anos fazer uso da palavra fascista para designar determinadas pessoas que adotam posturas conservadoras, preconceituosas, fundamentalistas e severas sobre os mais diversos tipos de assuntos. Porém, muitas pessoas quando fazem uso dessa palavra para se referir a algum desafeto, em geral a usa mas no sentido de xingamento do que de adjetivação. Da mesma forma que chamar alguém de comunista pode soar para alguns como uma ofensa, apensar de que ainda hoje o comunismo seja mal compreendido pelo senso comum, o fascismo também caiu nessa problemática. 

A proposta desse texto é contar um pouco sobre a origem do Fascismo, quais foram suas pretensões de governo, o que era ser fascista, para assim chegar a fase atual, como o fascismo ficou mal visto na História. E o que de fato torna alguém fascista. Não foi de minha proposta adentrar detalhes históricos sobre a ascensão e queda do fascismo. 

Benito Mussolini: o fundador 

Irrevogavelmente falar sobre o Fascismo se faz necessário citar Benito Almicare Andrea Mussolini (1883-1945), idealizador e fundador do Partido Nacional Fascista. Já li em alguns blogs e até livros autores alegando que o fascismo surgiu ainda no final do XIX, oriundo da crise do marxismo. Há um problema nisso. O fascismo com todo o seu ideário como movimento revolucionário, partido e ditadura começa com Mussolini e seus seguidores, dizer que ele vem antes deles é complicado, pois é como dizer que o marxismo veio antes de Marx, já que o próprio Marx se baseava em postulados de filósofos socialistas do XVIII. Neste caso, algumas posições ideológicas defendidas pelos fascistas remontam o XIX, mas não significa dizer que ele surgiu naquela época. 

Benito era oriundo de uma família humilde de Predappio, uma comuna da região de Emília-Romanha, no norte do país. Seu pai Alessandro era ferreiro e sua mãe Rosa era professora. Alessandro Mussolini era conhecido por ser um grande simpatizante e admirador da ideologia socialista, e até de alguns anarquistas. Desde cedo influenciou o pequeno Benito a ideologia de esquerda. 

Ainda assim, Benito não foi uma criança que manteve boa relação com o pai, conhecido por ser indisciplinado, o jovem Benito foi expulso de duas escolas. Na adolescência continuou a se interessar por política, cada vez mais se engajando na militância socialista de seu país, vindo a se filiar ao Partido Socialista Italiano. Concluiu os estudos em 1901, qualificando para ser professor primário. Nessa mesma época que completava seus 18 anos, isso o obrigava a ter que prestar serviço militar obrigatório, porém, para evitar o exército, fugiu do país, indo se refugiar ilegalmente na Suíça, em 1902. (1940 A 1941, 2009, p. 44).

Na Suíça exerceu diferentes ofícios, sem conseguir um emprego regular. Aproveitou também para se engajar em causas sindicais, passando a ler a respeito do socialismo, marxismo e do sindicalismo. Apoiou movimentos grevistas e protestos públicos. Foi preso em 1903, por incentivar uma greve violenta. No mesmo ano foi deportado. 

Fotos de Benito Mussolini, em junho de 1903, quando foi preso pela polícia suíça. 
Mussolini ainda manteria uma vida instável nos anos seguintes. Voltou para a Suíça em 1904, até ser descoberto e deportado novamente. Com isso de volta à Itália, alistou-se no Exército. Em 1908, conseguiu emprego num jornal de Trento, cidade que na época estava sob domínio do Império Austro-Húngaro. Deu início a carreira de jornalista, editor e escritor. Ficou conhecido por escrever artigos e matérias de cunho socialista, marxista, anticlerical, nacionalista etc, para diversos jornais, alguns dos quais editados e publicados por ele mesmo. 

Defendia um governo nacionalista e autoritário, um Estado interventor na economia; tentava promover mudanças sindicais, implantar teorias marxistas e socialistas. Todavia, seu radicalismo na forma como escrevia e criticava o tornou de certa forma notório, apesar de que muitos o enxergavam como um jornalista de esquerda exaltado. 

Quando a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) eclodiu, Mussolini foi um ávido crítico, escrevendo ferrenhamente em protesto a decisão das Grande Potências em terem iniciado tal conflito. Porém, após a Itália ter entrado na guerra em 1915, pouco tempo depois, Mussolini mudou de opinião, passando a apoiar o conflito, isso o levou a entrar em desentendimento com o posicionamento do Partido Socialista Italiano, que em grande parte não era a favor da guerra. Os desentendimento se agravaram e Mussolini foi expulso do partido.

Em 1916 ele decidiu se alistar voluntariamente na guerra, permanecendo alguns meses, quando foi gravemente ferido em meados de 1917, tendo que abandonar o conflito. Retomando sua vida civil, retornou suas atividades no jornal, escrevendo a respeito de sua participação no campo de batalha, as ideias que ali ouviu, o sentimento nacionalista e imperialista. A partir desse ponto, Mussolini começou a unir seus amigos, simpatizantes e admiradores, que viriam a cooperar no surgimento do partido fascista. 

O Fascismo: 

Falar sobre o Fascismo é partir da ideia de que esse movimento político e sua ideologia mudaram ao longo dos anos. O Fascismo de 1919 não era o mesmo de 1922 ou de 1940. Mussolini com o passar dos anos foi mudando a forma de pensar e agir de seu partido, tornando-o cada vez mais ditatorial. Uma vez Abraham Lincoln disse que: "se quiser pôr a prova o caráter de um homem dê-lhe poder". Essa frase é bastante aplicável a Mussolini, embora não seja minha proposta narrar a trajetória de sua carreira política, ainda assim, veremos em alguns momentos como o seu discurso fascista foi se alterando. 

Para entender o contexto histórico no qual o Fascismo surgiu, é preciso levar em consideração os seguintes pontos que revelam crises pelas quais o Estado italiano e seu povo vivenciavam na década de 1910 e 1920. 
  • Impopularidade do governo: a Itália naquela época era uma monarquia frágil, com um rei impopular. Movimentos republicanos tentavam derrubar o poder. 
  • Ideologias partidárias: o país estava povoado por movimentos sindicais e trabalhistas, partidos nacionalistas, socialistas, anarquistas, marxistas, democráticos, trabalhistas etc. 
  • Conscientização da classe trabalhadora: os trabalhadores rurais e urbanos da Itália estavam razoavelmente inseridos nos debates trabalhistas e sindicais comuns na época: luta por direitos trabalhistas, sindicatos, combate a exploração do trabalho, luta de classes etc. 
  • Crise econômica: apesar da Itália ter lutado em três dos quatro anos da guerra, os custos do conflito pesaram aos cofres públicos. Em 1920 havia pelo menos 500 mil desempregados. Os camponeses que ainda eram a maioria estavam passando problemas financeiros. 
  • Fracasso militar: a campanha italiana na Primeira Guerra foi sofrível e bastante criticada na época. Em alguns lugares as pessoas brigavam no meio da rua com os soldados, acusando-os de covardia e fraqueza. 
  • Anseios revolucionários: a Itália vivenciava desde sua unificação na década de 1860, anseios revolucionários constantes, em dados momentos mais exaltados e outros menos latentes. A década de 1910 vivenciou o retorno de tais anseios. O próprio Fascismo se apresentava como um movimento de caráter revolucionário. 
  • Descontentamento coletivo: os partidos da época aproveitavam para tentar conquistar a população descontente com os problemas que o país vivenciavam. Apresentavam propostas bastante atrativas, além de incentivarem tendências nacionalistas, sindicalistas e corporativas como forma de alegar a defesa da unificação do povo para combater os problemas que a nação vivenciava. 
a) Fase inicial: 1914-1919

Após o retorno de Mussolini a frente de seu jornal o Il Popolo d'Italia (O Povo da Itália), Mussolini aproveitou seus antigos contatos e os que fez durante o serviço militar para começar a arregimentar apoio para a criação de um grupo pró-revolucionário de caráter nacionalista, trabalhador e social. Esse grupo começou a se reunir nos regimentos de combate do Exército, chamados popularmente de fascios, termo de onde se originou a palavra fascista, além de ser uma alusão ao fasces lictoris, instrumento de origem etrusca, formado por feixes de bétula e unido a uma lâmina de machado. Tal instrumento mais simbólico do que funcional, foi adotado pelos romanos, representando um símbolo de poder e autoridade. Duas características compartilhadas pelos fascistas. 

Segundo Mussolini, a ideia original para a criação dos fascis ainda teria começado em 1914, com o manifesto Fascio rivoluzionario d'azione internazionalista (Fascio revolucionário de ação internacionalista). Tendo começado como um pequeno grupo de militantes pró-revolucionários de esquerda. Isso é um tanto curioso. Se o Fascismo foi uma ditadura de direita, no início ele era um movimento de esquerda. De acordo com o manifesto publicado em 5 de maio de 1914, escrito pelo próprio Mussolini, o Fascio se apresentava como defensor dos interesses trabalhistas e populares, frente ao avanço do grande capital e da burguesia. No manifesto Mussolini também criticava a guerra que estava por estourar (oficialmente a guerra começou em 28 de julho, mas meses antes já havia mobilização dos exércitos), criticava o imperialismo burguês-capitalista, e tentava promover a unificação da classe operária quase que aos moldes do manifesto comunista de Marx e EngelsNota-se aqui claramente um posicionamento marxista-socialista. De fato, Mussolini naquela época ainda era socialista. 

Todavia, a história do movimento que viria a se tornar partido, somente começou a ganhar corpo propriamente falando, em 1918. Nessa época Mussolini havia conquistado colaboradores importantes provenientes do Partido Nacionalista e do Partido Futurista, ao mesmo tempo em que se desentendia com o Partido Socialista, de onde veio a ser expulso.  

O Partido Nacionalista se formou a partir da Associação Nacionalista Italiana, surgida 1910. Um grupo formado por monarquistas e republicanos que defendiam a restauração da Itália como uma potência internacional. Prezavam por um governo forte e eficiente. Com o advento da Grande Guerra, os nacionalistas passaram a apoiar causas imperialistas e neocolonialistas, defendendo a invasão de outros países europeus e africanos para a criação de colônias. Por sua vez, o Partido Futurista foi fundado em 1918, apesar de existir como movimento anos antes. Defendia um posicionamento sindicalista-revolucionário, mais preocupado com questões associadas ao trabalho, a economia e a sociedade. Apoiavam reformas trabalhistas, lutavam por uma Itália republicana (apesar de que alguns defendiam a monarquia), reformas constitucionais; defendiam a laicização do Estado e a diminuição da influência da Igreja na cultura e na sociedade. (PARIS, 1972, p. 27-30, 48-52). 

Ambos os partidos influenciaram bastante Mussolini, inclusive ele foi solidário a causa de ambos, ao ponto de haver membros nacionalistas e futuristas que faziam parte do movimento fascista e vice-versa, cooperando em protestos, greves, atentados terroristas etc. Não obstante, nessa época Mussolini já havia abandonado relações com os socialistas, tornando-se seu opositor e caminhando cada vez mais para a ideologia de direita. 

A partir de 1919 Benito Mussolini decidiu formalizar o fascismo. Em nota publicada no jornal Il Popolo d'Italia, em data de 2 de março, Mussolini convidava leitores, simpatizantes, amigos, curiosos etc., para participar da primeira reunião do movimento fascista, pois o plano era legaliza-lo como partido. Apesar da propaganda, pouquíssimas pessoas compareceram, entre os quais Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), fundador do Partido Político Futurista, um dos principais colaboradores de Mussolini naquele tempo. A reunião ocorreu em 23 de abril, numa sala na praça do San Sepolcro, em Milão. Ali o movimento passava-se a se chamar Fasci di combattimento

Ao lado de Mussolini tornaram-se dirigentes do movimento (o partido ainda não havia sido reconhecido), Filippo Marinetti, Ferruccio Vecchi, Mario Giampaoli e Cesare Rossi, a maioria oriundo do partido futurista, e até mesmo de alas descontentadas com o socialismo e o marxismo. A partir de maio começou a se realizar reuniões com os membros dirigentes para organizar o manifesto do movimento, o qual foi lançado em 6 de julho de 1919. Leiamos o que foi dito, com base na tradução do livro As origens do Fascismo (1972): 


Programa dos Fasci Italiani di Combatimento (06/07/1919)

Italianos!

Eis o programa nacional de um movimento sadiamente italiano. Revolucionário, porque antidogmático e antidemagógico; poderosamente inovador porque desprovido de apriorismos. Colocamos acima de tudo e de todos a valorização da guerra revolucionária. 

Os outros problemas: burocracia, administração, direito, escolas, colônias etc., nós os esboçaremos quando tivermos criado a classe dirigente. 

É por isso que QUEREMOS:

Para o problema político:
  • Sufrágio universal com escrutínio de lista regional e representação proporcional, direito de voto e elegibilidade para as mulheres.
  • Redução do limite de idade - dezoito anos - para os eleitores, e vinte e cinco para os Deputados. 
  • Abolição do Senado.
  • Convocação para um período de três anos, de uma Assembleia Nacional que deverá, como tarefa essencial, estabelecer a forma de constituição do Estado. 
  • Formação de Conselhos nacionais técnicos do trabalho, da indústria, dos transportes, da higiene social, das comunicações etc., eleitos pelas coletividades profissionais ou de ofício, com poderes legislativos e o direito de eleger um Comissário-Geral com poderes de Ministro. 
Para o problema social: 

QUEREMOS:
  • Promulgação rápida de uma Lei que sancione, para todos os trabalhadores, a jornada legal de oito horas de trabalho.
  • Salário-mínimo.
  • A participação dos representantes dos trabalhadores no funcionamento técnico da indústria.
  • A concessão, para as próprias organizações proletárias (contanto que elas sejam dignas moral e tecnicamente), na administração de indústrias u de serviços públicos. 
  • A organização rápida e completa dos ferroviários e de todas as indústrias dos transportes. 
  • Uma modificação necessária do projeto de lei de segurança por invalidez ou velhice, que diminua o limite de idade de 65 anos para 55 anos. 
Para o problema militar: 

QUEREMOS
  • Instituição de uma Milícia Nacional, com breves períodos de instrução e um objetivo exclusivamente defensivo. 
  • Nacionalização de todas as indústrias de armamentos e de explosivos. 
  • Política exterior nacional que valorize, nas competições pacíficas da civilização, a nação italiana no mundo. 
Para o problema financeiro:

QUEREMOS
  • Um grande imposto extraordinário de caráter progressivo sobre o capital, que represente uma autêntica EXPROPRIAÇÃO PARCIAL de todas as riquezas. 
  • A confissão de todos os bens das Congregações religiosas e a supressão de todos os rendimentos episcopais, que constituem um déficit enorme para a Nação, e um privilégio para uma minoria. 
  • A revisão de todos os contratos de provisões de guerra e o confisco de 85% dos benefícios de guerra. 
***

Embora seja breve o programa, nota-se a primeira vista, valores ainda de caráter sindical-trabalhista que remontam a época de Mussolini como militante socialista, além do fato de vermos também posicionamentos ideológicos dos futuristas, como a defesa de reformas políticas relacionadas a organização do Poder Executivo, o sufrágio universal e até mesmo a taxação da Igreja. Todavia, é válido salientar que as propostas trabalhistas como regulamentação do salário mínimo, jornada diária de 8 horas semanais, aposentadoria, assim como, o sufrágio feminino, eram direitos requisitados desde o século XIX, por diferentes partidos de distintos países, não consistindo numa pauta específica dos fascistas, mas num conjunto de questões comuns a época. 

Após a publicação do programa em julho, Mussolini e as demais lideranças se mobilizaram para arregimentar membros. O primeiro congresso ocorreu entre 9 e 10 de outubro em Florença, contando com poucas participações. Em novembro daquele ano, ocorreram eleições para deputados. Mussolini candidatou-se a deputado por Milão, porém, não foi eleito. Os candidatos socialistas receberam 170 mil votos, enquanto os candidatos fascistas que incluíam Mussolini, Armando Mazza, Toscanini e Marinetti, receberam apenas 4.795 votos. (PARIS, 1972, p. 69). A derrota dos fascistas incomodou tanto, que dois dias depois uma bomba foi estourada na cidade, o atentado foi realizado por partidários fascistas descontentes com o resultado das eleições. Mussolini chegou a ser preso por poucas horas, sendo suspeito de ter ordenado a explosão da bomba, apesar de ter sido liberado após pagar fiança. 

b) Fase de ascensão: 1920-1922

Se 1919 não foi um dos melhores anos, pois os fascistas foram reprovados nas eleições municipais, além de terem poucos adeptos e interessados, ainda assim Mussolini e os demais dirigentes decidiram agir, nem que fosse necessário tomar medidas mais severas. Ao longo do ano de 1920 os fascistas participaram de importantes greves e congressos sindicais que ocorreram no país, como forma de promover o próprio partido e ganhar mais adeptos. 

Em 1920 também ocorreu a ocupação de Fiume, cidade croata que foi ocupada pelo poeta e militante intervencionista e nacionalista Gabriele d'Annunzio (1863-1938). A ocupação da cidade gerou sérias controvérsias entre o Império Austro-Húngaro e o Reino da Itália, pois os austro-húngaros reivindicavam o controle de Fiume, e Annunzio o oferecia a Itália, porém, o governo italiano não aceitou a proposta de Annunzio e o declarou golpista e traidor. Com isso Annunzio proclamou a independência da cidade. De pretensões nacionalistas e socialistas radicais, Annunzio instaurou o modelo de corporativismo, algo que interessou bastante Mussolini, sem contar que ele mesmo teria se inspirado na atitude golpista de Gabriele d'Annunzio, para executar seu próprio golpe de Estado. (PARIS, 1972, p. 70-72). 

A participação fascista nas greves, manifestações e congressos sindicalistas no ano de 1920 e 1921 resultaram em êxito para o partido. Em 1921 os Fasci Italiani di Combatimento se tornaram o Partido Nacional Fascista (Partito Nacionale Fascista). No dia 15 de maio ocorreram eleições para deputado, Mussolini se candidatou novamente e dessa vez foi eleito. Ao todo 35 deputados fascistas foram eleitos. No dia 21 de junho, já empossado deputado ele realizou seu primeiro discurso na Câmera. 

"O Partido Nacional Fascista foi fundado em 1921, e Mussolini começou imediatamente uma campanha para a sua expansão, buscando o apoio dos camponeses, do Exército e dos monarquistas, cativando também muitos trabalhadores desencantados com o aburguesamento do Partido Socialista. Progrediu rapidamente graças a sua habilidade dialética, sua competência organizativa e sua grande capacidade de trabalho". (1940 A 1941, 2009, p. 44). 

No final do ano de 1921, os fascistas publicaram no jornal Il Popolo d'Italia o programa de seu partido. Vejamos do que tratava o programa. 

Programa do Partido Nacional Fascista (27/12/1921)

Fundamentos

O fascismo constituiu-se em Partido político para reforçar sua disciplina e precisar seu "credo". A nação não é a simples soma dos indivíduos vivos nem o instrumento dos objetivos partidários, mas um organismo que compreende a série indefinida das gerações cujos indivíduos são elementos passageiros: é a síntese suprema de todos os valores materiais e espirituais da raça.

O Estado é a encarnação jurídica da Nação.

As instituições políticas são formas eficazes como valores nacionais vai encontrar expressão e proteção. Os valores individuais autônomas e os comuns à maioria dos indivíduos, expresso em coletivos povo organizado (famílias, municípios, empresas, etc.), devem ser promovidos, desenvolvido e defendido, novamente como parte da nação a que estão subordinadas.


O Partido Nacional Fascista afirma que, no presente momento histórico a forma dominante de organização social no mundo é a Sociedade Nacional e da lei essencial da vida no mundo não é a unificação das várias empresas em uma grande empresa: "A humanidade" como é que a teoria do direito internacional, mas fecunda e desejável, competição pacífica entre as várias Sociedades Nacionais.

O Estado

O Estado deve ser reduzido às suas funções essenciais da ordem jurídica e política.

O Estado deve investir em capacidade e responsabilidade associações também dando corporações profissionais e econômicas à direita do eleitorado para o corpo dos conselhos Técnico Nacional.

Consequentemente, eles devem ser limitados aos poderes e as funções atualmente atribuídas ao Parlamento.

A competência dos problemas Parlamento que afetam o indivíduo como um cidadão do estado e do Estado como órgão de criação e proteção dos interesses nacionais supremos; a competência dos problemas Conselhos Nacional técnicas que se relacionam com as várias formas de atividade dos particulares na sua qualidade de produtores.

O Estado é soberano, e que a soberania não pode e não deve ser afetada ou diminuída pela Igreja para a qual devemos garantir a maior liberdade no exercício do seu ministério espiritual.

O Partido Nacional Fascista subordinar a sua atitude em face das formas de instituições políticas individuais, os interesses morais e materiais da nação entendida em sua realidade e em seu desenvolvimento histórico.

As Corporações

O fascismo não pode contestar o fato histórico do desenvolvimento das empresas, mas quer coordenar este desenvolvimento que satisfaçam os requisitos nacionais.

As corporações devem ser promovidos de acordo com dois objectivos fundamentais, ou seja, como uma expressão da solidariedade nacional e como um meio de desenvolvimento da produção.

As corporações não deve tendem a se afogar do indivíduo na sociedade nivelamento arbitrariamente as habilidades e pontos fortes do indivíduo, mas sim para melhorar e desenvolvê-las. O Partido Nacional Fascista visa abalar os seguintes postulados em favor das classes trabalhadoras e clerical:
  • A promulgação de uma lei estadual que consagra para todos os assalariados a jornada 'legal' de oito horas diárias, com as possíveis exceções recomendados pelas necessidades agrícolas ou industriais.
  • A legislação social atualizado para as necessidades de hoje, especialmente no que diz respeito a lesões, a deficiência e de idade de ambos os trabalhadores agrícolas e industriais ou administrativos, a menos que não haja a produção de compotas.
  • Um representante dos empregados na operação de cada indústria, limitada em termos de pessoal.
  • A adjudicação da gestão de indústrias ou serviços públicos aos sindicatos que são moralmente digno e tecnicamente preparado.
  • A difusão de pequenas propriedades naquelas áreas e para aquelas culturas que produtivamente o permitam. 
Princípios de política interior

O Partido Nacional Fascista pretende conferir uma dignidade absoluta aos costumes políticos a fim de que a moral pública e a moral privada não mais se mostrem em contradição na vida da Nação.

Aspira à honra suprema do Governo do País; a restauração do conceito ético que os governos devem administrar assuntos públicos já não nos interesses de partidos políticos e patrocínio, mas no interesse supremo da nação.

Ele deve ser restaurado o prestígio do Estado-nação e que o Estado não ajudar indiferente ao surto e o excessivo poder das forças que minam ou não ameaçam materialmente e espiritualmente enfraquecido a equipe, mas é zeloso guardião e defensor e promotor da tradição nacional, o sentimento nacional, a vontade nacional.

A liberdade do cidadão tem um duplo limite: na liberdade das outras pessoas coletivas e o direito soberano da nação para viver e se desenvolver.

O Estado deve promover o desenvolvimento da nação, não monopolizar, mas através da promoção de cada obra destina-se ao progresso ético, intelectual, religioso, artístico, legal, social, econômico, fisiológico da comunidade nacional.

Princípios de política exterior

Itália reafirma o direito a suas unidade histórica e geográfica completos, mesmo quando ainda não é alcançado; cumprir a sua função como um baluarte da civilização latina, no Mediterrâneo; membros sobre diferentes povos nacionalidades anexas à Itália e equilíbrio estável ao império da sua lei; dar uma boa proteção aos italianos no exterior, que deve ser dado o direito de representação política.

O fascismo não acredita que a vitalidade e os princípios subjacentes a chamada Liga das Nações, uma vez que nem todos os países estão representados, e aqueles que não são encontrados lá em pé de igualdade.

O fascismo não acredita que a vitalidade a eficiência da Internacional Comunista, branco ou qualquer outra cor, porque estes são construções artificiais e formalistas que recolhem pouco mais indivíduos minoritários ou menos convencidos pela comparação das grandes massas de pessoas que estão vivendo, progredindo ou regredindo, eles acabam de se mudar para determinar os interesses diante do qual todas as construções internacionalistas estão destinados a cair, como as recentes documentos experiência histórica.

A expansão do comércio e influência política dos tratados internacionais deve tender a uma maior propagação no mundo.

Os tratados internacionais devem ser revistos e editados nas partes que são inaplicável revelar e, em seguida, ajustado para as necessidades nacionais e globais da economia.

O Estado deve valorizar as colônias italianas nas instituições do Mediterrâneo e no exterior com comunicações econômicas, culturais e rápidas.

O Partido Nacional Fascista é a favor de uma política de relações de amizade com todos os povos do Oriente próximo e distante. 

A defesa e o desenvolvimento da Itália no exterior deve ser confiada a um Exército e uma adequada Marinha para as necessidades da sua política e a eficiência de outros países e órgãos diplomáticos, incluindo a sua função e cultivo da mente, de forma a expressar o símbolo da substância da grandeza da Itália na frente do mundo.

Marcos para a política financeira e de reconstrução econômica do país

O Partido Nacional Fascista vai agir:
  • Porque é sancionada responsabilização pública externa das pessoas físicas e jurídicas em casos de inadimplência de acordos de trabalho celebrados livremente.
  • Porque é estabelecida e regulamentada a responsabilidade civil das pessoas nas administrações públicas e administradores por sua negligência em qualquer comparação dos danos.
  • Porque a publicidade é imposta sobre o lucro tributável e o estabelecimento dos sucessores valores, a fim de tornar possível um controle sobre as obrigações financeiras de todos os cidadãos para o Estado.
  • Porque qualquer intervenção do Estado, se é absolutamente necessário para proteger certos ramos da indústria agrícola e fabricação da perigosa concorrência estrangeira, é suscetível de estimular as energias produtivas do país, não para assegurar uma exploração parasitária da economia nacional por grupos plutocráticos.
Objetivos imediatos do Partido Nacional Fascista
  1. A consolidação dos orçamentos estaduais e entidades públicas locais, incluindo através de economias rígidas em todos os organismos parasitas ou pletóricos e despesas não estritamente necessárias para o bem dos indivíduos ou necessidade geral.
  2. A descentralização administrativa para agilizar serviços e facilitar a evacuação da burocracia, mantendo a oposição, e rompendo todo o regionalismo político.
  3. A proteção rigorosa do dinheiro dos contribuintes, eliminando qualquer benefício ou favor, pelo Estado ou outras entidades públicas, em consórcios, cooperativas, indústrias, patrocínio e similares, incapaz de via adequada e não essencial para a Nação.
  4. A simplificação do organismo tributário e a distribuição de impostos de acordo com um critério de proporcionalidade, sem partidarismo a favor ou contra este ou aquela categoria de cidadãos, e não de acordo com os conceitos de progressividade despojada.
  5. A oposição à demagogia financeira e fiscal que desencoraja iniciativas ou fontes improdutivas de poupança e produção doméstica. 
  6. A cessação da política de obras públicas, concedida por razões eleitorais e também por supostas razões de ordem pública, ou pelo menos não lucrativa por sua distribuição muito irregular e fragmentada.
  7. O estabelecimento de um plano abrangente de obras públicas sob as novas necessidades econômicas, técnicas, militares da Nação. Um plano que propõe principalmente: completar e reorganizar a rede ferroviária italiana, que reúne as melhores regiões resgatadas nas linhas da península e comunicações internas da mesma península, especialmente aquelas longitudinais do sul ao norte através dos Apeninos; acelerar na medida do possível, a eletrificação de ferrovias e, em geral, a exploração da energia hidrelétrica, organizando as bacias montanhesas também em favor da indústria e da agricultura; corrigir e estender a rede de estradas, especialmente no sul, onde consiste numa necessidade urgente para resolver muitos problemas econômicos e sociais; estabelecer e fortalecer comunicações marítimas com o continente de um lado e as ilhas do Adriático e da costa oriental e nossas colônias mediterrânicas, por outro, e entre o norte e o sul da própria península, tanto como uma ajuda para a rede ferroviária, tanto para encorajar italianos à navegação; concentrar gastos e esforços em alguns portos dos três mares, fornecendo-lhes todas as ferramentas modernas; a lutar e resistir contra o particularismo local que, especialmente no campo das obras públicas, é responsável pela dispersão de esforços e um obstáculo para as grandes obras de interesse nacional.
  8. Retornando a indústria privada das empresas industriais a que a administração do Estado revelou-se inadequado: especialmente a de telefonia e ferroviária (de estímulo à competição entre as grandes linhas e distinguir essas das linhas essenciais locais com diferentes métodos).
  9. A renúncia ao monopólio dos Correios e Telégrafos para que a iniciativa privada possa complementar e, eventualmente, substituir o serviço Estado.
Princípios de política social

O Fascismo reconhece a função social da propriedade privada, que é um direito e um dever.

É a forma de gestão que a companhia tem historicamente delegada a indivíduos para o aumento dos ativos da empresa.

O Partido Nacional Fascista na frente dos projetos sociais de reconstrução da economia baseada no coletivismo, está no chão da realidade histórica e nacional que não permite que um único tipo de economia agrícola ou industrial restrinja-se a essas formas - seja individualista ou qualquer outro tipo - para garantir a máxima produção e bem-estar máximo.

O Partido Nacional Fascista defende um regime que estimule iniciativas e energias individuais (que formam o fator mais poderoso e ativo da produção econômica), promova o crescimento da riqueza nacional com a renúncia absoluta de todo o maquinário pesado, caro e antieconômico de estatização, socialização, municipalização, etc.


O Partido Nacional Fascista apoiará qualquer iniciativa que, em seguida, tendem a melhorar a organização do fabrico, que visa eliminar todas as formas de parasitismo individual ou de classe.

O Partido Nacional Fascista agirá
  • porque eles são regidos pela impostura das lutas dos interesses de categorias e classes, em seguida: o reconhecimento legal com as consequentes responsabilidades de trabalhadores e de entidades patronais;
  • porque está consagrado e executadas, de qualquer maneira, a proibição de greves em serviços públicos com criação simultânea de um tribunal arbitral composto por representantes do executivo, um representante da classe trabalhadora ou categoria em conflito, e um representante dos serviço público
Política escolar

A escola deve ter como objetivo geral a formação de pessoas capazes de assegurar o progresso econômico e histórico da Nação; elevar o nível moral e cultural da massa e promover os melhores elementos de todas as classes para garantir a renovação constante das camadas dirigentes. 

Para este efeito, são urgentemente necessárias as seguintes medidas:
  1. reforçar a luta contra o analfabetismo, construção de escolas e estradas de acesso; tendo de autoridade, pelo Estado, todas as medidas que se revelarem necessárias.
  2. extensão da escolaridade obrigatória até ao sexto ano incluído nos municípios, que sejam capazes de fornecer as escolas necessárias e para todos aqueles que, após o exame de graduação não sigam o caminho do ensino médio; escolaridade obrigatória até a quarta série incluindo em todos os outros municípios.
  3. a escola primária deve adotar uma característica estritamente nacional para que ela também prepare fisicamente e moralmente os futuros soldados da Itália; para que dirijam o controle estatal dos programas, a seleção de professores e seu trabalho, especialmente nas cidades dominadas por grupos antinacionalistas.
  4. o ensino secundário e universitário serão livres, exceto para o controle estatal dos programas de ensino sujeitos ao dever do Estado de fornecer a educação pré-militar, que procura facilitar a formação de oficiais.
  5. a escola normal adotará os mesmos critérios utilizados para as escolas primárias, para que os futuros professores sejam destinados a uma postura nacionalista, mesmo nas escolas onde eles sejam professores elementares.
  6. as escolas profissionais, industrial e agrícola, estabelecidas com o plano orgânico utilizando a contribuição financeira e experiência de industriais e agricultores, a fim de aumentar a capacidade produtiva da nação e criar a classe média de técnicos entre os artistas e os gerentes de produção. Para este fim, o Estado vai integrar e coordenar iniciativas privadas, substituindo-os onde falta.
  7. os estudos clássicos predominantes nas escolas secundárias e médias, passará por reforma que unifique a todos, passando de modo em que os alunos deverão aprender obrigatoriamente o latim; o ensino de francês não será mais obrigatório; deverá se escolher e adaptar a linguagem de acordo com as necessidades de cada região, especialmente aquelas de fronteira. 
  8. unificação de todas os benefícios escolares, bolsas de estudo e similares, no intuito de instituir seu controle pelo Estado, que escolhe desde aulas elementares aos alunos mais inteligentes, disposto a garantir a sua educação superior, impondo, se necessário, o fornecimento de auxílio escolar desde que a família não tenha condições para isso. 
  9. Incentivo econômico e moral aos mestres e professores, assim como aos oficiais do Exército, como os educadores militares da Nação, garantindo-lhes assim a proteção de sua dignidade e os meios para aumentar a sua cultura, e para inspirá-los e a consciência pública nacional da importância da sua missão. 
A Justiça

Será intensamente promovido meios preventivos e terapêuticos para a delinquência (internatos, reformatórios, asilos criminais etc.).

A pena - meio de defesa da Sociedade nacional ferida em lei - deve ser cumprida normalmente pelas funções de punição e correção: o sistema penitenciário em decorrência da segunda função, deverá fornecer melhorias higiênicas e sociais para o desenvolvimento do trabalho prisional. 

Tribunais especiais devem ser abolidos. 

O Partido Nacional Fascista é a favor da revisão do Código Penal Militar.

O procedimento deve ser rápido.

A Defesa nacional

Todo o cidadão tem a obrigação de serviço militar.

O Exército deve ter como referência a Nazione Armata, onde cada força individual, atividades coletivas, econômicas, industriais e agrícolas são totalmente enquadradas com a finalidade de defesa suprema dos interesses nacionais.

O Partido Nacional Fascista preconiza a organização imediata de um Exército que, com formação completa e perfeita, por um lado zele - escolta atenta - pelas fronteiras conquistadas, e por outro, no País prepare, arraste e enquadre os espíritos, os homens e os meios que a Nação possa produzir, com seus infinitos recursos, na hora do perigo e da glória. 


Para os mesmos efeitos do Exército, em conjunto com a escola e com as organizações desportivas, deve ser dada nos primeiros anos para o corpo e espírito da cidade a aptidão e educação para combater e sacrifício por seu país. (Educação pré-militar).

Organização

O Fascismo em ação é um organismo: 
  • político;
  • econômico;
  • de combate.
No domínio público, aceita, sem sectarismo, todos os que subscrevem sinceramente seus princípios e obedecem a sua disciplina; encoraja e valoriza os talentos particulares, reunindo-os segundo suas atitudes m grupos de competência; participa intensa e constantemente de todas as manifestações da vida política de sua doutrina realizando contingentemente o que poderia fazê-lo de modo prático e reafirmando seu conteúdo integral. 

No domínio econômico encoraja a constituição das corporações profissionais, puramente fascistas ou autônomas, conforme as exigências de tempo e de lugar, com a condição de que obedeçam, em sua essência, ao princípio nacional segundo o qual a Nação está acima das classes. 

No domínio da organização de combate, o Partido Nacional Fascista forma um único todo com suas esquadras: milícia voluntária a serviço do Estado Nacional, força viva em que se encarna a Ideia Fascista e pela qual essa ideia é defendida. 


***

Nota-se por esse programa o viés nacionalista, corporativista, imperialista e colonialista defendidos por Mussolini, porém, algumas novidades e contradições também são visíveis. Se anteriormente ele era a favor de um Estado intervencionista e até mesmo não simpatizava com o liberalismo, Mussolini volta atrás, passando a defender um Estado mínimo e a adoção de um liberalismo supervisionado, tanto na gestão econômica, quanto na gestão trabalhista. Também passa a defender menos burocracia, e até mesmo menos sindicalização. Não obstante, os fascistas também procuravam a partir de agora, inibir o movimento grevista, como em sugerir que funcionários públicos não poderiam fazer greve. Isso é um dado interessante, pois durante a ditadura, o governo fascista foi ferrenho em combater as greves. 

Não obstante, torna-se mais enfático nesse programa a tendência militarista dos fascistas. De fato, ainda em 1921, uma "milícia fascista" foi formada e inclusive usada em alguns atentados no país, especialmente na região da Toscana, Lombardia e Piemonte, englobando cidades como Florença, Milão, Turin, Gênova, Bolonha, Forlí, Cremona etc. (SASSOON, 2009, p. 106) Posteriormente essa mesma "milícia" seria usada na Marcha sobre Roma, que veremos adiante. 

No escopo educacional, o Fascismo não fornece por esse programa ideias novas, ele se pauta em temas comuns na época que pediam reformas na forma de ensino, combate ao analfabetismo e incentivo ao estudo e a magistratura. O mesmo se aplica ao campo jurídico, embora a grande novidade proposta por eles era acabar com os tribunais especiais e exigir uma reforma no código penal militar, reforma essa de importante interesse para eles, já que se apresentavam como um "movimento militar". E para que eles pudessem tomar o poder e se manter nele, teriam que passar sobre a lei (de fato eles passaram sobre a lei). 

No programa também vemos o desencantamento de Mussolini e outros membros que haviam sido militantes de esquerda. Claramente há uma crítica a Internacional Comunista. Além disso, em outro documento publicado pelo partido, revela-se o repúdio a Revolução Russa de 1917 e o então governo bolcheviqueMas se por um lado Benito Mussolini se mostrou contra o governo soviético de princípios comunistas, na Itália ele assinou um pacto de pacificação com os socialistas, devido aos conflitos e brigas que estavam ocorrendo naquele ano pela disputa eleitoral. Ao assinar esse pacto em 3 de agosto, algumas alas mais radicais do partido se descontentaram com o próprio Mussolini, que teve que passar o restante do ano evitando tomar um golpe interno e perder a presidência do partido. 

O pacto entre fascistas e socialistas foi um dos passos para a guinada do fascismo ainda em 1922. Os socialistas haviam perdido colaborados após os fracassos dos congressos trabalhistas e de algumas greves realizadas naquela época. Os fascistas aproveitaram para tentar puxar para seu lado esse pessoal descontente. Apesar de serem ideologias de posições opostas, ambos defendiam preceitos revolucionários e melhorias na educação, sociedade e economia. Não obstante, outros dirigentes do fascismo decidiram agir de forma mais enérgica. Atentados e invasões foram promovidos pelos "camisas negras", nome dado aos fascistas devido ao seu uniforme preto. A Milícia Fascista liderada por Balbo, De Bono, De Vecchi e atá mesmo D'Annunzio se mobilizaram para tentar capturar as cidades de Milão, Nápoles e Florença

Os fascistas desde 1920 contavam com apoio de alas do Exército, do Parlamento e da Monarquia, a ideia era realizar um golpe de Estado, pacífico ou violento se fosse necessário. Nesse ponto se faz necessário sublinhar que os fascistas já haviam adotado um posicionamento militar, inclusive armando suas milícias, realizando atentados terroristas como invasões, vandalismo, assassinato, sequestro, depredação etc. 

Nesse sentido, Antônio Gramsci (1891-1937), filósofo, político e jornalista de posicionamento marxista-comunista, salientava que o fascismo se apresentava como uma ameaça para a Itália. De fato, Gramsci acabou sendo preso pelos fascistas durante a ditadura. De qualquer forma, antes dos fascistas alcançarem o poder, Gramsci chegou a escrever a respeito da sua crescente ameaça. Um dos pontos que ele mais chamava a atenção era a perigosa militarização do partido e o uso da violência e da ameaça para conseguir o que queriam, pois Mussolini era a favor do blanquismo (ação revolucionária com execução de um golpe de Estado). Além disso, ele sublinhava que os fascistas possuíam grande apoio dos militares, policiais, funcionários públicos e magistrados. (GRAMSCI, 2004, p. 66). 

"O blanquismo é a teoria social do golpe de mão; mas, se examinarmos bem, poderemos ver que o subversivismo mussoliniano recolheu do blanquismo apenas a parte material. [...]. Do blanquismo, Mussolini conservou apenas o aspecto formal, ou seja, reduzira-o à materialidade da minoria dominadora e ao uso das armas no ataque violento". (GRAMSCI, 2004, p. 69). 

O temor de Gramsci como se vai lendo em seus artigos ao longo do ano de 1921, era que o Estado não fazia nada para impedir a pretensão golpista dos fascistas. De fato Gramsci estava certo, pois em 1922, ocorreu o golpe de Estado que ele havia previsto. Todavia, ele comenta que essa ideia não era apenas dos fascistas, os socialistas e os comunistas em parte também cogitavam uma ação mais enérgica, porém, eram os fascistas os melhores organizados para se realizar tal possível golpe. (GRAMSCI, 2004, p. 67). Embora Gramsci fosse comunista, ele discordava de uma tentativa de golpe e até mesmo criticou a subida de Stalin ao poder na Rússia, por considerá-lo demasiado radical e perigoso. 

Segundo Mussolini, os preparativos para a "subida ao poder" começaram em agosto de 1922, após o fracasso das propostas de acordos entre os sindicatos trabalhistas urbanos e rurais, e as decisões tomadas pelos socialistas e comunistas (maiores partidos da época ao lado dos fascistas). Embora na prática houvesse uma trégua de "não-agressão" entre fascistas e socialistas, isso não estava sendo obedecido. Por outro lado, Mussolini e os dirigentes do partido arregimentavam cada vez mais membros e até mesmo chegaram a tentar tomar algumas capitais e cidades menores.

Em 24 de outubro foi realizado o grande Congresso de Nápoles do Partido Nacional Fascista. Naquela altura, os dirigentes do partido praticamente já estavam decididos a realizar um golpe de Estado. Em 26 de outubro, Benito Mussolini encaminhou um comunicado ao governo, solicitando reunião urgente com o rei e o parlamento. O monarca Vitor Emanuel III recusou realizar uma reunião. No mesmo dia o Ministro das Obras Públicas, Vincenzo Riccio que possuía simpatia pelo governo fascista, foi demitido do cargo, no dia seguinte, o senador e presidente do Conselho Ministerial, Luigi Facta, que era a favor da ideologia fascista, alegou que a demissão de Riccio foi arbitrária, com isso valendo-se de sua posição política ele decretou Estado de sítio em 28 de outubro, ameaçando o governo real, porém, o rei recusou a assinar o decreto. Com isso Mussolini decidiu invadir Roma. (PARIS, 1972, p. 85). 


Fotografia de 30 de outubro de 1922. Ao centro Mussolini liderando o exército fascista na Marcha sobre Roma. No seu lado, membros de confiança: Emilio De Bono, Cesare Maria De Vecchi e Italo Balbo. 
O deputado Benito Mussolini de 39 anos, passou os últimos meses reunido um grande número de manifestantes para engrossar as frentes de protesto. Porém, a marcha fascista não foi uma simples manifestação, mas um golpe de Estado. Mussolini arregimentou um exército armado que partiu de Milão para Roma. Os fascistas adentraram a capital italiana com um exército de mais de 20 mil homens. A ideia era realizar uma grande passeata pela capital do país, no intuito de levar algumas exigências ao rei Vítor Emanuel III (1869-1947), governante fraco e pouco estimado em seu país. Mussolini oferecia todo o apoio do PNF, o qual contava com a adesão de camadas conservadoras, nacionalistas e propensas ao radicalismo, entre os quais estavam militares, camponeses, operários desiludidos com o socialismo, monarquistas, funcionários liberais e públicos etc. 

O golpe de Estado dado pelos fascistas contou com um acordo vantajoso para ambas as partes. Senão tivesse sido esse acordo, dificilmente os fascistas teriam conseguido ascender ao poder. Donald Sassoon (2009, p. 10-13) comenta que apesar dos fascistas disporem de uma milícia, ela não seria o suficiente para tomar o país. Desde que os fascistas deram início aos seus atentados terroristas no centro-norte do país, o Parlamento havia mobilizado o Exército a ficar de prontidão. Nesse ponto Sassoon comenta que o fato da Marcha sobre Roma ter dado certo é porque a ala radical do governo e do exército que eram simpatizantes dos fascistas, colaboraram para o êxito desse golpe. Não obstante, em momento algum o rei acatou os pedidos de Mussolini, somente quando os fascistas adentraram Roma é que o monarca decidiu negociar, mas apresentando seus próprios termos. 

O rei Vitor Emanuel permaneceu com todos seus títulos e regalias, além de continuar a ser o chefe de Estado oficial, apesar de que não detivesse o comando propriamente, o que foi atribuído a Benito Mussolini, que foi empossado Primeiro-ministro interino em 31 de outubro de 1922. Apenas em 5 de julho 1924 Mussolini oficialmente assumia o cargo, tendo prestado juramento diante do rei e do Senado. Nesse ponto nota-se que ambos os lados saíram ganhando. O governo se fortaleceu com a popularidade dos fascistas e Mussolini conseguiu chegar a uma posição privilegiada que lhe permitisse controlar o país, instaurando uma ditadura de vinte anos.  (SASSOON, 2009, p. 9).



Benito Mussolini e o rei Vitor Emanuel III, aliança que permitiu a ascensão do fascismo. 
"Mussolini organizou a Itália como um Estado fascista que se baseou em um regime de partido único, com um nacionalismo exaltado, uma economia tipicamente capitalista, mas administrada pelo governo em algumas áreas muito específicas, e uma sociedade altamente controlada pela polícia". (1940 A 1941, 2009, p. 44). 

Apesar de hoje ser evidente que a Marcha sobre Roma foi um golpe de Estado, na época, Mussolini e os fascistas alegavam que se tratou de uma revolução. Uma revolução para salvar o país. Tal ideia seria mantida até o fim da vida do regime fascista e do próprio Mussolini, apesar de que ele viria a sofrer um grande descontentamento por causa dessa sua "suposta revolução".

c) Fase ditatorial: 1922-1945

Por vinte e três anos o regime fascista operou sobre a Itália. Nesse ponto não iremos adentrar a história dessas duas décadas propriamente, mas comentar algumas características do governo fascista, mostrando que de um pequeno partido revolucionário de direita, tornou-se um regime de extrema-direita pautado num governo totalitário. Mussolini como veremos adiante, por mais que no passado tivesse defendido a diminuição da burocratização, a abolição do parlamento etc., ele mesmo não cumpriu isso, vindo a endurecer a burocracia e centralizando o poder executivo em suas mãos.

1) Nacionalismo e culto ao líder:

Vamos começar pela ideia de nacionalismo. Enfatizar um governo nacionalista não é algo ruim, pois o nacionalismo consiste numa ideologia política de exaltação da cultura nacional, como forma de inculcar em seus cidadãos o amor por seu país, por sua língua, sociedade e costumes. No caso o nacionalismo também se funde ao patriotismo, o qual está mais relacionado com a adoração dos símbolos nacionais (bandeira, hino, selo, brasão de armas etc). 


"Em seu sentido mais abrangente o termo Nacionalismo designa a ideologia nacional, a ideologia de determinado grupo político, o Estado nacional, que se sobrepõe às ideologias dos partidos, absorvendo-as em perspectiva. O Estado nacional geral o Nacionalismo, na medida em que suas estruturas de poder, burocráticas e centralizadoras, possibilitam a evolução do projeto político que visa a fusão de Estado e nação, isto é a unificação, em seu território, de língua, cultura e tradições". (LEVI, 1988, p. 799). 

O problema do nacionalismo é quando ele se torna uma obsessão. O Nazismo pregou um ferrenho nacionalismo étnico ao ponto de condenar os judeus, ciganos, negros e outras etnias que moravam no país. No Maoismo ocorreu a tentativa de "uniformizar" a nação, onde em algumas cidades, os cidadãos eram todos trajados com uniformes. No caso do Fascismo, os fascistas na carta programa do partido já se apresentavam como defensores da língua latina no Mediterrâneo e em suas colônias. Todavia, ao longo da ditadura fascista, tornou-se claro essa opinião, nas vezes que Mussolini alegava que o Estado fascista era herdeiro do Império Romano. Como o fascismo adotou uma postura imperialista e neocolonialista, algo que veremos adiante, fica claro essa imagem que Mussolini pregava publicamente. O mesmo também foi válido para Adolf Hitler, o qual alegava que iria "restaurar a grandeza do povo alemão". 


Propaganda fascista apresentando uma mulher beijando a bandeira nacional italiana que contém, uma águia negra segurando o fasci, símbolo fascista. 
A imagem acima é bastante interessante para uma rápida análise acerca das pretensões grandiloquentes do fascismo. Na prática nenhum partido político pode utilizar a bandeira nacional para vincular ideias próprias, porém, vemos na imagem acima, um exemplo da bandeira nacional exibindo um símbolo fascista, como forma de mostrar a população quem era que estava no poder. A condição dos partidos de não poderem usar o símbolo nacional parte do princípio democrático da representatividade de opiniões políticas contrárias, pois a nação é formada por várias opiniões e culturas. No caso da Itália fascista, o partido apoderou-se da imagem nacional, apresentando-se como a única vontade política do Estado. 

Quando uma política nacionalista chega a esse ponto, ela se torna conservadora para influências externas e até mesmo reacionária, preconceituosa e agressiva. Isso também é nítido no programa do partido, na seção sobre edução, quando se diz que os professores deveriam realizar um ensino nacionalista e combater o antinacionalismo, que no caso incluiria tudo aquilo que fosse de encontro aos interesses do Estado. 

Outro aspecto relacionado ao nacionalismo fascista foi o culto ao líder. De fato utilizar a imagem do líder para personificar o representante da nação é uma ideia bem antiga, utilizada por governos monárquicos, republicanos, ditatoriais e tirânicos. (BARBU, 2002, p. 120). Mussolini acabou por fazer o mesmo. Ele construiu toda uma imagem política em torno de sua pessoa, inclusive os títulos que recebia reforçavam esse imaginário dele como o líder da nação. Em 1925 Mussolini recebeu do rei Vitor Emanuel III o epíteto de Duce (líder em italiano), posteriormente passou a ser referido como Sua Excelência Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Fascismo e Fundador do Império


Propaganda fascista de 1935, representando Mussolini com uma criança no colo. Na propaganda está escrito que Benito Mussolini ama muito as crianças, e as crianças italianas o amam muito. Então segue-se saudações de vivas para o Duce. 
A propaganda acima é um claro exemplo do uso político da imagem, algo relacionado a tendências nacionalistas das quais o fascismo fez uso, mas também uma prática adotada por governos monárquicos, republicanos e ditatoriais. No caso de ditaduras como foi o fascismo, era comum o líder torna-se um modelo de civilidade e patriotismo. Essa propaganda é bastante poderosa simbolicamente, pois em geral as crianças estão associadas com a ideia de pureza, inocência, crescimento, futuro e esperança. (CHEVALIER, GHEERBANT, 1986, p. 752-753)

No caso dessa propaganda, Mussolini é apresentado como um líder que se preocupa com o bem-estar das crianças de seu país, um líder que zela pelo futuro das vindouras gerações de sua pátria. Em contrapartida, as crianças saúdam a figura paternal de seu líder de Estado. Dessa forma Mussolini consegue atrair para si a imagem de um governante justo, bondoso, atencioso e preocupado com o futuro da nação. 

Nas décadas de 1930 e 1940 o nacionalismo fascista aderiu de vez a postura do racismo científico, ao ponto de emitir propaganda e até mesmo autorizar a publicação de revistas, manuais, jornais e outras publicações que incentivassem a supremacia da "raça italiana", como também defender as teorias que os judeus e os negros eram biologicamente inferiores. O auge dessa propaganda discriminatória ocorre entre 1938 e 1945, enquanto vinculou uma das principais publicações voltadas para este assunto, a revista La difesa della razza, fundada em agosto de 1938. (CAPORELLA, 2008). 


Capa da edição 1 da revista La difesa della razza, 5 de agosto de 1938. 
Vittorio Capporella (2008) comenta que entre os principais objetivos dessa revista estavam a de difundir o "mito da raça itálica", algo que remontaria a origem do povo romano, contando ao longo da história a imponência da história romana que encarnaria toda a noção de nacionalismo italiano. Benito Mussolini chegou a ser comparado a César e alguns imperadores romanos. Tal tradição inventada foi bastante útil para tornar o fascismo um regime atrativo aos olhos da massas, assim como, uma forma de abafar sua opressão, censura e violência. Outra característica foi mostrar através de características estereotipadas e falseadas por que os judeus, africanos, asiáticos e indígenas seriam biologicamente "inferiores". Por fim, um último objetivo era de instruir a população italiana a evitar ter contato com essas "raças inferiores". 

2) Imperialismo e neocolonialismo

Na primeira metade do século XX ainda predominavam ideias imperialistas e neocolonialistas. O imperialismo visa expandir sua influência política, econômica e cultural de forma indireta ou direta. Entre 1870 e 1945 o imperialismo se confunde com o neocolonialismo, pois opta por ações militares e até mesmo de invasão, intervenção e ocupação, procurando estender ao máximo a manutenção das colônias europeias que ainda existiam na África e na Ásia (PISTONE, 1998, p. 619). 

Tal condição era defendida pelo Partido Nacional Fascista como podemos ver tanto no manifesto quanto no programa do partido. Seus dirigentes não abriam mão de que a Itália deveria abandonar seus territórios ocupados durante a Primeira Guerra ou desistir de suas antigas colônias na África. Com isso Mussolini se esforçou para manter os domínios italianos especialmente na África, em países como a Líbia e a Etiópia. E também na Europa, sobre os territórios de Montenegro, Croácia, Macedônia e Grécia


Os territórios ocupados pela Itália entre 1870-1945. Em verde claro as terras conquistadas durante a ditadura fascista. 
Entretanto devido ao nacionalismo conservador dos fascistas, a ideia não era ocupar esses países no intuito de desenvolvê-los, mas sim de explorá-los. Em nações como a Líbia e a Etiópia houve forte resistência de seus habitantes, os quais negavam-se a aceitar o controle estrangeiro. Os fascistas estavam interessados em explorar os recursos naturais destes países, seu posicionamento estratégico e a mão de obra barata. Por outro lado, eles massacravam que fosse contrários, assim como, não permitia que as populações de suas colônias migrassem para a Itália, especialmente das colônias africanas. 


Manifesto do Núcleo Propaganda, de 1944. Nesse manifesto, alerta-se para a ameaça dos africanos que poderiam lhe roubar ou estuprar as mulheres italianas. Isso era um alerta para mantê-los distantes. 
Apesar de os nazistas terem ficado mais conhecidos pelo xenofobismo e o racismo, os fascistas também empregam tal posicionamento em seu governo. Encontram-se cartazes de ordem moral e cívica pautados no antissemitismo e no racismo científico, que apesar de estar em crise, ainda encontrava adeptos e defensores. Na propaganda acima, vemos um homem negro atacando uma italiana. As palavras em caixa alta são um alerta para o povo italiano, para dizer que devam proteger suas mulheres desses homens bárbaros. Isso tratava-se de uma propaganda política contrária a imigração de africanos para Itália, e até mesmo contrária a miscigenação "racial", pois italianos viviam nas colônias africanas e eram instruídos a não se "misturarem" com aquela gente. 

3) Totalitarismo/Autoritarismo e censura

O filósofo e sociólogo alemão Herbet Marcuse (1999, p. 109), comparava os regimes ditatoriais do Nazismo e do Fascismo como tendo várias características em comum, principalmente pela óptica da supressão dos direitos civis individuais, algo característico de várias ditaduras. Marcuse reconhecia que mesmo em Estados democráticos, o governo pode interferir nos direitos individuais de forma em garanti-los ou evitar o seu mau uso. Entre esses direitos ele salientava os direitos de ir e vir, liberdade de opinião, direito a segurança, integridade pessoal, moradia, educação, emprego, saúde, opção religiosa etc. Todavia, quando pegamos o caso do Nazismo e do Fascismo como ele salientava, tais direitos foram em dados momentos controlados, suspensos ou proibidos. 

Vimos que o programa do PNF acerca da educação, pautava-se numa educação nacionalista, logo, tudo que fosse contrário aos preceitos nacionalistas deveria ser posto de lado e não ensinado - censura no ensino. Não obstante, o Partido Fascista perseguiu todos aqueles que foram contrários ao seu governo - censura política. O Estado fascista difundiu ideias antissemitas e racistas, inclusive decretando que o povo italiano evitasse ter contato com povos de "raças inferiores" e evitassem se "miscigenar" - censura social. 

"O domínio da lei, o monopólio do poder coercitivo e a soberania nacional foram as três características do Estado moderno que mais claramente expressaram a divisão racional de funções entre o Estado e a sociedade". (MARCUSE, 1999, p. 109).

Nesse ponto o Fascismo tornava-se um regime totalitário ou autoritário. Ainda hoje existe divergências quanto a que modelo o fascismo se encaixava, apesar de que não seja mais dúvida que de fato o governo fascista de Mussolini (1922-1943) foi uma ditadura. Devido haver essa divergência, optei em mostrar conceitos de totalitarismo e autoritarismo, e através de alguns exemplos ver como tais conceitos se encaixavam no perfil histórico-político do regime fascista italiano. 


“Debaixo do primeiro perfil, os regimes autoritários se caracterizam pela ausência de Parlamento e de eleições populares, ou, quando tais instituições existem, pelo seu caráter meramente cerimonial, e ainda pelo indiscutível predomínio do Poder Executivo. No segundo aspecto, os regimes autoritários se distinguem pela ausência da liberdade dos subsistemas, tanto no aspecto real como no aspecto formal, típica da democracia. A oposição política é suprimida ou obstruída. O pluralismo partidário é proibido ou reduzido a um simulacro sem incidência real. A autonomia dos outros grupos politicamente relevantes é destruída ou tolerada enquanto não perturba a posição do poder do chefe ou da elite governante. Neste sentido, o Autoritarismo é uma categoria muito geral que compreende grande parte dos regimes políticos conhecidos, desde o despotismo oriental até ao império romano, desde as tiranias gregas até às senhorias italianas, desde a moderna monarquia absoluta até à constitucional de tipo prussiano, desde os sistemas totalitários até às oligarquias modernizantes ou tradicionais dos países em desenvolvimento”. (STOPPINO, 1998, p. 100).

No programa do Partido Nacional Fascista como apresentado anteriormente, nota-se a postura dos fascistas em procurar reduzir a burocracia do governo, de abolir o reduzir o papel do Parlamento e outras instituições específicas. Na prática, isso foi um pouco diferente. O Parlamento e o Senado continuaram a existir como órgãos de fachada, pois na prática que controlava o Poder Executivo era o Grande Conselho Fascista, conselho criado para ajudar o Duce na gestão do país. Não obstante, as Câmaras Fascistas tornaram-se as principais representantes locais nas cidades e províncias. Em 1928 o PNF oficialmente tornava-se o partido representante do Estado italiano. Na prática, nenhum outro partido do país poderia concorrer as eleições dos principais cargos administrativos da nação. (POULANTZAS, 1978, p. 378).

Apesar de o fascismo não ter abolido totalmente o partidarismo, o seu partido tornou-se o único a controlar os principais órgãos executivos da Itália, assim como, influenciar no Poder Judiciário e Legislativo, o que evidencia uma ditadura instaurada. Aqui observa-se algumas das características citadas por Mario Stoppino, mencionadas acima. 

Mas por outro lado, o fascismo também foi um totalitarismo segundo alguns estudiosos. Por exemplo Hannah Arendt em seu livro As origens do totalitarismo (1951), considerava o governo de Mussolini totalitário como o de Hitler e o de Stalin, apesar de que Mussolini matou menos gente do que os outros dois. Nesse ponto, Arendt (1979, p. 355-357, 389-393, 439-442) salientava que um governo totalitário possuía três características centrais: 
  • manipulação das massas através da construção de uma poderosa e influente propaganda política de caráter nacionalista e patriótico. Exaltação da imagem do líder como um modelo ideal;
  • uso extensivo da propaganda política para mostrar sempre coisas boas, mostrando o país sempre de uma perspectiva superior e próspera, omitindo qualquer imagem e opinião negativa, mesmo que fosse verdadeira;
  • discurso revolucionário permanente, alegando em se tratar como o único meio de salvaguardar a nação, restaurar a ordem e a prosperidade e garantir a manutenção para um bom futuro. 
Quando pegamos tais características e a aplicamos a história do fascismo, podemos encontrar todos estes pontos presentes. Como vimos, o fascismo durante os anos de 1919-1921 tratou de se firmar como partido político, procurando apoio nas massas, especialmente nos setores descontentes da população italiana: militares de baixa patente descontentes como descumprimento das promessas do governo; o pequeno e médio agricultor ameaçado pelos latifundiários, algo interessante, pois posteriormente os fascistas diziam que iriam combater a plutocracia (governo do campo); os operários descontentes com os sindicatos e o Partido Socialista, e a pequena burguesia que ansiava crescer e galgar postos no Estado. 

Toda essa bagagem continuou a ser mantida pelos fascistas durante seu governo, inclusive em parte foi retribuída pelo apoio fornecido. Mussolini e o PNF, permitiu a ascensão de parte da pequena burguesia, embora fosse algo contraditório, pois anos antes Mussolini criticava o "aburguesamento" do Estado. No caso dos pequenos e médios agricultores, estes foram beneficiados até certo ponto, mas não se livraram totalmente da plutocracia. Os operários ganharam alguns benefícios trabalhistas, mas continuaram a mercê da exploração do trabalho, e inclusive perderam direitos devido ao controle do Estado sobre os sindicatos. Os militares conseguiram ascender, especialmente os de patente mediana e alta, enquanto os de patente baixa foram enviados para as colônias e os conflitos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Os colonos e estrangeiros de origem judia, africana e asiática não foram bem recebidos e não tiveram ajuda do governo. 

Entretanto, o Estado fascista mantinha propagandas que diziam o contrário. De fato houve melhorias na economia, na infra-estrutura, transportes, comunicação, produção de energia e água, crescimento do bem-estar etc. Uma propaganda nacionalista, imperialista e militar, que alegava que o fascismo estava dando segmento a revolução iniciada em 1922, aquela revolução permanente que proporcionaria cada vez mais o crescimento da nação. 


Cartaz do governo convidando para um desfile das tropas revolucionárias fascistas, que ocorreria em Roma. Na parte inferior do cartaz, está o aviso de que as passagens ferroviárias teriam desconto de 70% nos preços, um incentivo para a população participar desse grande evento patriótico. 
A ideia de que o fascismo era um partido revolucionário e havia instaurado uma revolução em 1922 e que essa continuava, perdurou por anos. 

"Dez anos depois [1932], num diário escrito com uma visão retrospectiva incomum, Ítalo Balbo, um dos seguidores mais violentos do Duce, escreveria que desde o início o fascismo tinha certeza de que seu destino era a tomada do poder por uma insurreição violenta que assinalaria uma ruptura entre a antiga Itália e um novo país em surgimento. Muitas vezes aqueles que agem na ilegalidade tentam encontrar justificativas legais para seus atos. Às vezes, os revolucionários insistem na legalidade de seus atos, ignorando os atalhos que tiveram de tomar". (SASSOON, 2009, p. 7). 

Mas tudo isso somente foi possível através da custa de vinte e dois anos de ditadura, que tirava de um lado para dar ao outro, ao mesmo tempo em que abafava com sua censura e sua polícia política qualquer manifestação que ousasse denunciar os erros e falcatruas do governo. Nesse ponto, temos outras características em comum com governos autoritários e totalitários: o uso de meios legais para coerção, censura e controle da opinião pública e retenção ou contenção dos direitos individuais dos cidadãos. 

A censura fascista é marcada por diferentes contextos e agentes, aqui abordarei três exemplos. O primeiro diz respeito a criação de uma polícia secreta e política para combater toda a oposição contra o PNF e o Estado fascista. Em 31 de outubro de 1926, na celebração do quarto ano da posse do Duce, Benito Mussolini, o anarquista Anteo Zamboni (1911-1926) tentou matá-lo, enquanto o Duce se encontra em Bologna. Na ocasião Zamboni foi impedido pela polícia, e espancado até a morte. Após tal incidente Mussolini decidiu criar uma polícia especial, chamada de Organização para a Vigilância e Repressão do Anti-fascismo (Organizzazione per la Vigilanza e la Repressione dell'Antifascismo - OVRA). 

Com a OVRA Mussolini criou um serviço de espionagem, busca, vigilância e repressão como assinalava o nome da polícia. Com isso ele passou a combater todos os grupos e movimentos contrários ao governo, assim como, decretando prisões políticas, exílios e execuções. Não obstante, Mussolini também aboliu o pluripartidarismo, instaurando que o Partido Nacional Fascista seria o único legitimamente autorizado a representa o povo italiano. Não obstante, para cooperar com a OVRA, foi criada a MVSN. 

"O papel da política política é prolongado pela milícia (M.V.S.N - Milícia Voluntária para a Segurança Nacional), depurada dos seus elementos "esquerdistas", e muito melhor controlada pela direção fascista do que o próprio partido. O esquadrões de ação - as squadre - somente são integrados na milícia, em 1923, após uma rigorosa triagem; em 1927, a milícia torna-se oficialmente um "corpo armado do Estado", diretamente dependente do Duce: os seus membros não prestam juramento ao rei, mas sim ao Duce. Tal como no caso das SS, a "cúpula" da milícia pertence muito mais à burguesia do que à pequena burguesia". (POULANTZAS, 1972, p. 378). 

A OVRA servia aos interesses do Estado e do Grande Conselho Fascista, enquanto a MVSN servia diretamente ao Duce, quase como se fosse sua guarda pessoal, apesar de que Mussolini poderia autorizá-la a entrar em ação para cooperar com a polícia comum ou o OVRA. O terceiro exemplo que comentarei, diz respeito a repressão que o governo impôs a Igreja Católica. 

Vimos que o manifesto fascista sob influência do Partido Futurista, já apresentava uma postura de oposição ao clero católico, seu poder, riqueza e influência, assim como, defendia a redução dos privilégios que a Igreja possuía, e a tomada de seus territórios, os quais formavam os Estados papais. Territórios estes pertencentes a Igreja desde o período medieval. Nesse ponto, tais terras atuavam como fornecedores de tributos para a Santa Sé, além do fato de que Roma era oficialmente domínio da Igreja, possuindo autonomia política perante o restante do Estado. 


Quando Mussolini subiu ao poder em 1922, ele tratou de combater a Igreja como havia apontado anteriormente. Os territórios papais começaram a serem tomados, o ensino confessional nas escolas e universidades foi proibido em todo o país; os territórios confiscados, foram proibidos de pagarem impostos a Santa Sé; o catolicismo deixou de ser a religião oficial da Itália etc. O Papa Pio XI (1922-1939) passou alguns anos pleiteando com os fascistas uma retração ou acordo a respeito da investida autoritária deles, no fim, em 11 de fevereiro de 1929 foi assinado o Tratado de Latrão


Benito Mussolini e o secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Pietro Gasparri, assinando o Tratado de Latrão em 1929. 
Mussolini ofereceu terras dentro de Roma para a criação do Estado do Vaticano, em troca a Igreja renunciou seu domínio sobre Roma, tornando-a a capital oficial da Itália. Os territórios confiscados não foram devolvidos, mas o Estado pagou uma indenização por eles. O catolicismo voltou a ser a religião oficial do país; o ensino confessionário nas escolas voltou a ser realizado. O clero manteve seus privilégios dentre os quais não pagar impostos pelas igrejas. Entre outros assuntos foram acordados. Por sua vez, o papa Pio XI garantiu apoio ao Estado fascista, apesar de que alguns clérigos foram contrários a ditadura fascista. (POULANTZAS, 1972, p. 380-381).

Apesar de Mussolini ter usado o acordo proposto em 1929, como propaganda para sua pessoa e governo. Não era apenas o clero que estava descontente, outros setores da sociedade também não "engoliam" essa imagem de Mussolini de "bom cristão", já que na prática ele se considerava ateu, além de ter proposto que o Estado italiano não seria mais laico, mas sim um Estado católico. Não obstante, Mussolini em distintos momentos tentou promover uma política de supremacia sobre a fé, algo que Hitler fez na Alemanha e Stalin na Rússia. 

"Dizem que da Itália vem uma piada sobre Mussolini. "Ele morreu e foi para o céu, onde houve um tremendo desfile para ele... No meio deste, Signor Mussolini de repente percebe que sua coroa era mais alta que a de Deus e educadamente pergunta por quê. "Dei a seu povo um dia de jejum por semana", Deus respondeu. "Você lhes deu sete. Eu lhes dei fé e você a tirou. Você é maior do que eu". Esta piada pode ilustrar os mecanismos psicológicos que determinam e perpetuam a moral nos países fascistas". (MARCUSE, 1999, p. 215). 

A ideologia fascista: 


"Em geral, se entende por Fascismo um sistema autoritário de dominação que é caracterizado: pela monopolização da representação política por parte de um partido único de massa, hierarquicamente organizado; por uma ideologia fundada no culto do chefe, na exaltação da coletividade nacional, no desprezo dos valores do individualismo liberal e no ideal da colaboração de classes, em oposição frontal ao socialismo e ao comunismo, dentro de um sistema de tipo corporativo; por objetivos de expansão imperialista, a alcançar em nome da luta das nações pobres contra as potências plutocráticas; pela mobilização das massas e pelo seu enquadramento em organizações tendentes a uma socialização política planificada, funcional ao regime; pelo aniquilamento das oposições, mediante o uso da violência e do terror; por um aparelho de propaganda baseado no controle das informações e dos meios de comunicação de massa; por um crescente dirigismo estatal no âmbito de uma economia que continua a ser, fundamentalmente, de tipo privado; pela tentativa de integrar nas estruturas de controle do partido ou do Estado, de acordo com uma lógica totalitária, a totalidade das relações econômicas, sociais, políticas e culturais". (SACCOMANI, 1998, p. 466). 

Nessa penúltima parte do texto, comentarei alguns aspectos de ordem teórica para entender a manifestação do fascismo, para finalmente chegar ao neofascismo e o contexto atual em que a palavra se tornou tão recorrente como forma de acusação. 

Nesse ponto Edda Saccomani (1994, p. 467) com base no estudo de Ernest Mandel, no livro Theorien über den Faschismus (1969), propôs que haveria duas grande categorias para se entender a ideologia fascista e sua manifestação política e histórica. A categoria singular, na qual restringe-se a perceber o Fascismo como um produto genuinamente de origem italiana, surgido após o término da Primeira Guerra, tendo sido fruto principalmente dos propósitos de Benito Mussolini, o qual se tornou o líder do Estado Fascista (1922-1943). Os defensores dessa visão de interpretação, consideram o uso do termo neofascista complicado de ser utilizado, pois para os apoiadores dessa abordagem singular, o fascismo foi fruto específico de um determinado contexto, não podendo ser comparado a outros contextos posteriores. 

A segunda forma de abordar o fascismo é através da categoria generalizante, onde procura evidenciar que apesar de o Fascismo ter tido sua origem com Benito Mussolini, a ideologia por ele criada acabou por influenciar outras pessoas ao longo da história. Aqui se inclui a troca de influências entre os nazistas e fascistas, pois Mussolini e Hitler foram aliados durante a Segunda Guerra. Também se inclui as influências que o fascismo legou para o Franquismo e o Salazarismo, assim como, para grupos rebeldes e extremistas que se denominavam de neofascistas. 


Fotografia de Benito Mussolini e Adolf Hitler em 1940. Devido a aliança entre os dois ditadores, as ideologias empregadas por eles influenciaram um ao outro. 
Embora a abordagem generalizante possa ser bastante atrativa para historiadores, sociólogos e cientistas políticos, ela já foi utilizada de forma errada algumas vezes e até mesmo generalizante em demasia. Nos anos 1970, o sociólogo e cientista político Juan Linz (1926-2013) escreveu uma série de trabalhos apontando uma problemática crescente que era a "fascização" dos regimes políticos pelo mundo. Linz observou que o termo fascista estava sendo usado de forma quase aleatória para se referir a qualquer Estado ditatorial que existia no mundo naquele tempo. Nesse ponto alguns estudiosos defenderam que o Franquismo (1939-1975) na Espanha e o Salazarismo (1933-1974) em Portugal, teriam sido ditaduras fascistas. Além disso houve quem alegasse que as ditaduras militares na América Latina e em África teriam sido de cunho fascista. 


"Ora, a dificuldade em resolver alguns pontos fundamentais para a compreensão dos regimes fascistas deriva, em parte, da diversidade dos modelos de referência, mas também da confusão dos níveis de análise e da insuficiência de empenho numa estratégia de pesquisa que tenda a traduzir as hipóteses genéricas em interrogações suscetíveis de verificação empírica". (SOCCOMANI, 1994, p. 474). 

Neofascismos:

Como comentado anteriormente, desde os anos 1960 tornou-se problemático o emprego do conceito de fascismo e fascista para se referir a outros tipos de governos. Nesse ponto James Gregor (2006, p. 13) comenta que na política desse começo do século XXI, as palavras fascismo, neofascismo e e extrema-direita são usadas de forma genérica e como sinônimos. Gregor não é o primeiro a sublinhar tal problemática no emprego destes termos, isso é algo que vem sendo debatido desde os anos 1960, apesar de que ainda não conseguiu chegar num acordo, pois mesmo os estudiosos ainda se equivocam no uso de tais termos. 

Nesse sentido, para Gregor o fascismo refere-se ao Partido Nacional Fascista fundado por Benito Mussolini em 1921 e sua forma de governo implantada de 1922 a 1945. Nesse ponto Gregor defende que para alguém se chamar de fascista deve ser adepto da ideologia do PNF e da ditadura de Mussolini. Não obstante, a partir dessa ditadura surgiram nos anos 1950 e 1960 partidos fascistas na Grécia, Áustria, Inglaterra, Alemanha etc., os quais reivindicavam a ideologia do fascismo italiano. 


Por sua vez, a partir desses pretensos partidos revolucionários e extremistas, começaram a surgir grupos militantes que se diziam ser "neofascistas", ou seja, os quais alegavam estarem "atualizando" a ideologia fascista para suas épocas. Esses grupos começaram a se difundir principalmente a partir da década de 1970. Neste caso, Gregor (2006, p. 2) comenta que os grupos chamados neofascistas que em alguns casos possuem ideologias diferentes do fascismo original, apoiando o neoliberalismo e até mesmo fundamentalismos religiosos, duas características não vistas no fascismo italiano o qual inclusive encrencava com o liberalismo e com a influência da religião na sociedade. 

No terceiro ponto, Gregor (2006, p. 3-4) comenta que apesar de o fascismo italiano ter sido um governo de extrema-direita, nem toda extrema-direita é fascista, não se pode generalizar. O nazismo foi um governo de extrema-direita, mas em vários aspectos administrativos, políticos, burocráticos e sociais era diferente do fascismo. Logo dizer que tudo é igual é complicado e equivocado. A extrema-esquerda de Stalin não foi igual a de Mao Tsé-Tung ou de Ho Chi Min. 

Mas o que poderia designar um grupo ou um partido sendo de caráter neofascista? James Gregor (2006) e Douglas Holmes (2000) elencaram alguns aspectos básicos para definir esses movimentos neofascistas, principalmente os surgidos dos anos 1980 para cá. Dentre os aspectos estão o nacionalismo exagerado, conservadorismo extremista, xenofobismo, desprezo pelas minorias, defesa de um Estado militarista, emprego da violência e discurso de ódio, defesa do autoritarismo, defesa do blanquismo para se conseguir o poder, culto ao líder etc. Até então essas são características em comum com o fascismo italiano e até o nazi-fascismo. 

Porém, surgem algumas características novas. Vejamos alguns exemplos. Um deles diz respeito a tendência de alguns grupos pertencentes a Associação Universal para o Progresso Negro (Universal Negro Improvement Association and African Communities  League - UNIA), movimento surgido em 1914 na Jamaica, idealizado pelo empresário e ativista Marcus Garvey (1887-1940), cujo intuito era combater o racismo e promover o desenvolvimento das nações de população predominantemente negra. Todavia, após o fascismo, alguns grupos e alas do UNIA acabaram se aproximando de tendências fascistas, ao ponto de desenvolverem um "nacionalismo negro", uma aversão a cultura europeia ou europeizada, assim como, incentivar a tomada do poder nos países africanos, para fins de instaurar um governo mais correto e justo, voltado para o "progresso" como alude a proposta da UNIA. 

Neste caso Gregor (2006, p. 135-136) comenta que um ponto interessante que diferencia o neofascismo do UNIA do fascismo italiano é o fato de que os neofascistas do UNIA procuraram combater o racismo através do nacionalismo, enquanto que o fascismo italiano fez o oposto: ele promoveu o racismo através do nacionalismo. 

Outro exemplo de neofascismo que gera controvérsias entre os cientistas políticos e sociólogos é o chamado islamofascismo, termo que começou a ganhar adeptos nos anos 1990, mas tornou-se mais habitual no século XXI. James Gregor (2006, p. 167-168) comenta que o termo islamofascismo é usado para se referir a ditaduras islâmicas, partidos radicais, movimentos extremistas, mas principalmente aos grupos terroristas, ao ponto de alguns utilizarem o termo de forma pejorativa como sinônimo de terrorismo. Aqui acaba se caindo no perigo da generalização da coisa. 

Nesse ponto, Gregor comenta que alguns grupos terroristas e movimentos extremistas nem deveriam ser chamados de neofascistas, pois não possuem um programa político, e em geral promovem a luta armada para conquistar territórios ou libertar outros, mas fazer isso, não é ser fascista. Não obstante, o islamofascismo se difere do fascismo italiano por se pautar em alguns casos, num fundamentalismo religioso. Apesar de Benito Mussolini ter assinado o Tratado de Latrão com o Vaticano, Mussolini antes disso defendia a diminuição da autoridade eclesiástica na política e na vida dos italianos, inclusive ele promoveu a laicização do Estado. Enquanto que o islamofascismo defende a influência da religião sobre o Estado. (GREGOR, 2006, p. 169-170).

Um terceiro exemplo a ser dado que também gera controvérsias, diz respeito ao fascismo de esquerda. Alguns estudiosos alegam que o fascismo de esquerda original, era o proposto por Mussolini no ano de 1914, como comentado nesse texto anteriormente, mas posteriormente quando o fascismo se tornou um partido e ascendeu ao poder, claramente era uma ideologia de extrema-direita, inclusive com direito a publicações oficiais detratando o socialismo, o marxismo, o comunismo entre outras ideologias de esquerda. Com isso, alguns estudiosos questionam se poderia falar em movimentos neofascistas de esquerda, já que o fascismo e o nazi-fascismo foram de direita?

Nesse caso, James Gregor cita o exemplo controverso do Maoismo, especialmente em sua fase entre os anos de 1960 e 1970, auge da ditadura de Mao Tsé-tung. Gregor comenta com base na opinião de membros do governo chinês pós-maoismo, os quais alegavam que os projetos políticos-econômicos-sociais-culturais do Grande Salto Adiante (1958-1960) e a Revolução Cultural Chinesa (1966-1976) teriam marcado a fase fascista do governo de Mao Tsé-tung. Nesse ponto os políticos e estudiosos chineses assinalavam alguns traços que ligariam o Maoismo desse período com a ideologia fascista de Mussolini: nacionalismo exacerbado, conservadorismo extremista, censura, autoritarismo, corporativismo, culto ao líder, opressão das minorias etc. (GREGOR, 2006, p. 231-233). 

De fato existem certas semelhanças entre os dois regimes ditatoriais, mas isso seria suficiente para definir o Maoismo entre 1958 e 1976 como um governo neofascista? Isso é uma pergunta para qual não possuímos uma resposta definitiva. De qualquer forma observava-se pelos exemplos acima mencionados, como os neofascismos em alguns pontos são diferentes da ideologia original, daí serem considerados "novos". 

Considerações finais: 

Após ler todas essas considerações sobre o fascismo italiano, alguns aspectos do nazifascismo e alguns exemplos de neofascismos, encerrarei com um comentário acerca de como definir se alguém pode adequadamente ser chamado de fascista, já que atualmente o termo normalmente é aplicado no sentido de insulto, apesar de que tal aplicação remonte após a Segunda Guerra Mundial, não sendo uma novidade propriamente. 

Com isso propus as seguintes categorias para definir alguém como fascista:

  1. Aquele(a) que pertence a algum partido fascista ou neofascista. Apesar de que em muitos países o fascismo ser proibido, mas em alguns é permitido a existência destes partidos.
  2. Aquele(a) que pertence a algum grupo ou movimento que apoie a ideologia fascista ou ideologias neofascistas. Grupos assim que agem de forma clandestina são mais numerosos do que os partidos. 
  3. Aquele(a) que apoie, admire ou concorde com a ditadura fascista de Benito Mussolini e a ditadura nazista de Adolf Hitler. Se a pessoa concordar com a postura de tais ditadores, este indivíduo é um fascista e até mesmo um nazista. 
  4. Pessoas que defendam posicionamentos nacionalistas exacerbados, conservadorismo exagerado, censura, discurso de ódio, aplicação da violência, antissocialismo, anticomunismo, xenofobia, racismo ou outras formas de preconceitos para oprimir as minorais; que defende o corporativismo, o culto ao líder, a intervenção do Estado sobre a economia e a supressão dos direitos civis e jurídicos, podem ser chamados de fascistas, pois tais características foram adotadas pelo fascismo italiano. 
NOTA: Mussolini passou tanto tempo no poder ao ponto de achar que dificilmente conseguiriam destituí-lo do comando da nação. Porém o que ele não deveria ter imaginado é que o partido que ele criou e aqueles que ele ajudou a alcançar o poder, lhe trairiam. Em 1943 o rei Vitor Emanuel III pressionado pelo Grande Conselho Fascista, decretou uma votação no Parlamento e no Senado pela demissão imediata do Primeiro-Ministro Benito Mussolini. A partir desse golpe partidário, Mussolini foi deposto e preso, embora conseguiu escapar e por dois anos ainda resistiu no norte da Itália até que foi assassinado.  
NOTA 2: Grupos fascistas tentaram implantar o fascismo na Inglaterra entre 1919 e 1945. Existem livros sobre o tema, apresentando o surgimento da postura antifascista britânica como reação de evitar que o fascismo se instaure-se no Reino Unido. 
Referências Bibliográficas: 
1940 a 1941: Mussolini sonha com um novo império. In: Coleção 70o aniversário da 2a Guerra Mundial, v. 8. São Paulo, Abril Coleções, 2009. 
GRAMSCI, Antonio. Escritos Políticos, vol. 2. Edição de Caros Nelson Coutinho. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004. 2v
GREGOR, A. James. The search for Neofascism. The use and abuse of Social Science. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. 
HOLMES, Douglas A. Integral Europeu: fast-capitalism, multiculturalism, neofascism. Princeton, Princeton University Press, 2000. 
MARCUSE, Herbet. Tecnologia, Guerra e Fascismo. Editado por Douglas Kellner, tradução de Maria Cristina Vidal Borba. São Paulo, Editora Unesp, 1999. 
PARIS, Robert. As origens do fascismo. São Paulo, Editora Perspectiva S.A. 1972. (Coleção Kronos).
POULANTZAS, Nicos. Fascismo e ditadura. São Paulo, Martins Fontes, 1978. 
SASSOON, Donald. Mussolini e a ascensão do Fascismo. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro, Agir, 2009. 

Referências da internet:
Manifesto do Fascio rivoluzionario d’azione internazionalista (1914)
Programma dei Fasci italiani di combatimentto (1919)