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Leandro Vilar

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Yasuke: o samurai negro

Poucos estrangeiros tiveram a oportunidade e honra de serem nomeados samurais, título e direito praticamente restrito aos japoneses. Em geral a História relata alguns europeus que tiveram acesso a essa honraria, porém, houve um estrangeiro de origem africana que é o único africano conhecido que tornou-se um samurai. No Japão ele era conhecido como Yasuke, o guerreiro alto e forte que virou guarda-costas do dáimio Oda Nobunaga. No presente texto contei um pouco a respeito da história desse samurai negro, o qual ainda hoje é pouco conhecida devido a escassez de relatos da época que narrem sua trajetória na corte de Nobunaga, em um dos períodos mais conturbados da história japonesa no século XVI, as últimas décadas do Período Sengoku, conhecido popularmente como a época do "país em guerra" ou das "guerras civis". 



Um escravo que foi ao Japão: 

As origens de Yusuke ainda são inexatas e motivo de debates a respeito. Não se sabe onde ele exatamente nasceu, a que povo pertencia, com quantos anos foi escravizado e levado ao Japão. O livro Histoire Ecclesiastique Des Isles et Royaumes du Japon (1627) do padre jesuíta François Soller traz a seguinte informação sobre a procedência de Yasuke. 

"Agora o padre Alessandro trouxe das Índias um escravo mouro, tão negro como os etíopes da Guiné. Porém era nativo de Moçambique, daquele tipo que são propriamente chamados de Cafres, habitantes do Cabo da Boa Esperança". (SOLLER, 1627, p. 444, tradução minha). 

O relato de Soller apresenta termos da época que merecem ser debatidos brevemente. O termo muçulmano não era comumente usado pelos europeus, normalmente eles eram chamados de maometanos, mouros, sarracenos, árabes etc. No caso de Soller, ele usou a palavra mouro, embora seja um emprego complicado, já que os mouros eram as populações que viviam no atual Marrocos e no sul de Portugal e Espanha. Não obstante, o padre também fez uso da palavra etíope, que atualmente é usado para se referir ao habitante da Etiópia, porém, na época dele, a palavra etíope era um termo genérico para se referir a africanos negros. Por isso que ele diz que Yasuke era negro como um "etíope da Guiné", sendo a Guiné um importante território para o tráfico negreiro português. Já a palavra Cafre era usada naquele período para se referir genericamente aos africanos negros de origem banta, que viviam no sul do continente. O problema é que o termo é de origem árabe, sendo usado para se referir aos africanos não-muçulmanos. Porém, Soller emprega a palavra fora de seu contexto original. Por fim, o Cabo da Boa Esperança não fica situado em Moçambique, mas na África do Sul. 

O relato do padre François Soller também informa que Yasuke teria chegado ao Japão no ano de 1579, passando a estar a serviço do padre Alessandro Valignano (1539-1606), clérigo de origem napolitana que passou vários anos atuando no Japão, Macau e Índia. A presença de Valignano no Japão devia-se ao contanto entre portugueses e japoneses que vinha sendo realizado desde o ano de 1543, quando os primeiros portugueses chegaram ao reino nipônico. A partir da década de 1550 através de São Francisco Xavier, as missões evangelísticas tiveram início no Japão. (D’ASSUMPÇÃO, 1901, p. 30). Logo, quando Yusuke chegou aquele país, os clérigos já estavam a quase quarenta anos trabalhando por lá. 

O padre e missionário Alessandro Valignano segundo pintura do XVII. 
Ao chegar ao Japão, Yasuke foi visto como ser exótico, já que era incomum os japoneses terem contato com africanos ou pessoas negras de outros lugares. Apesar que Lockley e Girard (2019) digam que Yusuke não teria sido o único africano presente no Japão, como apontam inclusive pinturas japonesas, mostrando homens negros; embora a presença deles tenha sido diminuta. De qualquer forma, embora tenha sido dirigido a trabalhar para os jesuítas, Yusuke realiza atividades domésticas como qualquer outro escravo, arrumando os pertences, camas, servindo refeições, faxinando, lavando, etc. 

Um guerreiro revelado: 

Girard e Lockley (2019, p. 23) comentam que talvez Yusuke antes de ter sido escravizado, possa ter sido um guerreiro, já que as fontes japonesas o descrevem como um homem alto e forte, tendo uma condição física apropriada para um guerreiro. Os autores apontam que Yusuke antes de ir ao Japão, teria vivido algum tempo na Índia, atuando como carregador ou guarda. Funções essas que teriam interessado os jesuítas que o compraram para levá-lo ao Japão, pois além de empregado responsável por serviços domésticos como sublinhado anteriormente, Yusuke pelo seu tamanho e porte físico, poderia atuar como guarda-costas dos missionários. Tal hipótese é pertinente, pois havia japoneses que não aceitavam a presença de estrangeiros no país e eventualmente os missionários eram hostilizados, feridos e até assassinados. Como Valignano tinha que viajar pelas províncias, ter um guarda-costa era algo necessário. 

Fato esse que Yasuke acompanhou Valignano e outros jesuítas de sua missão pelos anos seguintes. Em 1581, Valignano viajou a Quioto para se encontrar com seu mecenas, o dáimio Oda Nobunaga (1534-1582), na ocasião estava em visita a cidade e hospedado em um templo. Nobunaga já era um importante dáimio naquele período, tido por alguns como um herói nacional por ter iniciado a campanha de reunificação do país; mas para outros ele era um cruel senhor feudal, ambicioso pelo poder, tendo ordenado a morte de centenas de pessoas. Apesar dessa disparidade quanto a fama positiva ou negativa de Nobunaga, ele já há alguns anos demonstrou interesse por fazer negócios com os estrangeiros. A contragosto de outros dáimios, Nobunaga apoiou os portugueses e espanhóis em seus negócios comerciais e os missionários. Embora ele nunca demonstrou interesse em se converter ao cristianismo, era solicito em conversar com os padres e missionários. 

Retrato de Oda Nobunaga, autor desconhecido, séc. XVI. 
“A partir da década de 1560, liderados pelo padre Luís Fróis, os jesuítas, no intento de pregar em Honshu, foram pessoalmente recebidos em Owari por Oda Nubunaga. Ele teria sido grande admirador dos produtos e artefatos trazidos pelos bárbaros do Sul. Contudo, Oda Nobunaga tinha consciência de que para ter acesso a tais benefícios, deveria se relacionar de forma amistosa com os padres jesuítas, uma vez que, em Honshu, eles serviam como intermediários destes mercadores”. (LEÃO, 2010, p. 217).

"Sob sua proteção os missionários tiveram autorização para construir um seminário em Arima e outro Omi, assim como, a construção de uma igreja de Nossa Senhora de Assunção, em 1576, na capital Miyako. A chegada do jesuíta napolitano Alexandre Valignano, na função de visitador do Japão no ano de 1579, teria estimulado ainda mais as boas relações entre os portugueses e Oda Nobunaga. Junto com Luís Fróis, Organtino Soldo e Lourenço Mexia foram recebidos pessoalmente no Castelo de Azuchi". (LEÃO, 2010, p. 217-218).

Sendo assim, Valignano já tinha contato com Nobunaga há alguns anos, mas naquela nova visita ao seu protetor e apoiador, o padre levou consigo o escravo Yasuke. A presença dele causou curiosidade na população, pois conta-se que teria sido o primeiro homem negro a visitar a cidade. Nobunaga que estava hospedado lá naquela ocasião, conheceu Yasuke e teria ficado fascinado com sua cor e porte físico. O fascínio gerado teria levado Nobunaga convidar Alessandro Valignano e sua comitiva para outra reunião no mês de maio, dessa vez no Castelo de Azuchi. Lá, o dáimio fez a oferta de comprar Yasuke, tornando-o seu guerreiro. (GIRARD; LOCKLEY, 2019, p. 124).  

Pintura representando o Castelo de Azuchi, que foi incendiado em 1582. Atualmente existe um museu no local com a reconstituição de sua torre central. 
"Este castelo-fortaleza tem um significado todo especial, porque pela primeira vez na história do Japão, um chefe militar feudal visa, com a construção de um baluarte defensivo, o estabelecimento de um novo centro político no país. Só mesmo um chefe militar da visão de Nobunaga poderia ter concebido tal idéia". (YAMASHIRO, 1978, p. 102).

A serviço de Oda Nobunaga: 

A ideia de que Yasuke passou anos a serviço de Nobunaga, lutando em suas guerras e servindo-o como leal samurai é incorreta, a começar pela condição que o dáimio faleceu em junho de 1582, e Yasuke teria entrado ao seu serviço em maio de 1581. Assim, a relação entre os dois durou um pouco mais de um ano. Inicialmente Yasuke tornou-se um guerreiro, não se sabendo ao certo suas funções, por não haver relatos a respeito, no entanto, fontes da época que listam os guerreiros juramentados a Nobunaga, listam o nome de Yasuke, algo curioso que deve ser mencionado. 

O nome Yasuke é somente relatado a partir de quando o mesmo tornou-se membro do exército de Oda Nobunaga. Fato esse que os próprios cronistas clericais quando mencionam ele antes disso, não o chamam pelo nome, mas referem-se a ele por termos da época usados para se referir a africanos ou homens negros. Com isso, surgiu a hipótese de que Yasuke pudesse ter sido um novo nome adotado por ele ou lhe concedido por Nobunaga. A exatidão desse nome é ainda motivo de debate e imprecisa. 

Yasuke segundo consta teria se destacado rapidamente entre outros guerreiros, mostrando ter força e agilidade excepcionais. Inclusive é sabido que Nobunaga gostava de assistir competições de jogos e de lutas, como o próprio sumô. Yasuke teria se destacado nesses esportes e combates, além de mostrar zelo, honra e lealdade que levaram Nobunaga a decidir torná-o samurai. Porém, os motivos exatos para ele ter sido nomeado samurai, são desconhecidos. (GIRARD; LOCKLEY, 2019, p. 141-143).  

Competição de sumô. Kano Eitoku, c. 1605. Alguns pesquisadores debatem se o homem negro nessa pintura teria sido Yasuke. 
Seja o qual o motivo levou Nobunaga a tornar Yasuke um samurai, deve ter sido algo importante. Originalmente nos séculos X e XI, os samurais eram soldados comuns, recrutados para formar milícias ou tropas informais por senhores. A palavra samurai significa "aquele que serve", por sua vez, eles também eram chamados de bushi (guerreiro). Somente no final do século XI para a transição do XII, os samurais deixaram de ser meros guerreiros comuns e começaram a despontar como uma hierarquia de guerreiros profissionais e também uma condição social, algo que lembra em alguns aspectos os cavaleiros europeus na Idade Média, os quais deixaram de serem meros combatentes que lutavam a cavalo, para se tornarem nobres guerreiros. (YAMASHIRO, 1964, p. 59).

Stephen Turnbull (2005, p. 9) destaca que os samurais nos séculos XII e XIII já eram guerreiros profissionais, com seu código de honra que seria desenvolvido nos séculos seguintes. Ele também salienta que os samurais de destaque poderiam receber presentes, recompensas, terras e servos. Por outro lado, ele sublinha que os nobres e aristocratas que passaram a guerrear, também eram considerados samurais, além da condição que haviam samurais que eram vassalos de outros samurais. Essa relação entre guerreiro profissional, senhor de terras, aristocrata e nobre desenvolveu-se principalmente entre os séculos XV e XVI com o acirramento das guerras civis. 

Logo, Yasuke quando tornou-se um samurai ele além de receber as duas espadas, distintivo militar e social daquele tempo para identificar um samurai, ele teria recebido também uma residência e talvez uma propriedade rural. Tal ato teria sido uma grande façanha para Yasuke, que de escravo tornou-se um guerreiro de uma classe respeitada. Infelizmente a ausência de documentos não nos permitir saber como foi a reação dos outros samurais, dáimios e do restante da população quanto a ideia de nomear um estrangeiro para tal classe. 

Dependendo do grau de confiança e amizade de Yasuke com Nobunaga, o samurai negro teria participado de algumas das batalhas ou operações militares que o dáimio organizava naquela época, lembrando que o processo de unificação do país ainda estava em andamento, embora que Nobunaga não viveu para vê-lo se concretizar. Em junho de 1582 ele foi traído por um de seus generais, Akechi Mitshuhide (1528?-1582), o qual encurralou Oda Nobunaga no templo de Honno-ji em Quioto, forçando Nobunaga render-se ou optar pela morte. Seguindo a conduta moral e honrosa dos samurais, ele optou pelo seppuku, prática reservada aos samurais para morrer com honra. Entretanto, independente de quais fossem os planos de Akechi, esses não deram certo, pois ele foi morto no mesmo ano. Então Toyotomi Hideyoshi, outro dos generais de Nobunaga, assumiu como seu sucessor. 

"Após o assassinato de seu suserano, Toyotomi Hideyoshi consegue sua vingança e se torna o grande sucessor de Oda Nobunaga, no processo de unificação do país. Dois anos depois, no intuito de expandir seus domínios, Toyotomi Hideyoshi se envolve em uma guerra contra o, até então aliado, Tokugawa Ieyasu. Em 1585, pela ausência de uma concorrência político-militar à altura, Toyotomi Hideyoshi recebe o título de Kampaku, tornando-se o regente do imperador. Em 1586 juntou forças para uma importante armada para fora do arquipélago em direção à Coréia e à China". (LEÃO, 2010, p. 220-221). 

Após tal acontecimento não se sabe o destino de Yasuke. Pelo que parece ele manteve o título de samurai, mas não se tem certeza se ele continuou a servir Toyotomi ou outro mestre. Yasuke poderia ter participado da Batalha de Okitanawate (1584), pois os jesuítas relataram homens negros naquele conflito. O problema é que isso não é uma certeza. Inclusive haja a possibilidade de ele não ter estado naquele conflito. Por outro lado, uma carta de 1593 escrita pelo dáimio Kato a um de seus servos, chamado de Kurobo (homem negro), foi cogitado como possível referência a Yasuke. Porém, naquele período já havia outros africanos no Japão, mesmo em pequena quantidade. (GIRARD; LOCKLEY, 2019, p. 250-254).  

Quanto a sua morte e os motivos dessa, são desconhecidos. A lenda sobre Yasuke, o samurai negro, surgiu anos depois, inclusive os próprios cronistas europeus que referem-se a ele, pouco informam a respeito ou lhe deram atenção de destaque. Os registros japoneses também são escassos, fazendo apenas menções breves ao seu nome. A fama de Yasuke aparenta ser algo mais recente, tendo surgido no século XX, já que até então pouca atenção lhe era dada. 

NOTA: O nome Yasuke poderia ser uma versão japonesa para Isaac. Todavia, considera-se que possa ter sido uma japonização do nome africano dele, como Yasufe ou Issufo
NOTA 2: Apesar eu tenha usado o livro African Samurai, ele deve ser consultado com cautela, pois embora possua bibliografia, a obra tem um caráter literário, apresentando romanceamento de determinados acontecimentos históricos. 
NOTA 3: No jogo Nioh (2017), Yasuke aparece como um dos chefes, sendo chamado de Dark Samurai.
NOTA 4: Yasuke pode ter servido de inspiração para o mangaká Takashi Okazaki para criar o personagem Afro Samurai
NOTA 5: Yasuke é referenciado em livros, jogos, mangás, filmes, propagandas e músicas.  

Referências bibliográficas: 

D’ASSUMPÇÃO, T. Lino de (coord.) História geral dos jesuítas: desde sua fundação até os nossos dias. Lisboa: Empreza da História de Portugal, 1901. 
LEÃO, Jorge Henrique Cardoso. Jesuítas e Daimyôs: Evangelização e poder político no Japão do século XVI. Mnemósine Revista, vol. 1, n. 1, jan/jun 2010, p. 208-226.
LOCKLEY, Thomas; GIRARD, Geoffrey. African Samurai. Hanover, Hanover Square Press, 2019. 
SOLLER, François. Histoire Ecclesiastique Des Isles et Royaumes du Japon. Cramoinsy, Bibliothèque de Bavière, 1627. 
TURNBULL, Stephen. Samurai Armies: 1467-1649. Oxford: Osprey Publishing, 2008. (Série Battle Orders: 36). 
YAMASHIRO, José. Japão: passado e presente. São Paulo, HUCITEC, 1978.
YAMASHIRO, José. Pequena história do Japão. 2a ed. São Paulo: Editora Herder, 1964.

Links relacionados:  Oda Nobunaga Ninjas vs Samurais: crônicas de uma guerra feudal (XV-XVII)

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A Gripe Espanhola: a pandemia que assombrou o século XX

Entre 1914 e 1918 a Europa e territórios africanos e asiáticos foram acometidos pela Grande Guerra, que vitimou entre 8 a 9 milhões de soldados e civis, além de deixar um saldo maior de feridos. Todavia, nos últimos meses que antecediam o término da guerra, a Europa foi acometida por uma repentina e mortífera forma de vírus Influenza H1N1, que ficou comumente conhecido como gripe espanhola. A doença se espalhou de forma tão rápida e severa, que em poucos meses foi considera um problema de saúde mundial, sendo classificada como a primeira pandemia do século XX, a qual duraria até 1920, acometendo as Américas, África e Ásia, gerando pelo menos 50 milhões de mortos. Em dois anos a terrível gripe conseguiu matar mais gente do que somando-se o número de mortos da Primeira Guerra e da Segunda Guerra. Neste texto procurei contar um pouco da história dessa terrível doença que assombrou o mundo. 

Uma ameaça sorrateira: 

A epidemia de gripe que acometeu a Europa no ano de 1918 passou despercebida por algum tempo, já que o centro das atenções ainda era a Grande Guerra que se encontravam em seus meses finais, já que os impérios envolvidos já haviam demonstrado sinais para um armísticio a fim de pôr fim a aquela guerra que durava quatro anos. Logo, em meio ao cenário de ruínas, miséria, sangue e morte que alguns países europeus vivenciavam, algumas doenças se espalhavam e entre elas uma mortífera variedade de gripe, o Influenza H1N1. Como havia um descolocamento de muitas pessoas, entre militares e refugiados, além de haver vários hospitais lotados devido aos feridos pela guerra, a gripe passou inicialmente despercebida. Fato esse que não se sabe exatamente quando ela começou e onde se originou. Com o término da guerra e o retorno das tropas para casa, os soldados adoentados ou que contraíram o vírus da gripe, mas que estava adormecido, ajudaram sem saber, a propagar a doença. 

Anny Silveira (2005, p. 93-96) comenta que em 1918 o diagnóstico médico para se identificar a gripe ainda era impreciso. As vezes a pessoa era diagnosticada tendo apenas uma "febre". Surtos de gripe em menor escala já haviam acometido alguns países europeus desde o final do século XIX, mas nunca haviam gerado um alarde nacional e uma vasta quantidade de infectados e de mortos. No ano de 1892 o médico Richard Friedrich Johann Pfeiffer (1858-1945), em um estudo bacteriológico, disse ter identificado o responsável pela gripe. Na época Pfeiffer acreditava que a gripe fosse causada por bactérias, embora saiba-se que trata-se de vírus. A pesquisa de Pfeiffer recebeu várias críticas negativas, todavia, ele obteve êxito em propor uma vacina para outra doença, o tifo. Embora Pfeiffer tenha errado ao identificar o patógeno que causa a gripe, sua hipótese de que ele poderia ser disseminado pelo ar, e isso consistia na sua forma de contágio, estava certa. Além disso, ele também acertou ao sugerir que a gripe além de febre, causava problemas respiratórios que tendiam a levar a uma insuficiência respiratória, a qual causaria a morte do enfermo. 

Por mais que Pfeiffer houvesse identificado uma bactéria e não o vírus da gripe, suas hipóteses sobre contágio e alguns dos sintomas eram válidas. O problema é que os médicos nos anos seguintes, acreditavam que se tratava de uma bactéria, além de haver alguns que alegavam que Pfeiffer havia errado nos demais aspectos. No final, isso em nada contribuiu para uma melhoria no diagnóstico da gripe, a qual foi tomada como casos de febre forte, mas a medida que essa "febre maligna" se espalhava rapidamente, acometendo várias pessoas e até mesmo levando a óbito em poucos dias, já não se tratava de uma simples febre. 

A gripe se espalha, mas é omitida: 

A falta de um diagnóstico preciso prejudicou identificar quando a gripe espanhola começou a se disseminar, não sabendo de onde ela se originou, apenas sabe-se que em determinado momento as autoridades médicas foram pressionadas pelos governos a omitir que uma epidemia de gripe ocorria. Em março de 1918, soldados americanos que estavam de retorno ao seu país, carregavam consigo o vírus dessa gripe. Alguns já haviam partido nos navios já doentes e não conseguiram concluir a travessia do Atlântico. Outros adoeceram durante a viagem ou quando chegaram. Hospitais militares americanos começaram a ter suas alas de enfermagem e internação lotadas não por causa dos feridos, mas devido aos soldados gripados. Isso de início foi silenciado a imprensa. (REID, TAUBENBERGER; FANNING, 2001, p. 81).


Um hospital improvisado nos Estados Unidos, mostrando pessoas internadas por causa da gripe espanhola. 
Kuszewski e Brydak (2000, p. 189) comentam que sinais que antecedem a epidemia de gripe espanhola em 1918, ocorreram nos anos seguintes, mas somente tomou-se conhecimento a respeito, anos depois, após investigação jornalistica e histórica. Os dois autores comentam o fato que em 1915 e 1916 ocorreram pequenos surtos de gripe pelos Estados Unidos, por sua vez, nas trincheiras francesas da guerra, em 1917, relatórios militares médicos informavam casos de vários soldados ingleses com problemas respiratórios, especialmente de bronquite. Os autores indagam se seriam apenas bronquite ou já podia-se delinear alguns casos de gripe. Porém, eles sublinham que essas informações foram de início omitidas, isso partia da condição que o governo evitava causar um alarde público, para não levar ao medo e pânico generalizados, além da condição que essas informações poderiam chegar aos ouvidos dos inimigos, revelando um desfalque no contingente das tropas.  

A gripe começou a matar muitos soldados americanos e alguns civis que tinham contato com os enfermos, entre os meses de março e maio. Enquanto isso, soldados europeus que estavam na Europa ou no norte da África também padeciam dessa misteriosa doença. Em junho de 1918 a Royal Academy of Medicine de Londres noticiou que a misteriosa doença que estava matando muitos soldados, poderia se tratar de um tipo perigoso de gripe. Apesar da prestigiada instituição médica ter acertado quanto a identificar a doença como gripe, e não febre, tifo ou outra enfermidade, ainda assim, a academia inglesa defendeu que notícias sobre a epidemia não deveriam ser levadas a público para não causar pânico. (GOULART, 2005, p. 102). 

Mas enquanto a gripe não era noticiada publicamente, a segunda onda da epidemia teria ocorrido entre agosto e setembro. Se a primeira onda foi noticiada tendo ocorrido entre os soldados franceses, ingleses e americanos em março de 1918, a segunda onda já acometia a população civil no geral na Europa, em países como Portugal, Espanha, Itália, França, Inglaterra, Polônia, Alemanha, etc. e inclusive nos meses de outubro a dezembro identificou-se pessoas contaminadas em países na América do Sul, como Brasil e Argentina. Foi a partir dessa segunda onda que jornais espanhóis foram os primeiros a noticiar que hospitais espanhóis estavam lotados por causa de pessoas acometidas por uma forte gripe. A imprensa nacional utilizou esse fato e começou a chamar a gripe daquele ano de gripe espanhola e até mesmo surgiu boatos na época dizendo que ela teria começado na Espanha. (REID, TAUBENBERGER; FANNING, 2001, p. 82).


Matéria do jornal The Calgary Daily Harald de 31 de outubro de 1918, noticiando medidas para prevenir e tratar a gripe espanhola. No mês de outubro o uso do termo gripe espanhola já estava sendo normalmente usado em alguns países. 
Com a notícia de que uma forte e virulenta gripe acometia os Estados Unidos, Espanha, Polônia e França, outros países europeus começaram a notificar casos dessa doença, mesmo que na época já houvesse ocorrido vários óbitos ocasionados pela gripe espanhola. Com isso, em meados de 1918, já circulavam notícias falando de uma perigosa doença que teria se originado na Espanha. Em outubro daquele ano, jornais europeus, africanos e americanos já noticiavam de forma mais clara, embora ainda imprecisa, sobre a existência de um surto de gripe na Europa e nos Estados Unidos. Em dezembro de 1918, surtos de gripe serão noticiados em outros países da América Latina e outros países do norte e leste da Europa. 

Os jornais espanhóis embora noticiassem a gripe espanhola, apresentavam uma reação bem adversa. Uns tratavam a doença como uma gripe comum que volta e meia ocorre; outros alegaram que a gripe foi trazida pelos franceses, ao ponto de falar de uma "gripe francesa". Alguns jornais alegavam que a gripe estava sendo virulenta apenas nos Estados Unidos e na França, mas por hora a Espanha estava com poucos casos. Notícias sobre possíveis mortos pela gripe, foram divulgadas, mas a população desconfiava se era verdade ou boato. Alguns jornais fizeram sátiras a respeito, apresentando pessoas moribundas, esqueléticas, doentes, etc. indo se consultar com os médicos, os quais diziam que estava tudo bem, pois era um simples resfriado. Todavia, já em outubro, a noção de que uma epidemia de gripe era real e grave já se espalhava pela Espanha. (TRILLA; TRILLA; DAER, 2008, p. 670-671). 

A gripe avança para outros continentes: 

Na América do Sul, países como Brasil e Argentina foram os mais acometidos pela doença. No caso argentino no ano de 1917, poucas pessoas pereceram de gripe, sendo que pessoas morriam mais por causa de tuberculose, meningite, complicações cardíacas e respiratórias. No entanto, no final de 1918, o índice de mortos por gripe aumentou em sete vezes em relação ao ano anterior. Desde maio os jornais argentinos noticiavam acerca da gripe espanhola, mas somente no final do ano que a doença chegou ao país. No entanto, foi em 1919 que os surtos de gripe ocorreram, tornando a doença uma epidemia. Cidades pequenas como Catamarca, Jujuy, Mendonza, La Rioja, Salta, San Juan, Santiago del Estero e Tucumán, tiveram um grande surto da doença e elevadas taxas de mortandade para suas pequenas populações. Em algumas dessas cidades observou-se um crescimento exponencial de até 133 vezes no número de infectados e mortos. A estimativa é que mais de 20 mil argentinos faleceram devido a gripe, principalmente no norte e noroeste do país. (CARBONETTI, 2010, p. 162-163). 

Adrián Carbonetti (2010, p. 170) observou que em cidades e regiões com alta taxa de médicos para cada mil habitantes, o número de vítimas causados pela gripe, foi baixo, o que incluiu a própria capital Buenos Aires. Algo diferente do visto no Brasil, onde a capital Rio de Janeiro foi a cidade com maior número de mortos no país, mesmo tendo muitos médicos lá. 

A gripe espanhola no ano de 1918 começou acometer mais o norte da África e a adentrar o Oriente Médio. No caso africano, soldados franceses e britânicos que haviam contraído a doença na Europa, e foram relocados para a África, devido a guerra, disseminaram a doença. Viajantes que deixaram os países infectados e seguiram para o continente africano, também levaram sem saber o vírus da gripe. Niall Johnson e Juergen Mueller (2002, p. 110) apresentam uma tabela mostrando números aproximados de mortos em consequência da gripe, os quais faleceram entre 1918 e 1920. Eles apontam que os dados antigos sejam imprecisos, sendo impossível precisar a quantidade de mortos, mas ambos consideram que houve exagero nos número apresentados, de qualquer forma, eles assinalaram que países como Egito, Congo Belga, Camarões, Quênia, Nigéria e África do Sul, houveram dezenas de milhares de mortos. 

A gripe espanhola chegou à Ásia também e depois em menor escala a Oceania. No continente asiático a doença foi espalhando-se do Oriente Médio à China. Porém, viajantes que iam de navio da Europa para o Extremo Oriente, como China, Japão e Filipinas, também levaram a doença por rota marítima.  Johnson e Mueller (2002, p. 112) comentam que países como China e Índia devido o alto índice populacional e carência de médicos, sistema de saúde e condições sanitárias ajudou a disseminar a gripe de forma bastante virulenta. Estima-se que na China de 4 a 9 milhões de pessoas faleceram. Na Índia a estimativa ultrapassa os 18 milhões de mortos. Indonésia teria tido mais de 1,5 milhão de mortos. Japão e Afeganistão tiveram mais de 300 mil mortes. 

Na Oceania os principais países afetados foram AustráliaNova Zelândia, Fiji e Samoa Ocidental. Na Austrália estima-se que mais de 14 mil pessoas faleceram por causa da doença. Na Nova Zelândia as estimativas ficam em 8 mil mortos. Arquipélagos como Fiji e Samoa Ocidental também tiveram altos índices de mortos, considerando sua diminuta população. Estima-se que mais de 8 mil pessoas morreram em cada uma dessas ilhas. 

A gripe espanhola no Brasil, um breve comentário: 

No Brasil casos de gripe espanhola começaram a circular nos jornais em setembro, sendo informado que as pessoas não entrassem em desespero e seguissem as recomendações médicas, apesar que as autoridades de saúde brasileira perceberam que o Brasil não tinha medidas eficientes para combater e tratar de uma epidemia. Por mais que a doença tornou-se pública, os jornais controlavam as informações para não causar uma histeria coletiva. 

A cidade do Rio de Janeiro, na época era a capital federal e a cidade mais populosa do país, com quase 1 milhão de habitantes. Também sofreu com a gripe espanhola, que chegou por volta do mês de outubro. As notícias sobre a gripe na Europa, no Rio, São Paulo e Bahia foram tomadas de diferentes formas. Alguns jornais fizeram sátiras sobre a chegada da doença ao Brasil, outros jornais disseram que a doença seria usada pelo governo para interferir na vida privada, obrigando a população a se vacinar, e isso poderia causar uma nova revolta, como ocorreu com a Revolta da Vacina em 1904. Circulava através de boatos e em conversas cotidianas, apreensões, medos e desconfianças. Algumas pessoas temiam a epidemia que acometia os europeus e americanos, mas outras pessoas achavam que a gripe espanhola fosse como qualquer outra gripe, sendo perigosa apenas para crianças, idosos e pessoas já adoentadas. (GOULART, 2005, p. 103-105). 

Se a gripe no início foi tomada como um resfriado comum, mesmo tendo causado 48 mortes na capital, no final do mês de outubro, o número de mortos passava de mil. Embora a população da capital fosse cem vezes maior, no entanto, nunca se imaginou que me menos de um mês uma simples gripe poderia matar em torno de 1.073 pessoas. No meses de novembro e dezembro a situação piorou, embora o número de mortos não cresceu tanto, mas o número de infectados disparou de forma assombrosa. Em poucas semanas, milhares de pessoas na capital e em outras cidades do estado, estavam infectadas. Hospitais começaram a superlotar devido a grande quantidade de enfermos que chegavam. Como ainda não havia um tratamento contra a gripe naquele tempo, as pessoas acreditavam que bastava levar ao hospital e os médicos fariam algo para curá-las. Mas isso somente gerou atribulações e conflitos. (GOULART, 2005, p. 105, 108). 

Além de hospitais superlotados, a vida nas cidades com altos índices da gripe espanhola sofreu alterações. Pessoas começaram a faltar ao trabalho, pois estavam doentes ou tinham que ficar em casa para cuidar dos doentes. Aulas foram suspensas para se evitar que os alunos transmitissem a doença ou fossem por ela infectadas. Lojas que tinham poucos funcionários, fecharam, pois todos estavam doentes. Lojas maiores tiveram número de funcionários reduzido. Serviços públicos foram afetados por causa dos profissionais que ficaram doentes. Remédios que supostamente poderiam ter algum tratamento de combate a doença, começaram a escassear nas farmácias e hospitais. As pessoas com medo, começaram a estocar comida em suas casas, evitando sair na rua para não contrair a doença. Cemitérios tiveram problemas para arranjar caixões e espaço, pois nunca morreu-se tanta gente em poucas semanas. Alimentos, medicamentos e outros produtos foram superfaturados devido a escassez. As autoridades médicas não sabiam como agir, pois as medidas publicadas não estavam sendo seguidas pelos profissionais de saúde e nem pela população. A gripe estava acometendo e matando pessoas de todas as idades e classes sociais. (GOULART, 2005, p. 108-109). 


Jornal Gazeta de Notícias, noticiando em 1918 o surto de gripe espanhola no Rio de Janeiro. 
Com o crescimento de casos de pessoas infectadas pelo vírus da gripe e a mortandade aumentada, o governo tomou a decisão de evitar divulgar os números a respeitos para evitar aumento da histeria coletiva. Alguns jornais ainda tentavam consultar tais números e criticavam que o governo estava agindo de má fé por esconder a real situação, quando alegava que a doença não era tão severa assim, e não passava de boatos escandalosos. No ano de 1919, a gripe espanhola ainda continuou a fazer vítimas na cidade e no estado. O recém-eleito presidente da república, Rodrigues Alves faleceu em em 16 de janeiro de 1919, vítima da gripe espanhola. O fato do presidente do Brasil ter morrido por causa daquela doença, voltou a gerar alarde na cidade e em outros lugares do país. O importante médico e sanitarista Carlos Chagas foi nomeado para o combate da doença, criando postos de socorro e distribuindo equipes pela capital federal, mas a medida não surtiu efeito desejado. Apenas no estado do Rio de Janeiro, mas de dez mil pessoas morreram em poucos meses. 

Em São Paulo o Annuario Demographico de 1918 tentou contabilizar o número de infectados e mortos, notificando com dificuldade que apenas em algumas cidades como São Paulo, Santos, Campinas e Ribeirão Preto, o número de mortos levantados era mais de 6 mil pessoas, posteriormente dados advindos de outras cidades do estado, forneciam um valor de pelo menos 12 mil mortos em 1918. Apesar que novos casos continuaram a serem notificados no ano seguinte, acometendo outras cidades do estado, mas sendo que o número de mortos decaiu para 7.735. (BASSANEZI, 2013, p. 76-81). 

A gripe espanhola espalhou-se por vários dos outros estados brasileiros de norte a sul do país do Pará ao Rio Grande do Sul, vitimando também pessoas mesmo nos estados mais interioranos como Goiás, Mato Grosso e Amazonas. Surtos fortes como os vistos no Rio e São Paulo, também ocorreram na Bahia e no Ceará. A gripe continuou a fazer mortes até o começo de 1920, quando os casos diminuíram e se encerraram. O número de infectados no país foi de centenas de milhares ou de mais de um milhão, já que relatórios médicos são imprecisos quanto a quantidade de pessoas infectadas, além de que o diagnóstico era incerto, onde pessoas com resfriado ou outras doenças poderiam ser tomadas como estando gripadas. Estima-se que pelo menos 35 mil brasileiros tenham morrido entre 1918 e 1920 por causa da gripe espanhola, 1/3 desse total apenas no estado do Rio de Janeiro. Cidades como Recife e Porto Alegre tiveram mais de mil mortos por causa da doença. Salvador teve um alto índice de infectados, mas poucas mortes. 

Considerações finais:

Surtos de gripe nos Estados Unidos, Europa e Ásia não eram incomuns, inclusive desde 1900, já haviam sido relatados aumentos significativos dessa doença, embora recordo que na época ainda não se soubesse os fatores que causavam a influenza. Fato esse que nem sempre o diagnóstico da mesma era exato. Nos relatórios médicos de diferentes países, os gripados eram diagnosticados tendo dores no corpo, dores de cabeça, fadiga, dificuldades para respirar, vômitos, náuseas, febre, as vezes diarreia, sudorese, fotossensibilidade a luz, etc. Alguns dos sintomas eram confundidos com os de bronquite, sinusite, pneumonia, tifo, resfriado, dengue, etc. o que dificultava um diagnóstico exato para tratamento. Além disso, soma-se a condição de que a falta de medidas sanitárias e de internação adequadas, favoreceram a disseminação da doença. 

Se a Peste Negra era principalmente difundida por pulgas na Idade Média europeia e asiática, a gripe espanhola foi mais epidêmica por ser transmitida pelo ar e pelo contato com algumas secreções corporais dos infectados. Soma-se a isso que em alguns casos a doença demorava a se manifestar, e o vírus incubado poderia ser transportado sem que a pessoa soubesse para outras cidades, estados, países e continentes. Se hoje existe um risco de algo do tipo ocorra devido a facilidade das viagens aéreas, entre 1918-1920, não havia viagens de avião, mas bastou as de navio para espalhar a doença pelos continentes. 

Em alguns países de tradição cristã havia pessoas que acreditavam que a gripe espanhola fosse um anúncio do Apocalipse. Em 1918 terminava a Grande Guerra, com seus 9 milhões de mortos, e agora seguia-se uma pandemia. Os cavaleiros do Apocalipse, Guerra, Peste e Morte estavam atuantes, restava o Fome chegar para encerrar o ciclo de terror. Lembrando que além das várias pessoas doentes e mortas, a doença em algumas cidades afetou o cotidiano; ruas vazias, comércio fechado, hospitais lotados, cemitérios abarrotados de funerais e com falta de espaço para sepultar os mortos; escasseamentos de alimentos e medicamentos; escolas, universidades e faculdades fechadas; pessoas usando máscaras na rua e em casa, com medo de até ir falar com o vizinho, para não pegar a doença; medo, histeria, desconfiança, revolta, etc. 

Estimativas exageradas dizem que a gripe espanhola teria matado de 50 a 100 milhões de pessoas, hoje em dia trabalha-se com valores que vão de 20 a 40 milhões de mortos pelo mundo, porém, o número de infectados foi dezenas de vezes maior. Por fim, se ainda há mistério quando e como esse surto se tornou uma pandemia, o fim disso também não é claramente compreendido. Em 1919 as taxas de infectados e mortos começou a cair em meados do ano. Os últimos relatos considerados de infectados por gripe espanhola datam do começo de 1920 e depois cessam. Não houve novos surtos dessa doença, naquele ano ou nos anos seguintes. Muitas das vítimas da gripe espanhola curiosamente não foram crianças ou idosos, mas pessoas entre seus 20 e 30 anos, consideradas um grupo mais saudável e resistente. 

NOTA: A palavra influenza usada para se referir a gripe, é de origem italiana, surgida no século XV, a partir da mentalidade astrológica, onde acreditava-se que os astros poderiam influenciar a saúde das pessoas. 
NOTA 2: O seriado espanhol El Ministério del Tiempo (2016-2018), no episódio cinco da segunda temporada, aborda a gripe espanhola. 
NOTA 3: No jogo Vampyr (2018) a trama se passa em Londres no ano de 1918, acometida pela gripe espanhola e por uma série de ataques de vampiros. 
NOTA 4: Em 2009 novo surto de gripe H1N1, chamada de gripe suína assustou o mundo, pois temia-se que pudesse alcançar proporções desastrosas. Mas felizmente a Organização Mundial da Saúde em parceria com os países conseguiram controlar a doença. 

Referências bibliográficas: 
BASSANEZI, Maria Silvia C. Beozzo. Uma trágica primavera. A epidemia de gripe de 1918 no estado de São Paulo, Brasil. In: BAENINGER, Rosana; DEDECCA, Claudio Salvadori (orgs.). Processos migratórios no estado de São Paulo: estudos temáticos, v. 10. Campinas, Núcleo de Estudos de População, 2013, p. 73-90. 
CARBONETTI, Adrián. Historia de uma epidemia olvidada. la pandemia de gripe española en la Argentina, 1918-1919. Desacatos, n. 32, 2010, p. 159-174. 
GOULART, Adriana da Costa. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. História, Ciências, Saúde, v. 12, n.1, 2005, p. 101-142.
JOHNSON, Niall P. A. S; MUELLER, Juergen. Updating the Accounts: Global Mortality of the 1918-1920 "Spanish" Influenza Pandemic. Bull. Hist. Med., n. 76, 2002, p. 105-115.  
KUSZEWSKI, K; BRYDAK, L. The epidemology and history of influenza. Biomed & Pharmacother, n. 54, 2000, p. 188-195. 
REID, Ann H; TAUBENBERGER, Jeffrey K; FANNING, Thomas G. The 1918 Spanish influenza: integrating history and biology. Microbes and Infectation, n. 3, 2001, p. 81-87. 
SILVEIRA, Anny Jackeline Torres. A medicina e a Influenza espanhola de 1918. Revista Tempo, Rio de Janeiro, n. 19, 2005, p. 91-105. 
TRILLA, Antoni; TRILLA, Guilem; DAER, Carolyn. The 1918 "Spanish Flu" in Spain. Clinical Infectious Diseases, v. 47, n. 5, 2008, p. 668-673. 

Referências da internet:
LAMARÃO, Sergio; URBINATI, Inoã Carvalho. Gripe Espanhola. Disponível em: https://atlas.fgv.br/verbetes/gripe-espanhola


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Totemismo em Deuses Americanos


Introdução

Em 1998 em uma viagem à Islândia, o escritor britânico Neil Gaiman, na época conhecido principalmente por seu trabalho com histórias em quadrinhos, em especial a série Sandman, ao visitar aquela remota e distante ilha no Atlântico Norte, teve a ideia de escrever um livro sobre os Estados Unidos. Gaiman já vivia na América há vários anos com sua esposa, então teve a ideia de escrever sobre a cultura americana ou a “alma dos Estados Unidos”. A obra seria um livro que envolveria mitologia, religião, trapaças, golpes, suspense, viagens, romance, etc. como ele comenta em algumas entrevistas dadas sobre esse livro, o qual foi intitulado Deuses Americanos (American Gods), tendo sido publicado originalmente em 2001. Apesar que dez anos depois recebeu uma nova edição, revista e ampliada.

No ano de 2017, a obra ganhou uma adaptação para os quadrinhos e para a televisão, pela Amazon Play. Como a história em quadrinhos é uma adaptação mais próxima do livro, optamos em trabalhar apenas com o livro e o seriado, pois esse apresenta várias diferenças na trama. Embora trata-se de um livro publicado há dezessete anos, possuindo vários trabalhos a respeito, pois a obra ganhou alguns prêmios literários na época, e hoje é um dos trabalhos mais populares de Neil Gaiman, esse presente artigo pretendeu analisar esse volumoso trabalho de mais de quinhentas páginas a partir dos conceitos religiosos de totemismo e culto.

Em Deuses Americanos a trama gira em torno de Shadow Moon, o protagonista recém-saído da prisão que conhece um misterioso homem chamado Wednesday, o qual lhe propõem um trabalho: ser seu motorista e guarda-costas, pois o Sr. Wednesday diz que está participando de uma guerra um tanto atípica. Somente com o desenrolar da trama é que Shadow dará conta que se trata de uma guerra de deuses.

Cena do seriado Deuses Americanos. Shadow Moon (Richard Whittle) torna-se motorista e guarda-costa do misterioso Sr. Wednesday (Ian Machsane). 
O livro Deuses Americanos é conhecido por trazer referências há várias divindades de origem nórdica, eslava, egípcia, indiana, nativo americana, etc. porém, o que nos chamou a atenção é como o autor abordou a crença nos antigos e novos deuses, pois o cerne da questão como proposto por Gaiman é que os deuses são inventados pelos seres humanos, quando esses passam a crer que eles existam, possuam habilidades, poderes, que atendam nossos desejos ou nos castigam, e que eles necessitam de nós para serem adorados. Assim, utilizando princípios de crença, totemismo, culto e memória, Gaiman construiu sua visão sobre o que seria a religião.

No entanto é necessário comentar que tais características são centrais em sua obra, pois os novos deuses incluem a internet, a mídia, as teorias da conspiração, o mercado financeiro, estradas de ferro, carros, aviões e no caso do seriado inclui-se armas de fogo, rodovias, etc. Na perspectiva religiosa criada por Gaiman, essas invenções humanas acabaram se tornando sagradas devido a atenção exagerada das pessoas, que gerou uma espécie de adoração ou de idolatria.

Diante dessa percepção de que os novos deuses são oriundos da adoração desmedida dos americanos a máquinas, tecnologias e ideias, nesse artigo decidimos estudar com base no conceito de totemismo, culto e dos novos movimentos religiosos abordar a visão do autor quanto a reduzir a crença nos deuses a uma questão de memória e culto. Para isso utilizamos autores vinculados as Ciências das Religiões, História e Sociologia para estudar essa percepção religiosa existente no livro Deuses Americanos.

Noções sobre totemismo

O conceito de totemismo surgiu na segunda metade do século XIX, na Europa. O conceito advém da língua do povo Ojibway, da América do Norte. Entre essa cultura, os nativos usam a palavra totem para se referir a estátuas de madeira, geralmente com formas de animais, as quais representavam espíritos protetores ou os espíritos dos antepassados. (Frazer 1910). Os europeus já conheciam esses totens dos nativos americanos há séculos, os tendo considerados a partir da visão cristã, como ídolos, logo, objetos de idolatria. Embora a noção desses totens variasse entre os povos, para a mentalidade do conquistador cristão, todos representavam “falsos deuses” que eram cultuados por aqueles pagãos.

No século XIX com o advento da Antropologia, Arqueologia, Sociologia, História e da Ciência da Religião, novas preocupações quanto ao estudo das crenças religiosas se formalizaram e surgiram, dentre as quais a teoria do Totemismo. Nessa teoria que possui diferentes correntes de pensamento[1] que perpassam autores da Antropologia, Sociologia, Psicologia, etc. é dito que uma das formas mais antigas de pensamento religioso seria o culto a imagens. Assim, a partir desse conceito, os antropólogos do final do XIX e começo do XX, procuravam pensar a religião como uma categoria autônoma e com suas próprias características, como salienta Talal Asad:

"Em muito do pensamento evolucionário do século XIX, a religião era considerada uma condição humana primeira a partir da qual o direito, a ciência e a política modernos emergiram e se separaram. Neste século, a maioria dos antropólogos abandonou as ideias evolucionárias Vitorianas, e muitos desafiaram a noção racionalista de que a religião é simplesmente uma forma primitiva e, portanto, ultrapassada das instituições que hoje nós encontramos em sua forma verdadeira na vida moderna (direito, política, ciência). Para esses antropólogos do século XX, a religião não é um modo arcaico do pensamento científico, nem de qualquer outra empreitada secular que nós valorizamos atualmente: ela é, ao contrário, um espaço distintivo da prática e da crença humanas que não pode ser reduzido a nenhum outro". (ASAD, 2010, p. 263).

Sendo a teoria totêmica um antigo conceito concebido para se pensar, classificar e estruturar o pensamento religioso, como essa teoria é bastante ampla, decidimos abordar somente alguns poucos autores, pois esses já foram suficientes para explicar de maneira básica os principais aspectos do totemismo.
No livro The Worship of Animals and Plants (1870), do antropólogo e advogado escocês John Ferguson McLennan (1827-1881), o autor havia sugerido com base no conceito de anima[2], que os “povos primitivos” conceberam os totens no intuito de ordenar seus ritos e adoração a tais espíritos e divindades, antes sem aparência. (Frazer 1910). 

Embora a teoria de McLennan tivesse alguns problemas, no entanto, ela se tornou atrativa aos olhos de outros estudiosos como James George Frazer, Émile Durkheim e Bronislaw Malinowski. No caso de Frazer ele publicou um volumoso livro intitulado Totemism and Exogamy (1910) dividido em quatro volumes. Nessa obra, Frazer percebia o totemismo como uma espécie de “religião universal”, sendo compartilhada por todos os “povos primitivos”, mas que manteve resquícios mesmo entre “religiões mais desenvolvidas”. Frazer influenciado pelo darwinismo social do século XIX, enxergava uma espécie de “evolução natural do pensamento mágico, religioso e científico”.

Embora essa visão darwinista tenha sido abandonada com o tempo, ela vigorou por décadas. Mas além dessa percepção, Frazer (1910) em seu estudo apontou como os totens podiam ter distintas formas, não estando restritos apenas a estátuas de animais ou de plantas, mas podendo ter formas antropomórficas, abstratas, ou representados por signos, símbolos ou partes do corpo, como chifres, dentes, cascos, presas, etc. além de serem feitos de distintos materiais como madeira, pedra, osso, dente, casco, concha, etc. e necessariamente não serem apenas estátuas, mas imagens e até mesmo tatuagens. Essa observação da diversidade de formas e materiais que formavam os totens é interessante, pois em Deuses Americanos, Gaiman narra a história de um povo pré-histórico fictício cujo totem era o crânio de um mamute.

No entanto, James George Frazer (1910) também comentou que os totens necessariamente não teriam apenas uma função religiosa, mas social e cultural, incidindo sobre determinados comportamentos, hábitos e costumes, além de haver totens do clã e totens pessoais, que poderiam ser usados para magia, proteção pessoal, fertilidade, etc. Sobre isso o sociólogo Émile Durkheim em seu livro Formas elementares da vida religiosa (1912) também comentou a respeito dessa ligação com o social, mas Durkheim foi enfático ao dizer que a ligação do totem com o cotidiano e a vida privada era de caráter religioso, pois os totens essencialmente era “objetos sagrados”. Apesar de outros autores como Malinowski e Radcliffe-Brown[3] posteriormente discordarem dessa opinião de Durkheim em considerar todo totem como fruto de uma crença religiosa primitiva, ainda assim, a ideia de que o totem esteja relacionado com a magia e a religião permaneceu no senso comum.

O próprio Neil Gaiman aborda o uso de totens nesse sentido, sem adentrar o campo do social. Em sua obra os totens antigos são estritamente religiosos e sagrados. E mesmo os novos deuses cujos totens sejam celulares, computadores, armas de fogo, carros, televisores, etc. Gaiman restringe a ideia de totem no sentido dessas máquinas serem vistas como algo sagrado e de culto. Nesse ponto, Gaiman embora restringiu o sentido de totem, ainda assim, não estava errado em fazê-lo.

O antropólogo Claude Lévi-Strauss em seu livro Totemismo hoje (1975) comentava que os totens tratavam de construções mentais as quais reconheciam nas figuras totêmicas valores e princípios pelos quais concederiam alguma utilidade para aquela sociedade, podendo ser uma utilidade de caráter religioso, sagrado, divino, moral, mágico, social, cultural, etc. Com isso, Lévi-Strauss salientava que uma das funções do totem era ser algo ideológico. Entendendo-se ideológico aqui na ideia de transmitir informações, valores e experiências. Entretanto, não basta apenas haver totens é preciso ter crença neles, para que funcionem, para que se tornem sagrados.

A necessidade de ser cultuado

Em Deuses Americanos, o uso da televisão pela deusa Media a qual ela diz que servia de altar para ser adorada, representa o uso desse aparelho em servir como vetor ideológico. Embora no livro isso não seja mais profundamente abordado, no seriado, a deusa comenta como ela manipula os programas de televisão para prender a atenção do telespectador, criando algo que ele admire, cobice, deseje e venere. Aqui entramos na questão de como a mídia influencia no comportamento e nos valores sociais e até morais. (Adorno, 2009). No livro a deusa costuma assumir a forma da atriz Lucy Ricardo[4], a qual se tornou um ídolo da televisão por causa de seu protagonismo na série I Love Lucy (1951-1957), vindo a ser idolatrada.

A deusa Media (Gillian Anderson) no seriado assume a forma de celebridades. No caso, ela aparece inicialmente como a atriz Lucy Ricardo a direita.  
Assim são os símbolos da indústria da cultura. Eles são preparados, expostos, elevados ao seu máximo valor de símbolo (e de troca), se esgotam e desaparecem. Quando estão no auge sua marca é requisitada em todos os produtos possíveis. O ator que faz sucesso na novela é aproveitado pelas gravadoras, que estão sempre à espreita de um novo ídolo, e lança um álbum, assim como podem estrelar um blockbuster e protagonizar espetáculos teatrais que “descansam” sua imagem enquanto ele espera o convite para a próxima novela; a cantora que faz incursões no cinema, apresenta programas, lança um livro. O sucesso é aproveitado ao máximo. A indústria tem preferências por ídolos que possam congregar valores simbólicos e atingir públicos diversos cada vez maiores. (Costa 2010: 7).

Nota-se nesse exemplo como Gaiman se aproveita do uso da palavra ídolo para se referir aos atores, cantores, dançarinos, esportistas e outros tipos de celebridades, tomando aqui a noção de culto a imagem a essas pessoas, que analogicamente lembra o culto aos deuses e heróis, embora seja um culto dessacralizado, ainda assim, essa atenção desmedida gerada pelos fãs, lembra a ideia de devotos religiosos. Inclusive o termo fanatismo pode ser usado para ambos os casos.

De fato, na indústria midiática os fãs clubes são importantes para a manutenção dos ídolos em destaque. Quanto maior a quantidade de fãs consumindo os shows, novelas, filmes, séries, livros e outros produtos desses ídolos, esses mantêm-se diante dos holofotes. (Costa 2010). Nesse sentido se percebe como Gaiman usa essa ideia de presença midiática como uma analogia a sua percepção religiosa. Ou seja, da mesma forma que os ídolos pop precisam estar em evidência para não perderem fama, e eventualmente caírem no esquecimento, os deuses precisam também estar presentes de alguma forma, precisam ser lembrados, para não saírem de cena. E no caso dos deuses esse sair de cena pode significar a morte deles.

Por essa perspectiva, Neil Gaiman aponta a ideia de para algo ou alguém ser sagrado, ele deve ser cultuado, idolatrado. Assim aquele objeto, animal, planta ou pessoa ganharia uma dimensão sagrada e/ou divina[5]. No entanto, a noção de culto proposta por Gaiman embora seja inspirada no contexto midiático, ainda assim ela é diferente. Antes de explica-la, vejamos alguns significados para o conceito de culto. A concepção da palavra culto mudou ao longo da História, recebendo outros significados, mas no âmbito religioso, trata-se de um rito de adoração. Vilhena (2005) explica que a palavra rito pode se referir a ações tanto de caráter religioso quanto laico. No âmbito religioso, o culto consiste em ritos pelos quais as pessoas através de distintas ações como orar, rezar, cantar, participar de cerimônias, ofertar oferendas, sacrifícios, participar de peregrinações, ou até mesmo pintar ou esculpir imagens ou símbolos religiosos, estejam adorando algum deus, divindade, espírito, antepassado, etc.

Mircea Eliade (1972, 2001) sublinhava em alguns de seus livros que o culto religioso sendo uma forma de rito, não teria apenas uma função de prestar veneração aos deuses, espíritos, divindades, etc. mas seria também um meio pelo qual as pessoas se conectariam com o sagrado, o divino, com esses seres sobrenaturais. O rito segundo sua perspectiva fenomenológica, consiste no meio pelo qual mitos cosmogônicos[6] são recriados e um elo entre o mundano e o sagrado ocorre. Logo, as pessoas no ato de participar de cerimônias, peregrinações, danças, cantos, dramatizações, etc. os quais estejam relacionados a intuitos religiosos, se sentem conectados com o sagrado, estando assim venerando seus deuses, prestando-lhe agradecimento, ou solicitando algo, ou recebendo suas bênçãos.

Todavia, a palavra culto não deve ser confundida com religião. Nesse caso, Thomas O’Dea (1969) comenta que religião normalmente é percebida como uma estrutura que envolve ritos, sacerdócio, dogmas, doutrinas, crenças, instituições, regras, etc. O culto estaria incluso entre as práticas de uma religião. Entretanto, o autor sublinha que realizar o culto a determinada divindade, não implica em criar uma religião, pois o culto em seu conceito mais simples, é a veneração de algo ou alguém a nível do sagrado. Assim, o culto não precisa ser institucionalizado ou padronizado. Uma pessoa que ora solitariamente para algum deus ou espírito, está realizando um culto. Esse pode ser algo privado ou público, institucionalizado, padronizado ou informal.

Por tal viés, o culto dado aos antigos deuses como comentado por Gaiman, era algo pessoal, individual e público. Por sua vez, o culto aos novos deuses é algo informal, desinstitucionalizado, dessacralizado, individual, grupal e até inconsciente, pois as pessoas não percebem que estão cultuando aquelas coisas que por um momento nem se imaginaria que fossem novos deuses.

No seriado em um breve diálogo entre o Garoto Técnico e a deusa Bilquis[7], o novo deus encontra a velha deusa no meio da rua, maltrapilha. Ele zomba dela, dizendo que ela tem que se esconder da guerra dos deuses, pois é uma divindade fraca, além de que para sobreviver atua como prostituta, mendigando culto de seus clientes. Essa cena é diferente no livro, apesar que o comentário do Garoto Técnico seja similar. No caso da série, o Garoto oferece um smartphone para Bilquis, dizendo que ela poderia encontrar naquela tecnologia uma nova forma de ser cultuada. Pelo que parece, através do smartphone, Bilquis teria acesso à internet, e assim a pornografia, encontrando outro meio de ser cultuada, alcançando muitas pessoas, pois os deuses dependem de quantidade de fiéis para sobreviver.

A atriz Yetide Badaki interpreta Bilquis, deusa africana fictícia associada com a sexualidade e a fertilidade. 
Essa ideia é pertinente, pois no livro e no seriado, Bilquis atrai seus clientes para que eles ofereçam dinheiro e sacrifiquem sua vida a ela. Algo bem marcante, pois o dinheiro do pagamento pelo programa sexual e depositado debaixo de uma estátua que representa a deusa, logo, o dinheiro serve como oferenda. Por sua vez, durante o ato sexual, Bilquis induz os homens a adorarem, declararem seu amor por ela, louvarem sua beleza e sensualidade, antes de sacrificá-los. E através desse sacrifício ela rejuvenesce e mantém sua existência.

O deus Odin[8] conta no livro, que no passado recebia guerreiros enforcados em árvores, como sacrifício. O deus Czernobog[9] comenta que animais eram sacrificados para ele, em colinas. O deus Anansi[10] quando aparece a primeira vez no livro, se encontra numa cafeteria, estava deprimente. Ele durante a conversa com Shadow, Odin e Czernobog fala a respeito de seu passado na África. Anansi conta que nos dias antigos, quando ele era bastante cultuado, as pessoas lhe davam comida e bebida, e até uma mulher para que ele mantivesse relações sexuais. Porém, no presente, isso não ocorria da mesma forma. Então toda oferenda por menor que fosse, ele tinha que aceitar para sobreviver.

No seriado temos alguns exemplos novos de culto. O deus Vulcan, personagem criado especialmente para a série de televisão, é o deus das armas de fogo. Em determinada cena onde Wednesday conversa com Vulcan, o deus das armas diz que cada tiro disparado seria como um louvor para ele.

O ator Corbin Bersen interpretou o deus Vulcan, personagem criado especialmente para o seriado. 
Em dado momento do livro, a deusa Media diz que a televisão era o seu altar. Os americanos passavam horas e horas, todos os dias, ao longo do ano, dedicando suas vidas a ficar sentados no sofá vendo televisão. Para Media o ato dos americanos fazerem isso seria algo ritualístico. E de fato até pode ser entendido assim, pois o rito não precisa ser algo religioso, ele pode ser laico. Nesse sentido, Gaiman brinca com as especificidades do conceito rito, ao tornar o ato de assistir televisão algo tão rotineiro ao ponto de criar um culto informal a mídia, o que levou ao surgimento de uma deusa.

Ao longo do livro o autor mostra a partir principalmente da fala dos antigos deuses essa noção de culto, ao ponto das velhas divindades dizerem que a vida dos deuses depende dessa atenção sagrada, pois quando um deus deixa de ser cultuado, ele é esquecido, e o esquecimento é a morte final. Assim, Gaiman cria a noção de que os deuses somente são imortais enquanto permanecerem na memória e na vida das pessoas, pois, no momento que essas divindades perdem seu valor, seu atrativo, sua importância, elas começam a ser esquecidas até que no fim desaparecem, morrem.

No livro, o autor apresenta alguns casos de deuses antigos que foram esquecidos e acabaram morrendo, inclusive Gaiman comenta que até novos deuses como o deus das estradas de ferro foi esquecido, depois que os automóveis e aviões se popularizaram e passaram a atrair o fascínio do povo americano[11]. Mas além do esquecimento, os deuses também podem morrer de outras duas formas: serem assassinados por outros deuses, algo que ocorre durante a guerra entre eles, ou cometerem suicídio. Entretanto comentemos sobre a questão da memória, história e esquecimento.

Memória e história não são sinônimos. Embora a história faça uso da memória para estudar e conhecer o passado, a memória por si só não é história. Historiadores como Jacques Le Goff (1990) e Antoine Prost (2008) são alguns nomes que abordaram essa relação de história e memória, salientando que enquanto a história consiste num pensamento ordenado, estruturado, verificável, temporalizado, contextualizado e criticado, a memória consiste na recordação[12], geralmente de acontecimentos pessoais e individuais, pautados na vivência e convivência do indivíduo em sociedade, que pode resultar em uma memória coletiva, tomando aqui a ideia de Halbwachs (1990), ao dizer que nossa memória é compartilhada com aqueles que convivemos, pois a sociabilização do ser humano, nos leva a compartilhar ideias, acontecimentos, experiências, situações, impressões, etc. 

Partindo dessa breve noção de memória, na obra de Gaiman, o autor aborda a memória no sentido bem menos complexo, simplificando-a como sendo a condição de recordar e gravar informações. Nesse aspecto, os deuses somente continuam a existir enquanto as pessoas pensam, acreditam e se lembram deles. Logo, Gaiman trabalha com a memória diretamente no sentido da lembrança presente. Aquela recordação que nos acompanha rotineiramente. E essa memória se liga a crença nos deuses, pois enquanto as pessoas oram a eles, fazem oferendas, recorrem a sua ajuda, pensam em seus nomes, eles continuam a existir. Eles se alimentam dessa fé.

Voltando ao conceito de memória coletiva de Halbwachs ele nos é interessante para perceber que a crença nos deuses como apresentada por Neil Gaiman, depende do indivíduo, mas também da sociedade. Pois caso o indivíduo morra, sendo ele o último crente em determinada divindade, essa divindade perecerá com o fiel. Uma passagem do livro interessante para perceber isso é quando Odin fala sobre como os antigos deuses chegaram a América:

"Quando as pessoas vieram para a América, nós viemos junto. Elas me trouxeram, e trouxeram Loki e Thor, Anansi e o Deus Leão, leprechauns e cluracans e banshees, Kubera e Frau Holle e Ashtaroth, e trouxeram vocês. Viemos na mente delas e fincamos raízes. Viajamos com os colonos até o Novo Mundo do outro lado do oceano. “A terra é vasta. Pouco tempo depois, nosso povo nos abandonou, passou a nos tratar apenas como criaturas do Velho Mundo, como algo que não os havia acompanhado até sua nova vida. Nossos verdadeiros fiéis morreram ou pararam de acreditar, e nós, perdidos, assustados e desamparados, fomos obrigados a sobreviver com qualquer resquício de adoração e fé que encontrássemos. E a sobreviver da melhor forma possível". (GAIMAN, 2016, p. 139-140).

O ator Orlando Jones como o deus Anansi ou Sr. Nancy, antiga divindade africana. 
Por isso os antigos deuses procuram conquistar novos crentes, pois com o tempo os imigrantes foram abandonando a fé de suas terras natais. Nota-se aqui o papel da memória coletiva para preservar essas crenças, pois estamos falando de divindades que ao chegarem aos Estados Unidos estavam apartadas de suas antigas religiões. Esses deuses e outros seres sobreviveram em meio a cristianização dos Estados Unidos, como resquícios da fé dos imigrantes. Aqui sublinha-se o fato que Gaiman ignorou a existência de seitas e religiões neopagãs que ainda cultuam deuses nórdicos, celtas, egípcios, etc. Assim, ele diz que os antigos deuses sobreviveram na marginalidade, tendo que viver como seres humanos e sendo cultuados individualmente por imigrantes e seus descendentes.

Um novo tipo de crença

Nas páginas anteriores fomos apresentados a noções sobre os conceitos de Totemismo, Culto e Memória, as quais se unem a visão religiosa concebida pelo escritor britânico Neil Gaiman para um de seus livros mais populares, Deuses Americanos, um enredo sobre mitologia, fé, ceticismo, conspirações, trapaças, aventuras e crimes pelo interior oeste dos Estados Unidos. No entanto, uma questão central ainda a ser comentada, diz respeito ao fato que quando Gaiman decidiu escrever sobre novos deuses, os quais dão título ao livro, eles os imaginou a partir da cultura americana. Para isso, ele decidiu tomar alguns estereótipos americanos como o gosto por televisão, internet, carros, armas, dinheiro, fama, conspirações, etc. Essencialmente os novos deuses são frutos do consumismo americano e seu apego a vida material. Sobre isso, Odin durante a reunião dos deuses proferiu o seguinte comentário:

Deuses novos estão ganhando força nos Estados Unidos, agarrando-se a focos crescentes de fé: deuses do cartão de crédito e da rodovia, da internet e do telefone, do rádio, do hospital e a televisão, deuses do plástico e do bipe e do neon. Deuses orgulhosos, criaturas gordas e estúpidas, envaidecidas com a própria novidade e importância. (GAIMAN, 2016, p. 140).

Nota-se pela fala do personagem Odin como os “deuses americanos” são frutos de tecnologias, máquinas e estruturas, as quais são endeusadas pelos americanos. O interessante é que se retomarmos ao conceito de totemismo, onde lemos que totens poderiam ser feitos de distintos materiais como madeira, pedra, metal, dentes, ossos, etc. na fala de Odin, esses novos deuses são feitos de plástico, bipe e neon, o que pode ser entendido como os novos materiais totêmicos.

Além disso, em outras passagens do livro notamos como esses estereótipos culturais e ligação com o consumo se encontram presentes. Durante a guerra dos deuses, Shadow Moon viu antigos e novos deuses. O narrador descreve alguns dos antigos deuses e cita os seus nomes, mas no caso dos novos deuses ele não diz os seus nomes, mas os descreve:

"E também reconheceu os novos. Viu alguém que só podia ser um barão das estradas de ferro, com um terno antiquado e a corrente do relógio esticada por cima do colete. Tinha ares de quem já vira dias melhores. A testa tremelicava em movimentos involuntários. Via os grandes deuses cinzentos dos aviões, herdeiros de todos os sonhos de viagem mais pesada que o ar. Os deuses dos carros também estavam lá, um contingente poderoso, todos muito sérios, com sangue nas luvas pretas e nos dentes cromados". (GAIMAN, 2016, p. 507).

Percebe-se nessa descrição dos novos deuses como Gaiman alude o deus das estradas de ferro ao estereotipo do magnata americano do final do XIX e começo do XX, trajando seu terno preto, assim como, refere-se aos deuses dos aviões como sendo cinzentos, pois antes de se popularizar a cor branca para os aviões, eles eram pintados de cinza. Por fim, os deuses dos carros são retratados como valentões usando luvas pretas referentes a usadas por pilotos, e dentes cromados, como referência ao cromo usado nos para-choques dos automóveis.

O outro exemplo comentado ocorre em um diálogo entre a deusa Media e Shadow, onde a deusa diz que:

"Você precisa entender meu ponto de vista, Shadow: nós somos a próxima moda. Somos shoppings, enquanto seus amigos são atrações fajutas de beira de estrada. Olha, somos até lojas virtuais, enquanto seus amigos estão sentados no acostamento vendendo frutas de pomar caseiro em uma carroça. Não, eles não chegam nem a vendedores de frutas. Eles vendem chicotes de cocheiros. Consertam corseletes de osso de baleia. Nós somos o agora e o amanhã. Seus amigos não são nem mais o ontem". (GAIMAN, 2016, p. 174).

Por essa citação podemos fazer um paralelo com o que foi comentado no início do tópico anterior, onde observou-se que Gaiman utilizou a ideia de ídolos da cultura pop como paralelo ao culto religioso. Na fala de Media isso fica bem explicito quando a ela diz que os novos deuses são a moda da vez, da modernidade, a tecnologia, o progresso e o futuro. Isso é bem claro quando ela compara os novos deuses como shoppings e os velhos deuses são pequenos comerciantes de beira de estrada. Aqui nota-se não apenas a ideia de dualidade entre antigo e novo como comentando por Marin (2014), mas também a noção consumidora da sociedade americana, pois parte dos novos deuses surgem desse afã pelo consumo de serviços, produtos, veículos e viagens. 

Nesse ponto, Stephen Hunt (2003) comenta que na esteira do movimento da Nova Era (New Age) que uniu crenças espirituais, religiosas, esotéricas, paranormais, pseudocientíficas, filosóficas, medicina alternativa, política, etc. com questões culturais e ideológicas em voga no país e no mundo nas décadas de 1960 e 1970, ele assinalou que essas seitas, grupos e movimentos se embasavam em alguns casos em aspectos culturais da sociedade americana daquele período.

Por tal viés podemos fazer uma analogia com o livro Deuses Americanos, pois em seu prefácio, Gaiman diz que ao escrever esse livro ele procurou apresentar aspectos da sociedade americana, e tais aspectos se basearam no estilo de vida americano, destacando-se o apego a bens materiais e a dependência do entretenimento televisivo e da internet. No caso da internet essa não ganhou tanto destaque na época da publicação do livro, pois o acesso a computadores e a rede mundial ainda não era tão generalizado como atualmente. Todavia, no seriado esse fator já é mais perceptível. Assim, com base na cultura americana durante o período de transição entre os séculos XX e XXI, Gaiman criou um novo tipo de fé: o culto as coisas. A divinização do dinheiro, máquinas, estruturas, objetos, dinheiro, fama, entretenimento, etc. Fator esse que fica claro na fala de Odin, destacada nas páginas anteriores, onde ele fala de deuses do cartão de crédito, telefone, televisores, internet, hospitais, estradas, etc.

Hoche Marin (2014) em seu artigo sobre a sacralização da ciência em Deuses Americanos, observa como Neil Gaiman valeu-se da ideia de substituir a fé em seres sobrenaturais e mitológicos por uma fé pautada nos “milagres tecnológicos”. Esse novo tipo de fé é diferente daquela fé religiosa, mas ainda mantém inconscientemente um apego a expectativas, anseios, confortos, acolhimento e desejos. Diante de uma população cada vez mais secularizada como comenta Marin, as pessoas acabam dando atenção mais a questões e coisas do dia a dia do que a divindades. Sendo assim, essa atenção que no livro é representada pela ciência e seus desdobramentos tecnológicos assume o papel antes atribuído a deuses, espíritos e divindades.

Ao invés de recorrer a tais seres para se curar, a pessoa vai a um hospital. Ao invés de sonhar em voar e nunca conseguir isso, você pode viajar de avião. Ao invés de orar aos deuses pedindo por um lá bom, seguro, uma fonte de água limpa, lenha para a fogueira, uma brisa refrescante para os dias quentes ou um calor aconchegante para noites frias, você pode desfrutar de água encanada, energia elétrica, sistema de refrigeração ou aquecimento, serviços de entrega de alimentos ou outros produtos. Tudo proveniente das comodidades do século XXI. Marin (2014) comenta que esse uso da tecnológica, do comércio, da ciência, etc. em suprir nossas necessidades diárias levou a falta de preocupação das pessoas em recorrerem as divindades para solicitar isso.

É preciso salientar que embora Neil Gaiman não tenha concebido o culto aos novos deuses como um novo tipo de religião, ainda assim, essa percepção pode ser pensada a partir dos Novos Movimentos Religiosos (NMR). Rodrigues (2008) comenta que em alguns casos apesar de que um NMR apresente ideias espiritualistas ou religiosas, ele necessariamente não opera como uma religião convencionalmente que conhecemos, seu foco se dá mais em instruir “filosofias de vida”, levando as pessoas a adotarem determinados hábitos que podem implicar ou não em crenças espirituais sobre Deus, deuses, vida após a morte, alma, etc. ou podem apenas figurar no campo social, onde os crentes adotam posturas de comportamento e hábitos de vida, que visam alcançar o bem-estar, paz, harmonia, prosperidade, sucesso, etc. Nesse ponto, Rodrigues (2008) também comenta que essa tendência gera uma banalização que repercute na condição que as pessoas já não sabem estabelecer com mais clareza se seus atos e ações são meramente mundanos ou apresentam algo que pode ser considerado religioso.

Em Deuses Americanos como comentado anteriormente, a deusa Media conversando com o protagonista Shadow Moon, diz que a televisão era o seu altar. Que a ação dos americanos, sozinhos ou em grupo, em assistirem televisão diariamente, as vezes passando várias horas por dia fazendo isso, tornou-se um rito não percebido por esses, onde Media era adorada, pois as pessoas eram cativadas por aquele mundo da televisão, vivenciando realidades e experiências diversas, que em geral as agradavam, pois Media costuma focar em novelas, programas de auditório e comerciais, os quais atraem a atenção do público americano. Dessa forma, a população ao almejar a fama, o sucesso, a riqueza, ou os produtos apresentados, elas tornam o consumo num vetor para adorar a mídia, que na obra torna-se uma figura sacralizada e ganha a forma de uma divindade.

Essa obsessão de parte da população, gera uma crença que para Gaiman é equivalente a uma crença religiosa. Por isso o papel de culto por ele destacado. Pois segundo sua perspectiva, os deuses somente existem porque há quem acredite neles. Além disso, os deuses são invenções das necessidades humanas. Rodrigues (2008) comenta que um dos fatores que levou ao grande surgimento de novos movimentos religiosos foi a condição de pessoas estarem com a sua fé abalada em outras religiões ou não terem um apego espiritual, logo, começou a se criar seitas, grupos e religiões alternativas aos modelos tradicionais como o Cristianismo, Islão e Budismo. Esses modelos alternativos se revelam atrativos e oriundos a partir de determinados públicos alvos, pautados em discursos menos dogmáticos, conservadores, restritos (embora alguns apresentem restrições), além de que em alguns casos, eles apresentem uma preocupação mais imediata com a vida presente, do que uma preocupação futura relacionada a doutrinas soteriológicas.

Quando retomamos o caso da deusa Media, a qual é um dos melhores exemplos descritos por Gaiman, tanto no livro, quanto na série, a deusa em suas conversas com Shadow tenta convencê-lo a abandonar os antigos deuses e se unir aos novos deuses. Ela promete sucesso, riqueza e poder. Algo que lembra o discurso propagandístico visto em novelas, filmes e séries, que se tornam modelos para expectativas de vida, de forma a se tornar um ideal cobiçado por algumas pessoas, ao ponto de até ser encarado como um padrão para o sucesso de vida. Pois ao invés de se preocupar com a vida espiritual e a salvação futura, essas pessoas se preocupam com o agora, com a vida mundana. Com a expectativa de conquistar seus sonhos e suas realizações de vida não num mundo transcendental e invisível, mas na presente realidade. (Adorno, 2009).

Mas além da deusa Media, o deus Garoto Técnico (Technical Boy) também apresenta uma percepção similar ao que vem sendo comentado a respeito das influências culturais e da mudança de perspectiva de uma vida espiritual, para uma vida terrena e consumidora. Essa divindade que é a segunda mais expressiva entre os novos deuses, foi inspirada em estereótipos sociais. Originalmente o Garoto Técnico como descrito no livro e representado nos quadrinhos, é um jovem grande, gordo, com várias espinhas, e que anda numa limusine e fuma cigarro sintético. Ele representa o nerd gordo fissurado em computadores, mas que em dado momento acabou enriquecendo por causa disso. Por sua vez, no seriado, o Garoto Técnico é baixo e magro, e incorpora o visual e estilo de um jovem youtuber pretensioso, arrogante e esnobe, que recentemente ficou rico e popular.


O O ator Bruce Langley como o deus Garoto Técnico, o qual representa o deus da internet. 

No seriado, o Garoto Técnico comenta que os smartphones são considerados sendo totens modernos. Ele que representa a divinização dos computadores e da internet, diz que cada americano carrega um celular, o seu totem pessoal que concede oferendas a ele. Pois os americanos gastam horas diariamente acessando sites, blogs, redes sociais, e-mails, etc. ou simplesmente navegando na internet, a qual se tornou a oitava maravilha do mundo, ao ponto que no livro, a internet devido ao seu alcance global e de limites desconhecidos, tornou-se uma entidade senciente e consciente, um deus digital, que incorpora no estereótipo do jovem aficionado por essa tecnologia.

Dessa forma os novos deuses apresentam-se como oriundos da desconhecida noção do ser humano em adorar coisas e tecnologias, dedicando seu tempo, atenção e vida ao ponto de como estivessem dependentes daquilo. No entanto, não são apenas as novas divindades que se manifestam através da ciência ou de outras práticas culturais que personificam os costumes americanos, os próprios deuses antigos tiveram que se adaptar a esse novo estilo de vida.

Odin tornou-se um trapaceiro e golpista que vive viajando pelo país, aplicando seus golpes. Czernobog passa seus dias fumando, tomando café e lendo jornais e revistas, enquanto vive sua aposentadoria enfadonha e monótona, pois ele conta a Shadow que sente falta de seu emprego no abatedouro. Bilquis atua como prostituta. Anansi não possui sua ocupação definida com clareza, embora que no seriado ele seja representado como um alfaiate. Mas no caso do livro, os senhores Íbis e Jacal (Jacquel), os quais representam os deuses egípcios Thot e Anúbis[13], são donos de uma funerária no Cairo, cidadezinha em Illinois. O interessante é que dos antigos deuses apresentados, apenas esses dois têm seu ofício detalhado e trabalham honestamente.

Takehana e Silva (2015) comentam que os dois deuses egípcios surgem como uma espécie de critica ao sistema capitalista, pois o sr. Íbis explica que a pequena funerária deles oferece um serviço diferenciado, com o qual trata os mortos com dignidade, diferente das grandes companhias fúnebres que sepultam ou cremam os mortos de qualquer forma, tratando-os como um serviço de que deve ser despachado. Assim, a funerária de Íbis e Jacal se mostra preocupada com o lado emocional e espiritual daqueles que o procuram.

Mas se por um lado, os deuses Thot e Anúbis procuram manter suas funções outrora religiosas, agora disfarçadas em uma funerária, procurando conceder um desfecho mais ou menos digno aos mortos, em contraparte a indústria funerária que segundo eles, não se preocupa com isso, a deusa Easter, divindade germânica da primavera, que passou a ser associada com a Páscoa, no livro ela aparece brevemente, porém, no último episódio da primeira temporada de Deuses Americanos, a deusa tem um papel mais significativo. No caso da série, a deusa diz que para poder sobreviver teve que adotar a Páscoa comercial com seus ovos de chocolate e coelhinhos brancos, como forma de ser lembrada, pois as pessoas de hoje em dia não se recordavam dos antigos ritos e da crença que ela no passado era uma divindade da primavera. Embora que o ato de dar ovos durante essa época, seja um rito de origem pagã.

Aqui sublinha-se um fato interessante. Dos antigos deuses apresentados por Neil Gaiman, apenas Easter é que se utiliza do consumismo da cultura contemporânea para poder sobreviver. Ao se associar com a Páscoa comercial a deusa é lembrada não necessariamente por quem ela era, mas pelo que se tornou: um produto comercial baseado em doces que são dados como presente, que no caso representam as oferendas que em nome da Páscoa, são ofertadas em sua memória. Apesar que para Judaísmo e o Cristianismo a Páscoa possua uma importância religiosa, mas no livro esses dois casos não foram considerados pelo autor[14].

Algumas considerações:

Nesse breve estudo procuramos analisar com as noções religiosas de totemismo e idolatria foram utilizadas e adaptadas pelo escritor Neil Gaiman na composição de seu livro, Deuses Americanos (2001), o qual nos traz uma narrativa de viagens, trapaças, perseguições, fugas, suspense, solidão, companheirismo, etc. que se une ao conflito entre os antigos e novos deuses.

Neste caso, procuramos analisar com Gaiman a partir da cultura americana concebeu esses novos deuses, baseados em objetos, veículos, produtos, estruturas, em suma, Gaiman transformou a tecnologia em algo digno de ser cultuada. Um culto inconsciente que gerou deuses que representam o dinheiro, o automóvel, o avião, o trem, a televisão, o telefone, a internet, as armas, as rodovias, as conspirações, etc.

Gaiman em seu relato revela como os cartões de crédito, as armas, os veículos e outros aparelhos se tornaram os totens do século XXI, pelos quais o homem contemporâneo em sua vida secularizada e materialista, ao ponto de dedicar seu tempo, sua atenção, sua emoção, anseios, expectativas e desejos aos bens que cobiça ou consome, acaba se tornando dependentes desses para alegrar a sua vida. Ao invés de termos deuses aquém devemos nos submeter, os americanos contemporâneos tornaram-se dependentes da tecnologia, do capitalismo, do sistema, da cultura. A fé não se encontra, mas nos milagres da religião, mas nos milagres da ciência. E é essa ciência inconscientemente idolatrada, a qual de origem a deuses americanos.

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[1] Dentre as principais obras se destacam Totemism and Exogamy (1910) do antropólogo James George Frazer, Les formes élémentaires de la vie religieuse (1912) do sociólogo Émile Durkheim, Totem und Tabu (1913) de Sigmund Freud, The origin of Totemism (1916) do antropólogo Franz Boas, The sociological theory of Totemism (1929) do antropólogo Alfred Radcliffe-Brown, Le Totémisme aujourd'hui (1958) de Claude Lévi-Strauss.
[2] Palavra latina que significa espírito. Segundo o Animismo, conceito concebido pelo antropólogo Edward Burnett Tylor (1832-1917), as religiões somente se formaram com o desenvolvimento social, urbano e cultural, passando assim a surgir os primeiros politeísmos. Antes disso, não haveria religiões, pois para esses "primitivos", a ideia de sagrado e sobrenatural era vaga e demasiadamente abstrata. No caso, Tylor dizia que esses povos adoravam espíritos (anima) na natureza, os quais os consideravam como seus antepassados, pois para eles, o sol, a lua, as estrelas, o céu, a terra, água, fogo, vento, animais, pessoas, plantas, etc. todos possuiriam uma anima, a qual viajava por um mundo espiritual, e poderia transmigrar para outros corpos ou se contatava através de algumas práticas mágico-religiosas. (Durkheim, 2000).
[3] Malinowski em Magic, Science and Religion (1948), comentava que o Totemismo era visto tendo dois lados: um lado religioso relacionado a ritos, magia, devoção e culto; e um lado social, relacionado à identidade, comportamento, reverência, etc. Por sua vez, Radcliffe-Brown em Structure and Function in Primitive Society (1952), comentou que em alguns casos os totens possuíam uma função mágica, de proteção e até de identidade pessoal ou coletiva. E necessariamente a magia não estava totalmente ligada a religião. O autor comenta casos de totens pessoais que eram criados ou concedidos a determinadas pessoas da comunidade pelo reconhecimento de seu valor.
[4] No seriado a deusa assume a forma de Marylin Monroe e David Boyer, grandes ídolos do cinema e da música.
[5] No campo religioso isso pode ser interpretado pelas noções de animismo, totemismo, fetichismo, etc.
[6] Mitos cosmogônicos referem-se as narrativas que falam sobre a origem do universo, mundo, deuses, pessoas, animais, plantas, lugares, sentimentos, crenças, ideias, etc. (Almeida júnior, 2014).
[7] Bilquis não é uma deusa real. Consiste numa divindade africana inventada por Gaiman, que representa o amor, sexualidade, fertilidade e fecundidade. O nome Bilquis é uma referência a Rainha de Sabá, mencionada no Antigo Testamento e no Corão.
[8] Principal divindade do panteão nórdico. Era o rei dos deuses, estando associado com a guerra, a nobreza, a autoridade, a sabedoria e a magia. Todavia, em algumas narrativas Odin era conhecido por agir disfarçado, vivendo entre os homens, ajudando ou enganando. (Langer, 2015). No livro, Gaiman focou mais esse aspecto mundano do deus nórdico, pois Odin surge como um golpista ardiloso.
[9] Trata-se de uma divindade eslava cujas funções originais são pouco conhecidas. Seu nome significa literalmente o “deus negro”, como forma de diferenciar de seu irmão gêmeo Bielobog “deus branco”. As principais referências a Czernobog advém de autores cristãos que o associaram com Satanás. Porém, os estudiosos assinalam que Czernobog fosse uma divindade associada com os mortos, à noite, a violência. Mas não sendo exclusivamente maléfico como Satanás. (Znayenko, 1980).
[10] Divindade da África Ocidental, oriunda em época desconhecida, suas histórias se espalharam por vários lugares, sendo levadas para o Caribe e Antilhas pelos escravos africanos. Anansi costuma se transformar numa aranha. É uma divindade trapaceira e que possui uma lábia persuasiva. No livro Anansi é falastrão e em dados momentos gosta de se exaltar narrando seus feitos, que em geral implicam em história bem-humoradas de como ele conseguiu enganar alguém ou resolveu algum problema. (Lynch, 2004).
[11] Esses três deuses são citados brevemente e não recebem nome. No livro, Gaiman embora cite a existência de vários novos deuses, ele enfatiza apenas em três novos: Media, Garoto Técnico e Sr. World.
[12] A noção de memória é mais ampla, adentrando o campo da neurologia, psicologia, sociologia, arquivística, etc. pois memória também pode se referir a suportes materiais ou digitais utilizados para a gravação de informações, como salienta Le Goff (1990). Além que memória também consiste num estilo de narrativa pessoal associada com a escrita diarística.
[13] Thot era o deus da sabedoria, magia, escrita, etc. Já Anúbis era o mensageiro dos mortos e do deus da mumificação. (Lynch, 2004). No livro é o senhor Jacal que prepara os defuntos para o funeral, enquanto o senhor Íbis administra o negócio ou dirige o carro da funerária.
[14] Na entrevista publicada como material extra para a edição de 2016 de Deuses Americanos, Gaiman conta que pretendia pôr Jesus Cristo em sua história, tendo escrito até um diálogo dele com Shadow Moon. Porém, devido as mudanças que ele realizou no enredo, não viu espaço para manter esse peculiar encontro. Todavia, no seriado, o episódio 08 é intitulado Come to Jesus, apresentando vários Jesus Cristos. Sendo que um deles conversa com Shadow.