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Leandro Vilar

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Uma história da literatura de ficção científica

Como a literatura de ficção científica é bastante ampla, optei em escolher alguns livros mais conhecidos e que causaram impacto nesse gênero literário. No caso, a proposta desse texto foi comentar quando esse tipo de literatura surgiu e foi se desenvolvendo até o presente. Para isso optei em descrever o trabalho de alguns autores e suas obras, os quais foram fundamentais para o desenvolvimento da ficção científica literária, que por consequência influenciou os filmes de ficção científica e as histórias em quadrinhos. Embora as hqs também sejam literatura, mas optei em deixá-las de fora por demandar mais estudo e pesquisa para falar sobre elas.

Origem do conceito: 

Ainda hoje não há um consenso de quais obras seriam consideradas as primeiras produções de ficção científica devido ao problema que esse conceito é uma invenção do século XX. No ano de 1926, o escritor, editor e inventor Hugo Gernsback (1884-1967) no volume 1 da revista Amazing Stories, periódico que ele ajudou a criar, Gernsback na matéria intitulada A New short of Magazine, que consistia numa apresentação da nova revista, ele apresentou o conceito "cientificação", posteriormente renomeado para ficção científica. Naquela ocasião, Gernsback considerava que as obras de Júlio VerneH. G. Wells e Edgar Allan Poe fossem os antepassados da literatura de ficção científica. No caso é preciso salientar que quando Hugo Gernsback produziu seu conceito e fundou sua revista, ele já trabalhava em histórias científicas e o gênero da ficção científica já existia há vários anos na literatura, nos quadrinhos e no cinema, embora não tivesse um termo específico para se referir a ele. 


Capa da primeira edição de Amazing Stories, abril de 1926. Arte de Frank R. Paul. Na imagem acima temos uma versão assinada por Gernsback, datada de 1965. 
O conceito proposto por Hugo Gernsback com o tempo foi sendo adotado, e novos sentidos foram lhe acrescido, por outro lado, nas primeiras edições da Amazing Stories, Hugo publicou contos, adaptações e histórias de Verne, Wells, Poe e outros autores, os quais ele considerava como sendo os fundadores do gênero da ficção científica. A revista nas décadas seguintes contribuiu para popularizar a ficção científica.

Em 1947 o professor de literatura James Olser Bailey (1903-1979), o qual propôs que uma narrativa somente poderia ser considerada uma obra de ficção científica se ela trouxesse o emprego de tecnologias, experimentos e teorias pautados nas ciências naturais. Tais condições poderiam ser relativas a tecnologia existente ou ficcional, mas a narrativa teria que dar foco a essa condição científica, não tornando a ciência apenas elemento de figuração na trama. 

Também no mesmo ano, o escritor Robert Anson Heilein (1907-1988), prolifico autor de ficção científica, Heilein concebia esse gênero como o uso da ciência para conceder explicações aos fenômenos apresentados na trama. Se em outros tipos de histórias temos o sobrenatural, o fantástico e o mágico operando, concedendo respostas, habilidades, poderes, etc. aos personagens, uma obra de ficção científica deveria ter a ciência representante dessa função, fosse a ciência real ou inventada. 

A ideia de Heilein influenciou várias outras definições, mas gerando alguns problemas de interpretação. Alguns autores como Bailey, Heilein, Sturgeon, Davenport, Amis, entre outros, consideravam que somente poderia ser classificado como ficção científica a narrativa que fizesse uso de uma ciência inexistente. Para tais autores, se uma obra remetesse a saberes científicos reais, não era considerada ficção científica. 

A partir da década de 1970 alguns escritores começaram a contestar essa afirmação que ficção científica não poderia dizer respeito a ciência real. Isaac Asimov, do qual falarei adiante, considerava que ficção científica fosse qualquer trama na qual a humanidade realizaria feitos e mudanças, através do uso da ciência ou de tecnologias. O escritor Ray Bradbury (1920-2012) chegou a conceber ficção científica não apenas aquelas histórias que se fazem uso de tecnologias, veículos, equipamentos, mas narrativas as quais procuravam pensar como tecnologias reais poderiam influenciar a vida humana no futuro. Bradbury também compartilhava da ideia de outros autores anteriores de que o escritor de ficção científica teria liberdade para imaginar como seria o futuro. Não obstante, Bradbury também demonstrava interesse em questões sociais, morais, políticas e psicológicas envolvendo os saberes científicos. 

O debate sobre o conceito de ficção científica continuou nas décadas seguintes. Em 1992, John Cutle e Peter Nicholes publicaram The Encyclopedia of Science Fiction, em cuja introdução eles trouxeram o debate sobre a definição desse conceito. Não será de nosso intuito prosseguir nesse debate conceitual. Passemos adiante. 

Se o conceito de ficção científica é originário de 1926, para alguns estudiosos isso prejudica o ato de querer identificar as origens da ficção científica, pois sua ideia antecede o conceito, o que poderia ser considerado anacronismo. Por outro lado, há quem defenda que esse tipo de literatura seja oriundo do século XVIII, tendo começado a se popularizar somente na segunda metade do XIX. Porém, alguns literatos e escritores alegam que hajam trabalhos mais antigos que poderiam ser considerados como de ficção científica. 

Outro problema que reside na tentativa de definir ficção científica é que não há uma definição unânime ou oficial para se reportar a tal gênero literário. Histórias sobre robôs, monstros, viagens espaciais, viagens no tempo, extraterrestres, dinossauros, máquinas, veículos, mutantes, cidades futuristas, experimentos eugênicos, guerras biológicas, guerras nucleares, distopias, sociedades pós-apocalípticas,  realidade paralela, realidade virtual, computadores, super-humanos, super-heróis e até mesmo filmes de ação que fazem uso de armamentos e tecnologia inexistentes, podem ser taxados como ficção científica. Mais adiante comentarei sobre os subgêneros da ficção científica, de qualquer forma, as características mencionadas apresentam um leque de possibilidades para o que comumente é considerado ficção científica. 

No caso esbarramos em mais um problema: o que pode ser considerado uma história de ficção científica? Se considerarmos que ficção científica é qualquer narrativa que traga algum dos elementos supracitados, então as categorias de obras de ação, aventura, fantasia, thriller, suspense, romance, terror, horror, etc. vão por terra, pois, no século XX e XXI é comum que elementos científicos irreais sejam usados comumente nesses livros, filmes, desenhos e jogos. 

Por exemplo, peguemos o livro Cassino Royale (1967), escrito por Ian Flemming, consiste na primeira missão de James Bond. Nesse livro, em dados momentos Bond utiliza aparatos tecnológicos de espionagem, algo que ficou marcante em outros livros e nos filmes. Todavia, os livos sobre 007 são classificados como obras de espionagem, ação, aventura, mas contêm elementos de ficção científica. 

A condição de Bond fazer uso de equipamentos, veículos e tecnologia irreal poderia classificá-lo também como uma literatura de ficção científica? Para alguns autores haveria essa condição, mas para outros como Peter Nicholes, Issac Asimov e Arthur Clarke, isso não seria ficção científica no sentido de gênero literário, mas trataria-se do uso de tecnologia ficcional. No caso de Nicholes, ele até propôs na década de 1970 o termo ficção científica soft para se referir a tramas que faziam uso das ciências humanas ou de tecnologias reais ou ficcionais, mas sendo apenas condições secundárias. Diferente da ficção científica hard, a qual enfatizava mais as ciências exatas, naturais e tecnológicas. 

A proto-ficção científica: 

Diante do dilema para se definir uma obra como sendo do gênero da ficção científica, as origens da mesma ainda são algo debatido. Alguns escritores e literatos remontam os primeiros livros de ficção científica a Idade Antiga, citando autores gregos, romanos, persas e indianos para dizer que na obra deles haveria elementos referentes ao uso das ciências e de tecnologia. No caso dos mitos gregos faz-se menção ao inventor, arquiteto e engenheiro Dédalo, o qual projetou o labirinto onde ficava o Minotauro, além de ter criado asas para si e seu filho Ícaro, permitindo que pudessem voar. Outros mitos gregos também falam sobre o uso de armas e armaduras com habilidades especiais, apesar que os mitólogos tendem a entender isso mais por uma perspectiva de magia, do que de ciência propriamente. 

Os que defendem essa perspectiva de uma proto-ficção científica bem antiga, citam também obras como o Mahabaratha, épico indiano em poesia, que fala de veículos voadores chamados de vimanas, ou de palácios de metal que flutuariam. Há menção a um conto de as Mil e uma Noites onde há um cavalo de madeira que voa, chamado cavalo de ébano. Mas tais condições poderiam ser consideradas ficção científica no sentido de gênero literário? Ou seriam apenas tecnologia irreal usada para conceder tom a narrativa? Sem contar que a própria noção de ciência daqueles povos é bem diferente de hoje em dia. Para outros escritores as asas criadas por Dédalo, as vimanas e o cavalo de ébano não seriam vistos como algo tecnológico avançado, mas como algo mágico. No caso das vimanas por pertencerem aos deuses, seriam considerados veículos sobrenaturais e divinos. 

Pela condição de que uma noção de ciência ainda não estava definida e familiarizada entre o público é complicado dizer que máquinas rústicas, poções, ou até o uso de saberes astronômicos, medicinais, matemáticos, geográficos e físicos poderiam ser taxados como ficção científica. Sendo assim, eu concordo com os escritores e literatos que apontam que a ficção científica deva ser pensada a partir da Idade Moderna, pois trata-se da época que findou-se o Renascimento, desenvolveu-se a Revolução Científica e o Iluminismo, condições pelas quais alguns historiadores chamam aquele período de "Era da Razão"

Todavia, algumas ressalvas devem ser feitas. Durante a minha pesquisa, vi sites e blogs citando livros dos séculos XVI e XVII os quais falavam sobre sociedades utópicas como Utopia (1516) de Tomás Moro e Nova Atlântida (1627) de Francis Bacon como podendo ser livros de ficção científica. A meu ver não há fatores que indiquem isso de forma segura. Eu já li ambos os livros há alguns anos e até redigi um texto abordando Utopia, a questão em debate é o que Don D'Ammassa (2005) chama atenção ao dizer que hoje obras que abordem temas utópicos ou distópicos tem muita ligação com a ficção científica. A fala de Don não está errada, porém, devemos analisar o contexto. No final do século XIX e ao longo do XX e até o presente, desenvolveu-se várias histórias sobre futuros utópicos e distópicos, onde a tecnologia e as ciências seriam usadas para melhorar a qualidade de vida e as sociedades, ou gerariam desastres, guerras e outros problemas. Agora passemos para aplicar essa percepção aos dois livros citados. 

Moro escreveu seu livro como uma crítica as monarquias absolutistas de seu tempo. Utopos, o país insular que ele descreve em seu livro é uma república idílica, mas que não é fundamentada em preceitos tecnológicos ou científicos. Para mim, Utopia trata-se de uma ficção política, por descrever um Estado utópico. Por sua vez, Bacon imaginou a "Nova Atlântida" como uma monarquia idílica, pautada no humanismo, na filosofia, na ciência, nas artes e no cristianismo. O país chamado Bensalem, onde existia uma universidade chamada Casa de Salomão, era uma sociedade utópica e para Bacon, um ideal que deveria ser almejado. Lá as pessoas eram cordiais, honestas, justas, inteligentes, sábias, devotas e bondosas. O interessante da obra de Bacon é que ele unificou ciência, filosofia e religião como fatores para desenvolver uma sociedade justa, próspera e benevolente. Pela condição de Bacon incentivar o ensino científico como forma de desenvolver a razão e o conhecimento da humanidade sobre a natureza e o mundo, alguns autores veem nisso uma ideia de proto-ficção científica, pois ele concebe o uso da ciência para o melhoramento da sociedade. Em contraparte, Nova Atlântida é considerada também uma ficção política. 


A Casa de Salomão em Bensalem. Ilustração do século XVII para Nova Atlântida de Francis Bacon. 
Outra obra desse período que também é cogitada ser ficção científica é o conto Somnium (1634). A obra foi escrita originalmente em 1608, mas somente publicada postumamente. Escrita pelo celebrado astrônomo Johannes Kepler (1571-1630), esse livro conta a história de um jovem islandês chamado Duracotus e sua mãe Fiolxhilde, que após o retorno do filho, lhe conta que poderia contatar daemons (espíritos citados pelos antigos gregos), criaturas misteriosas e poderosas. Um desses daemon conta para Duracotus a respeito da ilha Levania, nome pelo qual eles se referiam a Lua. Embora no conto é dito que havia uma misteriosa estrada que conduzia até a Lua, Kepler não descreve exatamente com o transporte era feito, mas fornece descrições quanto a problemas para se viajar até lá, como o impacto do frio, o ar rarefeito e problemas para aterrissar na Lua. Na obra ele também fornece dados sobre a Lua e eclipses, além de cogitar a possibilidade de haver vida em outros planetas, algo que é comentado por outro escritores do século XVII também. Para alguns escritores trataria-se de uma proto-ficção científica por abordar a astronomia. Embora não seja unânime esse opinião. 

Outros livros produzidos nos séculos XVII e XVIII que abordavam viagens a terras fantásticas e a descrição desses lugares, como Histories comique des Estats et empires de la Lune (1657) e Histories comique des Estats et empires du Soliel (1662), The Blazing World (1666), Voyages et Adventures de Jacques Massé (1710), As Viagens de Gulliver (1726) e Micromégas (1752) são considerados proto-ficção científica. Porém, esbarramos em alguns problemas. Para a época que esses livros foram escritos, tratavam apenas de literatura de aventura, algo bastante em voga devido as Grandes Navegações, não sendo incomum haver centenas de histórias sobre cidades, ilhas, países, continentes, povos, estranhos, mágicos, exóticos, horripilantes e fantásticos. 

Nem toda obra de aventura possui necessariamente um tom científico para ser designada como ficção científica. A descrição de uma viagem à Lua feita em Somnium divide opiniões se pode chamar aquilo de ficção científica ou não. Ou simplesmente classificá-lo como um livro de aventura. Essa dúvida atribuída ao conto de Kepler, também é vista nos dois livros satíricos sobre impérios na Lua e no Sol, escritos pelo escritor, poeta e militar Cyrano de Bergerac (1619-1655). No primeiro livro o protagonista Cyrano tenta viajar a lua, usando garrafas cheias de orvalho, mas fracassa no intento, então ele cria uma máquina voadora para isso, mas também falha, até receber a sugestão de colocar foguetes na máquina, o que se revela algo certo e assim ele chega ao Império da Lua, habitado por extraterrestres de quatro pernas e com costumes estranhos. A obra satiriza aspectos políticos, sociais, morais e religiosos da época de Cyrano de Bergerac, conhecido por ter causado polêmicas com alguns de seus escritos. 


A máquina voadora de Cyrano em Histories comique des Estats et empires du Soliel (1662), em edição do século XVIII. No caso, as máquinas não tem uma descrição clara, assim, os artistas as imaginavam por conta própria. 
Já no seu segundo livro o destino agora é visitar os Impérios do Sol, mas isso não é uma missão de imediato. Cyrano (neste livro ele é chamado Dyrcona, um anagrama de seu nome) que havia retornado da sua viagem a Lua, é acusado de bruxaria e de ser mentiroso, e acaba sendo preso. Porém, sua prisão é bastante confortável e tem um terraço, além de ele ter acesso a ferramentas e materiais, com os quais constrói uma nova máquina voadora para escapar da prisão. Porém, enquanto ele voa para longe da prisão, os ventos o proporcionam para fora do planeta, levando-o em direção aos Impérios do Sol, onde ele visita pequenos planetas e conhece seres estranhos, além de encontrar pessoas, almas de filósofos e escritores e animais falantes. 

O tom satírico e fantasioso é mais visível nesse segundo livro do que no primeiro. Embora em ambos os casos o protagonista utilize máquinas voadoras para viajar até a Lua e o Sol, o tom aventureiro, satírico e fantasioso divide opiniões. Na época que o autor escreveu esses livros, não havia a ideia de ficção científica, sendo assim, Cyrano de Bergerac via suas obras mais como aventuras com elementos cômicos e satíricos. Por isso tal condição gera debates nos escritores e literatos que tentam classificá-la como ficção científica devido ao uso de tecnologia aérea. 

No caso de Blazing World de Margaret Cavendish (1623-1673), a autora descreve uma terra fantástica fora do planeta, a qual era acessível por um caminho secreto situado no Polo Norte. No caso do livro Voyages et Aventures de Jacques Massé, escrito por Simon Tyssot de Patot (1655-1738), o protagonista que vira médico de um navio chega a uma ilha paradisíaca, onde vive cinco anos, relatando o governo utópico de lá, mas não havendo menções as ciências e tecnologia. A meu ver, esses dois livros não devem ser considerados ficção científica só porque abordam temas utópicos. Como eu sublinho lá trás, nem toda utopia tem como plano de fundo o desenvolvimento científico. 

Por fim, no caso de As Viagens de Gulliver, escrita por Jonathan Swift (1667-1745), a obra mistura sátira política e social, aventura e fantasia. O elemento científico é principalmente encontrado quando Gulliver visita a ilha voadora de Laputa e a ilha de Balnibarbi. Em Laputa os habitantes usam um misterioso sistema tecnológico não descrito com clareza pelo autor, para manter a ilha flutuando, por sua vez, eles são obcecados por música, matemática e astronomia. Apesar dessas referências científicas, os laputianos são uma sátira aos intelectuais que ficam esquisitos e malucos de tanto estudar. Já em Balnibarbi, a ciência é satirizada na medida que os habitantes daquela ilha, se valem de experimentos pseudocientíficos para identificar coisas bizarras. Por tal viés, a obra de Swift é considerada contendo elementos de proto-ficção científica, além de ser uma das primeiras obras a satirizar as ciências. 


Gulliver observa a ilha voadora de Laputa. 
Já o livro Micromégas (1752) é um conto curto escrito pelo escritor e filósofo Voltaire (1694-1778), o qual imaginou mundos extraterrestres. Se considerarmos que toda história sobre extraterrestres seja ficção científica, então os livros anteriores de Kepler, Cyrano de Bergerac, Cavendish, o de Voltaire, entre outros, seriam ficção científica de fato? Isso é algo que ainda gera dúvidas e debates de definição. Porém, das obras mencionadas, a de Voltaire à luz da ficção científica é a mais interessante. 

Micromégas é um gigante e intelectual que vive num planeta que orbita a estrela de Sirius, na Constelação de Cão Maior; no começo do livro o personagem descreve seu planeta e depois apresenta seus estudos sobre botânica e insectologia, os quais são mal-vistos e lhe rendem um processo, até que concluído o julgamento ele decide abandonar seu planeta e buscar gente inteligente. Sem descrever como ele faz suas viagens, Micromégas chega a Saturno, onde conhece o Secretário da Academia de Saturno, o qual comparado a Micromégas é um anão. Ambos se tornam amigos e decidem viajar pelo espaço até chegarem a Terra, onde começam a realizar pesquisas científicas para determinar se os humanos seriam inteligentes ou não. Devido a ambos serem seres gigantescos, os humanos são vistos como insetos, aqui percebe-se a sátira de Voltaire presente na escrita. 

A obra de Voltaire é interessante e realmente apresenta elementos científicos. Seus protagonistas são cientistas, Micromégas realiza pesquisas sobre astronomia, botânica e  insectologia, além de que ele e o amigo debatem filosofia também. Temos descrição de seres extraterrestres e viagem espacial, além da visita desses seres ao planeta Terra para estudar os seres humanos. Ironicamente isso são temas recorrentes no século XX, mas Voltaire os antecipou em dois séculos. 

Outro problema envolvendo obras do século XVIII, diz respeito aos trabalhos que tentam imaginar o futuro. Poderia se dizer que toda narrativa que imagine o futuro seria ficção científica? Eu acredito que não. Por exemplo, o livro em cartas Memoirs of the Twenth Century (1733) de Samuel Madden (1686-1755), tem mais um tom diplomático e políticos, do que científico. Apesar de o autor imaginar o futuro, ele não foca nem tanto de descrever como seriam os avanços tecnológicos e científicos, mas nos relatos de diplomatas e embaixadores em outros países que se reportam a Inglaterra. 

Seguindo também essa tendência de imaginar o futuro temos o poema L'An 2440 (1771) de Louis-Sébastien Mercier (1740-1814), narra a história de um homem sem nome, que vai dormir, e ao acordar, desperta no ano 2440. Assim, Mercier descreve de forma breve algumas coisas que seu protagonista viu no futuro. A questão que embora Mercier diga que os hospitais tenham sido aprimorados com o progresso científico, em seu livro, ele não enfatiza a tecnologia e as ciências, mas prende-se a descrever mais questões de ordem social, política e cultural, dizendo que não havia mais guerras, bandidagem, prostituição, agiotassem, prisões; as pessoas não estavam viciadas em tabaco e bebida alcoólicas, ainda havia pobres, mas a separação entre ricos e pobres era menor, etc. Por mais que estes dois livros imaginem o futuro, eles não apresentam aspectos de ficção científica como alguns alegam. 

Frankenstein e a medicina sombria: 

Para muitos estudiosos da área, o século XIX é o século que originou a ficção científica, especialmente por grandes nomes como Júlio Verne e H. G. Wells, dos quais falarei adiante. Porém, eles não foram os únicos a marcar aquele período. Outras obras notórias foram escritas no século da industrialização. E uma das primeiras obras notórias do novo século foi Frankenstein ou o Prometeu Moderno (1818), obra que a jovem Mary Shelley (1797-1851), na época, com seus 18 anos, começou a escrever na Suíça, enquanto passava férias com o marido, o poeta Percy Shelley e a irmã Claire, na casa do excêntrico escritor Lord Bryon. Mary concluiu o livro ao retornar para Londres, publicando-o no ano seguinte no anonimato. O livro foi um sucesso de crítica na época, e na segunda edição, Mary assinou a autoria. 

Seu livro é considerado por escritores e literatos como um marco no século XIX para a estreia do gênero de ficção científica. Na obra, o médico suíço Victor Frankenstein obcecado em vencer a morte, realiza experimentos antiéticos, se valendo de vivificação, dissecação de cadáveres e o uso do galvanismo para criar um monstro feito de pedaços de vários corpos costurados. Através da energia elétrica gerada pelo processo de galvanização (o uso de raios advêm dos filmes), a criatura criada por Frankenstein ganha vida, mas o médico horrorizado com o rosto deformado e cheio de cicatrizes daquele ser, entra em pânico, decidindo queimar o laboratório. Mas o monstro sobrevive e decide encontrar e confrontar seu criador. 


Ilustração representando Victor Frankenstein e seu monstro. 
Sem entrar em mais detalhes, a obra aborda temáticas científicos envolvendo a medicina, a anatomia e a físico-química com o uso da galvanização, método em desenvolvimento na época, o qual Mary teria conhecido numa apresentação. Somado-se a esse lado científico, Mary introduziu uma carga dramática, moral e filosófica a sua narrativa. Na época seu romance foi considerado uma história de terror (ghost story como se referiam também), já que não havia a percepção de uma narrativa de ficção científica ainda, porém, Mary inovou ao conceder a sua história de terror, o uso da ciência de forma sinistra e indevida para se criar um monstro. Ao invés de trabalhar com monstros naturais ou sobrenaturais, ele decidiu a partir de um pesadelo que teve, criar um monstro inventado por um cientista louco. A obra de Shelley é pioneira, por ser uma das poucas obras do século XIX a abordar a medicina para fins de terror e ficção científica. 

A ficção científica de Poe: 

Embora Edgar Allan Poe (1809-1849) seja lembrado principalmente pelos seus poemas e contos de terror e mistério, sendo considerado um dos grandes autores do gênero de terror, Poe escreveu algumas obras que foram consideradas contendo tema de ficção científica. O próprio Hugo Gernsback havia sugerido isso. Pela condição de eu não conhecer a obra de Poe, no tocante a ficção científica, e ter encontrado poucas informações a respeito, vou citar aqui um conto dele que fala de uma viagem à Lua. Intitulado The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaall (1835), narra a aventura de Pfaall o qual usou um balão para voar até à Lua. Mas além desse balão revolucionário, Pfaall também inventou um sistema que transformava o vácuo espacial em ar respirável. Em sua jornada ele pousou na Lua, explorando-a e entrando em contato com seus habitantes. Poe nesse conto fornece informações geográficas e astronômicas sobre a Terra e a Lua, algumas tiradas de livros que ele consultou. 


Ilustração do balão de Pfaall para uma edição do conto de Poe. 
As aventuras de Júlio Verne: 

Júlio Verne (1828-1905) foi um escritor francês de ficção científica e aventuras. Embora seja lembrado por algumas obras clássicas da ficção científica, a maioria dos livros de Verne, consistem em aventuras. Ao longo da vida escreveu dezenas de livros, sendo ainda hoje um dos mais prolíficos escritores do século XIX e da História, tendo seus livros traduzido para mais de cem línguas. No caso falarei de quatro livros dele que abordam a temática de ficção científica, sendo também os únicos que li de sua vasta produção. 

O primeiro deles é bem famoso Viagem ao centro da Terra (1864). Apesar da fama, a ideia deste livro não é original. Desde o século XVIII já havia produções que falavam de viajantes explorando o subterrâneo, encontrando povos estranhos e monstros. No entanto, nessa obra Verne concedeu alguns aspectos científicos. O professor de geologia e mineralogia Otto Lidenbrock e seu sobrinho Axel, decifram um antigo manuscrito islandês, escrito por um erudito de nome Arne Saknussemm que diz que descobriu uma forma de descer as profundezas do planeta, através do vulcão Sneffels. O professor Lidenbrock obcecado de que tal relato era verdadeiro, convence seu sobrinho de acompanhá-lo em uma expedição até à Islândia, a fim de seguir o caminho proposto por Saknussemm. Na Islândia eles são guiados por Hans, o qual os leva até o vulcão e os acompanha pelas profundezas. 


Ilustração representando Otto Lidenbrock, Axel e Hans diante do mar subterrâneo no livro Viagem ao Centro da Terra. 
Baseado na teoria da Terra oca, a qual era cogitada desde o século XVIII, Verne redige sua obra acreditando que haveria meios de poder atingir o núcleo do planeta através de cavernas e túneis naturais. Evidentemente que naquela época Verne desconsiderou uma série de elementos naturais como as temperaturas elevadas, o aumento de pressão, a distância até o núcleo do planeta, a existência de camadas subterrâneas como o manto feito de magma, etc. De qualquer forma, o professor Lidenbrock acredita que seja possível chegar ao centro da Terra simplesmente descendo por cavernas. Durante a jornada, eles encontram um mar subterrâneo, uma floresta de cogumelos gigantes, dinossauros, animais pré-históricos e um hominídeo gigante. 

A obra de Verne tornou-se bastante popular, influenciando outros autores a escreverem sobre os mistérios do subterrâneo da Terra, como também é uma das primeiras obras a introduzir dinossauros e temas pré-históricos, duas coisas ainda recentes na época, pois a arqueologia e a paleontologia ainda estavam se firmando como ciências e disciplinas nas universidades. Por outro lado, a obra também se destaca por se tratar de uma expedição científica. 

Outro livro famoso do autor é a jornada de Vinte mil léguas submarinas (1870), que tornou-se outro clássico da ficção científica. Nesse livro a jornada se passa pelos mares, mas não em um navio, mas em um submarino chamado Náutilus. Submarinos já eram planejados desde o século XVI, pelo menos, embora somente a partir do XIX criaram-se modelos eficazes, e finalmente no começo do XX, eles foram até mesmo usados durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Sendo assim, baseado em concepções de submarinos do século XIX, ele concebe seu próprio submarino, que era movido por energia elétrica.

O Náutilus foi construído pelo capitão Nemo. Inicialmente pensou-se que fosse apenas uma lenda, mas após vários avistamentos e alguns problemas envolvendo suas aparições, O Nautilus foi considerado por alguns como um monstro e por outros uma embarcação de guerra ou pirata, que estava atacando navios para saqueá-los. O professor Aronnax em companhia do naturalista Conseil e do criado Ned Land, decidem investigar a respeito dessa misteriosa embarcação. No entanto o navio que eles estavam abordo foi alvejado, e os três acabam caindo no mar, sendo resgatados pelo Náutilus. O capitão Nemo oferece a oportunidade de permanecerem com a tripulação ou serem deixado no porto mais perto. 


Os personagens de Vinte mil léguas submarinas, explorando o fundo do mar. Ilustração de George Roux, 1871. 
Mas fascinados por aquele submarino, eles decidem seguir viagem, explorando o Oceano Pacífico, Índico, o Mar Vermelho, o Mediterrâneo, o Atlântico, o Glacial Antártico e o Mar do Norte, totalizando uma distância de vinte mil léguas percorridas em vários meses. Durante a longa jornada, Verne cita vários animais da fauna marinha, mesmo que ele exagere nas proporções deles, além de mencionar lugares e coordenadas geográficas. Em algumas partes ele também descreve o interior do Náutilus, detalhando aquele engenhoso submarino afrente de seu tempo. Outra parte interessante da obra, são os momentos que os protagonistas usam trajes de mergulho para explorar o ambiente, algo até então inédito na literatura e praticamente pouco realizado ainda naquele tempo. 

O terceiro e quatro livros são histórias complementares, apesar de terem sido escritas alguns anos de diferença uma da outra. Tratam-se de uma viagem a lua. Da Terra à Lua (1865) e A volta a Lua (1869). Como visto neste texto, viagens à Lua não eram novidade na literatura, já havendo obras desde o século XVII que abordavam isso, e até mesmo mitos e lendas anteriores a esse período. No caso de Verne, seus dois livros tentaram conceder um tom científico para a questão. Se nos livros de Cyrano de Bergerac seu personagem viaja ao espaço em máquina voadoras, nesse ponto Verne foi menos criativo. Em Da Terra à Lua, uma disputa proposta pelo Clube do Canhão, uma sociedade americana de admiradores de armas, propõe o desafio de construir um gigantesco canhão, o maior já construído no mundo, para atirar um projétil oco na Lua, permitindo que um tripulante pudesse chegar ao satélite.

No primeiro livro, boa parte da narrativa se desenvolve com as discussões do clube para juntar dinheiro para construir o gigantesco canhão, escolher o local onde isso seria feito, comprar e transportar o aço e a pólvora, fazer os cálculos de balísticas, entre outros preparativos. No final da história, Barbicane, Nicholl, Michel Ardin em companhia de uma casal de cães, partem ao espaço. O restante da trama é descrita em A volta a Lua. Devido a um erro de cálculo, o projétil-nave não pousa na Lua, mas entra em sua órbita. Ardin, Barbicane e Nicholl aproveitam para fazer uma descrição do satélite. 

Na obra Verne forneceu informações matemáticas, físicas e astronômicas, tornando sua viagem um relato científico. Entre os méritos do livro para além de uma descrição detalhada da superfície lunar para a época, apesar de conter elementos ficcionais, Verne curiosamente antecipa a ideia de uma capsula espacial, viagem com tripulação e até o uso de animais numa viagem ao espaço. Em 1961 o cosmonauta russo Iuri Gagarin (1934-1968) usou um tipo de cápsula espacial na primeira viagem do ser humano ao espaço. E anos antes de Gagarin, a cadela Laika (1954-1957) foi o primeiro animal a ser enviado ao espaço em 1957. Ambos os casos encontram paralelos na obra de Verne, publicada quase um século antes. 


Comparação da capsula bala de canhão dos livros de Verne, e uma capsula espacial real. A ideia de Verne apesar de bem inusitada para a época do livro, antecipou uma tecnologia real e mais de um século. 
O poder secreto do Vril: 

Histórias sobre povos vivendo no subterrâneo não são novidades, existem mitos e lendas que falam isso desde a Antiguidade. Baseando-se nessa ideia o escritor Edward Bulwer-Lytton (1803-1873) publicou seu romance de aventura The Coming Race (1871), obra que narra uma aventura inesperada de um jovem rico, que não é nomeado, o qual após sofrer um acidente em uma mina, onde seu amigo falece, ele é encontrado por seres estranhos que o narrador diz parecer com anjos, mas sem asas. Esse misterioso povo se chama Vril-ya, uma antiga civilização perdida que sobreviveu ao Dilúvio. O Vril-ya são mais inteligentes do que os humanos e possuem poderes paranormais. Além disso, sua tecnologia é mais avançada ao ponto de que o protagonista tema que um dia os Vril-ya tente conquistar a superfície. 

Aquele povo também fazia uso de um fluído misterioso que era sua fonte de energia, chamado Vril. Essa substância era engenhosamente empregada por aquelas pessoas, as quais as usavam para construir, alterar, curar e até destruir. O narrador diz que o Vril era usado para fazer funcionar estranhas máquinas e fornecer energia para fábricas. A história de Bulwer-Lytton inspirou outros autores a desenvolverem obras sobre civilizações subterrâneas e até mesmo influenciou grupos esotéricos que acreditavam na existência de seres evoluídos que viviam no subterrâneo. 

A química do mal: 

Outra obra do XIX que se tornou famosa devido a sua relação com a medicina, mas mais com a química, foi O médico e o monstro (1886), cujo título original é Strange Case of Dr Jekyll and Mr. Hyde, redigido pelo escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894), conhecido por histórias de aventura, Stevenson se aventurou no gênero terror e suspense ao redigir a história do benévolo médico Henry Jekyll e seu misterioso e feio inquilino, o senhor Edward Hyde. Embora também não tenha sido considerado uma obra propriamente ficção científica, mas uma narrativa mais puxada para o terror, o livro de Stevenson utiliza a química para justificar a origem de Hyde. 


Cartaz propaganda para O médico e o monstro. Na imagem temos Gabriel Utterson descobrindo a ligação entre seu amigo Jekyll e o sinistro senhor Hyde. 
O Dr. Jekyll atormentado pelo seu lado sombrio, buscava uma forma de tentar extirpá-lo ou controlá-lo, então decidiu usar a ciência para isso. Stevenson não dá pistas de como a fórmula foi criada ou do que seria feita, mas Jekyll numa carta deixada ao seu amigo o advogado Gabriel Utterson, diz que criou uma misteriosa poção que permitia se tornar outra pessoa. O lado sombrio dele se transformava literalmente originando uma outra personalidade, chamada Edward Hyde, um homem baixo, de olhar sinistro e malicioso e aspecto feio. Hyde apresentava todo o lado sinistro e violento de Jekyll o qual tentou acabar com ele, mas acabou liberando-o, deixando tomar conta durante certo tempo, até o efeito da poção passar. Por mais que Stevenson não enfatize esse lado da química, ele criou algumas ideias interessantes: o cientista que cria um soro, fórmula, poção, etc. que afeta sua fisionomia, personalidade e até mesmo habilidades. A ideia vai ser amplamente aproveitada principalmente nas histórias em quadrinhos para a criação de super-heróis.  

H.G. Wells no limiar do novo século:

Herbert George Wells (1866-1946) foi um notório escritor, ensaísta, jornalista e admirador das ciências, tendo escrito algumas matérias e artigos a respeito. De sua vasta produção, destaram-se quatro livro que se tornaram clássicos da ficção científica: A Máquina do Tempo (1895), A ilha do Dr. Moreau (1896), O Homem Invisível (1897) e Guerra dos Mundos (1898). Desses quatro livros, eu li o primeiro e o quarto, me concedendo mais segurança em poder falar dessas obras. Sendo assim, comecemos com o primeiro.

Viagens no tempo já haviam sido exploradas em outras histórias, não sendo necessariamente uma grande novidade na época, apesar de ser um tema ainda pouco usual na literatura. A grande novidade que Wells introduziu foi tornar essa viagem possível graças ao uso da ciência e de uma máquina revolucionária, que permitia viajar para o futuro e o passado. A trama do livro desenvolve-se em primeira pessoa e se passa mais ou menos em 1894, em Londres, onde um cientista que não tem seu nome revelado, convida alguns amigos e homens distintos e interessados em ciência, para um jantar em sua casa; lá ele aparece com os trajes rasgados, alguns ferimentos leves e o semblante debilitado. Os convidados e criados surpresos com aquilo, o cientista responde que havia voltado de uma viagem ao futuro, tendo viajado ao longínquo ano 802.701.

O viajante do tempo como é referido no livro o protagonista, apresenta uma estranha máquina que desenvolveu. No caso, Wells é bem enigmático nesse ponto, não dando detalhes sobre a máquina. Ele se limita a dizer que ela era feita de metal e madeira, tinha um painel com números para contar as datas e uma alavanca que a ligava e desligava. Fora isso, Wells não fornece mais informações. De qualquer forma, o viajante do tempo inicia sua viagem, o interessante é que Wells no começo tenta imaginar como seria a arquitetura de Londres no século XX, para depois dar um salto gigantesco ao futuro, onde se desenvolve a maior parte da história. No ano de 802.701 o Viajante do Tempo conhece os pacíficos e ingênuos Elois, a evolução da espécie humana, a qual inclusive diminuiu em tamanho e intelecto, os quais viviam numa utopia. E os Morlocks, outra parcela da humanidade que evoluiu para criaturas horrendas, que possuem sensibilidade a luz do dia, o que os obriga a viver no subterrâneo e sair somente à noite. 


O Viajante do Tempo, protegendo a Eloi, Weena, do ataque dos Morlocks. Ao fundo uma esfinge que aparece em uma das construções que o viajante encontra no futuro. 
A Máquina do Tempo é um caso curioso sobre livros que imaginam o futuro, pois ela mistura utopia e distopia. O próprio Wells deixa isso transparecer claramente nos pensamentos de seu protagonista, quando ele se faz inúmeras perguntas de como a civilização chegou aquele estado. Embora o viajante fique admirado que os Elois vivam em paz, não temendo animais selvagens, doenças, guerras e violência, mas eles possuem a mentalidade de crianças, além de viverem em um mundo sem aparente tecnologia. Suas moradas são prédios ou palácios decadentes, eles não possuem energia elétrica, nem água encanada, nem cidades, ou fazem uso de veículos ou outro tipo de tecnologia. Por sua vez, os Morlocks possuíam fábricas e máquinas, embora Wells não os descreva com clareza como eram e quais seriam suas utilidades. Outro ponto emblemático é o fato que os Elois e os Morlocks não conheciam o fogo. 

Seu segundo livro A Ilha do Dr. Moreau parte para um tom mais sombrio e cruel. Se no livro anterior a crueldade estava legada aos Morlocks que matavam e comiam os Elois, neste livro, o cientista Moreau encarna a ideia do cientista maluco. Especialista em fisiologia, Moreau dirigiu e realizou cirurgias de vivissecção (experimentos com animais vivos, onde se abre partes de seus corpos para ver o funcionamento e reação) em Londres, as quais vieram a público e foram duramente criticadas pela comunidade científica, a qual as considerou algo antiético, profano e abominável. Temendo por sua liberdade e vida, Moreau fugiu e desapareceu. 

Anos depois, a história começa propriamente com o viajante Edward Prendick, que é resgatado de um naufrágio. No navio que lhe forneceu ajuda, está um misterioso homem chamado Montgomery, o qual leva uma carga de animais para uma ilha no Pacífico. A contra-gosto, Montgomery é forçado pelo capitão do navio a aceitar Prendick como hóspede. Ao chegarem a uma misteriosa ilha, a carga de animais é depositada e Prendick é levado a um complexo que funciona o laboratório do Dr. Moreau. Em sua estadia na ilha, Prendick começa a avistar animais estranhos e se depara com seres grotescos, metade humano e metade animal. 


Edward Prendick observa o Dr. Moreau realizando um experimento em uma de suas cobaias monstruosas, enquanto Montgomery pede para ele se retirar do laboratório. 
A obra trouxe alguns conceitos interessantes para a época: o uso da ciência biológica para a criação de sere híbridos, antecipando a manipulação genética em quase um século. O livro também aborda temas sobre ética, moral, filosofia e religião. Moreau obcecado em criar novas raças, não mede escrúpulos para sujeitar humanos e animais a experimentos macabros. Se em Frankenstein, o médico Victor Frankenstein criou um monstro reunindo partes de cadáveres, e lhe concedendo a vida, Moreau cria vários monstros, unindo partes de animais de diferentes espécies. Os experimentos de Moreau contribuíram para o surgimento do conceito de quimera, adotado na ficção científica, para se referir a monstros híbridos, entre humanos e animais, ou entre vários animais. 

A próxima obra de Wells é menos sombria que os experimentos de Moreau, dessa vez em O Homem Invisível, Wells retrata até onde um cientista deve ir para comprovar suas teorias e experimentos? Qual seria os limites da ciência? Se no livro anterior, Moreau não se importa em criar abominações para o que ele diz ser um progresso científico, em O Homem Invisível, o cientista Griffin decide ser sua própria cobaia, assim como, não pretende causar problemas aos outros. Griffin desenvolve um composto químico que torna objetos e seres vivos invisíveis. Após testar com sucesso tal fórmula em objetos e num gato, Griffin se submete ao experimento. Enquanto sai a rua, ele usa ataduras para cobrir o rosto, óculos, um nariz falso, chapéu, luvas e sobretudo. 


Pôster do filme O Homem Invisível (1933). 
Porém, com o passar do tempo, ele descobre que havia cometido um erro grave: não havia pensado numa forma de restaurar seu estado normal. Aquilo o frusta e o enfurece ao ponto de que ele passa a ter pensamentos violentos e odiosos, pois tenta a todo custo buscar uma maneira de reverter sua condição. O livro se comparado aos outros é de trama mais simples, mas também mostra como o uso inadequado da ciência pode ser prejudicial e até causar tragédias. 

O quarto livro é um dos grandes clássicos de Wells ao lado de A Máquina do Tempo. Publicado em 1898, quase na virada do século, A Guerra dos Mundos já revela um autor mais experiente. Apesar de que visitas alienígenas a Terra já tenham sido relatadas em outros livros, como o de Voltaire, no século XVIII, na obra de Wells, não se trata de uma visita ou expedição científica, mas de uma invasão para a dominação do planeta. Dessa vez os inimigos são os marcianos, os quais chegam em estranhas espaçonaves em forma de charuto, de onde saem gigantescas máquinas de guerra com três pés e tentáculos e que atiram um raio mortal. 


Um tripod disparando seu raio mortal. Ilustração de Henrique Alvim Côrrea, para uma edição belga do livro, de 1906. 
Apesar do livro se referir a guerra dos mundos, o conflito se passa na Terra, mais especificamente na Inglaterra, em Londres e nas cidades vizinhas. Não havendo relatos do que estava ocorrendo em outras partes do planeta. De fato há guerra na história, mas o exército inglês é reduzido a cinzas diante da tecnologia bélica avançada e superior dos marcianos. Que inclusive destroem algumas cidades. Além dos mortíferos tripods, os marcianos usam um gás negro que mata os humanos envenenados em questão de segundos. O protagonista não tem nome definido, ele e a mulher fazem parte dos refugiados de guerra, mas em dado momento eles se separam e a história é narrada a partir do ponto de vista dele, o qual teme que seja o fim da humanidade. Apesar do final controverso por ser ingênuo, a obra tornou-se um clássico, sendo adapta em distintas mídias. Wells inclusive inaugurou uma temática recorrente na ficção científica: invasões alienígenas. 

As quatro obras de Wells ajudaram a popularizar viagens no tempo, o conceito de máquina do tempo, o conceito de quimera e experimentos bizarros, a tecnologia da invisibilidade e como dito, invasões alienígenas. Além disso, seus livros também concedem uma carga dramática e reflexiva, seja nas conjecturas do Viajante do Tempo pensando o conflito social por um viés marxista, o Dr. Moreau que não se importa em transgredir a ética para alcançar o progresso científico; o cientista Griffin que comete um erro, se arrepende e depois torna-se paranoico para buscar uma solução, mesmo que o leve a transgredir a lei. A fragilidade da civilização humana perante inimigos extraterrestres que podem ser muito mais poderosos e desenvolvidos do que nós. 

O Mundo Perdido:

Conceitos de mundos perdidos são antigos na literatura, porém, a novidade que Arthur Conan Doyle (1859-1930) trouxe no ano de 1912, foi apresentar dinossauros. No caso, Doyle não foi o primeiro a abordar dinossauros na literatura, Verne já havia feito isso em 1864 em Viagem ao Centro da Terra, porém, o livro O Mundo Perdido (1912) contribuiu para a popularização dos dinossauros nas histórias de ficção científica. Na época que publicou seu livro, Doyle que já era conhecido pelas histórias de Sherlock Holmes, seu personagem mais famoso, estava escrevendo histórias sobre aventura, e seu interesses por dinossauros veio de fósseis que ele viu em museus e de relatos de exploradores europeus. 

Na história que se passa na década de 1910, o zoólogo arrogante e irascível George Edward Challenger, homem de ombros largos e barba hirsuta, retornou do Brasil, de posse de um misterioso mapa, uma fotografia desfocada e um fóssil. Challenger passou o último ano após a sua expedição, estudando aqueles objetos, concluindo que o autor deles, o aventureiro americano Marple White, deveria estar dizendo a verdade sobre um misterioso platô perdido na Amazônia brasileira, onde existiriam dinossauros vivos. Challenger convence o jovem jornalista Edward Mallone, o qual busca fama, a ir assistir uma palestra pública dele, na qual ele apresentaria sua proposta de expedição ao Brasil, em busca da Terra Marple White. Durante a acalorada palestra, com trocas de insultos e desavenças entre Challenger e outros cientistas, dois homens se interessam pela expedição: o Professor Summerlee que antipatiza com Challenger, mas possui suas dúvidas, e o aventureiro Lorde John Roxton, o qual diz ter experiência com expedições nas florestas tropicais, por ter participado de viagens na América do Sul e na África. 


Ilustração de O Mundo Perdido, onde a expedição do Professor Challenger depara-se com um grupo de iguanodontes. 
Os quatro após desavenças, concordam em viajar ao Brasil para comprovar se a hipótese de Challenger era verdadeira. Após semanas de viagem pela densa floresta amazônica, sendo acompanhados por um homem negro e alto chamado Zambo, e dois indígenas chamados Manuel e Gomes, a expedição chega ao sopé do platô. Depois de alguns problemas para conseguir subi-lo, os quatro adentram o platô, deparando-se com dinossauros, animais pré-históricos, homens-macacos e uma tribo indígena desconhecida. A obra tornou-se icônica na época, por reunir uma expedição científica de zoologia e paleontologia, para averiguar a existência de dinossauros reais. Inclusive Doyle publicou esse livro, numa época que os mapas ainda estavam sendo atualizados, havendo áreas pouco exploradas, as quais eram perfeitas para esconderem "mundos perdidos". Embora seu livro traga informações e descrições equivocadas e desatualizadas sobre as espécies apresentadas, ainda assim, fez sucesso, inspirando adaptações para o cinema, histórias em quadrinhos e até outros escritores a também escreverem histórias sobre dinossauros. 

Aventura em Marte: 

Entre as décadas de 1910 e 1940, o escritor americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950), lembrando principalmente por ser o criador de Tarzan, publicou uma série de dez livros chamada Barsoom, nome pelo qual os marcianos chamam seu planeta. Estrelando em 1912 o conto Under the Moons of Mars, tínhamos um veterano da Guerra Civil Americana (1861-1865), chamado John Carter, que é transportado à Marte, após descobrir um artefato alienígena. Burroughs escreveu alguns contos entre 1912 e 1913, reunindo-os anos depois para publicá-lo num livro único intitulado Uma Princesa de Marte (1917), dando início a série Barsoom


Capa da primeira edição de Uma Princesa de Marte (1917). 
As obras de Burroughs sobre as aventuras de John Carter em Marte, popularizaram na literatura do começo do século XX, o subgênero romance planetário ou espada e planeta, antecedentes da ópera espacial. Adiante falarei brevemente sobre esses conceitos. Embora os marcianos possuíssem tecnologia superior a da Terra, nem todos as raças marcianas se encontravam no mesmo nível tecnológico, neste caso, temos algumas raças que dispõem de armas a laser e aeronaves, enquanto outras, ainda usam lanças, arcos e espadas. Nesse ponto Burroughs misturou elementos de aventura, ficção científica e fantasia para compor sua obra. John Carter é o principal protagonista da série, apesar que em alguns livros ele apareça como coadjuvante. Suas aventuras marcianas popularizaram histórias de ficção científica em outros planetas não apenas nos quadrinhos, mas na literatura tradicional também. 

Alienígenas do Passado: 

O escritor americano Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), é reconhecido como um dos grandes mestres da literatura de terror no século XX. Embora muitas das suas obras tenham sido escritas nesse gênero literário, Lovecraft também possui escritos sobre suspense, mistério, drama e ficção científica. No caso, destacarei duas obras suas de ficção científica, as quais abordam extraterrestres. A primeira trata-se da misteriosa obra O Chamado de Cthullu (1928), o qual narra uma investigação sobre uma estranha e sinistra seita com tendências apocalípticas, a qual visa invocar seu antigo deus. Sem adentrar em detalhes, a obra mistura investigação típica de romances policiais de história de detetives, com atmosfera misteriosa e sombria, característica da obra de Lovecraft, e o toque científico, pois o deus Cthullu um tipo de alienígena bastante antigo, cuja raça teria visitado o planeta Terra há milhares de anos, sendo esses seres confundidos com divindades. A obra inspirou um jogo de RPG e outras produções.     

Lovecraft volta a explorar essa ideia de deuses alienígenas em outras obras, sendo a mais famosa Nas Montanhas da Loucura (1936), onde ele foca mais no tom de terror psicológico e ficção científica. Nesse conto narrado em primeira pessoa pelo Dr. William Dyer, o qual vai descrevendo a rotina de uma expedição científica ocorrida em 1930 na Antártida, em uma região não mapeada do continente gelado. Naquela região há duas altas montanhas, as quais o protagonista deduz serem mais altas que o próprio Monte Everest, a maior montanha do mundo. Porém, a expedição se concentra em mapear o local e umas cavernas que encontra nos sopés da montanha. 


A misteriosa cidade alienígena erguida na Antártida, como contada Nas Montanhas da Loucura
Na ocasião são descoberto seis espécimes presos em um substrato rochoso e congelado, os quais são recolhidos ao laboratório para serem estudados. A partir daí, uma série de acontecimentos se sucedem, bastante estranhos e sinistros, até que o professor Dyer e um estudante seu, Danforth, decidem procurar por sobreviventes e acabam encontrando ruínas de uma antiga cidade, escondida em meio a Antártida. Explorando aquela cidade, os dois tomam ciência de que se tratava não de uma cidade humana, mas construída por uma civilização extraterrestre bastante antiga e avançada, que teria visitado a Terra há milhares de anos. A cidade é descrita tendo formas bem estranhas para a estética humana, além de ter apresentado traços de uma estrutura tecnológica avançada. E detalhe, eles não foram os únicos. As imagens que eles encontram em painéis na cidade, revelam outras raças extraterrestres que passaram pelo planeta. 

Admirável Mundo Novo:

Embora existam várias obras de ficção científica sobre utopia e distopia, decide escolher uma que li ano passado. Trata-se de Admirável Mundo Novo (1932) do escritor britânico Aldous Huxley (1894-1963). Seu mais famoso livro é complexo ao ponto de poder ser incluído nas categorias de ficção científica utópica e distópica, mas de ficção científica social, FC hard e até mesmo em ficção política. No livro a história se passa num futuro bem distante no ano de 2540 ou 642 Depois de Ford (no caso, trata-se de Henry Ford, considerado um grande mentor científico no livro e um tipo de profeta). Nesse longínquo futuro a Terra se encontra dividida em Estados mundiais controlados por uma federação. A história se passa principalmente na Inglaterra e em alguns momentos nos Estados Unidos. A população no futuro vive sobre um rigoroso estilo de vida controlado pelas instituições políticas e científicas da época, o que levou alguns críticos a apontarem governos de caráter autoritário. 

As instituições incentivam que as pessoas busquem o prazer mundano, através do esporte, da dança, da música, do cinema, das viagens, o consumismo de produtos, da bebida, da comida, de drogas lícitas como o soma, e é claro, do sexo. No caso o governo incentiva as pessoas a se masturbarem logo cedo, terem vários parceiros, além de evitar apego emocional. Casamentos são proibidos e namoro é mal visto. Crítica e opiniões contra o governo são reprováveis. Debater política, ciências e artes somente o mínimo possível, pois são consideradas coisas chatas. As religiões não existem mais, foram abolidas, por serem consideradas ideias arcaicas e que instigavam o conflito e a desordem. História, Filosofia e Sociologia são censurados e apenas ensina-se o que os governos permitem. 

As crianças são geradas em laboratórios através de um avançado método de eugenia chamado Processo Bokanovsky, que cria humanos condicionados fisicamente e mentalmente para exercer determinadas funções na sociedade. Além disso as crianças são educadas em escolas para desde cedo aprenderem seu devido lugar nas castas que pertencem, como serem incentivadas a aderir aos modelos comportamentais exigidos. O método de hipnose também é usado para deixar fixado na mente das pessoas os comportamentos que elas devem seguir e o que elas não devem fazer. 


Em Admirável Novo Mundo, a humanidade é gerada em laboratório através de métodos de eugenia. 
Se por um lado o governo é bondoso em assegurar segurança, tranquilidade, paz, moradia, lazer e trabalho, isso somente foi possível a uma forte intervenção estatal e científica. A população é dividida em castas sociais chamadas de Alfa, Beta, Gama, Delta e Epsilon. Essas pessoas usam cores específicas para serem identificadas na sociedade, além de terem suas capacidades físicas e mentais alteradas para exercerem desde trabalhos mecânicos simples até trabalhos intelectuais e científicos mais avançados. No caso, quanto menor a casta, mais pobre você é e inclusive mal visto socialmente. Apesar de Huxley ter pensado num mundo melhor, ele não aboliu a ideia de desigualdade social e até a tornou algo controlado pelo governo e baseado num preceito biológico. 


Outro problema que envolve a desigualdade social entre as castas, é que os melhores empregos e oportunidades ficam para os Alfas e Betas, enquanto eles também dispõe de vantagens e benefícios trabalhistas e de lazer. Por sua vez, os Gamas, Deltas e Epsilons praticamente vivem para o trabalho para sustentar o restante da população. No entanto, Huxley apresenta em seu livro o caso de pessoas que se negaram a aderir a esse novo estilo de vida e se tornaram marginalizados, passando a habitar em reservas, onde eles vivem da forma antiga e são considerados incivilizados e primitivos. Além desses problemas outro que impera é que o controle exercido pelo governo, priva as pessoas de terem conhecimento sobre o passado. Obras de literatura também são proibidas. Inclusive as pessoas pouco leem, sendo incentivadas a irem ao cinema, ouvir música e se relacionar socialmente ou sexualmente, ou praticarem esportes que necessitem serem pagos. 

Por se tratar de uma obra da década de 1930, no livro de Aldous Huxley o futuro não possui robôs (apesar de eles já existirem em seu tempo), não existe computadores, videogames, realidade virtual e até o uso da televisão não é algo comum. Carros voadores ou viagens espaciais não existem. A grande questão tecnológica enfatizada na obra é a genética e a biotecnologia, além de métodos psicológicos e comportamentais. Décadas depois Huxley escreveu um ensaio repensando suas ideias e comparando-o a época, vendo que o mundo não estava caminhando para aquilo.

Histórias de robôs: 

A palavra robô foi criada pelo dramaturgo checo Karel Capek (1890-1938), o qual em 1921 escreveu a peça R.U.R (Rosumovi Univerzálni Roboti). A palavra roboti vem de robota, termo eslavo usado para se referir a trabalho pesado ou trabalho escravo. Na história da peça, uma empresa cria robôs para servirem como empregados domésticos. Apesar do termo robô ter sido criado em 1921, máquina que seriam robôs já existiam em filmes e nas histórias em quadrinhos. Além disso, a ideia de robô já existia através do conceito de automato que remonta a Grécia Antiga. No caso, relatos de autômatos foram encontrados na Grécia, China e Japão, além de haver menções medievais na Europa e na Ásia a tais máquinas mecânicas.

Um automato originalmente era uma máquina criada para executar movimentos ou funções como levantar ou abaixar algo, abrir porta, encher um copo, tocar um instrumento musical, etc. Sendo comum autômatos na forma de estátuas de pessoas ou animais. Na Idade Moderna temos autômatos unidos a relógios, além de bonecos usados em apresentações teatrais, ou até vendido para pessoas ricas. No século XIX a literatura de ficção científica se apossou dos autômatas como comenta Brian Stableford (2005), ao citar algumas peças, livros e contos que narravam histórias envolvendo autômatas, fosse na forma de pessoa ou não. Vejamos alguns exemplos dados pelo autor. 

Uma das primeiras histórias foi Automata (1814) e O Homem da Areia (1817), as quais tratam-se de contos do escritor alemão Ernst T. A. Hoffmann (1776-1822), em cujas histórias ele alude a tecnologia dos autômatas. O segundo livro é mais famoso por trazer um drama de ficção científica, onde o pobre Nataneal passa infortúnios devido ao Homem da Areia, tido por ele como um "bicho-papão" na infância, mas tratava-se de um pilantra que se disfarçava de advogado, vendedor, alquimista, etc. Mais o autômato da história não é o personagem título, mas uma de suas invenções. 

Outra história que traz autômatos humanoides trata-se do livro The Steam Man of the Prairies (1868) de Edward S. Ellis (1840-1916). O autômato de sua obra foi baseado numa máquina real, desenvolvida por Zadock Dederick, que fazia uso de energia a vapor. Evidentemente que o autômato da história era tecnologicamente mais complexo, e inclusive foi criado por uma adolescente chamado John Brainerd. O menino e seu autômato são descobertos por dois aventureiros, Ethan Hopkins e Mickey McSquizzle, os quais se unem aos dois e passam a viajar pelo interior dos Estados Unidos. O conto de Ellis se tornou popular na época, rendendo outras histórias sobre os personagens, além de cartazes e apresentações como autômatos reais. 


Capa de The Steam Man of the Prairies (1868). 
Uma terceira história que Stableford cita ainda sobre o século XIX, trata-se do livro A Eva Futura (1886), escrito pelo escritor francês Auguste Villiers de L'Isle Adam (1838-1889). Embora seja uma obra pouco conhecida como as outras três citadas acima, o romance de Auguste é famoso, pois ele cunhou o termo androide. Na história Thomas Edison (uma versão fictícia do inventor real) construiu um autômato tão realista e avançado, que ele empregou o termo androide para se referir a aquela nova máquina. No caso, o tal androide é feminino e chama-se Hadaly. Na história, Edison decide criar Hadaly para ajudar seu amigo Edwald, que vive um casamento frustrado e se encontra em depressão. No caso, Edison propôs criar um androide para substituir a esposa de Edwald. A história é curiosa, pois é uma das primeiras narrativas que mostram um robô sendo planejado para fins emocionais e passionais, além de ter a aparência humana e imitar movimentos e certos comportamentos. E se imaginar que Auguste escreveu esse livro lá em 1886. 


Ilustração de Hadaly para uma edição de A Eva Futura
No começo do século, Stableford cita alguns livros sobre autômatos e robôs como A Round Trip to the Year 2000 (1903) de William Wallache Cook, The Eletric Man (1910) de Charles Hannan, La machine à assassiner (1924) de Gaston Leroux, um dos primeiros livros no qual robôs são vilões, embora que nos quadrinhos isso já fosse mais comum. Nas décadas de 1930 a 1950 os robôs continuaram a se popular na ficção científica na literatura, no cinema e nos quadrinhos. 

No caso, comentarei uma obra importante, intitulada Eu, Robô (1950) do escritor russo Isaac Asimov (1919-1992). Asimov é um dos grande nomes de ficção científica, tendo escrito dezenas de histórias sobre robôs, viagens espaciais, tecnologia avançada, distopia, utopia, etc. Porém, cito Eu, Robô por causa de se tratar de uma das obras mais conhecidas do autor, consistindo em um livro que reúne nove contos. Os robôs dessa obra representam o estereótipo de robôs vistos na década de 1950, seres mecânicos, grandes e desengonçados, apesar que há modelos que se mostram mas rápidos e até inteligentes. A trama do livro é narrada pela psicóloga roboticista a Dra. Susan Calvin. A história começa em 2061, mas Calvin relata acontecimentos desde 1998, quando era estudante na faculdade. 

Ironicamente o futuro imaginado por Asimov ainda não se concretizou, pois no primeiro conto, ele imaginava que em 1998, robôs caseiros já fossem realidade. Além do uso de carros voadores e viagens a Lua, fossem algo comum. Por sua vez, nos contos seguintes que se passam por volta de 2015, ele já imaginava que a humanidade possuísse estações espaciais em Marte, Mercúrio, na Lua e até orbitando o Sol. Além disso, ele fala da exploração de minas em Mercúrio e asteroides. Apesar desse avanço tecnológico ainda não ser realidade atualmente em 2019, isso não desmerece a obra do autor, o qual sonhou com um futuro, como tantos outros. Todavia, o grande destaque da obra de Asimov são as chamadas Três Leis da Robótica, que ditam:
  1. Um robô não pode ferir um ser humano, ou por inação, deixar que ele se fira.
  2. Um robô deve sempre obedecer as ordens dadas por um humano, desde que não inflija na lei 1 e 3.
  3. Um robô deve assegurar sua existência, evitando danificar-se, desde que tal ato não inflija as leis 1 e 2. 
A primeira lei é citada no conto Robbie, já o trio em si é mostrado no segundo conto, Andando em Círculos e repetida no resto do livro. Embora tais leis tenham sido criadas para o intuito de sua obra, elas se tornaram populares. Autores e roteiristas passaram a fazer referências diretas ou indiretas a elas, e em alguns casos, até as satirizaram. Alguns cientistas vinculados a física, computação e robótica, também defendem tais leis, mesmo sendo ficcionais, eles enxergam um valor útil e aplicável para elas quando um dia os robôs estiverem aptos a funcionarem como vemos na ficção. 

Na década de 1960 data um livro que trouxe alguns conceitos interessantes sobre androides, em meio a uma época que imperava robôs metálicos. Trata-se do livro com o estranho título Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), escrito por Philip K. Dick (1928-1982), mistura suspense policial, drama, ficção científica hard numa San Francisco pós-apocalíptica. O livro na época fez relativo sucesso, mas atraiu o interesse de Holywood, apesar que somente vários anos depois uma adaptação intitulada Blade Runner (1982) foi lançado. 

No livro cuja história se passa em 1992, o mundo vive um período decadente e até ambíguo, existe tecnologia para se fabricar androides super-realistas, mas ainda assim, as cidades são sujas, mal-iluminadas, algumas estão em ruínas. Os animais foram quase extintos devido a radiação, porém, existem animais sintéticos, como ovelhas, as quais dão título ao livro. Na trama, Rick Deckard é um caçador de recompensas que tem o sonho de se aposentar e criar ovelhas de verdade, mas ele não tem dinheiro para comprar os animais que são raros e antes de se aposentar recebe um último trabalho, capturar e executar um grupo de androides Nexus-6, a versão mais avançada na época. Essas máquinas com aparência humana e inteligência avançada, se rebelaram e abandonaram suas funções e estão foragidas. Temendo-se que eles possam passar a atacar os humanos ou incentivar uma rebelião em outros androides, Deckard é enviado para procurá-los. 


Capa de uma edição em quadrinhos de Androides sonham com ovelhas elétricas? Na capa temos o protagonista Rick Deckard. 
O filme Blade Runner que adapta parte da história, não fez sucesso na época, vindo a se tornar cult na década de 1990 e ganhado recentemente uma continuação décadas depois. Todavia, o livro contribuiu para explorar temas sobre humanidade, ética, moral, reflexões filosóficas, ambição da humanidade em querer criar seres idênticos, um futuro depressivo e contraditório, etc. 

Não obstante, data de 1960, o surgimento do termo ciborgue (contração de cibernetic organism), concebido pelos cientistas Manfred Clynes e Nathan S. Kline, para se referir a uma pessoa que teria partes de seus corpo, fossem membros ou órgãos, sendo artificiais. A ideia na época envolvia pensar-se em como tornar os seres humanos mais resistentes para poderem se aventurar no espaço. A ideia foi progredindo nos anos seguintes e interessou os escritores. No caso é curioso que enquanto os termos robô e androide advieram da ficção, o termo ciborgue foi inventado por cientistas. Todavia, a ideia de um ciborgue como uma pessoa com partes mecânicas ou próteses não era nova na literatura, mas ainda pouco usual. Edgar Allan Poe em seu conto The Man that Was used Up (1843) fala de um homem que usava próteses. Apesar de haver debates se se pode considerar isso como sendo um ciborgue. De qualquer forma, no século XX, temos alguns obras que apresentam pessoas com pernas ou braços mecânicos, algo considerado mais próximo da ideia de ciborgue para aquele tempo. 

A ideia de ciborgues começou a se popularizar na década de 1970. Temos o livro As Man Becomes Machine (1971) de David Rorvik, o livro Cyborg (1972) de Martin Caidin, o qual inspirou o popular seriado O Homem de Seis Milhões de Dólares (1974-1978). O seriado foi bem recebido pelo público na época e ajudou a difundir a ideia de ciborgue, no caso, o protagonista era um verdadeiro super-herói. Ciborgues ainda são comuns nas obras de ficção científica e até na realidade, pois existem movimentos que defendem o ciborguismo como o transumanismo, que considera que o próximo passo da evolução humana é nos tornarmos ciborgues, isso ajudaria a combater doenças, além de ampliar nossas capacidades físicas e fisiológicas.  

Os mortos ainda vivem: 

Alguns livros conseguem mesclar vários gêneros ou subgêneros. O que abordarei aqui é catalogado como obra de terror, ficção científica soft e ficção científica pós-apocalíptica. Trata-se do livro Eu sou a Lenda (1954) de Richard Matheson (1926-2013), o qual escreveu dezenas de livros e contos sobre terror, fantasia e ficção científica. No caso de Eu sou a Lenda o livro é notório por reimaginar a origem de vampiros. Embora a obra deixe algumas pontas soltas sobre a origem da pandemia bacteriológica que levou a parte da população falecer e outra parte tornar-se criaturas hematófagas e fotossensíveis, Matheson brinca com os estereótipos de histórias de vampiro, como o uso do alho, estacas e crucifixos. O protagonista Robert Neville, que se considera o último humano vivo, já que os demais se tornaram seres bizarros que atormentam Neville em sua solidão depressiva. 


Cena de um quadrinho que adapta Eu sou a Lenda
A obra aborda solidão, depressão, alcoolismo, existencialismo e é narrada a partir de Neville, que em dados momentos realiza algumas pesquisas para tentar compreender como essa misteriosa doença surgiu e afetava os seres humanos e porque não o afetava. A medida que a história progride, Neville começa a perceber diferenças comportamentais naqueles monstros, uns são mais brutos e irracionais, outros mantêm a consciência e até mesmo falam e tentam enganar Neville. No fim, há aqueles que se consideram uma nova raça e veem Neville como um pária, a reminiscência de um mundo antigo. Eu sou a Lenda tornou-se popular ao ponto de ter sido adaptado três vezes ao cinema, apesar de as adaptações não serem fiéis ao livro, além de ter influenciado autores como Stephen King, e obras sobre vampiros e zumbis. Um dos méritos desse livro foi tornar os vampiros frutos não de maldições ou forças sobrenaturais, mas da reação a uma estranha doença. 

Ópera espacial:

O conceito de ópera espacial foi inspirado nos filmes de faroeste chamados horse opera, lembrando que tais filmes apresentam uma imagem imprecisa do que foi o Velho Oeste americano. No caso da ópera espacial ela se desenvolveu do subgênero de histórias sobre viagens espaciais, guerras espaciais, aventuras em outros planetas, mas distanciando-se dos elementos fantásticos e românticos do subgênero espada e planeta e romance planetário. Apesar que alguns romances planetários sejam considerados óperas espaciais. Sendo assim optei em apresentar algumas óperas espaciais clássicas. 

A série Fundação (1942-1993) de Isaac Asimov é considerada uma das grandes séries de ópera espacial clássica, onde o autor fala sobre império galático, colonização de outros planetas, uso de robôs em explorações espaciais, desenvolvimento científico e tecnológico, criação de novas ciências, tramas políticas, traições, conspirações, batalhas, etc. A obra é um prato cheio para os amantes de histórias espaciais. 

Outro livro significativo para o subgênero de ópera espacial, mas por destacar o subgênero ficção científica militar, foi Tropas Estelares (1959) de Robert A. Heinlen (1907-1988). A obra tornou-se um marco para histórias espaciais sobre guerras e com foco na ação, gerando filmes e adaptações para os quadrinhos e televisão, além de influenciar escritores e roteiristas. Na trama do livro, Buenos Aires, capital da Argentina é destruída por uma força alienígena insectóide. O recruta Juan "Johnny" Rico decide se alistar numa expedição militar até o planeta daqueles alienígenas com o intuito de enfraquecê-los, para evitar novo ataque a Terra, e se fosse o caso, tentar conquistar o planeta deles. Por outro lado, alguns dos soldados e oficiais também são motivados por desejo de vingança como o próprio Rico. O livro ajudou a influenciar toda uma produção de livros, filmes, quadrinhos e jogos que se resumem a tropas militares atirando em extraterrestres. 


Cena de uma das adaptações em quadrinhos de Tropas Estelares
Datado da década de 1960, outro clássico da ficção científica sobre temática espacial é o icônico Planeta dos Macacos (1963) de Pierre Boulle (1912-1994), escreveu obras ficcionais sobre guerras, das quais ele participou como espião francês, porém, escreveu também sobre ficção científica sendo o livro do planeta dos macacos, sua obra mais famosa nesse gênero. No caso, alguns autores consideram o livro um romance planetário, outros sugerem que trata-se de uma ópera espacial. 

Na trama o professor Antelle cria uma visionaria espaçonave que voa quase a velocidade da luz. Em companhia do professor vai o jornalista francês Ulysses Mérou e o médico Levain, os quais se unem para consistir na primeira expedição para fora do sistema solar, rumo a estrela Betelguese na Constelação de Órion. A história é narrada a partir da experiência de Mérou, que registrou tudo num diário e o jogou numa garrafa, que ficou a deriva no espaço, até ser encontrada por um casal que viajava abordo de um cruzeiro espacial. O casal ler o relato da extraordinária viagem de Mérou, Antelle e Levain que os levou a chegar a um planeta chamado Soror, no qual eles descobriram que habitavam humanos e símios inteligentes, representados por chimpanzés, gorilas e orangotangos. 


Ulysses Mérou e Nova cercados por macacos. 
Antelle e Levain acabam morrendo no início da jornada, sobrando ao pobre Mérou sobreviver a aquele mundo hostil, onde os humanos são animais, primitivos e tratados como bichos pelos macacos, os quais são inteligentes, usam roupas, armas, carros e moram em cidades parecidas com as cidades terráqueas. A obra em si contém um tom de crítica social a sociedade e política na época de Boulle. Mérou após ser capturado, é enviado a um laboratório onde passa a ser estudado pela Dra. Zira, Cornelius e outros cientistas, sendo que Zira fica espantada pelo intelecto fora do comum de Mérou para sua espécie. Durante sua vivência no laboratório e em um zoológico humano, Ulysses Mérou se apaixona-se por uma bela mulher, a quem ele chama de Nova. O livro não foi um sucesso imediato, ganhando mais fama após o lançamento do filme em 1968, que rendeu mais quatro continuações. Na décadas seguintes outras adaptações para o cinema e televisão foram feitas. No entanto, Pierre Boulle quando entrevistado acerca do filme de 1968, ele se revelou desapontado pelas várias mudanças feitas em relação ao enredo do livro. 

Outro clássico da ópera espacial advém de alguns livros de Arthur Charles Clarke (1917-2008), considerado um dos grandes nomes da ficção científica do século XX, tendo escrito dezenas de livros e contos, alguns em parceria. Seu conto The Sentinel (1957) que falava de uma pirâmide alienígena na Lua, inspirou o diretor e roteirista Stanley Kubrick a escrever ao lado de Clarke, o filme 2001: Uma odisseia no Espaço (1968). O roteiro posteriormente foi transformado em livro, originando uma série de quatro volumes. No caso, 2001 tornou-se um clássico da ficção científica, sendo icônico até hoje por suas cenas, trilha sonora e conceitos. 
Um cartaz do filme 2001: uma odisseia no espaço
Outra série de livros prestigiada, foi escrita por Clarke, sendo o primeiro volume intitulado Encontro com Rama (1972). Os outros três volumes foram escritos em parceria de Gentry Lee, engenheiro-chefe de uma agência espacial e ligado a missões a Marte. Entretanto, o volume um ainda é o mais prestigiado da série. Nesse livro o qual se passa em 2127, um misterioso asteroide está em rota de colisão com a Terra, após investigações apuradas, descobre-se que não é uma rocha espacial, mas uma gigantesca espaçonave alienígena com 50km de comprimento, a qual foi nomeada Rama. Em seu interior há uma cidade. Assim a trama do livro desenvolve-se em se decidir o que será feito: Eles vieram para invadir? Ou vieram para outro intuito? Atacará-se os alienígenas? Mas os humanos possuem tecnologia para combater uma guerra especial? Ou tentará fazer um acordo com eles? Ou um ato diplomático? 


Ilustração da cidade alienígena no interior da espaçonave Rama. 
Datado da década de 1960, destacou-se a série Duna (1965-1985) por Frank Herbert (1920-1986), foi um sucesso quase imediato. Ganhou o prêmio Hugo em 1966 e se popularizou até o final da década. A obra originalmente consistiu em cinco livros escritos por Herbert e vários outros redigidos por seu filho Brian, além de outros autores, expandindo o universo literário de Duna. Em geral a trama central do primeiro livro que se desenvolve na série original, foca-se em questões políticas associadas a conflitos monárquicos pelo controle de poder, autoridade, territórios e recursos de distintos planetas sob domínio do império dos Corrinos e das casas nobres rivais. 

A trama se passa num futuro distante em planetas não situados exatamente no espaço, os quais tem como tipo de governo, monarquias feudais. A maioria dos personagens são humanos, mas convivem com outras espécies alienígenas inteligentes e animais. A tecnologia vista nos primeiros livros não é tão avançada assim, não havendo robôs, computadores e outros aparatos tecnológicos distintos. Por outro lado, tecnologias arcaicas são usadas pelos habitantes desses planetas. Intrigas políticas, traições, conspirações, alianças, golpes, interesses, somados a temas políticos, econômicos, filosóficos, ecológicos, religiosos, etc. dão o tom da série. O primeiro livro ganhou adaptações ao cinema que não ficaram boas. 


Ilustração de um dos planetas da série Duna, onde se ver os vermes da areia gigantes, que são considerados deuses por alguns dos habitantes. 
Outro livro que surgiu na década de 1970 e popularizou o subgênero ópera espacial foi o livro Star Wars: From the Adventure of Luke Skywalker (1976), escrito pelo escritor-fantasma Alan Dean Foster, baseado no roteiro de George Lucas para um filme intitulado Star Wars: Uma Nova Esperança (1977). Na época que o livro foi lançado não causou impacto e vendeu poucas cópias. Um ano depois com o lançamento do filme e o sucesso estrondoso do mesmo, o livro se tornou esgotado em algumas livrarias, levando a novas tiragens. Lucas ainda demorou alguns anos para apresentar a continuação em Star Wars: O Império-Contra Ataca (1980), considerado pelos críticos e fãs como o melhor filme da franquia. O qual foi adaptado para livro depois. A série Star Wars é hoje a mais rentável e conhecia série de ópera espacial, possuindo mais de dez filmes, desenhos animados, animações, seriados, dezenas de livros, histórias em quadrinhos e jogos de videogame. 

Na época do lançamento, George Lucas não imaginava que sua história faria tanto sucesso, inclusive ele tinha planos para uma série de filmes, mas acabou optando em fazer uma trilogia focada na jornada de Luke Skywalker para se tornar um Jedi e combater o Império Galático comandado por Darth Sidiuos ou Imperador Palpatine, que tem sob seu controle, um dos mais letais guerreiros do espaço, o jedi corrompido, Darth Vader. Unindo-se a esses personagens marcantes, estão os robôs R2-D2 e C3-PO, a princesa Leia Organa (irmã gêmea de Luke), os contrabandistas Han Solo e Chewbacca, os jedis renegados Obi Wan Kenobi e Yoda


Capa de uma edição de Star Wars: Uma aventura de Luke Skywalker, que consiste na história do Episódio IV.  
Dinossauros podem ser criados: 

Na década de 1990 o escritor, roteirista e produtor Michael Crichton (1942-2008) publicou dois livros significativos para a ficção científica do século XX, Jurassic Park (1990) e O Mundo Perdido (1995) em ambas as histórias temos dinossauros sendo criador a partir de manipulação genética com base em vestígios genéticos extraídos de fósseis e de mosquitos fossilizados. Embora Crichton não detalhe propriamente o procedimento, ele fornece várias informações científicas em Jurassic Park para sustentar que a genética pudesse algum dia trazer de volta criaturas extintas há milhões de anos. Assim, graças a empresa InGen criada pelo bilionário John Hammond, foi possível criar dinossauros de diferentes espécies, mas isso não parou por aí. Hammond fascinado com a ideia e querendo agradar também seus netos, decide criar um parque dos dinossauros em algumas ilhas na Costa Rica
Arte conceitual baseada no livro para o filme Jurassic Park. No caso, no livro o menino é mais velho do que sua irmã, algo que foi alterado no filme. 
O primeiro livro foi impulsionado com o filme em 1993, o qual na época trouxe tecnologia mecatrônica para recriar os dinossauros. O filme apesar de conter vários aspectos diferentes, em especial na descrição dos personagens e no fim que alguns levam, em relação ao livro, foi um sucesso de crítica e público, gerando uma franquia de cinco filmes. O grande mérito da obra de Crichton não foi nem tanto abordar dinossauros, pois esses já eram tratados desde o século XIX, mas foi tentar usar a ficção científica em sua essência para explicar a presença deles atualmente. Ao invés de recorrer a ideia de mundos perdidos, viagens no tempo ou a realidade paralela, Crichton pensou em usar a ciência biológica para trazer essas criaturas de volta. 

A efemeridade do corpo:

Como exemplo de cyberpunk, citarei o livro Carbono Alterado (2002) de Richard K. Morgan. Como não li o livro ainda, me basearei na série homônima produzida pelo Netflix. Apesar que o seriado possui diferenças em relação ao livro. No entanto, vou destacar alguns conceitos da trama e não a narrativa em si. No caso, Carbono alterado é uma produção de cyberpunk, biopunk, que mescla investigação policial, ação, drama e distopia. A obra mostra um futuro distante, uns cinco séculos a frente pelo menos, onde viagens espaciais são comuns, arranha-céus gigantescos permeiam as metrópoles, construções ue flutuam, carros voadores, androides, hologramas, realidade virtual avançada e consciente, clonagem, transplantes, ciborgues, corpos sintéticos, drogas neurológicas, etc. são rotineiros numa ambientação que mescla o requinte de mansões, ruas sujas e escuras, apartamentos simples, interior de bases militares ou naves. 

Um dos aspectos interessantes da obra é que uma tecnologia permitiu que a memória ou o que seria a "alma", pôde ser gravado num processo tecnológico em um chip, implantado abaixo do cerebelo. Caso a pessoa morra, o chip é removido e introduzido num novo corpo, e a pessoa mantém preservado sua memória e identidade. Isso algo tão surreal para nós, mas na época do livro é algo habitual, apesar de ser um procedimento caro. Os mais ricos possuem acesso a tecnologia de ponta, possuindo acesso a corpos clonados, sintéticos ou de ciborgue para seu usufruto. Alguns ricos trocam de corpos como trocam de roupa. 


Cena da propaganda da Netflix, do seriado Carbono Alterado. A ideia do corpo aparecer num invólucro está associada com a condição de que se trata de um produto descartável e que pode ser trocado como bem entender, desde que tenha-se dinheiro para fazer isso. 
Outros usam essa tecnologia para serem quase imortais, vivendo séculos. Eles são chamados de Matusas (termo advindo de Matusalém, personagem bíblico que mais viveu de acordo com a Bíblia, tendo morrido aos 969 anos). A condição dos ricaços e até de pessoas que conseguem obter dinheiro para comprar corpos usados ou baratos, embora seja registrado e fiscalizado pelo governo, a justiça e a polícia, isso não impede de haver um mercado ilegal, além de que as religiões e movimentos religiosos consideram isso um pecado. A troca de corpos seria a solução para fugir da morte definitiva? O livro originou enredo para mais dois volumes. 

Subgêneros da ficção científica:

A listagem desses subgêneros podem variar, pois em alguns casos não há acordo entre os escritores, roteiristas e estudiosos de literatura e cinema para definir um subgênero, além de haver casos de alguns subgêneros que são bem similares, passando a serem confundidos. 
  • Ficção científica soft: termo surgido na década de 1960 para se referir a obras que façam uso das ciências sociais e de tecnologias reais ou ficcionais para embasar a trama, embora não seja o foco destacá-las. Sendo o foco ainda dado sobre os personagens. 
  • Ficção científica hard: termo também surgido na década de 1960, foi criado como contraponto para se referir as narrativas focadas nas ciências exatas como física, química, matemática, astronomia, robótica, mecânica, engenharia, etc. dando ênfase a tecnologia real ou imaginária. A ciência é enfatizada seja na descrição de cenários, tecnologias e maquinários, usados pelos personagens. 
  • Espada e Planeta: surgido na década de 1910 e popular até a década de 1940, mesclava elementos do gênero fantasia e aventura, mas levando-o esse estilo de narrativa para outros planetas. Os monstros eram substituídos por extraterrestres. Embora nesses planetas as raças nativas tivessem em alguns casos, tecnologia avançada como armas de fogo e de laser, além de veículos como carros e aviões, não era incomum os personagens usarem armas brancas nos combates. Os livros sobre John Carter popularizaram esse estilo no início.
  • Romance planetário: é um subgênero que se confunde com o espada e planeta e a ópera espacial. Foi popular entre as décadas de 1930 a 1950, embora ainda hoje exista. Mescla elementos de fantasia, aventura e romance, mas atribuindo-os a cenários extraterrestres. Tanto nesse subgênero quanto no espada e planeta, as ciências não são tão enfatizadas, ficando em segundo plano. 
  • Ópera espacial: termo surgido na década de 1940, mas que se popularizou a partir da década de 1960. Inspirado no romance planetário e nos filmes de faroeste (horse opera), apresenta viagens espaciais, trama que se passam em planetas distantes, outros sistemas solares, galáxias, universos, dimensões e realidades. A presença da tecnologia e das ciências é mais visível, apesar que se enfatize mais o uso tecnológico de espaçonaves, computadores, robôs, armas, etc. Mantém elementos de aventura, ação, suspense, drama e até terror. 
  • Ficção fantástica: possui semelhanças com o espada e planeta, tais narrativas podem ocorrer na própria Terra ou em outros planetas, mesclando ciência, magia, mitologia e outros elementos comuns em obras de fantasia. Camelot 3000 é um exemplo desse subgênero. Em cuja história se reimagina o Rei Arthur e seus cavaleiros em outro planeta, combatendo forças alienígenas. 
  • Ficção científica gótica: mescla características da literatura gótica com elementos da ficção científica, do estilo noir, drama e terror. Aborda também o uso de monstros, magia, sobrenatural e mitologia. Em alguns casos monstros como vampiros, lobisomens e zumbis são explicados a partir de elementos científicos e não sobrenaturais ou paranormais. Frankenstein é considerado um dos precursores desse subgênero. 
  • Ficção com alienígenas: diferente dos subgêneros apontados acima, neste caso, as histórias transcorrem na Terra ou na sua órbita. Geralmente são narrativas que abordam invasões alienígenas como em Guerra dos Mundos, ou abordam conspirações envolvendo extraterrestres para dominação do mundo, ou de agências humanas para encobrir a existência de vida extraterrestre, ou alienígenas que se perdem na Terra e começam a atacar pessoas ou localidades, etc. Tais narrativas em geral possuem um tom de suspense, ação e terror. 
  • Steampunk: surgida na década de 1980, trata-se de um subgênero que antecipa o progresso científico e tecnológico para o século XIX e começo do XX, atribuindo inventos inexistentes na época ou surreais. Nessas histórias temos máquinas voadoras que antecedem os aviões, submarinos, navios de guerra avançados, robôs movidos a vapor, etc. Os cenários geralmente se baseiam em cidades como Londres, Paris e Nova York no período do final do XIX e começo do XX. 
  • Futuro retrô: parecido com o steampunk na ideia, imagina cenários das décadas de 1940 a 1960, mas apresentando tecnologia inexistente para aquele tempo. Neste caso, tais narrativas se baseiam muito no cenário de cidades e no estilo de vida americano daquele período. 
  • Cyberpunk: surgido nos anos 1980, aborda histórias num futuro próximo ou distante, enfatizando computadores, realidade virtual, robôs, biotecnologia, clonagem, informatização da sociedade, crimes virtuais, dependência tecnológica, etc. Em geral tais narrativas mostram cenários distópicos, apresentando personagens marginalizados. No século XXI é comum ver cyberpunk apresentando histórias baseadas na tecnologia e estilo de vida atual, mas de forma degradada e até ambígua, enfatizando uma desigualdade social cada vez maior. 
  • Biopunk: desenvolvido a partir do cyberpunk, segue um estilo bem parecido, mas enfatizando elementos de biotecnologia, transplantes, clonagem, eugenia, manipulação genética, mutação, uso de drogas e da química para proporcionar alterações físicas, fisiológicas, emocionais e psicológicas que causem dano ou concedam habilidades. 
  • Utopia e distopia: subgênero existente desde o século XVIII na ficção científica, procura referir-se a futuros próximos ou distantes de forma positiva ou negativa. No caso nem toda distopia é cyberpunk, ela pode possuir elementos que não a classifiquem dessa forma. E há casos de obras que mesclam elementos utópicos e distópicos como Admirável Novo Mundo
  • Ficção apocalíptica: Parecida com a distopia é um pouco diferente, pois nessas histórias imagina-se fatores que levaram a colapso da civilização. Esses fatores são inúmeros: guerras nucleares, pandemia, invasão alienígena, crise ambiental, colisão de meteoro, etc. Assim essas histórias fornecem evidências sobre os fatores que levaram a colapso da civilização e mostram o início desses acontecimentos ou o desenvolvimento deles. Geralmente apresentam cenários destruídos, sujos, confusos, perigosos. 
  • Ficção pós-apocalíptica: inspirada no subgênero acima, o foco se dar em pensar como o mundo seria após um cataclismo que o levasse a ruína. Em tais narrativas não há obrigatoriedade do autor explicar o colapso da civilização, apenas dizer que ele aconteceu. Em geral temos cenários também destruídos, sujos, perigosos, violentos, onde a lei praticamente foi perdida, as pessoas sobrevivem da melhor forma que conseguem, a tecnologia é reduzida ou não tem serventia por falta de fonte de energia. Recursos são escassos. 
  • Ficção científica militar: histórias cujo foco está na ação e aventura, enfatizando guerras, missões, operações militares. O uso de armas, veículos de guerra, e o protagonismo de militares dão o tom a essas narrativas. 
  • Ficção com Robôs: histórias cujo foco estão na relação dos humanos com os robôs, ou dos robôs com outros robôs. Essas histórias podem ter um tom de ação, aventura, drama, comédia, suspense, terror, etc. mas os personagens principais devem ser robôs ou estarem ligados a eles. 
  • Ficção científica social: subgênero ainda pouco conhecido do grande público, aborda histórias onde o foco se dá nas relações sociais, morais, psicológicas, políticas, etc. apresentando cenários baseados na realidade ou imaginários. As vezes tais ideias são encontradas diluídas em ficções científicas que abordam utopias, distopias e pós-apocalipse. Em alguns casos tais histórias consistem em críticas a época social do autor. 
  • História alternativa: Narrativas que imaginam acontecimentos e contextos históricos de forma diferente, alterando o cursos dos fatos históricos, além de introduzir elementos inexistentes para a época, seja a presença de robôs, computadores, aviões, extraterrestres, tecnologia avançada, ideias, etc. Possui algumas semelhanças com o steampunk e o futuro retrô
  • Faroeste espacial: um subgênero curioso inspirado na ópera espacial, mas mantendo traços de obras de faroeste, não sendo incomum encontrar caubóis ao lado de alienígenas e naves. O filme Cowboys e Aliens (2011) é exemplo disso. 
  • Viagens fantásticas: bastante popular no século XIX e começo do XX, tendo Júlio Verne como um dos expoentes desse subgênero, abordava histórias normalmente passadas na Terra, onde os protagonistas usavam tecnologia e as ciências para realizar expedições científicas, caça ao tesouro, investigações, resgates, etc. Nesse quesito também inclui-se viagens a mundos perdidos, viagens no tempo e até mesmo viagens espaciais, como até à Lua. 
NOTA: Arthur Conan Doyle escreveu outras histórias com o Professor Challenger, mas Mundo Perdido ainda é a mais popular delas. Nas outras narrativas, o professor investiga outros eventos misteriosos. 
NOTA 2: O título da obra de Isaac Asimov, Eu, Robô (1950) foi sugerido pelos editores, sendo baseado no poema Eu, Robô (1939) de Eando Binder 
NOTA 3: Pierre Boulle chegou a fazer um rascunho da continuação de Planeta dos Macacos, que seria intitulada Planeta dos Homens, mas devido a desentendimentos com os editores, Boulle desistiu do projeto. 
NOTA 4: Edgar Rice Burroughs escreveu histórias em Marte, Vênus, na Lua, nas selvas, de faroeste, piratas e outros temas. No tocante a sua vasta produção de ficção científica, temos um livro seu que aborda uma viagem ao centro da Terra, intitulada Earth's Core (1922) e uma obra sobre dinossauros inspirada no Mundo Perdido de Doyle, que rendeu o livro The Land the Time Forgot (1918), o qual se passa na Antártida e ganhou duas continuações. 
NOTA 5: O subgênero espada e planeta tem esse nome advindo dos subgêneros espada e sandália, espada e capa e espada e feitiçaria, termos usados para classificar histórias de aventura e fantasia. 
 
Referências bibliográficas: 

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Links relacionados: 
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