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Leandro Vilar

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Santiago de Compostela: o destino dos peregrinos

Na Idade Média europeia, a pequena cidade de Santiago de Compostela, situada na Galiza, atualmente província espanhola, tornou-se um dos três mais importantes destinos de peregrinação dos cristãos. Tornando-se tão famoso quanto a peregrinação para Roma e para Jerusalém. Neste ano tive a oportunidade de visitar essa antiga cidade que se desenvolveu graças as peregrinações ao longo de séculos. A partir das fotos, conversas e material ali coletado, decidi escrever um pouco da história dessa cidade, mas focando o período medieval. Dessa forma dividi o texto nas seguintes partes: uma apresentação de quem foi São Tiago e sua relevância para o cristianismo medieval, a lenda das relíquias do santo que foram parar na Galiza, o surgimento da igreja, a origem das peregrinações. Por fim, alguns comentários turísticos sobre a cidade. 

Tiago Maior, o apóstolo: 

Na tradição cristã existem três Tiago importantes. Tiago Maior e Tiago Menor foram dois dos Doze Apóstolos. Por sua vez, Tiago, o Justo era parente de Jesus, tendo sido se meio-irmão ou primo. Tiago Maior era filho de Zebedeu e Salomé, sendo irmão de João - outro dos apóstolos. Tal como o pai, Tiago e João eram pescadores que viviam na Galileia. Segundo os relatos de Mateus 4:21-22 e Lucas 5:10, Tiago e João seriam amigos ou conhecidos de André e Simão Pedro, outros dois pescadores que também se tornaram apóstolos. Os Evangelhos descrevem Tiago Maior como um dos apóstolos mais próximos de Jesus, ao lado de Pedro e João. Fato esse que Tiago é mencionado em vários acontecimentos significativos do missionarismo do Cristo. Embora não seja um dos apóstolos mais lembrados, sendo principalmente ofuscado por seu irmão João. (MANZANARES, 2005, p. 418). 


Ícone representando São Tiago Maior ou Tiago Apóstolo.
Após a morte, ressurreição e ascensão de Cristo como informa os Evangelhos, cada um dos apóstolos tomou a missão de dar continuidade aos ensinamentos de Jesus, partindo em missões de conversão. A trajetória de Tiago após a ida de Jesus é desconhecida, o mesmo vale para os outros apóstolos que também possuem poucas informações a respeito dessa fase missionária. Porém, no livro de Atos 12:1-2 é dito que o rei Herodes Agripa I (c. 10 a.C - 44 d.C) ordenou a captura dos cristãos, e dentre estes estava Tiago, o qual foi preso e executado. Segundo a tradição bíblica, Tiago foi o primeiro dos apóstolos a morrer, tendo sido martirizado. Assim como outros dos apóstolos como Tiago Menor, Simão, Tomé, Filipe, Bartolomeu, Judas Tadeu e André, Tiago Maior praticamente é esquecido nas primeiras décadas do cristianismo, onde enfatizava-se Pedro, João, Mateus e posteriormente Paulo. Tido por alguns como o "décimo terceiro apóstolo". Passado os séculos os apóstolos ganharam suas igrejas, porém, a fama de Tiago Maior despontaria num lugarejo da Hispânia no século IX. 

A lenda de São Tiago do Campo da Estrela:

O Novo Testamento não narra as missões de todos os discípulos, e tende a focar mais nas missões de Pedro e Paulo, e eventualmente cita as participações de Barnabé, Marcus, Mateus, Lucas, João etc. Porém, com o passar do tempo surgiram narrativas extra-testamentárias que falavam que Marcus viajou ao Egito, Tomé foi à Índia, Matias foi à Etiópia e por sua vez, Tiago Maior teria viajado a província romana da Hispânia. De acordo com a tradição extra-testamentária citada no manuscrito latino Concórdia de Antealtares (1077), atribuído ao bispo Diogo Paéz de Santiago de Compostela, está contida o mais antigo registro conhecido das missões evangelísticas de São Tiago na Galiza. 

De acordo com o relato, Tiago pouco tempo depois da ascensão de Jesus aos céus, seguiu viagem como os outros apóstolos e discípulos faziam. No caso, Tiago teria viajado para mais longe, indo até a região da Galiza, no noroeste da Hispânia. Ali ele pregou o evangelho, converteu e batizou a população da Galiza e do que hoje representa o norte de Portugal, como as cidades de Guimarães e Braga. O apóstolo teria visitado outras cidades da Hispânia e Lusitânia, permanecendo por tempo desconhecido naquelas províncias até que decidiu retornar para Judeia, onde faleceu em 44. 

Como não existem relatos verídicos e seguros sobre a suposta viagem de Tiago a Hispânia e Lusitânia, tais acontecimentos são tomados como lendários, porém, no século IX, conta a história que os restos mortais de Tiago foram recolhidos de sua tumba na Judeia e levados de volta a Hispânia, a região da Galiza. Os discípulos do santo, aportaram em Iria Flávia, local dominado pela rainha Lupa. Os discípulos contaram a rainha que aqueles ossos eram do apóstolo Tiago Maior e clamaram pelo apoio da monarca a qual atendeu e lhes concedeu uma carroça e bois. No entanto, Lupa não era cristã, mas pagã, e ardilosamente ofereceu bois raivosos, os quais poderiam acabar causando problemas aos discípulos. De qualquer forma, eles seguiram com os restos mortais e foram até o monte Illicinus, onde Teodoro e Atanasio, os líderes da missão, foram surpreendidos por um dragão que cuspia fogo. Não temendo a fera, os dois e demais discípulos fizeram o sinal da cruz, e com isso afugentaram o monstro e amansaram os bois bravios. Com esse milagre Lupa teria se convertido e o local do ocorrido foi renomeado para Pico Sacro. Posteriormente a comitiva chegou a um lugar chamado Libredón, antiga localidade num povoado romano que estava abandonado há muito tempo. Lá havia uma tumba de mármore, na qual os restos mortais do santo foram sepultados. Teodoro e Atanasio foram designados como guardiões do túmulo e ali permaneceram até o fim da vida. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 14-15). 

Após a morte de Teodoro e Atanasio, o túmulo de São Tiago acabou caindo no esquecimento e a vegetação o encobriu. Anos se passaram e por volta de 813 ou 814, como informa o relato do bispo Diogo Paéz, um camponês de nome Paio ou Pelagio, que vivia de forma eremita em Libredón, localidade da tumba, durante algumas noites, o homem teve a visão de estranhas luzes e pensou que poderiam ser anjos ou um sinal de Deus. Posteriormente Paio viajou até Iria e relatou ao bispo Teodomiro sobre o ocorrido. O bispo ficou intrigado com aquela visão do eremita e decidiu acompanhá-lo até Libredón. Ele não avistou as tais luzes, no entanto, deparou-se com antigas ruínas encobertas pela vegetação. Vasculhando a área, o bispo encontrou uma tumba, após adentrá-la constatou que se tratava da tumba na qual os restos mortais de São Tiago haviam sido sepultados. Maravilhado com aquilo, Teodomiro mandou avisar o rei Afonso II das Astúrias (759-842), que foi pessoalmente conferir o local da tumba e ficou maravilhado com a descoberta. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 16). 

Apenas no século X o topônimo Compostela aparece associado ao santo. Existem quatro teorias para tal palavra. A primeira é que trata-se de uma variação de composita, termos usado para se referir a localidade bela, adornada. Que seria reflexo as antigas ruínas romanas de Librédon. A segunda teoria diz que compostela seria uma corruptela de palavras de origem celta, que designaria "colina dos metais". A terceira teoria diz que trata-se de uma referência ao latim vulgar, onde compostum + ela = compostela, significaria local de enterros, algo até apropriado, já que em Libredón havia um cemitério com ricas tumbas. A quarta teoria que é a mais conhecida, sugere que compostela seja uma aglutinação das palavras campus stellae (campo da estrela), que foram unidas para formar compostela. O termo seria baseado nas luzes que Paio avistou durante à noite. De qualquer forma, somente tempos depois é que a designação começou a ser comumente utilizada. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 17). 

A primeira igreja e milagre:

O rei Afonso II, o Casto realmente existiu, embora não se saiba de fato se ele visitou Libredón para reconhecer a tumba que conteria os restos mortais de São Tiago. No entanto, é creditado a ele a ordem de se construir uma igreja para guardar aquela relíquia sagrada. A pequena igreja foi construída com pedras e argamassa, sem nenhum requinte, e depois recebeu três altares dedicados a Jesus, São Pedro e São João Evangelista, e um batistério a São João Batista. A igreja teria vinte sete metros de comprimento, e passou a ser cuidada por monges, havendo necessidade de criar-se um anexo para abrigar o monastério. Segundo a lenda, ainda nessa fase inicial no século IX, a igreja já recebia peregrinos, apesar que os historiadores apontem que o fenômeno da peregrinação seja algo bem mais tardio. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 18). 


Gravura do rei Afonso II das Astúrias no Livro dos Testamentos, c. 1118. Responsável por ordenar a construção da primeira igreja para São Tiago na Galiza. 
No ano de 844 é datado o primeiro grande milagre dedicado a São Tiago na região. Na época, o sucessor de Afonso II, seu primo, Ramiro I (c. 790-850) passava por problemas ao enfrentar o emir mouro Abderramán II. Segundo a lenda, no ano de 844 ocorreu a Batalha de Clavijo, decisiva para assegurar que a Galiza e as Astúrias não fossem conquistadas pelos mouros. Ramiro I e seu exército era inferior ao inimigo, mas segundo o relato, São Tiago surgiu montado em um cavalo branco e levantando uma espada. O santo cavaleiro teria cruzado o exército cristão e liderado o ataque contra os chamados infiéis, conseguindo assim a vitória para a cristandade. A partir desse suposto milagre, Tiago passou a ser referido também como São Tiago Cavaleiro ou São Tiago Matamoros. Em agradecimento pela intervenção divina, o rei Ramiro I instituiu que além do dízimo, uma parcela da produção das fazendas de seu reino deveria ser entregue como tributo a Igreja de São Tiago pelo resto dos anos. Isso foi chamado de Voto de São Tiago. E por sua vez, o santo converteu-se no padroeiro da Galiza. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 18). 

Pintura retratando São Tiago Cavaleiro ou Matamoros. Foto minha, tirada no Museu dos Peregrinos, Santiago de Compostela, 2019. 
A lenda da aparição do santo cavaleiro ecoou pelo restante do século e teria sido um dos fatores para originar as peregrinações, já que esse tido milagre verdadeiro atraiu a curiosidade e fé da população da região. 

A Vila de Santiago

No século X, a Villa Sancti Iacobi ou Vila de São Tiago (Vila de Santiago) estava formalizada. Ao centro encontrava-se sua igreja principal e outras igrejas menores, além de um pequeno monastério. A localidade foi cercada por uma paliçada, devido ao temor que invasores assaltassem o local atrás de tesouros, apesar que naquele momento a igreja ainda fosse pobre. Nos arredores assentaram-se agricultores, pecuaristas e artesãos, criando fazendas, ruas e suas casas. A rua do Vilar é uma das primeiras a ser constituída e ainda hoje existe. Nela ergueram-se casas e alguns prédios administrativos. 


Mapa da Vila de Santiago entre 900 e 1040. 
No mapa podemos ver o centro da vila com a igreja de São Tiago que virou catedral no século XI, o monastério e igrejas menores e o campo de São Pelaio. Ao longo do século IX surgiram o Convento de São Paio de Antealtares, o mosteiro de São Martinho Pinário e a Igreja de Santa Maria da Corticella. Todos ainda existentes atualmente. No ano de 899 o rei Afonso III, o Grande visitou a vila com uma comitiva de nobres e clérigos, a fim de conferir as reformas realizadas na igreja do santo apóstolo. A presença do monarca e sua corte naquele ano era testemunho do prestígio que a pequena vila dispunha. Fora da paliçada inicial, estendeu-se as antigas ruas de Vilar e Penario, ainda hoje existentes, além de outras construções. O campo de São Martininho com seu pequeno mosteiro, que ainda hoje existe. Nota-se também o Vicus Francorum, um bairro mais afastado do centro e o Preconitorium, um conjunto de hospedarias erguidos para abrigar os peregrinos e viajantes. 


Maquete da Igreja de São Tiago no século X. Foto tirada por mim no Museu dos Peregrinos, em Santiago de Compostela, 2019. 
Com o crescimento da vila, as ameaças se seguiram e o bispo de Iria Flávia, Sisnando II ordenou a construção de um muro em torno da vila. Um dos motivos para que o bispo ordenou a construção de muros, devia-se ao temor das invasões vikings à Galiza, que vinham ocorrendo desde o final do século IX. Embora não haja registros históricos conhecidos que os vikings tenham se aventurado ao interior da Galiza, pois na Hispânia e Lusitânia eles se limitaram a costa e algumas localidades conectadas por grandes rios, de qualquer forma, o bispo temendo um possível ataque deles, ordenou a construção dos muros. Segundo a história, Sisnando II foi assassinado em 968 num ataque viking, enquanto refugiava-se num forte romano no rio de Arousa

De qualquer forma, o muro que o bispo ordenou a construção, foi concluído e protegeu a vila de Santiago até 997, quando um exército mouro do califa Almançor (c. 938-1002) um dos mais poderosos governantes do Califado de Córdova (929-1031), atacou a Vila de Santiago. O ataque ocorreu em julho daquele ano. Segundo o relato o bispo Pedro de Mezonzo (930-1003) ordenou a evacuação da vila, pois sabia que seus fracos muros não iriam manter o exército mouro distante. O relato do ataque a Santiago é impreciso e possui elementos romanceados. Fala-se que o califa ordenou a destruição da vila, incluindo as igrejas, porém, ao visitar a igreja de São Tiago ele teria tido um pressentimento e decidiu não destruí-la, mas ordenou que os sinos e as portas fossem levados embora. O relato também diz que Almançor levou seu cavalo para beber água na pia batismal da igreja. E teria poupado a vida de alguns monges que ficaram para trás, os quais rezavam diante da tumba do santo. Dize-se também que o saque a vila durou sete dias. O problema é que tratava-se de uma pequena povoação que facilmente seria pilhada num dia. Provavelmente o discurso destrutivo e de vários dias de pilhagem, sejam exageros. Além disso, nem se sabe se Almançor visitou a vila mesmo. Independente de como tenha sido a história, sabe-se que de fato a vila foi atacada e quase totalmente destruída. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 22). 

Após a invasão e pilhagem, os mouros foram embora e a população de Santiago retornou. Pedro de Mezonzo faleceu em 1003 e foi velado na Igreja de São Tiago, considerado herói local por ter comandando a operação de fuga da população e sua dedicação ao seu ofício. Tempos depois o mesmo foi canonizado. A vila foi reconstruída, mas passou por novas obras significativas. O bispo Cresconio II no século XI, preocupado que novos ataques viessem a destruir mais uma vez Santiago de Compostela como era conhecida na época a vila, ordenou que uma nova muralha fosse construída. Dessa vez uma muralha de pedra, com torreões e sete portões. Os portões eram chamados: Francigena ou Caminho, Penna, Subtrafibus ou Sanfrancisco, Sancto Peregrino ou Trindade, Faxeira, Sussanis ou Mamoa, Mazarellas. No século XVI a muralha foi derrubada para comportar o crescimento da cidade. Mas resquícios dela ainda são encontrados atualmente. 

Por sua vez, no ano de 1075, o rei Afonso VI, o Bravo (1047-1109) e o bispo Diogo Paéz - o mesmo que redigiu a história da origem da tumba do apóstolo Tiago - se reuniram para empreender obras de ampliação a igreja, a qual a tornou em uma catedral no estilo românico. As obras prosseguiram até 1088, quando foram concluídas. A catedral sofreu ampliações pequenas se comparadas com as dos séculos posteriores. Seu interior em parte foi reorganizado e redecorado, havendo também alterações no monastério e nos limites exteriores da catedral. De qualquer forma, a conclusão das obras foi um sucesso para a época, ainda mais se pensarmos que a catedral havia sido parcialmente destruída em 997 e apenas reformas de reparo foram feitas nos anos seguintes. Finda as melhorias em 1088, a Catedral de Santiago de Compostela tinha mais espaço para abrigar os peregrinos nas missas e receber comitivas de nobres. Ao mesmo tempo, a atenção dada pelo rei Afonso VI e a importância do bispo Diogo, levaram em 1095 o papa Urbano II a ordenar a transferência do bispado de Iria Flávia para Compostela. Legalmente a transferência somente foi confirmada em 1101 pelo papa Pascal II(LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 26-28). 

Durante a década de 1120 o então bispo de Compostela era Diego Gilmerez (c. 1070-1140), o homem de respeito e dedicado, que trabalhou com Paéz, serviu na corte de Afonso VI e até viajou em missão para Roma. Sobre seu bispado, Gilmerez buscou com o papa Calixto II que Santiago de Compostela torna-se um arcebispado. Na hierarquia católica, o arcebispo possui autoridade sobre vários bispos e suas dioceses. Compostela tornando-se sede metropolitana do arcebispado, concederia a Gilmerez prestígio e controle sobre as dioceses da Galiza. E isso ocorreu em 1124 com a autorização do papa Calixto II. A partir dessa vitória, Gilmerez empreendeu novas viagens à França e Itália, a fim de conseguir donativos, estabelecer acordos comerciais, religiosos e políticos, mas também de entrar em contato com artistas e arquitetos, pois sob seu governo reformas foram realizadas na apenas na catedral, mas na vila também. Graças a esses contatos, nota-se na arquitetura da catedral, influências francas e românicas inexistentes até então, além da difusão de Compostela como destino para peregrinações, o que contribui para a firmação de rotas saídas da França e Itália. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 28). 


Maquete representando a Vila de Santiago de Compostela no século XII. Foto tirada por mim na exposição do Aeroporto de Santiago de Compostela, 2019. 
Os Caminhos de Santiago de Compostela: 

Embora seja comum ouvirmos falar do Caminho de Santiago, na verdade é uma acepção incompleta, pois não existe apenas um caminho, mas vários deles. O chamado Caminho Primitivo ainda surgido no século IX, quando a igreja era pequena e a vila também, partia da cidade de Oviedo nas Astúrias, pela condição de ser a capital daquele reino que detinha domínio sobre a Galiza. Segundo a narrativa tradicional o próprio rei Afonso II, o Casto seguiu por esse caminho até Libredón, época que nem existia a Vila de Santiago ainda. O Caminho Primitivo depois foi ampliado de Oviedo, indo para Santander, Bilbao e terminando em Irun, já próximo a fronteira da Francia, sendo chamado de Caminho do Norte

Mas além desse caminho, existiam outras estradas locais na Galiza que conduziam a Compostela. De qualquer forma, o grande fluxo de peregrinos para a vila somente começou a se manifestar no século XII propriamente, embora já houvessem peregrinos antes disso, mas em menor número. Graças aos governos dos bispos Diogo Paéz e  Diego Gilmerez, Santiago de Compostela tornou-se mais conhecida pela Lusitânia, Hispânia, Francia, Inglaterra e a Península Itálica. Após o ano de 1140 começaram a construção de igrejas, monastérios e hospedarias pelos caminhos de peregrinação à Compostela. Inclusive isso é um fato interessante, pois nesse período, os católicos possuíam três grandes rotas de peregrinação: Roma, Jerusalém e Santiago. Os viajantes que seguiam para Roma eram chamados de romeiros, os que iam para Jerusalém era chamados de palmeiros, e os que seguiam para Santiago de Compostela passaram a ser chamados de peregrinos

No entanto, as peregrinações para Roma e Jerusalém estavam em baixa no século XII. As Cruzadas falharam em retomar a Terra Santa de forma efetiva, tornando inseguro que os palmeiros continuassem à ir a Jerusalém. Por sua vez, Roma embora fosse uma cidade bela e sede do papado, era mal frequentada na época, suja e perigosa, o que também fez cair o número de romeiros, algo que se agravou com os conflitos entre os Estados Italianos, que tornavam as rotas inseguras. Por sua vez, o norte da Hispânia vivia uma relativa segurança, que permitia que viajantes pudessem realizar longas viagens sem muitos problemas ou ameaça de guerra. Em parte isso contribuiu para que entre os centros de peregrinação da cristandade europeia medieval, Santiago de Compostela começasse a ser o mais procurado. 

O chamado Codex Calixtino ou Liber Sancti Jacobi, foi redigido entre 1140 e 1160 por distintos autores e dedicado ao papa Calixto II. A obra tinha como função promover a sé de Santiago de Compostela que era então sede metropolitana na Galiza. Ricamente ilustrado e escrito, o códice é dividido em cinco partes (ou livros), a primeira contém material litúrgico para instrução e pregação, a segunda parte é bastante interessante, pois relatava 22 milagres atribuídos a São Tiago, servindo inclusive de propaganda para atrair mais peregrinos a cidade; a terceira parte tem caráter histórico e narra as missões de São Tiago na Hispânia e a história de sua tumba e descoberta dela. A quarta parte aborda uma lenda sobre o imperador Carlos Magno (742-814) e seu nobre cavaleiro Rolando, creditando a eles terem descoberto a tumba do apóstolo Tiago Maior. Embora Carlos Magno e Rolando tenha visitado a Hispânia no começo do século IX, nunca foram além dos Pirineus propriamente. Porém, como se tornaram figuras famosas, a história foi bem recebida entre os francos. Por fim, a quinta e última parte do códice, aborda um guia para os peregrinos. Esse livro é atribuído ao clérigo Aymerico que teria feito a peregrinação e decidiu escrever o guia para auxiliar outros viajantes. A descrição de Aymerico é o guia de peregrinação a Santiago de Compostela, mais antigo que se conhece. O relato de Aymerico informa as rotas a seguir, saindo principalmente da Francia, os lugares a onde descansar, buscar abrigo, igrejas, relíquias e locais santos a se ver na viagem. O relato também descreve cidades, vilas e igrejas, e é claro, contém descrições da Vila de Santiago. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 62). 


Representação de Santiago Maior em um dos fólios do Codex Calixtino. 
Com a popularização de Santiago de Compostela como importante centro de peregrinação da Europa, novos caminhos foram surgindo. Por exemplo, os ingleses que eram conhecidos por fazerem peregrinações há vários pontos de seu arquipélago, passaram a se interessar no final do século XI a ir visitar Compostela, então partindo de distintos portos eles seguiam até a vila de A Coruña no norte da Galiza, de onde seguiam a pé até Compostela. Essa rota ficou conhecida como Caminho Inglês. Apesar de levar este nome, os francos e outros povos vindos do norte, que viajavam pelo mar, aportavam em A Coruña e faziam o mesmo trajeto. Advindo do sul, do então Condado Portucalense (868-1139) - que somente no século XII tornou-se o Reino de Portugal -, surgiu o chamado Caminho Português. Entretanto, na época ele começava no Porto, então capital do condado e seguia um percurso próximo da costa. Posteriormente com o crescimento das vilas de São João de Rates, Braga e Guimarães, por supostamente terem sido visitadas pelo apóstolo Tiago Maior, o caminho ganhou ramificações. Somente tempos depois quando Lisboa tornou-se capital de Portugal é que o início do caminho foi estendido para o sul, para a nova capital. 


Mapa com os caminhos mais antigos: Caminho Francês em vermelho, o Caminho da Prata em amarelo, o Caminho Inglês em azul claro, o Caminho Português em verde, o Caminho Primitivo em azul escuro e o Caminho do Norte em azul. 
Na Hispânia, além do Caminho Primitivo e do Caminho Inglês, havia outras rotas de peregrinação e também a mais importante de todas, o Caminho Francês. Uma das rotas hispânicas, foi chamada de Caminho da Prata, que inicia-se em Sevilha e segue por uma antiga estrada romana usada para o comércio e transporte de minério de prata, passando por cidades como Caceres, Salamanca, Zamora, entre outras até virar para noroeste e adentrar a região da Galiza. Quando Madrid passou a ser uma cidade de destaque, surgiu o Caminho de Madrid, mas partindo rumo ao norte até o Caminho Francês, de onde os peregrinos seguem viagem por tradicional percurso. O mesmo vale para o Caminho de Barcelona, que se inicia em Barcelona e liga-se ao Caminho Francês. 

Neste caso o Caminho Francês se populariza no final do século XIII, após o destaque dado pelo Codex Calixtino, embora seja uma das rotas mais extensas. Em território espanhol, essa estrada estende-se de Santiago de Compostela até Roncesvalles nos Pirineus, depois adentra território franco (hoje francês), subdividindo-se em quatro estradas que seguem até Paris, Vézelay, Le Puy e Arles. Por sua vez, a partir de Arles começa o Caminho Italiano que segue até Roma. A partir das rotas francesas outras rotas menores se estendem pela França, indo também para a Bélgica, Holanda, Alemanha, Suíça e além. 


Mapa com os principais caminhos para Santiago de Compostela, em destaque o Caminho Francês em vermelho e suas ramificações principais, em azul. 
Aos peregrinos que decidem fazer a viagem hoje em dia, qualquer um dos caminhos é válido, vai depender da disposição física, financeira, tempo e outros fatores para percorrê-los, pois aqueles que optam por caminhos mais curtos, seguir o Caminho Primitivo, o Caminho Inglês e outras rotas na Galiza, são uma boa pedida. Os que preferem caminhos medianos com mais de 200 Km, podem recorrer ao Caminho Português saindo do Porto ou de Lisboa, o Caminho da Prata ou o próprio Caminho Francês, seção espanhola. Os que estão dispostos a seguir por uma rota bem mais longa, com mais de 500 ou 800 km, podem pegar o Caminho Italiano ou as ramificações do Caminho Francês, como partindo de Paris. 

O fenômeno da peregrinação: 

Primeiramente é preciso comentar um pouco sobre o fenômeno da peregrinação. A ideia de peregrinar não é uma invenção cristã ou exclusiva do Cristianismo, outras religiões também fazem isso. Os muçulmanos possuem o hábito de peregrinar anualmente a Meca; os antigos hebreus faziam peregrinações a Jerusalém; budistas na Índia, China, Tailândia, Coreia do Sul, Japão e outros países asiáticos, também possuem o costume da peregrinação. No Japão, os seguidores do Xintoísmo também fazem peregrinações. Hinduístas de diferentes denominações, também realizam peregrinações na Índia. Na Antiguidade, povos como os gregos, romanos, egípcios e persas também realizavam peregrinações, geralmente para consultar oráculos. Posto isso, observa-se que o fenômeno da peregrinação é uma prática antiga e difundida entre três continentes, embora haja evidências de também ter ocorrido nas Américas. De qualquer forma, a peregrinação consiste numa prática de caráter religioso, para distintos fins. 


A Caaba em Meca, em época de peregrinação (Hajj). 
Diana Webb (1999) explica em seu livro Pilgrimns and Pilgrimage in the Medieval West a respeito do papel das peregrinações para a Europa cristã. Embora ela trate de um recorte específico, os comentários postos por ela, alguns são aplicáveis a outros povos também. No caso, Webb aponta que a prática de peregrinar é antes de tudo, uma decisão motivada por fins religiosos, apoiada por outras demandas, as quais levam o fiel a se sujeitar a aquele sacrifício. No caso, a peregrinação é considerada uma provação, um ato de sacrifício, no qual o fiel deixa seu lar e sua família, e parte numa longa jornada que leva dias, semanas ou meses. Além de ser um ato de desapego e de provação, também é um ato de fé no sentido que os fiéis não sabiam se chegariam no seu destino e se conseguiriam voltar vivos para casa. Muitos peregrinos morriam durante a jornada, por isso que tal viagem é encarada como uma provação e uma expectativa de fé, por não saber se você sobreviveria a jornada.

Mas por quais motivos pessoas decidiam passar por essa provação? Anteriormente eu disse que era por uma questão de fé. Conrad Rudolph (2004) comenta que cada pessoa pode ter suas próprias prerrogativas religiosas para levá-las a fazer tal jornada, porém, na Idade Média, observou-se alguns fatores em comum: devoção, cumprimento de promessas, busca por graças ou milagres e penitência. Diante disso, a autora explana que os peregrinos, mas também romeiros e palmeiros realizavam tais viagens objetivando testar sua fé pessoal e sua fé em Deus e nos santos; a devoção também pode ser refletida como a obediência aos costumes, pois entre algumas pessoas, o ato de peregrinar regularmente é visto como uma exigência ao fiel; buscavam realizar a jornada como forma de penitência aos seus pecados; viajavam em busca de graças ou milagres; caso tenham realizado alguma promessa e essa foi atendida, eles viajavam até determinado local de peregrinação para exibir sua gratidão. Embora se tratem de prerrogativas medievais, ainda hoje elas são motivos para levar a peregrinação de cristãos e até de outros povos. 

Em minhas viagens pessoais, tive a oportunidade de visitar outros locais de peregrinação, como o Vaticano, Fátima em Portugal, Juazeiro do Norte e Aparecida do Norte, ambos no Brasil. Essas quatro cidades são centros de peregrinação e anualmente a população as visitas. No caso sublinha-se a condição que a visita a tais cidades não seja realizada a pé, os devotos tendem a ir de ônibus e carro. Para essas pessoas o importante não é fazer a caminhada em si, mas mostrar sua fé de anualmente ir até esses lugares, geralmente o fazem na época de feriados religiosos. Percebi em minhas visitas os peregrinos comentando que estavam indo por lá para apresentar sua devoção, agradecer por promessas ou pedir por graças e milagres. Em alguns casos eles também aproveitavam para levar crianças, ensinando-as sobre a importância do ato de peregrinar. 


A Romaria do Terço dos Homens na Catedral de Nossa Senhora Aparecida, Aparecida do Norte, Brasil. 
No caso dos peregrinos de Santiago de Compostela, já pelo século XII, estava consolidado vários aspectos que os caracterizavam. O chapéu de abas largas, uma capa de viagem ou hábito, um bastão usado para ajudar na caminhada e na defesa, pois a ponta inferior era afiada e a ponta superior possuía um pomo usado para bater. Apesar que em alguns casos o bastão fosse um simples galho longo, sem esses adereços defensivos. No bastão também poderia se encontrar uma cabaça para se carregar água ou vinho. Na cintura, amarrada ao cordão do hábito ou das vestes, carregava-se uma bolsa retangular, onde iam as provisões alimentares e outros objetos necessários para a viagem. Os peregrinos de Santiago também usavam uma concha, símbolo já identificado no Codex Calixtino, representando o Caminho Jacobeu como também se referia o Caminho Francês. Como parte da rota seguia próximo ao mar, as conchas foram usadas para identificar o trajeto e os peregrinos. Simbolicamente ela representa devoção, fé, pureza, esperança, vida, etc. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 77-78).


Estátua de São Tiago Peregrino. A imagem representa a indumentária usada pelos peregrinos na Idade Média. 
A importância econômica das peregrinações: 

Para além do valor religioso que essa prática traz aos devotos, ela também gera renda, e isso foi importante para que vilas, cidades e templos pudessem sobreviver ao longo de séculos. A forma como as peregrinações geram renda ocorre de duas formas: a primeira é através de donativos. Entre diferentes povos era e ainda é comum, que os peregrinos ofertem algo aos templos, santuários, igrejas, mesquitas etc. Essa oferta hoje em dia geralmente é feita na forma de quantias de dinheiro, mas no passado poderiam ser objetos, vestes, mercadorias no geral. O ato de ofertar serve tanto para manter as atividades dos clérigos responsáveis por aqueles locais, mas também seria encaminhado aos pobres e necessitados - ou pelo menos é o que se espera -. 

A segunda forma de renda advém da condição que os peregrinos possuem necessidades, duas delas são as mais comuns: abrigo e comida. Com isso, nos locais de peregrinação e pelas estradas que conduzem até lá, surgiram hospedarias, albergues, pousadas, hotéis e locais para se alimentar como tavernas, restaurantes, lanchonetes mais recentemente, além de feiras e mercados. O interessante no caso das feiras e mercados diz respeito a condição de que os camponeses e comerciantes locais aproveitavam aquele aglomerado de viajantes, para poderem vender seus produtos. Dependendo do local de peregrinação, centenas ou milhares de pessoas se reúnem por alguns dias, logo, eles precisam se alimentar, com isso a venda de comida é um ponto alto. 

Por outro lado, havia peregrinos com dinheiro para comprar mercadorias diversas. Alguns necessitavam reparar suas vestes ou calçados, os que tinham mais dinheiro, compravam novas roupas e calçados ou pagavam para se fazer os consertos. Os de maior poder aquisitivo, lembrando que pessoas ricas e até nobres também realizavam tais viagens, como no caso de Santiago de Compostela, há relatos de nobres fazendo essa jornada. E como eles tendiam a viajar em geral com comitivas, levavam donativos, mas também fundos para serem gastos. Diana Webb (1999, p. 124-126) comenta que mesmo no medievo esse comércio de outros tipos de produtos como tecidos, roupas, calçados, alimentos, bebidas, etc. foi comum. E ela até destaca o fato de que em alguns casos já se vendiam souvenires também. É evidente que naquele tempo havia poucas opções de lembrancinhas, mas objetos como terços, cruzes, escapulários, conchas etc. já eram vendidos no caso do medievo cristão. Porém, o comércio de souvenires somente se intensifica propriamente a partir do século XX.  

Considerações finais: 

Santiago de Compostela e sua catedral continuaram a crescer nos anos seguintes. A catedral ganhou novas torres, como a Torre do Relógio no século XIV, além de ter recebido reformas internas e externas, mas somente nos séculos XVI ao XVIII que o estilo barroco que lhe dá a beleza atual, começou a ser aplicado. No século XIV apesar das novas reformas que a catedral passou, a cidade foi alvo de conflitos políticos e da Peste Negra, que matou boa parte da população. A cidade levou décadas para se recuperar. No século XV, a cidade começou a se expandir propriamente para fora das muralhas. Em 1495 foi fundada a Universidade de Santigo de Compostela, uma honra para poucas cidades naquele tempo. No período as peregrinações estavam em baixa e isso afetava a economia da cidade. Mas com a fundação da universidade, atrairia recursos, já que apenas os ricos estudavam. Em 1501 teve início da construção do Hospital Real ou Hospital dos Reis Católicos - atualmente é uma hospedaria -, uma grande aquisição à cidade. No mesmo século devido ao surto regular de doenças, hospitais religiosos foram fundados, como o hospital de San André na Rua do Vilar, Santa Ana, San Miguel, San Lázaro, Santa Marta e San. Data do período também a construção de colégios religiosos para educar os filhos da elite, assim como, para atuar como seminários. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 114-115). A cidade continuou a crescer de forma lenta nos séculos seguintes, recebendo mudanças na estrutura das casas, pavimentação de ruas, expandindo-se inclusive para fora de suas muralhas que vieram a ser demolidas. No caso desse texto, prezei em comentar mais a época medieval, pois remonta a origem da vila, da igreja, da tradição e das peregrinações. 


Fachada principal da Catedral de Santiago de Compostela. Tal aparência apenas foi obtida na Idade Moderna e em obras posteriores. Foto minha, tirada em junho de 2019. 
Dicas turísticas: 

Se você vai a Santiago de Compostela par fins religiosos como peregrino, ou está indo para turismo, estudo ou trabalho. Aqui vão algumas dicas. 
  • A catedral está em reforma. Logo você irá encontrar muitos andaimes e tapumes no interior. Porém, a visitação segue regularmente. 
  • É costume ao visitar a catedral, abraçar a estátua de São Tiago. Se você não tiver problema com isso, sugiro participar do rito. 
  • Na catedral a partir da Praça do Obradoiro, pode-se ter acesso ao Museu da Catedral, que permite visitar outras áreas do complexo religioso.  
  • A Missa dos Peregrinos atualmente ocorre na Igreja de São Francisco, as 12h, horário local. Como a catedral está em reforma, a missa foi transferida. 
  • Na Rua do Vilar encontram-se lojas de souvenires, cafeterias, a Livraria San Pablo e também o Hotel Rua Villar. Sua proximidade da catedral é uma ótima escolha, especialmente para quem tem condições financeiras de gastar mais com hospedagem. 
  • A Rua da Rainha (Rúa da Raiña) e a Rua do Franco, são bons locais no centro histórico para se fazer refeições, por possuírem muitos restaurantes, bares e lanchonetes. Ambas as ruas são vizinhas da Rua do Vilar e ficam bem próximo da catedral. Embora que outras ruas do centro também contém com restaurantes, bares e lanchonetes. 
  • O Museu das Peregrinações que fica ao lado da catedral, na Praça das Pratérias, é uma boa recomendação, por reunir objetos sobre as peregrinações a Santiago além de contar a história a respeito e também mostrar outras peças. Seu ingresso custa 2,40 euros e em alguns feriados religiosos a entrada é gratuita. O museu não abre nas segundas. 
  • Passeio de trem na Praça do Obradoiro. Ao custo de 6 euros, o passeio dura de 30 a 40 minutos, visitando o centro histórico antigo e novo, além de passar diante de algumas praças, parques, igrejas e das faculdades.  
  • Praça de Cervantes. Em homenagem ao grande escritor espanhol, Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de La Mancha, embora seja uma praça pequena, mas vale apena visitar pelo monumento ao escritor, além de haver cafeterias, lojas e uma igreja. Da praça, seguindo pela Rua da Acibecheria, pode-se visitar a Ruela de Jerusalém (Ruela de Xerusalém), local do pequeno gueto judio que existiu na cidade há muito tempo, e ir à Rua da Troia, famosa pelos antigos albergues estudantis, e atualmente tem-se o Museu Casa da Troia, que preserva essa história estudantil universitária da cidade. 
  • A Praça da Quintana que foi um antigo cemitério, é um local belo para se fotografar um dos lados da catedral e o Convento de San Paio de Antealtares. Também há cafeterias no local. À noite, no lado da catedral, existe um pilar que projeta sua sombra na parede da catedral. O mesmo é chamado de Sombra do Peregrino
  • A partir da Praça do Obradoiro, pode-se visitar o Paço de Roxoi, tirar foto do Hostal dos Reis Católicos e seguir a pé até dois parques conhecidos como As Hortas
  • No centro histórico também é possível visitar alguns dos prédios da universidade, como o da Faculdade de Geografia e História, sendo possível ter acesso a sua biblioteca para pesquisa. Ao redor da faculdade há algumas pequenas praças para se tirar fotos. 
  • O Museu do Povo Galego fica um pouco distante da catedral, mas é um bom local para se visitar, especialmente se tiver interesse em conhecer a história da Galiza. 
  • Algumas das maiores igrejas do centro histórico possuem museus, aos interessados em visitá-las, saibam que determinadas áreas dessas igrejas somente são acessíveis mediante ingresso pago. 
  • A escultura das Duas Marias fica situada no Parque da Alameda e é bem famosa. A estátua dupla, representa as irmãs Maruxa e Coralia, que nas décadas de 1950 e 1960, se tornaram famosas por serem figuras excêntricas. 
  • Quem for passar alguns dias em Santiago pode aproveitar para fazer passeios pela Galiza, indo para A Coruña, Lugo e Finisterra, pontos turísticos bem conhecidos e que normalmente fazem parte dos pacotes de viagem local. 
  • A Festa do Apóstolo que é uma das mais importantes da cidade, é celebra em 25 de julho. Quando o feriado cai no domingo, o festejo é maior. 
  • Durante a Semana Santa não há grandes festejos, mas ocorrem pequenas procissões.
  • O Dia de São Roque que é o segundo padroeiro da cidade, é celebrado em 16 de agostoEm maio ocorrem alguns festejos populares importantes. 
  • No centro histórico após escurecer, muitos restaurantes e cafeterias fecham e as lojas estão fechadas, uma alternativa é ir aos bares e tavernas que ficam abertos de madrugada. Ou se dirigir para fora do centro histórico. 
  • A famosa Torta de Santiago é vendida em mercados, restaurantes, lanchonetes, cafeterias e lojas, pois normalmente vende-se a versão industrializada que vem numa caixa. Uma dica para economizar é comprar a torta em mercados ou pegar alguma promoção nas lojas, pois a fatia em alguns lugares custa o equivalente a comprar uma torta inteira. 
NOTA: Data também da segunda metade do século XII a criação da Ordem de Santiago, ideia proposta pelo rei Afonso VIII e efetivada pelo papa Alexandre III em 5 de junho de 1175. Originalmente a ordem chamava-se Ordem de Cáceres, tendo sido fundada em 1164. Mas com o crescimento e importância do arcebispado de Santiago, o rei Afonso VIII decidiu trocar o nome da ordem e eleger São Tiago como seu padroeiro. A ordem passou a possuir duas vertentes principais, a castelhana e a portuguesa. Apesar de estar ligada a São Tiago, necessariamente ela não tem relação direta com Santiago de Compostela e as peregrinações. 
NOTA 2: A Quintana dos Mortos e Vivos, importante praça ao lado da catedral, somente tornou-se praça no século XVIII, anteriormente era um cemitério, por isso a referência aos mortos. No século XVIII ao XIX, foi uma das mais significativas praças no centro histórico da cidade, havendo feiras regularmente lá. 
NOTA 3: Em 1985 o centro histórico da cidade foi eleito Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Em 1995 o Caminho de Santiago - Caminho Francês ou Caminho Jacobeu - foi eleito como Patrimônio da Humanidade. 

Referências bibliográficas: 
MANZANARES, César Vidal. Dicionário Histórico do Cristianismo. Aparecida, Editorial Santuário, 2005. 
LÓPEZ, Simón Vicente; SEIJAS, Julio Prado. Compostela una historia entretenida. Santiago de Compostela, Sotelo Blanco, 2010. 
RUDOLPH, Conrad. Pilgrimage to the End of the World: The Road to Santiago de Compostela. Chicago, Chigago University Press, 2004. 
WEBB, Diana. Pilgrims and Pilgrimage in the Medieval West. London/New York, I. B. Tauris, 1999. 

Outras referências foram baseadas na exposição do Museu das Peregrinações e na exposição do Aeroporto de Santiago de Compostela. 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Chernobyl - A Catástrofe

Devido ao sucesso do seriado Chernobyl da HBO, trago este artigo que comenta os acontecimentos sobre o maior acidente radioativo que teve-se até então no mundo. As imagens aqui utilizadas foram escolhidas por mim para ilustrar o texto dos autores. 

Chernobyl - A Catástrofe


Me. Djmes Yoshikazu de Lima Suguimoto
Dra. Maria Augusta de Castilho

Introdução

A usina nuclear Vladimir Lênin está localizada a cerca de 20 km da cidade de Chernobyl, e cerca de 110 km de Kiev capital da Ucrânia e a 4 km da cidade de Pripryat. A instalação da usina foi iniciada em 1970 e em 1983 foi entregue o reator nº 4 onde aconteceu o acidente. Ainda existiam dois reatores em construção no momento da tragédia, mas os dois últimos complexos só tiveram suas obras paralisadas após três anos. Em dezembro de 2000 foram definitivamente desativados todos os reatores, mas ainda hoje existem pessoas que trabalham em Chernobyl, tais como: militares, funcionários da usina que atuam no controle da radiação e na administração.

1 Finalidades da usina nuclear

A construção desta usina teve como estratégia sua localização geográfica para beneficiar a União Soviética, e além de oferecer energia para cidades industriais e residenciais. A fabricação de bombas nucleares era o aspecto mais sombrio da usina, já que o contexto geopolítico neste período tornava indispensável à produção e a corrida armamentista entre duas potências: EUA e URSS. Na segunda guerra mundial os EUA detonaram duas bombas atômicas nas cidades japonesas de: Hiroshima e Nagasaki. Essa arma fez com que vários cientistas soviéticos voltassem seu trabalho para a força do átomo, esse esforço representava o orgulho tecnológico que uma sociedade socialista podia criar. Em 1942 a URSS deu início ao programa nuclear soviético, com seus engenheiros apelidados de especialistas vermelhos pelos engenheiros ocidentais. Esses cientistas soviéticos conheciam e dominavam o desenvolvimento e construção de bombas nucleares, mas a questão das usinas estava atrasada em comparação ao ocidente, já que a preocupação naquele momento era a produção do plutônio. A construção de uma bomba nuclear que os soviéticos desejavam tinha como principal combustível o plutônio, que pode ser produzido apenas artificialmente.

Localização de Chernobyl na Ucrânia. 
Era necessária a produção em grande escala para desenvolver reatores específicos para fabricação deste elemento químico. Esse processo gera energia térmica, antes de se pensar em usinas para produção de energia elétrica esse calor resultante da transformação de urânio em plutônio causava dor de cabeça aos pesquisadores. “A quantidade imensa de calor que produziam era tida como inconveniente pelos projetistas” (HAWKES et al., 1986, p. 36). Os locais de produção eram semelhantes às usinas nucleares, existindo barras de contenção para controlar nêutrons, água ou gás, chamados de refrigerante, para a refrigeração que se torna vapor, com os mesmos princípios de usinas termoelétricas que utilizam o vapor para girar turbinas e produzir energia elétrica, com algumas vantagens, e uma delas era em quantidade de combustível utilizado. “A energia contida em um quilo de urânio utilizado em um reator, quando liberada, equivale à fornecida pela quantidade de 3.000 toneladas de carvão em usina convencional” (HAWKES et al., 1986, p. 34). A produção de energia foi uma consequência das pesquisas para desenvolvimento de armas nucleares, e isso aconteceu em todos os países que fizeram instalação e tais usinas.

2 Visão ocidental

A forma com que este projeto era visto pelo ocidente refere-se a mentalidade discriminatória pelo regime adotado na URSS. Alguns pesquisadores como Michele Lee e Oliver MacDonald examinaram a engenharia empregada na usina de Chernobyl. Em entrevista concedida para revista New Left Review de maio/junho de 1986 esses pesquisadores não atacam a usina ou o projeto, mas explicam de forma racional vários pontos que naquele momento ainda era uma dúvida: da evolução do reator PWR para o modelo em questão, sendo bastante sofisticada exemplificando a eficiência individual de cada tubo que armazena o combustível, de como é fácil trabalhar com os bastões sendo retirados individualmente e os motivos, na visão deles, para construção da usina (MEDVEDEV, 1987).

Examinando em fontes publicadas no período, que para outros pesquisadores do assunto tudo não passou de mais um erro grotesco do sistema comunista. É certo que a utilização do reator RBMK “Reactor Bolshoy Moshchnosty Kanalny” (reator de canaletas de alta potência) devia-se a vários fatores, tanto econômico, político e militar, mas sem dúvida os especialistas vermelhos eram capazes de aplicar os conhecimentos matemáticos, técnicos e científicos na criação de usinas assim como os engenheiros ocidentais. Produzir plutônio era um orgulho para a engenharia da União Soviética, sendo totalmente projetada pelos especialistas vermelhos e sendo alimentado de urânio com menor índice de enriquecimento.

“Para reduzir os riscos com o urânio, a maioria dos reatores ocidentais esfriados com água usa urânio altamente enriquecido, a taxa de 3,5%. Para economizar, os russos planejaram a usina de Chernobyl com reatores onde o urânio está enriquecido a 1,8% e é guardado dentro de blocos de grafite. O grafite é colocado em torno do urânio para manter a eficiência da operação” (REVISTA VEJA, 1986, p. 39).

A facilidade na troca do combustível feita por um guindaste sobre trilho também foi fator importante para utilização deste modelo de reator, já que não era necessário o desligamento total do reator, a queima não acontecia de forma regular. O núcleo sofria maior deterioração se comparadas com as extremidades, então era necessário fazer várias trocas, tornando este ponto do sistema desfavorável. À medida que substituía as varetas era necessário fazer perfurações enfraquecendo a tampa do reator. O tamanho do reator e a ponte móvel impedia a construção de um vasilhame metálico de contenção que cobrisse toda a estrutura (GROSS, 1987).

A única proteção era uma tampa de cimento que pesava em torno de 700 toneladas. Ainda assim esse modelo foi implementado em outros locais da URSS, o que trazia a instabilidade do reator era ser operado em baixa potência e os engenheiros soviéticos não tinham conhecimento até o acidente.

3 O acidente

A usina tinha recebido ordens do comitê estatal para uso da energia atômica e para fazer manutenção de rotina no reator nº4 no dia 25 de abril de 1986. Aproveitando a ocasião seriam realizados testes sobre a capacidade de refrigeração na falta de energia. As usinas nucleares não apenas produzem energia, mas também consomem para acionar as bombas responsáveis pela circulação do refrigerante que vai para o núcleo e sistemas auxiliares. Se uma usina está acima de 20% de produção ela própria se mantém, quando está abaixo deste valor precisa de energia externa (ESTEVES, 2013).

Caso falte energia o sistema de segurança entra em ação ligando os geradores de emergência movidos a diesel. Não é explícito, mas é certo que o motivo maior do teste na refrigeração era o medo de um ataque como ocorreu na central nuclear no Iraque em 1981 pelos israelenses.

"O experimento que estava prestes a ser feito foi realizado no pior momento, pois vários pontos cruciais que levariam a instabilidade estavam prontos para entrar em choque, tais como: todos os sistemas de segurança foram desligados, a barra de combustível estava em seu ciclo final, neste momento a falta de resfriamento ficou mais perigosa já que o produto da fissão no final de ciclo gerou uma quantidade maior de calor e ficou altamente instável. “O período final do combustível é onde tem maior acúmulo de resíduo nuclear, resultado da fissão do urânio, com isso o risco de vazamento também aumentou” (DALAVIA, 2014, p. 2).

Inicialmente os testes estavam programados para começar à 1h da madrugada do dia 25 de 1983. Às 14h houve o que se pode considerar como um dos pontos cruciais no acidente, o desligamento do sistema de resfriamento de emergência o que evitava seu funcionamento durante os testes. No mesmo momento houve um aumento na demanda de energia adiando o teste para o próximo turno. Às 00h houve a troca dos 256 funcionários para grupo da noite que assumiria a usina, o sistema de emergência continuava desativado. A potência na madrugada do dia 25 estava em 3.200MWth e foi reduzida até 1.600MWth. Manteve-se esta situação até as 00h005min do dia 26, ocasião

em que foi reduzida para 720MWth e continuava diminuindo. Segundo o relatório para execução dos procedimentos a potência segura do reator para execução seria de 700MWth a 1.000MWth. Por ordem do engenheiro supervisor Anatoly Dyatlov Stepanovich responsável pelo procedimento o reator teria sua potência diminuída até 200MWth para dar início aos testes. O operador responsável pela potência não conseguiu operar o sistema com a destreza necessária para balancear a força do reator, caindo para 30MWth, nesse momento começou o processo de envenenamento por xenônio 135.

“Os produtos de fissão produzidos durante a operação de reator figuram o xenônio 135, um gás que apresenta uma alta taxa de absorção de nêutrons. Quando o reator está em operação total há nêutrons suficientes para que essa absorção não represente nenhum problema, mas quando ele funciona a baixa potência ou é completamente desativado, o acúmulo de xenônio 135 fica insignificante. Depois da desativação total, o iodo 135 presente no núcleo continua a sofrer decaimento, produzindo mais xenônio 135, que vai se acumulando. Em consequência disso, o reator, da mesma forma que um carro afogado, só pode ser ligado depois que se tiver passado tempo suficiente para que o xenônio 135 decaia” (HAWKES et al., 1986, p.79).

O reator não respondia de forma eficiente e o controlador não conseguia elevar a potência devido ao envenenamento, pois a atitude feita contrariava todas as normas de segurança. O reator possuía um total de 211 barras de controle, mas o máximo de barras que poderia ser removida seria de 181, porém foram deixadas pelo operador apenas 6. “Optou-se pela remoção das barras de controle, aumentando a potência do reator entrando num regime de funcionamento instável, com risco de sofrer elevações incontroláveis de potência” (ESTEVES, 2013).

Normalmente o reator funciona com quatro bombas de refrigeração, o que é suficiente para manter a pressão de água e vapor adequada dentro dos tubos, sendo extremamente importante devido à condição do tipo de reator. Neste dia as quatro bombas estavam em funcionamento e foram adicionadas mais duas; posteriormente foi ligada ao sistema mais duas bombas ficando com um total de oito.

“Estava criada, no entanto, uma situação irregular, com oito bombas funcionando e o reator em potência de apenas 200MW, e não de 500MW conforme estabelecida no programa. [...] Como decorrência, a residência hidráulica do sistema de circulação (núcleo com os canais de combustível e as próprias bombas) atingiu um ponto sensivelmente menor do que o valor previsto para o funcionamento normal e seguro do reator. Como havia menos vapor – e, portanto, menos pressão – nos sistemas de circulação, o volume de água em circulação aumentou enormemente, até atingir 56.000 a 58.000m³/h. Trata-se de regime proibido, pois implica risco de danificação das bombas e produz vibrações nos principais sistemas de resfriamento (com ocorrência de cavitação), criando ainda uma fonte adicional de calor” (GROSS, 1987, p. 32).

O fluxo de vapor no controlador caiu devido ao volume de água disparando os alarmes, ao invés da manobra ser interrompida e o reator desligado, o controlador desligou o alarme. A combinação de menos barra de controle com um fluxo maior de água e xenônio 135 no primeiro momento ajudou a manter o nível de nêutrons no núcleo, já que a água retém essa partícula. Quando o teste propriamente começou, foram fechadas as válvulas de entrada da turbina e a energia das bombas d’água foi desligada, diminuindo assim o fluxo de água no núcleo.

“Às 1:23:04h foram fechadas as válvulas que controlam o fluxo de vapor para o turbo gerador nº8, iniciando-se assim run – down propriamente dito. Desligou-se ao mesmo tempo o sistema de proteção que entra automaticamente em operação quando o gerador funciona em condições irregulares” (GROSS, 1987, p. 33).

O reator deixa a estagnação e começa o aumento na reação criando vapor devido à falta de água para manter refrigerado. O espaço entre as bolhas não consegue absorver os nêutrons, permitindo sua passagem gerando o processo em cadeia e dessa forma torna-se, a formação de vapor é incontrolável. Os operadores ainda não tinham conhecimento do que estava acontecendo no núcleo, lembrando que todos os sistemas de segurança foram desativados, neste momento a última opção para evitar o desastre.

Buraco ocasionado pela explosão do reator 4 na Usina de Chernobyl. 
Quando foi percebido o que estava acontecendo, o chefe de turno ordena que fossem inseridas as barras, o operador aperta o botão AZ-5, responsável por inserir todas as barras de controle no núcleo. O calor no interior do reator era tão intenso que deformou as barras de combustível impedindo a passagem das barras de controle. Em uma medida desesperada as barras foram soltas dos motores que faziam a inserção. Todo o grafite que existia no núcleo fez com que a força armazenada nos combustíveis fosse amplificada, quando as barras de controle foram inseridas ao invés do reator reduzir, ele aumentou sua capacidade. “Com a inserção das barras, houve o deslocamento da água que refrigera os elementos combustíveis para dar lugar ao encamisamento e, no primeiro instante, houve uma subida brusca na potência ao invés do efeito desejado que era o de reduzir a potência” (ESTEVES, 2013).

Neste momento não existia nenhuma possibilidade de reversão da situação, o que estava por vir seria o fim do reator e o início do maior desastre nuclear para fins pacíficos do mundo. O nível de potência salta de 7% para 50% em apenas três segundos (HAWKES et al., 1986, p. 82).

O excesso de vapor fez com que todo o sistema começasse a vibrar, a força exercida no sistema era além do que o projeto podia suportar; a pressão acumulada fez com que um equipamento de 200 ton. caísse sobre o sistema de refrigeração agravando ainda mais o problema. Ouve-se um primeiro estrondo, era o vapor destruindo o reator, uma explosão hidráulica fazendo com que a tampa de contenção que pesava 700 t. fosse levantada, que na sua queda destruiu boa parte do prédio.

“Os reatores de Leningrado não contam com vaso de contenção, nem com sistema de vaporização por canais e sistema alternativo de desativação, tais como os adotados na Inglaterra. Contudo, o problema mais importante parece ser o de projetar e demonstrar um sistema de contenção do núcleo que possa resistir à pressão do vapor no caso de rompimento dos tubos pressurizados” (HAWKES et al., 1986, p. 85).

As matérias que existiam dentro do reator como o grafite e o zircalói, que em contato com a água e o calor extremo produziu hidrogênio e monóxido de carbono, ao entrar em contato com o oxigênio tornando-se explosivo. Após a explosão de vapor, o hidrogênio contido no reator inicia várias outras explosões. Tais explosões, incendiárias, inicialmente foram combatidas pela equipe de bombeiros (30 focos) e o grafite presente em grandes quantidades está superaquecido, tornando quase impossível o controle do incêndio pelos bombeiros que vão trabalhar no local. A explosão liberou toda a radioatividade contida no interior do reator, materiais como: plutônio, césio, estrôncio, urânio e grafite altamente contaminados foram ejetados para fora da usina. Fontes divergem sobre a quantidade de material lançado para a atmosfera, uns calculam a liberação cerca de 50 ton. De produtos nucleares, outros assinalam 3 milhões de terabecqueréis, e outros consideram 10 vezes mais do que a bomba de Hiroshima. O reator n° 4 de Chernobyl estava com seu futuro selado, liberando radioatividade sem nenhum controle pelos próximos oito meses até que a limpeza e construção do sarcófago fossem finalizadas, tornando-se um problema ainda maior para a URSS.

A cidade de Pripyat e os moradores

A cidade de Pripyat foi fundada em quatro de fevereiro de 1970, principalmente para os trabalhadores da usina. A infraestrutura contava com casas, apartamentos, escola, hospitais, bibliotecas, cinemas, salas de espetáculos, locais para esporte, lojas, ferrovia e rodovia. Todos os trabalhadores da usina esforçavam-se ao máximo para permanecer na cidade, o medo de ser transferido para outros lugares sem a mesma estrutura forçava com que as decisões do partido ou dos engenheiros chefes fossem executadas sem alterações, ou questionamentos, o que se pode explicar em partes por que os operários não desistiram do teste na usina.

Quando o acidente aconteceu sua população tinha cerca de 49.000 habitantes, segundo o documentário - O desastre de Chernobyl produzido pelo Discovery Chanel, que é reconhecido pela embaixada da Ucrânia no Brasil por meio de documento disponibilizado como fonte fidedigna. Tal documentário atesta que só após trinta horas do ocorrido as medidas de precaução foram tomadas para os habitantes, como a distribuição de pílulas de iodo e a evacuação em massa. O prazo para evacuação foi de duas horas, literalmente a população saiu com a roupa do corpo abandonado sua casa e vida naquela cidade. Segundo essa mesma fonte todas as pessoas foram evacuadas em apenas três horas e meia, sem nenhum tipo de pânico, ônibus levaram os primeiros refugiados atômicos da Europa. A evacuação aconteceu sem nenhum tipo de desespero, mas não foram sem recusa, uma vez que muitos moradores em alguns locais convocaram assembleias para evitar a saída das pessoas. Alguns idosos não acreditavam em um inimigo invisível, chegavam a esconder-se em porões e quando achados pelos militares ficaram aos prantos por ter que abandonar suas terras. A cidade de Chernobyl só foi evacuada no dia 27, essa cidade era maior que Pripyat, a estratégia para levar as pessoas a um local com melhores condições foram as mesmas executadas nas primeiras cidades e vilas.

Conjunto habitacional em Pripyat. Ao fundo a usina de Chernobyl. A cidade foi evacuada ainda em 1986, sem receber retorno de moradores desde então. 
As cidades, vilas e casas rurais dentro da zona de exclusão nunca mais iriam receber nenhum habitante, tornando-se cidades-fantasmas que ainda hoje abriga objetos dos seus antigos moradores. Segundo o Greenpeace Brasil (2011) cerca de sete milhões de pessoas estavam em zonas contaminadas no período do acidente, e foi estimado que trezentos e cinquenta mil pessoas deixaram seus lares nas zonas mais contaminadas.

5 Possíveis vítimas

Por mais perturbador e absurdo que possa parecer, as informações oficiais sobre mortes no primeiro momento foi de apenas duas pessoas, posteriormente esse número foi alterado. Ainda hoje algumas fontes divergem sobre a contagem dos mortos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e fontes oficiais assinalam em um total de 59 mortes relacionadas diretamente ao acidente, outras fontes apontam 31 ou 33 pessoas.

As primeiras pessoas a morrerem no acidente foram alguns funcionários que trabalhavam no interior da usina, nem todos morreram imediatamente ou devido às altas doses de radiação, alguns ficaram presos, ou sofreram queimaduras em todo o corpo. As primeiras pessoas que não trabalhavam diretamente na usina foram os bombeiros que rapidamente atenderam o chamado. A explosão ejetou em todas as direções grafite em chamas altamente radioativos, que se tornou quase impossível à extinção das chamas com os métodos tradicionais. Todos os bombeiros receberam doses muito elevadas de radiação, o equipamento de proteção não era adequado para tal situação, a temperatura do local chegou a derreter a sola dos sapatos destes homens. Algumas horas depois foi solicitado o reforço, os que tentavam apagar o fogo começavam a mostrar os primeiros sintomas de contaminação, os primeiros bombeiros morreram imediatamente ou em alguns dias depois.

A limpeza do desastre ficou por conta dos liquidadores, um apelido dado às pessoas que trabalharam em qualquer função relacionada à limpeza e contenção da radiação. Esse termo está ligado a questão de “liquidar Chernobyl” ou “acabar com o problema”. Os liquidadores eram: engenheiros, reservistas, militares das forças armadas, bombeiros, civis, mineiros, trabalhadores de construção, médicos e policiais. Essas pessoas fizeram parte de uma operação gigantesca que envolvia a limpeza na zona de exclusão, caça aos animais contaminados, construção de um túnel embaixo do reator avariado para instalação do sistema de refrigeração, fiscalização dos limites, construção do sarcófago entre outras funções. Uma estimativa do contingente de pessoas foi de seiscentas mil, todas contaminadas de alguma forma sofrendo os efeitos até os dias de hoje. Essas pessoas ficaram fisicamente incapacitadas e seus auxílios constantemente são reduzidos, deixando sua situação ainda mais precária.

Outro grupo que esteve no centro do problema foi apelidado de biorobôs, jovens com a tarefa de limpar o telhado onde seria erguida a estrutura do sarcófago. Quando os engenheiros descobriram que o resto do telhado que resistiu a explosão estava cheio de grafite contaminado, decidiram jogar o lixo de volta para dentro do prédio, já que a estrutura cobriria tudo. Optou-se em utilizar robôs. Depois de algum tempo em funcionamento esse equipamento foi seriamente danificada devido ao alto grau de radioatividade que emanava do núcleo, a alternativa seria utilizar pessoas para fazer esse trabalho. Os homens selecionados para função tiveram que adaptar placas de chumbo ao seu corpo para minimizar os efeitos da contaminação, o trabalho tinha que ser rápido e só podiam permanecer no local por no máximo 40 segundos.

Funcionários limpando escombros no texto da usina do reator 4. Na época foram chamados de "biorobôs" devido as proteções feitas de chumbo que utilizavam. 
Esses homens sacrificaram suas vidas para evitar um desastre sem precedentes. Combateram o incêndio, diminuíram o nível de radioatividade, e limparam da melhor forma possível a zona de exclusão. Alguns homens não foram reconhecidos como liquidadores, foram excluídos dos méritos e da história, fizeram o trabalho que nem as máquinas suportavam. Foram os verdadeiros
heróis que evitaram algo ainda pior e estão sendo esquecidos.

6 Como o mundo soube da tragédia

A União Soviética escondeu o que estava acontecendo ao máximo. A Suécia foi o primeiro país que achou que havia algo errado, devido ao seu programa rígido de controle nas usinas, notaram que a poeira na roupa dos trabalhadores apresentava radioatividade muito acima do normal. Nesse momento todos os alarmes soaram e deixaram os suecos preocupados; medidas foram tomadas sem saber o que tinha acontecido, não estava no seu país mais sim no seu vizinho. Depois de uma extensa verificação percebeu-se que nada tinha acontecido nas suas usinas, voltaram suas dúvidas para os soviéticos. A Suécia tem em todo o território sensores que podem verificar qualquer variação na radioatividade, assim comunicaram à Casa Branca (EUA), que no primeiro momento não deu atenção ás informações afirmando que poderia ser gases que escaparam do subsolo devido aos testes. Os sensores sísmicos que foram instalados para verificar testes nucleares no subsolo não detectaram qualquer movimentação e os isótopos que estavam viajando junto com as nuvens apontavam que algo mais grave ocorrera.

Matérias dos jornais The Times e The Guardian de 29 de abril de 1986, noticiando o acidente nuclear em Chernobyl. 
Os soviéticos só assumiram que algo tinha acontecido dentro de suas fronteiras dois dias depois, enquanto isso, satélites espiões já vasculhavam para verificar o que tinha acontecido dentro da cortina de ferro. O mesmo documento cedido pela embaixada ucraniana reconhece que a nuvem com material tóxico fez seu passeio em praticamente toda a Europa, alcançando pontos do litoral leste dos EUA. Em outra fonte também é citado o tamanho da dimensão “[...] praticamente toda a Europa, parte da Ásia e, em menor escala, a América do Norte foram contaminadas pelos radionuclídeos liberados no acidente” (PASCHOA, 1987, p. 36).

Após alguns dias o líder Mikhail Gorbachev fez um pronunciamento revelando o que tinha acontecido. A ocasião inédita que marcou a história foi o pedido de auxílio que fez ao ocidente. Foi o próprio Gorbachev que convidou Hans Blix na época presidente da Agência Internacional de Energia Atômica (1981-1997), para inspecionar as consequências do desastre, sendo o primeiro ocidental designado para tal função. Para alguns o acidente em Chernobyl foi um golpe duro para URSS.

7 Contaminados por radiação e esquecimento

A contabilização das mortes que já aconteceram e ainda vão acontecer para a OMS, chegou à casa de quatro mil vítimas. O curioso nos dados que são apresentados por este órgão internacional ligado as Nações Unidas é a forma branda que a pesquisa leva em conta a aceitabilidade das pessoas permanecerem em locais contaminados. Ela julga que cerca de cinco milhões de pessoas ainda residem em locais onde se deve tomar medidas defensivas para diminuir o nível de contaminação, e assume que essas pessoas estão recebendo algum tipo de radiação lentamente. O documento dá a entender que é aceitável o nível de radiação destes locais, por mais que as pessoas estão sendo envenenadas aos poucos.

Para Dupuy (2007), o modelo usado pelos pesquisadores e autoridades para definir o número de pessoas afetadas ou as mortes é um cálculo que analisa o nível de radiação recebida proporcionalmente (modelo linear limiar), ou seja, não existe nenhum tipo de carga que se possa receber sem que afete os seres em geral, o que vai contra o relatório acima citado. O mesmo documento estima que até quatro mil crianças receberam doses suficientes para desenvolver câncer de tireóide no dia do acidente. Identificou-se também (de acordo com o mesmo documento) que as pessoas de baixa renda econômica resistiram em sair, mas como o nível de radiação estava acima dos padrões, tais pessoas sofreram grande radiação.

Como observado no relatório de Chernobyl Fórum de Saúde, o impacto sobre a saúde mental de Chernobyl é o maior problema de saúde pública desencadeada pelo acidente até hoje. Sofrimento psíquico decorrente do acidente e suas consequências têm tido um impacto profundo sobre o comportamento individual e da comunidade populações em áreas afetadas exibem atitudes fortemente negativas na auto-avaliações de saúde e de bem-estar e um forte sentimento de falta de controle sobre suas próprias vidas. Associado a estas percepções é um sentimento exagerado os perigos para a saúde da população exposta a radiação. Os afetados apresentam uma crença generalizada de que as pessoas expostas são de alguma forma condenadas a uma expectativa de vida mais curta. Esse fatalismo também está ligado a uma perda de iniciativa para resolver os problemas de sustentar uma renda e dependência de ajuda do Estado (FORUM DE CHERNOBY, 2005, p. 36 - tradução nossa).

Crianças apresentando deformações físicas, oriundas devido a contaminação pela radiação emitida no acidente em Chernobyl. 
Segundo a jornalista, política e escritora Alla Yaroshinskaya pesquisadora sobre o tema, que em sua carreira publicou vários trabalhos e livros sobre Chernobyl e indicada ao prêmio Nobel da paz em 2005, teve acesso aos documentos secretos enquanto ela fazia parte do Supremo Soviético em 1990 quando a URSS estava se desfazendo. Segundo esta autora os documentos comprovam que a alta cúpula do partido modificou deliberadamente os níveis aceitáveis de radiação que uma pessoa pode receber, diminuindo as taxas de pessoas contaminadas. Essa foi uma das decisões macabras que o governo soviético decidiu fazer, os motivos certamente seriam a sua permanência no poder, manter o controle sobre as pessoas e a imprensa e diminuir os gastos com o acidente. Segundo Yaroshinskaya além dos materiais radioativos, o reator liberou outro produto que afetou apenas os líderes da URSS à mentira ou como ela cita “a mentira de 82” fazendo um jogo de palavras com o césio 137.

Um documento que comprova que a sociedade afetada e os órgãos de pesquisa não chegaram ao um consenso sobre as mortes e vítimas, foi produzido pelo parlamento Europeu em onze de abril de 2011 com este registro: B5-0325/2001 que trata sobre a segurança nuclear quinze anos depois do acidente. Este documento relata a divergência de opiniões da seguinte forma:

“Considerando que, até à data, as consequências do acidente reconhecidas oficialmente se limitam a 33 mortos e a 1800 crianças e adolescentes vítimas de cancro da tiróide; que o relatório 2000 do UNSCEAR sobre esta matéria apenas reforça esta atitude, apesar de este balanço oficial ser veemente e continuamente contestado pelas vítimas e pelos especialistas e os cientistas ligados a este domínio; que organismos oficiais como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Serviço das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários têm uma posição muito diferente” (PARLAMENTO EUROPEU, 2011, p. 2).

É evidente que o trabalho de memória e esquecimento de micro e macro-história está fortemente ligado a este assunto, já que quando o assunto torna-se alvo das atenções, os temas lembrados são apenas o acidente, cidade fantasma, comunismo, erros e etc. Sempre esquecendo-se das pessoas que morreram ou tiveram suas vidas afetadas. O processo de esquecimento também refere-se aos problemas econômicos. Em 1986 a segunda crise do petróleo e a demanda de energia barata fez com que a URSS suprimisse o reconhecimento de quatro mil mortes, pois era necessário que a opinião pública não interferisse em questões nucleares do país. A questão das pensões também entra no cálculo para não reconhecer essas pessoas como vítimas. O relatório do fórum de Chernobyl reconhece que a radiação pode modificar ou matar.

“Interação da radiação ionizante (alfa, beta, gama e outros tipos de radiação) com matéria viva pode danificar as células humanas, causando a morte de alguns e modificando outras. A exposição à radiação ionizante é medida em termos de energia absorvida por unidade de massa, isto é, a dose absorvida. A unidade de dose absorvida é o gray (Gy)” (FORUM DE CHERNOBY, 2005, p. 36).

O mesmo relatório aponta que a radiação mais forte foi recebida pelos trabalhadores da usina e pelos bombeiros, já a população não sofreu com uma dose de corpo inteiro, não mais do que o mesmo nível da radiação de fundo. O impacto socioeconômico reconhecido foi enorme nas regiões europeias mais afetadas, o nível de pessoas principalmente crianças que desenvolveram câncer, de tireoide foi de quatro mil em 2002 (FORUM DE CHERNOBY, 2005).

Outro estudo realizado por 60 pesquisadores a pedido da organização não governamental Greenpeace (2006) aponta que o número de mortes provocadas pelo acidente pode alcançar a marca próxima de cem mil vítimas nos três países mais afetados. O mesmo documento acredita que só na Rússia o número de mortes já alcançou cerca de sessenta mil, e na Belarus e Ucrânia o número é de cento e quarenta mil vítimas, contestado pelo relatório da UNO como na seguinte passagem:

“Apesar das dificuldades para dimensionar o real número de vítimas, os resultados do relatório do Greenpeace comprovam que as estatísticas oficiais da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), divulgadas em setembro último e que falam em 4 mil vítimas, subestimam de forma grosseira o número de mortes provocadas pelo acidente, numa atitude desrespeitosa para com as vítimas” (GREENPEACE, 2006a).

Quando analisado esse documento na íntegra, identificam-se pontos controvertidos quanto ao número de mortes.

“Apesar da seriedade e extensão geográfica documentada da contaminação causada pelo acidente, a totalidade de impactos em ecossistemas, saúde humana, desempenho econômico e estruturas sociais continua desconhecida. Em todos os casos, impactos assim tendem a ser extensos e duradouros” (GREENPEACE, 2006b, p. 3).

Na pesquisa se leva em conta tudo que afeta a vida das pessoas, e é detalhada os tipos de doenças que as pessoas podem desenvolver, tais com: problemas respiratórios, digestivos, hormonais e diversos tipos de câncer. Além disso, em nenhum outro estudo analisado foi discriminado quais grupos de pessoas ficaram mais suscetíveis a essas doenças.
  1. Trabalhadores de limpeza ou ‘liquidatários’, incluindo civis e militares designados a continuar com suas atividades de limpeza e construir a camada protetora para o reator;
  2. Evacuados de territórios perigosamente contaminados num raio de 30km ao redor da usina;
  3. Residentes dos territórios menos (mas ainda perigosos) contaminados; e
  4. Crianças nascidas em famílias de qualquer um dos 3 grupos acima. (GREENPEACE, 2006b, p. 3).

Não se pode analisar o pós-tragédia sem levar em conta todas as estruturas em que essas pessoas vivem atualmente. Não é possível isolar o homem e analisar só sua saúde, sua alimentação, pois cada fator influencia o outro. Essa pesquisa evidencia como os governos escondem juntos com órgãos a real dimensão da tragédia. Essas políticas só causam mais mortes, e menos acesso à verdade e são ligadas ao esquecimento.

Segundo a revista online Exame (26/04/2011) as perdas no acidente já somam 180 bilhões de dólares alcançando 10% do orçamento anual da Ucrânia, sem contar com as indenizações e auxílios pagos ainda hoje. Recentemente jornais do mundo todo noticiaram que houve desabamento do teto do sarcófago, sendo necessária a construção de uma nova estrutura que cobrirá toda a unidade 4. Seu custo foi estimado em 1,8 bilhões de dólares, sem essa nova contenção o material que está armazenado no interior do prédio pode voltar a expelir radiação para a atmosfera (ver mapa a seguir).

Escala continental da nuvem radioativa emitida pelo vazamento do reator 4 da Usina de Chernobyl.
8 O ocidente a um ponto de torna-se uma Chernobyl

A ideologia que possuímos não pode influenciar como olhamos especificamente este acidente, é necessário manter-se o mais neutro possível para não usar os julgamentos de que o outro não é capaz de fazer algo que possamos. Insistentemente os trabalhos produzidos no ocidente visam desqualificar a usina, os engenheiros e os modelos sociais, administrativo e econômico adotados pela URSS. Assim, como os soviéticos o ocidente superestimou todas as questões nucleares, várias questões técnicas foram tratadas com improviso, ou acabaram utilizado peças alternativas paras situações que não foram planejadas, como no caso da usina de Windscale no Reino Unido:

“É evidente que a maior parte da história de Windscale vem sendo entremeada de acidentes e ‘desastres que não ocorreram por um triz’. Em outubro dede 1976, detectou-se (por acaso) um vazamento de estrôncio e césio radioativos de um deposito de lixo atômico durante uma obra na usina. Só então percebeu que o vazamento já vinha ocorrendo há uns quatro anos. Enquanto se investigava esse problema, encontrou-se outro grande vazamento em uma estrutura próxima, provavelmente ainda mais antigo que o primeiro, talvez com sete anos de existência” (HAWKES et al., 1986, p. 44.)

Em outra passagem, este mesmo o autor aponta a seguinte estatística:

“Ao todo, já ocorreram mais de 300 acidentes das mais diversas proporções em Windscale, gerando críticas de parte da indústria nuclear e de outras fontes. Só que nenhum desses acidentes se equipara à série de ocorrências que teve início em 8 de outubro de 1957, quando um físico responsável pelo reator nº1 de produção de plutônio cometeu um erro fatal: ligou uma chave antes da hora durante um procedimento de rotina. Como ele não tinha à mão um manual para consulta, e os instrumentos básicos não estivessem marcando o que deveriam, de maneira que ele pudesse obter dados precisos, iniciou-se um incêndio que envolve instantaneamente o reator e permaneceu incontrolável durante 42 horas” (HAWKES et al., 1986, p. 44).

A irresponsabilidade das autoridades inglesas chegou a tal ponto que testes com bombas nucleares foram feitas na Austrália. Um destes testes produziu uma enorme nuvem de material radioativo que foi levado pelo vento até uma aldeia aborígene local. Toda a aldeia dos foi contaminada e os moradores começaram a sentir os efeitos da exposição, como se não bastasse pilotos foram enviados para verificar o nível de radiação dessas nuvens sem nenhum tipo de proteção. Para demonstrar como as usinas do ocidente não eram tão boas assim, uma comissão do governo norte americano fez uma pesquisa constatando que em 1982 já tinha acontecido cerca de 169 acidentes que poderia ter como causa a fusão do núcleo de reator no território dos EUA. Como última exemplificação e a mais aterrorizante mostra as incoerências no ocidente:

[...] Em um certo reator nuclear, era empregada uma bola de basquete, do tamanho regulamentar, envolta em fita de borracha, para bujonar um tubo. Inevitavelmente, a pressão da água fê-la disparar como uma bala de revolver, causando o vazamento de 53 mil litros de água radioativa. Em outro, um tanque de dejetos com capacidade para 11mil litros estava ligada a um bebedouro. [...] Relata que certos sistemas de segurança foram inutilizados em decorrência de algumas válvulas e chaves terem sido deixadas em posição errada, às vezes durante semanas seguidas (HAWKES et al., 1986, p. 52- 53).

É evidente que todos os países desrespeitaram as normas independentes para que finalidade tivesse. As usinas inglesas, norte americanas, francesas ou soviéticas não eram e não são lugares seguros como é vendida a imagem de uma energia limpa e segura.

Fotografia da Usina de Chernobyl em 2018, apresentando a nova estrutura de contenção da radiação, chamada desde 1987 de sarcófago. 
Considerações finais

Fica claro que a maioria dos países desrespeitava as normas de segurança. A crendice na hipótese de que nada dará errado torna-se ainda mais perigosa ao tratar de algo que pode exterminar vidas em questão de minutos, isso acontecia não só na URSS. Infelizmente qualquer uma das usinas estava pronta para torna-se uma Chernobyl. Acusar o projeto ou a capacidade dos engenheiros soviéticos é uma clara demonstração na tentativa de desqualificar os pontos positivos que esses homens criaram. Infelizmente o acidente aconteceu, criando munição para os ataques ocidentais. O que se pode fazer agora é reconhecer que não se deve trabalhar com “amadorismo”, pois nesta área o respeito a todas as normas devem ser cumpridas ao pé da letra para que não ocorram novos acidentes nucleares.

O reconhecimento de todas as vítimas, ajudá-las e fazer o possível para que todas possam viver com melhores condições de vida deve ser um compromisso das autoridades dos países envolvidos, pois muitas gerações ainda sentem esse passado que deixa marca e números de mortes não calculadas.

A história como se sabe nunca se repete, pode apenas ter fatos semelhantes. Hoje se vive a sobra de uma nova catástrofe localizada no Japão mais precisamente na usina de Fukushima, por isso deve-se utilizar o que já foi ensinado da forma mais dolorosa para evitar que vidas inocentes paguem por irresponsabilidades de outros.

Referências

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REVISTA VEJA. Chernobyl - a explosão vermelha - o reator de uma usina nuclear soviética pega fogo, explode e joga na atmosfera nuvem radioativa que espalha o medo por toda a Europa, n. 922, 7 de maio de 1986.

Fonte: SUGUIMOTO, Djmes Yoshikazu de Lima; CASTILHO, Maria Augusta de. Chernobyl: A Catástrofe. Revista da Universidade do Vale do Rio Verde, Três Corações, v. 12, n. 2, ago./dez. 2014, p. 316-322.