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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Vlad Tepes: o homem que inspirou o Conde Drácula

Em 2017 o famoso romance gótico Drácula completa 120 anos de lançamento. Mais de um século influenciando as artes mundialmente, seja através da literatura, cinema, teatro, desenhos, pintura, videogames etc. Para celebrar a publicação desse importante trabalho que ajudou a popularizar as histórias de vampiros para o século XX, assim como, gerou sobrevida para a literatura gótica, falarei a respeito não do livro propriamente, mas sim do homem por trás da lenda do Conde Drácula, o príncipe Vlad Draculea III. O qual a partir de lendas do final do medievo e começo da modernidade, atribuíram supostamente uma aura sombria e vampiresca a esse príncipe que lutou para defender a Valáquia contra a expansão do poderoso Império Otomano, as intrigas do influente Reino da Hungria e do Principado da Transilvânia


Retrato de Vlad III (1431-1476), príncipe da Valáquia. 
Introdução: 

Embora o Conde Drácula vivesse na Transilvânia, Vlad vivia na região da Valáquia (Valahia em romeno). Hoje em dia os territórios da Transilvânia e da Valáquia fazem parte da Romênia, mas há seiscentos anos isso não era assim. Naquele tempo a Romênia não existia como uma nação, seu território estava dividido em pequeno principados, sendo os principais da Transilvânia, Valáquia e Moldávia. 

Do século X ao XIV a Valáquia e os territórios vizinhos foram disputados pelos húngaros, sérvios, búlgarosbizantinos e teutônicos, passando de mãos entre eles várias vezes, embora que o controle húngaro foi o mais longevo e influente. Inclusive em 1241, as primeiras incursões mongóis passaram pela região, saqueando suas cidades. Novos ataques ocorreriam nas décadas seguintes. Nessa época a Valáquia estava sob domínio do Reino da Hungria, mas já vinha algum tempo lutando por sua independência. Embora alguns senhores tenham se proclamado príncipes desde a segunda metade do século XIII, a Coroa húngara nunca reconheceu a independência da Valáquia, da Transilvânia e da Moldávia. (RADVAN, 2010, p. 116-119). 

A situação somente mudou no século seguinte. Na década de 1320 o controle Húngaro sobre a Valáquia estava enfraquecido devido a rebeliões e as ondas de invasões mongóis ocorridas entre 1285-1293. Em quase uma década de invasões mongóis, os danos deixados foram grandes para o controle daquelas terras, as quais viam o governo húngaro incapaz de proteger sua população. Assim um nobre chamado Bassarabe (?-1352) o qual havia se tornado vassalo do rei Carlos Roberto I da Hungria, no ano de 1324, traiu o seu suserano, tornando-se publicamente inimigo da Coroa húngara. A pretensão de Bassarabe era proclamar a independência da Valáquia, algo que obteve êxito em 1330, após derrotar o exército de Carlos Roberto I, na Batalha de Posada


Pintura do século XIV retratando um dos confrontos da Batalha de Posada (1330). Na ocasião, o exército húngaro foi emboscado num vale, e os soldados valáquios lhe atiraram pedras e flechas. 
Com a vitória decisiva sobre o rei húngaro, Bassarabe procurou o apoio de outros senhores feudais e da Igreja Ortodoxa para reconhecer sua pretensão ao governo valaquiano, passando a receber o título de voivoda ("chefe militar"). Sua façanha lhe rendeu o epíteto de Bassarabe, o Fundador, por ter emancipado oficialmente a Valáquia. (RADVAN, 2010, p. 129-130).

Com a emancipação da Valáquia, o pequeno reino começou a crescer nos anos seguintes, até que em 1369, o então voivoda Vladislav I (1364-1376) realizou a primeira batalha contra um poderoso inimigo que emergiu no sul, sedento por conquistas. Era o Império Otomano

"O Estado otomano começou no século XII como um principado cruzado nas fronteiras da comunidade islâmica com o cristianismo. O ideal de cruzada deu forma à expansão desse Estado principalmente em direção à Europa, levando seu exército até as muralhas de Viena em 1529 e em 1683. Ao subir ao trono, os sultões gostavam de autenticar suas credenciais fazendo novas e maiores conquistas dentro da tradição cruzada; assim, Mehmet II conquistou Constantinopla em 1453 e Solimán o Magnífico tomou Belgrado em 1521. Durante mais de trezentos anos, o exército otomano foi a máquina bélica mais eficaz do mundo". (ROBINSON, 2007, p. 80). 

O Império Otomano surgido a partir de uma dinastia turca, durou mais de 700 anos, vivenciado seu auge entre os séculos XVI e XVII, tendo sido um dos mais ricos, poderosos e influentes Estados da Idade Moderna e da História. O ano de 1369, embora tenha sido marcado pela derrota dos otomanos frente ao exército do voivoda Vladislav I, foi apenas o começo de uma longa história de guerras entre os dois povos. De qualquer forma, o século XIV terminou de forma próspera para o Principado da Valáquia. Nessa época a população do país era estimada em 500 mil habitantes, um número um pouco maior do que da Moldávia e abaixo da Transilvânia a qual possuía quase o dobro de gente. (GEORGESCU, 1991, p. 21). Ainda assim, era um valor considerável para o contexto daquele Estado.

Não obstante grande parte da prosperidade obtida pelo país no final do XIV e começo do XV, adveio do reinado do voivoda Mircea I (1386-1418). Posteriormente chamado de o Velho (para diferenciar de seu neto, Mircea II), mas também conhecido como Mircea, o Grande. Entre os marcos de seu governo esteve a política da boa vizinhança com a Hungria, Moldávia, Sérvia, Bulgária e Polônia; a expansão territorial para cima da Transilvânia e o sul da Moldávia, e a resistência firme as tentativas de avanço dos otomanos. (RADVAN, 2010, p. 132-133). 


Mapa do Principado da Valáquia por volta de 1390, durante o governo de Mircea I. Os territórios em laranja eram vassalos do rei Mircea. 
Após a morte de Mircea I, seu filho Miguel I, deu continuidade as obras e a gestão do pai, no entanto governou apenas dois anos, tendo morrido em combate contra os otomanos. Como não teve filhos, seu irmão Radu II assumiu o trono, porém outros membros da família tinham interesse na coroa, iniciando uma série de disputas palacianas que se estenderiam por pelo menos 15 anos. A briga interna entre primos pelo controle do trono valáquio enfraqueceu a defesa do país, deixando suscetível a ameaça estrangeira. (RADVAN, 2010, p. 298-299). 

O governo de Vlad II:


Vlad II, o Dragão
Vlad II (1390-1447) era um dos seis filhos de Mircea I, todavia, ausentou-se nas disputas ao trono, por ter sido exilado na Transilvânia. De qualquer forma, em 1437, seu primo, o voivoda Alexandre I faleceu, então Vlad II aproveitou para assumir o trono. Nessa época ele já havia participado de algumas batalhas e pertencia a Ordem do Dragão desde 1431, tal fato lhe rendeu a alcunha de Vlad, o Dragão (Vlad Dracul em romeno). (SZWYDKY, 2012, p. 551-552). Nos primeiros anos de seu governo procurou restabelecer a ordem e a autoridade, tendo em mente que o governo vivenciou mais de uma década de instabilidade política. Procurou também fortalecer a influência da Igreja Ortodoxa em suas terras, algo que fazia parte de seu dever como cavaleiro cristão de uma ordem. Realizou acordos com os moldávios e os búlgaros. Vlad II também chegou a confrontar alguns senhores feudais, em especial o voivoda da Transilvânia, João Corvino (c. 1387-1456), proeminente e respeitado nobre que ganhou o epíteto de O Cavaleiro Branco

Corvino era aliado dos húngaros e tinha interesse de retomar a Valáquia para o domínio húngaro, daí acabou entrando em conflito com Vlad II, o que o levou em 1442 a ir buscar ajuda com um de seus inimigos, o sultão Murad II. A questão era tão drástica, que na época Corvino chamou Vlad II de traidor da cristandade, pois como cavaleiro cristão, era um insulto aliar-se a um rei muçulmano. Além do fato que o próprio Corvino estava em guerra contra os otomanos. De 1442-1444 João Corvino empreendeu a "Longa Campanha" para combater os otomanos, a fim de impedir que avançassem em direção aos territórios cristãos livres. (HENTEA, 2007, p. 3).


João Corvino, o Cavaleiro Branco. Nesse retrato, ele já aparece sendo mencionado como governador da Hungria, título que assumiu em 1446. 
Enquanto Vlad II estava fora do país, em viagem para encontrar o sultão otomano, seu filho Mircea II, o Jovem assumiu como regente. João Corvino aproveitando que o voivoda da Valáquia estava fora, empreendeu guerra contra Mircea II, derrotando suas tropas e obrigando-o a se render e abdicar do trono. Corvino empossou Bassarabe II no trono valaquiano. Todavia em 1444, Vlad II retornou a Valáquia com um exército otomano e reconquistou o trono. Um dos motivos para isso era o fato que João Corvino estava ocupado comandando sua "Longa Campanha", no que resultou na drástica derrota das forças europeias na Batalha de Varna. (TREPTOW, 2000, p. 48). Com o apoio de Corvino a Bassarabe II enfraquecido, Vlad II conseguiu depor o usurpador de seu trono. 

Em 1445 Vlad II fechou acordo com algumas famílias búlgaras, arrendando terras para que essas as povoassem e as cultivassem, já que muitos territórios da Valáquia estavam abandonados, resultado de migrações, e de invasões mongóis e otomanas (FLORESCU; MCNALLY, 1989, p. 54). Não obstante, Vlad II como parte do acordo que fechou com o sultão Murad II, deveria lhe pagar alguns tributos, evitar atacar seus domínios, enviar jovens para servir ao exército otomano, que inclusive era uma prática comum naquele tempo, chamada de devshirme

O devshirme que significa "reunir ou colecionar" era o nome dado a um sistema de recrutamento massivo utilizado pelo Império Otomano por pelo menos 200 anos, no qual consistia em obrigar as províncias europeias ou territórios vassalos a enviar jovens meninos cristãos para serem educados e treinados, no intuito de comporem o exército imperial. Agentes do governo viajam a tais terras para realizar o recrutamento, os meninos escolhidos não voltavam mais a ver a família, tornavam-se escravos do Império Otomano. Alguns destes meninos poderiam ascender socialmente, tornando-se soldados da elite Janízaro, ou assumir cargos administrativos elevados. Mas a grande maioria era feita soldado e trabalhava no campo. Todos eram obrigados a se converter ao Islã. (ROBINSON, 2007, p. 73). 


Sultão Murad II. Aliado de Vlad II.
Vlad II permaneceu no poder até 1447, quando numa traição levada a cabo por alguns de seus vassalos na cidade de Târgoviste, resultou no assassinato dele e de seu filho mais velho Mircea II. (RADVAN, 2010, p. 201). Vlad II ainda possuía outros dois filhos, Vlad e Radu, os quais após saberem da morte do pai e do irmão, trataram de não perder o poder sobre a Valáquia. 

Em busca da coroa: 

Pouco se sabe da infância e adolescência de Vlad III (1431-1476), inclusive relatos posteriores chegam a ser conflitantes e até duvidosos. Ele foi o segundo filho de seu pai, tendo nascido na Transilvânia, em local não precisado. Quanto a sua mãe há controvérsias de quem exatamente teria sido. Uma das hipóteses sugere que ele e Radu (1435-1473) eram filhos de Cneajna, uma nobre da Moldávia, a qual teria sido a segunda esposa de Vlad II. (SZWYDKY, 2012, p. 551). 

Quanto a sua juventude, como dito, pouco se sabe a respeito, mas alguns relatos apontam que como parte do acordo de seu pai com o sultão Murad II, Vlad e Radu, ambos foram enviados para viver na corte do sultão por volta do ano de 1442 ou 1443, passando ali pelo menos cinco anos. Nesse ponto a biografia sobre Vlad é duvidosa, pois alguns relatos mencionam que o jovem teria sido maltratado, torturado e até abusado. Tal sofrimento teria refletido em seu suposto comportamento sádico. (SZWYDKY, 2012, p. 552). Sobre isso voltaremos a comentar mais a frente.


Vlad III. Gravura alemã de cerca de 1490.
No ano de 1447, Vlad contava com seus 16 ou 17 anos, ainda era jovem e imaturo. Na ocasião nada pôde fazer a respeito da morte do pai e do irmão. Radu era ainda mais jovem. Assim, João Corvino tratou de empossar no trono valaquiano Vladislav II (1447-1456), o qual supostamente seria filho do falecido voivoda Dan II, o qual havia governado a Valáquia entre 1422 a 1431. Com essa jogada política, Corvino garantia forte influência sobre o país, algo que ambicionava há vários anos, mas Vlad II sempre foi um empecilho para seus planos. (RADVAN, 2010, p. 138). 

No ano de 1448, o jovem Vlad III apoiado pelo sultão Murad II, retornou para a Valáquia e tentou reaver o trono, conseguido brevemente assumir o poder por cerca de um ou dois meses, entre outubro e dezembro daquele ano, antes de ser derrotado pelo exército de Vladislav II. Todavia, o voivoda poupou o jovem Vlad da pena de morte e permitiu que esse partisse em exílio. De qualquer forma, os relatos apontam que Vlad se dirigiu para a Moldávia, passando a viver com um suposto tio materno (alguns sugerem que se tratava de um aliado de seu pai), chamado Bogdan II, o qual era o voivoda da Moldávia, tendo governado de 1449 a 1451. (CAZACU, 1990, p. 58). 

No ano de 1451 a situação piorou duplamente para Vlad III, seus dois protetores: o voivoda Bogdan II e o sultão Murad II, faleceram naquele ano. Bogdan foi assassinato numa traição tramada por Peter III Aaron, já o sultão, adoeceu e faleceu. Desprovido do apoio de seus protetores, Vlad estava desamparado e só lhe restava buscar apoio um tanto improvável. O filho de Bogdan, Stephen sugeriu que eles dois deixassem a Moldávia, pois Peter Aaron poderia matá-los, então ambos concordaram com isso e seguiram para a Transilvânia. (CAZACU, 1990, p. 58).

Os acontecimentos seguintes são confusos e pouco conhecidos. Stephen e Vlad foram buscar proteção com João Corvino, embora não sabemos até onde Vlad concordava com isso, pois Corvino era inimigo de sua família há vários anos. Todavia, os relatos apontam que Peter Aaron o usurpador do governo moldávio foi derrotado por Alexandrel, todavia isso gerou uma guerra civil entre os dois pela disputa do trono moldávio. Conflito que durou mais alguns anos. Nesse ponto o rastro de Vlad se perde. Uns apontam que ele e Stephen teriam retornado a Moldávia, outros sugerem que ele teria ficado na Transilvânia ou seguido para a Hungria, mantido por João Corvino como um nobre refém, prática comum entre vários povos ao longo da história. (TREPTOW, 2000, p. 59-60). 

O governo de Vlad III (1456-1462): 

As circunstâncias para o retorno de Vlad a Valáquia são incertas da mesma forma quanto é incerto seu paradeiro nestes últimos anos. Em 1456, a relação entre João Corvino e Vladislav II estava bastante desgastada ao ponto do voivoda valáquio já não obedecer mais Corvino, que na época era protetor da Hungria, além de ser senhor da Transilvânia. Isso levou João Corvino a declarar guerra a Vladislav, o qual morreu ainda naquele ano. Em setembro de 1456, uma carta enviada para a cidade de Brasov na Transilvânia, avisava aos burgueses de lá, que Vlad Draculea era o novo voivoda da Valáquia. Vlad adotou o epíteto de seu pai Dracul, passando a se chamar Draculea ("filho do dragão").


Brasão de Armas de Vlad III Draculea. 
Na carta enviada ao povo de Brasov e depois para outros cantões da Valáquia, Vlad Drácula solicitava apoio dos senhores feudais e de seus exércitos para poder reassumir o trono que lhe era de direito, mas principalmente para combater a ameaça otomana que havia crescido bastante nos últimos anos. 

Em 1453 o último baluarte da cristandade no Oriente, a cidade de Constantinopla havia sido conquistada após 50 dias de bombardeio, pois embora seus três anéis de muralhas fossem famosos por terem repelidos poderosos inimigos ao longo dos séculos, aquelas antigas muralhas de pedras não estava prontas para resistir a uma tecnologia que se difundia pelo Oriente Médio, a arma de fogo. Imponentes canhões bombardeando diariamente as muralhas, abriram buracos, os quais levaram a rendição da outrora grande cidade. (GIORDANI, 1977, p. 100-102).

Com a capitulação de Constantinopla, os otomanos consolidariam nos anos seguintes o seu domínio sobre o Mar Negro, Grécia, Macedônia e a península dos Bálcãs. Isso tornava mais fácil o avanço do exército otomano pelo leste europeu. Assim, no ano de 1456, o então sultão Mehmed II, filho de Murad II, estava interessado em continuar com as conquistas de expansão de seu império. Por mais que Mehmed II fosse filho do antigo aliado de Vlad II, Vlad Drácula não estava interessado nessas velhas alianças. Seus pais haviam sido aliados, mas os filhos não eram. Dessa forma Vlad mobilizou seus vassalos para formar um exército e se preparar para a guerra. 

De certa forma, Vlad III esperava contar com o apoio de seu inimigo João Corvino, o qual a longos anos lutava contra os otomanos, o problema é que Corvino, faleceu em 1456. Ainda no ano de 1456, Corvino em 22 de julho conquistou importante vitória contra os otomanos, nos portões da fortaleza de Belgrado (atualmente na Sérvia). Todavia, ele acabou adoecendo pela falta de higiene dos acampamentos da época, vindo a morrer em 11 de agosto. Deixando Vlad sozinho para tentar formar uma coalizão contra os otomanos. (HENTEA, 2007, p. 4).

Vlad sabia que era necessário ganhar apoio da nobreza, mas principalmente dos boiardos (aristocracia), os quais eram detentores de muitos recursos e homens, devido a prosperidade que conquistaram através do comércio. Vlad entre 1457-1459 se mobilizou para tentar reformar fortalezas e castelos, ou construir novas fortificações para proteger o país, ao mesmo tempo em que realizava reuniões e festas para atrair a simpatia dos nobres e boiardos. Em 1458 Vlad inaugurou uma fortificação próximo de Bucareste, para defender a estrada que levava ao porto de Giurgiu, na época território ocupado pelos otomanos. (RADVAN, 2010, p. 166, 171).

Em maio de 1458 o exército de Vlad derrotou as tropas do vizir Mahomed Pasha, o Grego. No ano seguinte ele se recusou a pagar os tributos ao governo otomano e a ceder crianças para o devshirme. Mas além de ter que cuidar dos problemas de guerra, Vlad III também teve que se preocupar com as reclamações e ameaças de Matias Corvino (1443?-1490), o qual assumiu o trono húngaro em 1458. Matias incitou nobres e boiardos da Transilvânia e da Valáquia a cortarem relações com Vlad III, e de fato isso quase deu certo, já que Vlad teve que resolver tentativas de revolta e traição. Desse ponto surgem algumas histórias sangrentas que envolvem seu nome. 


Matias I Corvino, rei da Hungria (1458-1490).
Um pretendente ao trono valáquio Dan III, declarou guerra a Vlad e invadiu a Valáquia, tendo sido derrotado em 22 de abril de 1460. Vlad decidiu retaliar também os aliados de Dan, atacando Brasov em seguida, e tomando para si controle daquele importante centro econômico. (TREPTOW, 2000, p. 112). 

Contida essa tentativa de lhe usurpar o trono, Vlad voltou a atenção para os conflitos com os otomanos. Em 1461 o sultão Mehmed II sabendo que Vlad estava em guerra contra seus homens e suspendeu o pagamento dos tributos, enviou um emissário de nome Bey Hamza, o qual segundo alguns relatos, Vlad teria ordenado que o emissário fosse empalado. Vlad teria sido convocado pelo sultão Mehmed para ir à Constantinopla se explicar a respeito do porque havia deixado de pagar os tributos e cumprir com o devshirme. Vlad inclusive teria iniciado a viagem com o embaixador otomano, mas tendo sido avisado que era uma armadilha, cancelou a viagem. (TREPTOW, 2000, p. 123).

O sultão Mehmed II considerado a reação de Vlad III um ato de traição, ordenou que seus exércitos fossem mobilizados para atacar a Valáquia. Ele pessoalmente lideraria as campanhas, medida comum entre vários sultões do século XV e XVI. Antes do sultão Mehmed chegar, as tropas de Vlad haviam recuperado o controle do porto de Giurgiu (atualmente na Romênia), próximo ao rio Danúbio, obrigando os otomanos a terem que desembarcar em outro porto. Com a tomada de Giurgiu, Vlad ordenou ataques a outros portos otomanos no Mar Negro como Brailla e Chilia, no delta do Danúbio. Inclusive confiscando mercadorias de seus navios. (TURNBULL, 2005, p. 41).


Pintura representando o sultão Mehmed II. Embora na imagem o sultão apareça de forma serena, cheirando uma flor, Mehmed foi um grande conquistador, um verdadeiro senhor da guerra.  
Devido a estes ataques aos portos otomanos, Vlad Dracula conseguiu retardar a chegada e o avanço do exército otomano, ganhando tempo para preparar seu exército e fortificações para a guerra principal. O grosso do exército de Mehmed II chegou à cidade de Philippopolis (atual Plovdiv na Bulgária). De lá iniciou a longa marcha até a Valáquia. Dispondo de cerca de 8 mil cavaleiros e 30 mil soldados, Vlad não tinha chances de derrotar o sultão cujo exército, estimativas da época apontam possuir mais de 100 mil homens. Assim Vlad adotou a estratégia de "terra arrasada": queimou o que não podia ser transportado; ordenou que a população evacuasse as vilas e fazendas; empregou ataques de emboscada e usou o medo também, ao mandar empalar inimigos, deixar mortos enforcados nas árvores ou enviar cabeças decapitadas. (HENTEA, 2007, p. 57). 

Mesmo com tais medidas o exército muçulmano não recuou. Mehmed II estava confiante com sua supremacia numérica, além da fama que trazia consigo, afinal, ele havia conquistado a importante cidade de Constantinopla, capital de um dos mais ricos impérios da História. Quem era Vlad III diante dos bizantinos? Com isso o exército continuou avançando. Nesse ponto Vlad teve um plano ousado: tentar invadir o acampamento para matar ou sequestrar o sultão. Tal empresa militar ocorreu entre 16 e 17 de junho de 1462, mas acabou falhando. Os soldados envolvidos erraram a tenda do sultão e foram descobertos. (HENTEA, 2007, p. 4). 

Sabendo o fracasso da empreitada, Vlad III decidiu fugir. No final de junho, o exército de Mehmed II adentrou as ruas vazias de Targoviste, capital usada por Vlad. Mehmed II ao invés de sair a caça do traidor, preferiu tomar medidas diplomáticas, além do fato que o rei da Hungria, Matias Corvino estava com seu exército pronto para qualquer ameaça de Mehmed II. Vlad sabendo disso, partiu para a Transilvânia, território sob jurisdição húngara. O trono da Valáquia foi assumido por Radu III, o Belo, irmão caçula de Vlad. Radu governaria de 1462 a 1473, como fantoche dos otomanos. Por sua vez Vlad foi traído por alguns boiardos e entregue para o rei Matias Corvino, o qual lhe enviou para a prisão. 


Retrato do voivoda Radu III, o Belo (1462-1473), irmão mais novo de Vlad III.
Uma última esperança (1476: 

Vlad Drácula tentou negociar com Matias Corvino, mas embora as negociações tenham durado semanas, Corvino negou-se a fornecer apoio a Vlad e o enviou para a prisão. Nesse ponto se desconhece acerca da vida de Vlad, mas sabe-se que ele passou um longo tempo preso. No tempo que Vlad permaneceu preso, seu irmão governo a Valáquia pelos interesses do sultão Mehmed II, que decidiu não declarar guerra a região. Não obstante, em 1463 os otomanos iniciaram guerra contra a República de Veneza, conflito que os manteve ocupados por anos (QUATAERT, 2008, p. 8). Por outro lado, o voivoda da Moldávia, Estevão III, o Grande começou a gerar tensão com o rei Matias Corvino. Em 1465, tropas de Estevão tomaram a fortaleza de Chilia (atualmente na Romênia). Isso acabou por gerar conflito entre os dois soberanos, resultando numa dura derrota para Corvino no final de 1467. (HENTEA, 2007, p. 5).

Os anos se passaram e a década de 1470 foi tensa para a região. Novos ataques mongóis ocorreram sobre a Moldávia, mas Estevão, o Grande conseguiu com seus exércitos conter a todos. Não obstante, o monarca moldávio estava interessado em tomar a Valáquia e destronar Radu, o Belo, por ser uma marionete dos otomanos. Em 1471 a tentativa de Radu de invadir a Moldávia foi rechaçada. Anos depois Estevão retalharia tal ato. Enquanto isso não ocorria, em 1473, um nobre chamado Bassarabe Laiotã se mostrou interessado ao trono valáquio e desafiou Radu por este. As disputas duraram dois anos até que Radu foi derrotado por Bassarabe. (RADVAN, 2010, p. XV). 

O ano de 1475 foi crítico. O voivoda Estevão, o Grande preparava um exército para um ataque massivo aos otomanos, no que resultou em janeiro daquele ano em vitória sua. Ao mesmo tempo em que Radu, o Belo havia perdido o trono e posteriormente faleceu ainda naquele ano. Bassarabe Laiotã que assumiu o nome de Bassarabe III decidiu fechar acordo com os otomanos. Ele prometeu continuar a ser vassalo destes, como Radu III vinha fazendo nos últimos anos. Em reação a isso, Matias Corvino decidiu libertar Vlad III. 


Retrato do voivoda Bassarabe III. 
Os motivos para que Corvino libertasse Vlad não são claros. Os cronistas da época mencionam várias tramas e acordos. Uns falam que Matias Corvino pretendia fornecer apoio a Vlad para que esse retomasse o controle da Valáquia e expulsasse os otomanos de lá. Outros sugeriram que senhores feudais e boiardos da Transilvânia e Valáquia recorreram ao rei húngaro para libertar Vlad, pois não aceitavam mais viver sob domínio otomano. Acreditavam que Vlad poderia recuperar o trono e continuar com a guerra contra os otomanos. Outros cronistas sugerem que Estevão, o Grande teve papel importante na soltura de Vlad, convencendo Matias Corvino. (TREPTOW, 2000, p. 160-161). 

Vlad III foi solto, na época contava com 44 anos, e havia passado os últimos quatorze anos preso, embora se desconheça propriamente como foi sua rotina. Os poucos relatos conhecidos sugerem que ele não ficou em prisões convencionais ou em masmorras, mas em prisão domiciliar. De qualquer forma tendo sido solto, em 1476 ele já se colocava na ativa para tentar recuperar seu trono. 

Em 26 de julho de 1476 o exército de Mehmed II foi derrotado pelo exército moldávio de Estevão, o Grande na Batalha de Valea Alba-Razboieni (na época na Moldávia, hoje em território romeno). A derrota dos otomanos em Alba-Razboieni foi o início da breve derrocada do governo otomano sobre a Valáquia. Os exércitos de Estevão, o Grande começaram a empurrar as tropas otomanas nos meses seguintes (HENTEA, 2007, p. 5). Nesse tempo, tropas de Matias Corvino e de outros nobres da Transilvânia, Valáquia, Moldávia e Hungria, os quais formaram uma breve coalizão à época conseguiram expulsar o grosso do exército otomano da Valáquia, inclusive forçando o voivoda Bassarabe III a renunciar. Assim, Vlad III reassumiu o trono valáquio. (TREPTOW, 2000, p. 162-164). 

Todavia essa seria a última vez que Vlad Drácula estaria a frente da Valáquia. Bassarabe III tendo escapado, não desistiu de reaver o trono. Logo, ele deixou o país e partiu para conseguir reforços. Ainda em dezembro daquele ano, Bassarabe retornou com um exército otomano. Os relatos sobre a batalha não são exatos. Uns dizem que o conflito ocorreu em data incerta ainda em dezembro de 1476, outros sugerem que o conflito ocorreu em janeiro de 1477. De qualquer forma, Vlad pessoalmente participou daquela batalha, vindo a ser capturado e morto em combate. (TURNBULL, 2005, p. 41). Bassarabe III reassumiu o trono, passando cerca de um ano no poder, sendo deposto por seu sobrinho, o qual assumiu o nome de Bassarabe IV, o Jovem (1478-1482). 

Quanto a Vlad III, não se sabe onde seu corpo foi sepultado se é que chegou a ser sepultado. Relatos da época dizem que os soldados o esquartejaram e a cabeça teria sido enviada ao sultão Mehmed II. No século XIX surgiu a história de que Vlad III estava enterrado no Monastério de Snagov ou na Igreja Radu Serban em Comona. Desde a década de 1930, arqueólogos e historiadores realizaram pesquisas nos locais e nada foi atestado. Ainda hoje o túmulo de Vlad III não foi encontrado. 

A fama de Vlad, o Empalador:

Um provérbio português diz o seguinte: "morre o homem e fica a fama". No entanto, essa fama nem sempre é positiva. Vlad Drácula ganhou a fama de sanguinário, violento, cruel, tirano e o epíteto de Vlad, o Empalador (Vlad Tepes em romeno). Mas realmente ele teria sido tão cruel e violento como algumas histórias antigas contam?

Alguns relatos antigos falam que Vlad e Radu durante a época que eram adolescentes e permaneceram no palácio do sultão Murad II, Radu teria sido bem tratado e recebido privilégios reais, a final, ele viveu longos anos entre os otomanos, inclusive foi graças a Mehmed II que ele se tornou voivoda. Mas no caso de Vlad, esse por motivos não mencionados nas fontes, ele teria sido agredido, torturado, abusado sexualmente, preso em masmorras até mesmo teria se alimentado de insetos para sobreviver ao cárcere. Hoje muitos historiadores consideram isso como propaganda depreciativa para brutalizar a imagem de Vlad. (SZWYDKY, 2012, p. 553). 

Um dos primeiros atos selvagens de Vlad, teria ocorrido no ano de 1459, quando ao se mudar para a cidade de Targoviste, a qual se tornou sua capital, Vlad teria ordenado que todos os envolvidos na traição que levou a morte de seu pai e irmão dez anos antes, fossem reunidos para serem punidos. Segundo as crônicas da época, Vlad ordenou que os mais velhos fossem empalados e os mais novos, feitos escravos e forçados a trabalhar nas obras de suas fortalezas. Nessa primeira ocasião ver-se o uso do empalamento. Todavia, uma das crônicas da época, a Istoria Tarii Romanesti, não menciona a execução dos boiardos envolvidos, embora cite que muitos foram enviados ao trabalho forçado na época da Páscoa, o que era considerado uma grande ofensa também. (RADVAN, 2010, p. 201-202). 

Outra história envolvendo o uso de violência desmedida ocorreu na Transilvânia. Em 1460 a cidade de Brasov e Sibiu, as quais abrigavam muitos comerciantes Saxões, apoiaram as pretensões de Dan III em usurpar o trono da Valáquia. Vlad após ter derrotado a tropa de Dan em batalha, marchou para a Transilvânia, invadindo Brasov e Sibiu, permitindo que saques e vandalismo fossem cometidos, como forma de mostrar que era um governante forte e qualquer tentativa de derrubá-lo, seria revidada a ferro e fogo. (HENTEA, 2007, p. 57). 


Gravura alemã de 1499, representando Vlad Tepes fazendo uma refeição, enquanto contempla um campo de empalados. 
Outro caso que marca a fama de Empalador adveio de um acontecimento de 1462. Após o ataque ao acampamento do sultão Mehmed II na noite de 17 de junho ter fracassado, o sultão continuou com sua marcha em direção a capital da Valáquia, em dado momento seus batedores retornaram aterrorizados, anunciando que uma "floresta de empalados" se encontrava no caminho. De acordo com os relatos otomanos, pelo menos 20 mil prisioneiros de guerra haviam sido empalados. (SZWYDKY, 2012, p. 553). Um número bem exagerado, pois dificilmente um exército menor como o de Vlad, conseguiria ter mantido 20 mil reféns, além de ter tido tempo para executar todos e arranjar 20 mil estacas para empalá-los. 

No entanto, quando foi que essa má fama começou? Não se sabe ao certo quem primeiro disseminou as histórias de Vlad como cruel torturador e assassino, mas sabe-se que a maioria dos relatos não são de origem valaquiana, moldaviana e nem húngara, mas são relatos de origem saxã, alemã, otomana, grega, eslava, russa etc. 

Laurentiu Radvan (2010, p. 215) comenta que muitas crônicas saxãs como a Viata lui Vlad Tepes (Vida de Vlad, o Empalador) foram escritas com uma forte repulsa ao voivoda, principalmente devido a punição que ele causou a Brasov e Sibiu, onde alguns dos habitantes conspiraram para derrubá-lo do poder. Nessas crônicas saxãs Vlad é intensamente referido como o Empalador, inclusive os relatos beiram a imoralidade, como o caso de que certa vez Vlad teria feito uma festa numa casa, então teria dado uma desculpa para sair durante o banquete, e em seguida ordenou que a residência fosse incendiada, matando todos os convidados.  


“Horrified by these atrocities, the Saxons printed books and pamphlets in which they described Vlad’s cruelty. They reported that impaling was one of Vlad the Impaler’s favorite punishments. However, he was not the only ruler of the period who engaged in it. Other German and Spanish princes did the same, but it was the Saxons’ booklets that spread in Germany and Western Europe, where Vlad Dracula became known as the bloodiest tyrant”. (HENTEA, 2007, p. 58).

No livro Historia Pannonica (1495), o autor Antonio Bonfini menciona algumas anedotas criadas para se referir a pessoa de Vlad, como sendo um homem temperamental, paranoico, bruto, boçal e cruel. Várias anedotas que misturam o macabro com o satírico, debochavam de Vlad III, inclusive algumas anedotas falavam que ele era covarde, que era marionete dos otomanos, que era um cristão infiel, um homem sem palavra, um traidor etc. 


Pintura alemã do final do século XV ou começo XVI, retratando Vlad diante de uma mesa com comida, enquanto olha para empalados. Enquanto isso, um de seus servos esquartejava cadáveres. 
O historiador romeno Lucian Boia (2001, p. 199) o qual escreveu um livro sobre história e mitos romenos, defende que a má fama que Vlad III Drácula recebeu, adveio de relatos estrangeiros, principalmente de origem germânica e eslava, e alguns de origem grega-turca, pois tais relatos tomavam com base questões políticas: os otomanos viam Vlad como inimigo, já que ele durante seu governo de 1456-1462 dedicou várias campanhas contra eles, logo, era e ainda é comum inimigos se difamarem, inimigos se insultarem e contarem calúnias no intuito de demonizar um ao outro. 

No caso germano-eslavo, Vlad não teve contato direto com tais povos, exceto os saxões da Transilvânia que conheceram a punição do voivoda por apoiarem seus opositores. Mas isso gerou anedotas depreciativas a conduta de Vlad, e tais anedotas geraram boatos, os quais anos depois da morte do voivoda foram registrados em contos, crônicas, poemas e livros, apresentando Vlad com o título de Empalador, e sendo um líder cruel e tirânico. 

“We do not need to discuss the accuracy of the information in the German chronicles (which is present also in a somewhat attenuated form in the Slavonic chronicle). Even if Tepes was not responsible for a single one of the dreadful deeds attributed to him, the Romanian myth was constructed precisely from this bloody image of his reign. The stake has become a political symbol, the symbol of an authoritarian prince who was harsh, because that was what the times required, but fair and devoted to the two supreme principles: order within the state and independence in external affairs”. (BOIA, 2001, p. 199). 

Boia (2001, p. 201-202) prossegue comentando que a má fama de Vlad Tepes se espalhou principalmente nos relatos estrangeiros, enquanto os relatos nacionais não o enxergavam como um tirano, mas viam ele como um líder preocupado em manter a Valáquia livre de usurpadores e da ameaça otomana. Boia cita o livro Vlad Tepes and the German and Russian Narratives about Him (1896), escrita por Engels, em cujo livro o autor reuniu várias histórias alemãs e russas acerca de Vlad Tepes, mostrando seu lado sanguinário e sádico.

É preciso lembrar que alguns líderes da História cometeram atos mais desumanos e hediondos que Vlad III, mas não ganharam a mesma fama de serem cruéis e sanguinários. Por exemplo, Júlio César (100-44 a.C) ordenou massacres na Gália. Nos quatro anos de guerra, estima-se que dezenas de milhares tenham morrido. A história francesa, inglesa e alemã estão recheadas de traições e massacres familiares. No caso húngaro e moldávio, Matias Corvino e Estevão, o Grande promoveram guerras e ordenaram a execução de prisioneiros, mas a História não os considera sanguinários. (BOIA, 2001, p. 196). 


“Since the 1970s, almost any guide to the popular history of Dracula suggests that Vlad the Impaler’s gruesome executions and high body count were so extraordinary that they prompted Stoker to write a novel that would immortalize the medieval prince. However, although Vlad Dracula was certainly responsible for many deaths, he was not the only ruler during the Middle Ages known for violent executions. As Constantin Rezachevici explains, “Cruel punishment was a characteristic of the Middle Ages and, partially, of the Modern Epoch in central and western Europe, meant not so much as a punitive measure, but as intimidation””. (SZWYDKY, 2012, p. 555). 

Como apontado pelo comentário de Constantin Rezachevici, a prática de ser cruel não teria sido algo apenas limitado a Vlad, mas vários outros líderes faziam o mesmo. Os próprios Estevão, o Grande, Matias Corvino, Mehmed II e outros líderes da época ordenaram atrocidades e o uso da violência e do medo como forma de intimidação. 

Lissette Szwydky (2012, p. 554) comenta que fama de Vlad Tepes foi algo que durou entre o final do século XV e parte do XVI, depois disso não se encontram mais relatos sobre sua pessoa e ele acabou caindo no anonimato. Apenas no século XIX, Vlad voltaria a chamar a atenção, inicialmente por terem supostamente descoberto seu túmulo na igreja de Snagov, algo que gerou apenas repercussão local. No entanto, isso começou a ser usado como parte de propaganda política nacionalista, já que à época a Romênia passava por disputa nacionalistas. Entretanto, a fama de Vlad III só se tornou mais forte no XX com o sucesso do romance Drácula, o qual aumentou a visibilidade da Romênia. (TORTOMANI, 2014, p. 35).

Vlad como vampiro:


Bram Stoker
Por mais que existam vários relatos desde o século XV, contando absurdos acerca dos atos de Vlad Tepes, além de outros escândalos e seu suposto sadismo e crueldade, nenhuma dessas histórias fala de vampiros. Vlad III surge como vampiro apenas no final do século XIX, mais exatamente no ano de 1897, quando o escritor, poeta e contista irlandês Abraham "Bram" Stoker (1847-1912) lançou seu mais famoso romance, Drácula. Mas antes de lançar seu livro mais famoso, Stoker já vinha há alguns anos escrevendo poemas, contos para jornais, trabalhando para a companhia teatral do Royal Lyceum Theatre em Londres. Foi nesse período também que se casou com a atriz Florence Balcombe. (GOETTEMS, 2014, p. 4). Durante alguns anos, Stoker viajou pelo continente, coletando fontes e referências para seus romances, então por volta de 1890, ele começou a pesquisar acerca de histórias sobre vampiros. Nessa época, Londres ainda testemunhava os resquícios finais da fama dos penny dreadful, termo usado para se referir a "literatura barata" de entretenimento em massa. 

Consistia em contos e anedotas geralmente de temas escandalosos, bizarros, grotescos e aterrorizantes, referentes a pessoas reais ou ficcionais, o que incluía também lendas e histórias do folclore. Tais obras eram impressas em papel de baixa qualidade e vendidos por um penny de libra, daí serem chamados popularmente de penny dreadful ("centavo macabro"). O público alvo inicialmente era os operários de sexo masculino, os quais começaram a se interessar por tais histórias, depois outras camadas da sociedade foram se interessando. A medida que os penny dreadful foram ficando populares entre as décadas de 1840 e 1860, alguns tornaram-se livretos com vários contos, e outros até mesmo tornaram-se novelas, com publicações semanais de capítulos. 

Embora alguns penny dreadful abordassem histórias sobre vampiros no que consistia num tema não inédito na literatura inglesa do século XIX, a primeira grande obra sobre vampiros foi o conto Carmilla (1871-1872) de Joseph Sheridan Le Fanu, obra que não apenas influenciou Bram Stoker, como alegam estudiosos de seu trabalho, como também influenciou a imagem de vampiros belos, atraentes e sedutores, o erotismo em histórias vampirescas e até mesmo insinuações homossexuais, embora que na época fosse algo mais contido. (SZWYDKY, 2012, p. 558). Outra possível influência teria sido O Vampiro (1819) de John William Polidori. (GOETTEMS, 2014, p. 4). 

Porém, quando Stoker estava escrevendo seu Drácula, naquele tempo os penny dreadful haviam perdido influência, mas as obras de escritores e poetas renomados como Charles Dickens, Oscar Wilde, Lewis Carrol, Thomas Hardy, Robert Louis Stevenson, Arthur Conan Doyle, Alfred Tennyson etc., estavam em alta. Bram Stoker teria que escrever um livro que se destacasse desse cenário bastante concorrido. 

Assim, suas pesquisas sobre lendas de vampiros o levaram a chegar ao leste europeu, conhecido por possuir algumas das lendas mais antigas sobre vampiros. A medida que foi pesquisando a respeito de países como Romênia, Hungria, Bulgária, Moldávia, Sérvia etc., Stoker em dado momento se deparou com as histórias sobre um terrível príncipe valáquio que viveu no século XV, e teria a má fama de empalar pessoas. Uma das possíveis referências de Stoker foi o livro An Account of the Principalities of Wallachia and Moldavia (1820) de William Wilkinson, no qual há menção a Vlad. (SZWYDKY, 2012, p. 554-555). Vlad Tepes tornou-se aos olhos de Stoker o fundamento por trás da lenda. 


“The macabre stories of a human monster thirsty for blood lie at the origin of the well-known Dracula myth, which originated in the English-speaking world (invented by Bram Stoker in his famous novel of 1897). The same stories, fdtered through another national sensibility and another ideology, were also the source of the Romanian myth. The vampire Dracula and the great patriotic ruler have a common origin; they start from the same point and provide a remarkable illustration of the capacity for transformation which is characteristic of the imaginary”. (BOIA, 2001, p. 199). 

O epíteto de Draculea ("filho do dragão"), tornou-se o nome perfeito para seu personagem. Inclusive a má fama que Vlad Tepes recebeu após a morte, levou ao ponto da palavra dracul que significa "dragão", torna-se também sinônimo para "demônio". Dessa forma, Stoker havia encontrado o nome para seu lorde vampiro, um ser cruel, sedento de sangue, ardiloso e que supostamente teria feito um pacto com o diabo, para conquistar a imortalidade. Vlad Tepes havia servido apenas de pano de fundo para situar a história de Stoker na Transilvânia, e encontrar um suposto respaldo histórico. 

Capa da primeira edição de Drácula (1897). 
O livro de singela capa amarela, quando publicado em maio de 1897, pouco tempo depois recebeu críticas mistas. As críticas positivas diziam se tratar de um bom enredo com elementos de suspense e terror satisfatórios, mas não consideravam a obra algo fenomenal ou digno de ser um best-seller. As críticas negativas reclamaram muito da forma como o enredo foi construído e narrado, pois o livro é narrado a partir de diários, cartas, telegramas e notícias de jornal, o que foi visto como algo enfadonho para a leitura e até mesmo poderia atrapalhá-la. (GOETTEMS, 2014, p. 4). 

Ainda assim, a obra continuou a vender e Stoker escreveu outros livros até o fim da vida. Sua última publicação foi em 1911 com o livro Monstro Branco. No ano seguinte ele faleceu. Em 1914 sua viúva, Florence Stoker autorizou a publicação de alguns contos sobre o Drácula, escritos posteriormente ao livro original. No século XX o livro a partir do teatro e do cinema ganhou renome internacional, tornando-se cult e um clássico da literatura gótica. 

Considerações finais: 

Nota-se que podemos ver a história de Vlad III Dracuela a partir de três pontos de vista: a visão histórica na qual ele foi um dos voivodas do Principado da Valáquia, tendo governado por três vezes, embora apenas conseguiu efetivamente exercer seu poder por cerca de seis anos. Todavia, ele era membro de uma respeitada família cujo avô foi Mircea I, o Velho, um dos mais renomados voivodas da Valáquia. Não obstante Vlad III se viu diante de intrigas familiares, complôs, usurpações e traições. Seu pai Vlad II, o Dragão desenvolveu uma profunda rivalidade com João Corvino, o Cavaleiro Branco, além de ter se aliado com o sultão otomano Murad II. 

Essa aliança feita por Vlad II gerou profundas consequências para Vlad III e Radu III como visto, além de pôr seus filhos em problemas com os otomanos e os húngaros. Mas embora Vlad III tenha sido criado entre os otomanos por algum tempo, demonstrou até o final da vida ser inimigo destes, tendo se comprometido a atuar como um cavaleiro cristão em nome da cristandade, algo que Corvino cobrava de Vlad II. 

Por outro lado, temos a visão depreciativa, a qual através de anedotas, poemas, contos, crônicas etc., tornaram Vlad III em Vlad Tepes, lhe legando a má fama de ter sido sanguinário, ignorante, violento, empalador, tirano, furioso, macabro, um monstro. O qual teria mandado matar milhares de pessoas. Sendo que essas histórias carecem de fundamento, embora não podemos negar que Vlad possa ter se vingado de seus inimigos, já que fosse algo comum à época. 

A terceira visão o representa como um suposto vampiro. Embora Bram Stoker não tenha dado muita atenção a contar a história de Vlad, sua obra influenciou outros autores a fazer isso. Inclusive existem filmes, livros, jogos, desenhos etc., que representam Vlad III como tendo sido um vampiro. Vlad III acabou servindo de base para o mais famoso vampiro da História. 

NOTA: Embora Vlad III tenha tentado impedir que a Valáquia caísse definitivamente nas mãos dos otomanos, ele como visto, não conseguiu. Na prática, a Valáquia continuou como Estado vassalo do Império Otomano até meados do século XVIII, quando iniciou movimentos para se separar da suserania otomana, mas ainda continuou pagando tributos até o XIX. 
NOTA 2: Algumas histórias sobre Drácula, se baseiam em Vlad III como tendo sido um vampiro de fato, algo sugerido no livro em si. Por exemplo o filme Drácula: a história nunca contada (2014), o mangá/anime Hellsing (1997-2008), o seriado Drácula (2013-2014), o filme Van Helsing (2004), entre outros.
NOTA 3: O romance O historiador (2005) de Elizabeth Kostova, narra a história de uma investigação histórica para provar que Vlad Tepes realmente era um vampiro e continuava vivo. Que Drácula não seria uma obra de ficção. 
NOTA 4: Dez anos após a morte de Bram Stoker, em 1922 estreava Nosferatu, primeira obra vagamente inspirada em Drácula. Antes disso o livro havia sido adaptado para o teatro inglês.  
NOTA 5: Em 1931 estreava Drácula, obra também vagamente inspirada no romance, mais tornando-se uma das adaptações mais famosas, tendo o ator húngaro Bela Lugosi no papel do conde.  
NOTA 6: No capítulo 3 de Drácula, o conde relata alguns acontecimentos históricos para Jonathan Haker, como a invasão da Hungria, a invasão dos magiares, búlgaros e turcos, mas sem mencionar as datas que tais eventos ocorreram. Drácula também diz que um poderoso voivoda que infligiu derrotas aos turcos ao sul do Danúbio, teve o trono usurpado pelo próprio irmão. Aqui temos uma referência a Vlad III e Radu III. 

Referências Bibliográficas:
BOIA, Lucian. History and myth romanian consciousness. Budapest, Central European University Press, 2001. 
CAZACU, Matei. The reign of Dracula in 1448. In: TREPTOW, Kurt W. Dracula: Essays on the Life and Times of Vlad Țepeș. East European Monographs, Distributed by Columbia University Press, 1991. p. 53–61.
FLORESCU, Radu R; MCNALLY, Raymond T. Dracula, Prince of Many Faces: His Life and his Times. S. l, Back Bay Books, 1989.
GEORGRESCU, Vlad. The Romanians: a history. Translated by Alexandra Bley-Vroman. Columbus, Ohio State University Press, 1991. 
GIORDANI, Mário Curtis. História do Império Bizantino. Petrópolis, Editora Vozes, 1977. 
HENTEA, Calin. Brief romanian military history. Translator Cristina Bordianu. Lanham, Scarecrow Press, Inc. 2007. 
SZWYDKY, Lissette Lopez. Vlad III Dracula (1431-1476). In: MATHESON, Lister M (ed.). Icons of the Middle Ages: rulers, writers, rebels, and saints, vol. 2. California, Greenwood, 2012. 2v, p. 547-580. 
QUATAERT, Donald. O império otomano: das origens ao século XX. Lisboa, Edições 70, 2008. 
RADVAN, Laurentiu. At Europe borders: medieval towns in the Romanian Principalities. Leiden/Boston, Brill, 2007. 
ROBINSON, Francis. O mundo islâmico: o esplendo de uma fé. Barcelona, Ediciones Folio S. A. 2007. (Grandes civilizações do passado). 
STOKER, Bram. Drácula. Tradução e notas de Doris Goettems. São Paulo, Landmark, 2014. 
TORTOMANI, Kostantina. A Balkan Gothic: Bram Stoker's "Drakula" and the Balkan Identity. International Journal, 2014, p. 35-46. 
TREPTOW, Kurt W. Vlad III Dracula: The Life and Times of the Historical Dracula. The Center of Romanian Studies. 2000. 
TURNBULL, Stephen. The Ottoman Empire 1326-1699. New York/London, Routledge, 2005. (Osprey Essential Histories). 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Vida após a morte na mitologia grega

Os gregos antigos são hoje mais conhecidos por sua mitologia do que sua religião, inclusive pelo fato de não terem possuído textos sagrados e pouco escreveram sobre seus próprios ritos, a melhor forma de conhecer o pensamento religioso grego antigo acerca da vida após a morte é estudando sua mitologia, pois em alguns mitos existem elementos religiosos presentes. Sendo assim trago esse texto reescrito, pois originalmente o publiquei há alguns anos, mas de maneira bem simples. Mas passados estes anos e aprofundando meus estudos decidi que o melhor era reescrevê-lo por completo. 

Breve introdução a religião grega antiga: 

Antes de descrevermos quais seriam os locais da morte para os antigos gregos, se faz necessário comentar a respeito de sua religião e algumas de suas características. Nos textos anteriormente publicados neste mês de dezembro de 2016, os quais abordei o mito dos Doze Trabalhos de Héracles e os mitos dos heróis gregos já vimos algumas características da religião grega, logo iremos rever algumas delas e acrescentar outras. 

A religião grega antiga como várias outras religiões do mundo, era uma religião étnica, o que consistia na fé e crenças de um povo específico, neste caso, os povos falantes da língua grega. Os gregos herdaram parte de suas crenças de outros povos, em especial dos Micênicos e dos Cretenses, civilizações que já viviam seu esplendor no século XVI a.C.

Para alguns historiadores os micênicos devam ser considerados gregos, correspondendo a um período histórico daquele povo. De qualquer forma, areligião micênica era mais próxima da antiga religião grega do que a religião cretense. O nome dos principais deuses gregos como Zeus, Poseidon, Hera, Hermes, Dionísio e Ares foram achados escritos no antigo alfabeto micênico, isso há mais de três mil anos, o que revela a antiguidade do culto dessas divindades. Por sua vez, deusas como Deméter, Perséfone e Atena eram de origem cretense. (SCARPI, 2000, p. 61).

Nesse ponto é preciso recordar que a ideia de Grécia que normalmente temos é às vezes equivocada. A Grécia Antiga era um aglomerado de cidades-estados espalhadas pelo sul da Península Balcânica e a Península do Peloponeso, além de incluir várias outras ilhas no Mar Egeu e algumas no Mar Adriático. Não obstante, os gregos também colonizaram outras terras, fazendo surgir a chamada Magna Grécia (nome dado ao território das cidades-estados gregas e suas colônias). Devido a esse território vasto, heterogêneo e ao mesmo tempo influenciado por outros povos e crenças, não é de se imaginar que a cultura grega não apenas influenciou, mas também foi influenciada. Os gregos absorveram tradições e crenças dos fenícios, dos egípcios, dos persas e de outros povos. 

"A religião grega arcaica e clássica apresenta, entre os séculos VIII e IV antes da era cristã, vários traços característicos que é necessário lembrar. Assim como outros cultos politeístas, é estranha a toda forma de revelação: não conheceu nem profeta e nem messias. Mergulha suas raízes numa tradição que engloba a seu lado, intimamente mesclados a ela, todos os outros elementos constitutivos da civilização helênica, tudo aquilo que dá à Grécia das cidades-Estado sua fisionomia própria, desde a língua, a gestualidade, as maneiras de viver, de sentir, de pensar, até os sistemas de valores e as regras da vida coletiva". (VERNANT, 2006, p. 13). 

O historiador italiano Angelo Brelich (1985, p. 39), estudioso da Grécia antiga apontou que a religião grega não possuía uma literatura sacerdotal, nem livros sagrados, nem dogmas e nem uma classe sacerdotal. Era uma religião politeísta a qual se cultuava várias divindades, havendo os grandes deuses e outras divindades diversas, inclusive de culto regional e local. Era uma religião fundamentada em ritos domésticos e ritos públicos, algo que ficou em evidência com o surgimento das póleis. Era uma religião relacionada com a ideia de destino, oráculos, mistérios, iniciação, sacrifícios de animais e até de humanos. Os deuses eram responsáveis por tudo no mundo e até mesmo pelo destino dos homens. 

Brelich (1985, p. 40) comentava que embora não houvesse uma literatura sacerdotal e nem livros sagrados, ainda assim encontrava-se na poesia expressões religiosas. Nesse ponto ele comenta que isso era algo problemático de ser definido, pois a ideia de literatura sagrada e profana parece não ter existido entre os gregos. Um poema de teor mitológico poderia ser considerado uma obra de cunho religioso, pois abordava os deuses e a criação divina. Lembrando que mito e religião não são iguais. O mito é uma narrativa fantástica que pode ter influência com o religioso ou não.

“Os mitos, para nós, servem como importante fonte de conhecimento sobre o pensamento grego e as características de seu culto. Além disso, embora muitas das histórias dos heróis e suas aventuras sejam imaginárias, revelam aos historiadores, também, como os gregos se relacionavam com a natureza, suas ocupações, seus instrumentos, seus costumes e os lugares que visitaram e conheceram. Os mitos servem, também, para que possamos entender melhor a nós mesmos. Por quê? Por tratarem de sentimentos humanos, como o amor e o ódio, a inveja e admiração e, muitas vezes, traduzirem ou procurarem responder a indagações morais e existenciais que rondam a mente humana. Por isso, ainda hoje, essas histórias mitológicas gregas falam à nossa sensibilidade, milhares de anos depois. A maneira de tratar as questões e os sentimentos humanos mais profundos continua atual, suas narrativas ainda nos emocionam”. (FUNARI, 2002, p. 37). 

Na ausência de uma literatura sagrada, de dogmas, de normatizações litúrgicas e clericais, os gregos viam na sua mitologia, principalmente retratada através da poesia, na oralidade e até nas artes, uma forma de expressar suas crenças quanto aos deuses e suas noções de mundo, vida e existência. Nesse ponto, outro historiador italiano Paolo Scarpi (2000, p. 62), sublinhou que devido a essa flexibilidade na religião grega antiga, isso permitiu que diferentes formas de cultos, ritos e crenças coexistissem nos territórios habitados pelos gregos. 

Existência da alma e de vida após a morte: 

O historiador das religiões Raffaele Pettazzoni (1921, p. 4) comenta que os gregos antigos possuíam a noção de que todos os seres vivos possuíam uma anima (alento, vento, respiração, alma, espírito). O historiador assinala que para a concepção grega, a alma seria como um alento divino, um sopro de vida. Quando a pessoa falecia, sua alma sairia do corpo como se fosse expirada. Todavia, a alma continuava a viver, pois era imortal como os deuses. Pettazzoni comenta também que os gregos costumavam representar a alma simbolicamente como sendo um pássaro ou uma borboleta. 

Junito Brandão (1986, p. 169-170) comenta o mito das idades relatado por Hesíodo em seu livro O Trabalho e os Dias. Nessa obra Hesíodo diz que no mundo houve cinco eras, nas quais viveram cinco tipos de humanidades diferentes. Na primeira, chamada de Idade do Ouro a humanidade não envelhecia, vivia de forma pacífica e próspera. Quando morriam suas almas continuavam a existir, mas sem irem para o submundo. Eles continuavam a viver na Terra, embora que num plano espiritual. Na Idade de Prata o mesmo ocorria com as almas humanas, a principal diferença é que o clima havia mudado e os homens começaram a envelhecer e viver menos. 

Na Idade de Bronze os homens passaram a viver menos, e se tornaram mais arrogantes e violentos. Quando morriam suas almas desciam para o Hades. Na Idade dos Heróis na qual ocorreu a Guerra de Tebas e a Guerra de Troia, teriam vivido os grandes heróis gregos que os mitos narram suas histórias. A humanidade continuava a ir para o Hades, mas os heróis após morrerem habitavam as ilhas dos Bem-Aventurados. Por fim, chegamos a quinta era, a Idade do Ferro que é o atual período em que vivemos, sendo o mais violento, corrupto, nocivo, traiçoeiro e vergonhoso. Os grandes heróis já não são mais vistos entre nós. 


“Na estrutura das quatro primeiras raças distinguem-se dois planos diferentes: ouro e prata de um lado, bronze e heróis de outro. Cada um dos planos se divide em dois aspectos antitéticos, um positivo, outro negativo: são duas raças associadas, mas que se opõem, como a Díke (Justiça) contrasta com a Hýbris (Violência). O que diferencia o plano das duas primeiras raças do plano das duas seguintes é que ambos se relacionam com funções distintas, que representam tipos de agentes humanos, formas de ação, hierarquias sociais e psicológicas opostas. Há, de saída, uma primeira dissimetria: no primeiro plano (ouro e prata), a Díke (Justiça) é o valor dominante e a Hýbris (Violência) tem valor secundário; no segundo (bronze e heróis), sucede o contrário, a Hýbris predomina”. (BRANDÃO, 1986, p. 170). 

“Isto explica, aliás, o destino diferente que aguarda, após a morte, as almas das duas primeiras raças daquelas pertencentes às duas seguintes. Os que nasceram sob a égide do ouro e da prata têm realmente uma promoção post mortem: convertem-se em daímones, "demônios" (intermediários benéficos entre os deuses e os homens). Esses daímones, todavia, agem diferentemente sobre os mortais, tanto quanto se diferenciaram na vida terrestre: os primeiros (da idade de ouro) são os daímones epictônios, quer dizer, continuam a viver e a agir na terra; os segundos (da idade de prata) são os daímones hipoctônios, isto é, vivem e agem sob a terra, na outra vida. Ambos são objetos das "honras" que lhes tributam os mortais: "honras" maiores para os primeiros e inferiores para os segundos. Muito diferente é o destino póstumo daqueles que viveram as idades do bronze e dos heróis. Como raça, nenhum deles tem direito a uma promoção. Os da idade de bronze, após perecerem na guerra, convertem-se no Hades em "mortos anônimos", nónymoi. Somente alguns heróis privilegiados conservam, por desígnio de Zeus, um nome e uma existência individual no além: levados para a ilha dos Bem-Aventurados, têm uma vida isenta de preocupações. Apesar desse prêmio, porém, esses heróis privilegiados não são objeto de veneração alguma, nem de culto, por parte dos homens. Contrariamente aos daímones, os heróis carecem de qualquer poder ou influência sobre os vivos”. (BRANDÃO, 1986, p. 171). 

Independente da questão da memória, algo que voltarei a comentar novamente, os gregos de fato possuíam uma noção de alma e de vida após a morte. Na Ilíada e na Odisseia, poemas atribuídos a Homero e provavelmente escritos no século VIII a.C, em ambas as obras, mas principalmente na segunda fica atestado que o mundo dos mortos é o Hades. É para lá que até mesmo os heróis seguiriam, de acordo com Homero. No canto I da Ilíada, 1-7, Aquiles envia vários troianos para o Hades. No canto XVI, Pátroclo lamenta por morrer jovem e diz que sua alma voa para o Hades. No canto XXIII, a alma de Pátroclo aparece para Aquiles e pede para que o amigo realize os ritos fúnebres para ele, para que assim pudesse efetivamente adentrar o Hades. 

No canto XI da OdisseiaOdisseu desceu ao Hades para falar com o vidente Tirésias, e na viagem subterrânea ele se deparou com Aquiles, Pátroclo, Antíloco Ajax e outros heróis gregos que morreram na Guerra de Troia

Aqui nessa citação mitológica redigida num poema, temos a menção da imortalidade da alma, do mundo dos mortos e da outra vida. Além disso os gregos também acreditavam em destino como já mencionado por Brelich e Vernant. Na própria Ilíada em algumas estrofes menciona-se a ação das Moiras, as deusas do destino. Brandão (1986, p. 140) sugere que inicialmente possa ter havido apenas uma divindade genericamente chamada de Moira, posteriormente em época desconhecida passou-se a falar em três deusas: Láquesis, Cloto e Átropos. Conhecidas como as fiandeiras, elas fiavam os destinos dos homens e dos deuses. 

No poema, Homero deixa bem claro essa questão do destino quando fala da morte de alguns heróis e até de outros acontecimentos. Por exemplo, as moiras contam a Tétis, mãe de Aquiles, que o destino de seu filho possui dois caminhos: permanecer na Grécia, viver até a velhice e constituir família, mas não conseguir fama e glória. Ir para a Guerra de Troia, já sabendo que não voltará da guerra, pois estava destinado a ali morrer, mas conquistaria glória eterna. Quando Tétis conta isso a Aquiles, ele opta pela glória eterna. Outro acontecimento que faz menção ao destino, envolve o nascimento de Páris, o qual havia sido profetizado que a criança um dia traria a ruína para Troia. E isso se confirmou. Édipo é outro exemplo de como o destino pode ser terrivelmente cruel. Ele foi destinado a matar o pai, torna-se rei e casar com a própria mãe. 

O deus Hades:

Hades (Plutão para os romanos) não era apenas o nome do submundo, mas também é o nome de seu governante. Logo se faz necessário comentar acerca do deus dos mortos, o senhor do submundo. Hesíodo em sua Teogonia menciona que Hades era o filho mais velho dos titãs Cronos e Reia. Sendo um de seis filhos: Zeus, Poseidon, Hera, Héstia e Deméter. Embora fosse o primogênito, Hades como os seus demais irmãos, exceto Zeus, foram ainda bebês engolidos por Cronos, o qual temia uma profecia que dizia que um de seus filhos iria destroná-lo, algo que ele havia feito com seu próprio pai, Urano. Com isso, Cronos aprisionou seus filhos em seu estômago, porém quando nasceu seu caçula, Zeus, Reia decidiu poupar a criança, escondendo-a numa caverna em Creta, e entregando uma pedra envolta em panos, a qual sem pestanejar, Cronos engoliu.


Busto de Hades. Cópia romana do original grego. 
Muitos anos depois, Zeus já adulto, posteriormente conseguiu libertar seus irmãos e declarou guerra ao seu pai e tios, no que ficou conhecido como Titanomaquia. Deuses, titãs, ciclopes-ferreiros e hecatônquiros (gigantes de cem braços e cinquenta cabeças) se digladiaram pelo controle do mundo. Os deuses saíram triunfantes. Os ciclopes-ferreiros forjaram objetos para os três poderosos deuses, como retribuição por os terem ajudado na guerra. Zeus ganhou os raios, Poseidon o seu tridente, e Hades recebeu um elmo que quando usado, o deixava invisível. (MÉNARD, 1991, p. 41). 

Posteriormente os três deuses decidiram dividir os domínios de seus reinos. Zeus por ter sido o comandante na luta contra os titãs, ficou com os domínios do céu e da terra. Poseidon recebeu os mares, e Hades recebeu os domínios do submundo. Tendo que reinar sobre os mortos. (BRANDÃO, 1986, p. 311). 

Tempo depois já como governante do submundo, Hades decidiu arranjar uma esposa. Incitado pela beleza de sua sobrinha Perséfone, filha de Deméter e Zeus, Hades certo dia a sequestrou e a levou ao submundo. Isso gerou sérios problemas entre os Olimpianos, e Deméter desesperada pelo sumiço de sua filha, entrou em profundo pranto, fazendo a natureza começar a se esvaecer, causando o outono e o inverno, pois Deméter era a deusa da agricultura e das estações do ano. Todavia após um acordo entre Zeus, Hades e Deméter, além do fato que Perséfone efetivamente se apaixonou por Hades, o casamento foi reconhecido, e ela tornou-se a rainha do submundo e dos mortos. (MÉNARD, 1991, p. 269-272). 


Hades e Perséfone retratados num vaso grego. Datado de cerca de 440-430 a.C. 
O caminho dos mortos: 

Hoje em dia é bastante conhecida a história do barqueiro Caronte, responsável por conduzir as almas recém-mortas, através do rio Aqueronte até a entrada do Hades. A partir do século V a.C encontram-se referências escritas acerca do Óbolo de Caronte, termo usado para se referir a moeda que se colocava acima ou dentro da boca do defunto, para servir de pagamento a Caronte. Curiosamente vemos em alguns filmes tal rito ser realizado com duas moedas sobre os olhos, mas todos os relatos conhecidos sejam de origem grega e romana, falam de apenas um óbolo (tipo de moeda) posto na boca. 


Ilustração de Caronte para a Divina Comédia. Gustave Doré, 1861.  
O poeta romano Virgílio (70-19 a.C) no seu mais famoso livro a Eneida, no canto V, no qual ele narra os jogos fúnebres realizados por Eneias em memória de seu pai Anquises, o qual morreu um ano antes, Virgílio diz que realizar os ritos fúnebres eram imprescindíveis para que a alma pudesse chegar ao Hades, caso contrário, o morto corria o risco de ser barrado por Caronte, e ficaria preso as margens do Aqueronte, em profundo lamento. O também poeta romano Luciano (c. 125 - c. 181) em tom irônico comenta o rito fúnebre do óbolo de Caronte, dizendo que não importava de onde fosse a moeda, o que interessava é que o defunto antes de ser enterrado ou cremado, deveria estar de posse dela para poder pagar sua condução no Aqueronte, caso contrário, Caronte poderia negar-se a levá-lo e mandar sua alma de volta. (MÉNARD, 1991, p. 141).

Todavia, a ideia de que Caronte fosse o encarregado de transportar as almas até os portões do Hades não foi uma invenção romana, os próprios gregos já mencionavam isso. Por exemplo, em um dos Doze Trabalhos, Héracles teve que ir ao Hades para buscar Cérbero. Quando chegou ao Aqueronte, Caronte se negou a transportá-lo, pois ele estava vivo. O herói indignado, deu uma surra no velho barqueiro e o obrigou a levá-lo. 

No entanto, a ideia de Caronte como condutor dos mortos nem sempre foi pensada assim. Hesíodo e Homero os quais mencionam o mundo dos mortos, não fazem menção ao barqueiro ou ao pagamento do óbolo, embora no caso de Homero ele descreva o funeral de Pátroclo com detalhes, mencionando que vários animais foram sacrificados na ocasião, além de que os pertences e presentes foram queimados juntos com o corpo. Neste caso, estes dois poetas deixam a entender que os mortos seguiriam diretamente ao Hades, sem necessidade de serem transportados por Caronte.

Junito Brandão (1986, p. 312) nos fornece uma importante observação: a vida após a morte na mitologia grega não era formada por uma única estrutura ou um único mito, pelo contrário, era uma concepção advinda de vários mitos, sincretismos religiosos, influências literárias e filosóficas. Sendo assim, veremos vários mitos que representavam estes distintos pensamentos sobre o mundo dos mortos. 


“Assim sendo, não se pode falar de uma escatologia grega, mas houve na Hélade tantas escatologias quantas as fases e momentos histórico-sócio-culturais por que passou a Grécia. Houve tantas escatologias quantas as correntes literárias e filosóficas que medraram na pátria de Homero e de Sócrates. Já se falou de "escatologias" em Homero e Hesíodo: ambas muito diferentes... Poderíamos falar de outras: nos Órficos, nos Pitagóricos, em Platão e nos Neoplatônicos, nos Estóicos e até na ausência de escatologia no Epicurismo”. (BRANDÃO, 1986, p. 313). 


Caronte e Psiquê. John Roddam Spencer Stanhope, 1883. Na pintura vemos Caronte tirando da boca de Psiquê o seu óbolo. 
Dando continuidade ao "caminho dos mortos", em várias histórias narra-se a jornada de heróis ao Hades. Héracles já foi mencionado, mas além dele, outros heróis como Odisseu, Orfeu, Teseu e Pirítoo também desceram ao submundo e não passaram por Caronte. Isso conota que: 1) é visível a diversidade de relatos sobre o mundo inferior; 2) o Aqueronte não era o único caminho para se chegar ao Hades, pois com exceção de Héracles, os demais heróis tomam outros caminhos, na maioria das vezes, adentrando por cavernas específicas que os conduziriam até lá. 

Um outro ponto a ser mencionado neste caso é o fato que o deus Hermes as vezes era considerado o responsável por conduzir a alma dos mortos ao Hades. Hermes era filho de Zeus e a plêiade Maia, era um deus com várias funções: mensageiro, patrono do comércio e do roubo, protetor dos viajantes, dos pastores, ajudante dos deuses e dos heróis, mas Hermes também segundo alguns relatos, conduziria as almas dos mortos para a outra vida, tornando-o um psicopompo. (GRIMAL, 2005, p. 224). É Hermes quem guiou Héracles até o submundo em seu trabalho para capturar o cão Cérbero. 

O julgamento dos mortos:

Inicialmente o deus responsável por julgar os mortos era Hades, mas posteriormente em dada época essa atribuição foi lhe retirada, e passou a ser o dever de três homens: Éaco, Minos e Radamanto, os juízes do inferno. 


Pintura retratando os três juízes. Da esquerda para direita: Radamanto, Minos e Éaco. 
Primeiro é preciso discernir julgamento de punição. No caso do segundo, vários deuses detinham o direito de punir os mortais ou até outros deuses por seus atos. Zeus como soberano era o mais conhecido por decretar sentenças, depois vinha Hera, como rainha, que em geral punia as amantes do marido. Nêmesis era a deusa da vingança, incumbida de executar a vingança dos deuses sobre os mortais. Têmis e Astreia eram deusas da justiça, personificando a justiça, a moral, a ética e as leis, mas não tinham a função de julgar os mortos. Havia outras divindades também associadas a punição e a justiça, como as Erínias (Fúrias para os romanos), divindades que habitavam o Hades e eram responsáveis por punir, torturar e atormentar os criminosos. Todavia, quem efetivamente julgava os mortos era Hades em determinadas épocas e depois seus três juízes. 

Brandão (1986, p. 315) menciona que o Orfismo (culto relacionado ao herói Orfeu e outras tradições religiosas), surgido entre os séculos VII-VI a.C, proporcionou novas interpretações acerca do mundo inferior, uma delas foi a divisão do Hades em três partes, algo que voltarei a comentar adiante. Para Junito Brandão essa reinterpretação promovida pelo Orfismo possa ter abrido espaço para retirar de Hades o papel de juiz dos mortos e introduzir os três mortais no lugar, assim como, mudar a própria noção de vida após a morte. 

Em concepções anteriores sobre o Hades, os bons e maus dividiam o mesmo local, porém, os grandes criminosos e aqueles que afrontaram os deuses iriam para o Tártaro. Hesíodo e Homero mencionam tal fato de que o Tártaro seria o local de tormento, porém os demais viveriam nos campos sombrios do Hades. Inclusive na Odisseia, quando Odisseu visita o submundo ele avista vários de seus companheiros de guerra vagando por aquele deserto sombrio. Mas eles não sofriam, mas também não estavam alegres, eles viviam uma vida mórbida. No entanto, ainda no mesmo poema, Homero cita Radamanto, o qual viveria ao lado dos bem-aventurados. Aqui Homero não deixa claro se Radamanto já era considerado um juiz ou o governante das ilhas dos Bem-Aventurados. 

Com a inserção da crença que as almas fossem julgadas fosse por Hades ou pelos juízes, conotava a condição de que os bons e maus não dividiriam exatamente o mesmo espaço. Crença essa pregada pelo Orfismo, segundo conta Brandão (1986, p. 315). 

Mas retomando aos três juízes, cada um era filho de Zeus, sendo que Minos e Radamanto eram filhos com Europa e Éaco era filho com Egina. Cada um dos três homens possuíram virtudes pelas quais permitiu que fossem nomeados juízes do Hades. Éaco era conhecido como um homem honrado e um bom governante. Radamanto segundo algumas versões teria escrito o código de leis de Creta, tendo sido um homem justo e comprometido com o direito e a justiça. 

Todavia, Minos é um caso a parte. Devido a inveja que tinha da popularidade de Radamanto, forçou o irmão a se exilar. Sua desfeita a Poseidon gerou como consequência o surgimento do Minotauro, o qual ele mandou prender no labirinto construído por Dédalo. Inclusive manteve Dédalo e seu filho Ícaro como seus prisioneiros. Além disso, quando os dois fugiram, Minos enviou uma expedição para encontrá-los e trazê-los presos. O rei também era conhecido por ser infiel e promíscuo (embora fosse um comportamento comum de muitos reis gregos nos mitos). Por motivos não claros, Minos recebeu a honra de se tornar um dos juízes.


“O tribunal era formado por três juízes integérrimos: Éaco, Radamento e Minos. Esse tribunal, no entanto, é bem recente. Homero só conhece como juiz dos mortos a Radamanto. Éaco aparece pela primeira vez em Platão.  Radamanto julgava os Asiáticos e Africanos; Éaco, os Europeus. Em caso de dúvida, Minos intervinha e seu veredicto era inapelável.  Infelizmente quase nada se sabe acerca do conteúdo desse julgamento e a maneira como era conduzido, embora na Eneida, VI, 566-569, Vergílio nos fale, de passagem, que Radamanto supliciava as almas, obrigando-as a confessar seus crimes ocultos. Julgada, a alma passava a ocupar um dos três compartimentos: Campos Elísios, Érebo ou Tártaro”. (BRANDÃO, 1986, p. 318). 

Como comentando por Brandão, de fato não é possível comentar mais a respeito do julgamento das almas, pois se desconhece detalhes acerca. Enquanto no Egito, temos alguns mitos e até mesmo relatos religiosos contidos no Livro dos Mortos, o qual descreve o julgamento realizado por Osíris, na religião e mitologia dos gregos isso nunca foi encontrado. Conhecesse os nomes dos juízes, mas se desconhece como seria executado o julgamento. 

Érebo e Tártaro:

Como comentado por Junito Brandão talvez tenha sido por volta do século VIII-VII a.C, que a concepção geográfica do submundo começou a mudar. O poeta Hesíodo em sua Teogonia é lacônico ao dizer que Hades governava o mundo inferior, porém o que ele menciona de mundo inferior é basicamente o Tártaro e suas redondezas, inclusive o Tártaro nem parece ser exatamente um abismo como ficaria conhecido. Mas antes de prosseguir é preciso falar sobre a origem de Érebo e Tártaro, que embora seja o nome de locais, trata-se também da personificação de divindades. 

De acordo com Hesíodo, o qual escreveu um dos mais significativos trabalhos sobre a genealogia dos deuses desde a criação até a ascensão dos Olimpianos, Hesíodo reuniu em seu longo poema, referências de vários mitos na época para formalizar essa sua genealogia divina. De acordo com seu relato o primeiro deus foi Caos, o qual criou o universo. A partir dele surgiu a escuridão Érebo, a noite Nix, as profundezas abissais Tártaro, a mãe-terra Gaia, e o divino amor Eros (outras versões dizem que Eros era filho de Afrodite). Nyx deu à luz (literalmente) a Éter (substância universal) e a Hemera (o dia). Gaia originou Urano (o céu) e casou-se com ele, tendo gerado vários filhos, sendo os titãs, os ciclopes-uranianos e os hecatônquiros. (Teogonia, est. 115-125). 

Nota-se que Érebo e Tártaro são divindades primordiais, considerados por alguns mitólogos como deuses, lembrando que alguns deuses somente existiam na mitologia, na faziam parte da religião. De fato, os deuses primordiais não recebiam culto, exceto Eros. Tais divindades tratavam-se de seres que personificavam os elementos da natureza como visto: terra, céu, noite, dia etc. 

Se desconhece a época exata que Érebo e Tártaro deixaram de ser simples divindades primordiais associas a escuridão, para se tornar no nome de locais do submundo. Ainda na Teogonia, Hesíodo não menciona um local chamado Érebo, mas cita que o submundo governado por Hades era o Tártaro. 

Hesíodo (est. 720-740) descreve o Tártaro como sendo uma região incrustada nas profundezas da terra. Em seu relato Hesíodo diz que o Tártaro é tão distante que do topo do Olimpo até ele, levaria-se 20 dias para chegar. Nesse caso ele faz uma analogia com a queda de uma bigorna, a qual levou nove dias e nove noites para cair do topo do Olimpo até a terra, e depois levou mais nove dias e nove noites para atingir o Tártaro. Em seguida ele diz que o Tártaro é tão profundo que nem um ano de viagem seria o suficiente para alcançar o fundo. 


A Queda dos Titãs. Cornelis van Haarlem, 1588. 
O Tártaro é descrito por uma região escura e nevoenta, cercada por três imensas muralhas de pedra com portões de bronze, construídos por Poseidon. Giges, Coto e Briareu (os hecantônquiros) atuam como sentinelas de cada um dos portões, impedindo que os titãs ali aprisionados tentem escapar. 

Adiante, nas estrofes 745-760, Hesíodo diz que Atlas, o titã que sustenta o céu nas costas, metade de seu corpo ficaria no submundo a outra ficaria na superfície. Na abóboda celeste viajariam Nyx (noite) e Hemera (dia), mas também Hipnos (o sono) e Tânatos (a morte). Não obstante sem definir com clareza, Hesíodo diz que Hades e Perséfone habitam um palácio no submundo, e nos portões da entrada do submundo estaria o cão de guarda de três cabeças Cérbero. Ali embaixo também estaria o palácio da oceânide Estige, que possui um rio com seu nome, o qual é um dos cinco rios do Hades. Para alguns intérpretes da Teogonia, o local onde vive Hades e as demais divindades ficaria acima do Tártaro. 


Desenho representando Cérbero guardando o portão do Hades, enquanto algumas almas caminham em sua direção. 
De qualquer forma o que podemos extrair do relato de Hesíodo é que o Tártaro é um abismo tenebroso e nevoento, local de castigo e sofrimento aos inimigos dos deuses, inicialmente os titãs, mas outros mitos narram a história de alguns homens como Tântalo, Sísifo e Íxion que também foram parar no Tártaro. Não obstante, Érebo não consiste num local físico, os Campos Elísios não são mencionados e nem se quer Hesíodo diz para onde iriam as almas daqueles que não afrontaram os deuses. 

Por sua vez, Homero nos fornece outras informações a mais. Na Ilíada e na Odisseia, Homero já se referia ao submundo pelo nome de Hades, e o enxergava como um local tendo dois níveis: um era um deserto sombrio para onde iria a maioria dos mortos, o Érebo, independente de serem bons ou maus. Sendo este o local no qual Odisseu na Odisseia (canto XI) visitou para encontrar o vidente Tirésias. Por outro lado Homero cita brevemente na Ilíada (canto VIII) a existência do Tártaro, local de tormento e sofrimento. Nesse canto, Zeus indignado pelo fato dos deuses estarem intervindo mais do que deveria na Guerra de Troia, ameaços de que caso o desobedeçam novamente, os jogaria ao Tártaro. 

Para Junito Brandão (1986), Érebo como sendo o deserto escuro pelo qual alguns heróis passaram como Héracles, Odisseu, Teseu etc., mas também como local onde perambulavam as sombras dos mortos (eidolon), além de ser o local onde residem Hades e outros deuses ctônicos, consistiu numa concepção posterior ao século VIII a.C, quando em determinado momento decidiu-se reimaginar a geografia do Hades. 

As sombras e os condenados: 

Vimos o caminho pelo qual os mortos fazem para chegar ao submundo, seja sendo conduzido por Hermes ou por Caronte através do rio Aqueronte até chegar aos portões do Hades, guardados por Cérebro. Vimos o mito que menciona os três juízes responsáveis por julgar as almas dos mortos. E agora a pouco acabamos de comentar a respeito do Érebo e do Tártaro. Assim vamos falar a respeito da ideia de existência na outra vida, como os gregos imaginavam essa pós-vida. 

Os gregos concebiam a existência da alma e sua imortalidade como já comentado, embora alegassem que os mortos poderiam cair no esquecimento fosse esse esquecimento induzido ao se beber as águas de algum rio, ou o esquecimento proporcionado pelos vivos. Mas independente deste esquecimento, a morte não era o fim. Hesíodo no mito das idades mencionou que os homens das Eras de Ouro e de Prata se tornaram daímôns, seres espirituais que ajudavam as pessoas. Sócrates segundo alguns relatos, dizia que conseguia conversar com seu daímôn. Todavia, os homens das Era de Bronze, dos Heróis e de Ferro, foram lançados a escuridão do Hades. 

Homero na Ilíada e na Odisseia usa o termo eidolon ("sombra") para se referir ao espírito do morto. Em vida a alma é normalmente chamada de psiqué, porém psiqué também é entendido como alento, ar, sopro da vida. Logo, quando essa deixa um corpo vivo, torna-se um eidolon


“Com a morte do corpo, a psiqué torna-se um eídolon, uma imagem, um simulacro que reproduz, "como um corpo astral", um corpo insubstancial, os traços exatos do falecido em seus derradeiros momentos”. (BRANDÃO, 1986, p. 145).

É essa "sombra" que passa a vagar na Terra como espírito atormentado (o que chamamos as vezes de fantasma), mas também é essa "sombra" que habita o Hades. Tal noção é mais clara na Odisseia, canto XI, quando Odisseu desce ao Hades e se depara com os eidolon de várias pessoas. E como mencionado, o herói reencontra seu companheiro de guerra, Aquiles. E numa breve conversa na qual Odisseu indaga Aquiles como era viver lá embaixo, o falecido herói em desânimo responde que sentia falta do Sol, da beleza do mundo, que preferia ser um simples agricultor lá em cima, do que ser um "rei" lá em baixo. Além de Aquiles, Odisseu ao conversar com Ajax, Pátroclo e outros, percebe essa melancolia. 

Entretanto, por mais que Homero já mencionasse essa noção de melancolia relacionada ao Érebo, um dos locais do Hades, o sofrimento propriamente falando continuava a estar ligado com o Tártaro. Hesíodo já havia mencionado isso e Homero confirma que o Tártaro era o local de dor e punição após a morte.

Odisseu em sua jornada pelo Hades (Canto XI, 460-470), comenta que avistou os condenados Tântalo e Sísifo. Ele não menciona Íxion. De qualquer forma, Odisseu enquanto diz que os outros vagueiam como moribundos pela escuridão do Érebo, Tântalo e Sísifo eram castigados. Para entender isso é preciso se fazer um breve comentário acerca do que eles fizeram em vida. 

Tântalo era filho de Zeus, e rei na Frígia ou Lídia. Era bem quisto pelos deuses, porém ele se valeu desse respeito para atentar contra os imortais. Na primeira vez Tântalo divulgou segredos divinos aos homens (o mito não específica que segredos eram esses). Na segunda vez ele num banquete realizado no Olimpo, roubou ambrosia e néctar, a comida e bebida dos deuses. Seu terceiro crime foi testar os deuses. Num banquete que ele ofereceu as divindades, Tântalo assassinou seu filho Pélops e mandou oferecer sua carne no banquete. O rei duvidava da onisciência dos deuses, mas para sua surpresa exceto Deméter que abalada pelo sequestro de Perséfone, todos os outros deuses notaram que se tratava de carne humana. Zeus furioso fulminou Tântalo e seus outros filhos que eram cruéis. Posteriormente o pobre Pélops foi ressuscitado. Tântalo por ter afrontado os deuses três vezes, mas acima de tudo, por ter matado o próprio filho e tentado enganar os deuses foi enviado ao Tártaro. 

Desenho representando a condenação de Tântalo. Sentenciado ao Tártaro, o infame rei foi condenado a passar a eternidade com sede e fome, sem jamais saciar a nenhum. 
“Tântalo foi lançado no Tártaro, condenado para sempre ao suplício da sede e da fome. Mergulhado até o pescoço em água fresca e límpida, quando ele se abaixa para beber, o líquido se lhe escoa por entre os dedos. Árvores repletas de frutos saborosos pendem sobre sua cabeça; ele, faminto, estende as mãos crispadas, para apanhá-los, mas os ramos bruscamente se erguem. Há uma variante de grande valor simbólico: o rei da Frígia estaria condenado a ficar para sempre sobre um imenso rochedo prestes a cair e onde ele teria que permanecer em eterno equilíbrio”. (BRANDÃO, 1986, p. 79). 

No caso de Sísifo esse foi o rei-fundador de Corinto, era conhecido por ser muito sagaz, inclusive sua arrogância o levou a tentar enganar a morte. Em duas ocasiões Sísifo enganou Tânatos o deus da morte, mas seus atos também prejudicaram Zeus e Hades. Na terceira vez ele foi pego e banido para o Tártaro, sendo condenado pela eternidade a ter que carregar uma pedra, morro acima, mas quando chegava próximo ao topo, já fraco e cansado ele cedia e a pedra o derrubava morro abaixo. Então Sísifo se levantava e voltava a fazer tudo de novo, isso pela eternidade. (BRANDÃO, 1986, p. 226).


Sísifo. Tiziano, 1549. 
No caso de Íxion, esse não é mencionado na Odisseia, mas seu mito foi incorporado ao Tártaro, tornando-o terceiro grande condenado mortal a ser sentenciado ao sofrimento eterno. Íxion era o rei dos Lapitas, um povo que habitava a Tessália, no centro da Grécia. Íxion é conhecido por dois terríveis crimes: o primeiro foi enganar e assassinar seu sogro, o queimando vivo. O segundo crime foi desonrar os deuses durante um banquete, no qual tentou estuprar a deusa Hera, mas na verdade era uma nuvem no formato de Hera. Zeus suspeitava da honestidade de Íxion, então fez uma armadilha para ele. Vendo que o infame rei realmente achava que era Hera, Zeus o matou e baniu ao Tártaro, condenando-o a girar numa roda de fogo pela eternidade. (BRANDÃO, 1986, p. 282). 


Pintura retratando a condenação de Íxion. Sentenciado a girar numa roda de fogo ou sobre o fogo, pela eternidade. 
Embora alguns mitos destaquem estes três reis desonestos, outros mitos relatam que no Tártaro haveria vários outros condenados. Na Eneida, canto VI, Virgílio quando descreve o Hades, diz que no Tártaro residiam todos os criminosos e pecadores. É evidente que Virgílio fornece outra interpretação ao mito, mas quando ele escreve o livro no século I a.C, o Tártaro ainda era encarado por gregos e romanos como um lugar de grande tormento, embora não saibamos exatamente em termos religiosos como se definia o que podemos chamar de "pecador". 

Em si como contam os historiadores Angelo Brelich, Raffaele Pettazzoni e Jean-Pierre Vernant, tentar definir uma única concepção sobre vida após a morte para os gregos é equivocada. Seitas como os Mistérios de Eleusis, o Orfismo e o Epicurismo possuíam outras interpretações sobre a alma e a vida após a morte; não obstante, nem todo mito reflete plenamente o pensamento religioso. Pode-se falar em Tártaro e no Érebo como repouso dos mortos, mas não significa que todo grego acredita-se piamente que não pudesse haver outros locais para onde suas almas iriam, ou tão pouco vissem o Érebo da mesma forma. Uma das críticas feitas pelo Orfismo dizia respeito a concepção pessimista de vida após a morte.

Os seguidores do Orfismo eram contrários a ideia de que a alma estaria definitivamente destinada as sombras eternas do Érebo, eles acreditavam que haveria uma diferença de local para onde iriam os bons e os maus. A partir dessa concepção começou a se delinear a ideia de "paraíso". 

As ilhas dos bem-aventurados:

A ideia de paraíso para os gregos antigos ainda hoje é uma concepção problemática. Há poucas referências mitológicas acerca do que poderíamos chamar de paraíso, pois como dito a maioria dos mitos referem-se a existência mórbida no Érebo, no Hades. Apenas os grandes criminosos e "pecadores" iriam para o Tártaro. Na Odisseia, no canto XI, Odisseu enquanto comenta a respeito dos heróis troianos que ele viu lá em baixo, comenta que Héracles o grande herói grego, não se encontrava ali, pois ele recebeu dos deuses a imortalidade e direito de viver no radiante Olimpo, tendo se casado com a deusa Hebe, a de belos tornozelos. 

É na Odisseia, no canto IV que encontramos uma das mais antigas menções ao juiz Radamanto e a ilha dos bem-aventurados, e até mesmo aos Elísios, os quais posteriormente se tornariam campos. No canto IV, estrofe 430, Homero menciona que Radamanto já havia morrido e sua alma (psiqué) habitava uma distante terra situada no Ocidente. Aqui devemos lembrar que para os gregos antigos, o mundo era concebido de forma plana, então o Ocidente era concebido como um vasto oceano sem fim (ou com fim), cheio de ilhas habitadas por povos estranhos e monstros. Mas em meio a esta miríade de terras estranhas, estaria um local onde as pessoas viveriam alegremente. Não haveria temporais e nem invernos. A brisa marinha sopraria suavemente sobre aquela terra iluminada. Homero se referia a tal lugar como Elísio

O Elísio nesse caso era concebido como uma ilha o arquipélago, situado em algum local do Ocidente longínquo. Seria neste caso um paraíso terreno, para onde os heróis, os justos e os puros seguiriam para o descanso na outra vida. O problema é que Homero não diz claramente como ocorria o julgamento das almas para ir ao Elísio, pois como dito, Aquiles, Pátroclo, Ajax entre outros, foram todos enviados ao Érebo. 

Além de Homero, Hesíodo também fez menção ao Elísio, como se este fosse alguma ilha. Em Trabalhos e os Dias (170), o poeta conta o mito sobre uma terra bela, próspera e alegre, situada no distante oceano ocidental. Ali os alimentos floresciam em abundância e havia safras três vezes ao ano. Não havia frio, fome e pestes. Os "abençoados" teriam um descanso pacífico ali, diferente da melancolia do Érebo e do sofrimento no Tártaro. Não obstante, Hesíodo dizia que o guardião do Elísio era o titã Cronos

No século V a.C, o poeta Píndaro (c. 522 - c. 443 a.C) em suas Odes, 2. 59-75 menciona a Ilha dos Abençoados. Um local paradisíaco sem nenhum mal. Vigiado por Cronos e governado por Radamanto. Aquelas ilhas ensolaradas eram observadas pelo próprio Zeus. Para lá seguiam os bons.  

As obras de Homero e Hesíodo não possuem datação precisa, mas acredita-se que suas versões mais antigas datem do século VIII a.C, embora se refiram a mitos que datem de muitos anos antes. Todavia, ainda no século V a.C, o poeta Píndaro, como vimos, mantinha essa noção que o Elísio seria uma ilha ou arquipélago, também conhecido como Ilhas Afortunadas, Ilhas dos Bem-Aventurados ou Ilhas Abençoadas. Seria um paraíso terrestre situado em algum local do Oceano Atlântico, o limite ocidental do mundo para os antigos gregos. 

O filósofo e matemático Pitágoras (c. 570-495 a.C) concebia que o mundo fosse redondo, e inclusive defendia que as Ilhas dos Bem-Aventurados não fossem ilhas terrenas, mas uma metáfora para se referir a planos celestiais localizados no Sol e na Lua. Tal fato se devia a condição que na época havia o pensamento que a alma era feita de Éter, a substância primordial que envolvia o universo. Sendo assim, acreditava-se que quando a alma deixasse o corpo, ela retornaria para o "oceano de Éter", que seria o universo. 

Quase um século depois, o filósofo Platão (428-348 a.C) questionou a interpretação tradicional religiosa e mitológica acerca do Hades. Para Platão, o Érebo e os Elísios seriam locais temporários. Inclusive ele considerava

Os Campos Elísios: 

A concepção dos Elísios é antiga como vimos no tópico acima. Tendo surgido como paraíso terrestre insular. Não se sabe exatamente quando ele passou as ser referido como parte do Hades. Brandão (1986) sugere que isso tenha começado por volta do século VII a.C com o Orfismo, mas caso isso seja verdadeiro, consiste numa variação do mito, podendo-se dizer que haveria duas noções sobre onde se localizaria o paraíso grego: numa versão esse seria situado em ilhas no Atlântico, na outra, que acabou se tornando bastante popular com a Eneida (I a.C), o Elísio deixa de ser ilhas para se tornar campos verdejantes sem fim, estando situado no submundo, que desde os tempos antigos era concebido como local da morte. René Ménard resumiu a descrição dos Elísios feita por Virgílio: 


"Deliciosos campos, risonhas planícies, bosques eternamente verdes, formam a morada dos bem-aventurados. Ali, um ar mais puro reveste os campos de uma luz purpurina; as sombras têm ali o seu sol e os seus astros. Umas exercem, em jogos de relva, a sua força e a sua flexibilidade ou lutam sobre a areia dourada; outras batem o chão cadenciadamente e entoam versos. Orfeu, em longa veste de linho, faz ressoar harmoniosamente as sete vozes da sua lira. Dardos fixados na terra, carros vazios, cavalos que pastam em liberdade, exercem sempre a mesma atração nos que, durante a vida, amaram as armas, os carros e os cavalos, pois todos conservam os mesmos gostos depois da morte. Vêem-se também sombras deitadas à sombra de uma floresta de loureiros, às margens de um rio límpido, que entoam alegres coros. Ali estão os guerreiros feridos em luta pela pátria, os sacerdotes cuja vida sempre foi casta, os poetas que Apolo inspirou, os que pela invenção das artes civilizaram s homens, e aqueles cujos benefícios fizeram viver a memória; todos têm a cabeça cingida de faixas brancas como a neve". (MÉNARD, 1991, p. 156). 


Os Campos Elísios. Arthur B. Davies, 1928. 
Na concepção na qual os Elísios se encontravam no subterrâneo, uma característica a mais que foi acrescentada diz respeito ao rio Lete. Os mitos gregos nos informam a existência de cinco rios infernais: o Aqueronte o qual é o rio que separa o Hades do mundo dos vivos; o Estige, que consiste no rio das promessas; o Cócito, um rio congelado; e o Flegetonte um rio de fogo; por fim, temos o Lete, o rio do esquecimento. Destes cinco rios, os mais importantes são o Aqueronte, o Estige e o Lete, os outros dois são pouco comentados nos mitos gregos. (MÉNARD, 1991, p. 140). 

Junito Brandão nos fornece outra interpretação para os rios infernais:


“Os próprios nomes, diga-se de passagem, por que são designados os rios do Hades, expressam simbolicamente os tormentos que aguardam os condenados: Aqueronte, o rio das dores; Cocito, o rio dos gemidos e das lamentações; Estige, o gélido rio dos horrores; Piriflegetonte, o rio das chamas inextinguíveis; e Lete, o rio do esquecimento”. (BRANDÃO, 1986, p. 266). 

Todavia, falaremos neste caso do rio Lete e seu papel como rio do esquecimento. Já vimos anteriormente no texto que havia a ideia de que os mortos ao chegarem ao Hades, perderiam sua memória. Sobre isso Jean-Pierre Vernant fez alguns comentários. 

Comenta que a morte era encarada como o eterno esquecimento. Os heróis conseguiam escapar desse "esquecimento", pois seus feitos eram cantados e declamados. Vernant sugeriu que essa ideia de esquecimento fosse uma concepção bastante antiga e que foi sendo alterada, pois quando lemos os relatos mitológicos entre os séculos VIII e IV a.C, percebemos variações nesse pensamento. (VERNANT, 1990, p. 146). 



Entretanto Vernant (1990, p. 133, 431) chama atenção que o esquecimento dos mortos não significava que eles deixavam de existir propriamente. Pois parece ter havido diferentes concepções nesse sentido. Para alguns autores gregos que mencionaram o assunto, os mortos quando adentravam o Hades eles beberiam das águas do esquecimento no Aqueronte ou no Lete, a fim de esquecer suas vidas terrenas e darem início a uma nova vida após a morte. No entanto, ao mesmo tempo em que os mortos perdiam sua memória, os vivos também poderiam esquecê-los. Isso consiste também num motivo para diferenciar os heróis, os quais eram "mortos ilustres", pois embora pudessem esquecer suas vidas terrenas, os vivos não os esqueceriam. O próprio Odisseu quando encontra Aquiles no Hades, menciona tal fato, dizendo que embora o herói estivesse morto, seus feitos eram cantados. 

“Qual e então a função da memoria? Não reconstrói o tempo: não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz do sol. Realiza para o passado uma “evocação” comparável ao que efetua para os mortos o ritual homérico. O apelo entre os vivos e a vinda a luz do dia, por um breve momento, de um defunto que volta do mundo infernal; comparável também a viagem que se mira em certas consultações oraculares: a descida de um ser vivo ao pais dos mortos para ai aprender — para ai ver o que quer saber. O privilegio que Mnemosyne confere ao aedo e aquele de um contato com o outro mundo, a possibilidade de ai entrar e de voltar dele livremente. O passado aparece como uma dimensão do além”. (VERNANT, 1990, p. 143). 


As águas do rio Lete. Thomas Benjamin Kennington, 
Brandão (1986, p. 319-320) comenta um aspecto bastante interessante acerca do rio Lete. O fato do esquecimento gerado ao se beber das suas águas não era apenas uma forma de expurgar o sofrimento e dores dos mortos que ali viveriam em paz, mas também consistia numa forma de purgá-los para a reencarnação. 

A reencarnação:

A concepção religiosa da reencarnação entre os gregos antigos era pautada em duas perspectivas: a ensomatose (reencarnação em corpo humano) e a metempsicose (reencarnação em corpo animal). Tais concepções religiosas originaram-se a partir de seitas e das crenças dos "mistérios". Inclusive havia até mesmo filósofos que debatiam esse assunto. 


“Diga-se, logo, que é, até o momento, muito difícil detectar a origem e a fonte de tal crença. Na Grécia, o primeiro a sustentá-la e, possivelmente, a defendê-la foi o mitógrafo e teogonista Ferecides de Siros (séc. VI a.C), que não deve ser confundido com seus homônimos, o genealogista Ferecides de Atenas (séc. V a.C.) e Ferecides de Leros, posterior e muito menos famoso que os dois anteriores. Apoiando-se em crenças orientais, o mitógrafo de Siros afirmava que a alma era imortal e que retornava sucessivamente à Terra para reencarnar-se. No século de Ferecides, somente na Índia a crença na metempsicose estava claramente definida. É bem verdade que os egípcios consideravam, desde tempos imemoriais, a alma imortal e suscetível de assumir formas várias de animais vários, mas não se encontra na terra dos faraós uma teoria geral da metempsicose. Caso contrário, por que e para que a mumificação? De qualquer forma, as teorias de Ferecides não surtiram muito efeito no mundo grego. Os verdadeiros defensores, divulgadores e sistematizadores da "ensomatose" e da metempsicose foram o Orfismo, Pitágoras e seus discípulos, e o filósofo Empédocles. A alma, pois, não quite com suas culpas, regressava para reencarnar-se. O homem comum percorria o ciclo reencarnatário dez vezes e o intervalo entre um e outro renascimento era de mil anos, cifras que, no caso em pauta, são meros símbolos, que expressam não quantidades, mas sim idéias e qualidades, o que, aliás, se constitui na essência do número”. (BRANDÃO, 1987, p. 167). 

A partir dessas crenças religiosas surgiram novas interpretações para a ideia do Érebo e dos Campos Elísios. Ambos seriam entendidos como locais passageiros. No Érebo iriam as pessoas que não eram tão boas para ir aos Elísios, mas também não tão más para caírem no Tártaro. Ainda assim, nessa nova concepção, o Érebo deixava de ser um local de melancolia para se tornar um local de punição e purgação. Por sua vez os Elísios também era um local de purgação, embora não sofrível como o Érebo. Todavia, a condenação ao Tártaro era tida como definitiva. (BRANDÃO, 1986, p. 320). 

“Com efeito, para os mitos de reencarnação, a impureza que proporciona a água de morte, com a queda em uma nova existência corporal, e o esquecimento das vidas anteriores e a ignorância do destino da alma; a purificação que a água da vida consagra e a memoria infalível do iniciado, concernente as coisas do além, essa sabedoria que vai permitir a sua evasão definitiva do ciclo do devir. Assim, pelo mito, encontrava-se aberto o caminho no qual ia orientar-se a reflexão filosófica. Se Lethe significa volta a geração, se a Vida impura e aquela do devir, e porque o próprio fluxo temporal e uma forca de ruína semelhante ao Styx arcádico, a irremediável força de destruição que aniquila todas as coisas aqui da terra, o monstruoso fluir que nada pode reter”. (VERNANT, 1990, p. 184). 

Para os seguidores do Orfismo entre os séculos VI a.C e IV a.C, nenhuma das duas formas de reencarnação eram algo desejáveis. Os seguidores do Orfismo preferiam alcançar a estabilidade na outra vida e evitar o tortuoso ciclo das reencarnações. 


“Se para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida. Desse modo, na doutrina de Orfeu, o rio Lete teve parte de suas funções prejudicadas. Bebendo na fonte da Memória, a alma órfica desejava apenas lembrar-se da bem-aventurança”. (BRANDÃO, 1987, p. 166). 

Brandão comenta que foram encontrados escritos órficos em lamelas de ouro, os quais instruíam os órficos quando chegassem ao Hades, deveriam evitar beber das águas do Lete, pois assim esqueceriam suas vidas e entrariam no processo para reencarnar. Eles deveriam procurar a fonte da Memória, para que assim preservassem suas memórias e alcançassem a sabedoria, estando finalmente livres dos pensamentos inferiores, ignorantes e maldosos. 

Platão que foi influenciado pelo pensamento órfico-pitagórico, na República e no Fédon dizia que ao chegar ao Hades, a alma deveria ter cuidado, pois os bons deveriam tomar o caminho da direita, e os maus tomariam o caminho da esquerda. No caminho da esquerda os maus seriam punidos por seus atos no Érebo, inclusive estariam passíveis de sofrer reencarnação através de metempsicose. Todavia, os bons seriam recebidos por Perséfone e conduzidos ao descanso eterno. (BRANDÃO, 1987, p. 165-166). 

O descanso eterno era descrito em alguns textos órficos como o Palácio dos Bem-Aventurados e pelo que parece, talvez ficasse no Hades, embora Platão sugerisse que ficasse num plano celeste. Na época de Virgílio, século I a.C, a ideia de reencarnação ainda continuava a existir, pois ele próprio a menciona na Eneida, quando fala que os mortos em Érebo e nos Elísios poderiam ter uma nova vida. No entanto, nesse período tais crenças já estavam perdendo adeptos. 

Nota-se por essa breve introdução que a ideia de reencarnação não era vista totalmente de forma positiva pelos gregos antigos. Os órficos não eram a favor de terem que reencarnar. O próprio Platão também pensava o mesmo, acreditando que fosse melhor seguir uma vida correta e assim evitar ser punido no Érebo ou no Tártaro, assim como evitar de ter que reencarnar também. Pois enquanto algumas religiões indianas proclamavam e proclamam a reencarnação como uma forma de aperfeiçoamento do espírito, para os gregos esse aperfeiçoamento não era encarado da mesma forma. Alguns consideravam a reencarnação como uma forma de punição. 

Considerações finais: 

Vimos que a religião grega não consistia numa crença homogênea e dogmática, havia diferentes interpretações quanto a vida após a morte, mas algumas delas foram gerais ao longo dos séculos. O Hades era o mundo dos mortos por excelência; o Tártaro era o local de punição e sofrimento; havia vida após a morte; a alma era imortal; o destino era real e poderia ser cruel. 

Todavia surgem as concepções diferentes, algumas dessas alavancadas pela seita do Orfismo, surgida talvez na Arcádia ou em Creta por volta do século VII a.C, a qual influenciou bastante a religiosidade grega nos séculos seguintes, adotando um viés de iniciação, comunidade, ritos secretos e privados, uma reinterpretação da vida após a morte etc. O orfismo ao se unir a outras seitas de mistérios e concepções filosóficas foram de encontro a religiosidade cívica e os ritos agrários que imperavam na Grécia desde pelo menos o século VIII a.C.

A partir desse pensamento místico e filosófico adentrou-se na cultura grega a ideia de reencarnação (ensomatose e metimpsicose), a ideia de que cada um era responsável pelos seus próprios atos, algo que rompia com a antiga noção de maldição familiar, algo que é narrada em alguns mitos, nos quais diziam que toda uma família e suas descendência estava condenada a tragédia. Com a percepção órfico-filosófica, essa ideia de maldição é abandonada e o homem passa a ser responsável por suas escolhas, embora a concepção de destino ainda se mantém. 

No entanto, a grande diferença que surge com isso tudo é a noção de punição. Pois embora o Tártaro seja uma concepção bem antiga, para lá iam apenas os grandes criminosos, em geral a população independente de seus atos estava fadada a melancolia do Érebo. Com essas mudanças o Érebo tornou-se um local de punição também, embora menos severo do que o Tártaro, e na perspectiva da reencarnação, o Érebo e os Elísios tornam-se locais de passagem, para que a alma expiasse seus pecados e pudesse reencarnar. 

Todavia, vimos que em determinadas épocas o paraíso era derradeiro, estaria situado na Terra, em alguma ilha perdida no Oceano Atlântico, antes de ser levado para o subterrâneo e posteriormente até pensado que se encontraria no céu. Mas mesmo com a noção de reencarnação vinculando, por mais que os Elísios deixassem de ser o paraíso definitivo, havia outro local que exercia essa função. 

NOTA: A palavra grega daímôn usada pelos gregos para designar espíritos humanos que poderiam influenciar as pessoas para o bem ou para o mal, a palavra foi latinizada para daemon, que por sua vez foi reinterpretada pelos autores cristãos, passando a significar demônio.  


NOTA 2: O fato de Hermes em algumas crenças mitológicas e religiosas dizerem que o deus estava associado com a condução dos mortos para o Hades, o levou a ser comparado com o deus egípcio Anúbis, mensageiro da morte e o deus da mumificação. Inclusive encontramos escritos gregos com o nome Hermanúbis

Referências bibliográficas:
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