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Leandro Vilar

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nota sobre o ato de celebrar o 7 de setembro

No Brasil, o dia 7 de setembro se comemora a Independência do Brasil, ou seja, a separação político do Reino do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1816-1822), que fomentou o surgimento de um Estado-nação regido por um governante próprio, que no caso foi o imperador D. Pedro I e sua corte, estabelecida no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Todavia, Portugal negou-se a reconhecer essa independência que era vista como um golpe de Estado, uma rebelião, revolta, uma afronta. 

Parte da população das capitanias da Bahia, Pernambuco, Ceará, Piauí e Maranhão se manifestaram contrários a independência. As outras capitanias também se manifestariam depois. Essa oposição se deveu ao fato de que alguns defendiam a permanência do Brasil no reino unido, outros por sua vez, queriam a fundação de uma grande república, ou repúblicas regionais. Somando a essas dissidências havia o fato de que os indígenas e negros não eram cidadãos, mesmo durante a colônia, e com o advento do Estado-nação do Império do Brasil, não ganharam nenhuma promoção, continuaram a serem deixados de lado da vida política, e até da dignidade social. E para completar, D. Pedro I de 1823 e 1825 ordenou campanhas militares para derrotar e silenciar os focos de oposição e resistência, de forma a consolidar o processo de emancipação político de Portugal. 


Entretanto, se de fato sabemos que a Independência do Brasil foi um movimento orquestrado pelas elites especialmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que almejavam uma ruptura de dependência político-econômica com Portugal, pois na prática, manter-se como reino unido, a vista deles não estava sendo favorável para seus negócios, seria válido celebrar essa data que marca o nascimento do conceito de pátria brasileira?

Na presente data de hoje, fui confrontado de forma até mesmo afrontosa por outros historiadores que me acusaram de celebrar o 7 de setembro, pois fazer isso era celebrar um golpe de Estado; era celebrar a escravidão; era celebrar a opressão; era celebrar a monarquia; era compactuar com a manutenção de práticas coloniais desumanas; além disso, era ser imparcial, tolo, ignorante, alienado, pois o historiador antes de celebrar algo deve ser crítico, e quando for, não deve tomar partido. Deve manter-se neutro. Essas últimas palavras soaram da boca de alguém que diz que a monarquia não prestou e não merecia nem se quer ser lembrada. Mas isso não é tomar partido? Onde está a neutralidade?

Fiquei espantado com o nível e conservadorismo desses historiadores em dizer que o 7 de setembro não teve nenhuma utilidade histórica! Foi um golpe para criar uma monarquia escravocrata. Nesse ponto, a neutralidade do historiador torna-se hipocrisia, e aqueles que não dizem ter preconceitos, revelam os seus, como feras raivosas para rasgar a garganta daquele que quer cantar o hino nacional, ou participar do desfile cívico, ou dizer para o filho que somos hoje um país independente, com uma constituição, com leis, com tradições, com símbolos nacionais, com costumes, com culturas, como problemas etc., mas ainda sim, somos um país livre. Mesmo que a nossa liberdade, nosso Estado de direito, tenham começado sobre os ombros da escravidão, de genocídios, do colonialismo, do mercantilismo, de revoltas e guerras. 

Mas me indago: que país no mundo nasceu de forma pacífica? Que país do mundo não possui em sua história momentos de violência, ódio, sangue, morte, guerra, desordem, miséria, corrupção, desigualdade, crise? Israel, uma nação criada em 1948 é reflexo de três mil anos de conflitos! Embates estes que ainda hoje continuam, mas para muitos que ali vivem, é o seu lar, sua identidade, sua pátria, sua esperança, seu sonho, suas tragédias, seus pesadelos. E no âmbito religioso é um lugar santo!

Seria demasiadamente querermos sermos utópicos em pensar que o Brasil se não tivesse se tornando independente em 1822, poderia anos depois ter se tornado uma honrada e justa república? Nunca saberemos. A história não é feita de projeções futuras. 

Independência ou Morte, Pedro Américo, 1888. Neste quadro o pintor paraibano retratou de forma romanceada a proclamação da independência. Segundo alguns historiadores isso é a representação de um golpe fomentado pelas elites cariocas, paulistas e mineiras, sem a participação de outros segmentos da sociedade, e sem levar em consideração os escravizados. 
De fato, a monarquia brasileira não foi aquilo que milhões de brasileiros esperavam. A monarquia não aboliu a escravidão logo de início; manteve o poder moderador, ao invés de tê-lo suprimido; D. Pedro I não foi um bom governante, D. Pedro II foi um governante razoável até certa época; não houve desenvolvimento industrial, tecnológico, educacional, científico, social como esperado de outras monarquias da época. A pátria brasileira nasceu em berço de ouro, mas cresceu de forma mimada. 

Diante de tudo isso, poderíamos dizer que é inválido celebrar a nossa independência? E segundo, querer celebrá-la é compactuar com a monarquia, com a escravidão, com o colonialismo explorador? Se for assim, celebrar o 14 de julho na França, data de início da Revolução Francesa (1789-1799) não é apenas defender a democracia, o republicanismo, os direitos civis, a constituição, a modernidade etc., mas também é compactuar com o autoritarismo dos revolucionários, a arbitrariedade nos julgamentos, os complôs, as traições, os crimes, as perseguições políticas, a violência, as execuções em massa nas guilhotinas, a manutenção de colônias e da escravidão. 

Celebrar o 4 de julho de 1776, Independência dos Estados Unidos não é apenas comemorar a origem de uma república, a formação de uma nação, a criação de uma constituição, mas também é compactuar com a guerra, o genocídio indígena, as perseguições, complôs, traições e até mesmo com a escravidão negra, afinal, essa somente foi abolida em 1865. E nesse ponto é algo curioso, pois os historiadores que me disseram que não era válido celebrar o 7 de setembro, por ser um golpe de Estado, que legitimava um governo monárquico escravocrata, dizem que o 4 de julho foi uma revolução digna, e revoluções devem ser celebradas. Então eu me pergunto: mesmo revoluções que perpetuam a escravidão? O problema era a escravidão (que realmente é algo terrível), ou o problema é não ter sido uma república revolucionária?

Declaração de Independência dos Estados Unidos, John Trumbull, 1818. Segundo os historiadores que condenam a Independência do Brasil,  por ter sido fruto de um golpe que instaurou uma monarquia escravocrata, no caso americano, isso foi um ato revolucionário que contou com a participação de vários segmentos da sociedade. Mas nessa pintura só vemos a elite branca reunida, sem contar que neste momento, não houve abolição da escravidão. Os EUA nasceram como uma república escravocrata. O problema era só a escravidão ou foi o Brasil ter surgido como uma monarquia?
Acredito que devemos sim celebrar o 7 de setembro, tenha sido ele um triunfo, ou um golpe, ou uma farsa, ou um complô ou uma discórdia. Devemos celebrá-lo mesmo que ele não tenha sido a esperança que se esperou na época, mesmo que ele tenha mantido em funcionamento desigualdades, preconceitos, injustiças, opressões, sistemas políticos-econômicos-sociais-ideológicos que hoje são abomináveis e não deveriam voltar a se repetir. Porém, cada tempo é único. O nascimento do Brasil é fruto de sua época. Uma época em vários aspectos ainda em desenvolvimento e de transformações sociais, científicas, religiosas, morais, culturais, econômicas etc. 

Seria demasiadamente prepotência nossa condenar o surgimento da nação brasileira, por discordamos de como ela surgiu e como ela se manteve? Eu também não concordo como a independência foi feita, ou muito menos concordo com certas decisões, políticas e escolhas que foram feitas e mantidas durante o império. Mas é preciso reconhecer que a História não é um conto de fadas que mesmo com os perigos e problemas, nos aguarda com um final feliz e reconfortante. Se queremos aceitar o 7 de setembro, que o aceitemos junto aos seus horrores, e não negá-los, porque eles nos incomoda. Agir assim é similar a aqueles que dizem que a Ditadura Militar (1964-1985) não teve problemas e não foi um período ruim, mas tempos dourados de imaculada justiça e democracia. É querer enxergar apenas um lado, no caso, aquele que lhe convém, que lhe conforta, o seu "conto de fada". 

Por mais que você diga que não concorde com a independência feita por D. Pedro e os demais, com a criação do império e suas políticas, isso é direito seu. Mas dizer que devemos ser neutros, mesmo que você já tenha claramente tomado seu partido, e ainda mais, dizer que não tomou partido, mas condena aquele que o fez, é ser no mínimo hipócrita, desonesto. É mais sensato dizer que você odeia a colônia e o império, mas louva a república (mesmo com seus problemas), do que falar que está sendo neutro, imparcial, crítico. Ou é mais sensato dizer que você admira o império (mesmo como seus problemas), mas não gosta da atual república brasileira de hoje. 

Por fim, eu digo, se queres celebrar o 7 de setembro, celebre-o, mas seja bravo suficiente para aceitar toda a bagagem histórica que essa data, esse marco histórico traz consigo. Não queira entoar o hino e achar as mil maravilhas, negando que o país nasceu sobre genocídio de povos indígenas, a escravidão negra e indígena, guerras, invasões, revoltas, conspirações, traições, corrupção, crimes e outros problemas sociais. Seja valente em querer erguer a bandeira verde e amarela é dizer que "o meu país passou por terríveis momentos, tanto na época da colônia, do império e da república, mas é meu dever lutar por um presente e um futuro melhores, que as tragédias e horrores do passado não voltem a ocorrer!". 

Penso que isso seja ser patriota, e não ficar tentando esconder a sujeira debaixo do tapete como alguns fazem, ou ficar de verborragia contra aqueles que denunciam as mazelas, ou ser hipócrita, dizendo que não toma partido, se já o fez desde o início. Reconhecemos nossa história e lutemos para fazer um país melhor e não ficar em aporia porque o passado foi assim, e não do jeito que eu queria. 








quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Referências em Game of Thrones

A popular série de fantasia medieval Game of Thrones, exibida e produzida pelo canal HBO, baseada na série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo de George Raymond Richard Martin, definitivamente já é um fenômeno internacional, e uma das séries mais caras, assistidas e premiadas da história da teledramaturgia. Nos últimos anos têm se escrito sobre os livros e o seriado, artigos, livros, postagens em blogs etc. Todavia, também surgiram em alguns debates pela internet a dúvida acerca das referências históricas que aparecem nos livros e na série: seriam os Greyjoy uma referência aos vikings? Na Idade Média havia realmente essa disputa pelo trono? Os nobre viviam realmente em gigantescos castelos? As relações de vassalagem e suserania como são mostradas na série, correspondem a realidade? Havia comércio durante o feudalismo? 

Essas entre outras perguntas marcam presença nas pautas destes debates, apesar de que haja gente que diga que pelo fato da história possuir dragões, magia, mortos-vivos etc., isso a torne uma fantasia, sem conexão nenhuma com a realidade. Não é assim. O próprio autor George Martin em algumas entrevistas, já declarou que se baseou em acontecimentos históricos para conceber elementos de sua trama. Logo, a proposta deste texto é comentar a respeito de algumas referências históricas, mas também geográficas, mitológicas, lendárias etc., que se encontram presentes no universo fantástico das Crônicas de Gelo e Fogo. Para isso, optei em dividir em tópicos o assunto, a fim de facilitar a leitura. 

A Muralha:

No primeiro livro Guerra dos Tronos (Game of Thrones) e na primeira temporada da série, somos apresentados a Muralha (The Wall), uma gigantesca construção de gelo maciço, com 500 km de extensão e 200 metros de altura, construída 8 mil anos antes do presente dos acontecimentos da trama, por Brandon Stark, o Construtor, para proteger o Reino do Norte da ameaça dos Selvagens, Gigantes, Caminhantes Brancos entre outras feras que habitam aquelas hostis terras congeladas do extremo norte do continente de Westeros

Mas apesar de se tratar de uma construção fantástica que possui um importante papel na narrativa das Crônicas, pois é o local onde se desenrolam momentos cruciais, envolvendo a relação da Patrulha da Noite com os Selvagens, e no caso do seriado, o conflito com a mortífera ameaça do Rei da Noite e os Caminhas Brancos, a Muralha foi baseada numa construção real. No caso já li gente dizendo que devido as dimensões dela, a Muralha foi inspirada na Grande Muralha da China, mas não é bem assim. Martin não foi até o outro lado do mundo para colher inspiração, ele foi num lugar mais próximo, na Inglaterra, onde existem duas muralhas bem antigas, as quais serviram de inspiração. 

Ilustração da Muralha vista a partir do território selvagem. 
No século I d.C, dois imperadores romanos construíram no norte da Bretanha (atual Inglaterra), muralhas para proteger a fronteira, mas também evitar que os "bárbaros" Pictos descessem para saquear as terras do império. Pelo fato de que nem mesmo as poderosas legiões romanas conseguiram enfrentar o frio e o rigor das terras escocesas, o imperador Adriano (117-138) ordenou que uma longa muralha fosse construída para proteger seu império naquela parte do mundo. 

A construção se iniciou no ano de 122, tendo sido construída as pressas pelas legiões romanas. Em 126 ou 128 ela foi oficialmente concluída, possuindo na época 118 km de extensão. Mas diferente a muralha de Westeros, a Muralha de Adriano era algo bem mais simples, inclusive, o sucessor de Adriano, o imperador Antonino Pio (138-161), ordenou a construção de uma nova muralha, 160 quilômetros ao norte da fronteira estabelecida por seu antecessor. A Muralha de Antonino apesar de ser mais curta, possuindo 63 km de extensão, era em alguns trechos mais alta e melhor fortificada. Foi concluída por volta de 142. 

Porém, a influência as muralhas romanas para a obra de George Martin, fica mais clara quando olhamos o mapa de Westeros e Essos e os comparamos com a geografia real da Terra, algo que será comentado no próximo tópico. 

Mapa-múndi:

Nas Crônicas de Gelo e Fogo nos são apresentados mapas do continente Westeros, onde ocorre a maior parte da trama, do continente de Essos, onde acontecem vários acontecimentos importantes, especialmente relacionados com a trajetória de Daenerys Targaryen, além de ser mostrado também ilhas e silhuetas dos continentes e Sothoryos e Ulthos. Todavia, apesar do mapa de Westeros e Essos nos fascinar por seus detalhes geográficos, especialmente o primeiro, onde se notou mais esmero do autor em detalhar a geografia daquele continente. No entanto, Westeros não é fruto totalmente da mente de Martin, o escritor americano se baseou na geografia do Reino Unido para criar Westeros. 

Neste caso, o Reino Unido é formado pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e a região norte da Irlanda, além de uma série de ilhas. Porém, Martin considerou utilizar os mapas da Inglaterra, País de Gales, Escócia (que se situam na ilha da Bretanha) e toda a ilha da Irlanda em si, não apenas a porção norte. Na imagem comparativa abaixo, podemos ver como o mapa da Bretanha e da Irlanda serviram de inspiração para a criação do continente fantástico de Westeros. Ao mesmo tempo percebe-se que a Muralha de Adriano, fica situada numa faixa de terra bem similar A Muralha de Westeros, além do fato de que a Escócia representa a terra congelada e hostil em Westeros. 



É evidente que mudanças climáticas foram feitas, pois a Escócia apesar de fria, ainda assim não é um deserto gelado como o norte para além da Muralha de Westeros. Não obstante, o norte da Irlanda, que foi invertido, tão pouco é uma região de clima quente com direito a deserto, como é o caso de Dorne, no sul de Westeros. Apesar que Dorne foi inspirada na Península Ibérica e o norte do Marrocos. Inclusive os dorneses lembram em alguns aspectos físicos e culturais a cultura moura que se estabeleceu em Portugal e Espanha ao longo do medievo. De qualquer forma nota-se as semelhanças geográficas entre os dois mapas. Mas e quanto a Essos, Sothoryos e Ulthos?

O mapa do continente de Essos consiste numa adaptação do sul da Europa, já Sothoryos seria o norte da África, e Ulthos que se encontra no extremo oriente do mundo, equivale a Ásia. Neste caso, Sothoryos e Ulthos para os habitantes de Westeros, responsáveis pelo mapa-múndi mostrado nos livros e na série, consistem em terras exóticas e pouco conhecidas, daí nos seus mapas, estes continentes estarem incompletos.  


Os continentes e Westeros, Essos, Sothoryos e Ulthos, em mapa feito especialmente para o livro The Lands of Ice and Fire, 2012. 
Se comparado ao mapa da Europa, Essos, representa a porção sul do continente, englobando países como França, Itália, Grécia e a região do Bálcãs. Neste caso, as terras da Antiga Valíria, são similares a Grécia, inclusive a Baía de Escravos foi baseada no Mar Egeu e no Mar Negro, assim como, as cidades de Nova e Velha Ghis, Astapor, Yunkai, Meereen e a região de Qarth, são uma mistura da Ásia Menor, do Levante (Síria, Líbano e Israel) e do Egito (principalmente por causa das pirâmides e grandes monumentos). 


Mapa comparativo entre os territórios de Valíria e as terras da Baía dos Escravos, com o mapa da Grécia, o Mar Egeu e a Turquia. 
Alguns estudos apontam que as regiões de Westeros foram baseadas nas nações europeias: O norte para além da Muralhe geograficamente é a Escócia; Dorne foi inspirada em Portugal e Espanha, Jardim de Cima seria uma referência a França, o Vale seria a Suíça, Correrio e a região entorno do Tridente, uma alusão a Holanda e Bélgica, o Norte uma referência a Alemanha, as cidades livres de Essos seriam referências as cidades-Estados italianas, Valíria seria um misto de Grécia e Roma etc. De fato Martin não confirmou isso, apesar de dizer que realmente há influência em alguns casos.

O Longo Inverno:

Saindo um pouco da história, e agora adentrando o campo da mitologia, nos livros e no seriado, a Casa Stark tem como lema "O inverno está chegando". Desde o primeiro livro e da primeira temporada o lema é apresentado, e Ned Stark apresenta preocupação que os longos invernos que duram anos estejam perto de acontecer. Martin não explica porque existem verões e invernos que duram anos, simplesmente eles ocorrem há milhares de anos. O Norte devido a sua localidade, constantemente convive com a neve, pois mesmo nos verões frios chega a nevar um pouco. Todavia, quando se fala do "Longo Inverno", até mesmo as terras ao sul do Tridente (marco de divisão entre o Norte e o Sul), chega a nevar. Dorne pelo que parece fica livre disso. 

De qualquer forma, essa ideia de longos invernos que durariam anos interruptos encontra um respaldo na mitologia nórdica. Em alguns mitos é dito que um dos sinais para o Ragnarök seria a chegada de um rigoroso inverno chamado Fimbulvertr (literalmente longo inverno), o qual duraria três anos consecutivos, lançando o mundo no frio e na escuridão. Pelo fato da mitologia nórdica ser baseada na geografia e no clima escandinavo, lá durante o inverno os dias são curtos e as noites são longas, daí se falar que no Fimbulvertr praticamente não haveria dia, apenas noite. 

Entretanto, os mitos informam que ao término do Fimbulvertr, o mundo estaria desolado, e os humanos que sobrevivessem a este, testemunhariam o confronto final entre os deuses e os gigantes, pois é dito que um dos sinais para o começo do Ragnarök é a condição do gigante Loki se libertar de sua prisão, e com isso ele decide convocar os mortos de Hel e os gigantes, para marchar contra os deuses. No caso das Crônicas de Gelo e Fogo sabe-se que os Caminhantes Brancos são a grande ameaça do Norte, isso mais do que os selvagens e os gigantes, pois eles conseguem transformar os mortos em zumbis. Isso de certa forma lembra a mitologia nórdica, principalmente em Game of Thrones onde o Rei da Noite tornou-se figura de destaque e a maior ameaça de todas desde a quinta temporada. O fato do Rei da Noite liderar um exército de mortos-vivos e que incluem alguns gigantes, lembra o que Loki faz no mito, apesar de ambas as figuras serem totalmente diferentes. 

Ilhas de Ferro e a pirataria:

Ainda é comum esse debate se os Greyjoy e a população das Ilhas de Ferro seriam inspiradas de fato nos vikings, ou trata-se apenas de um exagero por parte dos fãs dos livros e da série. Neste caso, tal povo que consistia em um dos antigos Sete Reinos é conhecido por sua marcialidade, arrogância e rudeza. Vivem basicamente da pilhagem, assaltando navios e outros territórios de Westeros e de outros lugares. Ou seja, são piratas natos e devotos. O próprio lema da Casa Greyjoy "Nós não semeamos", apresenta essa percepção de que eles não estão interessados na agricultura, pastoril, manufatura ou comércio, o negócio deles é tomar os outros para poder sobreviver. Porém, é informado que um dos fatores para essa vida e pilhagens se deva a condição que o solo das ilhas de Ferro seja pobre e em alguns lugares até mesmo infértil, o que forçaria seus habitantes a procurar comida em outro lugar.


O kraken é o brasão da Casa Greyjoy. 
Agora vamos as comparações. Muitos alegam que o fato de os vikings terem sido um povo bravo, rude e guerreiro é a principal semelhança que se encontram com a população das Ilhas de Ferro, algo que inclusive alude a severidade aquele território e sua gente. Todavia, essa noção é pautada principalmente no estereótipo do viking, cuja imagem vem sendo desenvolvida desde o século XIX. Apesar de os vikings realmente terem sido guerreiros, exploradores e conquistadores, levando guerra para várias regiões da Europa, eles não era um povo exclusivamente marcial e pirata. 

Diferente dos homens das Ilhas de Ferro os quais se dedicam a guerra e a pilhagem, relegando demais afazeres aos escravos, os vikings para além de guerreiros, eram agricultores, pastores, caçadores, pescadores, construtores, artesãos, comerciantes etc. Não havia uma força armada oficial e tão pouco nacional antes do século XI, além do fato que os homens não viviam o tempo todo ocupados com ofícios militares. Quanto a pilhagem, isso ocorreu, mas nota-se que em determinadas épocas era mais recorrente que outras, diferente do estereótipo de que os vikings saiam todo ano para saquear. Outro fato importante a salientar é que os vikings também foram exímios comerciantes, tendo criado rotas comerciais da Suécia a Constantinopla (atual Istambul na Turquia), e até mesmo encontram-se relatos de comerciantes vikings negociando com mercadores árabes na região do Mar Cáspio. Entre os séculos VIII e XI algumas cidades norueguesas, suecas e dinamarquesas prosperaram com base no comércio regional e continental.

Martin conta que os habitantes das Ilhas de Ferro adoram principalmente uma divindade, que é o Deus Afogado. O qual possui um salão submarino para onde vão os mortos beber cerveja, a qual é servida por belas sereias. Os vikings eram povos politeístas, cultuavam vários deuses e possuíam várias crenças acerca de mundos da morte. Curiosamente existia uma deusa chamada Rán, a qual possuía um salão submarino, que acolhia aqueles que morriam em naufrágios ou no mar. Em seu salão as pessoas beberiam cerveja. Nota-se aqui uma semelhança entre Rán e o Deus Afogado, apesar que na mitologia nórdica não existam sereias, elemento este que Martin acrescentou, além do fato que Rán é uma divindade de pouca expressividade nos mitos e no que se conhece da religião nórdica antiga. 

Outro fato interessante é que as Ilhas de Ferro possuem uma assembleia chamada Kingsmoot, convocada quando se existe uma crise para se definir a sucessão real. Tal assembleia para definir o próximo rei das Ilhas de Ferro é descrita no quarto livro, O Festim dos Corvos e é retratada na sexta temporada. Com a morte de Balon Greyjoy, o trono por direito passa para seu filho Theon, mas este não se encontra presente no arquipélago (na série ocorre o contrário, ele participa apoiando sua irmã). Devido a sua ausência, sua irmã Asha (Yara no seriado) lança sua candidatura ao trono, porém, dois de seus três tios, Euron e Victarion também entram na disputa. Além dos três Greyjoy, outros nobres do arquipélago também participam do Kingsmoot (isso no livro). No final, Euron vence a disputa. 

No caso dos vikings não havia assembleias como essa. Os reis vikings antes do século XI, quando os reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega finalmente se estabilizam, vivenciavam confrontos entre as dinastias que ambicionavam o controle do maior número de terras. A Dinamarca vivenciou menos estes conflitos, porém, a Noruega e a Suécia vivenciaram várias guerras entre casas nobres que disputavam os pequenos reinos. Não havia uma assembleia para definir quem seria o próximo rei, havia acordos, alianças militares e matrimoniais para assegurar o poder. 

Em linhas gerais os habitantes das Ilhas de Ferro não seriam propriamente baseados nos vikings, mas inspirado no estereotipo de piratas, pois muito do comportamento mostrado por este povo, lembra o que os piratas do Caribe faziam: viver como foras da lei, não obedecer ou reconhecer outros governos, vivendo sob sua própria conduta e liderança; não cultivarem a terra, ou criar animais, ou fazer comércio, mas viver basicamente do saque, roubos, assaltos e contrabando. Levarem uma vida severa e rude. 

Dothraki e a influência mongol:

Os dothraki são um povo de cavaleiros que habitam as grandes planícies do centro de Essos, as quais eles chamam de "Mar de Grama". Eles possuem uma capital sagrada chamada Vaes Dothrak "Cidade dos Montadores", mas as tribos vivem de forma nômade, praticando a pecuária extensiva, mas sobretudo vivem da pilhagem e em alguns casos atuam como mercenários. No primeiro livro e na primeira temporada vemos o príncipe Viserion Targaryen negociando com um chefe dothraki chamado Khal Drogo, para que este lutasse por ele no intuito de reconquistar o Trono de Ferro. Viserion oferece a própria irmã Daenarys em casamento, como parte do acordo. 

Nos livros é dito que os dothraki se dividem em khalasar, que é comandado pelo guerreiro mais forte, o qual recebe o título de khal. Sua esposa é chamada e khaleesi. Os khalasar costumam se reunir em sua capital para participar e algumas celebrações religiosas, levar escravos, oferendas e presentes, além do fato de que um novo khal deve se apresentar publicamente ao seu povo, para legitimar seu comando. Na cidade vivem as viúvas que um dia foram khaleesi, elas formam as Dosh Khaleen, e são obrigadas a jamais abandonarem a cidade, além de serem submetidas a levar uma vida de exclusão do restante da sociedade. 



Daenarys (Emília Clarke) como prisioneira dos dothraki, em cena da sexta temporada e Game of Thrones
Os dothraki são descritos como sendo selvagens cavaleiros, demasiadamente agressivos e de hábitos rudes e animalescos, verdadeiros bárbaros no melhor sentido da palavra. Porém, tudo isso não é fruto apenas da imaginação fértil de George Martin, algumas coisas associadas a este povo das estepes de Essos advém de um povo real, os Mongóis. 

Os mongóis entraram mais especificamente na História no século XIII, quando seu maior líder, o imperador Genghis Khan (c. 1160-1226) unificou os clãs mongóis e foi proclamado primeiro imperador de uma Mongólia unificada, dando início a uma série de longas guerras que fundaram as bases de um império continental. Em termos sociais os mongóis por séculos foram um povo nômade, vivendo do pastoril, coleta, caça e pesca e da agricultura quando possível. Era comum entrarem em conflito com outros clãs e até fazerem expedições de saque a povos vizinhos, especialmente os chineses, por serem os vizinhos mais prósperos. Tanto para os povos asiáticos quanto europeus, os mongóis ficaram conhecidos como bárbaros cruéis. Os chineses que se consideravam bastante civilizados, os viam como selvagens. Os europeus os consideravam monstros, devido a sua aparência, roupas, gritos e forma de lutar. De fato Martin soube usar isso ao criar os dothraki. 

Além de tais características outras podem ser citadas: a palavra khalasar é inspirada em canato (domínio de um khan). Por sua vez, khal é inspirado em khan (senhor). A cidade de Vaes Dothrak é inspirada em Caracórum, antiga capital do Império Mongol, que possuía papel mais de caráter político e religioso, do que ser um centro urbano. Uma cidade sem muros e basicamente formada por várias tendas. Algo que se assemelha com a descrição de Vaes Dothrak. Além dessas características citadas, dothrakis e mongóis prezavam muito pelos cavalos, mas enquanto para os dothrakis tais animais são sagrados e até mesmo divino, pois existe o Grande Garanhão, que é o principal deus deles, os mongóis cultuavam distintos deuses, sendo que um dos mais referenciados era Tengri, o senhor do trovão e do céu. Além de que os cavalos não eram vistos como sagrados ou divinos. 

Percebe-se que em termos comportamentais, sociais, estilo de vida etc., os dothraki são parecidos com os mongóis. Apesar que eles usem pouca roupa, diferente dos mongóis que devido ao clima frio das estepes, tinham que se agasalhar bem. E quanto os dothraki homens tem o hábito de deixar os cabeços e barba crescerem, os mongóis não possuíam isso, preferindo optar no lugar da barba, por um bigode e cavanhaque. 

O Titã de Bravos:

O Titã de Bravos consiste numa grande estátua de um guerreiro trajando armadura, e armado com espada e escudo, que guarda a entrada do porto da cidade livre e mercantil de Bravos na costa ocidental de Essos. Bravos é descrita como uma cidade mercantil bastante importante por abrigar o poderoso Banco de Ferro, mas apesar dessa concentração de dinheiro, a cidade é subdesenvolvida em vários bairros. Além disso, conta-se que seus fundadores foram escravos e gente pobre migrada do Império Valiriano após a destruição de sua capital. 

Mas voltando ao Titã, este consiste numa gigantesca estátua de granito e bronze erguida na entrada da cidade, cuja aparência é de um guerreiro trajado com armadura e elmo, e armado com espada e escudo. No livro não há uma descrição clara da estátua, mas na série ele lembra muito um hoplita grego. O propósito dessa grande estátua seria servir de sistema de defesa, pois lendas contam que caso a cidade fosse ameaçada, a colossal estátua ganharia vida para destruir os inimigos. Todavia, é revelado que luzes são acesas em seus olhos, assim como, fazem-se barulhos dentro de sua cabeça oca, dando a impressão que realmente a estátua estivesse a gritar ou a olhar. 


Cena da quarta temporada de Game of Thrones, mostrando o Titã de Bravos. 
A ideia como dita é inspirada no Colosso de Rodes, estátua de mais de 30 metros de altura erguida em local incerto na cidade de Rodes, capital da ilha homônima, no ano de 280 a.C. A grande estátua diferente de ser um mecanismo de intimidação e supostamente de defesa como o Titã de Bravo, o Colosso de Rodes possuía um aspecto político e religioso. Consistiu na estátua do titã Hélios, senhor do sol, antiga divindade solar cultuada pelos gregos até que o deus Apolo assumiu suas funções. Mas além de ser a estátua de um deus, o monumento foi erguido pelo rei de Rodes para celebrar a vitória contra a invasão macedônica ocorrida em 305 a.C. 

Todavia, as semelhanças entre Bravos e Rodes se encerram por aí. No caso, a geografia de Bravos com suas ilhas e canais lembra muito Veneza, a qual foi uma notória cidade mercantil desde o medievo. 

Joffrey e Sansa da vida real?

No segundo livro, e na segunda e terceira temporada, vemos a tentativa dos Lannister de unir a Casa Baratheon com a Casa Stark, ao tentar casar Joffrey Baratheon, então rei, com Sansa Stark, uma das herdeiras de Winterfell. No desenrolar da trama, na qual Sansa de início se mostrava apaixonada e encantada por Joffrey, a quem ela via como um "príncipe encantado", deixa de lado tudo isso, quando ele manda matar seu pai. Sansa passa a nutrir repulsa e ódio do jovem rei. Porém, mantida como prisioneira real na Fortaleza Vermelha, Sansa se vê no risco e ter que casar com Joffrey, apesar que isso não acabou ocorrendo. 

Todavia, o pretenso casal teve seus nomes inspirados num casal real, Joffre Bórgia (1482-1518) e Sancha de Aragão (1478-1506). Todavia esse casamento não ocorreu por uma relação de amor ou de ódio, mas e interesses políticos. Joffre era o caçula de quatro filhos de Rodrigo Bórgia (então papa Alexandre VI) e de sua amante Vannozza dei Cattanei, a qual era mãe também de Juan, César e Lucrécia. Enquanto os filhos de Rodrigo e Vannozza eram bastardos, pois um clérigo não poderia se casar, no caso de Sancha a situação era similar, pois ela era filha bastarda de Afonso II, rei de Nápoles. O casamento foi promovido por interesses políticos, cujo propósito era unir o papado com o reino napolitano. 

Na prática os dois personagens só compartilham o nome mesmo, pois Joffre não foi um homem sádico como o rei Joffrey. Assim como, Sancha não foi uma mulher frágil como Sansa, inclusive boatos diziam que ela traia o marido. Mas para encerrar, vejamos as comparações dos retratos dos dois personagens históricos com os atores do seriado. Curiosamente eles são bem parecidos!


Na esquerda Sophie Turner como Sansa Stark. Ao lado um retrato de Sancha de Aragão. Assombrosamente essa imagem de perfil é bem parecida.
Na esquerda o retrato do jovem Joffre Bórgia. A direita o ator Jack Gleeson como Joffrey Baratheon. 
Mortos-vivos, gigantes e dragões: 

Entre os seres fantásticos que se destacam nos livros e no seriado estão os gigantes, seres que aparecem a partir do terceiro livro, e ganham destaque na quarta, quinta e sexta temporadas da série, especialmente pelo gigante Wun Weg Wun Dar Wun, que acaba tornando-se no seriado mais importante do que nos livros. No caso os gigantes aparecem pouco nos livros e no seriado, são os sobreviventes de uma antiga raça que resistiu ao frio das terras congeladas para além da Muralha, como também aos conflitos com os selvagens, os Caminhantes Brancos e seus exércitos de mortos-vivos.

No caso dos Caminhantes Brancos, também conhecidos como Outros, são humanoides que aparentam ter a pele congelada ou seriam feitos de gelo. O principal traço que os destacam são seus frios olhos azuis, que proporcionam um olhar profundo e assustador. Nos livros pouco foi dito sobre essas estranhas criaturas que assombram todos aqueles que vivem para além da Muralha. A primeira menção aos Outros ocorre ainda no primeiro livro, apesar que eles se tornaram mais recorrentes através da série, onde aparecem mais vezes, além de que seu líder nomeado Rei da Noite, tornou-se o atual antagonista da trama, já que no livro, oficialmente este personagem não deu as caras ainda, é apenas mencionado como se fosse uma antiga lenda. Inclusive a origem do Rei da Noite no seriado é diferente da versão contada no livro. 


Cena da quinta temporada apresentando o Rei da Noite diante de seu exército de mortos-vivos. 
De qualquer forma, os Outros são responsáveis por trazer de volta a vida os mortos, tornando-os mortos-vivos ou zumbis (utilizando um termo mais corriqueiro hoje em dia). No caso, não se sabe ao certo como isso acontece. Provavelmente trata-se de algum tipo de magia, porém, todo aquele que é morto para além da Muralha ou assassinado por um zumbi, torna-se um morto-vivo. As únicas forma de mata-los é com fogo, vidro de dragão ou aço valiriano. 

Entretanto, das criaturas fantásticas dos livros e do seriado as que atraem mais atenção do público são os dragões. Em vários momentos é dito que a Dinastia Targaryen os criava aos montes, ao ponto de haver um local próprio para manter tais monstros. Alguns spin-off escritos por Martin, comentam mais a respeito dos dragões dos Targaryen, os quais trouxeram essas criaturas aladas consigo quando vieram de Valíria para conquistar Westeros. Mas enquanto esses dragões do passado não nos são apresentados nas Crônicas de Gelo e Fogo em Game of Thrones, nos resta acompanhar os três filhos de Daenarys, os dragões Drogon, Rhaegal e Viserion, nomes dados em homenagem respectivamente ao seu marido e irmãos, os quais todos acabaram morrendo. 

As feras aladas aparecem ainda como ovos no primeiro livro e na primeira temporada, e ao longo do desenrolar da história vamos acompanhando seu rápido crescimento. No quinto livro os três animais já estão consideravelmente grandes e causam problemas em Meereen. No caso do seriado, a presença dos dragões e o uso deles em ataques e na guerra é mais recorrente, inclusive rouba a cena várias vezes, ainda mais devido aos acontecimentos da sétima temporada, envolvendo eles. 


Daenarys em companhia de seus dragões Drogon (preto), Viserion (branco) e Rhaegal (verde), em cena da terceira temporada e Game of Thrones
Todavia, alguns devem está se perguntando: por que o autor decidiu comentar a respeito dessas criaturas? Já que eles são seres fantásticos e não existem? O que teria haver comentar essas referências? Como os livros e o seriado são baseados em alguns aspectos da Idade Média europeia (476-1453), é preciso saber que as pessoas daquela época realmente acreditavam que monstros fossem reais. Existem relatos orais, escritos e iconográficos que representavam histórias sobre gigantes, mortos-vivos e dragões. 

Na Alemanha, Inglaterra e Escandinávia era comum ouvir histórias de gigantes, (inclusive os gigantes povoam as mitologias de vários povos do mundo), e que em determinadas épocas do ano, especialmente entre os meses de outubro e janeiro, os mortos saiam de seus túmulos em forma física tendo o corpo normal, ou apodrecido, ou só em ossos ou como fantasma. Algumas dessas narrativas eram chamadas de caçada selvagem, marcha dos mortos, noite dos fantasmas etc. Diziam que estes espíritos retornavam ao mundo dos vivos para visitá-los, para se divertir, para se lamentar, para caçar, para viajar ou para assombrar e castigar os vivos. A coisa era tão séria que as autoridades civis e eclesiásticas recomendavam cautela nas noites em que se acreditavam que as fronteiras entre a Terra e o Inferno (pois os mortos que foram ao Paraíso, não voltavam) sumiam. 

Logo, a ideia de um exército e mortos-vivos, algo mais perceptível no seriado do que nos livros, realmente alude as crenças que os povos europeus do medievo acreditavam ser reais. A ideia que hoje possuímos que o natural e o sobrenatural sempre foram facilmente desassociáveis, não é exata. Por outro lado, não eram apenas os gigantes, zumbis e fantasmas que preocupavam os vivos, dragões também eram tidos como criaturas reais, que habitavam cavernas, e lugares ermos, os quais poderiam nadar ou voar e cuspiriam fogo. Os bestiários, enciclopédias sobre animais fantásticos e reais, dedicavam páginas a falar sobre dragões, além disso, tais criaturas eram pintadas e esculpidas mesmo nas igrejas, pois dragões simbolizavam o mal e Satanás. 

Fogo-vivo x Fogo-grego:

Uma das armas secretas usada por Aerys II Targaryen, o "Rei Louco", era o chamado fogo-vivo, um líquido altamente volátil e inflamável, cujas chamas são de um verde brilhante. Este líquido consegue queimar sobre a água e é difícil de ser apagado. Essa poderosa e perigosa substância foi desenvolvida há muito tempo por piromantes da Guilda dos Alquimistas, mas sua fórmula foi guardada em segredo. Inclusive o Rei Louco cogitou incendiar todo Porto Real (capital de Westeros), em um de seus surtos. Apesar de tal atrocidade não ter ocorrido, o fogo-vivo foi usado algumas vezes nos livros e na série. Os momentos mais memoráveis são a destruição da frota de Stannis Baratheon na Batalha da Água Negra, que é descrita no segundo livro e na segunda temporada, e no caso específico da série, o incêndio do Grande Septo, o maior templo de Porto Real. 


O incêndio de fogo-vivo sobre a frota de Stanni Baratheon, durante a Batalha da Água Negra. Cena do último episódio da 2 temporada de Game of Thrones
Todavia, essa poderosa arma química não é coisa da ficção, mas baseada numa arma real, o chamado fogo-grego. Não se sabe exatamente quando tal substância inflamável foi criada, mas atribui-se sua origem aos bizantinos por volta do século VII, os quais desenvolveram uma potente arma química que conseguia queimar intensamente e se espalhava com facilidade. O fogo-grego poderia ser usado como napalm, ou através de um lança-chamas, o quais espirrava chamas ou jogava o líquido volátil sobre as tropas ou embarcações inimigas, em seguida incendiado. 

A fé militante:

Há dois anos George Martin em uma entrevista, confirmou que sua inspiração para a Fé Militante, termo usado para designar a milícia sob comando do Alto Septão, o líder máximo da Fé dos Sete, foi inspirado nos cruzados e nas inquisições. No caso a Fé Militante foi instituída há muitos séculos em Westeros para promover a conversão a força das regiões que ainda não eram devotas dos Setes Deuses. No caso, a Fé Militante era dividida em dois segmentos: os Filhos do Guerreiro, grupo formado apenas pela nobreza, onde os cavaleiros lembravam muito as ordens militares religiosas surgidas na Idade Média no tempo das Cruzadas (XI-XIII). 

O segundo grupo tratava-se dos Pobres Companheiros e como o nome sugere, eram homens oriundos da plebe, os quais ajudavam os Filhos do Guerreiro, mas também exerciam outras funções de apoio, vigilância, fiscalização, perseguição, aprisionamento e execução. No caso, os Pobres Companheiros lembram os familiares que trabalhavam para as Inquisições, pessoas que se voluntariavam para ajudar nos afazeres dos tribunais eclesiásticos, cujo intuito era combater a propagação de heresias diversas. 

Os Pobres Companheiros em uma cena da quinta temporada de Game of Thrones. 
Nos livros e na série, os Pobres Companheiros tem mais destaque, pois a Fé Militante quando fugiu de controle, foi perseguida e banida pela Dinastia Targaryen, com isso eles deixaram de existir por mais de 200 anos. Todavia, Cersei Lannister para ganhar apoio para sua família e o governo de seu filho Tommen Baratheon, elege novo Alto Septão e restitui a Fé Militante, especialmente os Pobres Companheiros, algo que ocorre no quarto livro e na quarta temporada. Apesar que na série, essa milicia foi mais explorada. 

NOTA: Apesar de os Greyjoy usarem um kraken, uma criatura fantástica de origem escandinava, curiosamente nos mitos nórdicos da Era Viking, o kraken não é citado. Essa criatura é apenas mencionada em lendas e no folclore escandinavo séculos depois da Era Viking. 

Fontes:
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Guerra dos Tronos, vol. 1. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2010. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Fúria dos Reis, vol. 2. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2011. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Tormenta das Espadas, vol. 3. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2011. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: O Festim dos Corvos, vol. 4. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2012. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Dança dos Dragões, vol. 5. Tradução de Marcia Blasques. São Paulo, Leya, 2012.

Referências bibliográficas: 

BUTTERWORTH, Alex. Adriano, o injustiçado. Tradução de Ana Ban. Revista História BBC, v. 3, 2009, p. 26-33. 
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Média: nascimento do Ocidente. 2a ed. São Paulo, Brasiliense, 2001.
LANGER, Johnni (org.). Dicionário de mitologia nórdica: símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015.
LOYN, H. R (org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.
RUNCIMAN, Steven. A civilização bizantina. 2a edição, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977.

Referências da internet:
Hadrianus
O legado bizantino
Os mongóis
As inquisições
A saga viking
César Bórgia: o homem que inspirou o Príncipe de Maquiavel
Mitos e verdades sobre a "Idade das Trevas"














sábado, 19 de agosto de 2017

Para que serve a História?

Hoje na data de 19 de agosto, celebra-se no Brasil, o Dia do Historiador. Para comemorar essa data, redigi esse texto simples, para falar um pouco sobre o que o estudo da História tem a contribuir na nossa formação. Para que serve a História? Talvez você em algum momento da sua vida deve ter feito essa pergunta, ou ouvido falar, ou lido. Talvez você possa até mesmo ter feito essa pergunta a algum historiador ou historiadora, então aguardou uma resposta satisfatória. Mas a bem da verdade, nem sempre dispomos de uma resposta simples, a qual consiga abarcar toda a complexidade que consiste o estudo da História. Provavelmente alguns devem dizer que estudar a História é conhecer o passado. Essa é a sua função, ponto final. Essa resposta é demasiadamente simplista. Ela não está errada, pois uma das funções da história é conhecer os acontecimentos passados. No entanto, o estudo da história não se limita apenas a isso, ele possui um caráter social, que normalmente as pessoas não levam em consideração ou não o associam de imediato. 

Neste texto eu procurei falar um pouco a respeito das funções do estudo histórico. As respostas aqui que foram dadas a pergunta que apresentei no início, dizem respeito a concepção e conclusão de diferentes estudiosos, o que inclui também a mim, pois com base na minha experiência como historiador, deixo algumas contribuições pelas quais enxergo o valor de se estudar a história. Neste caso, para facilitar a leitura, preferi dividir essas funções em eixos temáticos, de maneira que torne mais perceptível essas diferentes contribuições. 

1) Primeira função: Memória

O estudo da História como hoje conhecemos, possui suas raízes na Grécia Antiga. Neste caso, os gregos antigos concebiam um grande valor a memória ao ponto de existir em sua religião e mitologia uma divindade a ela relacionada, chamada Mnemósine. Filha de Urano e Gaia, Mnemósine era uma das titânides, divindades da segunda geração divina. Ela não recebia cultos ou possuía templos, pelo menos, nada se conhece a respeito. No entanto, essa titânide teve nove filhas com Zeus, as quais ficaram conhecidas como as Musas: Calíope, Clio, Erato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Tália e Urânia. Essas nove deusas que se tornaram patronas das artes, especialmente da música e da poesia, tinham como função cantar os feitos dos deuses, principalmente após a vitória dos olimpianos contra os titãs. (BRANDÃO, 1986, p. 202-203). 

Aqui a ideia de cantar os feitos, não diz respeito apenas ao entretenimento e o enaltecimento, mas também a perpetuação da história. Era através de algumas músicas e poemas que o passado era preservado, era protegido do esquecimento, e com isso, as gerações futuras poderiam ter conhecimento deste. Tal fato se deve a condição de que o alfabeto grego somente surgiu por volta do século VIII a.C, antes disso, toda a tradição grega, sua religião, mitos, história, tradições, cultura etc., era transmitido apenas oralmente. Para que tudo isso não fosse perdido, a memória deveria ser exercitada, para evitar o esquecimento. Caso contrário não seria apenas mitos, poesias e orações que seriam perdidos, mas todo o conhecimento estaria perdido. Daí o apresso dos gregos pela memória e sua divinização. (VERNANT, 1990, p. 136-137). 

Essa ideia de preservar o passado e combater o esquecimento, torna-se ainda mais clara, quando passamos a saber que Clio era a musa da história. E curiosamente a deusa da história era filha da deusa da memória, e sobrinha do deus do tempo, Cronos. Aqui nota-se como os antigos gregos já apresentavam através de seus mitos essa trinca tempo-memória-história. 

No entanto, a memória não tinha apenas essa função de preservar o passado, mas era também entendida como uma forma de sobrevivência e combater a morte. Para os antigos gregos, o esquecimento era uma segunda morte. Nesse ponto Jean-Pierre Vernant (1990, p. 141) comenta que rememorar o passado era visto pelos gregos como uma "fonte de vida", a origem de tudo e todos. Logo, nota-se aqui uma oposição entre memória/vida e esquecimento/morte. 

"Em Hesíodo, essa pesquisa das origens toma um sentido propriamente religioso e confere à obra do poeta o caráter de uma mensagem sagrada. As filhas de Mnemosyne, ao lhe oferecerem o bastão da sabedoria, o skêptron, talhado em loureiro, ensinaram-lhe “a Verdade”. Elas lhe ensinaram o “belo canto” com o qual elas próprias encantam os ouvidos de Zeus, e que fala do começo de tudo. As Musas cantam, com efeito, começando pelo início, o aparecimento do mundo, a gênese dos deuses, o nascimento da humanidade. O passado revelado desse modo é muito mais que o antecedente do presente: é a sua fonte. Ascendendo até ele, a rememoração não procura situar os acontecimentos em um quadro temporal, mas atingir o fundo do ser, descobrir o original, a realidade primordial da qual saiu o cosmo e que permite compreender o devir em seu conjunto". (VERNANT, 1990, p. 141).

"Qual é então a função da memória? Não reconstrói o tempo: não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz do sol". (VERNANT, 1990, p. 143).

Assim na perspectiva religiosa dos gregos, o morto quando ia ao Hades, ele ainda conservava sua memória, era o resquício de seu passado, sua ligação com a vida, com sua identidade, familiares e amigos. No entanto, se o morto fosse esquecido pela família, significava uma "segunda morte". Quando Aquiles decidiu ir à Guerra de Troia, ele buscava por glória eterna. Dessa forma seu nome ficaria na História. Mesmo após sua morte, seus feitos nunca seriam esquecidos. Aquiles teria uma "memória viva". 

No entanto, essa preocupação com o passado não era algo exclusivo da mitologia e da religião, a sociedade grega também dava grande importância a isso. A memória era essencial para que os costumes, tradições, normas, leis, ritos, conhecimentos etc., continuassem a existir, sendo necessária sua constante transmissão a cada geração de crianças que nascia. 


"A priori, a memória parece ser um fenômeno individual, algo relativamente íntimo, próprio da pessoa. Mas Maurice Halbwachs, nos anos 20-30, já havia sublinhado que a memória deve ser entendida também, ou, sobretudo, como um fenômeno coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes". (POLLAK, 1989, p. 201). 

Nesse ponto adentramos propriamente a importância do conhecimento histórico, no caso, citamos Heródoto de Halicarnasso (485/484-425/420 a.C) ficou conhecido como o "Pai da História"Em dado momento de sua vida, intrigado em saber a respeito dos povos vizinhos e dos acontecimentos militares das Guerras Médicas ou Guerras Greco-Persas (499-490/480-479 a.C), conflitos entre as cidades-Estados gregas contra o poderoso Império Persa, Heródoto se questionou como aquela guerra teria tido início, como os gregos teriam vencido aquelas batalhas, contra um inimigo várias vezes maior do que eles e mais poderoso? 

Mas além desse motivo de curiosidade, Heródoto alegava em seus livros que se fazia necessário preservar aquela história, para que os gregos futuros soubessem que houve uma época que a rivalidade entre eles foi posta de lado, para se confrontar um inimigo em comum. E mesmo numericamente em menor número e com menos recursos, ainda assim, eles conseguiram vencer a guerra e evitar de que a Grécia fosse conquistada pela Pérsia. (HERÓDOTO, 2006, p. 30). 

Essa preocupação de se preservar a história e o conhecimento no geral, ganhou reforço com o advento da escrita, e posteriormente com o surgimento das bibliotecas, arquivo e musues, os quais se tornaram templos da memória e do conhecimento. (LE GOFF, 1998, p. 426). Locais onde o passado poderia ser protegido do esquecimento, fosse esse ocasionado pela deterioração do tempo, ou motivado pela ignorância humana em querer destruir os escritos. 

Porém, a memória não se limita apenas as pessoas, textos, fotografias e imagens, ela também está presente nos objetos em geral, nos monumentos e nos lugares. Nesse ponto, podemos falar de um conceito de memória mais amplo, e até mesmo falar de patrimônio, o que também expande as noções sobre o passado, a memória coletiva, a tradição, a identidade etc. Para que isso fique mais nítido, apresentarei de forma simples o conceito de monumento, patrimônio e a ideia de "lugar da memória".

“A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (meminí). O verbo monere significa 'fazer recordar', de onde 'avisar', 'iluminar', 'instruir'. O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos. Quando Cícero fala dos monumenta hujus ordinis [Philippicae, XIV, 41], designa os atos comemorativos, quer dizer, os decretos do senado. Mas desde a Antiguidade romana o monumentum tende a especializar-se em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura: arco de triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc.; 2) um monumento funerário destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte. O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos”. (LE GOFF, 1990, p. 536).

Enquanto, o sentido de monumento está mais associado a ideia de uma estátua, mausoléu, lápide ou outra construção que cujo propósito é se homenagear alguém ou algum acontecimento, o conceito de patrimônio é amplo e aplicável para distintas ocasiões, porém, nos interessa aqui o conceito de patrimônio histórico e cultural


"Patrimônio histórico. A expressão designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas-artes e das artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes e savoir-faire dos seres humanos. Em nossa sociedade errante, constantemente transformada pela mobilidade e ubiquidade de seu presente, "patrimônio histórico" tornou-se uma das palavras-chave da tribo midiática. Ela remete a uma instituição e a uma mentalidade". (CHOAY, 2001, p. 11).

No caso do patrimônio cultural diz respeito a qualquer forma de manifestação da cultura material (objetos, monumentos, edificações, ruas, praças, pontes etc) e da cultura imaterial (danças, ritos, costumes, músicas, saberes, celebrações, festejos etc.). Neste caso o patrimônio histórico e cultural consistem em formas de salvaguardar a História, no sentido da memória, da tradição, do conhecimento, da identidade. Preservando esses patrimônios, conseguimos manter antigos saberes, gestos e costumes, protegidos do esquecimento.

Quanto aos lugares da memória, normalmente se pensa que se trate de uma biblioteca, arquivo e museu, ou do lugar onde se encontra um monumento. Mas não é bem assim. 

"Além dos acontecimentos e das personagens, podemos finalmente arrolar os lugares. Existem lugares da memória, lugares particularmente ligados a uma lembrança, que pode ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no tempo cronológico. Pode ser, por exemplo, um lugar de férias na infância, que permaneceu muito forte na memória da pessoa, muito marcante, independentemente da data real em que a vivência se deu. Na memória mais pública, nos aspectos mais públicos da pessoa, pode haver lugares de apoio da memória, que são os lugares de comemoração. Os monumentos aos mortos, por exemplo, podem servir de base a uma relembrança de um período que a pessoa viveu por ela mesma, ou de um período vivido por tabela". (POLLAK, 1989, p. 202). 

Pelo comentário de Pollak percebe-se que os lugares de memória referem-se tanto a nossa memória individual e pessoal, mas a memória coletiva. No caso da memória coletiva consistem em lugares "construídos", como os monumentos, praças, parques, edificações etc., mas como descreveu brilhantemente Simon Schama, esses lugares podem ser a própria natureza. Florestas, campos, montes, colinas, rios, praias etc., lugares que sofreram a intervenção humana, que foram explorados e modificados de alguma forma. Schama menciona conflitos ocorridos no XIX, nas florestas polacas, em confronto com a dominação russa. Posteriormente ele recorda os lugares pelos quais os nazistas invadiram a Polônia, terra de seus avós. Lembremos que a História é o estudo das ações humanas no tempo e no espaço. Em geral focamos no tempo, datando tais acontecimentos, mas esquecemos de considerar os espaços onde isso ocorreu. 

2) Segunda Função: Conhecimento 

A segunda utilidade do saber histórico é o conhecimento. Aqui o abordo no sentido amplo, porém, adiante trarei algumas especificidades as quais a História apresenta serventia. A História nos permite conhecer uma vastidão quase incontável de acontecimentos, dados, fatos, informações etc., que marcam o desenvolvimento das sociedades. Todavia é comum ouvir as pessoas dizerem que não há serventia em se estudar o passado, pois ele já passou, está "morto". Geralmente as pessoas que pensam assim possuem essa opinião advinda de uma péssima formação escolar, na qual o estudo histórico era pautado em decorar datas e nomes, sem se aprofundar na importância da contextualização e crítica de tais acontecimentos; ou a pessoa tem preguiça de estudar, ou prefere manter-se ignorante. 

O historiador Marc Bloch (1886-1944) de forma humorada contava que estudar a História não era estudar o passado, mas estudar ação humana ao longo do tempo e do espaço. Estudar a humanidade vivendo em sociedade, desenvolvendo linguagens, conhecimentos, tecnologias, Estados, culturas etc. Estudar as transformações causadas pelos humanos no meio-ambiente. (BLOCH, 2001, p. 53-56). Tal opinião dita em plena crise da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), época que Bloch estava preso e escrevendo sua Apologia da História, já marcava o rompimento da visão tradicional e positivista de uma história pautada apenas nos "fatos crus e frios" por si só. 

Nesse ponto complemento o comentário de Bloch, com uma observação sagaz do historiador Edward Hallet Carr (1892-1982), o qual em seu livro O que é história? fez um comentário simples sobre o que seria o fato histórico. Neste caso, Carr indagava-se o que seria pertinente no estudo da História, e de certa forma, a serventia dessa informação. Ele cita o exemplo que em 11 de janeiro de 49 a.C, o general Júlio César atravessou o rio Rubicão, com suas legiões. Nesse ponto Carr diz que o método tradicional do ensino de história levaria os alunos a decorarem tal data, como um dos marcos da carreira militar de César. Mas qual seria a importância de saber que César atravessou um rio italiano em 11 de janeiro de 49 a.C? 

Aqui Carr (1996, p. 38-39), chama a atenção em dizer que não é a data por si só que torna algo importante para a História, mas o contexto no qual ela está inserida. O fato histórico não é a data em si, mas o que ele representa num âmbito macro e micro. Logo, entender os motivos que levaram Júlio César a atravessar o Rubicão naquela data? Por que ele decidiu seguir aquele caminho? O que ocorreu posteriormente? Isso sim, são informações úteis. 

Pois ao analisar o contexto no todo, saberemos que César desrespeitou uma ordem direta do Senado Romano ao adentrar a fronteira norte da Itália com suas legiões, ao mesmo tempo, que ele pretendia confrontar seus opositores, inimigos e aqueles que o traíram. A partir de tal acontecimento teremos o embate entre César e Pompeu e posteriormente o início de sua ditadura. Um governo de quatro anos no qual Júlio César empreendeu reformas que ainda hoje se fazem presentes, inclusive sua morte abriu as portas para a ascensão de seu sobrinho-neto, Otaviano, a vir anos depois fundar o Império Romano

Os comentários de Bloch e de Carr foram para elucidar que o conhecimento histórico não se limita ao passado por si só, ou aquela antiguada noção que estudar história é decorar datas e nomes. Pelo contrário, estudar história é compreender um escopo gigantesco de possibilidades: política, guerra, crises, economia, meios de produção, costumes, religiões, ritos, espiritualidade, tecnologia, ciências, artes, vestuário, objetos, relações sociais, relações de poder, classes sociais, legislação, direito, saúde, sexualidade, corpo, gênero, emoções, gostos, comportamento, doenças, meio-ambiente, cidades, o campo, o espaço geográfico etc. Isso é estudar história. É perceber que o conhecimento histórico pode ser útil para os mais distintos fins, embora alguns nem sempre positivos ou benéficos, como veremos. 


“No discurso histórico, o saber histórico torna-se um fator de cultura da interpretação, atua sobre o modo como as condições atuais da vida são experimentadas, interpretadas e, à luz das interpretações, gerenciadas praticamente”. (RÜSEN, 2007, p. 29).


Jörn Rüsen diz que este discurso histórico além de trazer, informar, apresentar e representar o conhecimento histórico e seus saberes; é dever seu ter alguma ligação cultural, alguma utilidade à vida prática como ele diz. É fornecer informações que possam ser utilizadas de alguma forma pelos leitores. Informações estas que levem a mudanças internas e/ou externas.

Heródoto decidiu estudar as Guerras Médicas para poder compreender como elas se iniciaram, quais os motivos que levaram a tais conflitos, como elas se desenvolveram, como a guerra chegou ao fim, e as consequências geradas por tais conflitos. Seguindo o pensamento similar, outro historiador de nome Tucídides (c. 460 - c. 400 a.C) também fez o mesmo, com o seu livro História da Guerra do Peloponeso, conflito ocorrido entre Atenas e Esparta ao longo de 431 a 404 a.C. Seguindo um posicionamento mais político-militar, Tucídides analisou os motivos que levaram a guerra, o seu desenvolvimento, desfecho e consequências iniciais. 

No entanto, o estudo da história não se limita apenas a conhecer sobre seu povo, país e cultura. Enquanto Tucídides se limitou ao contexto da Guerra do Peloponeso, Heródoto em quatro de seus nove livros, escreveu sobre a história e cultura de outros povos, como mencionado. Apesar de ele como homem de seu tempo, apresentar todo o discurso de superioridade grega, e ver os demais povos como bárbaros e civilizadamente atrasados, ainda assim, é notório algumas informações que ele transmite sobre aquelas culturas. Heródoto apresentava o interesse de conhecer outros povos e suas histórias. Na prática o conhecimento deve ser amplo e não limitador. Estudar história deve ser uma forma de levar o indivíduo a conhecer o mundo, e também a conhecer-se a si mesmo. 

Napoleão Bonaparte (1769-1821) na época que era aluno da Academia Militar de Brienne, se interessava particularmente por duas disciplinas, matemática e história. A matemática lhe serviu para os assuntos militares, pois ele formou-se como segundo tenente de artilharia, quando contava apenas 16 anos de idade (RIVOIRE, 1967, p. 4). No caso da história, Napoleão diz que essa serviu para lhe inspirar o "espírito de combate" (MARKHAN, 1963, p. 9). Primeiro para lutar pela independência da Córsega, sua terra natal, que na época estava sob controle da França. Através da história corsa ele procurou motivos para defender essa causa. Mas depois de desentendimentos com os revolucionários corsos, Napoleão decidiu abraçar de vez a nacionalidade francesa, passando a focar-se em tornar a França um império poderoso, restaurar sua glória de tempos passados, mesmo que fosse através da violência e da guerra. Nesse ponto, Napoleão se valeu de seu conhecimento histórico básico para planejar suas ambições. Não obstante, sabe-se que Napoleão chegou a discursar na Academia Francesa e até mesmo conversava sobre história e outros assuntos, enquanto esteve em campanha no Egito e na Itália. 

Mas se por um lado homens como Napoleão usaram o conhecimento histórico para conquistar e guerrear, outros como Abraham Lincoln (1809-1865) o usaram para tentar compreender práticas políticas, sociais, econômicas e culturais de seu país. Quando tinha vinte e poucos anos, Lincoln após ter perdido as eleições para a Assembleia Geral de Illinois, posteriormente decidiu focar nos estudos. Como era um leitor ávido, estudou por conta própria Direito e história, vindo a se formar em advocacia em 1836, aos 27 anos. Depois disso manteve-se como advogado e político. Lincoln desde cedo já defendia o fim da escravidão em todo país, algo que somente conseguiu efetivar em 1865, ano de sua morte. Além disso, ele também defendeu ao longo de sua carreira meios para inserir socialmente os ex-escravos na sociedade americana, pois mesmo alforriados, eles vivenciavam um forte preconceito. Apesar que sua ideias acabaram não recebendo adeptos. (DONALD, 1996, p. 64, 125). 

O conhecimento histórico pode ser usado tanto para fazer o bem ou para fazer o mal, isso dependerá do caráter, princípios, desejos, ambições e sonhos da pessoa. Conhecer a história da nossa cidade, estado, país, povo ou de outras culturas, nos leva a ampliar nossos valores, juízos, ideias, pensamentos, opiniões etc. No entanto, é importante ressalvar que o estudo da história não é algo sempre belo, existem muitos horrores e verdades cruéis, que as vezes alguns se negam a aceitar. 


“A acusação esquece a grande diferença de que nossos tribunais (sejam jurídicos ou morais) são tribunais de hoje, destinados a homens vivos, ativos e perigosos, enquanto que aqueles outros homens já compareceram ao tribunal de seu tempo e não podem ser condenados ou absolvidos duas vezes. Eles não podem ser responsabilizados perante qualquer tribunal, qualquer que seja, apenas por serem homens do passado, que pertencem à paz do passado e como tal só podem ser sujeitos da história e não podem passar por outro julgamento a não ser por aquele que penetre e compreenda o espírito de seu trabalho... Aqueles que, sob a alegação de narrarem história, agitam-se como juízes, condenando aqui e absolvendo lá, porque pensam que esta é a função da história... são geralmente reconhecidos como desprovidos de sentido histórico”. (CARR, 1996, p. 92-93 apud CROCE, 1941, p. 47).

3) Terceira Função: Legitimação

Retornando a concepção cultural dos gregos antigos, mais uma vez, para aquele povo a tradição era algo bastante importante (na prática tal concepção não é exclusiva dos gregos, vários outros povos do mundo prezavam pela manutenção das tradições). Nesse sentido, conhecer o passado através da história, era o meio pelo qual podia se justificar e entender o presente, mas também legitimar a existência de determinadas práticas, condições, benefícios, direitos, costumes, comportamentos, instituições etc. 

Para os gregos a política, a autoridade, o direito de governar, as instituições, o nome dos lugares, as linhagens familiares, os costumes, crenças e ritos, possuíam uma forte justificativa no passado. Conhecer o passado era conhecer a origem do tempo presente. Neste caso, tornou-se notório a atenção que os gregos davam a genealogia divina e de suas famílias. Como forma de se legitimar o poder de uma determinada família, era comum traçar parentesco mesmo que longínquo e incerto, com algum herói ou deus. Pois uma origem divina era algo que sobressaia-se dentro daquela sociedade. De fato, muitos heróis gregos eram de estirpe nobre. (FUNARI, 2002, p. 17). 

Como dito, os gregos não foram os únicos a utilizar a história como fator de legitimação. Na prática todos os povos fizeram isso ou ainda o fazem. Os faraós egípcios defendiam sua autoridade divina através de uma sucessão sagrada, sendo eles deuses-encarnados. Inclusive a prática do incesto real era defendida como maneira de não "contaminar" aquele sangue divino. Na Roma Antiga, o poeta Virgílio (70-19 a.C) se notabilizou por criar a ideia de que os romanos seriam descendentes do troianos, tendo Eneias como herói ancestral. O historiador Tito Lívio (59 a.C-17 d.C) remontava a origem de Rômulo e Remo como sendo descendentes dos troianos e até mesmo do deus Marte

Alguns acontecimentos históricos foram até mesmo usados para se legitimar crimes e atrocidades. Adolf Hitler (1889-1945) tomou o discurso do antissemitismo para propagar suas ideias revolucionárias e autoritárias. Inclusive como justificar sua teoria da "raça ariana" e a prática do Holocausto. O Apartheid (1948-1994) na África do Sul, era a alegação de uma minoria branca de ascendência britânica (pois a África do Sul havia sido até 1910, colônia britânica), que ainda mantinha grande influência e interesses no país, como forma de reconquistar o poder, passando-se a inserir um sistema de segregação que resgatava a desigualdade social e racial vigente nos tempos da escravidão. 

Por outro lado, acontecimentos históricos também foram usados para legitimar a disputa de territórios ou a separação destes. A disputa do Arquipélago das Malvinas entre Argentina e Inglaterra também é pautado em conflitos oriundos lá em 1833. Oficialmente o arquipélago chamado Falklands em inglês, está sob domínio do Reino Unido, porém, o governo argentino ainda não desistiu dessa disputa. A independência do Paquistão, ocorrida em 14 de agosto de 1947, anteriormente território indiano, se deveu principalmente por diferenças culturais e religiosas, devido ao predomínio de uma população muçulmana. Fatores similares também foram usados para se fundar o Estado de Israel em 1948, território ainda hoje conturbado, devido aos conflitos entre extremistas judeus, cristãos e muçulmanos, especialmente no que tange a região histórica da Palestina e seu papel sagrado para essas três religiões. 

Conhecer a história é uma forma de legitimar estas continuidades, mudanças, reformas e até mesmo tradições. Nesse ponto o historiador Eric Hobsbawm (1917-2012) na introdução do livro A invenção das tradições, comentava como situar algo num passado longínquo ainda hoje possui um peso de legitimidade poderoso. Ele cita inicialmente o caso de que algumas tradições da Corte Britânica consideradas pelo senso comum como sendo algo antiquíssimo, na verdade, foram instituídas no século XIX e começo do XX. A ideia de antigo nesse contexto consiste num argumento forte para influenciar a adoção de determinada tradição. Curiosamente alguns movimentos sociais e culturais hoje em dia tendem a procurar algum indicativo mínimo que seja, na História, para tentar legitimar suas causas, mesmo que as vezes esse indicativo não exista, e acaba-se apelando para uma farsa ou distorção histórica. (HOBSBAWM, 2008, p. 9-10). 

O historiador e filósofo Jörn Rüsen (2007, p. 40-44) também comenta que a tradição está diretamente ligada com a memória e a identidade. Para ele a "consciência histórica", ou seja, a noção que o indivíduo possui sobre o tempo histórico (passado e presente), permite que ele tenha ciência de que a tradição é uma forma de manter o passado "vivo e atual", legitimando o presente em distintas situações, assim como, é também meio pelo qual se constitui identidades (algo que voltarei a comentar adiante). 

4) Quarta Função: Exemplos de vida

É provável que alguém já tenha ouvido ou lido  que uma das funções da História seria servir de exemplo, para que assim aprendêssemos com os acertos e erros do passado. De fato essa noção é bastante antiga e se perde no tempo. Em diferentes sociedades as pessoas procuravam eleger referenciais, modelos de comportamento, ação, dedicação, coragem, sabedoria, honra, sucesso, fracasso etc. Elegiam também acontecimentos que deveriam ser guardados na memória coletiva daquela sociedade, para lhes servir de esperança, inspiração ou de recordação de algo ruim e até mesmo de aviso para que aquilo não fosse repetido. 

Entre distintos povos, possuímos histórias orais e escritas sobre homens (histórias de mulheres são bem raras), os quais serviam de bom exemplo ou de mal exemplo, embora que as vezes essa divisão nem sempre era clara. Porém, há uma ressalva aqui a ser feita. Devido ao fato de não haver uma separação nítida entre história, mito e religião, é comum você encontrar obras de teor poético, mitológico e religioso servindo de exemplo para pessoas, mesmo que do ponto de vista da ciência histórica, não haja certeza se tais indivíduos e acontecimentos realmente existiram. Dessa forma, optei em trabalhar com alguns exemplos históricos, ainda que não fossem tão precisos. 

Os gregos foram um dos primeiros a se especializarem no gênero biográfico, escrevendo biografias sobre seus políticos e heróis de guerra. Porém, foram os romanos que popularizaram esse relato, pelo menos, no que se refere ao mundo europeu. Marco Túlio Cícero (106-43 a.C), orador, político, escritor e filósofo romano escreveu em seu livro Da Oratoria, que a História seria uma magistra vitae (mestra da vida), uma fonte de exemplos. 

"Assim, a história seria um cadinho contendo um objetivo pedagógico; ou, nas palavras de um dos antigos, a história deixa-nos livres para repetir sucessos do passado, em vez de incorrer, no presente, nos erros dos antigos. Assim, ao longo de cerca de 2 mil anos, a história teve o papel de uma escola, na qual se podia aprender a ser sábio e prudente sem incorrer em grandes erros". (KOSELLECK, 2006, p. 42). 


“Coletânea de exempla, ela é a ‘mestra da vida’ (magistra vitae). Visando formar o cidadão e esclarecer o político, ela deve também ser capaz de servir para a instrução do ser humano individual. Narrativa das inconstâncias da Fortuna, ela deve ajudar a suportar as reviravoltas de situação, propondo exemplos para imitar ou evitar. Transformando-se, desde então, de bom grado, em história de vidas, ela se mostra atenta a tudo o que não se vê imediatamente, a todos os indícios que Plutarco designa especificamente como os ‘sinais de alma’. Ela serve-se do encadeamento: admiração, emulação e imitação. História filosófica, ou seja, moral, ela é o espelho em que cada um, através dos retratos esboçados e do relato de episódios secundários, pode observar-se com o objetivo de agir em melhores condições e se tornar melhor”. (HARTOG, 2011, p. 178-179).

Apesar de Cícero não ter sido o inaugurador desse pensamento, pois como comentado, essa ideia é bem anterior aos romanos e aos gregos, remontando povos mais antigos como os egípcios, hebreus, babilônios, sumérios, hindus, chineses etc., os romanos procuraram levar isso bem a sério, especialmente no que se refere a escrita de biografias. Naquele caso, a biografia não era apenas uma forma de enaltecer o biografado, ou uma leitura de entretenimento, mas também um "serviço público", ao fornecer a história de pessoas ilustres que teriam a contribuir de forma positiva para a sociedade. No caso, biografar a vida de gente desonesta, depravada, mal caráter também era válido, pois servia de exemplos reprováveis, os quais não deveriam ser seguidos. 

Nesse ponto, destacam-se na história romana dois biógrafos, Plutarco (c. 46-119/120) e Suetônio (69-141). No caso do primeiro, Plutarco é conhecido por sua série de biografias intitulada Vidas Paralelas, onde em cada livro ele colocava dois exemplos de governantes ilustres, um de origem grega e outro de origem romana. A ideia não era confrontar ambos para ver quem foi o melhor, mas mostrar as qualidades e alguns defeitos destes homens renomados. Pelo fato de Plutarco ser de origem grega, mas viver no Império Romano, isso facilitou seu contato com os dois povos. Por mais que suas biografias tenham se tornado famosas em seu tempo, hoje sabe-se que elas não são totalmente precisas. Mas para o contexto da época tinham validade.

No que se refere a Suetônio, esse ficou famoso por escrever a biografia de Júlio César e de 11 imperadores romanos, no livro intitulado A Vida dos Doze Césares. Diferente das biografias de Plutarco, Suetônio ficou conhecido por ser mais sensacionalista, focando seus relatos nas polêmicas relacionadas aos governantes romanos, mesmo que algumas não passassem de boatos maldosos. Enquanto Plutarco procurou exaltar o lado bom dos biografados, Suetônio fez o oposto, focou-se em mostrar o lado podre dos imperadores romanos, para que servissem de exemplo de como não se comportar, agir e viver. 

Essa ideia de história magistra vitae continuou a ser reformulada ao longo da História. O cristianismo católico, ortodoxo e copta a utilizou para enaltecer a vida de Jesus Cristo, a Virgem Maria, os profetas e santos como sendo exemplos de vida para os cristãos. Inclusive é notório entre os católicos e ortodoxos a profusão de hagiografias (biografia dos santos), especialmente na Idade Média e começo da Idade Moderna. Mesmo o cristianismo protestante também aderiu a essa noção de serventia da História, exaltando Cristo, mas também os teólogos reformadores como Lutero e Calvino

Mas para fora do âmbito religioso cristão, outros segmentos da sociedade europeia também criaram suas visões sobre modelos de homens ilustres que deveriam ter suas histórias lidas. Um exemplo diz respeito aos Nove da Fama, um conjunto de nove cavaleiros que se tornaram o ideal do cavaleiro pagão, judeu e cristão. Isso foi algo tão marcante, principalmente pelo fato das histórias sobre estes homens serem mais contadas em músicas, romances e poemas do que em biografias propriamente. Inclusive o próprio Miguel de Cervantes (1547-1616), autor do famoso romance Dom Quixote de La Mancha (1605/1615), uma paródia as histórias de cavalaria, expressou a seguinte frase: "A História é émula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro". 

Mas essa concepção de usar a História como repositório para aprender noções de moralidade, caráter, decisão, opinião, juízo etc., ainda hoje é mantida em vários países do mundo. Nas escolas ainda aprendemos os nomes dos chamados "heróis nacionais", grandes homens (hoje em dia já se acrescentam também mulheres, ainda que sejam poucas) que ajudaram a construir o país. De fato para além dessa utilidade como modelo social, isso também está associado com noções de nacionalismo e patriotismo, algo que comentarei na próxima função. 

“A consciência histórica tem por objetivo, pois, extrair do lastro do passado pontos de vista e perspectivas para a orientação de agir, nos quais tenham espaço a subjetividade dos agentes em sua busca de uma relação livre consigo mesmo e com o seu mundo". (RÜSEN, 2007, p. 33-34). 

5) Quinta Função: Identidade

Identidade não se refere apenas ao documento que você possui para ser identificado pelos autoridades do país em que vive, ou em que está visitando. Aqui aborda-se identidade no sentido das características comportamentais, sociais e culturais pelas quais você apresenta-se perante a sociedade em que você vive e convive. No caso, a forma como você se veste, fala, seus gostos pessoais, opiniões, valores, crenças etc., são reflexos de sua identidade sócio-cultural. Atualmente a filosofia, a história, a antropologia, a sociologia e a psicologia possuem suas definições de identidade. Inclusive elencam-se mais de um tipo, onde podemos falar de identidades pessoal, social, cultural, de gênero, étnica, nacional, regional, territorial etc. (SILVA; SILVA, 2009, p. 202-203).

Devido a complexidade dos conceitos de identidade, optei em abordá-lo de forma mais simples, sendo objetivo. No caso para este estudo, escolhi os conceitos de identidade cultural, étnica e nacional, as quais estão bastante associadas com fatores de ordem histórica. No que se refere a ideia de identidade étnica, essa diz respeito ao indivíduo ver-se como membro de um determinado povo. Não devemos confundir povo necessariamente com a ideia de Nação, pois uma Nação pode ser formada por vários povos. No caso da identidade étnica, o indivíduo se considera pertencente a uma determinada comunidade que compartilha características culturais em comum. Logo podemos falar dos judeus, bosquimanos, zulusindígenas, aborígenescurdos, sámis etc., povos que habitam ao lado de outros povos, mas que acabaram mantendo ao longo da História, uma identidade pessoal. Citemos o caso do Brasil. Neste todo cidadão é brasileiro pela definição da Constituição, porém, existem descendentes de 300 etnias indígenas, os quais se consideram possuindo uma identidade nacional (brasileira), étnica, social, pessoal etc. 

No que se refere a identidade nacional, essa está bastante ligada as ideias de patriotismo e de nacionalismo. Cada Estado-nação possui seus símbolos nacionais definidos, o que normalmente chamamos de patrióticos: bandeiras, hinos, brasões, selos, emblemas, mascotes etc. Além disso, o patriotismo também se vale do apego a terra (pátria), a representatividade esportiva, o amor pelo país e seu povo etc. Por sua vez, o nacionalismo normalmente é confundido com o patriotismo, mas são coisas diferentes. O nacionalismo não diz apenas respeito aos símbolos patrióticos, mas as características identitárias pelas quais um povo se reconhece. No caso o nacionalismo expressa principalmente através das artes, costumes, tradições e outros aspectos sociais e culturais. O nacionalismo inclusive serve de fundamento político, podendo ser utilizado de diferentes formas para embasar ideologias políticas, sociais, econômicas, culturais etc. 

A História entra nesse tema da identidade, pois é através dela que se constrói as bases e argumentos para se sustentar as identidades étnicas, sociais, culturais, nacionais etc. Heródoto em seus livros apresentava características culturais que definiam os gregos e os outros povos. Nesse ponto, um dos conceitos fundamentais para a elaboração de uma identidade é a concepção de unicidade e diferença. No exemplo de Heródoto, ele elencava motivos pelos quais os gregos eram gregos, e não egípcios, persas, citas etc. Para isso ele não apenas definia características em comum da sociedade grega, mas elencava diferenças vistas em outras sociedades, as quais a tornavam possuidoras de outras identidades. 

O patriotismo e o nacionalismo somente são possíveis principalmente por causa da História, pois é através dela que se encontram exemplos, fatos, motivos, costumes, tradições, a memória em si. Não sendo a toa, que em governos ditatoriais é bastante comum a exaltação e até mesmo manipulação histórica do passado, para se criar uma memória gloriosa e forte, para justificar práticas presentes. Dois casos bastante interessantes ocorreram no Nazismo e no Fascismo, ditaduras de extrema-direita, com líderes totalitários e bastante carismáticos os quais desenvolveram uma forte propaganda nacionalista que inculcava entre alguns valores, o expansionismo territorial (lembrando que na época o neocolonialismo ainda estava em vigência, logo Alemanha e Itália invadiram outros países). No caso Hitler concebeu o arianismo e Mussolini resgatou a imagem ideal do Império RomanoJunta-se tudo isso para se fundamentar fatores pelos quais explicam determinadas especificidades socioculturais de um país. 

Inclusive isso é algo bastante sério. Recordemos o caso das Ilhas Malvinas, disputadas desde os século XIX entre argentinos e ingleses. Ou a problemática da Palestina no coração de Israel. Ou movimentos separatistas como dos bascos na Espanha e dos curdos na Síria. Até mesmo a independência do Kosovo e do Sudão do Sul, dois dos países mais novos do mundo, estavam relacionadas a questões de identidade. Aqui nos recordemos do papel da memória e da legitimação concedidos pela História, características que se unem na causa identitária. 


"A identidade como uma construção relacional, ou seja, para existir ela depende de algo fora dela, que é outra identidade. Além disso, precisamos considerar que toda identidade é uma construção histórica: ela não existe sozinha, nem de forma absoluta, e é sempre construída em comparação com outras identidades, pois sempre nos identificamos como o que somos para nos distinguir de outras pessoas". (SILVA; SILVA, 2009, p. 204). 

Mesmo a identidade pessoal também é afetada pela História. O local onde você viveu; as pessoas com as quais conviveu; sua educação familiar, escolar e universitária; seus gostos, suas opiniões, valores, crenças etc., isso eventualmente direta ou indiretamente é influenciado pelas identidades que o cercam, as quais cooperam na sua própria formação. Inclusive é comum em alguns casos, as pessoas indagarem aos mais velhos, ou a professores ou até mesmo a pesquisar nos livros ou na internet a História, para entender porque certos comportamentos, crenças, opiniões, juízos, valores, instituições, costumes, tradições etc., existem ainda. Além do fato, de isso também servir como motivo para que o indivíduo adote determinada identidade ou não. 


"Todo ser humano tem consciência do passado […] em virtude de viver com pessoas mais velhas. Provavelmente todas as sociedades que interessam ao historiador tenham um passado, pois mesmo as colônias mais inovadoras são povoadas por pessoas oriundas de alguma sociedade que já conta com uma longa história. Ser membro de uma comunidade humana é situar-se em relação ao seu passado (ou da comunidade), ainda que para rejeitá-lo. O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana". (HOBSBAWN, 1998, p. 22).

6) Sexta Função: Cidadania

A serventia do saber histórico para o desenvolvimento da cidadania nem sempre foi algo regular. Ela tornou-se mais recorrente quando a educação tornou-se algo obrigatório nos Estados, assim como, tornou-se necessário fundamentar políticas nacionalistas para se gerar uma identidade homogênea e patriótica, de forma a evitar revoltas internas, movimentos separatistas, dissidências etc. Por fim, soma-se também a proposta de se educar a população para que evitasse recorrer em comportamentos legalmente reprováveis, que pusessem em risco a convivência em sociedade, ou fomentasse a desordem, a criminalidade e a insurreição contra as instituições governamentais. 

O conceito de cidadania surge também na Grécia Antiga, apesar que sua noção naquele tempo é bem diferente. O conceito atual começou a surgir no século XVIII, tendo algumas revoluções que contribuíram para reforçar isso, como a Revolução America (1776-1783) e a Revolução Francesa (1789-1799) dois acontecimentos marcantes na História, que levaram a se repensar as noções de cidadania ao longo do XIX e posteriormente. 


"A rigor podemos definir cidadania como um complexo de direitos e deveres atribuídos aos indivíduos que integram uma Nação, complexo que abrange direitos políticos, sociais e civis. Cidadania é um conceito histórico que varia no tempo e no espaço. Por exemplo, é bem diferente ser cidadão nos Estados Unidos, na Alemanha e no Brasil. A noção de cidadania está atrelada à participação social e política em um Estado". (SILVA; SILVA, 2009, p. 47). 

Nesse sentido, ser cidadão antes de tudo é pertencer a um Estado-nação, o qual através de sua Constituição e Leis, estabelecerá juridicamente os direitos e deveres de seus cidadãos. No caso, estudar a História ajuda a entender o papel da cidadania, avaliando como essa noção foi sendo formada ao longo do tempo, como ela foi mudando, assim como, também abre espaço para entender as variações políticas, sociais e culturais que afetam diretamente nossos direitos e deveres, como também amplia nossa visão sobre outros países. Pois como citado acima, a forma como um país estabelece o que é ser cidadão, varia. 

Para que um indivíduo possa se efetivar como cidadão na sociedade em que vive, se faz preciso que ele saiba que tipo de sociedade ele habita, como ela se formou, quais são seus preceitos legais, jurídicos, políticos, econômicos, religiosos, sociais e culturais. Quem são o povo ou povos que vivem naquele país, como é a interação entre as classes sociais, os problemas que o país vivencia. Quais são os benefícios de viver naquele Estado. O que a Constituição fala a respeito de ser cidadão, e o que é ser um bom cidadão. 

Aqui apenas para intento de reforçar a ideia, o Estado procura através principalmente da educação escolar (pois corresponde a fase que a pessoa está desenvolvendo sua identidade e caráter), que a criança e o adolescente sejam instruídos a serem pessoas honestas, gentis, trabalhadoras, disciplinadas, respeitadoras, tolerantes, críticas etc. Pelo menos na teoria, a prática é outra história. De qualquer forma, a educação deve proporcionar também valores morais os quais deve-se evitar o crime, o desrespeito, a intolerância, o preconceito, a segregação, a marginalização etc. 

"A compreensão de cidadania em uma perspectiva histórica, como resultado de lutas, confrontos e negociações, e constituída por intermédio de conquistas sociais de direitos, pode servir como referência para a organização dos conteúdos da disciplina histórica. A partir de problemáticas contemporâneas, que envolvem a constituição da cidadania, pode-se selecionar conteúdos significativos para a atual geração. Identificar e selecionar conteúdos significativos são tarefas fundamentais dos professores, uma vez que se constata a evidência de que é impossível ensinar “toda a história da humanidade”, exigindo a escolha de temas que possam responder às problemáticas contundentes vividas pela nossa sociedade, tais como as discriminações étnicas e culturais, a pobreza e o analfabetismo". (PCNEM, 1999, pp. 304-305).

Nesse caso, o estudo histórico faz parte da proposta governamental para o desenvolvimento da educação, não apenas no sentido de fornecer conhecimentos que serão necessários para o desenvolvimento intelectual, assim como, permitir que o cidadão possa futuramente fazer suas escolhas relacionadas ao ensino superior e sua profissão. Porém, a educação escolar também deve fornecer informações referentes a sociedade, a cultura, política, economia, religião, direito etc. 

Nesse ponto, estudar a História contribui para este conhecimento. Não apenas para entender o desenvolvimento histórico do conceito de cidadania, mas entender como ao longo da História, os direitos civis, sociais, jurídicos e humanos foram sendo criados ou renegados. Saber que houveram épocas que as pessoas eram feitas escravas, tratadas como animais ou objetos; a justiça não era bem delineada; a violência imperava; direitos trabalhistas praticamente inexistiam; constituições não existiam; noção de cidadania também era ínfima; o Estado poderia ser tirânico; países não se respeitavam e viviam em guerra; a miséria, o preconceito e a intolerância eram algo comum etc. Isso tudo nos revela como nossos direitos se desenvolveram, como se faz necessário evitar que tais atrocidades e condições voltem a ocorrer no presente. 

7) Sétima Função: Senso crítico


Assim como as ciências em geral requerem de quem a estudam, a capacidade de criticar suas informações o mesmo é válido para o estudo histórico, embora que em geral as pessoas não tenham o hábito de fazer isso. Tomam os fatos históricos como se fossem dados exatos (salvo alguns casos), onde baseiam-se que o ocorrido naquela data é o ponto final daquele relato. Mas não é bem assim. A história necessita bastante de senso crítico. O historiador Pierre Nora (1993, p. 3) uma vez disse que a "história era a reconstrução problemática e incompleta de algo que já passou". Não é um dado pronto. Apesar de parecer que o seja, principalmente quando estamos a ler um artigo ou livro, não levamos em consideração o esforço para se escrever aquele relato. Nora prossegue dizendo que a "história é uma operação intelectual, laicizante que demanda análise e discurso crítico". 

Infelizmente o número de tolices, anacronismos e falsidades que são ditos hoje, principalmente nas redes sociais, revela como a falta deste senso crítico é agravante. 

O fato de pessoas defenderem teorias ultrapassadas e desmentidas como da "Terra Plana" ou da "Terra Oca". O fato de dizerem que o Nazismo e Fascismo foram ditaduras de esquerda; de dizerem que na América do Sul não houve ditaduras militares, mas foram "regime militares"; de dizerem que o Capitalismo se limita apenas ao livre mercado e sua autonomia gerencial; o fato de dizerem que o Holocausto não existiu; que o Comunismo prega o totalitarismo; que o racismo em países americanos não existe, mas é "vitimismo" dos negros. Isso entre outras sandices são compartilhadas diariamente nas redes sociais. Sem contar o fato de que em muitos casos, as pessoas quando falam de política, dizem defender determinada ideia, que não diz respeito ao seu posicionamento político. 

Já vi gente dizer ser a favor da monarquia, mas ser contrário o centralismo estatal e dizer que isso era invenção do Fascismo. Já vi gente dizer que o Capitalismo só possuía uma característica e é a mesma desde o século XIX, ignorando que a economia e a sociedade mudaram ao longo da História. Já vi gente que diz ser de direita, mas defende o fim do Estado, uma ideal anarquista ou comunista. 

Para evitar que tais erros ainda continuem ser difundidos se faz necessário um estudo profundo dos acontecimentos históricos, mas em geral as pessoas optam pelo caminho mais fácil, além de acabarem sendo ingênuas e/ou tolas os suficiente para acreditar em textos escritos por pessoas inexperientes, despreparadas, sensacionalistas, hipócritas, que acabam tentando deturpar os acontecimentos ou inventam que são os outros que fizeram isso, alegando serem defensores de uma "verdade" que não existe como eles pregam.

Jörn Rüsen (2007, p. 45-47) abordando a questão do papel do raciocínio e da crítica, comenta que cabe ao indivíduo que possui conhecimento histórico, lutar contra injustiças e ameaças. Aqui Rüsen propôs quatro princípios: tradição, regularidade, negação, transformação. Mas essencialmente o que Rüsen quer chamar a atenção é que o sujeito possa criticar o saber histórico e procurar utilizá-lo de forma prática para questionar determinadas tradições que se apresentem incompatíveis com a cultura e sociedade atual; que o sujeito consiga regular as experiências do passado, tirando algum tipo de proveito; que o indivíduo possa se posicionar contrário a arbitrariedades, injustiças, perigos etc., não aceitando que o Estado, instituições, empresas, pessoas etc., tomem determinadas decisões que ameacem os direitos civis, jurídicos, sociais e humanos. Que fomentem discursos preconceituosos, descriminatórios e violentos. Por fim, o indivíduo deve reconhecer que as sociedades e suas culturas mudam, e que determinados acontecimentos problemáticos, desumanos, cruéis etc., não voltem a se repetir. O mundo está em constante transformação, e deve ser guiado sempre para o progresso, não para novos obstáculos e retrocessos.

“Os princípios estão interligados de forma extremamente complexa. Condicionam-se mutuamente e opõem-se ao mesmo tempo. Constituem num conjunto de ligações dinâmicas, cujo formato varia conforme as circunstâncias sob as quais as orientações históricas se tornam necessárias na vida prática”. (RÜSEN, 2007, p. 47).

Todavia, na prática isso custa a acontecer. As pessoas em geral decidem se tornar passivas frente aos problemas de sua cidade, estado e país. Preocupam-se mais em condenar problemas de outras nações, perdendo tempo em discussões vãs, e esquecer que problemas similares estejam ocorrendo no bairro vizinho. Por outro lado, também há casos de pessoas que ainda continuam a defender ideologias racistas, preconceituosas, autoritárias e violentas, as quais mostraram que falharam no passado e estavam erradas. Nota-se aqui como a reflexão da História não ocorre, ou quando ocorre, não foi devidamente feita. 


Considerações finais: 

Após esse texto introdutório, espero que tenha ficado claro algumas das funções do saber histórico. Que os leitores da próxima vez que lerem a respeito da História, estejam mais cientes de seu papel memorialista, legitimador, identitário, cidadão, social, crítico, exemplar etc., Que possam procurar alguma utilidade para este vasto campo do conhecimento. Vocês não precisam ser revolucionários, líderes, militantes para porem em prática algo que aprendeu com a História. 

Vocês podem encontrar outros usos para este saber. Podem se tornar mais críticos, mais sábios, menos alienados. Podem ampliar sua noção sobre o mundo e refletir sobre o que querem da vida. Podem se tornar melhores cidadãos. Podem decidir solucionar problemas, desenvolvendo tecnologias, pesquisas, estudos, projetos, propostas, nos mais distintos campos. Podem tentar corrigir erros que ainda perdurem atualmente, por decisões errôneas, hipócritas, interesseiras ou egoístas tomadas. 
Estudar a História é entender porque nosso presente se comporta dessa maneira, pois ele é o resultado direto e indireto das decisões de várias pessoas. É o resultado de expectativas, desafios, problemas, projetos, consequências, negligências, escolhas, acertos, erros, esperanças, sonhos, frustrações e medos. De fato, o futuro que nós queremos seja para nós mesmos ou nossos descendentes dependerá das ações que hoje estamos fazendo. O que você fez ou deixou de fazer, poderá de alguma forma afetar sua vida, a vida de sua família, da sua comunidade e sociedade em que você vive. 

Referências bibliográficas: 
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Links relacionados: 
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