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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O Rei Artur através dos séculos: uma trajetória das lendas arturianas

O Rei Artur através dos séculos: 
uma trajetória das lendas arturianas


Ma. Fernanda Karovsky Moura


O Rei Artur e seus cavaleiros da Távola Redonda têm despertado o interesse de muitos autores e leitores através dos séculos. Ainda parte do nosso imaginário nos dias de hoje, o interesse pelo rei ultrapassou áreas de estudos, tendo sido aceito como fato histórico por alguns e elevado a herói mítico por outros. Tal pluralidade de abordagens às lendas requer atenção acadêmica; daí o desenvolvimento do presente artigo, que busca traçar uma trajetória dos textos inspirados pela figura do Rei Artur, desde o século IX até os dias de hoje.

De acordo com Archibald e Putter (2009, p. 1), Laʒamon, um padre de Worcestershire é um dos primeiros escritores a recontar as lendas do Rei Artur, profetizou no início do século XIII que o lendário rei e suas conquistas e feitos heroicos seriam uma fonte inesgotável para contadores de histórias até o fim dos tempos. Mal sabia Laʒarmon o quão correta estava a sua profecia, já que até os dias de hoje, mais de oitocentos anos depois, o Rei Artur e outros personagens de sua corte ainda figuram em inúmeras mídias: romances, poemas, peças de teatro, óperas, filmes, histórias em quadrinhos, pinturas, séries de televisão, entre outras.

Mesmo que Artur tenha sido um rei bretão, suas histórias ultrapassaram barreiras geográficas e foram adaptadas por diversos autores de diversos países e em momentos históricos distintos. Como Archibald e Putter (2009, p. 1) apontam, os romances de cavalaria arturianos foram escritos primeiramente na França e depois seguiram para a Alemanha. Logo as lendas arturianas seriam conhecidas por toda a Europa e, mais tarde, ganharam também influência nos outros continentes, deixando sua marca até mesmo no Brasil.

Uma das razões apresentadas por Archibald e Putter (2009, p. 2) para o sucesso e abrangência das lendas arturianas é que elas não se limitam a um só herói, um único local ou contexto histórico. Pelo contrário, as histórias do período arturiano não são exclusivamente sobre Artur, mas também relatam as aventuras de outros cavaleiros da Távola Redonda e, em versões mais recentes, as histórias por trás das personagens femininas da corte, como a Dama de Shalott, cuja lenda foi retratada no poema de Alfred Tennyson (1809-1892), The Lady of Shalott (1833/1842), e Morgana e Guinevere, irmã e esposa do rei respectivamente, personagens centrais da obra de Marion Zimmer Bradley (1930-1999), As Brumas de Avalon (1979).

A primeira menção a Artur em registros escritos é datada de 830, mais de trezentos anos após o período do seu possível reinado. Trata-se de Historia Brittonum, ou História dos Bretões em língua portuguesa, um compêndio da história bretã encomendada por Merfyn, rei de Gwynedd, um reino no noroeste do atual País de Gales, e provavelmente escrito por Nennius. Merfyn era um rei aventureiro que havia acabado de tomar o trono e fixado sua dinastia em Gwynedd. Ele pretendia tomar todo o País de Gales e, por isso, sua encomenda da Historia Brittonum tinha razões e intenções políticas: ela representa os galeses como os verdadeiros donos de toda a Bretanha, injustiçados pelas invasões inglesas (HUTTON, 2009, p. 21). Em Historia Brittonum, Artur não é um rei, mas um grande guerreiro que lidera o exército bretão em doze batalhas até a vitória (LAMBDIN; LAMBDIN, 2009, p. 2).

Segundo Hutton (2009, p. 21-22), o compêndio de Nennius representa os galeses como devotos, guerreiros e galantes, enquanto os ingleses são retratados como traiçoeiros e invasores. Além disso, Gwynedd tem lugar de destaque entre os reinos ingleses. Essas decisões tomadas por Nennius certamente agradaram o rei Merfyn.

Além de Historia Brittonum, Ronald Hutton aponta apenas mais um texto que faz referência a Artur nos primeiros séculos após o seu provável reinado. Trata-se de Annales Cambriae, ou Anais de Gales, um conjunto de crônicas compilado por volta de 950, quase cem anos após Historia Brittonum (2009, p. 25). Hutton, contudo, aponta que as lendas arturianas tinham um caráter de reprodução oral e, portanto, muitos registros, infelizmente, se perderam muito antes da nossa era (2009, p. 34).

O Rei Artur só ganha proeminência na literatura a partir do século XII, quando ele é "revelado como uma figura literária de estatura verdadeiramente internacional" (HUTTON, 2009, p. 26). Foi nesse século que Artur e os demais personagens de sua corte ganharam um espaço sem precedentes em diversas áreas: nomes arturianos tornaram-se em voga entre a aristocracia, personagens arturianos foram transformados em esculturas, seus feitos convertidos em canções e, principalmente, temas arturianos rechearam as produções literárias do período (PUTTER, 2009, p. 36).

A enorme importância que Artur adquiriu a partir desse século, segundo Putter (2009), se deve, principalmente, a Geoffrey de Monmouth e Chrétien de Troyes. Geoffrey de Monmouth foi um clérigo e mestre na universidade de Oxford. Segundo Putter, Monmouth alegava que seu amigo Walter, arquidiácono de Oxford, havia lhe entregue um antigo manuscrito bretão, que o autor dedicou-se a traduzir como Historia Regum Britanniae, ou História dos Reis da Bretanha. Putter, contudo, alerta que a existência de tal manuscrito nunca foi comprovada. Ademais, escritores medievais tinham o costume de buscar fontes para seus escritos em textos antigos e, se tais documentos não fossem possíveis de serem encontrados, eles os inventavam (PUTTER, 2009, p. 39). Segundo Laura e Robert Lambdin, Geoffrey de Monmouth solidificou a importância das lendas arturianas, principalmente pelo fato de que seu texto foi tomado como história verídica por muitos leitores e escritores até o Renascimento (2000, p. 2).

Geoffrey de Monmouth publicou três trabalhos relacionados ao universo arturiano que sobreviveram até os dias de hoje e influenciaram diversas obras que os seguiram: As Profecias de Merlin, Vita Merlini, ou A Vida de Merlin, e o já mencionado História dos Reis da Bretanha, tido por muitos como uma história verídica dos antigos reis bretões até ser desacreditada pelos humanistas do século XVI (PUTTER, 2009, p. 41). Seus relatos dos feitos heroicos do Rei Artur e sua corte foram levados a sério e traduzidos livremente para outros idiomas: Jerseyman Wace o traduziu para o francês e o já mencionado padre de Worcestershire, Laʒamon, o traduziu para o inglês (PUTTER, 2009, p. 43). É importante ressaltar que nesta época a tradução literária era vista sob outra perspectiva e o tradutor, que se tornava um co-autor, tinha a liberdade para alterar o enredo e adicionar passagens de acordo com o seu julgamento e objetivos da tradução em si. Segundo o poeta argentino Jorge Luis Borges,

"ao longo de toda a Idade Média, as pessoas pensavam a tradução não em termos de uma versão literal, mas em termos de algo sendo recriado. De um poeta, tendo lido uma obra, desenvolver essa obra a partir de si mesmo, de sua própria força, das possibilidades até ali conhecidas de sua língua" (2000, p. 78). Portanto, não havia uma preocupação em preservar o texto de origem.

Outro autor do século XII que deu novo fôlego às lendas arturianas foi Chrétien de Troyes, que escrevia da corte de Champagne na França. Seus romances Erec, O Cavaleiro do Leão (Ivain), O Cavaleiro da Carreta (Lancelote), Cligés e O Conto do Graal – deixado inacabado devido à morte do autor – encantaram os leitores do seu tempo e continuam a ser lidos até os dias de hoje, além de terem contribuído para o surgimento de outros textos referentes à corte do Rei Artur através dos séculos.

Chrétien de Troyes, ao contrário dos escritores que o precederam, libertou-se das amarras da veracidade histórica e apresenta um mundo explicitamente ficcional, sem restrições, onde as personagens seguem suas próprias regras (PUTTER, 2009, p. 44). Laura e Robert Lambdin afirmam que o autor francês "levou os exóticos contos de fadas dos heróis galeses para os castelos da Inglaterra e França" (2000, p. 4). Ademais, de Troyes inovou com a elaboração de romances arturianos curtos, que tinham como protagonista não o Rei, mas um dos cavaleiros da corte de Artur, o qual, normalmente, dava nome à narrativa (PUTTER, 2009, p. 50). A partir dele, as lendas aturianas passaram a abranger, também, o universo da escrita prosaica, o que seria seguido e desenvolvido por outros escritores nos séculos seguintes.

Jane Taylor (2009, p. 53) aponta que, no século XIII, os escritores arturianos seguiam três vertentes distintas: escrita em verso, cada vez mais focada em aventuras individuais de cavaleiros da corte do Rei Artur, como as aventuras do sedutor cavaleiro Gawain: Le Chevalier à l'épée, La Mule sans Frein e Vengeance Raguidel, de autoria incerta; em prosa, misturando história e romance, como nos trabalhos do chamado Ciclo Vulgar Arturiano: Lancelot en Prose, La Queste del Saint Graal e La Mort le roi Artu. O Ciclo afirmava ter sido escrito por Walter Map, um clérigo da corte de Henrique II, no início do século XIII, porém Taylor afirma que muitos críticos acreditam que ele tenha sido escrito por diversos autores, provavelmente todos clérigos (2009, p. 59); e, finalmente, alguns escritores se dedicaram a continuar a obra O Conto do Graal, deixado tentadoramente inacabado por Chrétien de Troyes no século anterior.

No século seguinte, o século XIV, Artur continuou sendo visto tanto como figura histórica, tendo como base os escritos de séculos anteriores de Geoffrey de Monmouth e Wace já mencionados, como personagem de romances. Segundo A. J. Burrow (2009, p. 69-70), a figura do Rei Artur histórico, grande monarca e conquistador de terras, pode ser encontrado no poema Chronicle escrito por Robert Manning em 1338, durante o reinado de Eduardo III, monarca inglês que possuía tal admiração pelo Rei Artur que encomendou sua própria Távola Redonda para usar em seu governo. Outro poema do século XIV que também exalta os feitos históricos de Artur, porém sem deixar de adicionar fatos e detalhes – muito provavelmente fictícios – não encontrados em Monmouth ou Wace, é Morte Arthure (BURROW, 2009, p. 70), cuja autoria permanece desconhecida.

Contudo, como afirma Burrow, a tradição da escrita de crônicas arturianas, pautadas na plausibilidade histórica e originadas a partir de Geoffrey de Monmouth e Wace, tinha pouco espaço para o maravilhoso ou para aventuras individuais de cavaleiros da corte (2009, p. 72). Foi a vertente da escrita narrativa do século XIV que desenvolveu a figura do Rei Artur como personagem de ficção. Segundo Burrow, "ao passo que na França, como na Alemanha, a principal era de escritos arturianos tivesse ficado no passado, o século XIV viu um desabrochar tardio [dessa era] na Inglaterra" (BURROW, 2009, p. 74). Um exemplo é o romance Sir Gawain and the Green Knight, escrito no final do século e de autoria incerta. Outros poemas de grande popularidade na época surgiram de traduções livres ou adaptações de textos franceses, como Ywain and Gawain, baseado em Yvain de Chrétien de Troyes (BURROW, 2009, p. 74); Sir Percyvell of Galles, que provavelmente teve como inspiração o Conto do Graal de Chrétien (BURROW, 2009, p. 76); Sir Landevale e Sir Launfal, ambos derivados dos Lais de Marie da França (BURROW, 2009, p. 77); e Lybeaus Desconus, provavelmente escrito por Thomas Chestre (BURROW, 2009, p. 78).

A presença de Artur na literatura avançou no século seguinte e, segundo perspectivas teóricas modernas, a grande realização do século XV em termos arturianos foi a publicação do volumoso Le Morte D’Arthur por volta de 1458, escrito por Sir Thomas Malory (WINDEATT, 2009, p. 84). De acordo com Barry Windeatt, a ambiciosa proposta de Malory era compilar sequencialmente os grandes acontecimentos da vida e governo de Artur e a história da Távola Redonda, tendo como ponto de partida diversas fontes, principalmente textos poéticos franceses (Ibid). Segundo Windeatt, Le Morte D’Arthur é o resultado da incerta negociação entre história e romance histórico (2009, p. 86), seguindo a tradição da prosificação de versos. Esse entrelaçamento entre história e romance comum no século XV proporcionou uma intertextualidade, na qual há sempre mais de uma verdade sobre os feitos de Artur (WINDEATT, 2009, p. 96).

O imenso compêndio de Malory abrange um grande período de tempo, desde a relação amorosa entre Uther e Igraine, e o consequente nascimento de Artur, até o início do reinado de Sir Constantine, que substituiu Artur no trono após a sua morte. La Morte D’Arthur é dividido em oito partes, sendo que as duas primeiras abordam a ascensão de Artur ao trono, as três seguintes seguem Artur em seu auge e, finalmente, as últimas três seções relatam a queda de Camelot (LAMBDIN; LAMBDIN, 2000, p. 6). Segundo Laura e Robert Lambdin, Malory simplificou muito a forma para agradar o público leitor inglês, retirando episódios de magia e mistérios religiosos em favor do realismo, sem grandes análises emocionais complicadas (Ibid). Além de Malory, a literatura arturiana em língua inglesa no século XV floresceu com um grande número de traduções e adaptações de romances escritos em outras línguas anteriormente, principalmente em língua francesa (WINDEATT, 2009, p. 85).

A temática de Artur e sua corte ganhou grande proeminência entre a realeza e nobreza inglesas. Segundo Windeatt, "durante todo o século XV, ler sobre Artur e a Távola Redonda era buscar um ideal, e a corte do Rei Artur proporcionava um modelo imaginário de conduta e vida cortês" (2009, p. 100). Reis como James IV na Escócia e Eduardo IV e Henrique VII da Inglaterra exibiam sua admiração por Artur através da organização de torneios entre cavaleiros, uso de peças de decoração com temas arturianos, escolha de nomes para membros da família inspirados na literatura arturiana, entre outros (Ibid).

Segundo Rob Gossedge e Stephen Knight (2009, p. 103), grandes escritores e grandes obras tendem a debilitar os seus sucessores, e isso pode ter sido exatamente o que aconteceu a partir do século XVI após a publicação de Le Morte D’Arthur de Thomas Malory. O período que se seguiu a Malory não apresentou nenhuma novidade no tratamento das lendas arturianas. Segundo Laura e Robert Lambdin, as lendas foram praticamente esquecidas até a segunda metade do século XVIII (2000, p. 10). Contudo, Gossedge e Knight apontam que não foi apenas a angústia da influência, como chamaria Harold Bloom, que ocasionou esse declínio da representação do Rei Artur e sua corte na literatura, mas houve outras razões que não devem ser ignoradas. Uma delas é o desenvolvimento da História como área de estudo, que cada vez mais desafiava a versão "histórica" de Geoffrey de Monmouth sobre os reis da Bretanha, colocando em xeque a própria existência de Artur. Outra razão foi o crescente interesse pelo legado da Antiguidade Clássica em detrimento do passado medieval, fazendo com que a figura de Artur perdesse a sua superioridade. Ademais, a organização administrativa da corte Tudor, provida de exércitos e ministros de Estado, tornava irrelevante a ideia de um rei que governava através de seus cavaleiros e sob a orientação de um sábio druida. Outro fator para o decréscimo de popularidade das lendas arturianas foi o surgimento do Protestantismo na Inglaterra, incongruente com o ambiente católico das histórias de Artur, além do fato de narrativas repletas de violência e sugestão sexual irem contra o moralismo puritano da época (2009, p. 103).

No entanto, apesar do declínio de interesse em Artur, alguns romances arturianos continuaram a ser escritos, lidos e apreciados, mesmo que em menor medida. Um exemplo é o poema épico Faerie Queene, escrito por Edmund Spenser e publicado por volta de 1590-6 (GOSSEDGE; KNIGHT, 2009, p. 104), no qual Artur, personificação de todas as virtudes, está desesperadamente apaixonado pela Faerie Queene, ou Rainha das Fadas, que poderia ser interpretada como a própria Rainha Elizabeth I.

Muito embora Artur tenha perdido parte de sua força entre os grandes nomes da literatura durante os séculos XVI e XVII, ele permaneceu presente na literatura popular, como, por exemplo, nos romances de provável autoria de Richard Johnson: Tom a Lincoln (1611), no qual o filho ilegítimo de Artur, Tom, chega à corte, e The History of Tom Thumb (1621), cujo minúsculo protagonista também chega à corte do rei (GOSSEDGE; KNIGHT, 2009, p. 105).

No século XVII, os feitos do Rei Artur chegaram também aos palcos através da ópera de John Dryden intitulada King Arthur: The Worthy (1691), na qual o rei se apaixona por Emmeline, uma princesa cega, e é confrontado por seu rival, o príncipe saxão Oswald (GOSSEDGE; KNIGHT, 2009, p. 106). Segundo Gossedge e Knight, nessa peça as batalhas são facilmente vencidas pelos bretões, porém a magia e a musicalidade propiciam uma tensão erótica, que destaca o texto (Ibid).

Esses populares romances e ópera foram mais tarde, no século XVIII, parodiados pelo escritor inglês Henry Fielding, que proporcionou ainda mais visibilidade à vertente popular das lendas arturianas. Em The Tragedy of Tragedies: The Life and Death of Tom Thumb, Fielding ridiculariza a pomposidade de Dryden e parodia a tragédia clássica: todos os personagens morrem e Artur, o último a permanecer vivo, acaba tirando a sua própria vida (GOSSEDGE; KNIGHT, 2009, p. 107).

Durante o fim do século XVIII e início do XIX, durante o Romantismo na literatura de língua inglesa, os poetas tiveram pouco interesse nas histórias do Rei Artur, mesmo que temas medievais fossem constantes na produção artística desse período. De acordo com Gossedge e Knight, os Românticos não viam em Artur uma figura com alto valor de moralidade ou sentimentos sinceros (2009, p. 108). Ao contrário de séculos anteriores, em que o Rei Artur era retomado como uma figura de orgulho e poder nacional, esse período utilizou-se de Artur como material para sátiras. No entanto, a sátira dos românticos era mais relacionada à forma extremamente rebuscada dos romances e poemas arturianos dos séculos anteriores e à representação da soberania do monarca do que ao contexto medieval presente neles. A peça The Fairy of the Lake, por exemplo, do ateu e radical John Thelwall, publicada em 1801, "desafia o classicismo conservador de Artur, como visto em Dryden e Blackmore, e questiona a santidade da masculinidade e da realeza, assim como o decoro narrativo e teatral" (GOSSEDGE; KNIGHT, 2009, p. 108). Além de Thelwall, o inglês John Hookham Frere, em The Monks and Giants, publicado primeiramente em 1816, "é mais uma sátira dos valores burgueses, tanto comportamental como política, do que um texto arturiano" (Ibid). Portanto, a figura do Rei Artur serve como um pretexto para críticas políticas e sociais.

Segundo Gossedge e Knight, o Rei Artur aparece na poesia desse período predominantemente de forma irônica ou meramente referencial. "Artistas criativos ingleses ainda não respondiam seriamente ao mito. Os autores que tinham noção da importância específica de Artur como uma imagem de identidade nacional eram, na verdade, celtas" (2009, p. 109), como os escoceses Walter Scott e Anne Bannerman; os galeses William Owen Pughe, Richard Llwyd e a poeta inglesa que passou sua juventude no País de Gales, Felicia Hemans; e na região da Cornualha, os escritores Thomas Hogg, John Magor Boyle e R. S. Hawker, que mais tarde aconselharia Alfred Tennyson em questões relacionadas a temas e locais arturianos.

Por fim, essa jornada das lendas arturianas através dos séculos chega a Alfred Tennyson, nome chave na disseminação das lendas arturianas no século XIX. Segundo Laura e Robert Lambdin, houve outras histórias com personagens arturianos nesse período, mas nenhuma de grande importância até a publicação do primeiro poema arturiano de Alfred Tennyson em 1833: a primeira versão de The Lady of Shalott (2000, p. 11). O poema em questão teve como fonte, segundo Gossedge e Knight (2009, p. 112-13), uma novela italiana publicada em 1804, Qui conta come la Damigella di Scalot mori per amore di Lancialotto de Lac. De acordo com os autores, Tennyson já planejava um grande trabalho arturiano desde a década de 1830. A influência de Malory em seu trabalho é evidente, principalmente nos seus primeiros poemas e na que viria a tornar-se sua obra-prima, The Idylls of the King.

The Lady of Shalott é um exemplo do resgate de antigos gêneros, como a balada medieval. Segundo Alice Chandler, durante o período de Medieval Revival, “a Idade Média foi idealizada como um período de fé, ordem, alegria, generosidade e criatividade” (1970, p. 1). Os ingleses voltaram-se para a Idade Média como o período de ouro em sua história, em contraste com as dificuldades da modernidade pós-Revolução Industrial. Como consequência, temas medievais voltaram a figurar na literatura, como os romances góticos de final do século XVIII e início do XIX, os romances históricos de Walter Scott e os poemas arturianos de Alfred Tennyson. Nesse período, o gênero balada foi resgatado, principalmente por sua conexão com a Idade Média, porém com novas características, adaptadas ao novo contexto.

Tennyson, ao recuperar os escritos de Malory, trouxe-o de volta ao centro da literatura inglesa (GOSSEDGE; KNIGHT, 2009, p. 113). Além de Malory, Tennyson também trouxe o próprio Rei Artur de volta ao cerne da produção literária inglesa, resgatando-o do submundo cômico e político e restabelecendo seu valor literário e cultural. Tal conduta seria seguida por outros artistas durante o século XIX, principalmente na arte, como os pintores J. W. Waterhouse, William Morris, Dante Gariel Rossetti, W. Holman Hunt, Edward Burne-Jones, James Archer e G. F. Watts, integrantes e simpatizantes da Irmandade Pré-Rafaelita; e na poesia, com Edward Hamley, Elinor Sweetman, William Morris e Algernon Swinburne.

Finalmente, o Rei Artur adentra os séculos XX e XXI e encontra representação em diversos gêneros e mídias, como no recente universo cinematográfico. Segundo Norris Lacy, principalmente a partir da década de 1950, as lendas foram transformadas em sátiras políticas e sociais, comédias, ficção científica, fantasia, ficção feminista, mistérios, thrillers, revistas em quadrinhos e muitos outros, tanto na literatura como também no teatro e no cinema (p. 120). Nas primeiras décadas do século XX, a poesia dominou a maior parte da produção literária arturiana, como os poemas Merlin (1917), Lancelot (1920) e Tristram (1927), do norte-americano Edwin Arlington Robinson (1869-1935) e as antologias poéticas do inglês Charles Williams (1886-1945) sobre a ascensão e queda de Camelot (LACY, 2009, p. 122). Com o desenrolar do século, no entanto, a poesia cedeu lugar ao romance como gênero predominante (LACY, 2009, p. 121).

De um modo geral, Lacy afirma ser possível dividir a produção artística arturiana do século XX em quatro grupos principais: adaptações de histórias escritas anteriormente, narrativas modernizadas, uso de temas arturianos como metáfora ou estrutura, e adaptações revisionistas das lendas (p. 122). Como exemplos do primeiro grupo, Lacy cita, entre outros, Rei Artur (1903), de Howard Pyle (1853-1911), e A Espada Excalibur (1981), de Rosemary Sutcliff (1920-1992), que apresenta adaptações da obra de Malory (p. 123). Narrativas modernizadas, o segundo grupo mencionado por Lacy, trazem o Rei Artur para o presente, como em Aquela Força Medonha (1945), de C. S. Lewis (1898-1963), ou para o futuro, como em Witch World (1963), de Andre Norton (1912-2005) (p. 126-7). Como exemplos do terceiro grupo, nos quais temas ou motivos arturianos são identificáveis na obra, porém de maneira menos explícita, Lacy cita Brazil (1944), de John Updike (1932-2009), que apresenta elementos da história de Tristão e Isolda na moderna Rio de Janeiro, e Lancelot (1977), de Walker Percy (1916-1990), no qual um advogado chamado Lancelot assassina a sua mulher por desconfiar de sua infidelidade (p. 127). Por fim, como adaptações revisionistas, Lacy menciona o irônico Arthur Rex (1978), de Thomas Berger (1924-2004), que apresenta de uma maneira nua, crua e cômica as falhas dos personagens arturianos; e o já mencionado As Brumas de Avalon, de Bradley, que reconta as lendas através da perspectiva de personagens femininas (p. 125).

Entrando no século XXI, o Rei Artur se vê reinterpretado por uma nova geração, participante de “poderosas transformações culturais e sociais” (LACY, 2009, p. 129). Segundo Lacy,

"quer seja instabilidade cultural, relativismo moral, nostalgia de uma clareza real ou imaginada no passado, rebelião contra a tradição, ou simplesmente a necessidade de falar e escrever de formas diferentes das do passado, o período frequentemente identificado como pós-moderno bombou a lenda arturiana"(2009, p. 129).

As lendas foram resgatadas mais uma vez para serem reexaminadas e reinterpretadas, buscando uma forma de torná-las ainda mais relevantes para a audiência contemporânea.

O Rei Artur e demais personagens de sua corte invadiram novas mídias, como vídeo games, jogos de RPG, jogos para computador, jogos de tabuleiro, livros de colorir, entre muitos outros (LACY, p. 129). Na literatura, as lendas continuaram a inspirar autores ano 2000 adentro, como em Baudolino (2000), de Umberto Eco (1932-2016), e Labirinto (2005), de Kate Mosse (1961-). No cinema e na televisão, a figura do rei e sua corte é frequente, como nas séries televisivas Merlin, produzida pela BBC One e no ar de 2008 a 2012, e Camelot, produzida por TV GK e Starz e com uma única temporada exibida em 2011; e nos filmes Rei Arthur de 2004, e o mais recente Rei Arthur: A Lenda da Espada de 2017.

Após o estudo da trajetória das lendas arturianas através dos séculos na literatura e em outras artes, pode-se perceber que o Rei Artur e os demais personagens de sua corte sempre estiveram presentes nas manifestações artísticas e no imaginário coletivo da população, principalmente nas regiões da Inglaterra e França. Há menções a Artur desde Historia Brittonum, do início do século IX, e Annales Cambriae, de meados do século X. Antes um misterioso personagem da história bretã, Artur logo se tornou um dos personagens favoritos da literatura de ficção, principalmente a partir de Geoffrey de Monmouth e Chrétien de Troyes no século XII. No século XV, a presença de Artur na literatura se consolidou com a publicação de Le Morte D’Arthur, de Sir Thomas Malory, autor que certamente influenciou o trabalho de Tennyson quatro séculos mais tarde.

Após um período de pouca presença do Rei Artur e demais personagens de sua corte na literatura e outras manifestações artísticas, o século XIX viu surgir uma renovação de interesse na Idade Média, o chamado Medieval Revival (CHANDLER, 1970). Através desse movimento, parte do movimento romântico na literatura inglesa de fins do século XVIII e início do XIX, personagens medievais – reais ou fictícios – foram resgatados por escritores, poetas, pintores e outros artistas, como os integrantes da Irmandade Pré-Rafaelita e o poeta Alfred Tennyson. E, por fim, os séculos XX e XXI levaram o Rei Artur e seus cavaleiros para diversas mídias, como o cinema, a televisão e video games, além de propor novas interpretações e adaptações revisionistas de antigas lendas.

Chegando ao final de nossa jornada com o Rei Artur através dos séculos, é possível identificar o grande impacto dessas lendas na literatura e produção artística como um todo, desde o século IX até os dias de hoje. Mesmo tendo surgido há mais de mil anos, essas lendas ainda tocam o leitor, que século após século confere novas leituras às velhas histórias, adicionando novas camadas de significado que tornam esse imenso legado cultural ainda mais rico.

Referências:

ARCHIBALD, Elizabeth; PUTTER, Ad. The Cambridge Companion to the Arthurian Legend. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 265.
BORGES, Jorge Luís. Esse ofício do verso. São Paulo: Editora Schwarcz, 2000.
BURROW, J. A. The fourteenth-century Arthur. In: ARCHIBALD, Elizabeth; PUTTER, Ad. The Cambridge Companion to the Arthurian Legend. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 69-83.
CHANDLER, Alice. A Dream of Order: The Medieval Ideal in Nineteenth-Century English Literature. Lincoln: University of Nebraska Press, 1970.
GOSSEDGE, Rob; KNIGHT, Stephen. The Arthur of the sixteenth to nineteenth centuries. In: ARCHIBALD, Elizabeth; PUTTER, Ad. The Cambridge Companion to the Arthurian Legend. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 103-119.
HUTTON, Ronald. The early Arthur: history and myth. In: ARCHIBALD, Elizabeth; PUTTER, Ad. The Cambridge Companion to the Arthurian Legend. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 21-35.
LACY, Norris. The Arthur of the twentieth and twenty-first centuries. In: ARCHIBALD, Elizabeth; PUTTER, Ad. The Cambridge Companion to the Arthurian Legend. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 120-135.
LAMBDIN, Laura C.; LAMBDIN, Robert T. Camelot in the Nineteenth Century: Arthurian Characters in the Poems of Tennyson, Arnold, Morris, and Swinburne. Londres: Greenwood Press, 2000.
PUTTER, Ad. The twelfth-century Arthur. In: ARCHIBALD, Elizabeth; PUTTER, Ad. The Cambridge Companion to the Arthurian Legend. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 36-52.
TAYLOR, Jane H. M. The thirteenth-century Arthur. In: ARCHIBALD, Elizabeth; PUTTER, Ad. The Cambridge Companion to the Arthurian Legend. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 53-68.
WINDEATT, Barry. The fifteenth-century Arthur. In: ARCHIBALD, Elizabeth; PUTTER, Ad. The Cambridge Companion to the Arthurian Legend. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 84-102.

Fonte: MOURA, Fernanda Karovsky. O Rei Artur através dos séculos: uma trajetória das lendas arturianas. Revista Entrelaces, v. 1, n. 10, jul/dez 2017, p. 22-34. 







segunda-feira, 28 de outubro de 2019

O que é o sufismo?

O Sufismo consiste no segmento místico e esotérico do Islão. Originando-se há vários séculos, tendo sofrido ameaças, perseguições e proibições por ser considerado uma prática herética. Ainda hoje alguns muçulmanos não veem o sufismo com bons olhos, porém, para outros muçulmanos o sufismo é uma doutrina fundamental do Islão, consistindo em outras formas de como desenvolver a espiritualidade e aproximar-se mais de Allah. Neste curto texto apresentei alguns aspectos centrais sobre o Sufismo; saber inclusive mal compreendido tanto por muçulmanos, quanto por não-muçulmanos, a ponto de haver gente que acredite que o sufismo limite-se apenas a prática da dança, do canto e da meditação. 

Problemática do termo: 

Para poder falar sobre sufismo é preciso saber que existe uma problemática de definição, a começar pela condição que a palavra sufismo não é de origem árabe, mas uma invenção europeia. Por sua vez, a palavra sufi usada para designar seu praticante não é o único termo usado para isso e não tem um significado conclusivo. Por fim, os sunitas e os xiitas chamam o sufismo por outros termos. 

A palavra sufismo foi criada para intitular o livro Sufismus: sive, Theosofia persarum pantheistica (em tradução livre: Sufismo: seja a Teosofia panteística persa), publicado em latim, no ano de 1821 em Berlim, pelo teólogo e pastor August Tholuck (1799-1877). Embora fosse pastor, Tholuck como outros teólogos de seu tempo, se interessavam pelo estudo das religiões, mesmo que fosse para criticar e falar mal das outras crenças. E em seu tempo o interesse pelas religiões do Oriente despontava. Assim, Tholuck interessou-se por estudar o Islão, mais especificamente um segmento dele, associado com o misticismo, o qual ele chamou de Sufismo. (SILVA FILHO, 2012, p. 43-44). 

Nota-se pelo título de sua obra que Tholuck pensava o sufismo a partir de uma concepção panteística (a grosso modo diz que Deus e o universo são conjuntos, não divisíveis), algo que como veremos adiante, realmente faz sentido. O problema é que Tholuck interpretou esse panteísmo como sendo uma variação da Teosofia, que consiste num conjunto de doutrinas místicas, ocultistas e filosóficas de origem europeia, apesar que também aglutinou elementos de outros continentes. Nesse sentido, pelo fato do sufismo consistir numa doutrina iniciática, para Tholuck isso o colocaria dentro da percepção da Teosofia. 

De qualquer forma, não foi nosso intuito debater a obra dele. No entanto, fica destacado que o termo sufismo tão habitual para os não-muçulmanos, surgiu com ele. Mas de onde ele teria concebido esse termo? No caso, Tholuck adotou o radical suf e acrescentou o sufixo ismo. Nesse ponto, a palavra suf não foi uma invenção sua, essa já existia na língua árabe desde o século VIII, segundo aponta o estudioso islâmico Murtada Murtahari. Porém, ele comenta que somente no século X é que o termo começou a ser pensado para se designar os praticantes do sufismo, e nesse ponto ele cita o livro Kitab al-Ta' arruf li Madhab ahl al-Tasawwuf (Livro de investigação sobre a escola jurisprudencial do povo do Sufismo), escrito por Abu Bakr al-Kalabadhi, o qual apresentava quatro possíveis origens para o termo: suf, safa, saff e suffah. (SILVA FILHO, 2012, p. 41-42).

Ainda hoje não há um consenso quanto a exatidão etimológica do termo sufi, embora que em geral os autores, como comentado por Scarabel (2007) e Renard (2009) costumem usar o radical suf que significa lã, pois correspondia a condição que os muçulmanos ascéticos se vestiam com uma túnica feita de lã. Entretanto, Silva Filho (2012, p. 41-42) explica de forma melhor o uso desses quatro radicais:
  • Suf (lã): referência ao ascetismo dos primeiros sufis. Tal traje era símbolo de humildade e desapego. Poderia ter sido baseado na ideia de monges visto no cristianismo, zoroastrismo e no budismo. 
  • Safa (pureza): atributo que um sufi deve almejar e cultivar. 
  • Saff (fila): termo controverso, sendo baseado na ideia de posição na dianteira, o que indicaria que os sufis estariam a frente dos demais muçulmanos. 
  • Suffah (banco): referente aos fiéis que se sentavam em um banco na entrada da mesquita fundada por Mohammed. 
Como não há um consenso quanto a origem etimológica da palavra sufi, não irei deter mais tempo nisso. Agora passemos para a observação citada anteriormente quando eu disse que os muçulmanos utilizam outros termos para designar o sufismo. Pelo menos no século X já havia dois termos definidos para se referir ao sufismo. Os sunitas usavam o termo Tasawwuf, já os xiitas faziam uso do termo Irfan. Ambas as palavras já constavam em livros que comentavam a respeito dos ensinamentos sufis. Porém, o emprego dessas palavras apresentam certo diferencial.

A palavra Tasawwuf embora comumente traduzida hoje em dia como Sufismo, ao longo da História ela apresentou uma variedade de sentidos, tendo sido usada para se referir a "ascéticos", "iniciados", "sábios", "aqueles que renunciaram", "homens pobres" etc. (CHITTICK, 2007, p. 22). Porém, a palavra também é empregada para se referir a misticismo, esoterismo, doutrina espiritual islâmica, caminho espiritual etc. (SILVA FILHO, 2012, p. 45). Percebe-se como é problemático tentar encontrar uma única definição para essa palavra, assim como, traduzi-la simplesmente como misticismo, esoterismo ou espiritualidade seja algo impreciso. Mas vejamos o termo empregado pelos xiitas. 

Já a palavra Irfan também apresenta distintos sentidos, podendo se referir a gnose, esoterismo, consciência reflexiva etc. (SCARABEL, 2007, p. 204). A palavra também é usada pelos xiitas mais atualmente para designar um conjunto de crenças e práticas baseadas numa experiência mística do Islão. Há quem diga que poderia ser interpretada como um tipo de "filosofia da religião islâmica". Não obstante, o termo também é empregado para se referir a práticas iniciáticas voltadas para o desenvolvimento espiritual do seu praticante. (SILVA FILHO, 2012, p. 49). 

Independente do conceito dado as palavras Tasawwuf e Irfan, ambas são utilizadas pelos muçulmanos para designar Sufismo. Pelo fato de eu não ser muçulmano, utilizarei o termo sufismo no restante do texto. Mas antes de prosseguir para o próximo tópico, é necessário comentar brevemente que os xiitas apesar de reconhecerem o Irfan, não o consideram práticas genuínas, muitos até o consideram como sendo heresia. E dentre os sunitas os quais tem maior receptibilidade ao sufismo, há aqueles que também veem com maus olhos o sufismo, também considerando-o uma heresia. Adiante explicarei o motivo disso. 


Pintura apresentando o mestre (sheik) Salim Chisti reunido com membros de sua tariqa. 
Breve conceito de sufismo: 

Como apresentado anteriormente, existem vários conceitos para essa palavra, já que não há um consenso entre os muçulmanos e não-muçulmanos. De acordo com a tradição sufi, o sufismo foi criado pelo próprio profeta Mohammed no século VII. Seus familiares, amigos e discípulos foram os primeiros a aprenderem as práticas e ensinamentos sufis, e depois transmitidas de geração em geração. Porém, de acordo com a História, não se sabe exatamente quando o sufismo surgiu. Data do século X, livros que debatiam o tema e seus praticantes. Mas apesar dessas implicações quanto a origem do sufismo e seu significado, eu tentei esboçar aqui um significado simples. 

Nesse sentido, o sufismo é o termo utilizado para se referir a um conjunto de doutrinas, crenças e práticas pautadas em ideais místicos e espirituais do Islão, os quais visam despertar determinados valores e virtudes em seus praticantes de forma que eles consigam obter um desenvolvimento espiritual que os permita se aproximarem mais de Allah. Em termos genéricos, um dos objetivos do sufismo é o crescimento espiritual e pessoal através do estudo do Corão, da execução de práticas ritualísticas, da vivência das virtudes recomendadas, da meditação e da reflexão. O sufismo implica também na adoção de um estilo de vida baseado em suas normas e recomendações que instruem para um bom comportamento e desprendimento dos vícios e dos apegos materiais. (SILVA FILHO, 2012, p. 44-47; SCARABEL, 2007, p. 11-14). 

"A ética muçulmana combina no mesmo espírito, para o indivíduo e a colectividade, um conjunto de práticas em que surge, na unidade de uma fé que deve inspirar todas as atitudes, uma dupla preocupação de ascese espiritual e de esforços para a felicidade de todos. Ilustram as primeiras proibições, sobretudo alimentares, seja a carne de porco ou de animais não sangrados, sejam as bebidas fermentadas, de que o Corão condena pelo menos o abuso, se não o uso. Quanto à preocupação do bem da maioria, aparece numa moral ao mesmo tempo optimista e comunitária, cuja ideia geral é que Deus quer, cá em baixo, o bem-estar material do seu povo, implicando este bem-estar a manutenção da felicidade individual aquém do egoísmo e do excesso: princípios, por conseguinte, de justiça, se não de equidade social". (MIQUEL, 1971, p. 59).

Aqui chamo atenção para que a ideia que alguns possuem que o sufismo consista basicamente em práticas de meditação, algo que nos faria lembrar dos budistas, não é exata. Nem todo sufi necessariamente gasta horas praticando meditação. Além da condição que a própria ideia de meditação dos sufis não é a mesma dos budistas. Adiante quando eu comentei a respeito das práticas sufis, veremos como existem distintas práticas e nem sempre todos os sufis as realizam. Essa variação se deve a condição que o sufismo desenvolveu-se de forma diferente ao longo dos séculos, o que permitiu que doutrinas específicas de determinados lugares fossem criadas, mesmo que algumas dessas doutrinas possam ser contraditórias entre outras escolas sufis.

Não obstante, é importante deixar bem claro que o sufismo baseia-se inteiramente na doutrina islâmica, condição essa que um sufi tem que ser necessariamente um muçulmano, pois o sufismo cobra a obediência aos Cinco Pilares do Islão (Arkan al-islam). (ROBINSON, 2007, p. 40-43). 
  • Chahada: aceitar que Allah é o único deus verdadeiro. 
  • Salá: orar cinco vezes ao dia.
  • Çawm: jejuar durante o mês do Ramadã.
  • Zakat: doação aos necessitados e fazer caridade.
  • Hajj: peregrinação à Meca. 
Se uma pessoa disser que você pode ser um sufi sem precisar ser um muçulmano, desconfie. Pois um sufi além de obedecer os cinco pilares, ele também segue a xaria (lei islâmica) e deve ser um fiel de Allah, algo central para o sufismo. De fato, pode-se dizer que o propósito do sufismo é louvar Allah. (SCARABEL, 2007, p. 11). Sendo assim, se você não tem esse propósito, como pode dizer que seja um praticante de sufi? Embora existam grupos esotéricos e até charlatões que dizem ensinar "meditação sufi" para não-muçulmanos, mas isso é uma problemática, pois o sufismo não se restringe a meditação e quando ela é feita, é para se refletir sobre os ensinamentos de Allah, não para outro fim. Fato esse que os sufis também já foram chamados de murdi (aluno em árabe) e salik (viajante em árabe), ambas as palavras foram adotadas para se referir a condição do sufi ser um aluno dos ensinamentos de Allah e do mestre sufi, assim como ser um "viajante" em busca de conhecimento espiritual. (SILVA FILHO, 2012, p. 43). 

Além desses pontos destacados, para alguns estudiosos o sufismo seria parte integrante das Ciências Islâmicas, as quais são formadas por cinco ciências, as quais foram ensinadas por Mohammed e desenvolvidas nos séculos seguintes. (SILVA FILHO, 2012, p. 51).  
  • Fiqh: que consiste na jurisprudência, ou seja, o estudo do Direito islâmico. 
  • Tasfir: que é a exegese (interpretação) do Corão. 
  • Kalam: que seria a teologia islâmica. 
  • Falsafa: o estudo da filosofia da religião islâmica. 
  • Tasawwuf: o estudo e prática da espiritualidade. 
Embora os xiitas em geral sejam avessos ao sufismo, alguns tendem a entender ele como sendo parte das ciências islâmicas, ou pelo menos um elemento encontrado na Falsafa. Por sua vez, alguns sunitas consideram o sufismo como a quinta ciência islâmica, outros já o consideram algo a parte, não vinculado a esse grupo. 

Práticas e princípios do sufismo: 

As práticas e princípios do sufismo mudaram ao longo da História, condição essa que várias práticas existentes nos primeiros séculos do Islão, já não existem mais ou não são mais obrigatórias. O sufismo do século VII ao século XII vivenciou seu período de formalização, referindo-se a constituição de comunidades, grupos, escolas e a própria criação de um corpus doutrinário que serviu de modelo desde então. 

Do século VII ao X o sufismo ainda estava em processo de formação como consideram alguns historiadores. Nesse período ele sofreu influência de práticas místicas de origem persa, hebraica, cristã e de outros povos do Oriente Médio. Além dessa influência mística, destacou-se também a influência do monasticismo cristão, o qual vinha sendo desenvolvido desde o século IV com Santo Antão no Egito. Esse dado é importante, pois alguns dos sufis nos primeiros séculos adotaram uma vida ascética como os monges, passando a viver em comunidades isoladas ou em templos, alguns faziam votos de pobreza, celibato, servidão etc. outros começaram a trajar hábitos de lã, daí o uso do termo suf como salientado anteriormente. E nestes casos houve sufis que viviam como mendicantes, como forma de expressar seu desapego a materialidade. Ainda hoje um dos princípios sufis é cultivar o desapego aos bens materiais e aos vícios. (ROBINSON, 2007, p. 30). 


Pintura retratando um sufi medicante. A prática de uma vida de mendicância durou vários anos dentro do sufi, embora hoje em dia não seja tão habitual. 
Nessa vida ascética os sufis naquele tempo praticavam jejuns regulares e não apenas o jejum obrigatório durante o Ramadã, outros também faziam práticas de isolamento, meditação, passavam longas horas orando, dormiam pouco, limitavam-se a comer determinados alimentos, etc. Destaca-se também que naquele tempo houvesse sufis que adotavam tais hábitos como uma forma de protesto contra o desviamento dos muçulmanos, os quais segundos eles, foram seduzidos pelas "coisas mundanas". Logo, os hábitos adotados pelos sufis eram um contraponto a ostentação, a luxúria, a ambição, a fama, a cobiça e o poder. Inclusive tais críticas ainda hoje são mantidas pelos sufis. (FILORAMO, 2005, p. 154-155). 

Essa condição dos primeiros sufis adotarem uma vida de simplicidade é visível no uso de termos usados para se referir a eles, como al-faqir (pobre em árabe) e dervixe (pobre em turco e persa). Inclusive a palavra dervixe se tornou bastante popular em certa época na Europa, devido a influência da dança dervixe praticada pelos sufis turcos. (SILVA FILHO, 2012, p. 43). 

Mas além dessas atitudes ascéticas, alguns sufis também adotaram uma vida monástica, criando comunidades isoladas, principalmente em outros países, onde eles não teriam problemas de serem repreendidos pelos governantes que eram contrários ao sufismo, pois já neste tempo houve sufis que foram perseguidos e até executados por serem hereges. Um dos fatores para essa intolerância devia-se a condição que os sufis eram um incômodo para o domínio dos ulemás, os quais são os teólogos e eruditos na xaria e outras ciências. A condição dos sufis alegarem que através de suas práticas eles poderiam alcançar uma melhor compreensão de Allah, sua vontade e criação, incomodou os ulemás que detinham o direito de interpretação da xaria e das ciências, consideradas essenciais para a formação do muçulmano. (ROBINSON, 2007, p. 31). 

Nesse ponto adentramos a outras características antigas do sufismo, como o intuito de romper com esse exclusivismo do doutores da fé, a percepção de que somente estudar o Corão, a xaria e as ciências islâmicas não seriam suficientes para o crescimento espiritual, sendo necessário a adoção de outras práticas. E tais práticas geraram e ainda geram desentendimentos entre os sufis e nos não-sufis. No século X foram escritos livros para tentar organizar a doutrina do sufismo, que até então não era homogênea. Apesar do intento, ele não alcançou o objeto desejado. Os livros foram escritos, mas essa tentativa de formalização e uniformização não emplacou. Por sua vez, isso abriu espaço para o surgimento de várias práticas associadas com cânticos, danças, transes, meditações etc. os quais foram desenvolvidos segundo a pretensão de que auxiliariam o muçulmano a conseguir expressar sua devoção, pois como dito anteriormente, o objetivo do sufismo é a aproximação com Allah, adorando-o e tendo comunhão com ele. 

Porém, essa difusão de práticas, em dados momentos levou ao surgimento de crenças incompatíveis com a ortodoxia islâmica, como a condição de alguns mestres sufis apresentarem dons espirituais e até a adoção da ideia de "santidade". Esse conceito de santidade levou ao surgimento de ritos de veneração aos "santos sufis" (wali), com direito a se construir santuários para se preservar os corpos desses homens "santos". Em alguns casos, os membros da tradição daquele mestre santificado, realizam peregrinações até o seu túmulo. Entretanto, ressalva-se que a prática de ir aos santuários e venerar os "santos" (wali) que geralmente são os mestres (sheik) não é homogênea, ou seja, nem toda ordem adota isso. 


Um santuário sufi no Paquistão. Algumas ordens sufis cultivam práticas de peregrinação e outras cerimônias associadas aos santuários.
Por outro lado, embora eu tenha feito uso do termo "santo sufi", ele não é apropriado, apenas o usei, pois nos livros escritos por não muçulmanos, aparece assim. A palavra wali que é um dos termos usados para designá-los, significa "próximo". Nesse sentido, quando um sufi se torna um wali, ele é referido como um "amigo de Allah". Não obstante, a ideia de "santidade" dos sufis é diferente da vista entre outras religiões como no cristianismo católico, ortodoxo e copta. Enquanto nessas tradições os santos e santas fizeram votos de não se casar, renunciaram suas famílias, heranças, levaram uma vida em alguns casos de austeridade, outros foram missionários e doutores, alguns foram mártires ou realizaram milagres, os wali necessariamente não seguem essa lógica, pois eles eram casados, necessariamente não foram missionários, ou martirizados, ou realizaram milagres, mas foram homens profundamente sábios e devotos, alcançando um estado espiritual elevado, que os conduziu a serem mais próximos de Allah. (RENARD, 2009, p. 90-91). 

Mas se no sufismo existem tantas práticas, haveria uma sistematização dessas no intuito de definir quais seriam as principais? De acordo com Mário Silva Filho (2012, p. 58-65), foi entre os séculos X e XIII que o sufismo se formalizou em termos doutrinários e organizacionais com a criação da tariqa. Ao mesmo tempo, também se institui normas para se aderir as taruq (plural de tariqa), a nomeação dos mestres que comandariam estes locais, o surgimento de escolas e tradições. Esse período foi central para a formalização do sufismo como uma doutrina organizada possuindo uma tradição, uma sede, um mestre, um conjunto de normas e regras, além de estabelecer de vez a prática da iniciação. 

O surgimento das taruq no século XII foi central para a estruturação da doutrina sufi. No caso, a palavra tariqa pode ser traduzida como caminho ou direção, mas hoje em dia também a usa-se no sentido de referir-se a  ordem, comunidade, local de reunião dos sufis, grupo sufi etc. As taruq surgiram como meio de organizar a comunidade sufi sob as diretrizes de um mestre e a tradição por ele representada. O mestre (sheik) de uma tariqa representa uma longa cadeia de sucessão que remonta o profeta Mohammed e seus companheiros (sahaba). Sendo assim, ao visitar uma tariqa não é incomum ver algumas informações sobre o mestre atual e quem foram seus antecessores, poi essa tradição é essencial para legitimar a autoridade tanto no sufismo, quanto no Islão. Não obstante, as taruq tendem a serem dirigidas apenas por homens, mas as mulheres podem participar, mas estando afastadas dos homens, como ocorre nas mesquitas. (RENARD, 2009, p. 177-178). 

Apesar que no mundo existam centenas de taruq, a maioria segue as seguintes práticas que se tornaram básicas para o sufi. (SILVA FILHO, 2012, p. 71-78). 
  • Dhikr: repetições dos nomes de Allah, de frases de agradecimento ou súplica, ou de versículos do Alcorão. As repetições podem ser feitas individualmente ou em grupo. A quantidade de repetições pode ir desde uma pequena dezena ou até mais de cem vezes, dependendo das normas adotadas pelo sufi ou sua tariqa. Tal prática tem como função enfatizar a lembrança de Allah, mostrando que ele sempre está presente. A prática do dhikr também é comparada a recitação de mantras, inclusive pode levar ao transe. 
  • Sama: consiste no uso de música, cânticos, recitações de poemas e a realização de danças no intuito de se adorar Allah. Os cânticos e poemas possuem tema religiosos, geralmente exortando as virtudes de Allah. As danças variam da forma como são praticadas, podendo ser individuais ou em grupo. Geralmente as danças são feitas em formato de círculo. A mais famosa delas é a dança dos dervixes. Dependendo do grau de harmonia dessas práticas, os sufis podem entrar em estado de transe
  • Fikr: o ato de reflexão ou meditação. Necessariamente não é feito de olhos fechados ou em silêncio, pode ser feito ao som de música ou canto, ou até mesmo realizando alguns tipos de movimentos. A ideia é levar a reflexão interna e a abertura da mente para o transcendental, no intuito de buscar a Allah. O fikr também pode conduzir o sufi ao estado de êxtase (tawajud), fazendo ele alcançar uma contemplação (tahajju), que permite revelar certos saberes ocultos. O fikr também é complementado com comentários sobre o Alcorão e os princípios do sufismo. 
  • Muraqaba: prática de manter-se em vigilância para evitar cometer haram ("pecado"). Se a ideia do sufi é desenvolver seu corpo, mente e caráter para não cometer o mesmo erro dos não-sufis, ele deve se manter vigilante para evitar isso. 

A dança dos dervixes é uma das formas mais conhecidas de sama, apesar que muitos sufis não pratiquem esse tipo de dança, sendo algo exclusivo de algumas taruq turcas ou de influência turca. 
Sendo assim, nota-se que o dhikr, o sama, o fikr e o muraqaba são atualmente as práticas mais comuns que os sufis praticam, embora existam algumas outras, mas esse conjunto de quatro já é o suficiente, pois nele está inserido a ideia central do sufismo que é a busca pelo conhecimento e a amizade de Allah, a adoração a ele, e a reflexão sobre a vida. Mas além desses quatro práticas centrais, os sufis também são geralmente guiados ao estudo para se completar os "quatro estágios da realização sufi". (SILVA FILHO, 2012, p. 77). 
  • Ash-shari'ah (A Lei): o estudo da xaria. Seria a compreensão do exotérico.
  • At-tariqa (O Caminho): estudo dos ensinamentos da tariqa. Seria o início da compreensão do saber esotérico. 
  • Al-Ma'rifah (O Conhecimento): aprofundamento nas práticas sufis. Também se relaciona com os objetivos da tariqa que se pertence. 
  • A-Haqiqah (A Verdade Verdadeira): seria a reta final no caminho sufi, onde ele alcançaria um estado de iluminação, passando a compreender melhor o próprio Allah, estando mais próximo dele, sendo chamado de "amigo de Allah" (wali). 
Além dessas condições supracitadas, os sufis também almejam e cultivam outras virtudes as quais variam de acordo com sua tariqa ou tradição que seguem. Mas essencialmente tanto o homem quanto a mulher, devem obedecer os pilares do Islão e seguir as práticas básicas anteriormente mencionadas. Nesse sentido é válido também salientar que para se tornar um sufi primeiro você deve se converter ao Islão, posteriormente deve procurar uma tariqa e tentar ingressar nesta, tornando-se um membro dela. Em alguns países não existem taruq, o que leva os muçulmanos a viajarem a outras nações atrás delas. 

Por fim, como sublinhado ao longo do texto, o sufismo consiste em práticas e doutrinas que complementam a vida religiosa do muçulmano, apesar que nem todo muçulmano adote tais práticas, algo similar ao visto no catolicismo com as ordens monásticas, ou no budismo com o monasticismo também. Nesse sentido, poderíamos considerar que o sufismo segue algo similar no intuito de que seus adeptos passam a adotar um novo estilo de vida dedicado a fé, mas diferente do monasticismo cristão e budista, não há necessidade de se fazer votos ou de se isolar da sociedade. Mas no fim, o objetivo segue sendo procurar uma maior intimidade religiosa com Allah, pois dele parte o princípio e o fim de tudo como dita a doutrina islâmica. 

Referências bibliográficas:
CHITTICK, William C. Sufism. Oxford, Oneworld, 2008. 
MIQUEL, André. O Islame e a sua civilização: séculos VII-XX. Tradução de Francisco Nunes Guerreiro. Lisboa/Rio de Janeiro, Edições Cosmos, 1971. 
RENARD, John. The A to Z of Sufism. Lanham, The Scarecrow Press, Inc. 2009. 
ROBINSON, Francis. O mundo islâmico: o esplendor de uma fé. Barcelona, Ediciones Folio S.A, 2007. 
SCARABEL, Angelo. Il Sufismo: storia e dottrina. Roma, Carocci Editore, 2007. 
SILVA FILHO, Mário Alves da. A Mística Islâmica em Terrae Brasilis: o Sufismo e as Ordens Sufis em São Paulo. Mestrado em Ciências da Religião, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2012. 

domingo, 13 de outubro de 2019

Uma história sobre os mangás

Dizer que a literatura japonesa não é conhecida mundialmente é um erro. Talvez você não possa conhecer algum poeta, romancista, contista ou cronista, mas provavelmente você já deve ter lido ou ouvido falar em mangás, os quais nas últimas três décadas se tornaram um fenômeno mundial, principalmente entre crianças, adolescentes e jovens adultos. Esse gênero literário próprio dos japoneses, baseado na literatura em quadrinhos europeia, consiste no meio pelo qual milhões de pessoas no mundo mantém regularmente contato com a literatura de origem japonesa. E mesmo para aqueles que não gostam de ler, provavelmente já assistiram animes ou jogaram jogos inspirados em mangás. Diante desse fenômeno atual da cultura pop, o presente texto procurou contar um pouco da história da origem dessa crescente, fascinante e rentável indústria visual-literária. 

A origem do termo mangá

Durante minha pesquisa para conhecer a história dos mangás me deparei com uma questão problemática: autores japoneses e estrangeiros, alegavam que a origem do mangá remontaria a ilustrações, pinturas e gravuras do período medieval japonês. A meu ver isso é um erro, pois estes autores não levaram em consideração que o mangá não se limita apenas a imagem e texto, mas consista num tipo de gênero literário com suas próprias características, estilos e subgêneros. Sendo assim, considerar que imagens produzidas no século VIII, XI, XIII, XVII ou XVIII poderiam ser mangás é problemático, pois o conceito e o formato de mangá inexistiam naquele tempo. Se for assim, poderíamos dizer que os hieróglifos egípcios seriam os antepassados das histórias em quadrinhos? Eu creio que não, pois são coisas totalmente diferentes. 

Outro problema que alguns autores tendem a se enrolar é quanto ao uso do termo mangá. Palavras podem ter mais de um sentido e no caso da palavra mangá essa possui distintos sentidos. Se no parágrafo anterior expressei a problemática de querer considerar ilustrações, pinturas e gravuras antes do século XIX como sendo "antecedentes do mangá", a própria palavra mangá passa por algo parecido, pois ela foi criada décadas antes do gênero e formato de mangá. 

A palavra mangá teria surgido no final do século XVIII, baseada na palavra chinesa manhua ("esboço improvisado"), porém, em japonês, mangá naquele momento significava "desenho engraçado". Entretanto somente anos depois que a palavra começou a ganhar destaque. No ano de 1814 o pintor e desenhista Katsushika Hokusai (1760-1849), o qual pintava e desenhava obras no estilo ukiyo-e (XVII-XIX), criou naquele ano uma série de ilustrações as quais ele chamou de Hokusai Mangá ("Desenhos engraçados de Hokusai").  Tais desenhos foram publicados ao longo de 12 volumes pelo autor, e outros 3 volumes foram publicados postumamente, consistindo em centenas de ilustrações. (PETERSEN, 2011, p. 40-41). 


Duas páginas com ilustrações do Hokusai Manga, 1814-1849. 
No entanto é preciso fazer uma ressalva: os desenhos feitos por Hokusai não eram mangás como hoje conhecemos. Ele como sendo um artista de ukiyo-e baseava-se naquele estilo o qual surgido no século XVII, representava pessoas, animais, animais antropomorfos, monstros, deuses, divindades e paisagens, mas também abordava temas como vida cotidiana, cenas de batalha, erotismo, esportes, danças, teatro, etc. A diferença de Hokusai, foi pegar esses temas comuns do ukiyo-e e atribuir em alguns casos, traços mais engraçados, a ponto de ele desenhar em alguns momentos, caricaturas. O uso de caricaturas não era desconhecido na arte japonesa, mas Hokusai quis expressar sua própria visão dessa forma de desenhar, retratando pessoas, animais e monstros com corpos e rostos estranhos, distorcidos, desproporcionais, além de retratar paisagens com cores invertidas ou fora de proporção etc. Alguns desses elementos seriam preservados e reaproveitados no estilo de mangá décadas depois. (ITO, 2008, p. 28-29). 

Influência estrangeira (1860-1900)

Na segunda metade do século XIX o Japão passou por intensas transformações. Recebendo gradativamente a presença de estrangeiros, especialmente ingleses e franceses, pois até então o país estava politicamente fechado para negócios no exterior. A primeira leva de ingleses começou a chegar ainda na década de 1850. Em 1861 o cartunista inglês Charles Wirgman (1832-1891), viajou ao Japão para trabalhar como jornalista correspondente do Illustrated London News, importante jornal londrino que foi publicado até 1971. Todavia, Wirgman permaneceu um ano na função e pediu demissão para se dedicar aos seus próprios projetos. Como ele era cartunista e tinha conhecimento sobre editoração e impressão, decidiu criar sua própria revista, assim surgiu a Japan Punch. (ITO, 2008, p. 29-30). 


Capa de uma edição da Japan Punch de julho de 1878. 
A revista de Wirgman começou a circular em 1862 e gerou um sucesso de vendas, mantendo sua publicação até 1887. Wirgman criou a Japan Punch baseado na Punch, famosa revista humorística inglesa, contendo sátiras e charges, que surgiu em 1841. A publicação de Wirgman baseava-se num humor leve, ácido e estereotipado, o qual brincava com as estranhezas culturais que os ingleses e outros europeus tinham com os costumes japoneses, como o fato de ter que tirar os calçados para andar dentro de casa, ou usar palitos para comer, ou a condição de comer arroz em todas as refeições, etc. Por sua vez, a revista também brincava com as opiniões dos japoneses quanto aos europeus, focando também o que eles achavam de estranho nos modos deles. (PETERSEN, 2011, p. 127).

Com o tempo a Japan Punch além de satirizar os choques de cultura, também passou a satirizar o cotidiano, os costumes, as forças militares e sobretudo a política. Sátiras políticas e charges começaram a se popularizar nesse período, principalmente devido ao desenvolvimento da chamada Restauração Meiji (1867-1876). Neste caso, a tal restauração que marcou o início da Era Meiji (1868-1912) consistiu no final do sistema do xogunato que imperava por séculos no Japão, acabou também com a tradição militar dos samurais, reconfigurou a divisão social, tributária, administrativa do país, ainda pautada em pensamentos feudais. Deu início a modernização da educação, tecnológica e científica do Japão, iniciou a industrialização do país, abriu os portos para nações estrangeiras que haviam sido banidas e proibidas de frequentar o país desde o século XVII. Com essa decisão de tornar o Japão um país moderno para a época, países como Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos enviaram embaixadores, diplomatas, políticos, militares, cientistas, professores, jornalistas etc. para iniciar acordos diversos, a fim de ajudar o governo japonês, assim como, também tirar proveito disso. (YAMASHIRO, 1964, p. 147-153). 

Foi neste contexto da Era Meiji a partir do contato com os europeus, que novas ideias literárias começaram a chegar ao Japão. Por mais que os japoneses já possuem sua própria literatura com poesia, romances, contos, crônicas, cânticos, música, teatro etc. as sementes para o que viria a ser a literatura de mangá chegou nesse período. Os ingleses e franceses trouxeram consigo revistas e jornais, mas também conceitos sobre charge, tirinhas, quadrinhos, sátira etc. Embora algumas dessas ideias já existissem no Japão, a charge, os quadrinhos e tirinhas ainda eram desconhecidos. É preciso salientar que o Hokusei Mangá que foi publicado regularmente nas décadas anteriores, consistia apenas em desenhos, mas não havia texto, não podendo ser chamado de mangá no sentido que hoje conhecemos. 

A partir da popularização da Japan Punch, o estilo cartunesco britânico, a sátira e o uso de balões com textos, se difundiu, levando artistas japoneses a passarem a adotar aquele estilo artístico, chamando-o de ponchi-e (punch gravuras). Anos depois já na década de 1870, começaram a surgir tirinhas e quadrinhos de autores japoneses. Por exemplo, data de 1874 a publicação de Eshibum Nipponchi (The Illustrated Newspaper Japan), escrito por Kanagaki Robun e desenhado por Kawanabe Kyosai. Que consistia num jornal aos moldes do modelo inglês, mas que apresentavam em algumas páginas, charges ou tirinhas com histórias curtas. Tal produção teria sido uma das primeiras formas de mangá propriamente falando, sendo o mangá usado para um viés cômico. Lembrando que em outros países as histórias em quadrinhos também tiveram início a partir das charges e tirinhas em jornais ou revistas, antes de se tornarem um gênero literário próprio. (PETERSEN, 2008, p. 127). 


Uma ilustração do Eshibum Nipponchi, considerado o antepassado dos mangás atuais.  
Ainda na década de 1870 outras revistas no estilo punch, e até tirinhas publicadas em jornais continuaram a ser produzidas. Destaca-se nessa época também o escritor Fumio Nomura e o desenhista Honda KinKichiro que criou o Maru maru Chimbun (1877), importante jornal satírico político de grande circulação e popularidade a ponto de ter sido até censurado na época por ser considerado afrontoso aos políticos. Um do editores chegou a ser preso em 1880. (ITO, 2008, p. 31-32).

Na década de 1880 foi a vez dos franceses marcarem presença no Japão. No ano de 1887 o cartunista e ilustrador francês Georges Bigot (1860-1927) publicou um jornal satírico chamado Tobaé em Yokohoma, mesma cidade que Wirgman vários anos antes começou a publicar a Japan Punch. Bigot mudou-se para o Japão em 1882, passou a trabalhar em jornais e revistas japonesas como o Maru maru Chimbun, casou-se com uma japonesa e constituiu família com ela. Em 1887 ele lançou seu próprio jornal baseado no estilo punch bastante em voga no período, mas adotando traços das caricaturas japonesas, chamadas de toba-e. Apesar das censuras também sofridas, o jornal conseguiu se manter em circulação até a década de 1920, tendo possuído mais de 70 edições. O Tobaé como será visto adiante, contribuiu para a difusão do mangá. 


Capa da primeira edição do Tobaé, 1887. 

Os primeiros mangás (1900-1940)


No começo do século XX a palavra mangá começou a ser usada para se referir a histórias em quadrinhos, apesar que termos como ponchi, ponchi-e, toba-e, otsu-e, odoko-e, kokeiga ("desenhos engraçados") e kyoga ("desenhos malucos"), também fossem usados com sinônimo. Mas apesar dessa problemática de vários termos para se referir ao mesmo tipo de literatura, sabe-se que ela passou cada vez ser mais aceita pelo público japonês e até a ganhar novos temas narrativos. (ITO, 2008, p. 30). 

Data daquela época o trabalho importante de dois cartunistas e ilustradores que se destacaram na literatura de mangá que começava a ganhar forma naquele momento. Eles eram Rakuten Kitazawa (1876-1955) e Ippei Okamoto (1886-1948). Kitazawa iniciou sua carreira em 1896 como cartunista, auxiliando o artista australiano Frank Nankivell. Ambos trabalhavam na revista americana Box of Curios. Após três anos trabalhando nessa revista, Kitazawa passou a trabalhar na revista Jijishimpo ("Eventos diários"), onde passou a publicar tirinhas e quadrinhos com narrativas curtas. Em 1902 ele passou a trabalhar para a revista Jiji Mangá, desenhando algumas histórias também. Finalmente em 1905 baseado em publicações americanas, ele criou sua própria revista, intitulada Tokyo Puck, que foi publicada por vários anos. (PETERSEN, 2011, p. 128). 


Capa colorida de uma edição da Tokyo Puck, satirizando a monarquia, a qual se importava com o próprio umbigo. 
A Tokyo Puck tornou-se um enorme sucesso contribuindo para firmar a publicação de mangás. Mas diferente dos mangás atuais que são principalmente em preto e branco, alguns mangás da Tokyo Puck eram coloridos também. Um diferencial que atraiu vários leitores na época. No entanto, a principal diferença dos mangás daquele tempo era a sátira, a paródia, e temas adultos sobre critica social, cultural e política. Sobretudo, eram mangás dirigidos aos adultos. 

Todavia, na década de 1910 e 1920 as histórias de mangás começaram a sofrer alterações. Cartunistas e roteiristas começaram a se basear em histórias americanas e europeias como The Yellow Kid (1896), Polly and Her Pals (1912), Gato Félix (1919), Bringing Up Father (1923), Betty Boop (1930), entre outros. Com isso os artistas japoneses faziam traduções e adaptações. Fato esse que os mangás nesse período ainda mantinham traços de característica americana, inglesa e francesa. Nesse período o próprio Kitazawa chegou a viajar aos Estados Unidos, e em 1928 ele publicou o mangá Tonda Haneko, que contava a história de uma adolescente que queria ser dançarina e era fascinada pela cultura americana. 

No caso de Okamoto ele iniciou sua carreira em 1912 na revista Asahi shimbun, trabalhando para essa por muitos anos. Assim como Kitazawa, Okamoto era um admirador dos quadrinhos americanos, porém, o que lhe chamou bastante atenção naquele período foi o cinema. No Japão o cinema era bastante desconhecido ainda, mas Okamoto chegou a ter contato com alguns filmes, principalmente quando viajou à Europa e Estados Unidos algumas vezes. A partir disso ele começou a escrever mangás que não se limitavam apenas a serem paródias, adaptações ou sátiras sociais e políticas, mas a redigir histórias de aventura, drama e romance. Além disso, Okamoto também tinha preocupações de difundir e valorizar sua arte e trabalho, criando em 1915 com um grupo de amigos a Tokyo Mangakai, uma organização de mangakás. Nessa época Okamoto sugeriu que o termo mangaká poderia ser usado para se referir ao conceito de cartunista. O grupo criado por Okamoto ajudou a formalizar o reconhecimento daquele profissional que roteirizava e desenhava histórias em quadrinhos. (POWER, 2009, p. 26-27).

Na década de 1930 os mangás continuaram a se popularizar, mas ainda mantendo muito dos traços do estilo americano, britânico e francês, porém, nesse período devido a censura do governo, sátiras políticas, paródias e charges começaram a perder espaço e os mangakás e editoras para não perderem o público, começaram a lançar outros tipos de narrativas. Uma das histórias de grande sucesso dessa época foi o mangá Norakuro criado por Suiho Tagawa e publicado em 1931 na revista Shonen Club. A história narrava as aventuras de um cachorro antropomorfo falante, inspirado no Gato Félix. (PETERSEN, 2011, p. 130). 

Dirigida para o público infanto-juvenil a história de Norakuro e seus amigos se tornou bastante popular devido ao tema da trama e o contexto da época. Tagawa havia servido no Exército anos antes, então decidiu usar isso como inspiração. Em Norakuro, o protagonista e seus amigos fazem parte de uma tropa militar de cães. Na década de 1930 o Japão vivenciava uma atmosfera armamentista e imperialista, por isso as histórias do cachorrinho Norakuro foram bem recebidas, sendo publicadas continuamente até 1941, quando foi interrompida pela guerra e somente retomada anos depois. Norakuro inclusive ganhou anime e novas aventuras nos anos seguintes. (ITO, 2008, p. 34).


Capa colorida do número 15 de Norakuro.
O caso de Norakuro é interessante pois apresenta a realidade dos mangás na década de 1930. Por um lado o governo caiu em cima sobre mangás, revistas e jornais de teor satírico e de crítica social, cultural e política, censurando-os, porém, o governo passou a usar os mangás também para fins de instrução ao civismo e patriotismo, permitindo que obras que exaltassem o país, as forças armadas, a cultura japonesa, a monarquia etc. fossem produzidas. Apesar de ter havido casos em que o próprio governo patrocinou mangakás para escrever histórias educativas e para fins de propaganda política. No entanto, com o acirramento da guerra, o mercado de mangás se fragilizou. Recuperando-se após alguns anos após o término do conflito. 

Os mangás no período pós-guerra (1940-1950)

Com o término da guerra em 1945 o Japão estava politicamente, economicamente e militarmente arruinado, além dos traumas causados pelo conflito e bombardeios a várias cidades, até a grande tragédia em Nagasaki e Hiroshima. Em meio a esse cenário deprimente o povo japonês tinha que se reerguer e continuar com a vida. Por incrível que pareça, nesse período pós-guerra vão surgir revistas especializadas em publicar mangás como a Manga Club, VAN, Kodomo manga shimbun (Jornal de Mangá Infantil), Kumanbati (O Chifre), Manga shonen entre outras. Essas revistas terão o papel de concentrar a produção de mangás a qual passará ser serializada regularmente, como também vão gerar empregos e renda, pois o público apesar de triste e afetado pela guerra, vão procurar entretenimento para alegrar suas vidas como forma de escapar da depressão, memórias ruins e do pesadelo recente. Os mangás vão se tornar naquele momento uma literatura barata de fácil acesso e leitura, que vai agradar crianças, adolescentes e adultos. (ITO, 2008, p. 35).

Um dos grandes mangás de sucesso na década de 1940 foi escrito pelo lendário Osamu Tezuka (1928-1989), considerado o "fundador" do mangá moderno, fato esse que os japoneses o apelidaram de Deus dos Mangás (Manga no Kami-sama). Tezuka nasceu num distrito de Osaka, mas mudou-se para Takarazuka, ali, ele e os irmãos eram incentivados pelos pais a cultura logo cedo. Sua mãe o levava para ir ao teatro, enquanto seu pai era fã de cinema e desenhos animados, possuindo um projetor onde passava os filmes e desenhos para os filhos. Tezuka conta que foi a partir desse simples projetor que teve contato com as obra de Walt Disney, a quem ele dizia ser um grande admirador. Ainda criança Tezuka começou a desenhar caricaturas e escrever pequenas histórias. Com o advento da guerra, ele devido a ser muito novo não podia ser alistado, mas foi forçado a trabalhar numa fábrica para ajudar sua família. Durante sua adolescência Tezuka tornou-se fã de mangás, passando a ser leitor regular destes. Com o término da guerra, ele abandonou o trabalho na fábrica e decidiu ser médico. (POWER, 2009, p. 27-29). 

Na Faculdade de Medicina da Universidade de Euller, Tezuka conheceu Sakai Sichima que se tornou seu amigo. Sichima tinha a ideia para um mangá, mas não era habilidoso no desenho. Tezuka que aprendeu a desenhar por conta própria se interessou pela ideia do amigo e começou a trabalhar no projeto ainda em 1945. Na época Tezuka começou a fazer desenhos no formato akabon ("livro vermelho"), formato do tamanho de um cartão postal. O nome advinha que inicialmente usava-se vermelho como cor principal das capas. Em 1946 Tezuka passou a trabalhar para uma revista infantil, fazendo ilustrações, dando início a sua profissão como mangáka, embora continuasse a cursar medicina. Finalmente em 1947, o projeto que ele e Sichima vinham trabalhando foi concluído e publicado com o título de Shin Takarajima (A Nova Ilha do Tesouro), baseado no livro A Ilha do Tesouro (1883) do escritor escocês Robert Louis Stevenson. O mangá foi um sucesso imediato de crítica e público chegando a vender em pouco tempo 400 mil cópias. (PETERSEN, 2011, p. 175). 


Capa de A Nova Ilha do Tesouro (1947), ilustrado por Osamu Tezuka. 
A grande repercussão da Nova Ilha do Tesouro chamou a atenção do mercado de mangás, pois tornou-se um novo marco de produção e popularidade. Tezuka a partir daí começou a ganhar fama e novos contratos para ilustrar histórias de outros autores, antes de começar a produzir suas próprias narrativas. Até o fim da vida, Tezuka publicou mais de 600 narrativas e teria escrito e desenhado algo em torno de 150 mil páginas, tendo uma carreira bastante prolífica a ponto de lhe render seu epíteto de Deus dos Mangás. (PETERSEN, 2011, p. 175). 

Não obstante, o período de 1940 a 1960 na história dos mangás foi marcado pela consolidação dessa literatura novamente na sociedade japonesa, além da definição de outras características que serão comentadas especificamente adiante, como a serialização, lançamento em volumes, forma de leitura, classificação de conteúdo etc. Nesse período, de 1950 a 1960 também foi marcado pelo surgimento de várias revistas que publicavam mangás, algumas tendo durado décadas e outras ainda hoje existem como a Shonen Jump e a Shonen Magazine

Porém, ainda nota-se nesse período uma forte influência dos quadrinhos americanos e europeus. Os personagens de Tezuka como ele próprio disse, apresentavam traços baseados no Mickey Mouse (1928) Popeye (1929), Tintin (1929), Betty Boop (1930) entre outros personagens. Todavia, Tezuka passou a acrescentar estilos japoneses também, e assim criou personagens com traços simples, olhos grandes e bem expressivos, bocas fechadas que eram representadas por um risco e sem lábios; narizes pequenos, uso de onomatopeias, uso de artifícios iconográficos para expressar movimento e também para intensificar as reações dos personagens. 

Na década de 1950, Osamu Tezuka despontou novamente no mercado de mangás com a publicação de Jungle Taitei (Imperador da Selva, mais conhecido no Ocidente como Kimba). As histórias infantis desse leãozinho branco foram publicadas de 1950 a 1954, tornando-se um grande sucesso de vendas. Tezuka chegou a dizer que se inspirou em Bambi (1942), uma de suas animações preferidas da Disney. No mesmo período, influenciado por sua formação como médico, Tezuka criou em 1952 Tetsuwan Atom, que ficou mais conhecido no Ocidente como Astro Boy, o qual conta a história de um cientista que cria um androide para substituir seu filho falecido. O androide chamado Atom torna-se um super-herói. De início o mangá de Astro Boy não teve mesmo sucesso que Kimba e outras produções de Tezuka, mas em poucos meses isso mudou e a história do androide Atom foi publicada até 1963. (POWER, 2009, p. 63-64). 


Astro Boy e Kimba são dois dos primeiros grandes sucessos de Osamu Tezuka, publicados nos idos da década de 1950. 
Além de mangás dirigidos ao público masculino, Tezuka também passou a escrever mangás para meninas. Seu primeiro sucesso nesse tipo de abordagem foi Ribon no Kishi, traduzido ao Ocidente como Princess Knight (1953-1956). Essa história de teor também leve, focava-se no romance, aventura e comédia, sendo inspirada no teatro japonês e novelas que Tezuka havia lido na juventude, além de conter elementos religiosos. Princess Knight ajudou a popularizar o gênero shojo (histórias para meninas), até então visto de forma insignificante pelos mangakás. 

Embora histórias para meninas e mulheres já fossem publicadas desde o início do século XX, como narrativas curtas de caráter novelesco e puxado para o romance, na década de 1940 e 1950 começaram a despontar mangakás mulheres que dariam forma ao gênero shojo, que começou a se popularizar nos anos 1970. Mas antes dessa popularização, ainda nos anos 1950 surgiram revistas especializadas para o gênero shojo como a Shojo Club, Shojo Sekai, Shojo Salon, Shojo Romance etc. Destacam-se nesse período mangakás como Kurakane Shosuko, Shimada Keizo e Sugiura Yukio, as quais foram algumas das poucas mulheres que desenhavam e escreviam mangás naquele tempo. Embora que ainda hoje o mercado de mangás seja predominantemente ocupado por homens e voltado para o público masculino, mesmo que nas últimas décadas tenha crescido o número de mulheres nessa literatura. 

Shosuko publicou Anmitsu Hime (Princesa Anmitsu) em 1949, cuja história narrava as aventuras de uma princesinha chamada Anmitsu, a qual era travessa e não aceitava ficar confinada no castelo onde vive, procurando assim quando pode, escapar e suas amas e cuidadores e se aventurar nas terras de seu reino. O mangá se revelou um sucesso no começo da década de 1950, sendo publicado até 1955. Depois tornou-se anime, peça teatral e até recebeu novas histórias. (POWER, 2009, p. 115). 


Ilustração da princesa Anmitsu e outros personagens. O mangá foi criado em 1949 por Kurakane Shosuko. 
O sucesso da carismática e engraçada princesa Anmitsu abriu as portas para histórias de protagonistas femininas que surgiriam ainda nos anos 50, como o mangá Princess Knight de Osamu Tezuka, anteriormente citado. A obra também fez sucesso a ponto de se fazer uma radionovela e na década de 1960 o mangá tornou-se anime ao lado de outras produções do próprio Tezuka. Além disso, nessa história a protagonista que é a princesa Safira, ela não era a donzela em perigo, pelo contrário, ela era a heroína e até mesmo vestia-se de homem para poder lutar, pois mulheres eram consideradas apenas donas de casa. Tezuka teria se inspirado em Joana d'Arc e no Zorro para criar a protagonista. (PETERSEN, 2011, p. 181). 


Capa de uma edição bilíngue de Princess Knight, a primeira grande heroína criada por Osamu Tezuka. 
Na mesma época que Tezuka, outros mangakás também ganhavam fama e importância nessa geração surgida pós-guerra. Destaca-se Sanpei Shirato com seu mangá sobre ninjas e samurais, intitulado Ninja bugeichô (1959-1962), mangá de temática que se popularizaria até hoje, envolvendo ação, aventura, artes marciais, guerra e violência. O próprio Tezuka faria algo nessa linha, mas de forma mais comedida com Dororo (1967-1968). O mangá de Shirato era dirigido ao público jovem, mas fez sucesso entre os adolescentes e adultos acima dos 30 anos. (ITO, 2008, p. 36). 

Além disso, Ninja bugeichô ajudou a consolidar traços que serviriam de modelo para mangás shonen desse estilo, algo visto mais tarde em Lobo Solitário nos anos 70. Shirato continuaria a publicar outras histórias no mesmo estilo marcial, aventureiro, de ação e dramático de Ninja bugeichô, popularizando o estilo gekigá, voltado para um público adulto, com traços melhor desenhados, abordando temas dramáticos e violentos. O conceito de gekiga é comparado por alguns estudiosos com a ideia de graphic novel no Ocidente. Não obstante, Shirato também ajudou a popularizar histórias sobre ninjas e samurais, as quais se tornaram mais conhecidas a partir de outro importante trabalho seu com Kamui den (A Lenda de Kamui), iniciado em 1964 e publicado até 1971, além de originar outras séries no mesmo universo. 


Cena do volume 1 de A Lenda de Kamui
Mangás, animes e novos temas (1960-1970)

A partir da década de 1960 a relação dos mangás com os animes teve início. Embora já houvessem animes de curta-metragem desde a década de 1910 e até a tentativa de criar programas com vários episódios para serem exibidos na televisão nos anos 50, somente nos anos 60 é que isso se tornou realidade. Nesse período destacam-se a Toei Animation (1956) que começou a ganhar fama com a produção de vários animes, mantendo-se até hoje em atividade. Data também desse período a entrada de Osamu Tezuka no mercado de animações. Como ele era fascinado por cinema e desenhos animados desde criança, Tezuka passou a estudar animação e cinema e assim criou seu próprio estúdio nomeado Mushi Production (1961). 

Com seu estúdio Tezuka tratou de produzir animes baseados em seus próprios mangás, como Astro Boy (1963-1966), que foi produzido originalmente em preto e branco. Porém, pensando em um lançamento internacional, seu segundo anime que adaptava Kimba, o Leão Branco (1965-1966) já foi produzido em cores e comercializado nos Estados Unidos. Tezuka também adaptou Princess Knight e outro de seus mangás, além de produzir outros tipos de animes, inclusive alguns com teor erótico como Mil e Uma Noites (1969) e Cleópatra: A Rainha do Sexo (1970). Todavia, sublinhamos que o destaque desse Tezuka nesse período foi associar de vez os mangás aos animes. Relação que se mantém até hoje. Quando um mangá se torna famoso, isso atrai a atenção de um estúdio de animação, o qual compra os direitos autorais e começa a produzir o anime daquele mangá. É válido também citar que além desse animes produzidos por Tezuka com base em mangás, a Toei Animation produziu o anime de Cyborg 009 e a Tatsunoko Production produziu Speed Racer (Mach Go Go Go), dois animes de sucesso, principalmente o segundo que foi exibido em outros países. 


Duas capas coloridas do mangá Mach Go Go Go, mais conhecido no Ocidente como Speed Racer. O mangá embora com poucos volumes, se tornou rapidamente popular e virou um anime que difundiu sua história no mundo. 
Mas retomando aos mangás, a década de 1960 ver o lançamento de Lupin III, popular série sobre o ladrão Arsène Lupin III, desenvolvida por Monkey Punch (pseudônimo de Kazuhiko Kato). Temos também o lançamentos do já citado Cyborg 009 que traz um grupo de ciborgues como heróis. Entretanto, destaca-se nesse período a publicação de mangás sobre esportes como Speed Racer (1966-1968) que aborda automobilismo, Kyojin no hoshi (1966-1971), popular mangá sobre beisebol, Ashita no Joe (1968-1973), popular mangá sobre boxe. (ITO, 2008, p. 36-37). Atualmente mangás sobre esporte seguem populares principalmente no Japão, não tendo muito êxito fora do país, exceto algumas publicações como Captain Tsubasa (Super Campeões), que aborda futebol. 

O mercado de mangás cresceu consideravelmente nas décadas de 1960 e 1970, impulsionado pelos animes que ajudavam a alavancar as vendas de mangás, além de conquistar novos fãs, os quais ao passarem a assistir os desenhos, vão atrás de ler os mangás, até porque estes animes em geral não adaptavam toda a história do mangá, apenas alguns arcos. Porém, esse crescimento também teve seus problemas, dentre eles a procrastinação das crianças e adolescentes que chegavam a matar aula para ir ler mangá ou ver desenho. Além de também haver mangás com histórias mais violentas, as quais eram consideradas como incitadoras de mal comportamento. E houve também o caso de mangás contendo conteúdo erótico (ecchi) como Harenchi Gakuen (1968), que foi uma produção popular e curiosamente dirigida ao público adolescente, contendo forte teor sexista. Isso repercutiu em protestos pelas mães pedindo medidas do governo para censurar os mangás. A história de censura aos mangás vai se repetir nas décadas seguintes em diferentes momentos. (ITO, 2008, p. 38).


Capa do primeiro volume de Harenchi Gakuen, controverso mangá do final dos anos 1960 devido ao seu conteúdo erótico (ecchi). A controvérsia era ainda maior, pois a trama se passa no colegial, envolvendo menores de idade. 
Uma solução encontrada pelas editoras foi aumentar a faixa etária dos mangás, dirigindo-as para o público adulto, o que levou a criação de revistas especializadas em mangás para homens adultos. Em tais tramas tínhamos ação, aventura, drama, violência, artes marciais, guerra, ficção científica, erotismo e até pornografia. O problema que a medida não deu muito certo, pois muitos adolescentes conseguiam burlar a lei e adquiriam estes mangás.  

Na década de 1970 também notabiliza-se a formação de uma nova geração de autoras de mangás como Keiko Takemiya, Machiko Satonaka, Moto Hagio, Ryoko Yamaghisi e Yumiko Oshima. Destaca-se aqui que essas autoras necessariamente não iriam escrever histórias apenas para mulheres, mas algumas escreviam histórias voltadas para o público masculino. Além disso, elas começaram a abordar outros temas para além do tradicional estilo romântico, cômico, aventureiro ou envolvendo histórias de princesas como era comum até então. Essas mangakás começaram a escrever drama, ficção científica, suspense, ação etc. (ITO, 2008, p. 39-40). 

Sobre elas destacamos Moto Hagio a qual publicou uma série de mangás de ficção científica cuja história se passa no espaço sideral. Mangás como They Were Eleven (1975), que embora tenha contado apenas com um volume, era dirigido ao público feminino. Todavia, Hagio também escreveu para meninas, adolescentes e até para mulheres mais velhas, trazendo dramas, romances e histórias reflexivas sobre a vida como casamento, emprego, família, sonhos etc. No entanto, a autora também é conhecida por ter sido uma das primeiras a abordar o romance homossexual. Uma de suas obras que tocavam neste assunto era November Gymnasium (1971), a qual trata-se de uma narrativa que se passa num colégio interno masculino na Alemanha. A história aborda romance, drama, amizade, vida escolar etc. porém, a novidade era trazer um relacionamento gay. (PETERSEN, 2011, p. 182).


Uma capa do mangá November Gymnasium, criado por Moto Hagio em 1971. 
Outro mangá escrito por uma mulher que fez fama na década de 1970 foi Versailles no Bara (Rosa de Versalhes), criado em Riyoko Ikeda em 1972. A história se passa nas vésperas da Revolução Francesa (1789-1799), a protagonista é uma jovem e bela mulher que acaba sendo criada como homem por seu pai, a ponto de tornar-se um soldado e galgando posições na carreira militar da época. Pela condição de ter sido criada como homem, a protagonista passa a se trajar com uniforme militar e usar vestes masculinas e até adotar a identidade de Oscar François de Jarjayes, conhecida também como Lady Oscar. Devido a sua aptidão para o combate, senso de justiça, lealdade e honra, Oscar tornou-se líder da guarda real da rainha Maria Antonieta.

Rosa de Versalhes se tornou um sucesso em pouco tempo, sendo publicado por dez anos, e posteriormente recebeu sequências. O mangá ainda na década de 1970 devido ao seu grande sucesso foi adaptado como anime e até ganhou um filme francês em live-action. Embora não fosse a primeira história que mostrasse uma mulher transvestida de homem para exercer protagonismo em atividades não permitidas as mulheres, algo ocorrido vários anos antes em Princess Knight, Lady Oscar conquistou sua própria fama, trazendo a interpretação de Ikeda sobre os acontecimentos históricos da França pré-revolução, mesclando-os com sua carga de romance, aventura e drama. O mangá também serviu de base para o surgimento dos mangás sobre relacionamentos homossexuais, embora Maria Antonieta não se relacione com Lady Oscar, mas várias cenas transpassavam um clímax romântico, além da condição que Oscar também tivesse seus interesses românticos, e pelo fato de ela se vestir de homem, isso gerava uma percepção homoerótica. (ITO, 2008, p. 41-42). 


Ilustração do mangá Rosa de Versalhes. Na imagem temos Maria Antonieta e Lady Oscar. 
Na década de 1970 também se popularizou os mangás que abordavam a vida escolar. Havendo distintas formas de como isso era feito. Anteriormente citei Harenchi Gakuen, com seu teor cômico e erótico, que suscitou críticas na época para se censurá-lo; também citei o exemplo de November Gymnasium com sua temática de romance dramático homossexual. Porém, outras histórias sobre a rotina no colegial e até na universidade também foram publicadas, além de haver casos que alguns destes mangás foram escritos para fins instrutivos e educacionais, os quais foram chamados de kyoyo mangá.

O gênero kyoyo surge em meados dos anos 1970 e se populariza na década seguinte, ainda hoje sendo produzido. Inspirado nos mangás sobre escola, o governo japonês viu que poderia utilizar a literatura de mangá para fins educacionais e instrutivos. Com isso o governo incentivou que mangakás escrevessem histórias que valorizassem o estudo, a leitura, a pesquisa, as ciências, as artes, os esportes, etc. Alguns desses mangás também foram redigidos para servirem de material didático e paradidático. No caso, foram produzidos mangás destinados as crianças, adolescentes e até universitários. (ITO, 2008, p. 42-43). 


Dois exemplos de mangás educativos atuais. 
O sucesso mundial do shonen (1980-1990)

Os anos 80 e 90 foram marcados pela consolidação do mercado de mangás e animes no Ocidente, pois até então esse mercado para além do Japão, era prolifico na Coreia do Sul e China, mas pouco alcançava as Américas e Europa. Embora desde as décadas de 1960 e 1970, animes já fossem televisionados em países como Estados Unidos, Brasil, Portugal, França, Itália, Inglaterra etc. a venda de mangás praticamente inexistia. Somente na década de 1980, mas propriamente a partir de 1990, é que o mercado literário Ocidental vai começar a traduzir massivamente mangás, principalmente os shonen, voltados para os adolescentes, mas que irão cativar crianças e adultos também. 

Mas esse boom na produção e consumo de mangás não foi apenas no exterior, o próprio mercado nipônico também vivenciou isso. A famosa revista Shonen Jump vendeu em 1982, 2,5 milhões de exemplares, em 1988 foram mais de 5 milhões de revistas vendidas. Todavia, além do sucesso do shonen, o qual irei comentar mais especificamente a seguir, o shojo, os mangás de conteúdo adulto (gengiká), conteúdo romântico cômico (harem), dramático, com temas de esporte (spokon) e com com conteúdo erótico (ecchi) e pornográfico (hentai), também cresceram nesse período. Fato esse que revistas específicas direcionadas a esse tipo de conteúdo como a VAL, FEEL, YOU, Jour e Be Love, foram publicadas durante a década de 1980. (ITO, 2008, p. 43-45).

Apesar da criação dessas revistas para atenderem o crescimento de públicos específicos, os shonen destacaram-se indiscutivelmente. Nesse período da década de 1980 destacam-se trabalhos que se tornaram clássicos como Akira (1982-1990), criado por Katsuhiro Otomo, tratando-se de uma narrativa cyberpunk que se passa na decadente cidade de Neo-Tóquio pós-Terceira Guerra Mundial. O mangá fez grande sucesso abordando temas como rebeldia, vandalismo, uso da ciência para conceder super-poderes aos humanos, amizade, gangues de motociclistas, pessimismo quanto ao futuro, etc. 


Arte conceitual para o anime de Akira (1988). 
Embora Akira já trouxesse elementos de aventura e ação, o mangá que iria popularizar isso e se tornar um referencial até hoje foi Dragon Ball (1984-1995) criado por Akira Toriyama, tornou-se um sucesso mundial ainda nos anos 80, tendo sua fama alavancada com o anime. Pouco tempo antes Toriyama despontou como mangaká com Dr. Slump (1980-1984), uma série infantil e cômica. De fato, Dragon Ball na fase Goku criança, conserva esse humor típico do Toriyama. Porém, quando chega na Fase Z, o humor gradativamente vai sendo deixado de lado para focar-se na aventura, ação e batalhas. 

Embora Toriyama não tenha inventado o gênero nekketsu (histórias sobre luta, esforço, amizade, determinação, coragem etc.), ainda assim, Dragon Ball popularizou esse gênero e até hoje é um dos shonen mais aclamados e reconhecidos no mundo, tendo gerado quatro animes, vários filmes, jogos e outros tipos de produtos. Atualmente as aventuras de Goku continuam em produção com o mangá de Dragon Ball Super. Neste caso as aventuras de Son Goku, Bulma, Gohan, Vegeta, Piccolo, Kuririn, Mestre Kame e os demais, ajudaram a popularizar tramas envolvendo ação, artes marciais, grandes batalhas, poderes, explosões, cortes de cabelos estranhos, visuais pouco convencionais, vilões cruéis com ideias geralmente de dominação global, ou motivados por vingança ou simplesmente por que querem ser o cara mais forte; além de também popularizar traços de personagens masculinos com corpos musculosos. 


Capa da Shonen Jump número 51 de 3 de dezembro de 1984, anunciando o lançamento de Dragon Ball
Ainda na década de 1980 seguindo o mesmo sucesso de Dragon Ball, foram lançados os mangás dos Saint Seiya/Cavaleiros do Zodíaco (1985-1990) que tornou-se outro sucesso de público e comercial fenomenais, alavancados pelo anime. O grande diferencial dos Cavaleiros do Zodíaco foi o uso da mitologia grega para criar sua trama, algo que se mostrou uma grande ideia concebida por Masami Kurumada. Abordando também o tema da fantasia e mitologia, Kentaro Miura publicou Berserk (1988-presente), um dos mangás mais demorados em tempo de produção, mas que adaptou o estilo popularizado naquele época, mas concedendo um teor mais violento e dramático. JoJo's Bizarre Adventure (1987-presente), criado por Hirohiko Araki e ainda em produção, também contribuiu para criar outras formas de se adaptar o estilo nekketsu que se desenvolvia nos anos 80. A história do mangá tem início na Inglaterra Vitoriana do final do século XIX, mostrando humanos com habilidades especiais, no caso, habilidades associadas com o combate. 

Entretanto, o estilo shonen não foi marcado apenas por histórias sobre artes marciais ou focadas em ação e lutas. Outros tipos de narrativa também agradavam os jovens japoneses como mangás de esportes, e no caso o grande marco nesse gênero foi Captain Tsubasa/Super Campeões (1981-1988). Super Campeões foi um exemplo de que shonen para serem populares e rentáveis tinham que seguir o estilo de luta e aventureiro de Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, Berserk, JoJo's Bizarre Adventure e outros mangás do período, pelo contrário, uma boa história sobre o time japonês de futebol se mostrou um grato sucesso. 


Duas páginas de uma edição do mangá Super Campeões, traduzidas para o árabe, mostrando como a narrativa se tornou bastante popular na época. 
Um outro mangá dos anos 80 que farei menção, trata-se de Nausicaa e o Vale do Vento (1982-1994) escrito por Hayao Miyazaki, principalmente conhecido por ser um dos fundadores do famoso Studio Ghibli. Nausicaa merece destaque pelos seguintes motivos: trazia uma protagonista feminina, que no caso trata-se da princesa Nausicaa do Vale do Vento; o enredo se passa num futuro pós-apocalíptico onde a humanidade vive em guerra por recursos e luta contra a ameaça de uma floresta de fungos onde habitam insetos gigantes. O mangá possui tom de aventura, alguns momentos de ação, incluindo combates com armas de fogo; aborda também drama, existencialismo e possui uma temática ecológica, fazendo uma crítica a destruição da natureza. O mangá ganhou relativo sucesso quando Miyazaki conseguiu adaptar os primeiros volumes para anime, lançando um longa-metragem em 1984. A partir do sucesso de Nausicaa ele se uniu a outros mangakás e animadores e criaram o Studio Ghibli em 1985. 


Capa de uma edição de Nausicaa e o Vale do Vento
A ideia de que mangás escritos para um público shonen que poderia conter a participação de mulheres como protagonistas não é nova, mas Nausicaa ajudou a revigorar isso, e anos depois foi lançado o mangá cyberpunk Ghost in the Shell (1989-1991) de Masamune Shirow, o qual narrava a história de uma força-tarefa policial que combatia ameaças no Japão do século XXI. A protagonista é a Major Motoko Kusanagi, uma bela e sarcástica ciborgue que lidera a força-tarefa da Seção 9 de Segurança Pública

Na década de 1990 os shonen continuaram a crescer e se popularizar. Dragon Ball concluiu sua Fase Z, a qual é a mais conhecida e aclamada pelos fãs. Cavaleiros do Zodíaco foi adaptado para anime e transmitido no Ocidente, tornando-se uma sucesso instantâneo ao lado de Dragon Ball Z. Mas nesse período outros mangás nesse estilo de artes marciais, aventura, ação e luta foram lançados e se tornaram sucessos imediatos como Yu Yu Hakusho (1990-1994), Alita (1990-1995), Samurai X (1994-1998), Neon Genesis Evangelion (1994-2013), InuYasha (1996-2008), Gundam Wing (1996-1997), One Piece (1997-presente) e Naruto (1999-2014). São alguns exemplos que se destacaram nesse cenário de temática envolvendo lutas corpo a corpo, com armas, com super poderes ou com robôs gigantes. 

Porém, nem todo shonen dos anos 90 foi marcado por tramas de luta. No campo dos esportes destaca-se o mangá Slam Dunk (1990-1996) sobre um time de basquete que tornou-se um grande sucesso no Japão, apesar de somente posteriormente ganhou o gosto do público americano. Já em outros países o basquete não superou o futebol de Super Campeões. Mas falando em jogos, um estrondoso sucesso foi o jogo de cartas de Yu-Gi-Oh! (1996-2004), criado por Kazuki Takahashi. O mangá que se tornou pouco tempo depois em anime, ajudou a popularizar o jogo de cartas que até hoje possui torneios, além de receber novas animações com outros personagens. 


Cena do mangá Yu-Gi-Oh! O mangá popularizou o jogo de cartas até hoje jogado. 
Características gerais sobre os mangás: 

A palavra mangá no século XX passou a ser utilizada para se referir a histórias em quadrinhos, especialmente as produzidas no Japão. Esse tipo de literatura possui algumas características específicas que as distinguem de hqs americanas e europeias. E nesta seção irei comentar tais características. A primeira que salta aos olhos é o fato dos mangás serem essencialmente desenhados em preto e branco pelo simples fato de ser um processo mais barato e rápido, não cobrando do mangaká que em geral é ele quem roteiriza e desenha, demore para concluir um capítulo. No caso, sublinha-se que os mangakás em geral trabalham sozinhos ou com poucos ajudantes. E como alguns relatam sofrer pressão das editoras para terem que manter a periodicidade de suas histórias, eles tem que trabalhar muito.

Quando os mangás começaram a serem publicados efetivamente no começo do século XX, tratavam-se de histórias curtas em formato de tirinhas ou em poucas páginas, publicadas em revistas ou jornais. Esses desenhos eram em preto e branco. E tal estilo manteve-se desde então. Durante a Segunda Guerra Mundial o Japão teve problemas financeiros e comprar tintas de outras cores foi algo prejudicado, o que forçou ainda mais os mangakás a se contentarem em ficar no preto e branco. O uso do colorido era restrito as capas e propagandas. Após o término da guerra a economia japonesa ainda demorou vários anos para se recuperar, então manteve-se a prática de desenhar em preto e branco, inclusive alguns animes lançados antes de 1960, eram também em preto e branco. 

Isso acabou tornando-se tão habitual que ainda hoje os mangás são feitos dessa forma pois é uma maneira barata e rápida de produção. Aqui entra outro motivo para justificar a adoção do estilo preto e branco. Ao longo do século XX os mangás foram essencialmente impressos em papel de baixa qualidade, geralmente o chamado papel-jornal, que é de textura fina e áspera. Nas últimas décadas também se usa papel reciclado. O fato de se usar esse tipo de papel deve-se pela condição de ser barato para as editoras e que por consequência diminui o custo final do produto. 


Dois volumes da revista Shonen Jump, os quais trazem capítulos de vários mangás. 
Porém, é preciso sublinhar que adoção de papel de baixa qualidade também se deve por outras duas características: mangás são publicações periódicas indo do semanal, quinzenal ao mensal no geral, cujos capítulos são publicados em revistas especializadas, as quais criam coletâneas com várias histórias, contendo mais de 200, 300 ou 500 páginas! Logo, tratam-se de impressões com muitas páginas e se fossem coloridas seria algo bastante caro, por isso as características adotadas para baixar o custo de produção. E consequentemente, alguns japoneses não costumam guardar essas revistas e acabam jogando-as fora. Fato esse que encontrar tais revistas antes da década de 1980 é coisa rara. Outro preferem aguardar a compilação dos capítulos do mangá que lhe agrada, e quando isso ocorre, os capítulos são lançados em volumes. 

Ainda sobre a impressão de mangás, vimos o motivo de serem em preto e branco, impressos em papel barato, mas agora falarei um pouco da forma como eles são publicados. Como dito, essencialmente os mangás são publicados de forma periódica em revistas especializadas. O mais comum é a publicação em capítulos, onde dependendo da periodicidade temos um novo capítulo a cada semana, quinze dias ou mês. O que leva os leitores a aguardarem ansiosos o próximo lançamento. No caso esse lançamento periódico não é exclusivo dos mangás, hqs também seguem essa periodicidade e até em algumas épocas, livros eram lançados em revistas e jornais, os quais publicavam capítulos seus. 

Quando um mangá se mostra algo rentável, o autor e a editora decidem publicar os capítulos num volume. Esse volume geralmente é publicado no formato tankobon que equivale ao formato de livro de bolso no Ocidente. Assim, quando um mangá é concluído, todos seus capítulos são divididos em volumes e publicados. No Ocidente os mangás tendem a serem publicados em volumes no formato tankobon, ou em outros formatos que incluí edição econômica, edição de colecionador, edição de luxo etc. Devido a periodização dos mangás é comum que as editoras estrangeiras aguardem alguns anos dando tempo para os volumes serem publicados, então decidam traduzir esses volumes e lançá-los em seus países.


Coleção com os volumes de InuYasha. Tais revistas são publicadas em formato tankobon
Atualmente na última década aumentou a publicação de mangás online, os chamados web mangá. O termo se deve a condição que o mangaká ao invés de procurar uma editora para publicar sua história, decidi criar um site ou blog, ou procurar um site já existente, onde ele publica e divulga sua narrativa. Os web mangás seguem o mesmo estilo do mangá impresso, embora alguns sejam publicados coloridos e em alguns casos não precisam seguir o modelo de periodização ditado pelas revistas. 

Tal formato é procurado por mangakás em início de carreira, ou mangakás veteranos que usam pseudônimos, e até mesmo por fãs e mangakás amadores que querem publicar suas obras sem depender da burocracia das editoras. Esse é um mercado crescente e necessariamente não é lucrativo, pois muitos desses autores não recebem dinheiro por suas publicações, pois mesmo que tentem vender o acesso as suas obras, a pirataria online consegue burlar isso. Porém, há casos de web mangás que se tornaram populares como One Punch Man (2012-presente) escrito pelo mangaká One. Que é também autor de Mob Psycho 100 (2012-2017). Ambas histórias surgiram de forma despretensiosa por esse mangaká que usa pseudônimo, mas com os anos se tornaram um sucesso e editoras se interessaram em publicar o material. Apesar de One seguir publicando One Punch Man online, o mangá também é impresso posteriormente e depois adaptado para anime. 

Outra característica marcante dos mangás é a forma de leitura. No Ocidente não tendemos a compreender isso, pois quando lemos mangás - desde que sejam os impressos - não notamos essa diferença. Mas no formato original, mangás são lidos da esquerda para direita. Nem sempre foi assim, pois ao longo do século XX houve período nas primeiras décadas que os mangás eram lidos da esquerda para direita como se faz comumente no Ocidente. Porém, os japoneses adotaram de vez a leitura da direita para esquerda, embora também exista a leitra de cima para baixo empregada em alguns livros. 


Esquema apresentando a forma de ler um mangá. A leitura começa de cima para baixo, da direita para a esquerda.
Os leitores que leem mangás que são digitalizados e traduzidos por forma não oficial, leem tais obras no formato original, da esquerda para direita. Mas apresentadas essas características quanto ao processo de impressão e leitura dos mangás, vejamos algumas características estéticas e de narrativa que torna os mangás algo ímpar na literatura de quadrinhos. 

Com exceção dos gekigás que apresentam traços diferentes, a maioria dos mangás seguem o padrão de olhos grandes, narizes pequenos, bocas fechadas em forma de traço, cabelos coloridos, penteados estranhos, corpos franzinos ou desproporcionais, expressões faciais exageradas quando eles se surpreendem. Em algumas narrativas os personagens masculinos possuem corpos musculosos e as personagens femininas tem corpos sensuais. Nesse ponto também adentra a questão estética das roupas. Enquanto super-heróis ocidentais costumam usar uniformes e ter identidade secreta, os heróis de mangás não costumam esconder sua identidade ou tão pouco ter um uniforme. Dependendo da história os personagens vestem roupas normais, podem vestir uniformes ou usar roupas fantasiosas. Nesse ponto também se enfatiza que em algumas narrativas as mulheres sejam trajadas de forma sensual, especialmente os mangás que contém teor ecchi (erotismo). 
Exemplo de uma personagem feminina de mangá, com os traços habituais dessa estética. 
Desde 1950 se popularizou mangás cujos protagonistas sejam jovens, geralmente crianças ou adolescentes. Claro que existem mangás antes desse período já com adultos. Mas isso é uma fórmula que se mantém até hoje. Isso se deve a condição que o maior público consumidor de mangás no Japão sejam crianças e adolescentes. Por mais que isso também ocorra em outros países, não significa que os personagens sejam necessariamente tão jovens. Os quadrinhos de super-heróis que são bastante famosos no Ocidente, os super-heróis em geral possuem entre seus 20 e 40 anos, alguns até mais velhos. 

Além dessa condição de personagens bem jovens, os mangás em geral retratam apenas pessoas brancas. A presença de pessoas negras, pardas e de outras etnias é pequena nos mangás, já que normalmente as histórias se passam no Japão real ou ficcional, sendo assim, a quantidade de pessoas com peles mais escuras é bem pequena e isso acaba influenciando os artistas. Condição que também se reflete no fato que a maioria dos personagens de mangás terem cabelos lisos, mas curiosamente muitos deles serem louros, mesmo não sendo uma característica natural do biótipo japonês. 

Mas falando nesse quesito estético influenciado pela realidade étnica do Japão, a cultura do país também influência bastante os mangás. Elementos da religião Xintoísta e do Zen Budismo estão presentes em várias narrativas, mesmo que de forma sutil, aparecendo como menções a templos, ritos religiosos, oração ou menção a algum festival religioso. Em alguns casos essas referências religiosas são mais nítidas quando personagens do panteão japonês são usados, como no caso dos shinigamis (deuses da morte) em Bleach e Death Note. Ou as referências a nome de deuses xintoístas em Naruto, e de divindades budistas em Dragon Ball e Yu Yu Hakusho


O shinigami Ryuk no mangá Death Note, no momento que ele se revela para Light. 
Costumes do cotidiano japonês como tirar os calçados ao entrar em casa ou em outros lugares, usar quimonos, usar uniforme escolar, ler mangás, jogar videogame, usar smartphones, assistir show de J-Pop, artes marciais, usar hachi para comer, gostar de cães e gatos, beber chá, beber saquê etc. aparecem nos mangás. E tais costumes podem aparecer mesmo em narrativas ambientadas em outros países ou terras fictícias. 

E algumas características das relações sociais também estão presentes em alguns casos como a condição dos japoneses usarem sufixos de tratamento como kun, san, chan, sensei, senpai, dono e sama, algo que é removido nas traduções dos mangás e animes. O fato de eles se referirem aos outros a partir do sobrenome e usarem o prenome somente quando são próximos. A condição de haver uma relação entre aluno e mestre, ou jovem e velho, empregado e patrão, a submissão das mulheres frente a sociedade (isso acontece mais em mangás que se passam na realidade atual ou em períodos históricos anteriores); a sexualização exagerada das mulheres e o machismo, também são temas que aparecem em algumas narrativas. Esses temas estão presentes nos mangás mesmo que suas histórias se passem em outros países, realidades, mundos e épocas, pois faz parte da estética do mangá. 

Insegurança, timidez, pessimismo, revolta, indiferença, amizade, caridade, apatia, alegria, dor, amor etc. são sentimentos que aparecem nos mangás, e no caso da timidez é algo bem recorrente em romances. De fato, muitos romances que ocorrem em mangás são baseados no romance juvenil, onde os apaixonados gostam um do outro, mas pela timidez relutam em confessar o que sentem. E essa relutância permeia a narrativa por muito tempo a ponto de ser até mesmo exagerada. Há alguns mangás que exploram essa timidez de forma cômica como os do gênero harém (alguns contém teor erótico), onde mostram triângulos amorosos, ou o cara popular da turma que tem várias garotas interessadas nele, ou o contrário, a garota mais bela da classe que tem vários garotos interessadas nela. 

Outro exemplo marcante da cultura nipônica nos mangás é a alimentação, algo bem evidente dos japoneses os quais são engenhosos em criar vários pratos, alguns bem esquisitos. Embora em algumas narrativas vemos personagens comendo hambúrguer, cachorro-quente e pizza, em geral é mais comum eles comerem pratos japoneses e não é sushi ou sashimi, mas uma variedade de pratos envolvendo arroz, carne, legumes, macarrão (como yakisoba e lamén), peixe, sopa etc. Fato esse que até existem mangás dedicados a culinária os quais nos últimos anos originaram um novo gênero, chamado de gourmet mangá


Ilustração do mangá Cooking Papa (1985-presente), criado por Tochi Ueyama. Sendo um dos mais populares mangás sobre culinária. 
Entretanto é preciso sublinhar que embora os mangás tendem a se basear na cultura japonesa e até na história do país, onde temos mangás que se passam em outras épocas do século XX ou mesmo antes, retomando ao período feudal como InuYasha, ou do Xogunato Tokugawa (1605-1867) como Lobo Solitário, ou a Era Meiji (1867-1892) como o caso de Samurai Xhá mangás que se passam em outros países, mundos, realidades. Por exemplo, vimos o caso de Rosa de Versalhes onde a trama ocorre na França pré-revolução. Os Cavaleiros do Zodíaco ocorrem em distintos paíse como Japão, China, Rússia, Grécia e Itália, já que os cavaleiros de Bronze provém de distintas nacionalidades. O mangá Fullmetal Alchimist (2003-2004) da mangaká Hiromu Arakawa, se passa numa Alemanha fictícia do final do século XIX, algo visível no cenário, roupas e nome dos personagens. 

Todavia, apesar das narrativas se passarem em locais reais ou ficcionais o público leigo tende a pensar que as histórias de mangás são todas parecidas devido a popularidade do shonen e do nekketsu, o que gera a impressão que mangás sejam histórias violentas sobre lutas, que contenham referências cômicas e sexistas. De fato isso é verdade. A popularidade desses dois gêneros é tão grande que muito dos mangás produzidos desde a década de 1960 seguem esse formato de narrativa, mostrando o confronto dos heróis contra os vilões. Apesar que esses vilões necessariamente não sejam criminosos comuns ou estereotipados como vemos em hqs de super-heróis. No entanto, existem mangás com narrativas bem diversas, passando pelo drama, comédia, aventura, vida escolar, adaptação literária, temas filosóficos, biografias, culinária, ciência, artes etc. 

Osamu Tezuka chegou a adaptar alguns clássicos da literatura mundial, escrevendo e desenhando mangás de Fausto (1950), Crime e Castigo (1953) o Mercador de Veneza (1958). Além da condição que o Deus dos Mangás escreveu dezenas de histórias que não seguem o gênero nekketsu, das quais muitas histórias tem um teor bem infantil, apresentando narrativas de investigação, aventura, resolução de problemas diários e comédia. Mas existem também os mangás dramáticos, os biográficos como Buddha e Message to Adolf, e mangás de conteúdo filosófico como Phoenix

Vale ressalvar que além de livros e personagens históricos que inspiraram mangás, há o caso de animes e jogos que inspiraram mangás também. Geralmente pensamos que todo anime provém de mangás, mas não é bem assim. Embora a maioria dos animes se originem de mangás, há casos onde o oposto ocorre. Por exemplo, Dragon Ball Super (2015-2018) surgiu primeiro como anime, depois lançaram o mangá alguns meses depois. E atualmente o anime foi encerrado e o mangá continua. Boruto: Naruto the Movie (2015) também surgiu como um anime de longa-metragem, sendo uma continuação da série Naruto, e depois foi adaptado para mangá e light novel em 2016, originando o anime em 2017. 

Mas além desses casos onde os animes originaram mangás, há as situações nas quais jogos foram o ponto de partida para se criar mangás. Um dos exemplos mais famosos é da franquia Pokémon. Publicado em 1996 como os jogos Pokémon RedPokémon Blue e Pokémon Green (exclusivo para o Japão) para o portátil do Game Boy Color, os jogos se mostraram um fenômeno avassalador, vendendo milhares de cópias em poucos meses. Com o sucesso do jogo decidiram criar um mangá que foi lançado no mesmo ano, contendo uma história curta que falava sobre o iniciante treinador chamado Ash Ketchun e seu Pikachu. O mangá também fez sucesso e levou a originar o anime no ano seguinte, o qual atualmente segue em exibição e conta com mais de mil episódios! Mas além da franquia Pokémon, outros jogos também se tornaram roteiros para mangás como a série The Legend of Zelda, Street Fighter, Kingdom Hearts, The King of Fighters, Final Fantasy entre outros. 


Capa do volume 1 do primeiro mangá de Pokémon. Um exemplo de mangá que se originou a partir de um jogo de videogame. 
Classificação de mangás
Os mangás são classificados de duas formas: público-alvo e conteúdo. A primeira classificação surgiu ainda na fase inicial antes da Segunda Guerra, quando já havia a percepção de mangás produzidos para crianças, adolescentes e adultos, assim como, a noção de mangás para o público masculino e feminino. Fato esse que termos como shonen e seinen já fossem usados naquele período em revistas de mangás. Por sua vez, o termos shojo se popularizou a partir da década de 1940, e os demais termos vão sendo criados consecutivamente, principalmente nas décadas de 1960 e 1970. Com isso, nessa categoria por público-alvo, demográfica ou faixa etária como também é referida, ela se classifica da seguinte forma:
  • Kodomo: público infantil com menos de 8 anos. Dependendo do mangá, alguns são usados para colorir, outros trazem atividades como caça-palavras, cruzadinhas, sudoku, etc. Suas histórias são curtas e de roteiro simples. 
  • Shonen: dirigido ao público adolescente masculino, entre seus 10 a 18 anos. São mangás com temas geralmente focados na aventura, ação, esportes, ficção científica, fantasia. É o tipo mais comum e famoso até atualidade. Muitos mangás de sucesso como Dragon Ball, Naruto, Bleach, Yu Yu Hakusho, Cavaleiros do Zodíaco são desse tipo. 
  • Shojo: mangás voltados para as adolescentes. Começaram a surgir na década de 1950. É basicamente o segundo tipo de mangá mais popular. Sailor Moon é um dos exemplos clássicos desse estilo.
  • Seinen: dirigido ao público masculino adulto dos 18 anos em diante, trazem histórias diversas que abordam ação, aventura, esportes, ficção científica, fantasia, mas inclui também drama, comédia, terror, romance, pornografia, críticas sociais, cotidiano, trabalho etc.
  • Josei: dirigido ao público feminino adulto dos 18 anos em diante. Segue características similares ao seinen, embora tenda a abordar aspectos voltados para a condição social da mulher também como casamento, família, emprego, estudos etc. 
Mas além dessa classificação por faixa etária que é bastante ampla, existe a classificação por gênero de conteúdo que nem sempre é fácil de ser aplicada, pois um mesmo mangá pode apresentar características de vários gêneros. 
  • Spokon: narrativas sobre esportes.
  • Gekigá: mangás equivalentes as graphic novels em alguns casos, com temas mais adultos, dramáticos e roteiros melhor elaborados. Difere-se também nos traços dos personagens. 
  • Nekketsu: narrativas focadas na ação e aventura, que trazem um enredo que fala sobre esforço, coragem, amizade, determinação e superação. Segue a fórmula dos heróis combaterem ameaças sempre mais fortes, levando-os a superar seus limites para poder vencer. 
  • Magical girl: histórias nas quais as protagonistas possuem poderes mágicos para enfrentar vilões. 
  • Magical boy: similar ao anterior, mas com a diferença em focar em protagonistas masculinos. 
  • Mecha: narrativas focadas no uso de robôs gigantes ou de máquinas. 
  • Gurume ou gourmet mangá: histórias sobre culinária. 
  • Yuri: narrativas onde os protagonistas formam um casal lésbico. 
  • Yaoi: narrativas onde os protagonistas formam um casal gay. 
  • Harém: narrativas geralmente cômicas que envolvem triângulos amorosos, ou a perseguição de um grupo de meninas sobre um garoto, ou vice-versa. Normalmente abordam relacionamentos heterossexuais, mas há histórias homossexuais também. Essas histórias podem conter ou não teor erótico (ecchi). 
  • Hentai, Seijin ou Ero-mangá: mangás de conteúdo erótico ou pornográfico. 
  • Jidaimono: narrativas com conteúdo histórico ou biográfico.
  • Joho ou Koyoyo: mangás educativos.
  • Aniparo: consistem em paródias de outros mangás, animes, livros, desenhos, filmes etc. 
  • Dojinshi: narrativas autorais independentes, publicadas em pequenas tiragens, sem necessariamente com apoio ou supervisão de editoras. Também refere-se a mangás produzidos por amadores e fanfic. 
  • Yonkoma: mangás curtos publicados em jornais, equivale as tirinhas. 
Alguns mangás famosos surgidos por década

1930
  • Norakuro 
  • Dankichi
  • Fuku-chan
1940
  • Ogon Batto/Golden Bat/Fantomas
  • Shin-takarajima/A Nova Ilha do Tesouro
  • Metrópolis
  • Princesa Anmitsu
1950
  • Jungle Taitei/Jungle Emperor/Kimba, o Leão Branco 
  • Tetsuwan Atom/Astro Boy
  • Princess Knight/A Princesa e o Cavaleiro
  • Phoenix/Pássaro de Fogo
  • Ninja bugeichô 
1960
  • Cyborg 009 
  • Lupin III 
  • Dororo 
  • Golgo 13
  • Doraemon
  • Kamui den/The Legend of Kamui
  • Mach Go Go Go/Speed Racer
  • Kyojin no hoshi/Star of the Giants
  • Ashita no Joe/Tomorrow's Joe
  • Harenchi Gakuen 
  • Mahotsukai Sally/Sally, a Bruxinha
1970
  • Lone Wolf and Cub/Lobo Solitário
  • Don Drácula
  • Black Jack
  • Glass Mask
  • KochiKame
  • Crest of the Royal Family
  • Jarinko Chie
  • Rosa de Versalhes
  • Buddha
  • They Were Eleven
  • Space Pirate Captain Harlock
1980
  • Akira
  • Berserk
  • Devilman
  • Dr. Slump
  • Dragon Ball
  • Saint Seiya/Cavaleiros do Zodíaco
  • Ghost in the Shell
  • Nausicaa e o Vale do Vento
  • JoJo's Bizarre Adventure
  • Captain Tsubasa/Super Campeões
  • Cooking Papa
  • Dragon Quest
  • Hajime no Ippo
  • RG Veda
1990
  • Yu Yu Hakusho
  • Sakura Card Captor
  • InuYasha
  • One Piece
  • Naruto
  • Gunnm/Alita
  • Yu-Gi-Oh!
  • Sailor Moon
  • Neon Genesis Evangelion
  • Hunter x Hunter
  • Blade of the Immortal
  • Pokémon
  • Digimon
  • Slam Dunk
  • Vagabond
  • Rurouni Kenshin/Samurai X
  • Fairy Tail
  • Futari Ecchi
  • Shaman King
  • The Prince of Tennis
  • City of Hunter
  • Hellsing
  • Detective Conan
  • Gundam Wing
2000
  • Bleach
  • Death Note
  • Fullmetal Alchemist
  • Shingeki no Kyojin/Attack of Titan
  • Nana
  • Gin Tama
  • Angel Heart
  • Magi: The Labirynt of Magic
  • Zatchbell!
  • Gantz
  • Toriko
  • Diamond Ace
  • Tengen Toppa Gurren-Lagan
  • Kingdom
  • Vinland Saga
2010
  • Tokyo Ghoul
  • One Punch Man
  • Nanatsu no Taizai/Sete Pecados Capitais
  • Demon Slayer
  • My Hero Academia
  • The Promised Neverland
  • Kill la Kill
  • Black Cover

NOTA: A palavra ukiyo-e literalmente significa "retratos de mundo flutuante", pois inicialmente surgiu como a representação de retratos sem um fundo ou paisagem. 
NOTA 2: Uma das obra mais famosas de Hokusai é a xilogravura A Grande Onda de Kanagawa (1830-1831). 
NOTA 3: O nome original de Kimba é Leo. Porém, quando a obra começou a ser traduzida nos Estados Unidos, optaram em mudar seu nome para se tornar algo mais exótico. Além dele, outros personagens também tiveram nomes alterados. 
NOTA 4: light novel não é o mesmo que mangá, pois a light novel consiste numa novela ou romance curto com ilustrações, mas o texto aparece normalmente nas páginas como em um livro. Todavia, as ilustrações seguem o mesmo estilo dos mangás. 
NOTA 5: O one-shot é o termo usado para mangás curtos que possuem apenas um capítulo. Seria algo parecido com um conto. Mangás famosos possuem one-shots, os quais não fazem parte da série principal, sendo histórias especiais ou até spin-off.
NOTA 6: Há casos nos quais personagens de mangás e animes possuem seus nomes alterados por soarem estranhos em outros personagens. Por exemplo, Mr. Satan da série Dragon Ball é conhecido em alguns países como Hercule. A protagonista de InuYasha que se chama no original Kagome, foi chamada no Brasil de Agomê
NOTA 7: Alguns conteúdos dos mangás são censurados ao serem adaptados para os animes. A censura geralmente age para conter excesso de violência, sangue, brutalidade, erotismo, terror, etc. mas há outros tipos de censura. Por exemplo, em Yu Yu Hakusho o protagonista Yusuke Hurameshi tem 14 anos e no mangá ele é fumante. Tal condição foi removida no anime. Em uma das cenas de Naruto, o personagem Neiji Hyuga revela ter uma suástica tatuada na testa como símbolo de que ele pertence a um braço secundário de seu clã. No anime trocaram a suástica por um X. Porém, em alguns casos tais cenas são adaptadas ao anime, e depois recebem censura ao serem exibidas em outros países ou mesmo na TV japonesa. Em Dragon Ball há cenas eróticas com Bulma que foram cortadas do desenho depois de terem sido feitas. 

Referências bibliográficas: 
ITO, Kinko. Manga in Japanese history. In: MACWILLIAMS, Mark W (ed.). Japanese Visual Culture: explorations in the world of manga and anime. New York, An East Gate Book, 2008, p. 26-47. 
PETERSEN, Robert S. Comics, Manga, and Graphic Novels: a history of graphic novels. Santa Barbara, ABC-CLIO, 2011. 
POWER, Natsu Onoda. God of Comics: Osamu Tezuka and creation of post World War II manga. Jackson, University Press of Mississipi, 2009. 
YAMASHIRO, José. Pequena história do Japão. São Paulo, Herder, 1964.