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Leandro Vilar

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Zé Carioca: um papagaio na periferia do Capitalismo

Zé Carioca: um papagaio na periferia do Capitalismo


Ma. Camila Manduca Ferreira


Obs: as imagens a seguir foram escolhidas por mim, para ilustrar o trabalho da autora, o qual originalmente não conta com imagens. 

Era no tempo de Vargas. Em 1943, durante o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, e por meio da chamada política de boa vizinhança, foi criado pelos estúdios Walt Disney o papagaio brasileiro que representaria a América Latina no filme Alô amigos.2 Como esclarece a abertura do filme3, Disney envia uma expedição de desenhistas, artistas, músicos e escritores para a América do Sul em busca de músicas, danças e talvez um novo companheiro para o camundongo Mickey e o Pato Donald. “Saíram e encaminharam-se para o seu destino” (Cf. ALMEIDA, 2010, p.44) rumo à atraente América do Sul.

José "Zé" Carioca
Foram pelo Brasil, Argentina, Bolívia, Peru e Chile. Admiraram “a vida animada, as roupas coloridas e os chapéus esquisitos, são detalhes como estes que sempre interessam ao artista”.4 No caminho, de avião, entre o Chile e a Argentina, os visitantes criam o desenho de um aviãozinho chamado Pedro. Ao cruzar os pampas argentinos, percebem a semelhança entre o gaúcho e o vaqueiro sulino dos EUA, o cowboy do Velho Oeste; por isso, no coração do Texas foram buscar o vaqueiro Pateta e levá-lo para a terra do gaúcho. Malgrado as semelhanças, Pateta não se adaptou muito bem. “Colher material de inspiração foi um verdadeiro prazer”. Depois foram para o Rio de Janeiro, “a cidade maravilhosa, que ultrapassa tudo quanto se tem dito e escrito sobre ela”. Viram Copacabana, o Pão de Açúcar, as calçadas de mosaicos, o Corcovado com a estátua do Cristo. Tudo isso os levou a descobrir um ator de futuro: “o gozadíssimo papagaio das anedotas do Rio”.

“Sem demora nós o trouxemos para Hollywood e lhe demos o nome de Zé Carioca (Joe Carioca). O samba nos fascinou, com seu ritmo admirável, esse ritmo que ilumina o Carnaval. (...) Durante esses dias a cidade canta e dança de alegria, e como eles dizem, todo mundo se desmilingua. Ary Barroso, com sua Aquarela do Brasil (Watercolor of Brazil) descreve bem essa terra tão linda”. (Alô amigos, 1943).

Depois de uma animação tendo como fundo e tema a Aquarela de Ari Barroso, acontece o primeiro encontro entre o recém-nascido Zé Carioca e o Pato Donald. Zé reconhece o famoso pato, este estende a mão, mas Zé o surpreende com um forte abraço, “um mesmo daqueles, um quebra costelas, um bem carioca, um amigo”. Zé promete levá-lo para conhecer vários lugares. Donald não entende o brasileiro; então Zé, papagaio sabido, convida-o: “Or that´s american say: let’s go city! I show you the land of the samba”. Donald diz “Samba? What’s samba?” O nativo responde: “Samba…” (só o batuque explica e, para Zé fazer samba, qualquer coisa, como seu inseparável guarda-chuva, serve, ele toca Tico-tico no fubá).

Pôster original de 1942 do filme Alô, Amigos, o qual apresentou pela primeira vez o personagem Zé Carioca. Na trama, o Pato Donald viaja a América do Sul, e em sua jornada ele passa pelo Rio de Janeiro. Ali, além de encontrar o papagaio verde, eles também encontram a famosa atriz e cantora Carmen Miranda. 
Depois, Zé leva Donald para um bar. O ingênuo pato pergunta, ao ver a garrafa: “Ah, refreshment?” “Não, cachaça”. Donald termina a noite dançando com uma baiana. E o filme se encerra com o mesmo hino com que começou: “Saudamos a todos da América do Sul, a terra onde o céu sempre é azul. Saudamos a todos, amigos de coração, que lá deixamos e de quem lembramos ao cantar essa canção”.

A carreira cinematográfica de Zé Carioca teve ainda mais um episódio, ao estrelar a parte brasileira – “Você já foi à Bahia?” – na produção Os três cavaleiros (1945), que contou também com a participação de Aurora Miranda. Donald está desembrulhando os presentes de aniversário enviados por seus amigos da América Latina. Assiste a um filme sobre um pingüim que migra para os trópicos, outro sobre aves raras (os parentes de Donald do outro hemisfério). Há ainda uma história sobre um gauchinho que fica amigo de um burrinho voador.

Pôster original de 1944 do filme Os Três Cavaleiros, o qual mostrava uma nova viagem do Pato Donald e do Zé Carioca pela América Latina, dessa vez acompanhados do galo mexicano Panchito Pistoles. 
Contudo, o presente que nos interessa é um livro em que Donald encontra Zé Carioca, desta vez disposto a levá-lo para um passeio à Bahia. “Você já foi à Bahia?”5 Donald responde que não. E Zé propagandeia: “Ah, a Bahia! Como eu me lembro da Bahia! É uma canção de amor no meu coração. Uma canção de amor e belas lembranças”. Carioca pergunta novamente: “Perdão, Donald, você já foi à Bahia? Não? Então vá. Quem vai à Bahia, meu nego, nunca mais quer voltar”. Donald fica irritadiço com as recorrentes perguntas de Zé: “E você, já foi à Bahia?” O papagaio, encabulado, responde: “Eu? Não.” E Donald resolve: “Então vamos!”.

Chegados à Bahia, pato e papagaio encontram a baiana Iaiá (Aurora Miranda) a vender doces e cantar, chamando a atenção dos malandros de plantão. Encantado com Iaiá, Donald fica enciumado ao ver um homem se aproximar: “Quem é esse cara?” Seu guia responde: “Ele é um malandro, Donald”. A excitação do pato é tamanha que Zé tem de refreá-lo: “Não afoba, Donald”. Muito faceira, Iaiá dá atenção a todos e a nenhum. No entanto, quando chegam outras Iaiás, ela fica sozinha e nota Donald, que lhe oferece um buquê de flores, sendo recompensado com um grande beijo. É mais uma das aventuras amorosas de Donald nos trópicos. “O que você achou da Bahia? Diga a verdade”. “Maravilhosa, demais: romance, luar, lindas mulheres”. Donald faz muitas trapalhadas e Zé diz: “Eu fico louco, you very funny!”.

Cena do filme Os Três Cavaleiros, no caso, trata-se de um momento no qual Donald e Zé visitam Salvador, capital da Bahia, no Brasil. A atriz dançando e cantando era Aurora Miranda, irmã de Carmen Miranda. 
O outro presente é uma caixa de música do México cujo anfitrião é Panchito Pistoles, um papagaio vermelho que não só empunha, como dispara para todos os lados com suas inseparáveis duas pistolas. Panchito presenteia-os com sombreiros e, junto com Donald e Zé, eles formam a tríade que dá nome ao filme. Os três cavaleiros, três mosqueteiros, só tem uma coisa em comum (as penas). Somos amigos, e nosso lema é um por todos e todos por um. Vivemos unidos e bem protegidos, debaixo dos nossos sombreiros. Mas bravos seremos, dinheiro teremos. Os três cavaleiros. Cantamos o samba, gritamos ai caramba! (Zé pergunta: “Porque ai caramba? Não sei”). Na chuva ou tempestade, a nossa amizade irá resistir. E se uma morena quebrar nosso lema, é cada um por si. (Os três cavaleiros, 1945).

O que se segue é uma viagem ao México, conhecendo costumes e danças e visitando os badalados pontos turísticos, entre eles Acapulco (sobretudo as banhistas de Acapulco). Donald invariavelmente se encanta pelas dançarinas e tem que ser controlado pelos companheiros calientes. Ao encontrar na noite mexicana uma senhorita que canta em inglês especialmente para ele, Donald mergulha num delírio luxurioso e só consegue repetir: “Que garotas! Que garotas!”. Os penados encerram juntos o filme, cantando: “Os três cavalheiros para sempre seremos”. É a “despedida às travessuras” latinas de Donald. (Cf. ALMEIDA, 2010, p.08).

Pato Donald se exibindo para as mexicanas em Acapulco, em cena do filme Os Três Cavaleiros (1944). 
Cumprida sua missão em Hollywood, o papagaio ainda tem approach para engatar uma carreira nas histórias em quadrinhos. Sua primeira aparição nesse veículo data de 1950, pela editora Abril, junto com a revista do Pato Donald. Em meados de 1960, as histórias de Zé Carioca consistiam, por escassez de material, em adaptações dos quadrinhos norte-americanos. Assim, Zé Carioca aparecia em aventuras ao lado de Tio Patinhas e Professor Pardal, por exemplo, sem diferenciações entre a cidade em que nosso papagaio morava e Patópolis.

Posteriormente, conforme o papagaio é situado claramente no Brasil, é que se evidencia sua condição malandra: avesso ao trabalho e apreciador do samba, das mulheres, da praia e do futebol. O seu layout, entretanto, não acompanhou o abrasileiramento dos quadrinhos – Zé Carioca continuava a ter como referência, desde seu nascimento nos "filmes, a alta sociedade norte-americana: paletó, gravata borboleta, chapéu panamá, charuto e guarda-chuva. Esse "no trato faz Zé Carioca destoar de seus maltrapilhos companheiros de aventuras (Nestor e Pedrão): Zé era como os meirinhos daquele tempo do rei, “não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos”. (Cf. ALMEIDA, 2010, p. 01).

Algumas evidências – os olhos azuis, a fácil aceitação de sua presença na high society, o namoro com uma penada branca e rica – nos levam a suspeitar da cor de Zé Carioca, isto é: ele é inegavelmente verde mas, em correspondência humana, seria branco. Afinal, os "filmes podem até falar dos índios do Chile, mas em toda a América Latina não há um negro (sendo destacada a pele alva das dançarinas baianas e mexicanas). Quando ganha um núcleo brasileiro de interlocutores, a questão da cor do papagaio verde se impõe: é possível discriminar entre ele, Nestor (um urubu preto) e Pedrão (um mulato). Partindo da premissa da existência de uma teoria crítica brasileira, com intérpretes que descobriram a originalidade estrutural do Brasil, caberia perguntar o quanto um personagem de desenho animado criado por estrangeiros como emblema do Brasil fala de nós, brasileiros. O atributo fundamental de Zé Carioca é a malandragem.

Acontece que o atributo malandro é amplo o bastante para constituir-se em uma linha interpretativa do Brasil – “O malandro, como o pícaro, é espécie de um gênero mais amplo de aventureiro astucioso, comum:

a todos os folclores” (CANDIDO, 1993, p. 23): “uma "figura historicamente original, que sintetiza (a) uma dimensão folclórica e pré-moderna – o trickster; (b) um clima cômico datado – a produção satírica do período regencial; e (c) uma intuição profunda do movimento da sociedade brasileira” (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 02). É este último elemento apontado por Schwarz, o que nos interessa particularmente.

Vale a pena (as penas verdes do papagaio em questão), portanto, cotejar esse malandro tipo exportação com o primeiro grande malandro da novelística brasileira, revelado por Candido no “primeiro estudo literário brasileiro propriamente dialético” (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 01), rara exceção no pensamento brasileiro a conseguir alcançar a dialética entre forma literária e processo social, o que lhe permitiu “identificar, batizar e colocar em análise uma linha de força inédita até então para a teoria, a linha da malandragem” (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 01).

Cena da revista Zé Carioca: A maior corrida do século (1971). Na cena em questão vemos o tom irônico do protagonista, ao falar sobre seus credores. 
Em “Dialética da malandragem”, Antonio Candido analisa o romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Seria Leonardinho herdeiro dos pícaros espanhóis? Candido investiga o problema da "filiação das Memórias, ligando-o, não à tradição picaresca espanhola, mas a “uma tradição quase folclórica” (CANDIDO, 1993, p.25): o protagonista seria antes um herói popular (um herói sem nenhum caráter, ancestral de Macunaíma) do que um anti-herói. Candido compara as características de Leonardo Filho e do típico herói picaresco: Na origem o pícaro é ingênuo; a brutalidade da vida é que aos poucos o vai tornando esperto e sem escrúpulos, quase como defesa; mas Leonardo, bem abrigado pelo Padrinho, nasce malandro feito, como se se tratasse de uma qualidade essencial, não um atributo adquirido por força das circunstâncias. (CANDIDO, 1993, p. 22).

Nesse ponto, talvez Zé Carioca se distancie do protagonista de Memórias. Sem padrinho que o amparasse, o papagaio, nascido pobre, só viu piorar seu destino ao perder-se da mãe no centro da cidade. Colocando em linha de conta que se trata do Brasil, “sua história tem pouca coisa de notável” (Cf. ALMEIDA, 2010, p. 02): depois de sobreviver durante anos às intempéries próprias de, para empregar a retórica em voga, uma criança em situação de risco social, Zé, ao empregar seus dotes espoliadores, conquista definitivamente a amizade dos dois animais que a partir de então serão fator crucial para sua reprodução: Nestor e Pedrão. Foi o “arranjei-me” (Cf. ALMEIDA, 2010, p. 20) de Zé Carioca.

Nestor e Pedrão, os dois melhores amigos de Zé Carioca. 
Por outro lado, talvez a malandragem de Zé trace uma qualidade essencial e mesmo hereditária (prova disso é que ele narra aos sobrinhos crônicas de seus ancestrais que já eram malandros, como o Zé do Tejo, verdadeiro descobridor do Brasil). É certo que a infância infausta pode ser evocada como catalisadora de sua malandragem, mas não podemos afirmar que, amparado como foi Leonardo pelo Padrinho, Zé Carioca fugisse à “malsinação” (Cf. ALMEIDA, 2010, p. 77) malandra.

Leonardo Filho, “semelhante aos pícaros, é amável e risonho, espontâneo nos atos e estreitamente aderente aos fatos, que o vão rolando pela vida” (CANDIDO, 1993, p. 23). Zé é risonho e, embora esse lado amável e encantador seja mais diluído no gibi (nos filmes a lhaneza dele para com Donald é adorável), não deixa de existir. Se assim não fosse, o que mais justificaria a afeição que Nestor, Pedrão e Rosinha lhe devotam?

Zé Carioca e sua namorada Rosinha. 
Sempre levado pelas circunstâncias – as histórias do gibi começam expondo sua ociosidade descarada até que algo o leva a agir, mesmo volens nolens – Zé, como Leonardo, tem vocação para títere6. Enquanto Leonardo pratica a “astúcia pela astúcia, manifestando um amor pelo jogoem- si”, Zé é levado pelo “pragmatismo dos pícaros, cuja malandragem visa quase sempre ao proveito ou a um problema concreto” (CANDIDO, 1993, p. 26). Assim é quando, procurado para realizar um trabalho de investigação (e daí sua condição de títere: nunca é ele quem procura, a vida é que o leva) na “Agência Moleza de Detetives – Resolvemos o caso sem criar caso”, se declara detetive aposentado. O aceno de um bom pagamento por uma tarefa aparentemente fácil, contudo, faz com que Zé Carioca recue e aceite trabalhar, sobretudo se a proposta de emprego vier acompanhada da possibilidade de onerar um de seus amigos.

O pícaro “traindo os amigos, enganando os patrões, não tem linha de conduta, não ama e, se vier a casar, casará por interesse” (CANDIDO, 1993, p. 24). Para Zé Carioca, trair os amigos é uma constante, embora se aproxime mais do malandro que dos pícaros ao demonstrar, embora superficialmente, amor por Rosinha, ainda que, convenientemente, a amada seja a herdeira do rico Rocha Vaz (o que seria um “remédio aos males”). (Cf. ALMEIDA, p. 68).

Se “pai e filho [nas Memórias] materializam as duas faces do trickster: a tolice, que afinal se revela salvadora, e a esperteza, que muitas vezes redunda em desastre, ao menos provisório” (CANDIDO, 1993, p. 27), Zé, como não teve pai, funde essas duas faces. Ora é ingênuo, porém sempre no afã de esperteza; ora sua esperteza (sempre maior em intenção que em efetividade) o embaraça. Muitas vezes também a ingenuidade o embaraça. “Para ele não havia fortuna que não se transformasse em desdita, e desdita que não lhe resultasse fortuna” (Cf. ALMEIDA, 2010, p. 94).

No fim das contas, ele sempre se enrola. Tome-se como exemplo o episódio em que, enquanto o papagaio pensava burlar o serviço para o qual havia sido remunerado, descobre-se que o cliente era na verdade um ladrão internacional que o estava usando. Ao prender Zé e Nestor, o policial diz: “Vocês vão entrar em cana, malandros!”. Porém, desfeita a confusão, o policial conclui: “Quanto a esses dois, não passam de dois otários”. Talvez essa seja a moral dos quadrinhos de um personagem por natureza sem caráter: não importa o que ele faça, por suas segundas intenções, sempre se dá mal. Zé Carioca não tem, como Leonardinho, fadas boas que lhe entreteçam uma “conclusão feliz”. (Cf. ALMEIDA, 2010, p. 109).

Nesse ponto, esbarramos na pedra de tropeço da interpretação disneyniana do Brasil. Candido analisou brilhantemente uma obra de arte que conseguiu realizar a redução estrutural “de um dado social externo à literatura e pertencente à história” Longe de ser obra de arte, a interpretação do Brasil encarnada em Zé Carioca não apanha a “figuração de uma dinâmica histórica profunda”. (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 03).

A suspensão do juízo moral é a principal característica atribuída por Antonio Candido a Memórias, decorre daí a dialética entre ordem e desordem: “O seu caráter de princípio estrutural, que gera o esqueleto de sustentação, é devido à formalização estética de circunstâncias de caráter social profundamente significativas como modos de existência”. (CANDIDO, 1993, p. 36).

Ordem e desordem existem em qualquer lugar, o que Manuel Antonio de Almeida intui – e Antonio Candido desnuda – é a originalidade estrutural brasileira da dialética entre ordem e desordem. A dialética da malandragem seria, então, além de categoria – modo de ser – interpretativa, categoria ontológica7. O cunho especial do livro consiste numa certa ausência de juízo moral e na aceitação risonha do ‘homem como ele é’, mistura de cinismo e bonomia que mostra ao leitor uma relativa equivalência entre o universo da ordem e da desordem; entre o que se poderia chamar convencionalmente o bem e o mal [...] [os momentos de ordem e desordem] acabam igualmente nivelados ante um leitor incapaz de julgar, porque o autor retirou qualquer escala necessária para isto [...] Ordem e desordem, portanto, extremamente relativas, se comunicam por caminhos inumeráveis. (CANDIDO, 1993, p. 39 e 41).

Candido traça com Leonardo Filho, seu pai e sua mãe, uma linha equatorial: acima deles estão aqueles que vivem segundo as normas estabelecidas e abaixo os que:

“vivem em oposição ou pelo menos integração duvidosa em relação a elas. Poderíamos dizer que há, deste modo, um hemisfério positivo da ordem e um negativo da desordem, funcionando como dois imãs que atraem Leonardo depois de ter atraído seus pais”. (CANDIDO, 1993, p. 37).

Em Zé Carioca, esses hemisférios se apresentam de modo bem mais claro na tradicional divisão entre acima e abaixo do equador. No filme essa linha não é apenas imaginária, ela é palpável: cruzar a linha do equador dá a possibilidade a um pingüim friorento de esbaldar-se na praia, enquanto solícitas tartarugas lhe servem margueritas, e permite ao fiel e puritano Donald perseguir as belas banhistas da praia de Acapulco. Em suma, não existe pecado do lado de baixo do equador, onde tanto turistas quanto nativos podem se embevecer num “mundo sem culpa” (Cf. CANDIDO, 1993, p. 37). E, por isso, somente aqui Donald realiza aqueles desejos reprimidos pela venal Margarida.

Nesse ponto, é preciso diferenciar em Zé Carioca a perspectiva dos filmes produzidos por estrangeiros e a dos gibis produzidos por brasileiros. No primeiro caso, ordem e desordem correspondem aos hemisférios Norte e Sul respectivamente. O pato tem uma posição confortável: como pertence ao mundo da ordem – geográfica e monetariamente ele pode baixar eventualmente ao mundo agradável da desordem” (CANDIDO, 1993, p. 43) na condição de turista. E Donald vai tão fundo na desordem que precisa ser cerceado pelos amigos latinos.

Nos gibis brasileiros, contudo, esses pólos se mostram nos estereótipos regionais e na ótica de classe que veiculam. Candido evidencia que Manuel Antonio de Almeida logra a suspensão do juízo moral por aderir ao ponto de vista do setor intermédio da sociedade joanina, a massa de trabalhadores livres de que fala Caio Prado Jr. As histórias de Zé Carioca, por outro lado, cumprem um papel ideológico: a massa de pobres chafurda na desordem, enquanto os ricos desfilam no painel da ordem. Apenas Zé Carioca, por sua condição malandra, consegue circular entre os dois pólos, o que não o isenta, todavia, de julgamento moral – não de sua parte: afinal, o remorso não existe, pois a avaliação das ações é feita segundo sua eficácia [...] a repressão moral só pode existir, como ficou dito, fora das consciências (CANDIDO, 1993, p. 48 e 49).8

Em suma, não existe “balanceio caprichoso entre ordem e desordem” (CANDIDO, 1993, p. 44). Em Zé, ordem e desordem são nítidas e definidas. Sem a suspensão do juízo moral, suas malandragens são tidas como reprováveis, ao contrário das Memórias, que criam um universo que parece liberto do erro e do pecado “[...] o sentimento do homem aparece nele como uma espécie de curiosidade superficial, que põe em movimento o interesse dos personagens uns pelos outros e do autor pelos personagens, formando a trama das relações vividas e descritas. A esta curiosidade corresponde uma visão muito tolerante, quase amena. As pessoas fazem coisas que poderiam ser classificadas como reprováveis, mas fazem também outras dignas de louvor, que as compensam. E como todos têm defeitos, ninguém merece censura”. (CANDIDO, 1993, p. 47).

Quanto aos estereótipos regionais, Zé Carioca tem um primo em cada região do país, que a sintetiza e da qual é representante. Ao se abrasileirar, o malandro Zé continua sendo, de acordo com essa interpretação, o típico brasileiro, contudo, agora os gibis abrem espaço para as peculiaridades – estereotipadas – regionais. Se antes, porque os destinatários dos filmes eram estrangeiros, as exoticidades eram buscadas em nível internacional, nos gibis essas são encontradas no contexto intranacional. Nosso papagaio faz várias incursões para conhecer os primos, mostrando o que há de pitoresco em cada canto: Zé paulista que, por demasiado trabalhador, é seu oposto; Zé Jandaia, o cearense irascível; Zé Pampeiro, o gaúcho de facão dos pampas; Zé Queijinho, o caipira mineiro que come de tudo; e Zé Baiano, exageradamente preguiçoso. Cada região apresenta afinidades maiores ou menores com a ordem.

Alguns dos principais parentes de Zé Carioca. Na época eles foram criados nas décadas de 1960 e 1970, expressando estereotrópios regionais do brasileiro. 
A “certa ausência de juízo moral” (CANDIDO, 1993, p. 39) de Memórias, proporciona relativa equivalência entre ordem e desordem, a tonalidade do relato não se torna mais ou menos aprovativa conforme os personagens circulam no âmbito da ordem ou da desordem, pois há “confusões de hemisférios e esta subversão final de valores (CANDIDO, 1993, p. 43): “Tutto nel mondo é burla’, parece dizer o narrador das Memórias de um sargento de milícias”. (CANDIDO, 1993, p. 41).

A mediação proporcionada pela dialética da ordem e da desordem impede que se estabeleçam os pares antitéticos que podem “fazer da hipocrisia um pilar da civilização”. (CANDIDO, 1993, p. 48) Tais princípios mediadores estão, segundo Candido, geralmente ocultos, daí a necessidade de uma análise profunda, do “subsolo do discurso”, (CANDIDO, 1993, p. 14) que só é possível porque o “referente não é o país-projeto, mas o país verdadeiro (o das classes sociais)”, (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 07) cuja pauta é a “realidade em sentido forte”. (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 10).

Não há expressão de equivalência entre ordem e desordem em Zé Carioca. Sem apreender que “fora da racionalização ideológica as antinomias convivem num curioso lusco-fusco” (CANDIDO, 1993, p. 48), seus criadores estacam na polarização superficial e não podem expressar a “formalização estética de um ritmo geral da sociedade brasileira” (Cf. SCHWARZ, p. 3). Trata-se do mais central dos países capitalistas procurando oferecer uma visada “amigável” à periferia do capitalismo. É o Brasil de Ari Barroso, da nívea baiana Iaiá que vende quindim, das aves raras, da cachaça, do samba (tanto que nos filmes os termos exótico, esquisito e afins são mais que recorrentes). É o Brasil pela via da exoticidade e não da originalidade estrutural: “os detalhes pitorescos oferecem ao leitor a identificação brasileira fácil e simpática, a qual nesta perspectiva é um m em si mesmo. A função é mais ideológica do que artística (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 06).

A escolha da Disney pelo pitoresco nos faz “parecer inferiores ante uma visão estupidamente nutrida de valores puritanos, como a das sociedades capitalistas” (CANDIDO, 1993, p. 53) embora seja a labilidade, em verdade, “uma das dimensões fecundas do nosso universo cultural” (CANDIDO, 1993, p. 53), que pode, inclusive, facilitar “a nossa inserção num mundo eventualmente mais aberto”. (CANDIDO, 1993, p. 53). Por um lado, Candido reabilita a malandragem, “a generaliza para o país, sublinha os inconvenientes [...] de que ela nos poupou, e especula sobre as suas afinidades com uma ordem mundial mais favorável, que pelo contexto seria pós-burguesa”. (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 18).

Por outro, como “exprime a vasta acomodação geral que dissolve os extremos, tira o significado da lei e da ordem, criando uma espécie de terra-de-ninguém moral, onde a transgressão é apenas um matiz na gama que vem da norma e vai ao crime” (CANDIDO, 1993, p. 51), a dialética da malandragem – além de sementeira do socialismo – pode plantear, como insinua Schwarz, também a barbárie capitalista9. Em outras palavras, a malandragem brasileira pode tanto conspirar para a derrota da barbárie quanto para seu contrário.

Se Leonardinho se sentiria muito à vontade num mundo mais aberto, Zé Carioca seria um papagaio fora do lugar. O que significa que as potencialidades criativas do genuíno malandro brasileiro, que Candido perspectiva, fica castrada na criação da Disney, uma vez que o simpático papagaio propende para a segunda possibilidade, “era, com efeito, ele” (Cf. ALMEIDA, 2010, p. 92).

Passados mais de trinta anos da publicação de “Dialética da malandragem” e vinte de “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da malandragem’”, a dupla potencialidade da dialética da malandragem, tal como elucidada por Schwarz, se torna cabal instrumento interpretativo quando o Brasil ensina o mundo a ser bárbaro. Talvez essa tenha sido a perspicaz intuição dos estúdios Walt Disney ao empreenderem, em 1943, essa incursão pela América Latina: as formas de espontaneidade social da periferia do capitalismo revelam a verdade atual do capitalismo inclusive no centro10. E nossa malandragem dá que falar ao mundo inteiro!

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um sargento de milícias. Disponível em www.dominiopublico.gov.br. Acessado em 2010.
CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas cidades, 1993.
MENEGAT, Marildo. Notas de aula – curso Teoria Crítica no Brasil. Rio de Janeiro: Pós-Graduação em Serviço Social, UFRJ, 2008.
SCHWARZ, Roberto. Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da malandragem” (disponível em www.pacc.ufrj.br/literaria/schwarz). Acessado em 2010.
SODRÉ, Nelson Werneck. Capitalismo e revolução burguesa no Brasil. 2ed. Rio de Janeiro: Graphia, 1997.

NOTAS:
2. Convém lembrar a tradição de dispersão e distanciamento entre o Brasil e os países latino-americanos de origem espanhola desde os tempos coloniais: “tratados separadamente cada um deles pelas metrópoles políticas ou econômicas e por aquela que mais influiria em seus destinos, desde os fins do século XIX, os Estados Unidos. Os referidos países jamais alcançaram o nível mínimo de política comum, face àquelas metrópoles. O que se convencionou conhecer como pan-americanismo, no século XX, não passou jamais de fórmula diplomática de tutela de Washington sobre uma espécie de quintal” (SODRÉ, 1997, p.118). Ademais, não é acidental ser um brasileiro a guiar Donald em sua aventura nos trópicos, é histórico o “papel exercido pelo Brasil como procurador dos interesses comerciais” metropolitanos, “tornando-o instrumento de intervenção nos países vizinhos de origem espanhola” (SODRÉ, 1997, p.118).
3. Alô, amigos (Hello friends), 42’, Walt Disney, 1943; Os três cavaleiros (The Three Caballeros), Walt Disney, 1945.
4. As citações sem referências são falas do filme Alô, amigos.
5. A partir deste trecho todas as citações sem referência são falas do filme Os três cavaleiros.
6. Não se confunda, todavia, títere com bajulador. Pois Zé afasta-se do malandro espanhol ao não realizar sua meta suprema: “não procurar e não agradar os ‘superiores’”. (CANDIDO, 1993, p. 24).
7. Tal originalidade estrutural é condicionada historicamente, “a oposição de ordem e desordem não faz parte de um quadro universalista, pelo contrário, ela é esclarecida à luz do movimento e do momento sociais, onde os termos encontram a sua dialética” (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 16). Esse autor esclarece ainda que em “Dialética da malandragem” Antonio Candido ora mostra a dialética da ordem e da desordem “enquanto experiência e perspectiva de um setor social, num quadro de antagonismo de classes historicamente determinado. Ao passo que noutro momento ela é o modo de ser brasileiro, isto é, um traço cultural através do qual nos comparamos a outros países e que em circunstâncias históricas favoráveis pode nos ajudar” (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 18).
8. Schwarz de.ne a dialética da malandragem como “a suspensão de conflitos históricos precisos através de uma sabedoria genérica da sobrevivência, que não os interioriza e não conhece convicções nem remorsos”. (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 04).
9. O argumento de Schwarz é o seguinte: “a repressão desencadeada a partir de 1969 – com seus interesses clandestinos em faixa própria, sem definição de responsabilidades, e sempre a bem daquela mesma modernização – não participava ela também da dialética de ordem e desordem?” (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 21). Isso indicaria, portanto, que “só no plano dos traços culturais malandragem e capitalismo se opõem”. (Cf. SCHWARZ, 2010, p. 21).
10. Cf. MENEGAT (2008).

Fonte: FERREIRA, Camila Manduca. Zé Carioca: um papagaio na periferia do capitalismo. Novos Rumos, Marília, v. 49, n. 1, 2012, jan/jun, p. 159-168. 

sexta-feira, 27 de julho de 2018

O Brasil na Segunda Guerra: A Força Expedicionária Brasileira (FEB)

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi um dos eventos bélicos mais destrutivos da História, vitimando mais de 50 milhões de pessoas, entre militares e civis, no Oceano Atlântico, Europa, África, Ásia e Oceano Pacífico, tendo contado com a participação direta e indireta de dezenas de países, entre os quais o Brasil. Se durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a participação do Brasil foi bastante tímida, tendo ficado restrita ao envio de suprimentos, enfermeiras e médicos, a situação mudou com a Segunda Guerra, onde o Brasil destacou mais de 20 mil homens para servir na Itália, indo combater nazistas e fascistas. Essa força destacada ficou conhecida como Força Expedicionária Brasileira (FEB). Todavia, a entrada do Brasil na guerra foi demorada e sua participação foi breve, o país atuou no campo de batalha europeu por 7 meses. Ainda assim, essa curta participação foi de suma importância para desequilibrar as forças alemães e italianas que causavam problemas aos americanos, franceses e britânicos. 

A participação do Brasil na Segunda Guerra foi algo problemático: havia descrença por parte dos brasileiros de que o país teria condições de conseguir lutar numa Grande Guerra; e essa descrença também era compartilhada pelos aliados como os americanos. Por outro lado, era fato que em quesito de treinamento, equipamento e recursos o Exército, a Marinha e a Aeronáutica estavam defasados. E teve que contar com o apoio dos Estados Unidos para suprir isso. Somando-se esses problemas surgiu não se sabe ao certo, a expressão "é mais fácil a cobra fumar do que o Brasil ir à guerra". Mas a cobra fumou e o Brasil foi à guerra. 

Emblema não-oficial da Força Expedicionária Brasileira. Embora não fosse oficial, os soldados gostavam de usá-lo. 

Introdução: A ambiguidade de Getúlio Vargas

Durante a época que a Segunda Guerra ocorreu, o Brasil era governado por Getúlio Vargas (1882-1954), advogado e político que governava o país desde 1930. Vargas foi o chefe de Estado a passar mais tempo no poder na história republicana brasileira, tendo governado por 19 anos, sendo que desse total, 15 anos foram ininterruptos. Tendo ascendido ao poder através de um golpe de Estado de caráter civil-militar em 1930, realizou outros golpes de Estado em 1934 e 1937, garantindo sua permanência continua até 1945, quando foi ameaçado de ser deposto. Em 1951 retornou após vencer eleições legítimas, mas cometeu suicídio em 1954. De qualquer forma, durante seu governo de 1930 e 1945, Vargas governou em uma ditadura civil, inclusive sem vice-presidente, e tendo tomado decisões que feriam a divisão dos Três Poderes e outras prerrogativas constitucionais. Apesar de ser lembrado como um líder populista, o populismo varguista mascarou uma série de decisões antidemocráticas. (SKIDMORE, 1982; LIRA NETO, 2013).

Mas antes de prosseguir acerca do papel do governo de Vargas para entender a entrada do Brasil na guerra, se faz necessário dizer que no Brasil haviam colônias de alemães, italianos e japoneses, os três países que se aliaram e formaram as Potências do Eixo. Imigrantes italianos e alemães chegaram ao Brasil, ainda na época do império, a partir da década de 1870. Por sua vez, os japoneses vieram a partir de 1908. Esses colonos se espalharam entre os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, inclusive, ajudaram no desenvolvimento de fazendas, vilas e cidades. Durante a década de 1930, as ideias nazistas e fascistas proliferavam na Alemanha e Itália. Os descendentes de alemães e italianos que viviam no Brasil, os quais mantinham contatos com seus familiares, passaram também a ter contato com os ideários nazistas e fascistas. 

Neste caso a ideologia nazista foi bastante influente ao ponto que no Brasil, surgiu o Partido Nazista Brasileiro (PNB), que vigorou entre 1930 e 1938. O PNB foi um partido ilegal, não tendo sido reconhecido pelo Estado, no entanto, nem por isso foi proibido de atuar ilegalmente. No país chegaram haver 76 filiais do partido, espalhadas por 17 estados, contando com uma estimativa de 3 mil membros filiados. A cartilha escolar da Juventude Hitlerista chegou a ser pregada em algumas escolas, de cidades nas quais a maioria da população era descendente de alemães. Inclusive as aulas eram dadas em língua alemã. Fotografias desses momentos foram retiradas, comprovando o ensino da doutrina nazista no Brasil. Além de haver também um jornal nazista intitulado Aurora Alemã (Deutscher Morgen). Apesar de ter sido uma doutrina antissemita, antiesquerda, antiliberal, totalitária, racista, xenofóbica, etc. o governo de Vargas nunca ordenou a sua proibição. Um dos motivos se deveu a condição de que o Brasil possuía acordos econômicos com a Alemanha. (SALES, 2008, p. 60-61).


Crianças brasileiras fazem saudação de Heil, Hitler!, em Presidente Bernardes, São Paulo, 1935. 
Além do acordo econômico com os alemães, Vargas demonstrava simpatia com nazistas, recebendo de bom grado embaixadores e diplomatas alemães, até permitindo a atuação da Gestapo em território brasileiro para combater espiões, judeus e alemães foragidos, além de ajudar a combater os socialistas e comunistas. Em 1935 ocorreu a Intentona Comunista no Brasil, uma revolta de caráter comunista e antifascista que cobrava mudanças políticas, sociais e econômicas. Getúlio Vargas considerou uma afronta e ordenou que o exército a sufocasse e caça-se os participantes. Centenas de presos políticos, supostamente ligados a revolta de 1935, foram presos. Na ocasião, a Gestapo que era a polícia política nazista, enviou oficiais para auxiliar a polícia brasileira a caçar os comunistas. (SALES, 2008, p. 42).

Mas se por um lado ocorreram essas cooperações entre a ditadura varguista e a ditadura nazista, a ditadura fascista também teve o que contribuir. Por mais que não tenha sido criado um partido fascista no Brasil, as ideias do mesmo chegaram ao país. Algumas ideias inclusive adotadas por Vargas como o corporativismo capitalista, a perseguição aos opositores, criação de uma polícia especial chamada de Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), imposição da censura aos meios de comunicação e na educação através do Departamento de Imprensa e Propaganda, culto ao líder, leis trabalhistas baseada no modelo italiano da Cartal del Lavoro (1927), autoritarismo, uso da tortura e de prisões política, supressão de direitos jurídicos, criação de uma nova constituição com ideários nazifascistas, o que incluía inclusive um projeto de eugenia, inspirado no modelo alemão. (LIRA NETO, 2013, p. 206-230). 

De 1930 a 1939 Getúlio Vargas soube operar muito bem esse seu diálogo com os nazistas e fascistas, além de também negociar com franceses, britânicos e americanos. Mas curiosamente não tomou contato com os russos, pois diferente do que se ler em alguns sites e blogs, Vargas não colaborou com os soviéticos, e até mesmo ajudou em persegui-los. Lembrando que a aliança de não-agressão entre nazistas e soviéticos somente teve início com a guerra, antes disso, eles se confrontavam. No tocante ao Japão, apesar de muitos japoneses e descendentes viverem no país, as relações entre Brasil e Japão naquele tempo eram efêmeras. Entretanto, os contatos com os alemães e italianos sofreria um revés a partir de 1939, ainda assim, isso não significaria o rompimento com esses países.

A indecisão de Vargas de entrar na guerra: 

Quando a Segunda Guerra teve início em 1 setembro de 1939, após as declarações de guerra contra a Alemanha ter descumprido o Tratado de Versalhes, em não organizar um exército e ter invadido territórios vizinhos como a Polônia, Getúlio Vargas foi cobrado por autoridades nacionais e internacionais e suspender negócios com os alemães e depois com os italianos. Porém, a suspensão não significou ruptura. Com a formação dos Aliados entre os franceses e britânicos, e depois a adesão de outros países europeus, Vargas optou em manter-se neutro no assunto. Os ideais nazistas e fascistas passaram a serem censurados a partir de 1939, mesmo que na prática a ditadura do Estado Novo (1937-1945) ainda aplicasse ideias defendidas por tais ideologias. 


Jornal The Star anunciando na primeira folha a mobilização da Inglaterra e França após a invasão da Polônia pelos nazistas, ocorrida as 5h45 do dia 1 de setembro de 1939. 
Apesar da decisão de Getúlio Vargas em suspender acordos comerciais e diplomáticos com os alemães, ainda em 1939, acreditava-se que a nova guerra seria um evento local, uma "Guerra da Polônia", pois enquanto os nazistas a invadiam, os franceses e britânicos que eram aliados dos poloneses, decidiram ir socorrê-los. Porém, em 17 de setembro foi a vez da Rússia entrar no conflito.  A Rússia que havia fechado o Pacto Ribbentrop-Molotov em agosto daquele ano, iniciou a invasão da Polônia também. Apesar de Hitler ser crítico e contrário ao marxismo, socialismo e comunismo, ele enxergou nos russos um aliado poderoso. Na guerra as vezes se faz necessário aliar-se com alguém mais forte, mesmo que você não concorde com ele, e isso foi o que os nazistas e soviéticos fizeram. Todavia, a situação mudou drasticamente no ano de 1940.

Em 1940 os soviéticos invadiram a Finlândia. Os alemães fizeram o mesmo com a Dinamarca e a Noruega. Depois desceram para atacar a Holanda, Bélgica e a França. Por sua vez, os italianos começaram a invadir a França pelo sul. Nos meses seguintes o leste europeu foi invadido por alemães, franceses e russos. Romênia, Hungria e Eslováquia tornam-se aliados do Eixo, e os países vizinhos foram ocupados. A Itália invadiu a Grécia e o Egito. O ano de 1940 terminou com o resultado de mais de 10 países ocupados pelas Potências do Eixo. Não se tratava mais de uma guerra apenas pelo controle da Polônia, mas de uma guerra pelo controle da Europa. Por sua vez, em 1941 os japoneses intensificaram os ataques a China e outros territórios asiáticos, e os alemães e italianos fizeram o mesmo na África. A guerra tornava-se mundial. 

A França era acossada por vários lados, os britânicos eram os principais aliados, e esses cobravam que nações americanas e africanas viessem ao socorro. Os Estados Unidos ainda neutro, decidiu fornecer apoio, enviando armas, munição, veículos e suprimentos. Parte disso levou ao surgimento de negócios entre americanos e brasileiros, no qual o governo estadunidense emprestou dinheiro para a construção de uma grande siderúrgica no Brasil, além de um acordo de apoio militar, pois os Estados Unidos e outros países latino-americanos temiam ataques dos alemães, já que o navio alemão Almirante Graf Spee estava atacando embarcações no Uruguai. Inclusive ele foi atacado por navios ingleses, sendo afundado em 17 de dezembro de 1939. (COSTA, 1976, p. 16).

Entretanto, mesmo com esse acordo financeiro e de suporte militar oferecido pelo governo dos Estados Unidos, e a suspeita de uma invasão nazista ao Brasil, ainda assim, Getúlio Vargas não estava preocupado com a guerra, e continuava a mostrar atitudes ambíguas. 


“As desconfianças norte-americanas aumentaram significativamente com o discurso de Getúlio Vargas, em 11 de junho de 1940, a bordo do cruzador Minas Gerais. Falando para oficiais das Forças Armadas brasileiras, Vargas anunciava que o futuro pertenceria aos Estados fortes, livres do liberalismo estéril. O pronunciamento foi entendido como um apoio aos regimes fascistas da Europa, e provocou grande polêmica. Apesar dos desmentidos, a repercussão do discurso de Vargas preocupou os estrategistas aliados. Autoridades norte-americanas entenderam que o preço a pagar pelo apoio definitivo do Brasil não era tão alto assim: alguns milhões de dólares em financiamento para a construção de uma usina siderúrgica e envio de armas direcionadas para a defesa de um ponto estratégico que lhes interessava diretamente. Para uma nação que já enviava centenas de milhões de dólares em material bélico e produtos de consumo para seus aliados na Europa, o acordo valia a pena, pelas vantagens estratégicas que lhe adviriam”. (FERRAZ, 2005, p. 12). 

Apesar dessa polêmica proferida em 1940, no mesmo ano um acordo entre Estados Unidos e Brasil foi realizado. 20 milhões de dólares foram emprestados para a construção de uma grande siderúrgica no estado do Rio de Janeiro. Outros 20 milhões seriam enviados para custear outras obras. O governo americano também cobrou do governo brasileiro autorização para utilizar bases militares e portos do país, pois apesar dos Estados Unidos não terem entrado na guerra até aquele ano, eles já forneciam suprimentos para os Aliados. Além disso, ter tropas americanas em solo brasileiro, era precaução contra uma possível invasão alemã. (FERRAZ, 2005, p. 12). 

Em 7 de dezembro de 1941, caças japoneses bombardearam a base naval de Pearl Harbor, no Havaí. No dia seguinte ao ataque, o presidente Franklin Delano Roosevelt declarou guerra ao Japão. Nos dias seguintes a declaração foi estendida aos alemães, italianos e seus aliados. Os Estados Unidos entrava na guerra. No caso do Brasil, Vargas estava comprometido em fornecer apoio militar aos americanos devido ao acordo entre eles, fechado no ano anterior, porém, a adesão a guerra não foi imediata. 

Em 28 de janeiro de 1942, durante a Conferência de Chanceleres, ocorrida no Rio de Janeiro, o Brasil formalmente declarou rompimento total com a Alemanha, Itália e Japão. Mas esse rompimento não significou adesão a guerra, apenas o encerramento de qualquer relação diplomática com aqueles países. Em retaliação, os alemães começaram a atacar navios brasileiros. Entre 14 de fevereiro e 19 de agosto de 1942, 19 navios mercantes foram afundados, entre eles: Cabedelo, Buarque, Olinda, Arabutã, Cairu, Parnaíba, Comandante Lira, Gonçalves Dias, Alegrete, Pedrinhas, Tamandaré, Piave, Barbacena, Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba, Arará e Jacirá. Totalizando 743 mortos entre tripulantes e passageiros. Outros ataques ocorreriam até 1945, elevando o número de navios afundados para 39, e no número de mortos para mais de mil. (SILVA; FOLY, 2013, p. 17). 


Navios brasileiros afundados por submarinos ou navios alemães. 1 ao 27 em 1942, 28 a 36 em 1943, 37 e 38 em 1944, e 39 em 1945. 
Após a perda de vários navios e a morte de mais de 700 pessoas, era inaceitável que o país não tomasse uma decisão definitiva a respeito da guerra. A resposta veio em 22 de agosto de 1942, quando Getúlio Vargas oficialmente reconheceu que devido aos ataques realizados a navios brasileiros, isso não seria algo tolerável. Assim, o país declarava estado de beligerância contra a Alemanha e Itália. No dia 31 de agosto foi decretado estado de guerra em todo território nacional. (SALES, 2008, p. 68). 


Edição extra do jornal O Globo, de 22 de agosto de 1942, trazendo como matéria de primeira página a declaração de beligerância dada por Getúlio Vargas. 
Forças armadas obsoletas. É mais fácil a cobra fumar...

O Brasil da década de 1940, possuía mais de 40 milhões de habitantes, a maioria vivendo na zona rural. As cidades ainda eram pouco desenvolvidas, a industrialização estava atrasada, grande parte da população era analfabeta, não tinha acesso a saneamento básico, água encanada e energia elétrica. Apesar de baixos índices de violência na época (exceto os cometidos por brigas e pelo próprio governo), o país também tinha problemas com desemprego e falta de moradia, embora os dados sobre isso, não sejam precisos. Mas no tocante as Forças Armadas, a última guerra significativa que o Brasil havia participado, terminou em 1870, no Paraguai. De lá até 1940, embora o país tenha enfrentado revoltas internas, nenhum outro grande conflito bélico foi vivenciado. (SKIDMORE, 1982, p. 65-70). 

Em 1942 as forças armadas americanas já estavam presentes no Brasil, especialmente na região Nordeste, mais especificamente no estado do Rio Grande do Norte, devido a sua proximidade com a África. Assim o Brasil tornava-se ponto estratégico essencial para o envio de aviões para o front no norte da África e sul da Europa. (SILVA; FOLY, 2013, p. 17). Mas enquanto as forças armadas americanas já estavam prontas e mobilizadas para a guerra, a realidade das forças armadas brasileiras era bem diferente. 


General Mascarenhas de Morais
O Exército, a Marinha e a Aeronáutica brasileiros estavam defasados em número de pessoal, equipamento e veículos. No caso do Exército, o transporte entre caminhões e jipes era pequeno e praticamente não existia veículos de combate. Alguns dos navios de guerra já tinham mais de vinte ou trinta anos de uso. E quanto a Aeronáutica, embora o Ministério da Aeronáutica tenha sido criado em 1941, unificando a Aviação Militar e a Aviação Naval, tornando-a na Força Aérea Brasileira (FAB), ainda assim, a maioria dos aviões que o país dispunha, não era aviões de guerra, mas usados para o serviço de correios e transporte. De qualquer forma, ao longo de 1942 e de 1943, o governo brasileiro começou a se mobilizar para preparar uma força militar. Essa preparação demorou quase dois anos. As iniciativas para formar a FEB somente tiveram início propriamente em 1943. Naquele ano, na data de 9 de agosto, o Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra (presidente do Brasil de 1946-1951), assinou uma portaria autorizando a criação de uma força militar brasileira que seria enviada a Europa. Na ocasião, foi designado o general João Batista Mascarenhas de Morais (1883-1968), para se tornar o comandante da FEB, a qual seria formada por três divisões, provenientes principalmente do contingente do Exército, oriundo dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Mas como o efetivo realocado era ainda baixo, decidiu-se alistar em caráter de urgência homens de outros estados. (COSTA, 1976, p. 27).

"A transposição da FEB, do projeto à realidade, trouxe, assim, à tona difíceis problemas, como preparar, à americana, uma Divisão heterogênea de um Exército até então moldado em doutrina e padrões franceses; criar órgãos novos para os quais não tínhamos, nem pessoal, nem material adequados; proceder à seleção de pessoal segundo padrões muito acima de nossa realidade, para adaptá-los a condições climáticas de um teatro estranho ao nosso; dificuldades de reunião, de concentração e de preparação de unidades descentralizadas, de subordinação administrativa e disciplinar e diferentes organizações". (COSTA, 1976, p. 27). 

Inicialmente se considerou enviar uma força de 60 mil homens a 100 mil homens, como sugerido pelo ministro Dutra, porém o número era muito elevado. O Secretário de Guerra dos Estados Unidos, Henry L. Stimson duvidava que o Brasil conseguiria reunir tanto pessoal assim. Além disso, havia outro problema: para onde enviar tantos homens? O Brasil era inexperiente na guerra, com táticas advindas da escola militar francesa, já obsoletas naquele tempo. Além disso, havia o problema de como treinar em dois anos este enorme contingente de recrutas. Apesar de  Brasil dispor de 90 mil militares na época, o ministro Eurico Gaspar Dutra optou em enviar recrutas, decidindo manter os veteranos em território nacional, caso os alemães tentassem uma invasão ao país, algo que era cogitado, além da condição que navios e submarinos alemães atacaram embarcações brasileiras e águas nacionais. Todavia, o valor de 60 mil homens foi abandonado, exigindo-se um teto bem mais baixo. Assim, alistou-se para a FEB militares regulares, recrutas e voluntários, o que totalizou mais de 25 mil pessoas. O número somente não foi maior, pois muitos candidatos foram reprovados nos exames por não terem no mínimo 26 dentes, estatura miníma de 1,60, serem analfabetos e estarem com problemas de saúde. (FERRAZ, 2005, p. 34). 

Diante desses problemas, gerou-se dúvidas entre os brasileiros, americanos e aliados se o Brasil realmente teria condições de ir para uma guerra mundial. Algumas dessas dúvidas podem ser lidas em relatórios americanos que comentavam o pessoal que formava a FEB. William Waack (1985, p. 23-24) citou alguns dos trechos desses relatórios, os quais inclusive apresentam visões estereotipadas sobre os brasileiros: os oficiais brasileiros eram sobretudo homens brancos, dificilmente um negro passaria da patente de capitão. A maior parte do contingente militar advinha da classe baixa, de famílias pobres. Apesar do Brasil ter intelectuais e artistas, grande parte da população é mal-instruída, o que incluía os soldados. 

Eram homens de costumes latinos, gentis, hospitaleiros, mas não eram pontuais, e tinham problemas com compromisso, costumavam prometer algo, mesmo sabendo que não poderia realizá-lo. No quesito de descrever o soldado, os relatórios informavam que os soldados brasileiros eram de baixa estatura e franzinos, aparentemente não tinham disposição, resistência e força para atividades árduas. Alguns eram mal treinados e apresentavam problemas de indisciplina. Inclusive um dos relatórios informava que os soldados brasileiros tinham a vantagem em se alimentar de forma simples, já que basicamente se contentavam com um prato de arroz e feijão, e inclusive poderiam marchar descalços, pois tinham o hábito de fazer isso regularmente. (WAACK, 1985, p. 25).

Waack (1985, p. 26) comenta um dado que já havia sido apontado por historiadores brasileiros. Nos relatórios americanos foi assinalado o descaso com a saúde por parte dos soldados alistados. Comparado ao modelo americano, a alimentação deles era considerada inferior, além de que muitos soldados que seguiram para a Itália, tinham problemas de saúde, como dentes cariados e doenças vénereas. Segundo os padrões americanos de saúde, vários recrutas brasileiros teriam sido reprovados devido aos exames de saúde. Inclusive foi recomendado que os soldados brasileiros fossem vacinados contra tétano e cólera, e que se criasse uma quarentena para observar soldados que pudessem estar com tuberculose ou sífilis. 


“Imaginava-se selecionar uma “elite” de pelo menos 60 mil aptos, em um contingente de 200 mil convocados. Porém, os resultados dos exames físicos e psicológicos desnudaram um quadro alarmante da situação sanitária da população brasileira. Desnutrição, doenças crônicas, parasitárias, patologias circulatórias, pulmonares e dermatológicas caracterizavam expressiva parcela da população examinada, inclusive praças e oficiais do Exército regular, aprovados nos exames físicos ordinários para ingresso na profissão militar, mas com enfermidades incompatíveis para seu uso em combate, tais como daltonismo, pés chatos, doenças respiratórias e circulatórias e até mesmo icterícia, epilepsia e hanseníase, além de psicoses variadas”. (FERRAZ, 2005, p. 34).

Além desses problemas de saúde, indisciplina, organização, havia o problema de falta de instrução e treinamento, o que incluía não apenas o soldado raso, mas os oficiais de patentes mais elevadas. Para se resolver isso, foi necessário enviá-los ainda em 1943 para treinamento e formação urgentes. O que incluía treinamento em logística, planejamento, táticas de batalha, engenharia, uso de veículos, etc. 

"Para treinamento especial nos Estados Unidos, a FEB havia mandado naquele período inicial oito coronéis, 20 tenentes-coronéis, 66 majores, 92 capitães e 36 primeiros-tenentes". (WAACK, 1985, p. 26). 

Em 18 de dezembro de 1943 pelo Decreto n. 6.123, assinado pelo presidente Getúlio Vargas, era criado o 1o Grupo de Aviação de Caça, com a missão de ir à guerra. Nove dias depois o Major Nero Moura foi designado como comandante do grupo. O major foi ordenado a fazer alistamento para formar o grupo de aviação. Foram alistados 32 recrutas, os quais viajaram para os Estados Unidos e Panamá a fim de receber treinamento. Como os novos pilotos não possuíam experiência com aviões de guerra e muito menos tinham ido para combate, tiveram que receber um treinamento intensivo, iniciado em janeiro de 1944. Os pilotos de caça aprenderam a pilotar os aviões P-40 e P-47 Thunderbolt, os melhores na época que o governo americano dispunha. (LIMA, 1980, p. 17). 


Avião modelo P-40, utilizado pela FAB durante a Segunda Guerra. Exemplar do Museu Aeroepascial da FAB, Rio de Janeiro. 
A FEB está formada

Antes de se decidir para onde a FEB seria enviada, cogitou-se mandá-la para operações no continente africano ou servir de tropa de apoio na Europa, ajudando na vigília, retaguarda, defesa de postos, etc. Porém, a decisão derradeira adveio de LondresEm 21 de abril de 1944 o Secretário de Estado em Washington, Cordell Hull, comunicava aos comandantes e aliados em Londres, inclusive o próprio primeiro-ministro britânico, Winston Churcill que a FEB e a FAB já estavam prontos para ir a campo. Churcill respondeu dez dias depois, comunicando que as forças britânicas localizadas na Itália, precisavam de apoio. Apesar da falta de experiência da FEB e da FAB, o primeiro-ministro inglês disse que todo apoio era necessário naquele momento. Pois as tropas Aliadas preparavam-se para o Dia-D na Normandia, França. Apesar das tropas brasileiras não terem participado daquela operação, o suporte dado na Itália foi crucial para enfraquecer os fascistas e nazistas que estavam encastelados por lá. Assim, Churcill solicitou que o governo americano enviasse a FEB e a FAB para a Itália. (WAACK, 1985, p. 27). 

Em junho de 1944 a Força Expedicionária Brasileira estava formada e aguardava ordens para partir a campo. O contingente liderado pelo general Mascaranhas de Morais não levava veículos, nem armas ou outros apetrechos militares. Basicamente os soldados, oficiais e enfermeiras seguiam com seus uniformes, pertences e equipamento básico. O acordo feito entre Vargas e Roosevelt, garantiu que as Forças Armadas americanas concederiam armamento, munição, veículos terrestres, aquáticos e aéreos, ração e outros suportes a FEB e a FAB durante o tempo que permanecessem na guerra. 

O contingente da FEB estava dividido em cinco escalões. O primeiro escalão a ser enviado, era formado por soldados e oficiais, totalizando 5.081 homens, muitos na época com seus vinte e poucos anos. Eles viajaram a bordo do navio americano General Mann, o qual levou 14 dias para chegar a Napóles, na Itália. Era a data de 16 de julho quando eles chegaram. O segundo e terceiro escalões chegaram 20 dias depois, abordo dos navios General Mann e General Meights, totalizando juntos 10.376 membros, sendo que desse total, havia 67 enfermeiras. O quarto escalão chegou a 7 de outubro a bordo do navio General Meights, com 4.691 homens. Em outubro chegou a FAB com mais de 100 pessoas, apesar que alguns não fosse parte do Grupo de Caça, mas oficiais que o acompanhavam. O quinto escalão chegou a 22 de fevereiro de 1945, com 5.082 homens a bordo do navio General Meights. Sendo os últimos escalões formados formados pelo depósito de pessoal, o que incluía oficiais que não iam para a frente de batalha, e cuidavam da logística e apoio. O grupo da FAB chegou em outubro, com o Totalizando assim 25.307 brasileiros. (SALES, 2008, p. 69-71). 

Do total de 25.307 membros da FEB, 23.236 eram oriundos de alistamento, 1.000 eram voluntários, e o restante que perfazia 1.071 pessoas, era formado pelos militares regulares. Neste caso, a maior parte do contingente da FEB era formada por novatos, sem experiência em combate e com um treinamento básico. (FERRAZ, 2005, p. 35). Daí terem sido chamados de pracinhas. Uma referência ao antigo termo militar português para se referir a soldados e cabos, os quais eram destacados para servir em praças (regiões), atuando como guardas. 


A cobra fumando se tornou tão popular como emblema não-oficial da FEB, que o jornal O Globo convidou Walt Disney para fazer uma ilustração a respeito. 
A chegada na Itália

Embora a Itália daquele tempo fosse dominada pelo Fascismo, em 1943 Benito Mussolini (1883-1945), então ditador que controlava a Itália, foi emboscado numa operação e preso na ilha da Sicília. Um esquadrão de paraquedistas alemães o resgataram. Porém, o fracasso da campanha de Mussolini e sua prisão, o desmoralizaram drasticamente, ao ponto de ele sofrer um golpe dentro do partido, o obrigando a deixar Roma e se refugiar em Salò, onde fundou a República de Salò (1943-1945), um efêmero Estado fascista dentro de uma Itália dividida. Já que da metade para o sul, o país estava nas mãos dos americanos e britânicos. Da metade para o norte, os fascistas e nazistas mantinham a defesa. Todavia, a fragilidade do exército fascista fez Mussolini optar em mantê-los para a defesa de Salò, deixando ao encargo dos nazistas a defesa do restante do território. Essas defesas foram chamadas de Linha Gótica (Gotenstellung), uma série de fortes, torres, postos, acampamentos e bases espalhados pela Itália, ocupados pelos nazistas. A missão dos americanos e britânicos era desbaratar a Linha Gótica. 


O desembarque do primeiro escalão da FEB ocorreu em 16 de julho de 1944, no porto de Nápoles. Devido ao grande volume de mais de 5 mil homens que passaram duas semanas em um navio superlotado, o desembarque levou mais de duas horas para ocorrer. No entanto, demorou para a FAB a entrar em batalha. Alguns oficias americanos que estavam a bordo do navio General Mann escreveram relatórios se queixando de problemas vistos na viagem. O major Mcnealy reclamou do desperdício de comida nos primeiros dias da viagem, da demora do embarque, da falta de disciplina abordo, da condição superlotada do navio, e de que alguns soldados estavam com problemas de saúde antes de embarcar. Já em terra, Mcnealy voltou a reclamar da indisciplina, falta de atenção e compromisso dos soldados brasileiros. Ele comenta que ao supervisiona alguns dos treinamentos ocorridos nos meses de julho e agosto, percebeu que alguns grupos não tinham cuidado ao dirigir jipes e caminhões; dirigiam de forma descuidada, com velocidade acima do recomendado, e inclusive não faziam a manutenção dos veículos, esquecendo de conferir o carburador, o óleo, os freios e os pneus. (WAACK, 1985, p. 31 e 33). 

Por sua vez, o major George Adair que foi um dos responsáveis pelo treinamento dos soldados da FAB, voltou a reclamar no acampamento base já em solo italiano. Os brasileiros passaram 20 dias após a chegada para se recomporem fisicamente, mentalmente e da própria saúde, pois alguns adoeceram na viagem. Todavia, o major Adair queixava-se da falta de disciplina, alegando que eram muito barulhentos e falavam de mais, e se cansavam rapidamente ao realizar exercícios físicos. Alguns apresentavam falta de aptidão ao usar armamentos, reflexo do treinamento feito as pressas. (WAACK, 1985, p. 31). 

Além desses problemas foi relatado outros, dentre os quais, o uniforme inapropriado.  O general Costa (1976, p. 32-33) comenta que o uniforme dos membros da FEB era ainda rústico e parte deles foi feito as pressas, utilizando-se material ruim. Porém, o grande problema não era nem tanto a qualidade inferior do uniforme, mas a condição que ele não era resistente para ser usado nas operações em campo, além de proteger os soldados da chuva e do frio, principalmente do frio, pois os soldados brasileiros enfrentaram o inverno italiano. Mesmo as capas de chuva se mostraram inapropriadas também. O general comenta que o uniforme brasileiro parecia com o uniforme alemão, o que poderia resultar em confusão. Além das vestes, as botas também não eram de boa qualidade, apresentando problemas de aderência e resistência, o que as tornava ruins para andar na lama, neve e em terrenos irregulares. Lembrando que algumas das batalhas requeriam percorrer as colinas e serras italianas. Assim, a casaca verde-oliva foi substituída pelo blusão americano, as botas foram trocadas por botas americanas chamadas de combat boots. Capacetes, coletes, casacos e sobretudos americanos também passaram a ser usados. Adaptou-se as insígnias e distintos do uniforme americano, usando-se o símbolo da FEB, a cobra fumando, e o avestruz do Senta à Pua da FAB. Os soldados e oficiais passaram a usar uniforme não apenas verde-oliva, mas bege e cinza. 
A cobra fumando como emblema da FEB e o avestruz armado do 1o Grupo de Caça da FAB. 
Depois da chegada a Nápoles a Primeira Divisão seguiu de trem e caminhões para Roma e de lá seguiu para Livorno, onde foi montado acampamento. 20 dias depois, em 6 de agosto de 1944, a segunda e a terceira divisões chegaram a Nápoles. As três divisões da FAB aguardaram em Livorno e cercanias, as ordens para ir a frente de batalha. A FAB na ocasião estava subordinada a V Divisão do Exército Americano, comandada pelo general Mark W. Clark (1896-1984), veterano da Primeira Guerra. O general Clark se destacou no comando de algumas operações na Itália e no norte da África. Por sua vez, o Senta a Pua, que correspondia ao 1o Grupo de Caça da FAB, estava subordinado ao 350o Grupo de Combate da Força Aérea dos Estados Unidos. Surgido na Inglaterra, o grupo realizou missões no Marrocos, Argélia, Córsega, Sardenha e Itália. (FERRAZ, 2005, p. 42; LIMA, 1986, p. 20). 

Em agosto de 1944, o general Mark Clark e o primeiro-ministro Winston Churcill compareceram ao acampamento da FAB, que contava com um pouco mais de dez mil homens e mulheres. Foi deliberado que a tropas da FEB entrassem em serviço imediatamente. Apesar que isso somente ocorreu ainda no mês de setembro quando foi designado que parte da Primeira Divisão da FEB fosse enviada para a cidade de Pisa, de onde seguiriam caminho rumo a fronteira da Linha Gótica. Assim, definitivamente começava a guerra para o Brasil. (WAACK, 1985, p. 33). 

Enfermeiras da FEB. A frente, de óculos, o General Mascaranhas de Morais, ao lado dele, o General Mark Clark. 
As missões terrestres: 

"A FEB enfrentou nove divisões alemãs, ou esteve em contato com elas, durante os meses em que permaneceu na Itália: a 42a Ligeira, a 232a de Infantaria, a 84a de Infantaria, a 114a Ligeira, a 29a Motorizada, a 334a de Infantaria, a 305a de Infantaria, a 90a Motorizada e a 148a de Infantaria. O leitor deve ter observado os "números altos" da maior parte dessas divisões - para o especialista, isso indica que a unidade se formou já no final da guerra, às pressas, com recursos reduzidos e deficiência de tropas aptas". (WAACK, 1985, p. 39). 

Embora parte das divisões enfrentadas pela FAB fossem recentes e em alguns casos, mal aparelhadas e até inexperientes, ainda assim, o principal inimigo da FAB foi a 232a de Infantaria era formada por mais de 9 mil homens, que contavam com veículos de combate, artilharia pesada, postos, torres e fortificações nas serras italianas. A maior parte dessa divisão era formada por veteranos da Segunda Guerra, apesar que alguns contassem com mais de 40 anos, e haviam sido realocados de outras regiões. Ainda assim, a 232a infantaria era uma divisão forte e resistiu por meses aos ataques dos americanos e dos britânicos, cabia aos brasileiros unir forças para derrotá-los. 

a) Camaiore e Monte Prano (setembro de 1944)

A partir de Pisa a Primeira Divisão da FAB foi designada a fornecer apoio a 92a Divisão de Infantaria dos Estados Unidos, situada ao norte, a qual estava precisando de reforço e recuar. Para isso teriam que passar por defesas inimigas alemães, situadas em Camaiore e Monte Prano. Tais operações ficaram conhecidas como Destacamento Zenóbio em referência ao seu comandante, o general Euclides Zenóbio da Costa (1893-1962). As operações do destacamento formado por membros do 1o Batalhão do 6o Regimento de Infantaria, iniciaram sua movimentação para ajudar os americanos, em 13 de setembro, operando inicialmente de forma lenta, liberando locais e vilas na Linha Gótica. Parte da movimentação era feita à noite. Em 18 de setembro ocorreu a invasão da cidadezinha de Camaiore. Devido a fraca defesa ali deixada pelos nazistas, os brasileiros não tiveram dificuldades de capitular Camaiore. (COSTA, 1976 p. 44). 

A partir da ocupação de Camaiore, Zenóbio tomou conhecimento da posição de mais tropas alemães, especialmente um posto de observação situado na colina de Monte Prano. O posto era guarnecido com artilharia pesada, o que levou a se pedir suporte dos americanos com seus tanques. A aproximação do posto alemão levou alguns dias, ocorrendo entre 21 e 25 de setembro. No dia 26 de setembro o posto foi capturado. Todavia, a FEB perdeu alguns de seus primeiros membros, dentre os quais o tenente José Maria Pinto Duarte. No entanto, a missão obteve êxito. Monte Prano estava de posse da FEB. Agora havia um caminho por onde adentrar as serras italianas. (COSTA, 1976 p. 44). 

b) Monte Castelo (novembro de 1944 - fevereiro de 1945)

Após o sucesso em Camaiore, Monte Prano e nas vizinhanças, a FEB foi abrindo rota até Fornaci (06/10), Galigano-Barca (16/10) e outras localidades pelo caminho, vindo a se deparar com esquadrões e pequenos batalhões dos nazistas. Lembrando que os pracinhas já se encontravam plenamente em território inimigo. Essas vitórias iniciais ajudaram a levantar a moral das tropas, as quais ingressavam na guerra com algumas vitórias. Porém, o verdadeiro desafio ainda estava por vir. 

A região serrana de Monte Castelo nos Apeninos, com quase mil metros acima do nível do mar, separa as províncias de Bolonha e Modena, além de ser uma divisão também entre as regiões de Emilia-Romana e Toscana. O local na época era um ponto de encontro de rodovias e da malha ferroviária. Tratava-se de uma das regiões da Linha Gótica, bem defendida, ao ponto de ser chamada de Linha Genghis Khan. Fato esse que os ingleses e americanos já estavam a meses lutando e não conseguiam fazer os alemães abandonarem suas fortificações nas colinas, além de que suprimentos e reforços advinham de Bolonha, do nordeste da Itália e até de mais longe, descendo pelo Passo de Brenner, o qual levava rumo a Áustria. Três rotas estavam sendo atacadas pelos Aliados: a Estrada 9 que vinha do leste, incumbida aos ingleses, a Estrada 64 que vinha do oeste, incumbida aos brasileiros, e a Estrada 65 que vinha do sul, incumbida aos americanos. (COSTA, 1976, p. 46). 


Localidades na região de Monte Castelo, Itália. 
"As posições brasileiras no vale do Reno, por onde corria a rota 64, ficavam nas encostas de um dominante arco de elevações - Belvedere, Gorgolesco, Monte Castelo, Della Torracia, Torre di Nerone, Soprassasso - que, oblíquo à estrada, a descortinava quase toda, e do qual Castelo, funcionando como charneira, era a parte mais sensível. Em privilegiada situação topográfica e tática, ali estava a aguerrida 232a Divisão de Infantaria Alemã". (COSTA, 1976, p. 46). 

Se os americanos e ingleses estavam com dificuldades de derrotar a 232a infantaria dos nazistas, os brasileiros não tiveram sorte também. Em alguns dos ataques, os quais foram realizados ao lado do Task Force 45 dos Estados Unidos, americanos e brasileiros não se saíram bem, tendo perdido muitos homens na ocasião. Com a chegada do inverno o teatro de guerra alterou-se. Ao invés de missões para subir as colinas e atacar os postos de defesa, desenrolou-se conflitos em terrenos mais baixos, estradas, vales, de dia e até de noite. Sem contar que houve uma adicional considerável, a neve. 


Soldados brasileiros usando trajes de camuflagem na neve, durante o inverno em Monte Castelo, 1944-1945. 
Nos dias 24 e 25 de novembro de 1944 ocorreram os primeiros ataques contra as defesas alemães, resultando em fracasso, e alguns mortos e feridos. Dias depois, já reagrupados, novo ataque ocorreu no dia 29 de novembro. No caso, era um dia chuvoso, o que retardou o avanço das tropas devido ao terreno lamacento. A chuva caiu forte por algumas horas. A operação iniciou as 7h da manhã, apenas pela tarde haviam conseguido se aproximar das defesas inimigas, mas foram rechaçados por metralhadoras e morteiros. 190 soldados brasileiros morreram na ocasião. No dia 6 de dezembro novo ataque ocorreu, dessa vez mudando-se de alvo. Bombardeou-se os fortes e casamatas em Monte Torracia e Monte Belvedere, causando destruição considerável. O que prejudicou o apoio a defesa de Monte Castelo. No dia 12 de dezembro tentou-se se bombardear as defesas alemães, mas o tempo nublado e chuvoso prejudicava a visibilidade, optando-se em cancelar o suporte aéreo. Os batalhões Franklin e Syzeno com apoio de dois regimentos e três companhias. A operação fracassou. A FEB terminava a missão com mais 140 mortos. (DONATO, 1996, p. 365-366). 

Com a chegada definitiva do inverno, os ataques as defesas alemães foram suspensas. Mas não significou que houve trégua no conflito. Os nazistas aproveitaram para tentar atacar as posições e acampamentos dos brasileiros, americanos e ingleses. Além de ter ocorrido confrontos em estradas e emboscadas. Porém, a neve interrompeu as subidas até as fortificações alemães. No final de fevereiro de 1945, nova tentativa de tomar Monte Castelo foi realizada. Era o dia 21 de fevereiro quando o I Regimento da FAB, chamado de Regimento Sampaio, dividido nos Batalhões Franklin e Uzeda, com apoio de algumas companhias, iniciaram as 5h30 da manhã a operação de ataque. Na ocasião os americanos forneceram suporte com tanques de guerra e a 10a Divisão de Montanha. A operação durou quase 14 horas. Era 18h quando a FEB confirmava a captura de Monte Castelo. Foram 80 mortos para o lado brasileiro, 23 para o lado alemão, embora que 23 prisioneiros foram feitos também. (DONATO, 1996, p. 367). 


Alguns soldados brasileiros no território de Monte Castelo, Itália. 1944-1945. 
“Monte Castelo é o maior símbolo e mito das ações da FEB. Muitas das histórias que o cercam originam-se na série de dificuldades enfrentadas pelos brasileiros para tomar a posição indicada. Erros táticos grosseiros dos oficiais superiores, falta de apoio logístico e de retaguarda, além de um dos piores invernos da década naquela região da Itália (a temperatura chegou a 20 graus abaixo de zero), conferiram à luta pelo Monte Castelo um aspecto dramático e épico, muito explorado depois. Essas histórias e memórias da FEB, no entanto, geralmente ressaltam os aspectos heróicos, deixando as mazelas e as origens dos problemas em segundo plano”. (FERRAZ, 2005, p. 44). 

c) Castelnuovo (março de 1945)

Após a árdua conquista de Monte Castelo, a tarefa ainda não estava terminada. As posições nazistas circunvizinhas continuavam em posse do inimigo. Os brasileiros e americanos começaram ainda no final de fevereiro em atacá-las. Em 5 de março 1945 ocorreu a operação para se tomar Soprassasso e Castelnuovo, sendo o segundo, o alvo principal. Os regimentos 1, 2, 6 e 11 da FEB atuaram na operação iniciada as 5h da manhã, mas concluída apenas de noite naquele mesmo dia. A grande demora para a capitulação dos dois postos se deveu que em um dos flancos da serra, os alemães haviam o tornado em um campo minado, o que levou a mudar os planos de ataque. De qualquer forma, Castelnuovo não apresentou grandes dificuldades e assegurou maior controle da área e o êxito do Plano Encore, o qual tinha como objetivo capitular as defesas alemães da região de Monte Castelo. Entretanto, com tais posições asseguradas, novo desafio viria pela frente, dessa vez ainda mais árduo.

d) Montese (abril de 1945)

No ano de 1945, Montese era uma cidade pequena com menos de 7 mil habitantes, estando na ocasião arrasada pela guerra e ocupada pelos nazistas. A próxima missão da FEB era libertar aquela cidade e executar o golpe final na Linha Genghis Khan. Desde o começo de abril as tropas inglesas e americanas pressionavam os alemães na comuna de Montese, isso permitiu criar uma rota de possibilidade para que os brasileiros seguissem e fossem direto ao ataque. No caso, o 6 e 11 Regimentos divididos em dois pelotões cada, iniciaram o cerco de Montese, operando pela manhã e pela tarde do dia 14 de abril. Eles eram auxiliados pelo 10o Batalhão de Montanha e por carros de combate americanos, ainda assim, não foi uma batalha fácil. (COSTA, 1976, p. 52).

Porém, a cidade estava tão bem defendida com metralhadoras, morteiros, fuzis e minas, que o número de baixas foi elevado. Iniciado o ataque em 14 de abril, a capitulação da cidade somente ocorreu três dias depois, após a FEB ter entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros mais de 400 homens. Por sua vez, os alemães teriam entre mortos e feridos, 497 homens. Além da perda de militares, 189 civis italianos, entre homens, mulheres e crianças morreram nas trocas de tiro e explosões, além de que 833 construções foram atingidas e várias sofreram danos que as tornavam inabitáveis. (MAXIMIANO; BONALUME, 2011, p. 21-22). 

Pracinhas em missão na cidade de Montese, abril de 1945. 
e) operações finais (abril e 1945) 

Após assegurar o controle de Montese, as tropas da FEB conseguiram outro grande feito, equiparável ou superior, segundo alguns, ao de tomar Monte Castelo. Com a capitulação da cidade de Montese, as tropas americanas e britânicas deram seguimento a tomar as localidades nos arredores. Os pracinhas também fizeram o mesmo. Zocca (20/04), Formigene (25/04), Parma (25/04), Collechio (26/04) e Fornovo (26/04), Placenza (26/04), Cremona (29/04), Lodi (29/04), Alessandria (30/04). Várias frentes da FEB tomaram direções distintas para ir libertando as cidades citadas acima, porém, não houve conflitos significativos, apesar de ter havido troca de tiros e alguns feridos. No entanto, o grande destaque para esse final de abril ocorreu em Fornovo. 

Fornovo di Taro era uma cidade pequena e ainda hoje se conserva da mesma forma, possuindo menos de 6 mil habitantes. Situada no norte da Itália, aquela localização estava sendo ocupada pelo 148o Batalhão de Infantaria e um regimento da 90a Divisão de Panzer Granadier, os quais juntos contavam com mais de dez mil homens, sendo liderados pelo general Otto Freter Pico, veterano da Primeira Guerra. Mas além de tropas nazistas, havia também tropas fascistas da Divisão Bersaglieiri, comandada pelo general Mario Carloni. Desde o dia 24 de abril um grupo da Resistência Italiana, já cercavam sem sucesso os nazifascistas. Com a chegada de tropa das 1a Divisão da FEB, auxiliada pela artilharia motorizada americana dos batalhões 751o e 894o, estes se aliaram a Resistência italiana e intensificaram a ofensiva. (WAACK, 1985, p. 203-205). 

A Batalha de Fornovo se estendeu por mais três dias. As tropas nazifascistas planejaram uma retirada, pois não estavam em situação de prolongar o conflito, foi nessa ocasião que o general Zenobio autorizou a proposta de rendição, já cogitada desde o dia 27. Na tarde do dia 29, o major Kuhn, chefe do Estado-Maior da 148o Divisão, apresentou interesse na proposta, mas aguardaria as ordens de seu general. Na noite do dia 29, o major Khun e mais três oficiais se dirigiram ao acampamento brasileiro apresentando os termos de rendição. No dia seguinte, os generais Fico e Carloni se apresentaram pessoalmente para validar a rendição. Eles seriam escoltados para os campos de prisioneiros ao norte de Parma, enquanto os dois generais foram levados para Veneza, a qual estava ocupada pelos americanos.14.479 prisioneiros entre alemães e italianos foram feitos na ocasião, além de 1.500 veículos, 80 canhões e milhares de armas e muita munição. A maior captura de prisioneiros no contexto italiano da Segunda Guerra. Os prisioneiros foram escoltados por Parma, sob vaias e xingamentos, mas a FEB assegurou a passagem segura, sendo posteriormente elogiada pelo profissionalismo diante daquela ocasião. (WAACK, 1985, p. 205-208; SILVA, FOLY, 2013, p. 23). 


O general alemão Otto Freter Pico diante de oficiais brasileiros. 30 de abril de 1945, Fornovo, Itália. 
"A rendição da 148a, unidade que se foi desviando do inimigo até não ter mais saída, e capitulou porque não via sentido em continuar a luta, foi de fato uma exceção no final da guerra na Itália. Seus sobreviventes consideram a rendição como parte das negociações gerais que se efetuavam no momento entre alemães e Aliados. Para outros adversários dos brasileiros nessa campanha, o epílogo dos combates se confunde com a inútil tentativa de fugir para os Alpes". (WAACK, 1985, p. 209). 

Antes da rendição da 148, no dia 28 de abril a cidade de Salò havia sido invadida pela Resistência e Mussolini havia sido executado. Outros líderes da ditadura fascista começaram a se render nos dias seguintes. A rendição dos nazistas em Fornovo contribuiu para acelerar o fim da guerra em território italiano. A 2 de maio de 1945, tropas da FEB encontravam em Susa, na França, tropas do Exército Francês, que os saudaram pela bravura e desenvoltura na Itália. A guerra estava chegando ao fim. 

Um pouco sobre a FAB na guerra

Embora o foco desse texto tenha sido a FEB, todavia, mencionei de forma breve a FAB em momentos anteriores. Agora, antes de encerrar o texto, retomo alguns comentários pontuais sobre o papel da FAB na Segunda Guerra Mundial. No caso, a FAB atuou de duas formas na Segunda Guerra, através do 1o Grupo de Caça, chamado de Senta a Pua!, comandado pelo major Nero Moura, estando subordinado ao 350o Grupo de Combate da Força Aérea Americana. O segundo grupo era a 1a Esquadrilha de Ligação e Observação (1o ELO), chamada de Olho Nele!, sob comando do capitão João Afonso Fabrício Belloc, estando subordinada a Artilharia Divisionária da própria FEB. Neste caso, o Senta a Pua atuava em missões de ataque, enquanto o Olho Nele tinha como função realizar observações, mapeamentos e reconhecimento do território inimigo. 

"O 1o ELO ou Olho Nele foi um grupo bem pequeno se comparado ao Senta Pua. O Olho Nele era formado por 11 oficiais aviadores, 1 intendente, 8 sargentos mecânicos, 2 sargentos de rádio, 8 soldados auxiliares de manutenção e 10 aeronaves HL-Piper Cub ou L-41 H". (LIMA, 1986, p. 337). 


Um Piper Cub da 1o ELO da Força Aérea Brasileira, em missão na Itália, 1944. 

“A missão recebida pelo Comandante da 1ª ELO, o Capitão Aviador João Affonso Fabrício Belloc, era a de executar voos isolados sobre o campo de batalha e sobre a própria linha de frente inimiga, em aviões desarmados, tipo L-4H – Piper Cub. No transcorrer da guerra, foram cumpridas as seguintes missões: reconhecimento e localização de objetivos, regulação pronta e eficaz da artilharia, identificação de posições aéreas de reunião e bases de partida, reconhecimento de itinerários, orientação de blindados através do campo, localização de demolições, acompanhamento do inimigo em retirada e ligações de emergência”. (GONÇALVES, 2016, p. 7-8). 

Ao todo a 1o ELO ou Olho Nele, realizou 684 missões de guerra, 1.956 voos, totalizando 2.388h15min de voo, operando por 184 dias, de 12 de novembro de 1944 a 29 de abril de 1945. Embora a 1o ELO ainda realizou missões extras nos meses de maio e junho. As bases de operação ficavam situadas em Pisa, Pistóia, Suviana, Porreta Terme, Montecchio, Piacenza, Portalbera e Bergamo. Suas missões renderam medalhas de honra para alguns dos pilotos, além de terem sido importantes para auxiliar as tropas brasileiras, americanas e inglesas. (LIMA, 1986, p. 339-344). 

Emblema do Olho Nele! da 1a Esquadrilha de Ligação e Observação da FAB. 
“As missões aéreas realizadas pela 1ª ELO eram longas e árduas. As dificuldades enfrentadas eram muitas, tais como: a exigente topografia da região em que operavam (os Montes Apeninos), as condições atmosféricas durante o inverno (com nuvens que dificultavam a visibilidade e a passagem entre os morros), a pouca potência de seus pequenos aviões, o desconforto da cabine não aquecida, a longa permanência sobre as linhas de frente, as pistas de pouso precárias de onde tinham que operar e o fogo antiaéreo inimigo das perigosas baterias antiaéreas alemães - as Flak - com seus canhões de 88 mm que poderiam destruir até blindados”. (GONÇALVES, 2016, p. 9). 

O 1o Grupo de Caça começou a agir em 31 de outubro de 1944, tendo como base inicial, Tarquínia, onde trabalhou ao lado dos esquadrões aéreos americanos 345, 346 e 347. O contingente militar do Senta a Pua era bem superior ao do Olho Nele, contando com 376 militares, o que incluía 49 pilotos, algumas enfermeiras, oficiais americanos e italianos, e o restante era formado pelos oficiais, soldados e aspirantes que forneciam apoio em terra e cuidavam da logística e manutenção. O Senta a Pua participou de 445 missões de guerra, totalizando 5.465 horas de voo em guerra, em 151 dias de atividade de combate, entre as datas de 31 de outubro de 1944 a 2 de maio de 1945. Sendo que o 2o Tenente Aviador Alberto Martins Torres, realizou sozinho 99 missões de ataque. (LIMA, 1986, p. 39, 441-448). 

Piloto da FAB posando ao lado do emblema do Senta a Pua! no avião P-47 Thunderbolt. 
A Senta a Pua era denominada pelo codinome de Jambock (um tipo de chicote indonésio usado para castigo), sendo subdividida nas esquadrilhas Azul, Verde, Vermelho e Amarelo. Embora houve alguns aviões que não faziam parte dessas esquadrilhas. Os pilotos que pertenciam as esquadrilhas, usavam lenços com as cores das mesmas. Do contingente de 376 membros, 9 pilotos morreram em combate ou acidente, 5 pilotos foram capturados pelo inimigo, 7 foram afastados por motivo de saúde, além de que oficiais terrestres faleceram ou adoeceram. Apesar desse desfalque o Senta a Pua conseguiu cumprir suas missões, destruindo 2 aviões em solo, 13 trens, 1304 veículos motorizados, 25 pontes, 41 estradas, 144 edificações usadas pelo inimigo, 19 embarcações, 3 refinarias, 85 postos de artilharia, 125 instalações diversas, etc. (http://www.jambock.com.br/v4/historia/estatisticas/resultados). 

O fim da guerra para a FEB 

Em 2 de maio de 1945, data que alguns membros da FEB chegaram a cidade francesa de Susa, foi assinado pelo general alemão Von Senger und Etterlin e o general americano Mark Clark a rendição das tropas alemães na Itália. Cinco dias depois o general Alfred Jodl, Chefe do Estado-Maior da Wehrmacht, reconhecia em Reims, na França, a rendição total das tropas alemães em Itália. No dia 8 de maio os jornais italianos noticiavam o fim da Segunda Guerra em seu território. Apesar da comemoração pelos brasileiros, americanos, ingleses, italianos, franceses, etc. a Segunda Guerra ainda não havia terminado, ela continuava em outros países e continentes, de qualquer forma, a vitória obtida na Itália, a qual contou com sofrido e bravo apoio da FEB, era de ser celebrada. Porém, nem todos podiam comemorar essa conquista. As tropas alemães ainda precisavam deixar a Itália, além de haver grupos fascistas inconformados com a derrota, e continuavam como ameaça. Com isso, a FEB foi designada como força de ocupação, contenção e proteção nas cidades de Piacenza, Voghera, Tortona e Alessandria, ao longo do mês de maio, até que no começo de junho foi convocada para Francolise, próximo de Nápoles, onde ficou estacionada, aguardando autorização para retornar ao Brasil. (SILVA; FOLY, 2014, p. 23-24). 


Mapa com o roteiro da FEB na Campanha da Itália, trazendo dados estatísticos diversos. 
A atuação da FEB em guerra durou 239 dias, entre 06 de setembro de 1944 a 02 de maio de 1945. Apesar que a força continuou a realizar outras operações até o mês de junho, mas não mais em estado de guerra. Foram feitos 20.573 prisioneiros, a maioria soldados, mas incluindo também 2 generais e 892 oficiais. A FEB perdeu 443 homens (ou 451 ou 457, se acrescentar os mortos do Senta a Pua) e teve 2.722 feridos. 35 pracinhas foram feito prisioneiros, alguns não retornaram com vida, e outros 23 foram dados como desaparecidos. 

Os regimentos que mais sofreram baixas foram o Primeiro (vanguarda), o Onze e o Sexto, os quais respectivamente perderam 144, 124 e 103 homens. Durante os 239 dias de ação, a FEB enfrentou três unidades fascistas a Itália, a Monte Rosa e a San Marco. Por sua vez, confrontou dez unidades nazistas, o Corpo de Paraquedistas Blindados "Herman Goering", as 42a e 114a Divisões Ligeiras, as 29a e 90a Panzer Granadier (divisões de blindados), as 94a, 148a, 232a, 305a e 334a Divisões de Infantaria. Além dos mais de 20 mil prisioneiros feitos, a FEB capturou 80 canhões de calibres diversos, 1.500 veículos, 4.000 cavalos, milhares de armas e munição, mais de cinquenta localizações liberadas. (COSTA, 1977, p. 76). 

O retorno ao Brasil e a crise do Estado Novo

A partir de julho teve início o retorno da FEB ao Brasil. No dia 6 de julho, mesma data que autorizava o embarca do 1o Escalão, foi decretado pelo Aviso 217-185, assinado pelo Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra, a dissolução da Força Expedicionária Brasileira. Os militares regulares voltariam para seus quartéis de origem, os recrutas e voluntários estavam dispensados. O 1o Escalão chegou abordo do navio General Meigs à cidade do Rio de Janeiro em 18 de julho de 1945, sendo recebidos com um desfile militar e ruas lotadas de público. Eram tratados como heróis de guerra. 

"O 2a Escalão, à base do 1o RI, 6.187 expedicionários, partiu de Nápoles a 12 de agosto, chegando ao Rio a 22, no navio americano Mariposa. O 3o, composto por 1.801 homens do Depósito de Pessoal, viajou no navio brasileiro Duque de Caxias, de 28 de agosto a 19 de setembro. O 4o Escalão, com 5.342 homens, principalmente o Onze, veio no General Meigs, partindo a 4 e chegando a 19 de setembro. O 9a Batalhão de Engenharia e as tropas divisionárias viajaram no Pedro I e no Pedro II, chegando a 3 e 13 de agosto. A 3 de outubro, pelo navio americano James Parker, chegavam ao Rio os últimos integrantes da FEB". (COSTA, 1977, p. 76-77). 

Um dos desfiles militares realizados para dar boas-vindas a FEB. Brasil, 1945. 
Apesar da festa feita para se receber os pracinhas, Getúlio Vargas havia ordenado em julho o fim da FEB, talvez evitando que a mesma pudesse ser usada contra ele. Afinal, a FEB representava a luta contra ditaduras, e seria um tanto paradoxal manter esse símbolo numa ditadura. No ano de 1945 o Estado Novo estava em crise. Vargas era cobrado por seus ministros e aliados políticos, por mudanças. As ditaduras nazista e fascista ruíam na Europa, junto a elas, iam também outras ditaduras menores de inspiração fascista. O presidente americano Roosevelt havia falecido antes do término da guerra, e o seu sucessor o presidente Harry S. Truman não era favorável a ditaduras. Os acordos econômicos com o Brasil começaram a desandar. Vargas era forçado a convocar eleições ou renunciar. Os dois foram feitos, tendo ele renunciado em 29 de outubro, sob ameaça de sofrer um golpe militar. (SILVA; FOLY, 2014, p. 26).

A imagem da FEB serviu a propósitos políticos, Eurico Gaspar Dutra que era militar, usou tal condição para ganhar apoio, durante seu governo entre 1946-1951. Em 1964 com o golpe militar, escolheram o general Humberto Castelo Branco para assumir como presidente interino (1964-1967), sendo um dos motivos, a condição de ele ter sido veterano da FEB. Inclusive em alguns de seus discursos, Castelo Branco usou a memória dos pracinhas em combater governos populistas e autoritários, para justificar a "revolução" que ele estava participando. O curioso é que a ditadura militar agiu da mesma forma, promovendo um governo populista e autoritário. 

“Para entendermos as conseqüências que a guerra trouxe para aqueles que efetivamente participaram dela, é necessário lembrar que a maioria dos expedicionários foi recrutada no meio civil, nas classes mais empobrecidas e de menor escolaridade. Foram tirados de seus empregos, das escolas, de suas famílias, treinados e embarcados para a guerra. Por lei, teriam o direito de retomar seus empregos e estudos no retorno ao país. O tempo passou, e começaram a surgir as dificuldades de reintegração social. Não houve, nem por parte do governo, nem da sociedade brasileira em geral, preparação para receber os jovens que voltavam. Estes, que viveram a experiência-limite que é participar de uma guerra, estavam naturalmente mudados. A maioria conseguiu retornar às rotinas da vida familiar e cotidiana sem muitos problemas. Uma parcela dos ex-combatentes, no entanto, encontrou dificuldades na readaptação às rotinas da vida civil, agravadas pela concepção popular de que voltaram “neuróticos de guerra”. Alcoolismo e violência doméstica dificultavam a reintegração social. As pessoas já não queriam mais ouvir suas histórias de guerra, e não era raro ao ex-combatente ouvir de populares que o período passado na Itália foi mais um “passeio” que uma guerra de verdade”. (FERRAZ, 2005, p. 47). 

Por alguns anos os ex-integrantes da FEB foram esquecidos. Apesar de alguns deles estarem ainda na ativa e participando da política, os menos favorecidos foram abandonados, pois o governo não lhes forneceu ajuda, e o reconhecimento foi breve. Excetuando-se os desfiles e condecorações ocorridas entre 1945 e 1946, nos anos seguintes a FEB era pouco mencionada, mesmo que alguns monumentos foram erguidos nos anos seguintes. Apenas em 1963 foi criada a Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB), no intuito de garantir e assegurar o reconhecimento e a memória dos mais de 25 mil brasileiros e brasileiras que lutaram na Segunda Guerra. 

Mesmo durante a ditadura militar a história da FEB passava despercebida. O General Octávio Costa comentava que a sociedade não tinha ciência do que havia sido a FEB, o que eles fizeram e o valor da luta deles para o patriotismo brasileiro, e o jornalista Joel Silveira comentava o mesmo, em matéria ao Jornal do Brasil, em 10 de janeiro de 1976. O interessante é que em pleno governo militar algo do tipo ocorria. Ferraz (2005) sugeriu que o fato da FEB ter combatido ditaduras militares europeias, gerava um problema para o governo militar que recebia desde 1967, acusações internas e externas de ser uma ditadura. Logo uma ditadura exaltar homens e mulheres que combateram ditaduras, era um paradoxo. 

De qualquer forma a participação da FEB na Segunda Guerra Mundial é algo marcante na história brasileira. Uma força criada com vários problemas de logística e despreparo, que foi alvo de críticas negativas sobre se realmente eram capazes de lutar numa grande guerra, e depois que retornaram vitoriosos, anos depois, ainda eram zombados ou foram esquecidos. Mas além dessas questões de desprezo que infelizmente marca a falta de sensibilidade de alguns brasileiros, a FEB e a FAB mostraram com esforço e bravura ao longo de vários meses, tendo conquistado vitórias importantes. A cobra realmente fumou. 

NOTA: Walt Disney além de ter feito sua própria versão da cobra fumando da FEB, em 1941 havia visitado o Brasil. No ano seguinte apresentou em tirinhas de jornal, o personagem do papagaio Zé Carioca
NOTA 2: A escritora  e jornalista ucraniana, mas naturalizada brasileira, Clarice Lispector (1920-1976), quando morou em Nápoles entre 1944-1945, foi voluntária num hospital militar que cuidava dos feridos da guerra. Na ocasião, a FEB estava já em missão. Lispector ajudou algumas das enfermeiras da FEB. 
NOTA 3: O importante economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004), serviu na FEB. 
NOTA 4: O emblema do 1o Grupo de Caça, que representa um avestruz com um escudo, revólver e usando quepe, foi criado pelo Capitão Fortunato Câmara de Oliveira, enquanto ele e o 1o GC estavam em treinamento no Panamá, no ano de 1944. O capitão Oliveira comentou que a escolha do avestruz se deveu a dois motivos: o fato dos pilotos brasileiros serem chamados de "estômago de avestruz", pois comiam quase qualquer coisa, como um avestruz supostamente faria. O segundo motivo advém da condição do avestruz ser uma ave veloz, uma analogia a velocidade dos P-47 Thunderbolt. 
NOTA 5: A gíria senta a pua é de origem nordestina e se desconhece a data que tenha surgido. A gíria passou a ser usada pelo 1o Grupo de Caça entre 1943-1944, na Base Aérea de Salvador, devido ao 1o Tenente Aviador Firmino Ayres de Araújo, natural de Patos, na Paraíba. O tenente paraibano tinha o hábito de usar essa gíria para pedir que as pessoas se apressassem. A gíria foi incorporada pelo grupo de caça, pois o tenente Araújo foi um de seus instrutores. Porém, no contexto do grupo de caça, a gíria senta a pua tornou-se seu grito de guerra, passando a significar ataque intenso. 
NOTA 6: Na Itália existem alguns monumentos em memória dos pracinhas que ali lutaram, se feriram ou morreram. O mais conhecido é o Monumento Votivo Militar Brasileiro, antigo cemitério militar dos pracinhas, em Pistoia. Em Montese existe um pequeno museu dedicado a FEB. 
NOTA 7: No Brasil temos vários monumentos, ruas, avenidas, praças, bairros, etc. dedicados a FEB. Apesar que muitos estejam abandonados, depredados e a população nem sabe o significado deles. 
NOTA 8: No Brasil existem vários museus em memória a FEB, embora a maioria sejam pequenos e desconhecidos. Entre os mais conhecidos estão os museus da FEB do Rio de Janeiro, Petrópolis, Belo Horizonte e Curitiba. 
NOTA 9: Em 8 de setembro de 1944 o maestro e compositor Spartaco Rossi e o compositor Guilherme de Almeida, escreveram a música Canção do Expedicionário, a qual tornou-se hino oficial da FEB. 
NOTA 10: O Carnaval em Veneza é o hino nacional do 1o Grupo de Caça ou Senta a Pua. A letra bem modesta, surgiu de uma conversa de bar entre os pilotos Benedito Lacerda, Erivelto Martins, capitão Pessoa Ramos, tenente Rocha, tenente Perdigão e tenente Rui, os quais em 1945, participaram de uma missão de bombardeio em Veneza. 

Referências Bibliográficas:
COSTA, Octávio. Trinta anos depois da volta. O Brasil na II Guerra Mundial. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1976. 
DONATO, Hernâni. Dicionário das Batalhas Brasileiras. 2a ed. São Paulo, IBRASA, 1996. 
FERRAZ, Francisco César. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 2005. 
GONÇALVES, Daniel Evangelista. Olho Nele! Esquadrilhas de Ligação e Observação. Rio de Janeiro, Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica, 2016. 
LIMA, Rui Moreira. Senta a Pua! Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1986. 
LIRA NETO. Getúlio: do governo provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945). São Paulo, Companhia das Letras, 2013. 
MAXIMIANO, C. C; BONALUME, R. Brazilian Expeditionary Force in World War II. Illustraded by Ramiro Bujeiro. Oxford, Osprey Publishing, 2011. (Men-at-Arms 465). 
SALES, André Valério. 2a Guerra Mundial: o torpedeamento do Cruzador Bahia pelos nazistas e a História de um Herói Potiguar. João Pessoa, Editora Universitária, 2009. 
SILVA, Marcos Valle Machado da; FOLY, Fernanda Martins. Força Expedicionária Brasileira: 70 anos. Uma análise política do processo de negociação, criação e dissolução. Revista Brasileira de História Militar, ano IV, n. 11, agosto de 2013, p. 11-29. 
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castelo. 7a ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982. 
WAACK, William. As duas faces da glória: a FEB vista por seus aliados e inimigos. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985.