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Leandro Vilar

domingo, 21 de junho de 2020

Uma história do macarrão

O macarrão, pasta, noodle é um dos alimentos mais versáteis e fáceis de ser preparado (não me refiro a ser fabricado), consistindo basicamente numa massa geralmente feita de farinha de trigo e outros ingredientes, a qual possui diversos formatos, e tornando-se a base para diversas receitas, podendo ser consumido quente, frio, cozido, frito, etc. Embora a Itália seja popularmente reconhecida como o "país do macarrão", não foram os italianos que inventaram esse alimento, porém, não podemos negar que eles criaram vários tipos de massa e popularizam o macarrão no Ocidente. Neste texto conheceremos a respeito da história do macarrão, em mais uma postagem sobre a história dos alimentos. 

Origem e difusão:

Diferente de outros alimentos visto nos artigos sobre a história dos alimentos que venho postando neste blog, já alguns anos, o macarrão não é um alimento encontrado na natureza, mas um alimento fabricado, assim como o açúcar e chocolate. Logo, enquanto em outros estudos eu iniciava falando das plantas que originam o açúcar como a cana de açúcar, ou cacau para o chocolate, ou até mesmo escrevi sobre o cafeeiro, o arrozal e o pé-de-milho, aqui não falarei sobre o trigo, já que este ficará para outra história devido a suas várias utilidades. 

Neste caso, a origem do macarrão é atribuída aos chineses, embora que não se saiba quando ele exatamente tenha sido inventado. Os relatos escritos mais antigos que se conhecem sobre o macarrão na China, datam da Dinastia Han (206 a.C - 220 d.C), o que sugere que o macarrão já fosse conhecido dos chineses a mais de dois mil anos atrás. Consistindo numa massa feita a base de farinha trigo ou de farinha de milhete, sendo cortada em fios e deixada para secar. Após secar, a massa era cozida em água fervente e os demais ingredientes são acrescentando na mesma panela ou colocados depois no preparo do prato. Todavia, escavações arqueológicas chegaram a encontrar fios de macarrão com milhares de anos. (SERVENTI; SABAN, 2003, p. 4). 

Restos de macarrão datados de 4.000 mil anos atrás. Encontrados em 2005 nas escavações de Laija, em Qinghai, na China. Tal descoberta consiste no indício mais antigo conhecido da existência do macarrão. 

A partir da China o macarrão espalhou-se para a Coreia, Mongólia, Japão, Tailândia, o Sudeste asiático, Índia, e com os persas, árabes e outros povos da Ásia Central, foi sendo disseminado até o Oriente Médio

Shelke (2016, p. 18) comenta que os judeus do século V d.C. já tinham conhecimento de um tipo de macarrão, chamado de itriyah, palavra que vinha do grego itrion. Esse macarrão é citado nos debates sobre que tipos de comidas os judeus poderiam ou não consumir. No caso, não se sabe se esse macarrão seria uma receita advinda da China ou surgida em outra região, pois Shelke assinala que embora os exemplares mais antigos de macarrão datem da China, os chineses não foram os únicos a inventarem receitas de macarrão. Gregos e romanos já faziam isso, algo que comentarei adiante, além de que os persas teriam difundido receitas de macarrão pela Ásia Central, séculos antes dos judeus se indagarem quanto a validade de consumi-lo ou não.

De qualquer forma, no século IX encontram-se registros de tipos de macarrão sendo consumidos no norte da África, na ilha da Sicília e na península ibérica sob ocupação moura. Através dos árabes, o macarrão deixou o Oriente Médio e foi exportado para regiões na África e Europa. A Sicília sob ocupação islâmica tornou-se referência no consumo de macarrão no medievo até mais ou menos o século XIII, quando essa comida começa a ser espalhada por outros Estados italianos e a ganhar admiradores. (SHELKE, 2016, p. 18). 

No caso da Itália, até o século XX, creditou-se a lenda que o viajante Marco Polo (1254-1324) teria trazido a receita do macarrão após ter retornado da China, onde viveu pelo menos quinze anos. De fato, em seu livro Polo cita o macarrão entre os alimentos consumidos pelos chineses, apesar que na obra ele não dê um nome específico para a comida, mas diz se tratar de fios de massa, acompanhados por vários condimentos como carnes, legumes e molhos, sendo bastante apreciado pelos chineses. A questão é que não há evidência que apontem que Marco Polo tenha disseminado o macarrão na Itália, até porque a receita do macarrão chegou antes dele. (SERVENTI; SABBAN, 2003, p. 10). 

Kantha Shelke (2016, p. 15-16) trabalha com a perspectiva que o macarrão no sentido de massa feita de trigo com diferentes formas, sendo acompanhada por molhos, carnes e legumes, já existia entre os antigos gregos e romanos. O que teria vindo da China foi a receita de fazer macarrão em fios, pois os gregos e romanos comeriam macarrão de outra maneira. 

Sobre isso, Shelke (2016, p. 16-17) comenta a existência de palavras gregas como laganon, uma massa feita de farinha, em tiras achatadas. A palavra laganon era conhecida dos romanos e o próprio Marco Túlio Cícero, famoso político e escritor, cita no século I a.C. a existência desse alimento, o qual já era consumido em Roma e chamado de laganum. Além de Cícero, o poeta Ovídio menciona em Sátiras, que ele gostava de comer um prato feito de frango e acompanhado de laganum. Posteriormente Marcus Gavius Apicius em seu livro de culinária intitulado De re coquinaria (século I d.C), menciona uma receita chamada patina quotidiana, a qual lembra uma espécie de lasanha, sendo recheada com carnes, frutos do mar ou legumes. Além disso, a autora também sublinha que outros tipos de macarrão já haviam chegado através de comerciantes árabes, venezianos, genoveses e de outras procedências, muitas décadas antes de Marco Polo ter nascido. 

Nomenclaturas

Os antigos chineses chamavam o macarrão de mei, mian, entre outras palavras. No Japão o macarrão é conhecido normalmente como men, udon, soba, embora haja outras palavras para se referir a alguns tipos específicos de macarrão e massas. 

No caso da palavra macarrão, essa é de origem italiana, remontando desde a Idade Média, onde encontram-se referências a macaroni, embora que atualmente em italiano a palavra seja escrita como maccheroni. Tal palavra é uma variação do grego makaria, termo usado para um tipo de massa servida durante o luto. Todavia, entre 1500 e 1800, a palavra vermicelli também foi usada como sinônimo de macarrão. Porém, perdeu seu uso devido a sua etimologia está associada com palavra verme. Embora que atualmente seja mais comum usar as palavras spaghetti ou pasta. (SHELKE, 2016, p. 29). 

Por sua vez, a palavra pasta que é usada em vários países europeus como sinônimo de massas alimentícias, geralmente associadas ao macarrão, essa palavra é de origem latina, sendo uma latinização da palavra grega pásti, que era usada para se referir a uma massa feita de farinha. Desde então tal conceito é até hoje empregado no Ocidente. 

Mas além da palavra macarrão ser de origem italiana, outras palavras italianas para diferentes tipos de macarrão também se popularizaram como: spaghetti (que é utilizada como sinônimo de macarrão em alguns países), tagliarini, lasagna, raviolli, fusili, capeletti, fettucine, penne etc. Tais nomes se devem por duas condições principais: o formato da massa e os tipos de prato feitos com elas. 

Alguns tipos de macarrão. Estes são de origem italiana, mas dependendo do país, existem palavras locais para nomeá-los. 

Atualmente em língua inglesa vem se usando a palavra noodle, a qual advém do alemão nudel, termo do século XVIII, usado também para se referir a macarrão de fios. No caso atual, se usa especificamente noodle para se referir aos macarrões de fios finos da cozinha oriental (principalmente a culinária japonesa e chinesa). Inclusive no Japão e Coréia do Sul, a palavra já é empregada também como sinônimo de macarrão de fios, inclusive tornando-se até referência para o macarrão instantâneo vendidos em copos, fato esse que existe a marca Cup Noodles, famosa nesse ramo alimentício. 

Os espanhóis passaram a chamar o macarrão com o qual tiveram contanto no sul da Itália, de fidelini (que significa fio), que tornou-se fideo. Ainda hoje se encontra tal palavra na Espanha e nos países hispânicos na América Latina, empregando o termo fideo para macarrão, apesar que se use pasta mais normalmente. 

A Itália: "o país do macarrão"

Embora a Itália seja conhecida hoje como "país do macarrão", por séculos esse alimento não foi um símbolo nacional, além de estar restrito a Sicília e algumas cidades do sul da Itália, sendo até mesmo desconhecido em outros países europeus. No século XII quando os normandos (advindos do noroeste da França) invadiram a Sicília para conquistá-la, algo que realmente ocorreu, na época a ilha que era governada pelos árabes, lá já se comia macarrão. Os normandos tiveram contato com esse alimento.

No século XIV já encontravam-se máquinas para se fazer macarrão. Basicamente consistia num cilindro com furos em uma das pontas. O recipiente era preenchido com a massa fresca, então colocava-se uma alavanca para torção, com isso ia torcendo-se a alavanca, forçando a massa sair pelos orifícios, e dessa forma formava-se os fios de macarrão. Tais máquinas foram chamadas em algumas épocas de madia, ou gramola, ou bigolaro, e já eram conhecidas dos padeiros, que as usavam para preparar alguns tipos de massas para pães, bolos e doces. Já outros formatos de macarrão eram feitos com outras máquinas ou manualmente, moldando-os com fôrmas e outros instrumentos. (SHELKE, 2016, p. 51-52). 

Um bigolaro contemporâneo, usado para se fazer macarrão caseiro ou artesanal. 

A partir da Sicília o macarrão foi aos poucos sendo difundindo pela península Itálica. No século XIV, o famoso poeta Boccaccio (1313-1375) escreveu um elogio a essa comida. Em um dos 100 contos que formam O Decamerão, o poeta fala de uma terra da comida chamada Bengodi, onde havia uma montanha coberta de queijo parmesão, onde as pessoas que ali viviam, criavam galinhas gordas e comiam delicioso macarrão e ravioli. (SHELKE, 2016, p. 19). 

No livro de culinária De Arte Coquinaria per Vermicelli e Maccaroni Siciliani, datado do século XV e atribuída a autoria ao mestre Martino da Como, esse livro apresenta algumas receitas específicas para se fazer macarrão e aletria (vermicelli), sendo que a aletria é parecido com um espaguete de fios bem finos, embora seja usado para se fazer doces e não apenas comida salgada. De qualquer forma, o interessante é que já no século XV, percebe-se como o macarrão estava difundido pela Itália, havendo até livros de culinária trazendo receitas sobre ele. Além disso, observa-se que o macarrão ainda estava associado a Sicília, local de sua difusão na península Itálica. (SHELKE, 2016, p. 21). 

Já em outros países europeus, o macarrão era desconhecido ou pouco conhecido, sendo considerado até mesmo uma iguaria italiana. Pessoas que viajavam para a Itália tinham contato com essa comida, algumas até chegavam a levar a receita para seus países. Nos séculos XVI e XVII, o macarrão começou lentamente a ser levado para outros países europeus, chegando como uma iguaria italiana, principalmente através de nobres italianos que casavam-se com nobres espanhóis, franceses, alemães e ingleses. Um exemplo é o caso da rainha Catarina de Médici (1519-1589), que nasceu em Florença, e ainda jovem casou-se com o rei Henrique II da França, se mudando para o reino de seu marido. Catarina levou entre seus funcionários, alguns cozinheiros para preparar comida italiana, incluindo macarrão. Apesar de macarrão ser provado por parte da corte francesa, o alimento não se difundiu na França, ainda. 

Por volta do século XVI ou XVII, surgiram na Itália as chamadas bottega di vermicellaio ou cantinas, restaurante especializados na produção de massas. Tais restaurantes se popularizaram rapidamente e até geraram em alguns problemas. Devido a grande demanda de farinha de trigo, os padeiros entraram em conflito com os vendedores de macarrão, gerando desavenças e brigas. As autoridades em algumas cidades tiveram que intervir sobre a produção de trigo para poder atender os dois ramos alimentícios. Além desse caso, em 1641, nos Estados Papais, o papa Urbano VIII expediu um decreto, decretando que as cantinas deveriam se encontrar a pelo menos 23 metros de distância uma da outra, pois estava ocorrendo brigas para se conseguir clientes, pois havia casos que numa mesma rua chegava a ter várias cantinas. (SHELKE, 2016, p. 22-23). 

No século XVIII a cidade de Nápoles era uma referência na produção e consumo de macarrão. Entre 1700 e 1785 o número de cantinas quadruplicou, existindo mais de 300 dessas na cidade. (SHELKE, 2016, p. 24). 

Devido a ocupação espanhola de Nápoles desde o século XVI, os espanhóis introduziram massivamente o uso do tomate na culinária italiana, popularizando-o. Como o tomate é de origem americana, foi graças aos espanhóis que esse fruto foi levado a Europa e África, sendo disseminado por estes continentes. Na Itália devido ao clima quente do sul, o tomate conseguiu se adaptar de forma satisfatória e tornou-se um fruto bastante utilizado na culinária sulista. Foi no antigo Vice-Reino de Nápoles (1505-1707) que o uso de molho de tomate no pratos de massas, se difundiu. Surgindo a pasta a pomodoro (macarrão ao molho de tomate). (CIVITELLO, 2008, p. 265). 

O macarrão ao molho de tomate teria surgido no sul da Itália, possivelmente em Nápoles. Atualmente esse prato é um dos mais comuns consumidos na Itália e em restaurantes italianos em outros países. 

No século XIX, Nápoles era referida como a "cidade das massas" devido a grande quantidade de restaurantes e cantinas que vendiam o produto, além de vendedores ambulantes que vendiam até mesmo macarrão artesanal para ser preparado. Tais vendedores de macarrão literalmente vendiam o produto pendurados em varais. Onde as pessoas compravam pelo peso. Os varais não apenas ajudavam a exibir os produtos, mas facilitavam na hora de cortar os fios para serem vendidos e também eram úteis para secar a massa, o que lhe aumentava o tempo de conservação. (CIVITELLO, 2008, p. 266). 

Vendedores de macarrão em Nápoles, no século XIX. O macarrão estava posto em varais para secar. Fonte: CIVITELLO, Linda. Cuisine and Culture, 2008, p. 266. 

O macarrão seguiu se popularizando na Itália e nos séculos XVIII e XIX. Nesse período, a comida já era encontrada em outros países europeus e até nas Américas, mas ainda restrita a um pequeno público. Somente no século XIX quando as fábricas de macarrão se tornaram mais comuns, este alimento se popularizou no Ocidente, diferente do Oriente, que desde a Antiguidade já era bastante apreciado em alguns países. 

Macarrão industrializado

Ainda no século XVIII difundiu-se as fábricas de macarrão na Itália. O produto ainda era manufaturado, mas já se notava uma produção em larga escala. Na província de Savona e Portomaurizio em meados do XVIII, já contava com 148 fábricas de macarrão, que produziam anualmente 30 toneladas do produto, segundo estimativas da época. No entanto, Savona e Portomaurizio e as cidades vizinhas tornaram-se por longos anos, referência na produção fabril de macarrão. (SERVENTI; SABAN, 2003, p. 115). No século XIX, Nápoles e Gênova se tornaram novamente o polo manufatureiro de macarrão, concentrando em suas regiões a maioria das fábricas. 

No século XIX surgiu a primeira fábrica mecanizada de macarrão, mas não foi na Itália, mas nos Estados Unidos. Em 1848, foi fundada no Brooklyn, pelo empresário francês Antonie Zerega, que era descendente de italianos. Zerega mudou-se para Nova York, onde fundou a Zerega's Sons Inc, a primeira fábrica de macarrão dos Estados Unidos. (SERVENTI; SABAN, 2003, p. 191). 

A Zerega foi a primeira fábrica de macarrão nos Estados Unidos.

O macarrão começou a se popularizar nos Estados Unidos na segunda metade do século XIX, surgindo fábricas em outros estados. Nos idos do XX, foi fundada National Association of Macaroni and Noodle Manufacturers em 1903. Revelando que esse alimento vinha conquistado o gosto americano, apesar que somente após a Grande Guerra (1914-1918) é que a venda de macarrão disparou, motivada tanto por causa da guerra e pela Grande Depressão (1929-1939), devido a ser um alimento barato e rápido de ser preparado. (SERVENTI; SABAN, 2003, p. 192). 

Já no século XX com as melhorias tecnológicas a produção de macarrão intensificou-se e surgiu o macarrão industrializado que hoje consumimos. Se anteriormente o macarrão mesmo em algumas fábricas era colocado ao sol para secar, passou-se a usar-se aquecedores e estufas para desidratar o macarrão, deixando com um aspecto duro e quebradiço, como costumamos ver nos pacotes que compramos no mercado. A desidratação da massa permite que sua conservação se estenda por meses ou um ano. 

Atualmente é comum comprar macarrão industrializado, devido a condição de isso prolongar sua conservação. Além disso, basta colocá-lo em água fervente, que em poucos minutos ele cozinha. 

A partir da década de 1970 com a popularização do forno de micro-ondas nos Estados Unidos e em alguns outros poucos países, começaram a surgir as comidas congeladas, já prontas, as quais eram cozinhadas ou esquentadas nestes fornos. Dentre os alimentos surgidos estavam pratos de macarrão e outras massas como lasanha, capeletti, ravioli, pizza, nhoque, etc. 

O Top Ramen da Nissin, foi introduzido nos Estados Unidos em 1970, sendo uma das primeiras marcas já dirigidas para o uso de fornos de micro-ondas.

Macarrão instantâneo

Conhecido popularmente no Brasil como miojo, o nome se deve a marca Myojo lançada pela Nissin no final dos anos de 1950. O macarrão instantâneo é atualmente bastante consumido em vários países do mundo, por ser um produto industrializado relativamente barato e de fácil e rápido preparo. Sua fórmula deve-se a origem a Momofuku Ando (1910-2007), nascido em Taiwan, mudou-se em 1933 para Osaka no Japão, abrindo uma loja de tecidos, ramo que pertencia sua família. Motivado em ajudar a população japonesa e taiwanesa após a tragédia da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Ando disse que compadecido ao ver pessoas passando fome, decidiu investir no ramo alimentício e fundou a Nissin em 1948

Dez anos depois de ter fundado sua nova empresa, Ando desenvolveu a receita do macarrão instantâneo. Lançado inicialmente apenas no Japão, em 1958, o chikin ramen, consistia num macarrão estilo lámen, pré-frito e desidratado, o qual vinha com tempero artificial sabor galinha, bastando ser colocado em água fervente, por três a cinco minutos e já estaria pronto para consumo. O produto era fácil de ser produzido, pois a ideia de Ando na época era criar um alimento barato para atender a população de baixa renda. Vários anos depois, em 1971, Ando inventou o Cup Noodles, uma outra forma de macarrão instantâneo, que ao invés de ser vendido em pacotes, era vendido em copos, os quais podiam ser enchidos com água quente e ali mesmo o macarrão era cozido. Não necessitando o uso de panelas para isso. (ISHIGE, 2011, p. 253). 

Exemplo de macarrão instantâneo do tipo lámen. 

Na década de 1970 a Nissin chegou aos Estados Unidos, o chikin ramen foi nomeado lá como Top Ramen (nome que ainda conserva), e posteriormente o Cup Noodles chegou também, e em poucos anos se popularizou o macarrão instantâneo por lá. Posteriormente na década de 1990, o produto já era encontrado em vários países do mundo, e outras empresas também passaram a produzir suas próprias versões. Atualmente o consumo de macarrão instantâneo é bastante comum em alguns países, onde há necessidade de ingerir alimentos de forma rápida e fácil. Mesmo que o valor nutritivo desses macarrões instantâneo seja bastante questionável. Ainda assim tal alimento industrializado é tão popular no Japão, que é até culturalmente associado ao país. (ISHIGE, 2011, p. 253). 


O chikin ramen, o primeiro macarrão instantâneo inventado, e ao lado, seu inventor, Momofuku Ando. 

O macarrão pelos países

Itália

Muitas das receitas de macarrão consumidas na Europa, Américas, parte da África, Austrália e Nova Zelândia, advém da culinária italiana. Devido a grande variedade de receitas italianas vou citar algumas gerais que são comumente difundidas nos restaurantes.
  • Macarrão a molho de tomate: consiste numa das receitas mais comuns, que basicamente é comer macarrão de diferentes tipos, acompanhado de molho de tomate. 
  • Macarrão à carbonara: acompanhado de bacon picado, creme de ovos ou creme de leite.
  • Macarrão à putanesca: acompanhado com azeitonas cortadas, molho de tomate, manjericão e anchovas. 
  • Macarrão à bolonhesa: outra receita bem comum, que é a base de carne moída, apesar que o molho leve diferentes tipos de condimentos. 
  • Macarrão a alho, óleo e pimenta: para quem não gosta de pimenta, tem a versão sem essa, que também é bastante consumida. 
  • Macarrão ao molho de manjericão: com gosto forte do manjericão, é acompanhado também de pimenta, pinhão e queijo parmesão. 
  • Macarrão com queijo e pimenta: é diferente da versão americana.
  • Macarrão com almôndegas: acompanhado por molho de tomate, manjericão, parmesão ralado e por almôndegas geralmente feitas de carne bovina. 
Além dessas receitas básicas citadas acima, os italianos também popularizaram o uso do queijo ralado para compor o molho do macarrão, seu consumo com carne, geralmente bovina, e de alguns legumes, os quais geralmente são usados no molho. Porém, os italianos também popularizaram outras massas de macarrão como a lasanha, o capeletti e o ravioli. Sublinha-se que os dois últimos sejam macarrões recheados, geralmente com carne bovina, frango ou suína, mas há receios vegetarianos também. 

À esquerda capeletti e à direita ravioli. Alguns consideram como sendo tipos de macarrão recheado, já que comumente é considerado como fazendo parte das pastas ou massas. 

Japão 

No Japão há vários tipos de macarrão, mas todos seguem o modelo de fios, variando sua espessura, densidade e formas de preparo. Mas as receitas mais comuns são o yakisoba ("macarrão de sobá frito"), o lámen e o udon

O yakisoba é bastante consumido no Japão e se popularizou em outros países no mundo, graças aos restaurantes japoneses e chineses. Apesar que no Brasil não seja difícil encontrar esse prato em restaurantes self-service. A origem dessa receita não é precisada, mas já era vendido nas ruas há bastante tempo. Basicamente o yakisoba consiste em macarrão frito acompanhado de carnes e legumes, os quais podem ser fritos a parte ou junto com o macarrão. Mas dependendo da receita, os legumes e as carnes (bovina, frango, porco e camarão) podem ser cozidas e não fritas. O macarrão usado no Japão é do tipo soba ou lámen, embora que em outros países utilizem-se de tipos similares, que apresentam fio grosso ou no formato de talharim. 

Um exemplo comum de yakisoba

O yakisoba é tão apreciado pelos japoneses que por volta da década de 1950 surgiu um sanduíche inusitado, o chamado pão de yakisoba. Não se sabe exatamente quem teve essa ideia, mas ela começou a se espalhar em pouco tempo. Atualmente é comum encontrar esse sanduíche em lojas de conveniência, mercados e padarias. Entre os estudantes esse tipo de sanduíche é apreciado como lanche escolar, algo até visto em mangás e animes sobre o assunto. Basicamente o pão de yakisoba é um pão longo parecido com o de cachorro-quente, e no qual é recheado com yakisoba. 

Um pão de yakisoba. Esse tipo de sanduíche é bastante comum no Japão, sendo desconhecido em outros países e até considerado algo exótico ou estranho. 

Outra receita bastante consumida no país é o lámen (ramen em japonês), que consiste numa espécie de sopa de macarrão, baseada numa receita chinesa. Não se sabe quando o lámen surgiu, pois alguns estudiosos apontam a segunda metade do século XIX, quando imigrantes chineses foram para o Japão e começaram a preparar suas sopas de macarrão, que vieram a ser chamadas de lámen. Outros estudiosos sugerem que tal prato tenha começado a se difundir no país no começo do século XX, mas somente se popularizando após a Segunda Guerra. (ISHIGE, 2011, p. 252). 

O lámen é feito de macarrão do tipo lámen de fios mais finos e cacheados, ou macarrão do tipo sobá. O lámen é preparado com caldo de frango, de porco ou bovino, algumas receitas usam caldo de camarão ou de peixe. O prato é acompanhado de pedaços de carne, legumes, ovos, brotos de bambu, algas, cogumelos etc. Tais acompanhamentos variam de acordo com a receita e a localidade, onde se tem preferência para determinados sabores e ingredientes. 

Um exemplo de lámen

Um terceiro tipo de macarrão japonês que cito é o udon. Esse macarrão de fios mais grossos pode ser usado para vários tipos de receitas, sendo consumido como sopa, com molho, carnes e legumes, podendo ser até consumido em receitas frias. Segundo uma antiga lenda, o udon teria sido trazido da China no século X, pelo monge Kukai (774-835). Outros apontam que a receita teria chegado posteriormente. O udon possui uma variedade de ingredientes que variam de acordo com gostos locais. Seu molho faz uso de shoyu ou de molhos de carnes, peixes e legumes. (ISHIGE, 2011, p. 249). 

Um prato de Udon. Visualmente ele é parecido com o lámen, mas mudando os ingredientes, forma de preparo e tipo de macarrão usado. 

Brasil

Com a imigração italiana chegada ao Brasil a partir da década de 1870, o macarrão foi sendo difundido pelo país através dos italianos. Mais de um século depois o macarrão é um alimento bastante apreciado pelos brasileiros e comum nos restaurantes e nos lares. No caso, o tipo mais consumido são o espaguete, seguido do talharim e depois da lasanha. As variedades como penne, parafuso, cabelo de anjo, fettucini, ravioli, capeletti, são encontradas em mercados para preparo e em alguns restaurantes. 

No Brasil é muito comum o consumo de macarrão ao molho de alho e óleo, molho de tomate ou molho à bolonhesa (embora leve condimentos próprios da culinária brasileira como ervilhas, milho verde, creme de leite, pimenta, etc.), o qual é conhecido popularmente como macarronada ou macarrão com carne moída. Já o segundo prato de massa mais consumido é a lasanha à bolonhesa, que é também bastante apreciada no país, ao lado das receitas com quatro queijos, queijo e frango e outras variedades próprias como lasanha de berinjela e lasanha de espinafre

Sopa de macarrão também é uma receita comum no Brasil, mas essa versão do prato é diferente da vista em outros países. Geralmente as sopas brasileiras de macarrão levam batata e cenoura, podendo ser acompanhadas ou não de pedaços de carne ou de frango. Um outro hábito comum do brasileiro é o consumo de macarrão acompanhado com arroz e feijão, combinação bastante popular no país. Inclusive há pessoas que até consomem estrogonofe acompanhado de macarrão. 

Um exemplo típico brasileiro, um prato com macarrão, arroz, feijão e farofa. Soma-se a ele algum tipo de carne, batata frita, ovo cozido, ovo frito, salada de alface e tomate. Embora possa ser consumido dessa forma também, sem acompanhamentos. 

Estados Unidos

Nos Estados Unidos o macarrão chegou através dos ingleses, italianos e chineses. Mas em geral a população americana consome pouco macarrão apesar da antiguidade desse produto no país, mas uma receita bem popular é o macarrão com queijo (macaroni and cheese ou mac 'n' cheese). A receita já era conhecida dos americanos desde 1769, pelo menos, tendo sido levada talvez pelos próprios ingleses. Uma lenda credita ao presidente Thomas Jefferson (1743-1826) a introdução dessa receita em 1802. No livro de culinária The Virginia Housewife (1824) já constava uma receita de macarrão com queijo. Todavia, esse prato somente se popularizou no país, durante o século XX. (RHODES, 2011). 

Foi durante a Grande Depressão (1929-1939), que a empresa alimentícia Kraft Foods Inc, começou a vender macarrão com queijo em caixinhas ou vasilhas em 1937, a um baixo custo. Devido a crise econômica que o país vivenciava, muitos tralhadores mal tinham dinheiro para comer, optando geralmente em almoçar sanduíches por serem baratos, então o macarrão vendido pela Kraft era uma alternativa bem-vinda naquele cenário precário. (RHODES, 2011). 

A partir da década de 1950 a receita foi se popularizando no país. No caso o macarrão com queijo consiste em cozinhar espaguete, talharim, penne ou outro tipo de macarrão, misturá-lo com manteiga, ovos batidos, leite com sal, queijo cheddar e mostarda, sendo em seguida levado ao forno. Outras receitas acrescentam outros tipos de queijo, cubinhos de bacon e outros condimentos. O resultado é um macarrão cremoso com forte gosto de queijo. Atualmente os Estados Unidos é o país onde mais se consome esse tipo de prato. 

Exemplo de macarrão com queijo, bastante apreciado nos Estados Unidos. 

NOTA: No mangá/anime Naruto, o protagonista Naruto Uzumaki é fã de lámen. Inclusive a palavra naruto é o termo usado para uma pasta de peixe com uma espiral rosada ao centro, usada como acompanhamento em algumas receitas de lámen e udon. 
NOTA 2: Em 25 de outubro comemora-se o Dia Mundial do Macarrão
NOTA 3: Em 1887 o italiano Adolpho Selmi fundou uma das primeiras fábricas de macarrão no Brasil, inaugurando na cidade de Santos. A companhia Selmi ainda hoje existe. 
NOTA 4: No século XVIII, os ingleses passaram a usar a palavra macaroni como gíria para se referir a homens de comportamento afeminado, que se vestiam de forma pomposa e usavam perucas extravagantes. O termo originou-se a partir do Macaroni Club, surgido em 1760, e que curiosamente servia macarrão em algumas de suas refeições. E parte dos membros desse clube vestiam-se de forma extravagante, por isso a associação com o macarrão. 
NOTA 5: No século XV ou XVI surge o chamado latim macarrônico, um termo cômico para se referir a brincadeiras poéticas ou musicais, onde se misturava o latim com outros idiomas como o italiano, francês, espanhol e inglês, inventado palavras que não existiam no latim, mas que soavam de forma poética ou engraçada. A palavra macarrônico advém de macorini, fazendo alusão a algo "misturado". 
NOTA 6: O termo macarrônico ficou tão marcado e associado com a Itália, que nas décadas de 1960 e 1970 o cinema italiano começou a produzir suas versões de filmes de faroeste. As quais ficaram conhecidas como faroeste macarrônico ou spaghetti western

Referências bibliográficas: 

CIVITELLO, Linda. Cuisine and Cultury: a history of food and people. 2. ed. New Jersey, Wiley, 2008. 
ISHIGE, Naomichi. History and Culture of Japanese Food. London/New York, Routledge, 2011. 
SERVENTI, Silvano; SABBAN, Françoise. Pasta: the story of a universal food. Translated by Antony Shugaar. New York, Columbia University Press, 2003. 
SHELKE, Kantha. Pasta and Noodles: a global history. London, Reaktion Books, 2016. 

Referências online:
RHODES, Jesse. Marvelous Macaroni and Cheese. 2011. Disponível em: https://www.smithsonianmag.com/arts-culture/marvelous-macaroni-and-cheese-30954740/

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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Odisseu e o mito de fundação de Lisboa

Desde a Idade Média existe uma história que diz que a cidade de Lisboa teria sido fundada pelo herói grego Odisseu, ou Ulisses como era conhecido pelos romanos. Alguns poetas e escritores nos séculos XVI e XVII citaram tal mito e até escreveram poemas em homenagem a essa lendária fundação. Neste texto procurei contar um pouco de onde teria vindo essa relação com o mítico Odisseu e a fundação de Lisboa, adiantando que essa ideia de associar um herói como fundador de uma cidade era uma tradição vista entre os antigos gregos e romanos.

Odisseu: o sagaz e desafortunado 

Antes de adentrar ao mito da visita de Odisseu as terras que hoje perfazem território português, é preciso apresentar um pouco de sua história para saber como ela se encaixaria nesse mito de fundação. No caso, Odisseu era filho do rei Laerte e da rainha Anticleia, os quais governavam a pequena ilha de Ítaca na costa ocidental do Peloponeso. Sendo ele filho único, herdou o trono do pai. Já moço, Odisseu foi um dos pretendentes de Helena, mas como tantos outros, acabou perdendo para Menelau, a quem se casou com ela, considerada a mais bela das mulheres. Por sua vez, Odisseu casou-se com Penélope, com quem teve um filho chamado Telêmaco. 

Helena após decidir fugir com o príncipe Páris, para Troia, isso levou Menelau a pedir ajuda ao seu irmão mais velho Agamemnón, e assim iniciaram a Guerra de Troia. Como Odisseu havia juramentado em proteger Helena e possuía aliança com Menelau, decidiu ajudá-lo a reaver sua esposa infiel. 

No caso, a história de Odisseu é narrada principalmente em dois poemas épicos, a Ilíada e a Odisseia, ambos atribuídos ao poeta Homero. No primeiro poema, ele aparece como personagem coadjuvante, sendo um dos generais gregos que participou dos longos dez anos de conflito para se conquistar Troia. Odisseu é lembrado por ter sido o autor do plano do cavalo de madeira gigante que foi usado como ardil para se enganar os troianos. Com êxito do plano do cavalo, o qual originou até mesmo a expressão "presente de grego", os gregos conseguiram invadir Troia, saqueando-a, destruindo-a e escravizando seu povo. Helena foi recuperada por Menelau, mas outros importantes heróis gregos e troianos pereceram durante a guerra ou na invasão. Todavia, Odisseu e seus homens sobreviveram e na jornada de volta para casa, Odisseu esnobou-se perante os deuses, gabando-se de sua sagacidade principalmente para Poseidon, o deus dos mares, o que o enfureceu e amaldiçoou ele, dizendo que este jamais retornaria para Ítaca. 

Odisseu e seus marinheiros em um mosaico romano. 

A Odisseia narra a história do retorno de Odisseu, mas de forma não linear, já que em dados momentos ela se passa em Ítaca, acompanhando a rainha Penélope e seu jovem filho Telêmaco, os quais tem que lhe dar com os pretendentes que cobiçam casar com Penélope, tida como viúva, em outro momento a narrativa se passa no Reino dos Feácios, última parada de Odisseu, onde ele narra suas aventuras ao rei Alcínoo. A partir da conversa do herói com o rei feácio, vai se desenrolando a narrativa da jornada de dez anos que Odisseu levou para retornar para casa. Todavia, ele não passou estes dez anos perdido como as vezes se pensa, na verdade nos três primeiros anos ele navegou por vários lugares do Mediterrâneo, encontrando o ciclope Polifemo, os monstros Caríbdis e Cila, as sereias, a feiticeira Circe e outros personagens, porém, no quarto ano de sua jornada ele foi acolhido pela ninfa Calipso na ilha de Ogigia, onde viveu ali por sete anos. Após isso ele chegou ao reino dos Feácios, de onde consegue ajuda para retornar a Ítaca, lutar contra os senhores que cobiçam seu reino e finalmente reencontrar sua esposa e filho. 

O interessante de citar esse breve relato da Odisseia é que em meio a estes dez anos que Odisseu e parte de sua tripulação esteve perdida (essa esteve presente em cerca de quatro anos, pois Odisseu chegou sozinho a Ogigia), outros poetas inventaram novas narrativas apontando outros territórios pelos quais Odisseu teria visitado durante esse período. Tal prática não era incomum, até porque o Ciclo Troiano que consiste nos poemas que narram os acontecimentos da Guerra de Troia, não se limita apenas a Ilíada, mas existem outras narrativas que falam sobre seus antecedentes, conflitos paralelos e até o que aconteceu com outros personagens após essa guerra. Logo, dentre as narrativas de outras viagens que Odisseu teria realizado, encontra-se uma que ele teria fundado a cidade de Lisboa. 

Lusitânia e Olisipo

Não se sabe exatamente quando a cidade de Olisipo foi fundada, porém, foram os romanos que deram este nome a ela, devido a condição de que aquela pequena urbes teria sido fundada pelo herói Odisseu. Além do nome Olisipo, a cidade também foi referida como Ulisipo ou Ulisseia. O ano de fundação da cidade como dito, é desconhecido, e quem teria sido seus fundadores também é algo não concreto; teorias sugerem que a cidade teria sido fundada pelos fenícios, cartagineses, turdúlos, célticos, lusitanos ou pelos próprios romanos

A cidade situada a beira do rio Tejo, era conhecida pelos romanos desde o século II a.C, o que sugere que sua fundação tenha que ter sido anterior a isso. Os romanos começaram a invadir a Península Ibérica em retaliação aos cartagineses que controlavam parte daquelas terras e estavam a vários anos em guerra contra Roma. A medida que as tropas romanas iam progredindo pelo interior da península, chegaram até o território dos lusitanos, o qual corresponderia a região central da atual Portugal. Os lusitanos não aceitaram a dominação romana iniciando vários anos de guerra indo de 194 a.C a 138 a.C, nesse período houve algumas batalhas e tréguas, mas os intentos da República Romana de conquistar a península nunca foram abandonados. (GRIMAL, 1988). 

Em 138 a.C o cônsul Décimo Júnio Bruto comandou legiões para conquistar os lusitanos e os galaicos que viviam mais ao norte, no que hoje é a Galiza na Espanha. Nessa época os habitantes de Olisipo aliaram-se aos romanos, principalmente pelo fato de que o grande líder lusitano, Viriato (181-139 a.C), havia falecido meses antes. Viriato dedicou a vida a assegurar a independência de seu povo, mas tendo sido assassinado, parte dos lusitanos optaram em se aliar aos vencedores. Após essa aliança em 138 a.C, o povo de Olisipo seguiu colaborando com os romanos nas décadas seguintes, inclusive recebendo benefícios políticos e legais por parte de Roma. (GUERRA; FABIÃO, 1992, p. 14-15). 

A conquista da Lusitânia foi efetivada em 30 a.C, e no ano seguinte a região tornou-se a Província da Lusitânia, em referência aos lusos ou lusitanos, o povo mais expressivo daquela localidade. Ao anexarem aquelas terras ao seu império, cuja capital da província ficava situada em Emerita Augusta (atual Mérida na Espanha). (GRIMAL, 1988). 

Mapa do Império Romano com suas províncias em 117. Em amarelo a localização da província da Lusitânia. 
Dessa forma Olisipo tornou-se parte dos domínios romanos recebendo elementos que caracterizavam urbanisticamente as cidades romanas naquele tempo, como um teatro, termas, aquedutos, cloacas, prédios públicos, fortificações etc. Mas se até aqui vimos um pouco da história de como Olisipo passou das mãos dos lusitanos para as dos romanos, os quais a renomearam com este nome, como citado anteriormente, de onde eles haviam tirado a ideia de que tal cidade havia sido fundada por Odisseu? 

O mito de fundação de Olisipo

Como assinalado anteriormente, outros poetas escreveram sobre viagens que Odisseu teria realizado durante os dez anos que levou para retornar à Ítaca. Embora não se saiba exatamente quando surgiu a história sobre a fundação de Olisipo. 

O famoso geógrafo grego Estrabão (64-24 a.C) autor da monumental obra, intitulada Geografia, cita no volume I, cap. 2, est. II, cita que Odisseu teria viajado pela Ibéria. (FONSECA, 2014, p. 187). Posteriormente no volume III, cap. 3, ele descreve a Lusitânia e até mesmo a foz do rio Tejo, todavia, ele não cita a cidade de Olisipo. Embora essa já fosse conhecida dos romanos naquele tempo. Porém, existe um trecho incompleto no volume III, no capítulo 3, onde o autor diz que o cônsul Décimo Júnio Bruto havia recebido reforços de uma cidade situada no Tejo. Os geógrafos e historiadores interpretam isso como podendo ser uma referência a Olisipo. Porém, é interessante que nesse ponto, Estrabão não cite o nome da cidade e nem associe ela com Odisseu. 

No século IV o escrito romano Caio Júlio Solino (?-400), autor de uma coletânea de vários assuntos, intitulada Do mundo maravilhoso (De mirabilus mundi), também chamada de Coletânea de Fatos Memoráveis (Collectanea rerum memorabilium) e de Polistória, cita no capítulo XXIV sobre a Hispânia, o mito de que Odisseu teria fundado Olisipo. (SOLINO, 1847, p. 186). 

Outro escritor romano, dessa vez Marciano Capela (IV-V), escreveu um livro emblemático por misturar prosa, poesia, sátira, mitologia e intuitos didáticos. Seu livro foi chamado Núpcias de Mercúrio e de Filologia, mas também é conhecido como As Sete Artes Liberais, por ele propor algumas disciplinas que deveriam ser ensinadas para se ter uma boa formação, e também foi chamado de Satiricon, evidentemente por seu teor satírico. De qualquer forma, neste longo livro, Capela cita que Lisboa teria sido fundada também por Odisseu. (CAPELA, 1836, 308). 

No século VII o doutor da Igreja e bispo, São Isidoro de Sevilha (c. 560-636), escreveu sua coletânea enciclopédica intitulada Etimologias. No volume XV, item 70, onde ele se propôs a falar do nome de algumas cidades e lugares e sua ligação com os romanos e gregos, ele cita que Lisboa teria sido fundada por Odisseu. (ISIDORO, 2006, p. 306). 

Observa-se nos relatos de Solino, Capela e Isidoro a condição que ambos citam o mito de fundação de Lisboa, tendo a cidade de Olisipo recebido esse nome em homenagem ao seu fundador, o herói grego Odisseu. Porém, nenhum destes autores comentam tal mito. Nem o próprio Estrabão que séculos antes deles, citou que Odisseu teria passado pela Ibéria, também comenta tal história. Logo, não se sabe como teria sido essa narrativa da visita de Odisseu a Lusitânia, se é que haveria alguma narrativa, ou apenas seria um dado sem uma narrativa que a embasa-se. 

De qualquer forma, essa história da mítica fundação de Olisipo que veio a ser Lisboa, manteve-se. No século XII um suposto cruzado inglês de nome Raul, escreveu para Osberto de Baldresia, informando que Lisboa teria sido fundada pelo herói Odisseu há muitos séculos. Outros cruzados de nome Vinando, Duodequino e Arnulfo, que foram auxiliar na conquista de Lisboa pelos portugueses, pois a cidade estava em mãos dos mouros, relataram também ter ouvido que a cidade teria sido fundada por Odisseu. Puga (2011, p. 152) sugere que a menção a essa lenda por tais cruzados de origem inglesa, normanda e franca, possivelmente tenha se difundindo não por coincidência, mas como parte de uma "propaganda política" promovida para exaltar a conquista de Lisboa ocorrida em 1147. A cidade estava nas mãos dos mouros já a séculos, e os portugueses não apenas tomaram aquela cidade que alegavam pertencer aos seus antepassados lusitanos, mas também contribuíram com a expulsão dos muçulmanos da região (embora que ainda hoje existam mesquitas em Lisboa e uma comunidade islâmica). 

Ainda no medievo outros autores citarão o mito de Odisseu e Olisipo. Como na Crônica Geral de Espanha de 1344, onde Puga (2011, p. 153) comenta que nessa obra temos mais informações sobre como Odisseu chegou as antigas terras que um dia seriam Portugal, inclusive menciona-se que ele teria tido uma filha chamada Boa (uma associação com Lisboa) e um neto chamado Odisseu também. Além disso, nessa crônica diz que o herói chegou a costa lusa, após ser arrastado ali por uma tempestade. Inclusive essa ideia de tempestade é vista em outras versões do mito. 

Porém, a partir do século XVI essa narrativa começou a se destacar principalmente devido ao momento dos Descobrimentos Portugueses, e vários autores se reportaram a esse mito e inclusive até mesmo acrescentando novas histórias e criando suas próprias versões. Puga (2011, p. 152-154) enumerou alguns dos autores entre os séculos XVI e XIX, escreveram sobre o mito de Odisseu e a fundação de Lisboa. 
  • Partida de Évora (1572) de Diogo Mendes de Vasconcelos
  • Os Lusíadas (1572) de Luís Vaz de Camões
  • De Rebus Hispaniea (1592) de Juan de Mariana
  • Monarquia Lusitana (1597) de Frei Bernardo de Brito
  • Ulisseia ou Lisboa Unificada (1636) de  Gabriel Pereira de Castro
  • Ulyssipo: poema heroico (1640) de Antônio de Sousa Macedo
  • Primeira Parte da Fundação, Antiguidades e Grandeza da insigne cidade de Lisboa e seus Varões Ilustres (1652) de Luís Marinho de Azevedo
  • Notícias de Portugal (1655) de Manuel Severim de Fari
  • História de Santarém Unificada (1740) de Inácio de Piedade e Vasconcelos
  • Emília e Leonildo, ou, os Amantes Suevos: o poema (1836) de José Maria da Costa e Silva
  • Os Portugueses Perante o Mundo (1856) de Alexandre de Morais
  • História Insulana das Ilhas sujeitas a Portugal no Oceano Ocidental (1866) de Antônio Cordeiro
Das obras citadas acima, algumas se destacam como o poema Ulisseia ou Lisboa Unificada, que segundo Fonseca (2015, p. 188) tal obra inspirou-se bastante na estrutura da Odisseia, e nesse ponto, seu autor, Gabriel Pereira de Castro teve pretensões de criar uma versão de uma "Odisseia à la portuguesa".  De fato, a obra que conta com mais de 400 páginas no original, consiste num longo poema que reimagina toda a trajetória e aventuras de Odisseu em uma Portugal mítica. 

O livro Os Portugueses Perante o Mundo (1856), obra que consiste numa tentativa de escrever a história não apenas de Portugal, mas de outras localidades europeias, associando-as ao período mitológico da Grécia Antiga e da Roma Antiga. Nesse sentido o livro procurou conceder cronologicamente datas para acontecimentos que são míticos, nesse caso, o autor Alexandre de Morais, sugeriu que Odisseu teria chegado a costa lusitana antes de 1081 a.C. Ali ele adentrou pelas águas do Tejo e fundou a cidade de Olisipo, erguendo um templo para Atena e depois casou-se com uma princesa chamada Calipso (aqui nota-se que a ninfa Calipso agora era filha de um rei local). (MORAIS, 2013, p. 22).

Morais (2013, p. 23-24) também salienta que outros marujos da tripulação de Odisseu vieram com ele, e estes fundaram outras cidades e regiões, indo povoar o Minho e o Entre-Douro, inclusive descendentes desses gregos fundaram a cidade de Porto. Por sua vez, Odisseu regressou para Ítaca e deixou seu filho Abidis no comando, o qual fundou a cidade de Santarém e outras localidades. Morais assinala que foi o rei Abidis que civilizou aqueles bárbaros, dando origem aos lusitanos e hispânicos. Nota-se aqui a ideia do herói civilizador, sendo esse herói fruto direto da cultura grega, considerada a primeira grande civilização europeia. De qualquer forma, a obra de Morais é interessante, pois embora conte pouco sobre a presença de Odisseu em Portugal, ele salienta que não foi apenas Lisboa a ser fundada, mas outras cidades também como Porto e Santarém. Percebe-se aqui uma ampliação desse antigo mito. 

Breve consideração final

Não se sabe quando o mito de que Odisseu teria fundado Olisipo (atual Lisboa) surgiu. Talvez possa ter sido uma invenção dos romanos e não necessariamente dos gregos. Em um dos relatos mais antigos que se conhece sobre a Lusitânia, como a Geografia de Estrabão, não menciona a fundação dessa cidade pelo herói, embora que diga que ele teria estado na península Ibérica. Por outro lado, nos séculos IV e V, nas obras de Solino e Capela já encontramos menções a tal mito, embora não haja descrições de sua narrativa. 

Somente na Baixa Idade Média (XI-XV) é que aparecem algumas crônicas comentando passagens da presença de Odisseu na antiga Lusitânia, embora que tecnicamente a Lusitânia nem existiria na época que o herói teria passado por ali, mas isso consistia numa construção mítica da Lusitânia, como forma de endossar eles como sendo os ancestrais do povo português, algo que o próprio Camões reafirma em seu poema-mor. 

Todavia, é somente no século XVII em diante que surgem os grandes poemas que recontam a história de como Odisseu chegou a antiga Portugal, fundou Olisipo e até outras localidades. Cada um desses poemas incluem ou removem personagens, alteram personagens citados na Odisseia, dando novas versões para essa história. E por fim, resta ainda a falta de informações de quando realmente Lisboa teria sido fundada. 

Reconstituição de como teria sido Olisipo na época romana.

Referências bibliográficas: 
CAPELLA, Martiano. De nuptiis, philologiae, et Mercurii, et de septem artibus liberalibus libri novem. Frankfurt, Moenum Varremtrep, 1836. 
FONSECA, Rui Carlos. Da queda de Troia à fundação de Lisboa ou de como Gabriel Pereira de Castro espera "cantar de Ulisses, imitando a Homero". In: MORÃO, Paulo; PIMENTEL, Cristina (coords.). Matrizes Clássicas da Literatura Portuguesa: uma (re)visão da literatura portuguesa das origens à contemporaneidade. Lisboa, Campo de Comunicação, 2015. 
GRIMAL, Pierre. A civilização romana. Lisboa, Ed. 70, 1988. 
GUERRA, Amílcar; FABIÃO, Carlos. Viriato: genealogia de um mito. Penélope, n. 2, 1992, p. 9-23. 
ISIDORE of Seville. The Etymologies. Translated, introduction and notes by Stephen A. Barney [et. al]. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. 
MORAIS, Alexandre J. de Melo. Os Portugueses Perante o Mundo. 2013. Versão online: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/portuguesesmundo.pdf.
PUGA, Rogério Miguel. A odisseia de um mito: diálogos em torno da fundação de Lisboa por Ulisses nas literaturas anglófonas. Ágora, n. 13, 2011, p. 145-175. 
SOLINO, Caius Julius. Polyhistor. Edição bilíngue em latim e francês. Paris, C. L. F. Panckoucke, 1847. 

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domingo, 17 de maio de 2020

O herói contra o dragão, entre o Oriente e o Ocidente


O herói contra o dragão, entre o Oriente e o Ocidente


Fábio Fonseca



Imagem, palavra e memória

Na medida em que a sobrevivência de certos temas na arte permite estabelecer uma série de conexões entre os diversos lugares e períodos nos quais esses temas foram representados, também possibilita um estudo, a partir das obras de arte, sobre as sociedades nas quais parte da produção artística dialoga com algum desses temas. Essa sobrevivência se verifica no mito da luta do herói contra o dragão. Na cultura cristã esse mito é encontrado, entre outras representações literárias e visuais, na hagiografia de São Jorge, santo de origem oriental amplamente difundido entre a cristandade ocidental. A fé e a devoção a esse santo atravessou o oceano com a colonização das Américas, está presente na religiosidade do povo brasileiro e se manifesta em formas variadas, estabelecendo um processo de interconexão entre a arte e as esferas de produção cultural.

O objetivo desse texto é demonstrar a representação da luta do herói contra o dragão considerando seu deslocamento entre diferentes condições de espaço e tempo. Para isso são utilizadas obras produzidas em suportes, processos e técnicas diversas, com funções distintas e em lugares e épocas diferentes. Procura-se considerar os processos de transmissão dos temas, das formas, dos conteúdos, das tradições, considerando o que se mantém, as semelhanças, mas principalmente o que se modifica, o que se transforma, na medida em que estabelece uma permeabilidade com o ambiente ao qual se integra.

Inicialmente procura-se demonstrar como um tema mitológico da antiguidade foi incorporado pela cristandade e passou por um processo de expansão, quanto às formas de representação, verbal e visual, dos suportes utilizados e dos lugares alcançados. Em seguida, por meio desse tema, procura-se explicar como esse processo de expansão atuou na formação de um imaginário no ocidente, e sua contribuição com a produção cultural e artística brasileira.

Nesse texto parte-se da hipótese de que os temas sobrevivem na memória coletiva, conceito de Maurice Halbwachs (1877 – 1945). O sociólogo propõe que a memória dos indivíduos, ao se apoiar na memória coletiva, na memória de um grupo, provoca uma lembrança mais sólida dos acontecimentos vividos. Segundo, Halbwachs, a memória também se apoia na lembrança dos espaços, que são percebidos em comum por cada indivíduo de um grupo. O conceito de sobrevivência desenvolvido ao longo do trabalho é uma apropriação da leitura que Georges Didi-Huberman faz do conceito de nachleben de Aby Warburg (1866 – 1929). Segundo Didi-Huberman o tempo das imagens escapa das classificações estilísticas da narrativa da história da arte. As sobrevivências das imagens não estão submetidas ao modelo de transmissão que supõe a imitação do ideal. As imagens não cessam de sobreviver e o retorno na memória acontece de modo anacrônico, como imagens fora de seu tempo.1

A legenda de São Jorge e a mitologia antiga

Na tradição cristã a vitória de São Jorge sobre o dragão é uma alegoria da luta do bem contra o mal e está narrada na hagiografia do santo. A fonte iconográfica utilizada é o códice de São Jorge que se situa na Biblioteca Apostólica do Vaticano. A iluminura com a representação da luta está no fólio 17R (recto) (fig. 01).

O códice pertenceu ao cardeal franciscano Jacopo Stefaneschi. O autor das miniaturas foi chamado, no século XX, de Mestre do códice de São Jorge. Produzido em aproximadamente 1325 – 1330, a iluminura foi pintada com têmpera e ouro sobre pergaminho e tem as dimensões de 373 x 263 mm. Contém uma parte do sanctorale, uma história de São Jorge e os hinos escritos em honra do santo pelo cardeal. Tem dezoito iniciais historiadas e uma miniatura na parte inferior da página, que é a representação do momento da luta entre o santo e o dragão.

Iluminura do códice de São Jorge, 1325 – 1330.
Têmpera e ouro sobre pergaminho, 37,3 x 26,3 cm. Biblioteca Apostólica do Vaticano

Na miniatura, o santo montado em seu cavalo está no centro, voltado para o dragão à esquerda, que está na margem de um lago. À direita, atrás do santo, está a princesa em pé. Sobre uma elevação de terra, na margem direita da página, há uma cidade, representada como a Jerusalém Celestial, de onde o rei e seus súditos observam a disputa.

O cavalo, as vestes azuis, mas principalmente o escudo com a cruz dos cavaleiros cruzados, identifica o santo com a aristocracia militar que combatia nas cruzadas na luta contra o islamismo. Com a ajuda de seu cavalo branco, o santo golpeia o dragão com sua lança. O dragão é representado nas margens de um lago, local onde o réptil vivia, segundo a lenda.

À direita, a princesa tem os cabelos curtos, usa um vestido longo e está com as mãos em sinal de oração. As linhas verticais formadas pelas roupas da princesa se direcionam para cima, onde está a cidade. Os muros e torres da cidade descrevem uma ascensão escalonada, cuja torre principal encimada por um coruchéu, elemento arquitetônico típico das construções góticas, projeta a cidade para um espaço celestial.

Observa-se que o movimento de ascensão iniciado com a prece da princesa corresponde a uma verticalidade que se direciona para cima, contrastando com a luta do santo com o dragão, que está estruturada horizontalmente. Limitada por uma margem ornamentada, a água é a parte baixa. A margem da iluminura é adornada com motivos vegetais e limita a extremidade esquerda do lago e a parte inferior da iluminura. À direita é representada com uma fluidez que se integra na paisagem.

A hagiografia de São Jorge foi compilada pelo dominicano Jacopo de Varazze em aproximadamente 1260 – 1264, aproximadamente sessenta anos antes da miniatura estudada. Sua legenda foi considerada apócrifa pelo concílio de Nicéia por haver discrepâncias entre os relatos dos martírios. Segundo Hilário Franco Júnior, o objetivo principal da compilação era fornecer uma material teologicamente correto e compreensível aos leigos que ouviriam a pregação. Os dominicanos e franciscanos, apesar de grande saber erudito, atuavam entre os leigos e recorriam mais às línguas vulgares que ao latim e às narrativas folclóricas que aos textos teológicos.2

Além da versão traduzida para o português por Hilário Franco Júnior e da versão traduzida para o francês pelo abade J.-B. M. Roze, disponível na página da internet da Abadia de São Bento de Port-Valais, na Suíça, foi consultada uma versão digitalizada da Encyclopédie Théologique, publicada em 1855, pelo Abade Migne, em Paris, disponibilizada na internet.

Segundo a Encyclopedie Théologique, a narrativa da luta de São Jorge contra um dragão é encontrada em grande parte das legendas apócrifas. Parece ser de origem oriental e foi transportada apenas no século XII para o Ocidente, onde a Legenda áurea contribuiu com sua difusão. Seria constituída de lembranças do paganismo modificadas pela piedade popular, que foram espalhadas, diversificadas e transmitidas pelos cantadores, pelos jograis e pelo clero.

A narrativa pode ser dividida em duas partes: a primeira que apresenta o santo, a ameaça do dragão à cidade de Silena, na Líbia, o combate do santo com o dragão e a conversão do rei e seu povo ao cristianismo; e a segunda na qual são narrados os martírios sofridos pelo santo. Segundo a legenda:

“O bem-aventurado Jorge passava casualmente por lá, e vendo-a chorar perguntou a razão. Ela respondeu: “Bom rapaz, monte depressa em seu cavalo e fuja, se não quiser morrer como eu”. Jorge: “Não tenha medo, minha filha, e diga-me o que toda aquela gente está esperando ver”. [...] Depois que a moça explicou tudo, Jorge disse: “Minha filha nada tema, porque, em nome de Cristo, vou ajudá-la”. [...]

Enquanto conversavam, o dragão pôs a cabeça para fora do lago e foi se aproximando. Toda trêmula, a moça falou: “Fuja, meu bom senhor, fuja depressa”. Jorge montou imediatamente em seu cavalo, protegeu-se com o sinal da cruz, e com audácia atacou o dragão que avançava em sua direção. Brandindo a lança com vigor, recomendou-se a Deus, atingiu o monstro com força, jogando-o ao chão, e disse à moça: “Coloque sem medo seu cinto no pescoço do dragão, minha filha”. Ela assim o fez e o dragão seguiu-a como um cãozinho muito manso”.3

Observa-se uma semelhança entre a descrição da cena da luta com a representação na iluminura. Essa semelhança nem sempre é encontrada nas representações do combate de São Jorge com o dragão.

Em algumas representações do santo, ele está montado no cavalo, que se posiciona sobre o dragão, não lateralmente a ele, e o evento é representado não nas margens de um lago, mas na frente de uma caverna, como se observa em algumas pinturas tanto no ocidente como no oriente. Como é o caso do ícone de Novgorod (fig. 02), situado no Museu Russo de São Petersburgo, aproximadamente do primeiro quarto do século XIV.

Ícone de Novgorod, 1300 – 1325.
Têmpera sobre madeira, 89 x 63 cm. Museu Russo de São Petersburgo.

O ícone no centro representa a luta contra o dragão. Nas margens, em todo o entorno do centro, ocupando lugares menores, estão representadas cenas do martírio do santo. Na cena com o dragão, São Jorge, em seu cavalo branco, está no centro, acima, como se flutuasse sobre a terra, onde a princesa mantém o dragão domesticado com seu cinto. Diferente da iluminura no códice o dragão está em frente a uma gruta, não nas margens de um lago.

Essa forma de posicionar o santo sobre o dragão, não lateralmente a ele, mesmo em um combate terrestre, é mais encontrada nas representações artísticas e populares do santo. Também remete a representações de divindades pagãs da antiguidade. Como no mosaico encontrado no piso de uma construção em Palmira, na Síria, datada de 260 a.C. (fig. 03), no qual figura Belerofonte montado no Pégaso, matando a Quimera.



Considerando a adoção dos modelos da antiguidade pela cristandade e o processo de produção das imagens no ocidente medieval, que era feito a partir da reprodução de modelos, porque a iluminura do códice de São Jorge não segue esse modelo, se havia um a partir do qual algumas representações da luta do santo com o dragão se assemelhavam?

Na maioria das representações anteriores ao códice, o santo não figura na cena da luta. Também, como foi apontado anteriormente, segundo a Encyclopedie Théologique, a lenda ter sido acrescida da narrativa da luta no Ocidente apenas no século XII, indica que essa parte da narrativa não era totalmente difundida anteriormente. É possível, todavia, que essa versão circulasse antes entre as narrações orais, pela característica fluídica dessa forma de transmissão, e tenha passado posteriormente para a escrita. Por outro lado, mesmo que o artista conhecesse um modelo, deve se levar em conta o fato do códice ter sido produzido por um franciscano, que assim como o dominicano Jacopo de Varazze, tinha a preocupação em produzir um material teologicamente correto. Visavam uma aproximação com o mundo laico, tornar o conhecimento acessível ao mundo secular. Logo, a representação deveria ser compatível não apenas com a narrativa escrita, mas também se aproximar das histórias contadas oralmente, para que houvesse uma identificação com as versões populares.

Entre as diferenças encontradas pode se observar a posição do santo em relação ao dragão; enquanto na iluminura do códice de São Jorge o santo combate o dragão lateralmente, e ambos se situam sobre a terra. No ícone russo o santo não apenas figura, posicionado sobre o dragão, como está no ar, praticamente sem contato com a terra. O local no qual o dragão vivia; no códice, bem como na Legenda áurea, ele sai de um lago, no ícone ao invés da representação de um lago na parte inferior esquerda, há uma gruta. Deve-se considerar que esse tema foi transportado de maneira oral, logo apresenta variações quanto à forma e principalmente ao espaço onde ocorre a cena. Sua sobrevivência se dá por sua capacidade de adaptação, pela possibilidade de se modificar conforme se apresenta em condições locais e temporais distintas.

No oriente cristão as imagens funcionavam como objetos de culto e os ícones eram venerados por trazerem um testemunho da pessoa representada, seguindo na tradição da filosofia platônica4. No ocidente, as imagens tinham, principalmente, as funções de instruir, rememorar e emocionar. O culto não era prestado à própria imagem, mas à figura representada5. A iluminura foi pintada com a função principal de esclarecer o texto. De tornar visível a vitória de São Jorge sobre o dragão, como alegoria da vitória do cristianismo sobre o islã, do bem sobre o mal.

Quanto à representação da luta no códice, entendemos que a fidelidade com o texto da Legenda áurea está relacionada com a recepção da filosofia aristotélica feita pela escolástica. Para Platão existe um protótipo, no mundo ideal, do qual as imagens que vemos são derivadas. Segundo o filósofo, na memória há um conhecimento que são idéias das realidades que a alma conheceu antes de passar do plano espiritual para o plano material. Essa foi uma parte do pensamento recebido pela patrística, que passou para a idade média em seu início. Para Aristóteles as imagens formuladas na imaginação passaram pelos sentidos, assim, as coisas gravadas na memória são resultado das experiências sensoriais6. A imagem da cena da luta no códice se aproxima da representação de uma realidade terrena. Se contemporaneamente entendemos o dragão como uma criatura mítica, para os medievais era um animal real, pois era representado nos bestiários junto com animais reais. Logo, por mais que nunca tivessem visto um dragão, acreditavam na existência dessas criaturas.

São Jorge e a expansão da cristandade

O tema da luta do herói contra o dragão pode ser encontrado não apenas na hagiografia de São Jorge. Uma narrativa que apresenta uma relação com o tema é “Juvenal e o dragão”. A história se assemelha à narrativa de São Jorge, porém o tema ocorre na história narrada no folheto de cordel “A história de Juvenal e o dragão”, do pernambucano Leandro Gomes de Barros (1865-1918). A edição fac-similar utilizada está em domínio público, disponível em mídia digital , foi editada por João Martins de Athayde e está datada do ano de 1974.

A história narra as peripécias de Juvenal. Um rapaz pobre que herda três carneiros com a morte de seu pai deixa sua irmã aos cuidados do padrinho e parte. Logo troca os carneiros por três cachorros mágicos que o acompanham em sua busca por aventuras e o ajudam a vencer um dragão, libertando assim uma princesa de ser devorada pelo monstro. Ao desposar a princesa no final da história, Juvenal manda um cortejo buscar sua irmã e então finalmente seus cães, considerando sua missão terminada, transformam-se em pássaros e partem.

A gravura “Juvenal e o dragão” (fig. 04), de Gilvan Samico, foi elaborada a partir da epopeia narrada por Leandro Gomes de Barros. A luta do herói contra o dragão para libertar a princesa é o tema central da narrativa. Na gravura, um jovem luta contra uma serpente alada, com cauda de peixe, diante de um rochedo que divide a imagem horizontalmente entre o espaço do céu e o terrestre.

Juvenal e o Dragão, Gilvan Samico, 1962. Xilogravura, 45 x 51,5 cm. 
A luta ocorre na terra, no primeiro plano estão dois de seus cães e, no segundo plano, Juvenal combate o dragão enquanto seu outro cachorro está posicionado atrás do dragão, em oposição ao herói, à esquerda da gravura. No céu, sobre a cabeça de Juvenal, três pombas voam em formação triangular como se fossem sair da gravura à direita.

No centro, o dragão parece saltar de dentro da caverna, se projetando na direção de Juvenal, quase o tocando com sua língua, mas também parece se contorcer ao ser golpeado pelo jovem. Para as primeiras gerações cristãs, o dragão representa a incorporação do princípio do mal. É identificado com a serpente que vive nas águas. São bastante difundidas as representações nas quais o dragão é vencido pelo arcanjo Miguel, por São Jorge ou por Cristo7. As asas membranosas do dragão, grandes e coloridas, o sustentam no ar. As linhas que preenchem as áreas coloridas das asas geram pontos de convergência que impulsionam o movimento do dragão no ataque.

Contrastando com o dinamismo do dragão, Juvenal mantém a sobriedade e golpeia a criatura grande e ameaçadora com uma de suas facas. Com a mão direita, segura uma faca, ou talvez um chifre do dragão e, com a esquerda, golpeia o dragão com um facão, chamado de peixeira pelo sertanejo, também usado como arma. No entanto, Juvenal não é representado como um cangaceiro. Se aplicarmos a lógica medieval a essa narrativa, de divisão das atividades da sociedade entre os que rezam, os que guerreiam e os que trabalham, poderíamos situar Juvenal entre os que trabalham, identificado com os camponeses, não com o clero nem com as milícias, o que, contudo, não diminui sua fé, muito menos sua bravura.

Os cães não interferem na luta, mas, posicionados em torno do corpo do dragão, parecem prestar auxílio ao jovem. Por ser considerado um animal impuro no Antigo Testamento, o cachorro teve uma conotação negativa, mas, na arte cristã, por sua fidelidade, é relacionado à virtude teológica da fé8. Por serem três cães, fazem uma alusão à Trindade. Nos versos finais da narrativa escrita, os cães irão se transformar nas pombas que voam sobre a cabeça de Juvenal. Na arte cristã, a pomba aparece como símbolo do Espírito Santo9, e sua formação triangular parece reforçar o significado da Santíssima Trindade. Porém, na imagem, ela indica algo mais que uma passagem temporal. Situadas no espaço celeste sobre a cabeça de Juvenal, sugere um apoio Divino ao jovem.
Outra representação da história de São Jorge é a de Paolo Uccello (fig. 05), datada no ano de 1455. Na obra de Uccello, o cavaleiro, o dragão e a princesa ocupam o primeiro plano sobre a terra em frente à gruta.

São Jorge e o Dragão, Paolo Ucello, 1458-1460. Óleo sobre madeira, 57 x 73 cm. Galeria Nacional de Londres. 
Observamos que a gravura de Samico se apresenta de forma homóloga à pintura do florentino. Tanto Juvenal como São Jorge enfrentam o dragão lateralmente, da esquerda para a direita, golpeando-o. Montado em seu cavalo branco, o santo rende o dragão com sua lança. Oposta ao dragão, transmitindo para o santo o apoio que Juvenal encontra em seus cães, a princesa participa do acontecimento como é descrito na lenda do santo, colocando seu cinto em torno do pescoço do dragão tornando-o manso. O movimento em espiral formado pelas nuvens posicionadas sobre o santo, em contraste com o resto do céu azul, confere um apoio celestial Divino ao ato de São Jorge, assim como as asas-brancas no céu apoiam Juvenal. A pintura de Uccello indica um período de busca de uma realidade natural na representação do espaço que é formulado no final da Idade Média.

A “história de Juvenal e o dragão” adquire uma função didática ao vincular a moral cristã na narrativa e reflete a preocupação da sociedade que, assim como os medievais, procura uma vida religiosa guiada pelas virtudes como caminho para a salvação de suas almas. O tema da luta contra o dragão para libertar a princesa na história de Juvenal, que corresponde ao tema de São Jorge, remete à oposição entre o bem e o mal, encontrada na hagiografia do santo e ambas tem o mesmo sentido moral.

As histórias se opõem na medida em que o santo era um nobre, um guerreiro, enquanto Juvenal é filho de um camponês pobre, mas que por meio de suas virtudes, e em nome de Deus, adquire reconhecimento e respeito da sociedade e busca seu caminho para a salvação. Diferente dos santos aristocratas, Juvenal é um herói com o qual os ouvintes podem se identificar, alguém que, além da sua coragem, tem apenas seus cachorros, que por serem mágicos remetem os acontecimentos a um plano metafísico, de crença no sagrado.

Sobrevivência e memória

A gravura “Juvenal e o dragão” reflete uma lembrança de Samico, da narrativa que ouvia na infância cantada por um empregado de sua casa. A narrativa também reflete a forte religiosidade do povo impregnada no tema, que sobrevive na memória dos grupos, das sociedades.

Em “A Arte da Memória”, Frances Yates demonstra como a arte de memorizar discursos, ou conteúdos, estimulou, no ocidente medieval, a formação de um sistema de imagens. Para a autora, a expansão no conjunto de novas imagens nos séculos XIII e XIV, está relacionada com o interesse da escolástica pela memória.

O poeta grego Simônides de Ceos propôs que para treinarmos a faculdade da memória deveríamos escolher lugares e formarmos imagens mentais a partir desses lugares, em seguida criar imagens das coisas que devem ser lembradas e colocá-las ordenadamente nesses lugares10. A formulação do poeta sobre o aperfeiçoamento da memória levou a um modo de construção de imagens inseridas em lugares ordenados e não permaneceu reservada aos seus contemporâneos. Ela ecoou por diversos momentos na arte da memória e na arte, passando por modificações conforme a época e a interpretação feita, mas manteve sua essência.

Os escolásticos Alberto Magno e Tomás de Aquino utilizaram a arte da memória visando ensinar os pregadores dominicanos a memorizar seus sermões e ensinar aos fiéis a se afastar do caminho do Inferno evitando os vícios, e buscar as virtudes como caminho para o Paraíso. Tais ensinamentos tiveram alcance além da memorização dos sermões, eram utilizados também para a decoração das paredes das igrejas, de modo que os fiéis, quando estivessem no local de culto recebendo os ensinamentos por meio dos sermões, pudessem também memorizar a oposição entre as virtudes o os vícios ao visualizar nos afrescos as imagens inseridas em lugares correspondentes ao bem e ao mal, criando imagens mentais11. Assim, as formulações do poeta grego para memorização, foram impregnadas de uma moral cristã, que foi passada para os fiéis, para os grupos religiosos.

Nas cidades, enquanto a aparência das ruas e das construções não muda, o grupo tem a impressão de não mudar, a estabilidade das imagens gera uma sensação de continuidade em um grupo social. Para Halbwachs, uma das condições de unidade de um grupo é por estarem reunidos em um mesmo espaço. É no ambiente, na fonte dos estímulos sensoriais, onde criam suas relações sociais, assim a memória coletiva acontece em um contexto espacial. As religiões que estão fortemente instaladas sobre o solo, participam da memória dos grupos. As lembranças de um grupo religioso ocorrem pela visão de determinados lugares, localizações ou disposições de objetos. Os sentimentos experimentados pelos fiéis ao entrar em uma igreja, ou outro lugar santificado, possuem lembranças comuns com os estados de espíritos experimentados por outros fiéis, pensamentos e lembranças que se formaram em épocas anteriores, nesse mesmo lugar.12

Podemos considerar que as igrejas estão inseridas dentro do contexto espacial da cidade, mas também podemos imaginar cada igreja como um contexto espacial. Na infância Samico morava em Recife, uma cidade com grande quantidade de igrejas, com uma arquitetura imponente, monumental. Construções que impressionam pelas dimensões e pelos ornamentos, pelas imagens e objetos. Não apenas vivia em uma cidade com uma forte religiosidade, sua família era religiosa, frequentava uma igreja, um local propício para formar a unidade de um grupo.

Assim, o artista estava integrado a um grupo religioso, e sua memória participava da memória do grupo. Se a igreja, como contexto espacial, pode ser um elemento de estabilidade para a reconstrução de pensamentos e sentimentos, é provável que contribua com a formulação de uma série de pensamentos e sentimentos religiosos integrados por meio de uma rede social com as formas e conteúdos artísticos. Dessa maneira a arte reflete características do indivíduo que a produziu, mas também do ambiente no qual esse indivíduo se insere socialmente, como agente e como receptor.

Considerações finais

A análise das obras apresentadas permitiu entender o processo de sobrevivência das imagens segundo a proposta de Didi-Huberman. A investigação de conteúdos religiosos ocorreu por uma aproximação com o passado, gerando um movimento anacrônico no qual se insere o processo criativo. Um anacronismo que encontra imagens na memória e cria imagens fora do tempo. Nessa circulação entre passado e presente, ocorre uma repetição de temas e formas oriundos de um contexto religioso, mas que seguem reformulados, recontextualizados e ressignificados. Imagens onde se misturam várias temporalidades e apresentam uma heterogeneidade conforme o ambiente no qual se manifesta13.

A forma de transmissão oral da poesia medieval possibilitou a difusão e a circulação de histórias e formas literárias que carregavam um conteúdo moral cristão. Não há uma continuidade temporal entre as épicas medievais e as narradas pelos poetas populares nordestinos, contudo identifica-se a sobrevivência, das formas e dos temas medievais nas poesias populares do Nordeste brasileiro. Nesse sentido, a oralidade contribui com a transmissão dos temas, pois possibilita uma recepção coletiva e permite uma flexibilidade no uso.

Referências: 
1 DIDI-HUBERMAN, Georges. L’image survivante. Histoire de l’Art et temps des fantomes selon Aby Warburg. Paris: Les Éditions de Minuit, 2002.
2 FRANCO Jr, Hilário. Apresentação. In: VARAZZE, Jacopo de, Arcebispo de Gênova. Legenda Áurea: Vidas de Santos/Jacopo de Varazze. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2003. p. 11-13.
3 VARAZZE, Jacopo de, Arcebispo de Gênova. Legenda Áurea: Vidas de Santos. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2003. p. 366 – 367.
4 BELTING, Hans. Semelhança e Presença. A história da imagem antes da era da arte. Rio de Janeiro: Petrobrás/Ministério da Cultura, 2010. p. 187 – 188.
5 BASCHET, Jérôme. A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. p. 485.
6 YATES, Frances A. A Arte da Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 56 – 58.
7 HEINZ-MOHR, Gerd. Dicionário dos símbolos: imagens e sinais da arte cristã. São Paulo: Paulus, 1994. p. 138.
8 Ibidem, p. 66 – 67.
9 Ibidem, p. 294.
10 YATES. op. cit. p. 17 – 18.
11 Ibidem, p. 80 – 84.
12 HALBWACHS. op. cit. p. 170 – 171.
13 DIDI-HUBERMAN. op. cit. p. 11 – 50


Fonte: FONSECA, Fábio. O herói contra o dragão, entre o Oriente e o Ocidente. 22o Encontro Nacional ANPAP: Ecossistemas estéticos, Belém, Pará, 2013, p. 3796-3810.