Pesquisar neste blog

Comunicado

Comunico a todos que tiverem interesse de compartilhar meus artigos, textos, ensaios, monografias, etc., por favor, coloquem as devidas referências e a fonte de origem do material usado. Caso contrário, você estará cometendo plágio ou uso não autorizado de produção científica, o que consiste em crime de acordo com a Lei 9.610/98.

Desde já deixo esse alerta, pois embora o meu blog seja de acesso livre e gratuito, o material aqui postado pode ser compartilhado, copiado, impresso, etc., mas desde que seja devidamente dentro da lei.

Atenciosamente
Leandro Vilar

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Entrevista com Abdias Nascimento


Entrevista com Abdias Nascimento 
dada a Revista Acervo, em 2009


Obs: as imagens presentes não constam no texto original. Optei em acrescentá-las para motivo de ilustrar alguns temas e acontecimentos citados. 


Abdias Nascimento nasceu em Franca (SP), em 1914, em uma família coesa, carinhosa e organizada, porém pobre. Em 1929 diplomou-se em Contabilidade pelo Ateneu Francano. Com 15 anos, alista-se no Exército e vai morar na capital paulista. Na década de 1930, engaja-se na Frente Negra Brasileira e luta contra a segregação racial. Prossegue na luta contra o racismo organizando o Congresso Afro-Campineiro em 1938. Funda, em 1944, o Teatro Experimental do Negro (TEN), entidade que patrocina a Convenção Nacional do Negro em 1945-1946.

Abdias do Nascimento com seus 90 e poucos anos. 
A Convenção propõe à Assembleia Nacional Constituinte de 1946 a inclusão de políticas públicas para a população afro-descendente e um dispositivo constitucional definindo a discriminação racial como crime de lesa-pátria. À frente do TEN, Abdias organiza o I Congresso do Negro Brasileiro em 1950. Militante do antigo PTB, após o golpe de 1964 participa desde o exílio na formação do PDT. Já no Brasil, lidera em 1981 a criação da Secretaria do Movimento Negro do PDT.

Na qualidade de primeiro deputado federal afro-brasileiro a dedicar seu mandato à luta contra o racismo (1983-1987), apresenta projetos de lei definindo o racismo como crime e criando mecanismos de ação compensatória para construir a verdadeira igualdade para os negros na sociedade brasileira. Como Senador da República (1991, 1996-1999) continua essa linha de atuação. Em 1991, o governador Leonel Brizola o nomeia secretário de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (1991-1994). Mais tarde, é nomeado primeiro titular da Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro (1999-2000).

Acervo. O senhor nasceu 26 anos após a abolição da escravatura, o que pode ser considerado tecnicamente como uma geração após a abolição. Como foram sua infância e juventude?

Abdias Nascimento. Minha avó Francelina e minha avó Ismênia haviam sido escravas. Francelina, a mãe de minha mãe, não aguentou com as marcas daquilo, ficou “variada da cabeça” e a internaram no famigerado Asilo Juqueri, no interior de São Paulo. Ela voltou para casa quando eu era adolescente. A avó Ismênia faleceu quando eu era bem pequeno. Minha infância foi cercada de amor numa família estável, e isso me preparou para a vida adulta. Minha mãe fazia tudo para nós nos educarmos e ir em frente, nos deu apoio e nos incentivou.

Éramos pobres, mas havia comida porque ela criava galinhas e cultivava legumes no quintal, além de fazer e vender doces. Ela guardava um conhecimento muito grande de ervas de uso medicinal, e as pessoas da cidade se consultavam com ela. Uma lembrança que guardo é do Engenho Queimado, uma comunidade de negras e negros que lavavam roupa por encomenda. Lembro-me daquelas senhoras negras, vestidas de branco, que vinham em procissão à cidade carregando as encomendas de roupa lavada sobre as cabeças. Nós tínhamos uma vivência rural também, porque minha mãe ia às fazendas como ama de leite e muitas vezes nos levava. Assim, a gente vivia aquele momento de substituição da mão de obra negra escravizada por trabalhadores brancos, imigrantes europeus. Na verdade, para o negro pouco mudou com o fim da escravatura.

Acervo. Nesta fase da vida (infância e juventude) o senhor já percebia a condição social do negro brasileiro?

Abdias Nascimento. Nas fazendas que visitávamos, praticamente todos os negros que existiam, homens e mulheres, eram crias, filhos, netos e ex-escravos que trabalhavam em serviços domésticos. Haviam assimilado a cultura do branco. É provável que não tivessem interesse pelas suas origens, pela cultura africana. Não se chamavam eles como escravos, mas a estrutura do regime escravocrata ficava mantida ali, como se fosse imutável. Eu me irritava às vezes, mesmo criança, com o eterno paternalismo do branco brasileiro. Evidentemente, eu não o identificava dessa forma, não tinha capacidade para analisar assim, mas eu sentia que havia algo errado naquelas atitudes. Quando eu e meus irmãos ganhávamos presentes de algum desses fazendeiros, por exemplo, eu não me sentia bem, fechava a cara. Acho que, de forma instintiva, eu percebia aquilo como um cala-a-boca.

Acervo. Houve um marco vivencial em que pela primeira vez se compreendeu o que seria injustiça ou preconceito racial? Como isto o impactou e qual foi a sua reação?

Abdias Nascimento. O episódio mais marcante envolveu minha mãe, uma vizinha e um colega do grupo escolar onde eu estudava na minha infância lá em Franca, o Felisbino. Ele era órfão, o coitadinho, e vivia perambulando pela rua, contando com uma ou outra pessoa para lhe dar um prato de comida. Um dia, uma vizinha branca nossa resolveu lhe dar uma surra tremenda. A minha mãe, que era uma pessoa muito meiga, cresceu com raiva e foi enfrentar a mulher, arrancando o menino das mãos dela. As palavras de minha mãe, a atitude dela, foram a minha primeira lição de solidariedade racial, a primeira lição de panafricanismo, que recebi ainda menino.

Depois, com o incentivo de minha mãe, eu estudei muito e me formei em contabilidade ainda adolescente. Ofereceram-me um emprego em uma fazenda, onde eu iria, aos 14 anos, ganhar mais que a maioria dos adultos de minha família e vizinhança. Combinamos o dia de eles irem me buscar para me levar à fazenda. No dia, chegou uma carroça carregada com galinhas, cabras e suprimentos que haviam comprado na cidade. E me mandaram subir lá atrás, na traseira, junto com as galinhas e as cabras. Eu me recusei, afinal estava sendo contratado para o cargo de auxiliar de guarda-livros, cuja função era a de dar conta de toda a escrituração comercial do estabelecimento. Não iria me submeter a esse tipo de tratamento. Desisti na mesma hora do tal emprego. Minha família ficou atônita.

Acervo. De Franca, sua cidade natal, qual o seu caminho ao encontro do ativismo?

Abdias Nascimento. Saí de Franca me alistando no Exército. Era a maneira de ir à capital e começar uma vida nova. Minha mãe era amiga de muitas pessoas de influência na cidade, fregueses dos doces que ela fazia ou clientes dos seus tratamentos fitoterápicos. Um deles, o então secretário da Prefeitura ou da Câmara de Vereadores de Franca, Antônio Constantino, me deu um encaminhamento e fui a São Paulo para ser soldado. Só havia visitado a capital em uma outra ocasião, em 1927. Eu fazia parte de uma delegação de jovens atletas de Franca aos jogos estaduais ligados à campanha política de Júlio Prestes. Tinha treze anos e corria a prova de cem metros.

Naquela época, uma das mais prestigiadas instituições do município de São Paulo era a sua Guarda Civil, e era de Franca o seu fundador e diretor, Antônio Pereira Lima. Um orgulho de nossa cidade. A seu convite, a delegação francana foi assistir um desfile dessa Guarda Civil, e eu fiquei estarrecido: todos os seus integrantes eram brancos, louros de olhos azuis; não havia um negro sequer no meio daquela força municipal. Acontece que o senhor Antônio Pereira Lima era nosso vizinho e cliente de minha mãe. Naquele tempo não havia telefone, e os poderosos quando queriam se comunicar mandavam um “moleque de recado”.

Eu e meus irmãos levamos e entregamos muito recado do fundador da Guarda Civil do Município de São Paulo. Tentei saber com ele a razão daquela exclusão dos negros nos quadros da guarda, e ele evidentemente tentou me enrolar numa conversa mole. Mas quem era eu para interpelar um homem poderoso assim? Conversava era com minha mãe sobre o assunto, e ela ficava indignada também, pois era amiga daquele homem; como é que ele poderia sustentar uma atitude dessas? Mais tarde, já na capital, participei de outras iniciativas em relação a essa exclusão dos negros da Guarda Civil, e, finalmente, a Frente Negra Brasileira conseguiu um posicionamento oficial das autoridades sobre o assunto, supostamente acabando com a discriminação.

Acervo. Qual o primeiro passo da sua atuação política e social, qualquer que seja ela? Qual foi a sua primeira manifestação ou participação ativista?

Abdias Nascimento. Eu era um soldado do Exército, e lá era proibido qualquer tipo de ativismo político. Mas dentro do quartel havia muita inquietação, afinal éramos jovens procurando um rumo. Participei de um grupo que publicou e distribuiu um jornal, um panfleto chamado Lanterna Vermelha. E às vezes participava de atos públicos da Frente Negra Brasileira. Mas não podia participar de forma efetiva ou regular por ser soldado do Exército. Conheci nas fileiras do Exército Sebastião Rodrigues Alves, grande amigo de toda a vida. Apesar de qualquer proibição, nós não aceitávamos a discriminação e saíamos quebrando bares e barbearias, entre outras coisas, como protesto inútil de dois jovens ousados. Fui excluído do Exército por causa de um desses incidentes em que eu e Rodrigues Alves reagimos contra o racismo – no caso, não queriam nos deixar entrar numa boate. Depois disso, em 1938, eu, Aguinaldo Camargo e Geraldo Campos de Oliveira puxamos a organização do Congresso Afro-Campineiro. Já me dedicava à luta contra o racismo.

Acervo. Publicamente a percepção da sua atuação começa pelo Teatro Experimental do Negro (TEN). Como e por que ele se formou?

Abdias Nascimento. Foi no Teatro Municipal de Lima, no Peru, que assisti a uma apresentação da peça O imperador Jones, do grande dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill, em que Brutus Jones, o principal personagem, um negro, era representado por um ator branco argentino, Hugo d’Evieri, pintado de preto. Da minha indignação diante daquele espetáculo, que apenas refletia o procedimento “normal” no teatro ocidental – um procedimento racista –, nasceu a vontade de criar um teatro negro. Depois, passei um ano em Buenos Aires, onde participei dos espetáculos abertos do Teatro del Pueblo. Era uma riqueza enorme, porque os espetáculos eram acompanhados de sessões onde se discutia a dramaturgia e as questões estéticas e políticas envolvidas nas apresentações. Foi uma grande escola para mim, uma verdadeira formação teatral. Já me sentia pronto para fundar o meu teatro negro.

Mas na minha volta ao Brasil eu fui preso. Havia sido condenado à revelia, quando estava fora do país, por causa daquele mesmo incidente de recusa à discriminação racial, e fui cumprir pena na Penitenciária do Carandiru. Lá criei minha primeira iniciativa teatral, o Teatro do Sentenciado, junto com outros presos e com o apoio e incentivo do então diretor da penitenciária, um médico e homem culto chamado Flamínio Fávero. Só quando saí da prisão pude, finalmente, levar à frente a minha intenção e criar o Teatro Experimental do Negro no Rio de Janeiro.

Acervo. O que o TEN gerou? E como artisticamente o TEN se relacionou no meio cultural?

Abdias Nascimento. O TEN formou o primeiro grupo de artistas, atrizes e atores negros, assim rompendo a barreira de cor no teatro brasileiro. Antes do TEN, os negros não pisavam no Teatro Municipal a não ser para fazer faxina! Além disso, o TEN incentivou a criação de uma literatura dramática que tratasse com os temas e conflitos que surgem da experiência histórica e humana dos africanos e seus descendentes no Brasil. Nelson Rodrigues escreveu uma peça para nós, Anjo negro, e outros autores como Rosário Fusco e Lúcio Cardoso também. O TEM publicou uma antologia chamada Dramas para negros e prólogo para brancos (1961). Fundamentalmente, o TEN propunha-se a resgatar, no Brasil, os valores da cultura negro africana, degradados e negados pela violência da cultura branco-europeia; propunha-se à valorização social do negro através da educação, da cultura e da arte.

Ensaio da peça Sortilégio pelo Teatro Experimental do Negro, em 1957. O homem de joelhos é Abdias, e a sua direita, a atriz Léa Gárcia, a qual foi sua terceira esposa. 
Teríamos que agir urgentemente em duas frentes: promover, de um lado, a denúncia do racismo e uma ação de valorização da estética negra e, por outro lado, fazer com que o próprio negro tomasse consciência da situação social em que estava inserido. Foi nesse sentido que realizamos a Convenção Nacional do Negro, em 1945, cujo Manifesto à nação brasileira embasou a proposta de legislação antirracista e de políticas positivas apresentada à Assembléia Nacional Constituinte de 1946. O I Congresso do Negro Brasileiro, que o TEM realizou em 1950, foi outro marco dessa busca de conscientização e organização política por parte do TEN.

Quanto à afirmação artística do TEN no meio cultural, não há dúvida de sua seriedade e competência. Basta para constatar esse fato ler as crônicas e críticas da época a respeito de nosso trabalho. Havia um grande ceticismo em torno da proposta, gerado pelo próprio preconceito, e muitas vezes a crítica se espantava com a qualidade artística de nossas produções. Reunimos várias resenhas e críticas no livro Teatro Experimental do Negro: testemunhos (1966), compondo um retrato da repercussão de nossos trabalhos no meio cultural da época. Alguns dos mais destacados artistas plásticos brasileiros colaboraram conosco como voluntários. Santa Rosa, Enrico Bianco e Anísio Medeiros criaram cenários para nossas peças, e muitos outros do projeto Museu de Arte Negra a partir de 1950.

Acervo. A partir do trabalho do TEN qual foi sua atuação como liderança ativista?

Abdias Nascimento. Minha atuação sempre teve uma dupla conotação, cultural e política (política no sentido mais amplo da palavra). Aliás, para mim essas esferas são dimensões da mesma iniciativa, que é a defesa e promoção dos direitos e da cultura da população de origem africana. Então meu trabalho como ativista se ligava ao cenário artístico e vice-versa; eram diferentes expressões da mesma coisa. No caso da política, no jornal Quilombo do TEN eu escrevia editoriais sobre a necessidade de o negro atuar na política como candidato e não mais apenas como cabo eleitoral dos outros. Quilombo abria suas páginas a todos os candidatos negros, de qualquer partido.

Uma página do jornal Quilombo editado por Abdias Nascimento.

Acervo.
Mestre Abdias, neste percurso como o senhor se integrou à vida político-partidária? Qual foi o cenário político no seu mandato como deputado federal? E depois como era o cenário quando foi senador?

Abdias Nascimento. Nesse início, nas décadas de 1940, 1950 e 1960, minhas candidaturas foram sempre preteridas ou esvaziadas por alguma desculpa burocrática. Fui candidato a vereador, uma vez, com o lema “Não vote em branco, vote no negro Abdias”. Na histórica ocasião em que Leonel de Moura Brizola se elegeu deputado federal com um terço dos votos do estado da Guanabara, maior votação da história política do Brasil em 1962, eu me candidatei a deputado estadual e pela primeira vez me senti realmente identificado com a proposta de um partido político. O PTB de João Goulart e de Brizola tinha tudo a ver com minha orientação política, embora a questão racial ainda não ganhasse ressonância.

Mais tarde, ainda no exílio, ao reorganizar o antigo PTB, a Carta de Lisboa afirmava o compromisso do partido “com a causa da população negra”. Isto foi resultado de nossas conversas com Brizola em Nova Iorque, em companhia do cientista político Clóvis Brigagão. No Brasil, já no período da anistia e da redemocratização, o PDT consolidaria esse compromisso como prioridade de seu programa político. Dentro do partido, os próprios negros organizaram a sua Secretaria do Movimento Negro, fato inédito na vida partidária brasileira. E o governador Brizola concretizou essa prioridade ao compreender e agir de acordo com a necessidade de incluir negros em seu secretariado de governo, bem como nas suas listas de candidatos a cargos eletivos. O PDT elegeu dois governadores negros, Alceu Collares (RS) e Albuíno Azeredo (ES), e deu posse aos primeiros secretários de estado negros, Carlos Magno de Nazareth Cerqueira, Carlos Alberto de Oliveira Caó e Edialeda Salgado do Nascimento, no governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987).

Quando exerci o mandato de deputado federal (1983-1986), eu era o único negro assumido no Congresso e dedicava o mandato à defesa dos direitos humanos e civis da população negra. Ainda prevalecia, na esquerda daquela época, a ideia de que as questões sociais específicas, como a racial e a de gênero, eram inoportunas e politicamente equivocadas porque dividiriam e enfraqueceriam a luta do proletariado contra a exploração econômica e de classe. Deputados de esquerda e de direita me aparteavam anunciando a ausência do “problema racial” no Brasil e às vezes até invocando, como prova disto, o carinho deles por suas amas de leite negras. Poucos se solidarizavam comigo.

Quando assumi o mandato de senador em 1991, essa situação havia mudado um pouco. Na Constituinte de 1988, havia três deputados negros comprometidos com a causa: Caó (PDT-RJ), Benedita da Silva (PT-RJ) e Paulo Paim (PT-RS). E em 1994 duas mulheres negras assumiram seus mandatos no Senado: Marina Silva (PT-AC) e Benedita da Silva (PT-RJ).

Abdias Nascimento discursando na tribuna do Senado, em 1991. 
A questão racial ficou mais em evidência a partir de 1995, tricentenário da imortalidade de Zumbi dos Palmares, e no contexto da III Conferência Mundial Contra o Racismo (2001). A participação do Brasil nessa Conferência foi um marco importante, e desde então houve vários avanços. Hoje, existe a Frente Parlamentar pela Igualdade Racial, uma reunião de senadores e deputados dedicada à proposição de políticas públicas como o Estatuto da Igualdade Racial e a lei n. 10.639/2003.

Resumindo: quando cheguei à Câmara como deputado pelo PDT, não me deixavam falar, queriam cortar a minha palavra, achavam que eu falava inverdades absurdas. Depois de anos passados fazendo a minha pregação, juntavam-se outras vozes a minha e até recebia o aval dos senadores aos meus projetos de lei. A sociedade vem mudando, à medida que a gente bate, bate, bate na mesma tecla. É verdade que é assim aos pouquinhos, mas é um processo irreversível.

Acervo. Durante o período do seu exílio, o senhor teve uma experiência e atuação internacional, com relações com o Movimento Pan-Africano. Como foi esta experiência? O que lhe trouxe de novo aquele momento? O que o senhor levou da vivência brasileira das lutas pelos direitos humanos e igualdade racial para estes interlocutores?

Abdias Nascimento. Essa experiência internacional foi um desdobramento natural de minha atuação e experiência aqui no Brasil. O grupo do TEN era talvez a única voz no Brasil a defender e divulgar a ideia da negritude de Aimé Cesaire, Léopold Sedar Senghor e Leon Gontran Damas, uma linha de ação poética e política que lutava pela independência dos países africanos, contra o colonialismo e pelo respeito à cultura e à dignidade humana dos africanos e seus descendentes. Nos Estados Unidos, eu me identificava com a corrente de pensamento parecida a essa. Além dos que adotavam essa linha de ação, havia os negros de “linha correta” marxista, e havia os mais conservadores, liberais democratas. Eu tive boas relações com todas essas correntes, porque a luta pelos direitos da população negra nos unia, mas me identificava mais com o que na época se chamava nacionalismo negro e hoje se identifica como a linha do pensamento afrocentrado.

No VI Congresso Pan-Africano, que se realizou em Dar-es-Salaam, em 1974, o conflito entre essa linha e a marxista-leninista se caracterizou de forma nítida. Intelectuais do Caribe, opositores aos governos locais (de direita e de esquerda), foram excluídos do encontro e prevaleceu a linha socialista que proclamava a ascendência da luta de classes sobre qualquer outra consideração.
Esse cenário nós já havíamos vivido no Brasil, quando a esquerda “democrática” se recusava a reconhecer a legitimidade de nossas demandas. Hoje, com a evolução do movimento negro internacional na direção de uma ação e de um pensamento independentes, é fácil constatar que a nossa posição prevaleceu e se desenvolveu ao longo do tempo.

Acervo. Como foi sua descoberta pessoal como artista plástico?

Abdias Nascimento. O I Congresso do Negro Brasileiro votou uma resolução sobre a necessidade de haver um museu de arte negra para estudar e mostrar a nítida, porém ocultada, ligação entre a arte negra e a arte moderna ocidental expressa na arte contemporânea no Brasil. O TEN assumiu o projeto e eu me tornei curador dessa coleção. Junto com Guerreiro Ramos, Ironides Rodrigues e outros do TEN realizamos um trabalho extenso com as artes plásticas, em que tiveram e ainda têm destaque o escultor José Heitor e o pintor Sebastião Januário. A coleção hoje se encontra sob a guarda do Ipeafro, Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, que fundei ao voltar do exílio. O Ipeafro realizou uma mostra importante aqui no Arquivo Nacional, nos anos de 2004 e 2005.

O IPEAFRO foi fundado em 1981 por Abdias Nascimento, sendo sua primeira sede, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), graças ao apoio do arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, na época uma das vozes contra a ditadura militar. 
Na época da inauguração da primeira exposição da coleção do projeto Museu de Arte Negra, que realizamos no Museu da Imagem e do Som em 1968, Efraín Tomás Bó, meu amigo e companheiro da Santa Hermandad Orquídea, me fez um desafio: “Abdias, você que tanto trabalha com as obras dos outros, por que não cria suas próprias pinturas?” A partir desse momento, comecei a desenvolver minha pintura. Mas ela realmente passou a ter vida própria na década de 1970, nos Estados Unidos, onde fiz várias exposições em galerias, museus e universidades em diversas regiões do país.

Acervo. E como foi fazendo a sua coleção de obras de arte? E do que se compõe o seu acervo?

Abdias Nascimento. As obras chegavam, a maioria delas doadas por iniciativa dos próprios artistas, que conheciam o nosso trabalho e colaboravam. Temos telas de pintura em diversos tamanhos, obras em papel (desenhos e gravuras) e esculturas. São aproximadamente 450 obras de outros autores e 160 minhas. A coleção contém obras criadas por alguns dos mais importantes artistas contemporâneos no Brasil, entre eles Bess, Darel, Volpi, Lóio Pérsio, Ivan Serpa, Aldemir Martins, Ana Letícia, Nélson Nóbrega, Iberê Camargo, Manabu Mabe, Fayga Ostrower, para mencionar apenas alguns.

Acervo. Estão fazendo vinte anos da libertação de Nelson Mandela. Como as lideranças políticas brasileiras se representaram nesta luta?

Abdias Nascimento. A esquerda brasileira não se preocupava muito com essa questão. Em 1982, foi o Ipeafro que trouxe ao Brasil, pela primeira vez, uma representação do Congresso Nacional Africano da África do Sul. O Ipeafro realizou em 1984 um seminário internacional sobre a luta da Namíbia por sua independência, com a presença de um representante da SWAPO, também uma iniciativa inédita até então no Brasil. Na Câmara dos Deputados, na qualidade de integrante da Comissão de Relações Exteriores, eu propus e vários deputados assinaram uma moção de rompimento das relações diplomáticas e econômicas com o regime do Apartheid. Em 1988, Benedita da Silva levou essa proposta à Constituinte. Mas a proposta não vingou.

Abdias Nascimento cumprimenta Nelson Mandela, em visita deste ao Brasil em 1991. 
Acervo. Em 1991, o senhor ficou à frente da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Negras (Sedepron). Já havia alguma secretaria com esta missão no Brasil, seja na esfera municipal ou estadual? Em que contexto político foi criada a secretaria? Como foi sua gestão?

Abdias Nascimento. A criação da Sedepron foi um ato de coragem que demonstrou como o governador Leonel Brizola tinha uma compreensão da questão racial inédita entre os políticos de grande expressão nacional. Brizola criou o primeiro órgão de primeiro escalão com a missão de formular e executar políticas públicas de igualdade racial. Essa ideia era muito ousada na época, pois só existiam até aquele momento órgãos consultivos, conselhos e assessorias. Pouco depois da Sedepron, foi criada a Secretaria Municipal de Assuntos da População Negra de Belo Horizonte, cuja secretária foi a brava ativista Diva Moreira

A Sedepron realizou várias iniciativas, como o curso Sankofa de preparação de educadores e o I Fórum Estadual sobre o Ensino da História Africana na Escola Pública (1991), realizados em conjunto com o Ipeafro. A Sedepron levou essas iniciativas a diversos municípios do interior do estado. Também idealizou o projeto Força Jovem de preparação de jovens para o mercado de trabalho e propôs a criação da Delegacia Especializada em Crimes de Racismo e Discriminação, primeira iniciativa dessa natureza no país. O governador Nilo Batista inaugurou a delegacia, localizada no coração do Centro do Rio de Janeiro, mas o governo posterior o desativou. A Sedepron tomou outras iniciativas, mas ela teve o mesmo destino que essa delegacia: ao tomar posse, o próximo governo extinguiu a Sedepron.

Acervo. A lei n. 10.639, de 2003, que institui a obrigatoriedade do ensino da história africana e da cultura afro-brasileira nos currículos escolares, é uma grande conquista para o cidadão brasileiro na sua compreensão de nação, mas com sete anos de vigência vemos, na prática, lacunas na sua implementação. Qual o passo efetivo que o senhor pensa que se deve dar para a completa adoção desses conteúdos nos currículos disciplinares?

Abdias Nascimento. Precisamos desvincular a imagem do afro-descendente da condição escrava. No Brasil, as palavras “escravo” e “negro” ainda são sinônimos, o que revela o quanto essa ligação penetra fundo na consciência coletiva nacional. Parece uma sugestão pequena, modesta, talvez ingênua, mas é o que me ocorre com mais urgência. E efetivamente é muito mais complexo do que pode parecer. Agora, para a completa adoção desses conteúdos não há um só passo efetivo, depende de nossa ação em todos os campos, junto às escolas, aos educadores e às secretarias de educação municipais e estaduais, junto às universidades e faculdades de licenciatura e pedagogia, enfim... precisamos de uma ação ampla, intensa e a longo prazo.

Acervo. Mestre Abdias, o Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado em 2009 entre comemorações, críticas e reações. Qual o futuro que o senhor projeta para a igualdade racial no Brasil?

Abdias Nascimento. Como vemos com a lei n. 10.639, de 2003, é mais difícil implantar e efetivar a execução da lei do que fazê-la tramitar e ser aprovada. O mesmo valerá para o Estatuto da Igualdade
Racial. Mas com isso não quero dizer que não vale a pena tê-lo aprovado. Vale sim, como arma de luta na demanda por sua efetivação.

Acervo. Dos seus 96 anos de idade, da sua trajetória, percepções e visão histórica qual é o possível destino para a maior nação afro-descendente, o Brasil? Abdias Nascimento. O negro neste país está acordado, alerta, e vai continuar sua luta sempre. Isto é um processo irreversível! Espero que o Brasil tenha a sensatez de ouvir-lhe os gritos em vez de se fazer de surdo. O negro no Brasil é maioria, e democraticamente no futuro deve assumir a direção do país! É só uma questão de tempo e de aprimoramento das instituições democráticas.

Abdias Nascimento. O negro neste país está acordado, alerta, e vai continuar sua luta sempre. Isto é um processo irreversível! Espero que o Brasil tenha a sensatez de ouvir-lhe os gritos em vez de se fazer de surdo. O negro no Brasil é maioria, e democraticamente no futuro deve assumir a direção do país! É só uma questão de tempo e de aprimoramento das instituições democráticas.

FONTE: Entrevista com Abdias Nascimento. Revista Acervo, Rio de Janeiro, v. 22, n. 2, 2009, p. 5-14. 

domingo, 27 de maio de 2018

200 anos do nascimento de Karl Marx

A proposta desse texto não foi abordar a teoria econômica, política e social de Karl Marx, mas comentar alguns aspectos da sua vida, carreira, obras e ideias, pois passados dois séculos de seu nascimento muita gente pouco conhece o homem por trás da imagem de filósofo, pensador, revolucionário, tolo, louco, etc. imagens que se desenvolveram ao longo do século XX e ainda influenciam o imaginário atual. Marx em seu tempo irritou muitas pessoas com suas ideias, e ainda hoje isso ocorre. Não é incomum ler xingamentos a sua pessoa e ideias, mas na maior parte das vezes os detratores nem se quer leram algo de seu trabalho. Agem por ignorância. 

Embora eu não seja marxista, tenha minhas críticas a visão de Marx de como estudar a história social, ache sua versão de comunismo ainda utópica, discorde de alguns de seus apontamentos sobre acontecimentos históricos, desenvolvimento econômico, mas principalmente discordo dos governos que em nome do marxismo, socialismo e comunismo cometeram atrocidades, eu não poderia deixar esse ano passar em branco sem falar dele. Um homem cujas ideias podem não ter dado certo ou não foram devidamente aplicadas, mas inegavelmente ajudaram a mudar a História. Nesse texto procurei contar alguns aspectos da vida e obra desse jornalista e filósofo político. 


Karl Marx por volta de 1875. 
Contexto: 

Karl Marx como qualquer estudioso é fruto de seu tempo e local. O historiador Michel de Certeau chama isso de "lugar social" do autor, ou seja, as referências sociais, políticas, econômicas, culturais, religiosas, familiares, ideológicas, etc. que influenciam um estudioso. Marx como um homem do século XIX vivenciou grandes questões: desdobramento da Revolução Industrial, Romantismo alemão, Hegelianismo, Darwinismo, Socialismo, Comunismo, Anarquismo, Sindicalismo, Primavera dos Povos, guerras, colonialismo, desenvolvimento das ciências sociais, progresso tecnológico, descobertas científicas, etc. Tudo isso confluiu para influenciar suas decisões e ideias. Algo que foi mostrado ao longo do texto. 

Infância e adolescência (1818-1835)

Karl Heinrich Marx nasceu no dia 5 de maio de 1818, na cidade de Trier (também conhecida como Tréveris), no estado da Renânia-Palatinado, região que anos antes esteve sob domínio de Napoleão Bonaparte. Na época de seu nascimento, Trier possuía uma população estimada em 15 mil habitantes. Era uma bela cidade com bosques e vinhedos nos arredores. A cidade contava com uma população de judeus, católicos e protestantes. A cidade na ocasião fazia parte do Reino da Prússia (1701-1918), um dos mais poderosos Estados alemãs que por anos defendeu sua emancipação. Lembrando que na época a Alemanha ainda não estava unificada, mas era uma federação de Estados quase independentes. (MCLELLAN, 1995, p. 35-36).

Marx era o segundo de oito filhos gerados pelo casal Heinrich Marx (1777-1838) e Henriette Pressburg (1788-1863). Seus irmãos eram Sophie (1816-1886), Hermann (1819-1842), Henriette (1820-1845), Louise (1821-1893), Caroline (1824-1847) e Eduard (1826-1837). No entanto, seus pais adotaram uma menina chamada Emilie (1824-1888). Totalizando nove crianças. Marx assim como os irmãos, eram judeus; sua mãe pertencia a uma família de judeus holandeses, sendo seu pai o rabino Isaac Pressburg. Além do avô materno, seu avô paterno Meier Halevi Marx (também chamado de Levi Marx) foi rabino em Trier. Assim nota-se que pelos dois lados da família, Marx possuiu antepassados que foram rabinos. (MEHRING, 1962, p. 1).

No caso da linhagem paterna, Marx Levi teve dois filhos, Herschel e Samuel. O primeiro formou-se em Direito e passou a atuar como advogado. Posteriormente para poder assumir um cargo jurídico no estado, teve que mudar de nome e se converter ao cristianismo, pois começava a despontar antissemitismo na época. Assim, Herschel se tornou Heinrich Marx, e em 1824, foi batizado cristão pela Igreja Luterana. Por sua vez, seu irmão Samuel Marx, manteve-se judeu e seguiu os passos do pai, tornando-se rabino. (BERLIN, 1959, p. 26-27). 

Devido ao crescimento do antissemitismo na região, além de temer poder perder o cargo que conseguiu, Heinrich Marx decidiu batizar os filhos também. Assim, Sophie, Karl e Hermann foram batizados em 1825, no cristianismo luterano. Embora que a mãe deles mantevesse judia, e talvez conservou alguns costumes judios no lar. Na mesma época do batismo, Karl ingressou na escola. Karl se interessou a partir de sua mãe, por literatura, passando a ler as obras de Goethe, Lessing e Schiller, expoentes do Romantismo alemão na época. Por sua vez, seu pai Heinrich Marx era ligado ao movimento liberal da Renânia, sendo membro do Trier Cassino Club, fundado durante a ocupação francesa, o clube mostrou-se opositor a interveção de Napoleão, e posteriormente passou a defender pautas liberais, mesmo sendo a Prússia governada por um rei quase absolutista. A militância de seu pai teria em parte influenciado o jovem Marx.

No ano de 1830, Marx ingressou na escola. Na época contava com seus 12 anos. Ele como outros jovens da época recebeu sua educação inicial em casa. No caso, ele passou a estudar numa antiga escola jesuítica, nomeada Frederick William High School. Nome dado em homenagem ao monarca Frederico II, o Grande, então governante do país. Na escola Marx teve contanto com uma educação baseada nos príncipios do Iluminismo, desenvolvido no século passado. No caso, ele teve contato com filósofos como Jean-Jacques Rousseau, Voltaire e Immanuel Kant. Posteriormente na universidade passou a se interessar pela obra de Hegel. (MCLELLAN, 1995, p. 9).

Formação universitária (1836-1841)


Jenny von Westphalen
Concluído os estudos escolares no ano de 1835, Marx mudou-se para Bonn, onde ingressou na universidade local, passando a estudar Direito. A ideia era seguir os passos de seu pai. Foi no outono de 1835, enquanto já estava estudando na Universidade de Bonn, que Marx conheceu sua futura esposa, Jenny von Westphalen (1814-1881), o grande amor de sua vida, com quem manteve-se casado por 40 anos. Jenny não era descrita como uma bela mulher, mas era carinhosa e virtuosa, duas características que encantaram Marx. Ela era amiga de Sophie Marx, e foi por intermédio da irmã, que Karl lhe foi apresentado. Jenny era filha do barão Johann Ludwig von Westphalen (1770-1842), que trabalhava como professor universitário. Johann era um homem erudito, falava quatro a cinco idiomas, gostava de música, literatura, história e filosofia. Com os anos ele despertou apresso pelo futuro genro, mesmo que ele fosse quatro anos mais jovem que sua filha. De qualquer forma, Marx não iniciou de imediato sua relação com Jenny, ele como um rapaz de seus 18 anos, ainda era imaturo para vários aspectos da vida, e como tantos jovens, acabou sendo influenciado por más amizades. Marx passou cerca de um ano matriculado em Bonn, mas devido a sua irregularidade como aluno, no que repercutiu em notas baixas, trabalhos atrasados, falta as aulas, e várias idas as tavernas locais com seus amigos, especialmente ao Trier Tavern Club, onde ele passava horas jogando conversa fora, bebendo e escrevendo poesia. Heinrich decidiu mudar o filho de universidade, afastando-o dessas más companhias. (MEHRING, 1962, p. 6-7).


Georg W. F. Hegel
Assim, no verão de 1836, Marx mudou-se para Berlim, onde ingressou na Universidade de Berlim. Lá ele deveria retomar seus estudos de Direito, porém, Marx nesse tempo que estudou em Bonn percebeu que sua vocação não era ser advogado como o pai. Ele queria estudar Filosofia e Literatura, disciplinas que seu pai desaprovou anteriormente. Porém, em Berlim, Marx teve a oportunidade de estudar Filosofia, e lá ele se familiarizou com a obra de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), o qual havia sido professor e reitor da Universidade de Berlim, e um dos mais notórios e respeitados filósofos daquela época, e ainda hoje. Revigorado pela repreensão que seu pai lhe deu, Marx dessa vez passou a se dedicar aos estudos; continuou a estudar Direito e começou a estudar Filosofia e História. Nesse período ele também passou a se corresponder por carta com Jenny, e assim, em 1837, formalizaram seu namoro. Marx Pemaneceu em Berlim até a conclusão de sua graduaçãoSeu interesse pela filosofia hegeliana o levou a ingressar no movimento dos Jovens Hegelianos, composto por professores, alunos e funcionários da universidade, o qual consistia num movimento dividido entre direita e esquerda, os quais disputavam espaço na universidade. Além dessa rixa profissional, os hegelianos em geral tinham assuntos em comum. Baseados nas obras de seu mentor, eles debatiam política, filosofia, história, sociedade, economia, justiça, leis, religião, etc. 

No ano de 1838, seu pai Heinrich Marx faleceu. Aquilo abalou Marx e o restante da família. Mesmo assim ele continuou seus estudos e iniciou o doutorado em 1839, se formando em 1841, como Doutor em Filosofia na Universiade de Jena, pois sua tese foi repudiada por motivos políticos, devido ao fato de fazer parte dos Jovens Hegelianos. Sua tese defendeu uma comparação entre as diferenças da filosofia de Demócrito e Epicuro, expoentes entre os filósofos gregos antigos. Concluindo seus estudos, Marx contava em 1841 com 23 anos, ainda jovem. Ele planejava seguir carreira acadêmica, mas devido ao fato de pertencer aos Jovens Hegelianos isso prejudicou suas expectativas. A reitoria da Universidade de Berlim, controlada por conservadores e reacionários, barraram qualquer tentativa dos Jovens Hegelianos de se tornarem parte de seu quadro de funcionários. Inclusive professores que pertenciam a esse movimento como Bruno Bauer, foram demitidos. 

Início da carreira jornalística (1842)

Marx retornou para casa em Tries, e após seis semanas seguiu para Bonn, a fim de prestar exame para ser professor universitário. Ele estava em companhia de seu professor e agora amigo Bauer. Um dos requisitos para que pudesse prestar exame em Bonn, era que sua tese de doutorado fosse publicada. Marx passou semanas revisando seu trabalho, realizando correções e acréscimos. Porém, as editoras não estavam interessadas em publicar algo sobre antigos filósofos gregos. Hegel era o filósofo da moda naquele tempo. Além disso, os doutores de Bonn, fortemente influenciados pela filosofia hegeliana, discordavam de vários pontos da filosofia de Demócrito e Epicuro. Em outros termos, eles não agiram profissionalmente, deixaram que suas ideologias prevalecem-se no lugar de seu profissionalismo. As semanas se estendiam nesse problema. 

Mas se por um lado, Marx estava sem sorte, seu amigo Bauer também. Sua crítica aos Evangelhos Sinóticos não foi bem recebida, e Bauer foi acusado de ser ateu, mesmo sendo ele um protestante. Apesar das críticas opostas a Bauer, Marx decidiu apoiar o amigo. Nesse período Marx começou a se tornar mais cético e se distanciar do cristianismo, até a vir declarar-se posteriormente ateu. No final de 1841, o barão Johann von Westphalen estava muito doente. Marx foi visitar seu sogro. Esse faleceu em 3 de março de 1842. Marx na época já estava noivo, mas optou em adiar o casamento, por não ter conseguido emprego. Como a tentativa de ingressar na Universidade de Bonn fracassou, Marx conseguiu emprego de jornalista no jornal Rheinische Zeitung (Gazeta Renana), fundado em 1 de janeiro de 1842, em Colônia. Logo, tratava-se de um jornal bem novo e sem renome. Ainda assim, foi o sustento e Marx. (MCLELLAN, 1995, p. 38). 

Marx passou o meses seguintes trabalhando no jornal, além de escrever matérias para outros jornais e ajudar seu amigo Bauer, na escrita ou revisão de seus artigos, os quais envolviam temas políticos e teológicos. Devido ao seu bom serviço prestado no Rheinische Zeitung, foi promovido ao cargo de editor. Nesse tempo que esteve no jornal, realizou algumas viagens a trabalho. Foi nessa época que seu interesse por política e questões sociais começou a despertar. Em sua estada em Colônia, conheceu Arnold Ruge (1802-1880), que era filósofo e havia sido um jovem hegeliano. Ruge atuava no meio jornalístico na época, e tornou-se amigo de Marx. 

As críticas jornalísticas promovidas pelo Rheinische Zeitung sobre questões relacionadas a temas liberais, a laicidade do Estado, intervenção do poder monárquico, republicanismo, etc. passaram a serem vistas como incômodos pelo governo da Renânia-Palatinado. Marx como era editor do jornal, recebeu em algumas ocasiões cartas com reclamações, acusações e ofensas. Ele era taxado de tumultuador. O órgao censor do governo nos últimos meses de 1842 e começo de 1843 começou a ficar cada vez mais ríspido quanto a aprovação das matérias publicadas pelo Rheinische Zeitung. Isso culminou no ato de que o jornal foi fechado por ordem do govenro. No começo de 1843, Marx desgostoso em saber que não poderia exercer a liberdade de imprensa em Colônia, e provavelmente em outra parte do reino prussiano e na própria Alemanha também, decidiu se mudar para um lugar onde pudesse trabalhar e não ser perseguido pelo governo, assim, ele mudou-se com sua noiva para Paris. 

Casamento e vida em Paris (1843-1845)

Antes de mudar para Paris, seu amigo, o jornalista e filósofo Arnold Ruge, havia proposto Marx fazer algo do tipo. Ruge havia conseguido dinheiro para fundar uma revista a qual foi a Deutsche-Französische Jahrbiicher (Anais Franco-Alemães). Meses depois, Ruge propôs uma vaga de emprego na mesma revista, a ofertando para Marx, e isso foi a solução para ele deixar Colônia e mudar-se para Paris. Em 19 de junho de 1843, Marx casou-se com Jenny von Westphalen. Em Paris, ele passou a trabalhar com Ruge, atuando como co-editor. O Deutsche-Französische Jahrbiicher seguiu uma tendência similar ao Rheinische Zeitung, consistindo num jornal de crítica bem ácida para a época. (MEHRING, 1962, p. 56). 

A estada de Karl Marx em Paris foi bastante significativa em sua vida. Nesse quase dois anos que ali residiu na capital francesa, Marx publicou suas críticas a filosofia de Hegel, sua primeira filha, Jenne Caroline Marx (1844-1883) nasceu; ele aproximou-se das ideias políticas e sociais do Socialismo e do Comunismo, além de ter conhecido Engels, seu grande amigo e colaborador em vários trabalhos, dentre os quais, O Manifesto do Partido Comunista (1848). Mas antes de prosseguir, vejamos alguns pontos a serem destacados na permanência da família Marx em Paris.

Enquanto co-editor da revista Deutsche-Französische Jahrbiicher, Marx deu segmento as suas críticas e análises políticas e sociais. Na época, ele ainda não havia aderido ao pensamento socialista ou comunista. Marx ainda se considerava um liberal moderado. Provavelmente tinha um posicionamento de centro ou centro-esquerda, diferente de seu amigo Arnold Ruge que era um liberal conservador de direita. Até esse ponto, ambos não discordavam entre si. Marx aproveitou a revista para publicar dois de seus primeiros estudos, Crítica a filosofia do Direito de Hegel (1843-1844) e A questão judaica (1843).

No primeiro estudo, Marx já se apresentava distinto do hegelianismo, pois se no passado foi um dos seguidores do mesmo, ele agora rompia com as ideias de Hegel. No caso seu estudo era uma crítica ao livro Princípios da Filosofia do Direito (1820) de Georg Hegel. No caso, do seu segundo estudo, Marx analisou algumas ponderações feitas pelo seu amigo Bruno Bauer sobre as tentativas dos judeus de criarem um Estado próprio na Prússia, além de sua defesa de um Estado secular. Marx discordou em vários pontos do amigo, além dessa questão religiosa quanto ao papel da religião sobre o Estado, Marx também debateu ideias de emancipação política, direitos civis e liberalismo. 

Ainda em 1844 ele continuou a escrever outras matérias, além de colaborar com críticas ao governo prussiano e germânico. Algumas cópias do períodico foram distribuídas nas grandes cidades prussianas, e isso não agradou as autoridades. Por outro lado, em sua estada em Paris, Marx começou a se aproximar de novas ideias. Ele conheceu a Liga dos Justos, fundada em 1836, baseada em ideias socialistas. A Liga dos Justos anos depois tornaria-se a Liga dos Comunistas. Além desse contato com os socialistas, Marx também entrou em contato com os anarquistas, como Mikhail Bakunin (1814-1876) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), embora ele não tenha sido concordante com a forma de pensar dos anarquistas e até chegou a discutir com Proudhon em certa ocasião. Além desse contato com os socialistas e anarquistas, Marx passou a ler autores economistas liberais como Adam Smith (1723-1790), autor de A Riqueza das Nações (1776); François Quesnay (1684-1774) e David Ricardo (1772-1823), um dos principais economistas liberais que o influenciaram. (BERLIN, 1959, p. 86). 

Embora tenha lido as obras de renomados economistas liberais clássicos, Marx já apresentava suas discordâncias, as quais foram se assentuando-se a medida que ele estudava cada vez mais o capitalismo e o socialismo. Quanto as ideias socialistas e comunistas, esse é um tema que merece um pouco de atenção. Eu já li e ouvi pessoas dizerem que Karl Marx inventou o socialismo e o comunismo. Isso são afirmações errôneas. Ele não inventou essas doutrinas político-econômicas. Pelo contrário, Marx foi um entre tantos outros filósofos, economistas, cientistas políticos, intelectuais, etc. que escreveram a respeito do socialismo e do comunismo. Por serem termos complexos, o que demandaria textos bem mais extensos, apesar de haver livros que abordem especificamente os vários sentidos e posicionamentos que esse movimentos foram tomando ao longo da história, optei em apresentar uma breve definição de ambos. 

O socialismo consiste numa doutrina de organização político-econômica que visa planejar a administração pública a respeito da propriedade privada, produção industrial, oferta de serviços públicos, cobrança de impostos, divisão e organização do trabalho, coletivismo, além de procurar proporcionar uma sociedade mais igualitária, entre outros fatores. É evidente que essa descrição sucinta, a grosso modo, não corresponde a totalidade de ideias socialistas, as quais mudaram nos últimos duzentos anos, mas de qualquer forma, o Socialismo surgiu no século XVIII, com os filósofos e economistas Robert Owen (1771-1858) e Henri de Saint-Simon (1760-1825). No começo do século XIX, outros filósofos e economistas como Pierre Leroux (1797-1871) e Marie Roch Louis Reybaud (1799-1879) escreveram a respeito. Com exceção de Owen que era galês, os demais eram todos franceses, inclusive o uso do termo socialismo é creditado a Saint-Simon. Os filósofos acima ficaram conhecidos como "socialistas utópicos", uma forma de diferenciar dos "socialistas científicos", surgidos a partir da década de 1830, o que inclui Marx e Engels. 

No caso, o Socialismo quando surge ainda em fins do XVIII, era proposto como uma alternativa ao modelo capitalista liberal industrial vigente na época. Owen e Saint-Simon propunham uma reestruturação do Estado, o qual interviria para reorganizar a produção e a divisão do trabalho, mas posteriormente se tornaria minímo, pois a administração seria feita a partir de um âmbito local, comunal e regional, uma tendência vista entre os federalistas da época. Na década de 1800, as ideias socialistas ganharam simpatia entre ativistas e militantes, passando a endossar o movimento operário da época. Assim, o socialismo deixava de ser apenas uma doutrina político-econômica para se tornar os preceitos de um movimento operário que protestava contra a exploração do trabalho, reivindicava direitos trabalhistas, melhores condições de emprego, etc. Essa visão vai ser fortemente difundida pelo restante do século XIX. Quando Marx e Engels em 1848 publicaram o manifesto, eles o fizeram tomando essa visão sobre socialismo. (PIANCIOLA, 1998, p. 1198-1206). 

No caso caso do Comunismo, essa palavra foi proposta pelo filósofo francês Victor d'Hupay (1746-1818), para se referir a sua ideia de comunas. Somente na década de 1820 é que vemos o termo comunista sendo usado para se referir a membros surgidos a partir do socialismo. Apesar que Robert Owen tenha dito que socialistas e comunistas não fossem sinônimos, mas havia quem os usava naquele tempo como sinônimos. Todavia, na década de 1840, os termos ganharam separação. O Comunismo passou a representar ideias diferentes do Socialismo, como o fim das classes sociais, o fim da propriedade privada e a coletivização das terras, a descentralização do governo, e até sua dissolução em alguns casos; o desenvolvimento de uma produção fabril planejada e racional, não mais pautada no lucro ou no consumismo desnecessário, além de pensar também numa sociedade mais igualitária, sem haver aquelas divisões abruptas entre ricos e pobres. Serão essas ideias que Marx e Engels passariam a defender. (BEDESCHI, 1998, p. 207-208)

As ideias socialistas e comunsitas comentadas acima a grosso modo, começaram a encantar Marx, pois ele via nestas doutrinas, algumas respostas para problemas enfrentados entre as monarquias parlamentaristas de seu tempo, o liberalismo conservador e o capitalismo industrial. Todavia, tais ideias acabaram fazendo Marx entrar em conflito com Arnold Ruge, que era averso a ideia de movimento operário, sindicalismo, crítica ao capitalismo, etc. Assim, em meados de 1844, a amizade entre ambos terminou. Marx se retirou da revista Deutsche-Französische Jahrbiicher


Friedrich Engels
Ainda em 1844, após se corresponder com o filósofo prussiano Friedrich Engels (1820-1895), esses finalmente se encontraram em Paris. O contato foi o início de uma longeva amizade e colaboração. Engels embora fosse oriundo de uma família rica que possuías fábricas têxteis, sua experiência em gerenciar uma dessas fábricas na Inglaterra, o fez repensar sua visão sobre o capitalismo, a industrialização, a exploração do trabalho, o liberalismo, etc. Engels deixou a gerência da fábrica e em 1844 viajou para Paris, permaneceu alguns dias lá, em conversas com Marx e outras pessoas, antes de retornar para a Prússia. A partir da sua vivência como gerente de uma fábrica têxtil, Engels decidiu apoiar a causa operária, passou a se interessar pelo socialismo e o comunismo, ideias que compartilhou com Marx. Os contatos com Engels e outros pensadores socialistas da época levaram a Marx escrever Manuscritos Econômicos-Filosóficos, uma série de anotações sobre reflexões que ele teve a respeito da forma como o trabalho era organizado na época. Marx na ocasião começou a pensar as ideias de exploração e alienação do trabalho, abuso econômico, abuso de poder, etc. Os cadernos que continham tais anotações nuncam foram publicados em vida, somente após a sua morte eles foram publicados. No entanto, são interessantes, pois mostram as primeiras tentativas de Marx de pensar o capital e o trabalho, algo que somente desenvolveria de forma mais coesa e detalhada anos depois quando escreveria O Capital

Após ter saído da editoração da revista Deutsche-Französische Jahrbiicher, a revista meses depois faliu. Para sorte ou não de Marx, ele saiu antes de isso acontecer. Todavia, no segundo semestre de 1844, Marx foi contatado para se tornar jornalista colaborador do jornal quinzenal Vorwärts! (Adiante!), uma publicação radical e de caráter revolucionário que debatia pautas sobre política, cultura, sociedade, economia, literatura, teatro, música, ciência, costumes, etc. O jornal foi concebido por artistas alemãs, e era instalado na França, mas publicava matérias em alemão, já que na Prússia e Alemanha teria sido censurado. Devido ao seu teor radical, o jornal contou com matérias de socialistas, anarquistas, sindicalistas, revolucionários, liberais exaltados, etc. Marx foi um de seus colaboradores. 


Página de 10 de junho de 1844, do Vorwärts! 
Ainda no ano de 1844, em julho estourou na região da Silésia, território dividido entre Alemanha, Polônia e República Checa, que na época fazia parte da Prússia. Na ocasião, uma grande revolta de operários da indústria têxtil, eclodiu. A chamada Revolta dos Tecelões ou Greve da Silésia, tornou-se matéria em vários períodicos europeus na época. No caso do Vorwärts! isso não foi diferente. Na ocasião, Karl Marx foi quem escreveu acerca. A matéria foi publicada em 10 de agosto de 1844, onde Marx apoiou as medidas drásticas tomadas por cerca de 5 mil operários nos meses anteriores. No caso, a revolta ocorrida na Silésia, contou com conflitos entre a polícia e o exército, além de vandalismo, invasão das residências dos gerentes e donos das fábricas, invasão das fábricas, dano ao patrimônio público e privado, etc. Apesar desse efeito colateral, Marx viu de forma positiva a iniciativa, a qual ele considerou como manifestação do ódio do proletariado frente a opressão dos donos das fábricas. Além de comentar sobre a revolta, Marx também aproveitou para discursar sobre algumas de suas ideias a respeito da alienação do trabalho, exploração do trabalho, capitalismo, industrialismo, greve, socialismo, etc. Seu artigo intitulado O rei da Prússia e a reforma social. Por um prussiano, não agradou as autoridades prussianas.  

Nos meses seguintes o Vorwärts! continuou a publicar matérias sobre o caso da Silésia e outros assuntos, Marx também continuou a escrever no jornal. Em outubro de 1844, o embaixador prussiano em visita a Paris, apresentou as queixas do rei Frederico Guilherme IV ao jornal Vorwärts!, pois Sua majestade dizia que o jornal tratava-se de um folhetim barato para tumultuadores que insultavam e zombavam de seu governo e país. Assim, o então Ministro do Interior francês, François Guizot (1787-1874), para evitar uma crise política entre França e Prússia, decidiu decretar a ilegalidade do Vorwärts! e seus colaboradores deveriam deixar o país, sob risco de irem para a prisão. Marx, Ruge, Bakunin, Engels, Börnstein, Barneys, entre outros colaboradores do jornal, receberam aviso de exílio. Na ocasião, Engels propôs que Marx, sua esposa e filha mudassem-se para Bruxelas na Bélgica. (THOMAS, 2012, p. 75). 

Vida em Bruxelas (1845-1848)

O jornal Vorwärts! chegou ao fim, após sua breve existência polêmica, em 25 de janeiro de 1825, quando definitivamente foi fechado por ordem do ministro Guizot. Marx e sua família no mês de fevereiro deixaram Paris, e mudaram-se para uma casa na rua Aliança, em Bruxelas, Bélgica. A família Marx passaria os próximos anos na capital belga, embora Marx tenha se mudado brevemente com eles para Londres, em 1846, e depois viajou de volta a Paris e Colônia, nos anos seguintes. Porém, o que se destaca da vida dele em sua permanência na Bélgica, deve-se a sua cooperação com Engels, e a escrita de vários trabalhos, além do fato, de que foi em Bruxelas que Marx amadureceu suas ideias sobre Socialismo, Comunismo e revolução. 

Antes de deixar Paris, Marx já havia iniciado um projeto parceira com Engels, tratava-se de Die heilige Familie (A Sagrada Família). Apesar do título remeter a uma ideia religiosa, a obra o adotou num tom sarcástico e sem relação com a religião. Em 1843, Bruno Bauer e seus irmãos Edgard e Egbert, os quais todos eram Jovens Hegelianos, escreveram algumas críticas sobre temas religiosos, políticos e filosóficos, envolvendo cristianismo, judaísmo, Revolução Francesa (1789-1799), industrialização na Inglaterra, Liberalismo, Socialismo, etc. Embora Bruno Bauer tenha sido professor e amigo de Marx no passado, os dois haviam se desentendido antes mesmo de Marx deixar a Prússia. Por sua vez, Marx abandonou a filosofia hegeliana e tornou-se crítico da mesma. Por fim, Marx e Engels rebateram as críticas dos irmãos Bauer, sobre os assuntos acima, inclusive os irmãos teriam desmerecido a importância da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, questões que não agradaram Marx e Engels. Por sua vez, os irmãos Bauer não gostaram do tom sarcástico do livro A Sagrada Família (1845) e isso iniciou uma série de trocas de farpas entre os autores pelos anos seguintes. Os quais rebatiam suas críticas, postando-as em jornais. (MEHRING, 1962, p. 99-101).


Ludwig Feuerbach
Ainda criticando os Jovens Hegelianos, Marx redigiu em 1845, as Teses sobre Feuerbach, obra que somente foi publicada postumamente. No caso, o livro tratou-se de 11 notas críticas a filosofia e trabalho de Ludwig Feuerbach (1804-1872), importante filósofo hegeliano na época. Feuerbach antes de estudar filosofia, havia ingressado no curso de teologia, mas acabou abandonando o mesmo e foi estudar filosofia em Berlim, especializando-se na obra de Hegel. Por sua vez, ele deixou de ser cristão e tornou-se ateu, apesar que escreveu obras sobre o Cristianismo. Marx criticava as ideias de Feuerbach quanto ao idealismo filosófico dos hegelianos, e outros assuntos referentes as ideias, a sociedade e a política. Todavia, as críticas de Marx a Feuerbach foram produtivas para ambos os filosófos, pois eles se influenciaram um pelo trabalho do outro. 

Enquanto Marx prosseguia com suas críticas a filosofia hegeliana, Engels na ocasião publicou um de seus importantes trabalhos, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845). Escrito durante sua estada na Inglaterra, especialmente em Londres e Manchester, entre os anos de 1842 e 1844, a obra redigida em alemão, foi publicada em 1845, apresentando um retrato sobre as péssimas condições de trabalho e vida dos operários ingleses, nas duas cidades que Engels esteve. O livro foi o resultado de pesquisa de campo e observação do autor quanto a dura realidade da exploração do trabalho e a falta de leis trabalhistas para ajudar aquelas pessoas. Engels também fez denúncias contra o trabalho infantil, falta de segurança no trabalho, insalubridade, alojamentos e bairros operários decadentes e mal-estruturados, etc. O livro influenciou Marx quanto a sua visão acerca da exploração do trabalho. (MCLELLAN, 1995, p. 125-126).

Em julho de 1845, Marx e a família viajaram para Londres, onde permaneceram alguns meses lá. Na ocasião Jenny estava grávida, e deu a luz a Laura Marx (1845-1911) em setembro daquele ano. Posteriormente, após alguns meses de permanência em Londres, onde Marx com o apoio de Engels, entrou em contato com militantes, jornalistas, editores, escritores, intelectuais, etc. a família Marx retornou para Bruxelas. Ainda em 1845, os dois amigos estavam trabalhando em outros projetos, um deles tratava-se da obra intitulada A ideologia alemã, apresentada em 1846. Embora o livro somente foi publicado em capítulos nos anos seguintes. Apenas em 1933 ele recebeu uma publicação integral com todos os capítulos.

Resultado de vários meses de trabalho, o livro intitulado A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. O longo subtítulo da obra já deixa destacado as intenções dos autores as quais foram criticar três renomados filósofos hegelianos da época, Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer e Max Stirner, além de criticar como as ideias socialistas eram desenvolvidas e pensadas na Prússia e Alemanha. No caso, Marx e Engels criticavam o que eles consideravam uma excessiva filosofia idealista dos hegelianos, sua sonsatez em alegarem ser "revolucionários", pois Marx e Engels os acusaram de serem conservadores sonsos. Eles combateram o idealismo de Feuerbach com o materialismo histórico; responderam as ideias seculares de Bauer, e ao anarquismo individualista de Stirner, além do que chamaram de "desvirtuamento do socialismo alemão". (MEHRING, 1962, p. 110). 

É evidente que as críticas apresentadas ao livro, excedem aos meus comentários singelos, somente lendo a respeito pode-se ter um real conhecimento do que Marx e Engels escreveram. Todavia, destaca-se nesse caso, como apontado por Rolf Hosfeld (2009, p. 29), o livro A ideologia alemã não foi apenas uma crítica aos autores supracitados, mas também uma demonstração argumentativa de Marx e Engels sobre suas visões acerca do desenvolvimento histórico, o pensamento materialista, o papel da filosofia não apenas como forma de pensar, mas também de agir, pois os dois autores criticavam o "inatismo" dos hegelianos frentes as necessidades sociais, econômicas e políticas. Marx e Engels neste caso, apresentavam-se como filósofos mais preocupados com a urgência de se ensinar a sociedade a pensar e ser crítica, para tomar decisões políticas que repercutissem em melhorias diretas e úteis, e não a ficar em devaneios sobre regimes políticos, leis, direito, a religião, etc. como os hegelianos as vezes faziam. 

A ideologia alemã não foi publicada em 1846, pois estava ainda incompleta e sofreu revisões e modificações, sendo publicada parcialmente nos anos seguintes, o que contribuiu por manter o contato entre Marx e Engels, com Feuerbach, Bauer e Stirner. Marx passou os dois anos seguintes trabalhando em projetos pessoais e em outros conjuntamente com Engels. No caso, ele passou a colaborar com jornais, revistas e editoras, além de entrar em contato com socialistas que viviam na Bélgica, Inglaterra, Alemanha, Prússia e França. Ainda em 1846, seu primeiro filho, Edgar Marx (1847-1855) nasceu em dezembro daquele ano. Devido a dificuldade financeiras, Marx teve que mudar de casa, pediu dinheiro emprestado para mãe e Jenny procurou um emprego temporário. (MCLELLAN, 1995, p. 138-139). Em outro momento comentarei essa questão financeira sobre ele e sua família, motivo de desinformação grande. 

Na passagem de 1846-1847, Marx prosseguiu com seus escritos políticos e sociais, e publicou A Miséria da Filosofia, sua famosa e polêmica, crítica ao trabalho do anarquista Proudhon, intitulado A Filosofia da Miséria (1846). Em novembro de 1846, Marx recebeu de seu livreiro um exemplar da mais recente obra de Proudhon, enviado como presente pelo senhor Pável V. Annenkov. No dia 28 de dezembro ele redigiu uma carta agradecendo o presente e tecendo comentários breves sobre a obra de Proudhon, que chamava de um trabalho mau escrito, mau acabado, ingênuo, ridículo etc. como pode ser lido nesse trecho de sua carta.


“Confesso-lhe francamente que acho o livro em geral mau e muito mau. Na sua carta, V. mesmo brinca "com o naco de filosofia alemã" que o sr. Proudhon alardeia nessa obra informe e presunçosa, mas supõe V. que o desenvolvimento económico não foi infectado pelo veneno filosófico. Também eu estou muito longe de imputar os erros da explanação económica à filosofia do sr. Proudhon. Não é por estar na posse de uma filosofia ridícula que o sr. Proudhon apresenta uma falsa crítica da economia política, ele apresenta uma filosofia ridícula por não ter compreendido o estado social actual no seu encadeamento [engrènement], para usar uma palavra que o sr. Proudhon foi buscar a Fourier, como muitas outras coisas”. (MARX, 2017, p. 232). 

Após a carta redigida ao senhor Annenkov, Marx dedicou-se a redigir um pequeno livro criticando mais expressivamente o trabalhou de Proudhon, no que resultou em A Miséria da Filosofia (1847), que chegou a ser publicada na época, sofrendo boicote na Prússia e Alemanha por causa da má fama que Marx tinha por lá, além de que os anarquistas tentaram boicotá-la também. Pois além de criticar Proudhon, dizendo que ele não sabia de história, sabia pouco de filosofia e economia, Marx também criticou algumas de suas ideias anarquistas, lembrando que os dois já se conheciam desde de Paris. 

Todavia, o período de 1846-1847 também foi marcado pelos contatos de Marx com o Comitê Comunista, que resultou em 1847 a sua adesão a Liga dos Comunistas. Dentre os fatores que levou Marx e também Engels a se aliarem a liga internacional dos comunistas estava a crítica por eles apresentadas no livro A ideologia alemã ao socialismo alemão, que eles consideravam desvirtuado em alguns pontos. Com base na leitura de artigos e matérias redigidos por socialistas alemãs como Mose Hess, Karl Grün, Otto Lünning, Hermann Püttman, entre outros, os quais se chamavam de "verdadeiros socialistas", Marx e Engels até chegaram a colaborar com alguns desses, como Hess e Grün, mas passaram a discordar da visão deles acerca da luta de classes, dos privilégios burgueses, exploração do trabalho, justiça social, etc. Para Marx e Engels, esse socialistas ainda estavam presos ao pensamento do socialismo-utópico, algo que eles já haviam abandonado, por isso esse densentendimento como os chamados "verdadeiros socialistas", termo que consideravam egocêntrico. (BERLIN, 1959, 132-133). 

Paris-Colônia (1848-1849)

Pensando nesse caminho que o "verdadeiros socialistas" estavam tomando e queriam inculcar entre outros ciclos socialistas e até comunistas, Marx e Engels já vinculados a Liga dos Comunistas, começaram a redigir um manifesto. Em 1848, ano que eclodiu vários protestos e tentativas revolucionárias pela Europa, as quais ficaram conhecidas como a Primavera dos Povos (1848), uma série de revoltas e pequenas revoluções que eclodiram pela Prússia, Alemanha, França, Itália, Áustria, Hungria, etc. que consistiam na mobilização das classes baixas que reivindicavam representividade política, leis trabalhistas, leis civis, além de lutarem pela abolição da servidão, da cobrança de tributos feudais, o fim das monarquias autocráticas, a proclamação de democracias e repúblicas, etc. 


Cena da revolução de 1848, em Berlim. 
De caráter nacionalista, liberal e socialista, as revoluções obtiveram alguns sucessos, e no afã dessa agitação, em Londres, foi publicado O Manifesto do Partido Comunista (1848). Marx viajou com Engels para Paris e depois Colônia, a fim de divulgar o manifesto. Embora seja uma das obras mais comentadas dos dois autores, o manifesto em si é um trabalho simples. Basicamente consistiu nas pautas e críticas que a Liga dos Comunistas, surgida em 1847, contando com a colaboração direta de Marx e Engels, que mobilizaram contantos em alguns países europeus para isso. Sendo assim, o manifesto apresentava suas críticas aos socialistas-utópicos, aos "verdadeiros socialistas", aos chamados "socialistas burgueses", assim como, propunha a mostrar a diferença do comunismo perante o socialismo, além de informar a respeito da luta de classes, exploração do trabalho, problemas do sistema capitalista, necessidade de união do proletariado, etc. 

Embora seja um documento curto, a obra recebeu várias traduções e prefácios durante a vida dos autores. Ganhou uma boa repercussão, porém, o sonho de Marx e Engels de conseguir mobilizar o proletariado europeu em dar segmento a revolução comunista, nunca se realizou. Apenas em 1917, na Rússia, com Vladimir Lenin houve uma tentativa do tipo, mas que acabou não vingando. Lenin se baseou mais nas suas reinterpretações sobre o socialismo-comunismo, no que na teoria proposta por Marx e Engels. 

Mesmo não obtendo o resultado desejado, Marx ainda estava empolgado. Ele passou algumas semanas em Paris, divulgado o manifesto e falando a respeito da Liga dos Comunistas, fundada em Londres. Então seguiu para Colônia, lá ele comandou um breve jornal de caráter revolucionário comunista, o Neue Rheinische Zeitung (Nova Gazeta Renana), que operou de junho de 1848 a maio de 1849, período que Marx e sua família viveram em Colônia. O jornal fazia referência ao antigo períodico que Marx trabalhou no ano de 1842, naquela mesma cidade. Agora o novo jornal tinha como função difundir informes sobre as revoluções, movimentos, revoltas, e comunicados sobre a Liga dos Comunistas. Todavia, o jornal voltou a irritar as autoridades e em março de 1849 ele foi fechado. A última edição foi publicada no dia 19 de março, ficando conhecida como o "número vermelho". Marx despedia-se com um tom agressivo e de revolta, por novamente ter sido censurado e ameaçado pelo governo. (MCLELLAN, 1995, p. 200-2001). 


Primeira página do Neue Rheinische Zeitung, de 19 de março de 1849. O "número vermelho".
Ele e os demais envolvidos com o jornal, foram ameaçados de serem presos, caso não deixassem o país. A revolução de 1848 na Prússia, havia falhado. Marx se retirou com sua família para Paris, chegando em julho. Eles ficaram na casa de amigos. Em agosto compraram passagem para Londres. Por sua vez, Engels mudou-se para Genebra, na Suíça. (BERLIN, 1959, p. 165). 

Exílio em Londres (1850-1851)

Não era a primeira vez que Marx e sua família iam para a Inglaterra, mas dessa vez seria derradeira. Os Marx viveriam por vários anos na capital inglesa. Londres na segunda metade do século XIX era a maior metrópole da Europa e do Ocidente, com uma população de mais de 1,5 milhão de habitantes. Uma cidade grande, abarrotada de pessoas, animais, carruagens, fábricas, fumaça, lama, riqueza e miséria. Engels já havia apontado como vários bairros londrinos eram bem pobres; formados por cortiços, ruas não calçadas, falta de saneamento básico, problemas na coleta de lixo, casas pequenas e superlotadas, além de que alguns desses bairros ficavam próximos a fábricas, sendo que algumas delas exalavam de suas chaminés fumaça e fuligem. Escritores famosos como Percy Shelley, Charles Dickens e Arthur Morrison escreveram a respeito da dura vida que muitos londrinos levavam. (VILAR, 2011). 

O fato de Marx ter-se mudado para Londres não se devia nem a tanto a ser a mais rica capital europeia (e uma das mais miseráveis também), mas pela condição que a sede da Liga dos Comunistas estar sediado ali. Assim, Marx como um membro bastante ativo, decidiu ficar mais próximo da liga. Por um lado isso foi uma escolha acertada, pois a LC bancou as publicações de Marx, e ele manteve-se em contato com vários amigos e outros membros e militantes, o que ajudaria na divulgação de seu trabalho e na mobilização do proletariado para uma futura revolução (que como dito, nunca ocorreu).

Ao chegarem em agosto de 1849, os Marx se mudaram para um apartamento de dois cômodos na Dean Street, n. 64, próximo a King' Road, em Chelsea. Ali viveram por seis meses. Devido a terem que abandonar Colônia, passar por Paris e depois seguir para Londres, a família estava financeiramente delibitada por hora. Jenny conta em algumas cartas como aqueles meses foram difícieis, pois tinham pouco dinheiro, vivendo das economias que haviam feito. Em Novembro nasceu o quarto filho do casal, Henry Edward Guy (1849-1850), apelidado de Guido. A situação  financeira da família, melhoraria quando Marx começou a trabalhar num novo jornal, o Neue Rheinische Revue (Nova Revista Renana), que na prática era uma continuação do antigo jornal comunista que Marx e seus amigos editavam em Colônia. A ideia era que em Londres, o jornal pudesse ter mais repercussão, pois o público alvo era a classe operária. Embora seja principalmente lembrado como filósofo, profissão que lhe rendeu fama, mas foi o jornalismo que consistiu na profissão que lhe garantiu o sustento ao longo da vida. (MCLELLAN, 1995, p. 208). 


Os vários anos que viveu na Inglaterra, Marx aproveitou para observar como o sistema capitalista funcionava, já que a Inglaterra era o país mais industrial e capitalista do mundo, naquele momento. Isso ajudou muito na escrita de seus trabalhos econômicos, como O Capital, do qual falarei adiante. (BERLIN, 1959, p. 169). Porém, neste começo, Marx esteve mais ocupado com os assuntos do jornal, da liga e do apoio dado aos refugiados alemães, na German Workers Education Association. Em 1850, Engels mudou-se para a Inglaterra, visitou Marx e amigos, debatendo novos projetos, e seguiu para Manchester, onde foi trabalhar com o pai. Além disso, o pequeno Guido faleceu em setembro daquele ano. As causas da morte não são conclusivas, mas biógrafos como Mcllelan (1995, p. 209), aponta meningite como possível causa da morte de Guido.

No caso, é preciso sublinhar que em Londres e nos arredores havia uma alta taxa de mortalidade infantil devido as pobres condições de saúde pública. Doenças como sarampo, cólera, tifo, rubéola, meningite, etc. afligiam a população. Sem contar que no passado, Londres foi assolada por surtos de peste negra, em pleno século XVII. Após a morte de Guido, em dezembro de 1850, a família se mudou para outra casa na mesma Dean Street, agora o número 28. 

Também data de 1850 o ingresso de Wilhelm Stieber (1818-1882), espião prussiano, enviado pelo governo para destabilizar a Liga dos Comunistas. Não se sabe ao certo como Stieber conseguiu obter sucesso em sua missão, mas segundo seu relatório, ele invadiu a casa de Marx na rua Dean, e ali roubou documentos que continham o nome de todos os membros da Liga, inclusive membros secretos, cuja informação não era pública. Com os nomes em mão, os membros que viviam em território prussiano foram perseguidos e presos. A Liga entrou em crise e em 1852 ela definitivamente foi cancelada. Uma nova organização somente surgiria vários anos depois. 

Tempos difíceis (1852-1856)

O período de quatro anos entre 1852 e 1856 foi tenso para a famíla Marx. Sua filha Jenny Eveline Francisca faleceu em abril de 1852, com um ano de idade. As causas da morte não são exatas. Em janeiro de 1855, nasceu Jenny Julia Eleanor Marx (1855-1898), mas em abril daquele mesmo ano faleceu Edgar Marx, que contava com 8 anos na época. Vítima de doenças comuns que acometiam os londrinos. Por fim, em 1856, a sogra de Marx faleceu também. Nota-se que nesse espaço de quatro anos, Marx perdeu dois filhos e a sogra. (THOMAS, 2012, p. 108-109). 

Um segundo ponto a destacar é que desde 1850 os Marx vinham passando por dificuldades financeiras e essas continuaram até 1854. Em cartas escritas por Marx e Jenny a amigos e familiares, nota-se o tom de sufoco do casal para conseguir pagar as contas, comprar comida, remédios e lenha. Alguns dos inimigos e desafetos de Marx chegaram a escrever que a família viveria numa casa imunda e não teriam dinheiro para pagar o aluguel e nem para comprar remédios, por isso, seus filhos pequenos faleceram. Se isso fosse verdade, Marx e a família teriam sido despejados do apartamento por causa de aluguel atrasado, mas moraram nele por seis anos; segundo, dizer que Francisca e Edgar morreram por falta de higiene na casa, não explica como os outros filhos não foram acometidos, e nem como a recém-nascida Eleanor não foi alvo disso. Ora, ela era a mais prematura e indefesa das crianças, com poucos anticorpos, por que não faleceu também? Já que convivia com os irmãos num apartamento de dois cômodos. Terceiro, dizer que Marx e a esposa foram relapsos com o cuidado dos filhos, vai de encontro as cartas que os dois escreveram falando sobre seus problemas, que repercutiu na ajuda de parentes e amigos, e o fato de Marx ter penhorado algumas coisas suas e da esposa, para comprar remédio e comida. (MCLELLAN, 1995, p. 239-242). 


Fotografia do prédio n. 28 da rua Dean, Soho, Londres. No terceiro andar viveram os Marx entre 1850 e 1856. Foi um dos momentos mais difíceis da vida da família, sendo anos de penúria. 
Não obstante, Mehring (1962) comenta que embora a produção de Marx tenha sido grande no jornal Neue Rheinische Revue, onde em 1855, ele já tinha escrito mais de 100 artigos, seu salário era pequeno, daí os problemas financeiros enfrentados nos últimos anos. A situação começou a mudar depois que sua renda foi incrementada como contratos feitos para os jornais Neue Oder-Zeitung e o New York Daily Tribune, algo que teve início em 1854. De posse desse dinheiro, Marx decidiu mudar de casa. Ele aguardou o retorno da esposa e das filhas, as quais haviam viajado para Trier, pois como dito, a sogra de Marx faleceu em 1856. Após o enterro da mesma, meses depois, Jenny e as filhas retornaram a Londres. Ela usou sua parte da herança recém-adquirida e junto com o marido se mudaram para uma casa no subúrbio, a qual era de alguel mais barato e mais espaçosa e confortável. 

Luís Bonaparte
Nesse período contubardo da vida de Marx, destacou-se um livro. Em março de 1852, Marx publicou o livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, que consistiu em sua análise criticando o golpe de Estado dado por Luís Bonaparte (1808-1873), o sobrinho de Napoleão I (1769-1821). No caso, Luís era o então presidente da França, tendo governado de 1848 a 1852, quando no ano de 1852 realizou um golpe de Estado e proclamou-se imperador, adotando o nome de Napoleão III, governando até 1870. Luís Bonaparte havia abolido a república francesa a qual Marx admirava, para restaurar a monarquia quase absolutista aos moldes da de Napoleão I. A obra de Marx analisava como o então presidente orquestrou seu golpe de Estado, mas além disso, o livro também apresenta algumas ideias mais amadurecidas de Marx, sobre a luta de classes, o Estado burguês, revolução, proletariado, política, etc. O livro foi originalmente publicado como uma edição especial do jornal A Revolução (Die Revolution) de Joseph Wedmeyer (1818-1866), jornalista, editor e militar, o qual era amigo de Marx e Engels desde Bruxelas. (MEHRING, 1962, p. 214-215). 

Economia, política e Lassalle (1857-1864)

Em sua nova residência, Marx e a família poderam levar uma vida mais confortável e tranquila. Suas filhas que sobreviveram, viveriam até a fase adulta. Sobre elas comentarei depois. De qualquer forma, Marx nesse período voltou a se dedicar aos estudos econômicos e políticos. Destacaram-se nessa fase dois livros seus: Os Elementos fundamentais para a crítica da economia política (Grundisse der Kritik der polistischen Ökonomie), conhecido também como Grundisse. A obra consiste em uma série de anotações que Marx redigiu entre os anos de 1857 a 1859. Ele nunca chegou a concluir esse livro, por considerá-lo que estava incompleto, já que passou por problemas de saúde na época. A obra somente foi publicada no século XX. 

No caso, embora de fato estivesse incompleto como alegado pelo autor, o Grundisse apresenta várias ideias que seriam mais tardes abordadas no Capital. Alguns estudiosos da obra de Marx, consideram esse livro uma preparação teórica de Marx para escrever O Capital. No Gundrisse, Marx aborda como temas principais a noção de mercadoria, o dinheiro, a circulação de bens, meios de pagamento, relação de compra e venda, custo e benefício, produção consumo e troca, distribuição e circulação do dinheiro e mercadorias, relações do Estado e da família com a economia, etc. (MARX, 2007). A obra consistia num manual sobre teoria econômica, além de esboçar seu método para estudar economia política, lembrando que Marx dez anos antes, havia criticado Proudhon por não saber fazer um estudo sobre economia e política. 


Karl Vogt
O segundo livro importante desse período foi o Herr Vogt (Senhor Vogt), obra publicada em 1860, consistia em outra crítica política de Marx. Dessa vez o alvo das suas críticas foi o filósofo Karl Vogt (1817-1895), o qual possuía estudos no campo das ciências da natureza, física e política. Além de ter assumido cargos políticos no Parlamento de Frankfurt e depois na Suíça. Vogt era um político de esquerda, mas aos olhos de Marx era um embusteiro. Anos mais tarde ele acusou-o de ser espião do imperador Napoleão III. De qualquer forma, o tema do livro Herr Vogt consistiu numa réplica a algumas falas e acusações de Vogt. Tudo começou em 1859, quando Karl Vogt após publicar um artigo intitulado Ensaios sobre a atual situação europeia, trabalho que recebeu duras críticas de publicações anônimas em jornais como o Das Volk e o Allgeimenung Zeitung. Na época, ainda em 1859, Vogt não gostou das críticas e da acusação de ser corrupto, então acusou Karl Marx de ser o autor dessas calúnias. Marx ficou espantando por tal acusação, já que não havia escrito nada contra Vogt, a quem nem conhecia direito. Mas em resposta a acusação e denúncia de calúnia e difamação, ele redigiu ao longo de 1859, o Herr Vogt, um dossiê no qual ele se defendia das acusações de Vogt, e tentava mostrar que o mesmo era corrupto, mentiroso e trapaceiro, estando envolvido com esquemas. 

O Herr Vogt não é uma das obras mais conhecidas ou significativas de Marx, mas é importante ser citado por se tratar de mais uma polêmica no qual ele se envolveu, e dessa vez tentou limpar seu nome. De qualquer forma, outro ponto importante do período que segue de 1860 a 1864, época marcada por conflitos na Prússia, Áustria, França, Itália, Estados Unidos, etc. foi a reaproximação de Marx com Ferdinand Lassalle (1825-1864), jurista, filósofo e ativista político de origem judia-germana. Marx havia conhecido Lassalle ainda em 1848, no período que voltou a residir em Colônia, por causa das Revoluções de 1848, contexto no qual Lassalle participou ativamente, inclusive foi acusado de ser tumultuador, agitador, tentar promover desordem pública, etc. Na época Lassalle era um militante bem radical e estava profundamente ligado aos protestos sindicais e até a luta armada como foi acusado. Tais acusações que lhe renderiam cadeia, então o levaram a deixar a Prússia. Marx aconselhado por Engels, cortou contato com Lassalle, apesar que anos depois, eles chegaram a trocar algumas cartas, e passaram a manter correspondência amigável. (MCLELLAN, 1995, p. 159). 


Ferdinand Lassalle
A partir de abril de 1861, Marx realizou uma longa viagem pela Holanda e Prússia, retornando para casa apenas em fevereiro de 1862. Na ocasião ele reencontrou Lassalle e sua passagem pela Prússia, já que o mesmo havia voltado a morar em Berlim, alguns anos antes. Ali Lassalle lhe informou a respeito de suas ideias para criar sindicatos, associações e até um partido de trabalhadores. Marx interessou-se por suas ideias, então sugeriu que Lassalle o visita-se em Londres. Em julho de 1862, Lassalle visitou Londres para se encontrar com Marx. Naquele momento ele era outro homem. Havia deixado para trás o radicalismo de 1848, tendo amadurecido suas ideias sobre política, sociedade e economia. Havia publicado o livro O sistema de direitos adquiridos (1861), uma obra em defesa da democracia. Em sua longa estada em Londres, Lassalle chegou a pedir dinheiro a Marx e Engels para poder levar a cabo seu plano de publicar outro de seus livros, e angariar fundos para a formação de um partido, algo que ocorreu em 1863. Engels na época embora tenha emprestado dinheiro, não simpatizava com Lassalle. Via como um homem de ideias preciptadas e até irresponsável com algumas delas. (MEHRING, 1962, p. 306).

Concluído o acordo financeiro, Lassalle deixou Londres e retornou a Berlim, onde ainda no mesmo ano publicou seu livreto Sobre a conexão particular entre o presente período da história e a ideia da classe trabalhadora (1862). A obra foi censurada pelo governo prussiano, Lassalle se revoltou e afrontou o governo, o qual lhe deu voz de prisão, levando-o a ser julgado. Ele acabou pagando fiança e foi solto. Depois desses acontecimentos, Lassalle praticamente cortou contato com Marx e Engels, voltando a se falarem em 1864.

Ainda em 1864 Marx mudou-se com a família para uma boa casa em Modena Villas, ao sul  do Grafton Terrace, endereço da sua antiga moradia. Na nova casa Marx viveria o restante da sua vida. Foi ali que ele concluiu um de seus mais importantes livros, O Capital (1867). (MCLELLAN, 1995, p. 318). 

A Primeira Internacional (1864)

Em 28 de setembro de 1864, Marx e Engels fundaram em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores (International Working Men's Association), conhecida também como Primeira Internacional ou Internacional dos Trabalhadores, cuja associação funcionou até o ano de 1872. Pelo fato de Londres ser a maior metrópole da Europa e do Ocidente naquela época, a cidade concentrava grande quantidade de trabalhadores e sindicatos. Assim, Marx e Engels viram que Londres era o local mais propício para se fundar essa primeira associação que buscou integrar os sindicatos, associações, grupos, grêmios e movimentos trabalhistas de esquerda de toda a Europa e dos Estados Unidos. 

Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) procurou na época formar um consenso entre os partidos e movimentos de esquerda, numa tentativa de entrar e acordo e assim fortalecê-los. Com isso dialogou-se com as diferentes frentes do Socialismo, Comunismo, Anarquismo, Social-Democracia, etc. A AIT procurou nos seus anos de atividades promover e apoiar greves, passeatas, protestos, assim como, conscientizar a classe trabalhadora sobre seus direitos e deveres, neste caso, Marx aproveitou para difundir seus estudos e teorias; assim como, tentar levar a cabo a aprovação de leis trabalhistas, como jornada diária de oito horas, folga semanal, salário igualitário para mulheres, proibição do trabalho infantil, melhores salários, melhores condições de trabalho, fundo de aposentadoria, etc. (MEHRING, 1962, p. 316-318).


Gravura representando a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, ocorrida em 28 de setembro de 1864, no Saint Martin Hall, Londres. 
ATI procurava pôr em prática a convocação do Manifesto do Partido Comunista a qual dizia: "operários do mundo, uni-vos". Assim, com a ATI em funcionamento isso passava a ser uma realidade. Os sindicatos ingleses foram os primeiros a aderir a Associação, depois vieram sindicatos e movimentos da França, Bélgica, Holanda, Suíça, Alemanha e Itália. Ainda em 1864 com a definição do Grande Conselho, o órgão administrador da ATI, Karl Marx foi eleito como secretário-geral da mesma, cabendo a ele a redação das normas e pauta de interesses da ATI, intitulado Discurso inaugural e regras provisórias da Associação Internacional dos Trabalhadores, chamada posteriormente de "regras gerais". (MCLELLAN, 1995, p. 355-357). 

Em 1866 aconteceu o Primeiro Congresso Internacional dos Trabalhadores, realizado em Genebra, Suíça. Na época, Marx e Engels não puderam participar. Os 60 delegados presentes representavam sindicatos ingleses, franceses, belgas, alemãs e suíços. Na ocasião houve atrito, pois uma ala defendia o comunismo marxista, e enquanto outra formada por suíços e franceses passou a defender o anarquismo proudhiano. Além dessa cisão interna, o congresso foi abalado pelo contexto da Guerra Austro-Prussiana (1866), travada entre Prússia e Áustria, que resultou na vitória dos prussianos, os quais dominaram os Estados Alemães e parte da Itália. Devido ao conflito, vários delegados ficaram de fora do congresso. Os desentendimentos que permaneceram a partir dessa guerra, seriam retomados anos depois na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). 

De qualquer forma, o congresso de 1866 resultou na aprovação do Programa do Primeiro Congresso Internacional. O referido documento foi o resultado dos debates ocorridos durante o congresso, os quais abordaram como tema: relações de capital e trabalho, trabalho feminino, trabalho infantil, redução das jornadas de trabalho, manutenção de exércitos, trabalho cooperativo, críticas a Rússia czarista e a ocupação da Polônia, etc. Além desses temas associados com trabalho e guerra, o congresso também deliberou a respeito da organização do ATI, adotando o modelo federativo, a criação de núcleos regionais (bureaus), validação do estatuto da ATI, o qual foi escrito de forma provisória por Marx, em 1864. (MEHRING, 1962, p. 353-355).


Cartão de membro da Assoicação Internacional dos Trabalhadores. 
Após o Congresso de Genebra outros quatro se sucederam. O Congresso de Lausanne (1867), também na Suíça; o Congresso de Bruxelas (1868), na Bélgica; o Congresso de Basileia (1869), novamente na Suíça; e o Congresso de Haia (1872), na Holanda. Por se tratar de um tema que merece ser abordado mais especificamente, o qual é a história dos cinco congressos trabalhistas antes do fim da ATI, algo ocorrido em 1872, motivado pela crise gerada a partir da Guerra Franco-Prussiana e o conflito interno entre marxistas e anarquistas seguidores de Bakunin, algo que comentarei adiante. Assim, optei em encerrar por aqui esse breve comentário, apresentando o papel da ATI, como a primeira organização internacional em prol dos sindicatos, do proletariado e direitos trabalhistas. Inclusive entre os anos de 1866 a 1869 houve várias greves pela Europa, motivadas direta ou indiretamente pela ATI, além do fato de que a Associação apoiou a Comuna de Paris (1871), tentativa revolucionária de implantar um governo socialista em Paris. Mas que acabou falhando. 

O Capital (1867)

Durante sua ligação com a ATI, Marx em 1867 publicou seu maior trabalho sobre economia, no caso, o primeiro volume de O Capital. Obra dividida em quatro volumes e publicada ao longo de anos, não chegou a ser concluída pelo autor. O Capital: crítica da economia política (Das Kapital: Kritik der polisthicen öekonomic) pode ser considerado como o auge da teoria econômica de Marx, desenvolvida ao longo de mais de vinte anos. Se considerarmos que ele começou a se dedicar a estudar economia ainda na década de 1840, enquanto redigia anotações que se tornaram o livro Manuscritos Filosóficos-econômicos (1844), passando pela Miséria da Filosofia (1847), O Manifesto do Partido Comunista (1848) e chegando aos Os Elementos fundamentais para a crítica da economia política (1857-1859), além de vários artigos que escreveu para distintas revistas ao longo desses anos. Assim, O Capital que esegundo Marx, seria a continuação da obra Os Elementos, representava o desenvolvimento de sua teoria econômica e a consolidação dela, já que como comentado, o livro levou anos para ser escrito, sendo a obra que mais tomou tempo de seu autor.

Marx começou a escrever o Capital possívelmente por volta de 1859, período que estava redigindo sua obra anterior. O biógrafo David McLellan (1995, p. 318) comenta que no ano de 1861, Marx estava escrevendo ainda o terceiro capítulo do livro, o qual somente foi publicado seis anos depois. McLellan (1995) sublinha que a demora para Marx publicar o livro deveu-se a problemas de saúde (Marx era fumante e sedentário), além de outras ocupações que ele encontrou, dentre as quais a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, da qual ele atuou como secretário por alguns anos. Em 1865 o primeiro volume havia sido concluído. Assim, Marx passou o ano de 1866 revisando o material para publicá-lo em 1867. (MEHRING, 1962, p. 357).


Frontispício de O Capital, 1867. 
O livro foi impresso em Hamburgo na Prússia (atualmente na Alemanha), por Otto Meissner, o qual possuía contato com Engels, tendo publicado algumas de suas obras anteriores. O Capital volume 1 passou a ser vendido em abril de 1867. Tendo sido escrito em alemão e sendo o único volume publicado por Marx, já que os volumes 2, 3 e 4 são publicações póstumas. Além do mais, Marx corrigiu e acrescentou anotações e dados. Essas alterações foram incluídas na segunda edição do livro em língua alemã, lançada em 1873, e na primeira edição do livro em francês, publicada em 1875. 

No que se refere ao volume 1 do Capital, o único que Marx concluiu, esse volume é subintitulado como O processo de produção do capital, consiste numa obra de crítica a economia capitalista-liberal. Nesse extenso e denso livro de escrita pesada, e com partes de ironia, algo visto em outras obras de Marx, o autor procurou ao longo de 25 capítulos comentar os seguintes assuntos: a ideia de mercadoria, produção, consumo, troca, distribuição, circulação; compra e venda; dinheiro, salário, relação do dinheiro com o capital, como surge o lucro, a relação do valor gasto para produzir um produto e o salário pago ao produtor; direitos trabalhistas, jornada de trabalho, trabalho manual e mecanizado, trabalho feminino e infantil, exploração do trabalho, divisão contemporânea do trabalho, teoria da acumulação, o processo colonizador, etc. (MARX, 2013). 


“É que O capital constitui, por excelência, uma obra de unificação interdisciplinar das ciências humanas, com vistas ao estudo multilateral de determinada formação social. Unificação entre a economia política e a sociologia, a historiografia, a demografia, a geografia econômica e a antropologia”. (GORENDER, 2013, p. 46). 

Após a morte de Marx em 1883, seu melhor amigo Friedrich Engels recolheu as anotações, comentários, críticas e esboços dos capítulos para as continuações do Capital, e tratou de organizá-las e até mesmo teria escritos trechos dele, algo que se percebe na diferença de escrita em determinadas partes da obra. O volume II recebeu o subtítulo de O processo de circulação do capital e foi pulicado em 1885. Por sua vez, o volume III que recebeu o subtítulo de O processo global da produção capitalista, foi publicado em 1894, na época Engels estava com 73 anos. No caso, Engels chegou a lançar uma segunda edição do volume II em 1893, com algumas revisões e anotações pessoais. Como faleceu em 1895, não pode lançar nova edição do volume III. Quanto ao volume IV, subintitulado Teorias da mais-valia, a obra foi editada por Karl Kaustky (1854-1938), filósofo e jornalista checo-austríaco, especialista no trabalho de Marx, editou com base nos manuscritos dele o que se tornou o volume IV de O Capital. Embora seja uma obra pouco conhecida do grande público. 

“Sob a perspectiva de conjunto, há uma linha divisória entre os Livros I e II, de um lado, e o Livro III, de outro. Linha divisória que não diz respeito à separação entre questões microeconômicas e macroeconômicas, pois nos três livros encontramos umas e outras, conquanto se possa afirmar que o Livro II é o mais voltado à macroeconomia. A distinção estrutural obedece a critério diferente. Os dois primeiros livros são dedicados ao “capital em geral”, ao capital em sua identidade uniforme. O Livro III aborda a concorrência entre os capitais concretos, diferenciados pela função específica e pela modalidade de apropriação da mais-valia”. (GORENDER, 2013, p. 46). 

Desentendimentos (1870-1875)

A década de 1870 na vida de Marx foi marcada por três acontecimentos importantes: a Comuna de Paris (1871), o fim da Primeira Internacional (1872) e a crítica ao Programa de Gotha (1875). Comecemos pelo primeiro. No ano de 1870, no dia 19 de julho eclodiu formalmente a Guerra Franco-Prussiana. O imperador Napoleão III da França declarou guerra ao kaiser Guilherme I da Prússia

A guerra durou menos de um ano, chegando ao fim em maio de 1871, porém, durante os últimos meses da guerra ocorreu a revolução ou pretensa revolução que originou a Comuna de Paris. Em março de 1871, o imperador Napoleão III estava preso, após a derrota na Batalha de Sedan. Ele estava sob guarda do primeiro-ministro prussiano, Otto von Bismarck. Um governo provisório foi instituído em Versalhes, então capital da França, para negociar o resgate do imperador e o fim da guerra. A Guarda Nacional formada para auxiliar o exército francês, continuava acampanda em Paris, quando membros dessa guarda que consistia numa milícia convocada, se rebelaram e tomaram a prefeitura. Entre 26 ou 28 de março os communards como ficaram conhecidos, proclamaram a independência de Paris, tornando-a uma comuna. Porém, o governo de Versalhes e o imperador Napoleão III foram contrários a essa tentativa dos trabalhadores, operários e soldados de instaurarem um governo socialista em Paris. Dando início a uma guerra que durou até maio. (MCLELLAN, 1995, p. 357-359). 


Communards na barricada da Rua Voltaire, durante a Comuna de Paris,1871. 
Nesse meio tempo, os communards, formados por socialistas, comunistas, anarquistas, democrátas, republicanos e pessoas não filiadas a partidos e ideias políticas, promoveram uma série de reformas trabalhistas, legais e civis, embora todas foram revogadas depois da derrota da comuna. Todavia, Marx e Engels que acompanharam as notícias pelos jornais, aplaudiram o acontecimento. Para eles, o proletariado parisiense estava pondo em prática um governo socialista, apesar de ter iniciado esse governo a partir de um golpe de Estado. Entretanto, o exército francês e prussiano confrontraram os communards, os levando a derrota e o fim de um governo socialista do proletariado. (MEHRING, 1962, p. 455-456). 


Mikhail Bakunin
Com a derrota de mais uma tentativa de promover uma revolução socialista, isso prejudicou não apenas os planos de alguns integrantes da ATI, a qual apoiou a comuna, mas também contribuiu para que posteriormente a oposição contra socialistas, comunistas e anarquistas endurecesse, sem contar que desde 1868, a ATI vivia uma crise interna devido a desentendimentos entre socialistas, comunistas, anarquistas e social-democrátas. No ano de 1872 foi convocado o quinto congresso da ATI, realizado na ocasião em Haia, na Holanda. No caso, Marx e Engels compareceram a esse congresso, e Bakunin também, o principal representante da oposição interna. É preciso salientar que Marx nunca se entendeu bem com os anarquistas desde a época que morou em Paris, tendo entrado em conflito com as ideias de Proudhon. Décadas depois, o conflito retornou, dessa vez entre ele e Bakunin. No caso, os anarquistas liderados por Bakunin propunham métodos diferentes para se promover uma revolução esquerdista, além de pensar no uso de ações enérgicas e agressivas, contrariar a ideia de uma necessidade de desenvolvimento histórico como sugerido por Marx, o qual defendia que a mudança de um Estado capitalista para um socialista não poderia ser abrupta, o país deveria fornecer condições materiais, estruturais e de recursos para poderem ser aplicadas na mudança. Bakunin discordava de parte dessas necessidades. (THOMAS, 2012, p. 153-154). 

De qualquer forma, em 1872, em Haia, o congresso foi tumultuado. Os representantes de 14 países entre França, Inglaterra, Prússia, Bélgica, Holanda, Suíça, Espanha, Estados Unidos, etc. estavam divididos basicamente entre marxistas e bakunistas. Na ocasião, Engels e Marx presidiram os debates, o que foi tomado pelos anarquistas e seus aliados com desconfiaça e favorecimento para os interesses deles. Os dias de reunião que buscaram um consenso para restaurar a concórdia na ATI e pensar em estratégias para fortalecê-la frente os problemas externos e internos, não deu certo. A expulsão de membros do conselho nova-iorquino, dos anarquistas como Bakunin e de membros dos blanquistas e social-democrátas, não foi bem recebido. Gerando tumulto. Por fim, a ideia de Engels de transferir a sede do Conselho Geral, de Londres para Nova York, devido a dispustas internas pelo comando do conselho, algo que vinha ocorrendo desde 1870, não foi bem quista. E isso foi a gota d'água, levando a cisão interna e o fim da ATI. (MCLELLAN, 1995, p. 200-201).


Gravura retratando Engels e Marx durante o V Congresso da ATI, em Haia, em 1872. 
O terceiro acontecimento marcante nesse período foi a crítica de Marx e Engels ao Programa de Gotha. Entre 22 a 27 de maio de 1875, ocorreu em Gotha, na Alemanha, um congresso entre os dois partidos políticos socialistas alemães. O Partido Operário Social-Democrata, chamados de Eisenachianos, devido a cidade na qual o partido se constituiu em 1869. Era liderado por socialistas marxistas como Ferdinand August Bebel (1840-1913) e Wilhelm Liebknecht (1862-1900). O outro partido era a União Geral dos Operários Alemães, chamados de Lassallianos devido a influência de Lassalles sobre eles. O partido era liderado por Wilhelm Hasselman (1844-1916) e Wilhelm Hasenclever (1837-1889). No caso, Hasenclever ajudou a fundar o Partido Operário, mas por desavenças saiu deste. Além disso, ele foi um dos fundadores do jornal Vörwats!, o qual Marx e Engels havia contribuído na França. 

A proposta do Programa de Gotha era unificar os dois partidos, um socialista marxista e o outro social-democráta lasselliano. Assim, unificando os dois, se formaria um partido socialista alemão forte e consolidado, porém, Marx e Engels ao lerem o programa resultante desse congresso, ficaram decepcionados. Para eles o programa era um embuste, disfarçado de boas ideias, mas que na prática mostrava interesses por trás. Talvez parte da decepção de ambos advenha ao fato de que Bebel e Liebknecht que eram marxistas, terem concordados com ideias de Hasselman e Hasenclever que eram lassallianos, lembrando que Engels não considerava Lassalle de confiança, e Marx se desentendeu com ele algumas vezes, o que incluiu questões de empréstimo de dinheiro para ajudá-lo a fundar seu partido. 

Assim, a Crítica ao Programa de Gotha (1875), consistiu num pequeno livro que Marx pontuava as propostas do programa e assinalava problemas de aplicação, e como algumas propostas eram frutos de erros de interpretação propostos pelo radicalismo de Lassalle. Sem contar que alguns dos membros da União Geral foram acusados de serem anarquistas, o que põe em jogo a pauta socialista que alegavam defender. (MARX, 2000). 

Os últimos anos de Karl Marx (1876-1883)

Os últimos sete anos da vida de Marx não foram marcados por grandes obras. Embora tenha continuado a escrever artigos e matérias para jornais, sua produção literária decaiu muito. Segundo Engels, foi por volta de 1878 que o amigo parou de escrever a continuação de o Capital. Mas se por um lado ele interrompeu seu grande trabalho econômico, Marx ainda esteve atenando a questões políticas, realizando algumas viagens e participando de reuniões e congressos. 

Entre 1876 e 1877 Marx realizou algumas viagens a Alemanha. Em 1876, Bakunin, seu último grande rival faleceu. No ano de 1877, Marx publicou o livro O Anti-Dühring, sua última grande obra de crítica. Karl Eugen Dühring (1821-1921) foi um advogado, filósofo, economista alemão, além de ter estudado matemática e física. Declarava-se seguidor do pensamento positivista de Augusto Comte (1798-1857), e defendia ter elaborado uma nova forma de se repensar o socialismo e como aplicá-lo. Dühring foi visto com desconfiança na própria Alemanha. Engels chegou a redigir alguns artigos comentando as propostas dele, e finalmente Marx, escreveu um livro contrapondo-se as ideias políticas, econômicas, morais e filosóficas de Dühring. 

A queixa de Marx, Engels e outros filósofos e militantes da época é que Dühring se dizia o "reformador" do socialismo. Ele estava fazendo muita propaganda sobre sua pessoa e ideias, dizendo que havia encontrado meios de corrigir problemas da teoria socialista e de como proporcionar sua aplicação na sociedade. Marx ao analisar as obras de Dühring, chamou-o de farsante, arrogante e ignorante. O qual queria através de sua boa escrita e lábia conquistar apoio dentro do Partido Socialista Alemão. (MARX, 2001). 

Em 1878 o primeiro-ministro alemão, Otto von Bismarck aprovou uma lei proibindo o socialismo no país. A medida de Bismarck foi um golpe baixo para frear o avanço dos sociais-democrátas (partido de centro-esquerda) que crescia na Alemanha. No ano de 1878, o imperador Guilherme II sofreu dois atentados contra sua vida. Bismarck culpou os sociais-democrátas e socialistas, mas os responsáveis nunca foram encontrados. Assim, Bismarck tentou aprovar uma lei que proibisse o socialismo, comunismo, a social-democracia e o anarquismo na Alemanha. A lei foi foi votada duas vezes e reprovada. Bismarck valendo-se da sua autoridade suspendeu o Parlamento Alemão (Reichestag), e convocou eleições imediatas para compor um novo parlamento, agora favorável a suas ideias, o qual aprovou a lei antissocialismo. 

Para Marx, essa foi uma notícia muito lamentável. Ele desde 1848 vinha lutando para legalizar o socialismo como partido e suas ideias para serem aplicadas na Prússia e Alemanha, e agora o governo alemão proibia todas elas. Marx não pode fazer nada para tentar reverter o caso, porém, os próprios alemães, mesmo na clandestinidade, não desistiram de suas ideias e propostas e continuaram a pressionar o governo para revogar a lei. 

No ano de 1880, Marx recebeu a visita do político e jornalista francês Jules Guesde (1845-1922), o qual era editor do jornal L'Égalité (A Igualdade), além de ter sido um dos fundadores do Partido Socialista Francês e difusor do marxismo na França. No caso, Guesde estava organizando a criação de uma Segunda Internacional dos Trabalhadores, que seria sediada em Paris. Assim ele viajou para Londres para conhecer e conversar com Karl Marx, o qual inclusive colaborou na redação do Programa da Associação Francesa dos Trabalhadores (1880). Guesde retornou para a França esperançoso, a Associação Francesa dos Trabalhadores permaneceu em atividade até 1902, quando foi fechada e Guesde tomou outros rumos. 

Em 2 de dezembro de 1881, Jenny Marx faleceu aos 67 anos. A morte dela abalou muito Marx. Suas filhas e Engels relataram em cartas como o pai foi pego por um forte luto. Alguns historiadores sugerem em um princípio de depressão pós-luto. Na prática saba-se que a saúde de Marx se agravou nos anos seguintes após a morte da esposa. E a situação piorou em janeiro de 1883, quando sua filha Jenny Caroline Marx, na época conhecida pelo nome de casada de Jenny Longuet faleceu aos 38 anos. 


Charles Longuet e Jenny Marx Longuet na década de 1870. 

Jenny Longuet havia nascido em Paris, sendo a filha mais velha de Karl e Jenny. A menina seguiu os caminhos do pai e tornou-se militante socialista, passando a escrever a respeito para jornais. Apesar que não tornou-se uma erudita. Casou-se com Charles Longuet, veterano da Comuna de Paris. O casal teve seis filhos. Porém, Jenny faleceu em 11 de janeiro 1883, por problemas abdominais, os quais acarretavam grandes dores. Os historiadores sugerem que teria sido algum tipo de câncer. A aparência de Jenny também estava debilitada nos últimos meses antes da sua morte. 

A perda da filha mais velha abalou ainda mais Marx, o qual já sofria de depressão e problemas respiratórios devido ao tabagismo e o sedentarismo. E esse faleceu em 14 de março de 1883, aos 64 anos. Engels organizou o velório e sepultamento do amigo. Marx continua até hoje sepultado no Cemitério Highgate, em Londres. 


Túmulo de Karl Marx no cemitério Highgate, Londres. O busto foi um presente posterior. 

Controvérsias sobre sua vida e família: 


a) Marx e suas discordâncias e desafetos

Ao longo da vida Karl Marx colecionou uma série de rivalidades, boas e ruins. Seu temperamento genioso, especialmente mostrado na sua escrita sarcástica, irônica, de humor ácido e as vezes até ofensiva, lhe rendeu problemas com a censura prussiana, com críticos e com uma série de opositores. Marx ao longo da vida foi conhecido por seu senso crítico; ele as vezes sozinho ou em colaboração de amigos, como Engels, criticou os jovens hegelianos, socialistas, anarquistas, liberais, etc. Obras como Crítica a Filosofia do Direto em Hegel (1843), Teses sobre Feuerbach (1845), A ideologia alemã (1846), Miséria da Filosofia (1847), Elementos fundamentais para a crítica da economia política (1858), O Capital (1867), Crítica ao Programa de Gotha (1875) e o Anti-Dühring (1880), são algumas das principais obras que representam esse seu gênio crítico. 

Nessas obras Marx ora destilou suas acusações, mas também rebateu acusações de calúnia e difamação. Apesar de aparentemente não ter feito inimigos, Marx teve problemas principalmente com os hegelianos nas décadas de 1840 e 1850 e depois com os anarquistas, especialmente na figura de Proudhon e Bakunin. Porém, a inimizade gerada contra os liberais, capitalistas, conservadores, burgueses, empresários, etc. foi algo que carregou por décadas, desde que começou a publicar obras sobre economia, ainda na década de 1840. 

Mas além dos seus livros, Marx também arranjou problemas na sua carreira como jornalista. No texto acima vimos que por motivos de polêmica, Marx deixou Colônia em 1843, foi expulso de Paris em 1845, e expulso de Colônia em 1848. Sem contar que ele continuou a escrever artigos inflamados para criticar não apenas questões filosóficas e econômicas, mas para reclamar das atitiudades de governos republicanos e monarquistas, crises, guerras, etc. Seu apoio a greves, revoltas e as Revoluções de 1848 e a Comuna de Paris, também não foram bem vistos pela oposição. Até chamaram-no de o "doutor vermelho" devido ao seu apoio a Comuna de Paris. 

b) Marx e a religião

É comum ouvir ou ler que Karl Marx foi um terrível ateu ou até satanista, como alegam alguns, o qual defendia destruir todas as religiões do mundo. A história não foi bem assim. Marx nasceu judeu, tornou-se cristão luterano, depois cometeu apostasia e assumiu-se como ateu. Todavia, em sua longa produção literária, Marx pouco escreveu sobre religião. Sua famosa frase: "a religião é o ópio do povo", dita na década de 1840, por um Marx cético que estava migrando para o ateísmo, era resultado de suas queixas ao uso da religião para se enganar a população. 

Os detratores e opositores de Marx costumam usar essa frase para dizer que ele pregava o Estado ateu, o fim do cristianismo, e de outras religiões. Mas ele nunca deixou isso claro. Marx defendia o Estado laico, era contra a igreja influenciar em decisões políticas. Isso na época não agradou líderes religiosos. Sem contar que os marxistas passaram a defender não apenas a laicidade, mas o ateísmo, deturpando a crítica de Marx as religiões. De fato, ele perdeu sua fé, mas dizer que isso seria motivo para ele abominar todas as crenças religiosas é exagerado, já que o mesmo não manifestou isso com clareza. 

Por exemplo, Engels manteve-se cristão, inclusive ele escreveu que o socialismo e o comunismo não eram opositores a religião. Ele procurou conciliar cristianismo com o socialismo. Nesse ponto Engels discordava de Marx quanto a dizer que as religiões seriam um empecilho para a conscientização das classes oprimidas, as quais ludibriadas pelos dirigentes evitavam de se rebelar, pois os padres, pastores e bispos ensinavam que isso era pecado. 

c) A polêmica da morte dos filhos

Os opositores de Marx costumavam e costumam citar a morte dos seus filhos como sendo algo do descaso de Marx. Vimos ao longo do texto que de fato quatro filhos seus morreram na infância por problemas de saúde e um deles por ter nascido prematuro. Porém, as cartas de Marx, da esposa e dos amigos revelam a preocupação do casal quanto a saúde da família e ao desespero que enfrentaram entre 1852 e 1856. Além do fato que comentei anteriormente que a hipótese de uma casa insalubre tem seus problemas, pois na mesma época que morreram Guido, Francisca e Edgar, nasceu Eleanor, a qual viveu no mesmo local dito "terrívelmente imundo", mas a recém-nascida sobreviveu. 

Outro problema envolvendo os filhos de Marx, diz respeito a suas filhas que sobreviveram: Jenny Caroline, Jenny Laura e Jenny Eleanor. Todas elas chegaram a fase adulta, casaram-se e tiveram filhos, exceto Eleanor. Porém, aqueles que costumam desprezar a vida de Marx, apontam que duas das filhas cometeram suicídio, mas esquecem de explicar o contexto e motivos. Já li gente dizer que as duas filhas que se mataram, fizeram isso por causa do pai, só que aí temos o primeiro problema: Jenny Laura e Jenny Eleanor, morreram anos depois do pai. Logo, dizer que elas morreram durante a vida dele é um dado errado, e culpá-lo por isso, também é errado. 


Engels, Marx e suas filhas Caroline, Eleanor e Laura. Foto tirada na década de 1860. 
Jenny Laura (1848-1911) faleceu aos 66 anos. A causa da morte, suicídio. Porém, ela se matou junto ao marido, Paul Lafargue (1842-1911), jornalista, crítico literário e militante socialista. O motivo do suicídio do casal não é conclusivo, mas eles concordaram em fazer isso e foram achados mortos. No caso, sublinha-se o fato que Laura Lafargue morreu já idosa, inclusive dois anos mais velha do que a idade a qual o pai faleceu. 


Jenny Laura Marx Lafargue.
Por sua vez, Jenny Eleanor (1855-1898), assim como a irmã mais velha, tornou-se militante socialista. Ela passou a escrever a respeito para jornais, e até se tornou escritora e tradutora. Aderiu também ao movimento sufragista, e trabalhou como professora e secretária de organizações trabalhistas. Casou-se com Edward Aveling (1849-1898), professor de biologia e militante socialista. Em 1848 Eleanor cometeu suicídio após descobrir que o marido tinha uma amante. Segundo a história, ela havia descoberto isso tempos antes, porém, não conseguiu se conformar com a traição e se matou. 


Eleanor Marx Aveling. 
Como observado, as filhas de Marx cometeram suicídio, mas não foi durante a vida dele, ou por sua causa. Não tem como saber o que os filhos farão ou serão depois que você se for. No caso, já li pessoas dizerem que se elas fossem bem educadas, não teriam feito isso. Isso é uma desculpa que não tem validade. Outros disseram que se elas fossem cristãs, não teriam feito isso. Outra resposta que também não tem validade. Émile Durkheim em seu famoso estudo O Suicídio (1897), observou que várias pessoas cristãs ou ditas cristãs, se mataram. Além desse fator religioso, Durkheim analisou fatores sociais, econômicos, morais, familiares, culturais, etc. 

d) Marx foi extremamente pobre ou muito rico?

Algo que costuma circular na internet são duas informações bem erradas: uma diz que ele e a família eram pobres, quase miseráveis, pois Marx era um vagabundo e nunca arranjou um emprego. Como comentado, Marx ao longo da vida foi jornalista, tendo trabalhado em jornais de distintos países. Além de ter assumido cargos na Associação Internacional de Trabalhadores e outras associações. Sendo assim, dizer que ele nunca arranjou um emprego é uma afirmação falsa.

Outra informação que é comum ser difundida na internet diz que ele era muito rico, pois sua esposa era filha de barão. De fato, Jenny von Westphalen era filha de barão, mas ela não tinha título, e a herança da família não a salvou dos anos de penúria, especialmente entre 1850 e 1856. Período que ela teve que procurar emprego temporário mais uma vez, e até penhorou joias. Ora, se ela realmente fosse rica como alguns alegam, como é que a família passou anos tendo que economizar dinheiro e com problemas financeiros? 

Segundo, Marx ficou desempregado em alguns momentos da sua vida, o pior foi na época que se mudou para Londres com a família, onde passou pelo menos seis anos difíceis, como comentado. Mesmo tendo arranjado dinheiro, o salário era baixo. Mas excetuando-se essas fases de crise econômica familiar, os Marx a partir da década de 1860, começaram a melhorar de situação financeira, apesar que teve que recorrer a Engels algumas vezes, para pedir dinheiro emprestado, como no caso de pagar o casamento das filhas mais velhas. Somente a partir da década de 1870 é que sua situação financeira se estabilizou de vez e ele viveu confortavelmente até o fim da vida. Em contra-partida, Engels descendia de uma família rica, dona de fábricas na Inglaterra. 

e) Marx pregava o fim da família?

Essa é uma das afirmações detupardas que se fazem de sua fala. Marx era crítico do que ele chamava de "modelo de família burguês", algo um tanto complicado de se entender, pois alguns de seus escritos não são de fácil compreensão. No caso, ele dizia que era contrário a esse modelo específico de família, o qual privilegiava o individualismo, a falsa meritocracia, o uso da família como entidade política para governar cidades, estados, províncias, etc. Marx era contrário a ideia de que uma mesma família se apossasse de cargos públicos e se revesassem no poder. Ele também criticava o fato que o "modelo de família burguês" se sobrepujasse sobre os outros modelos familiares. 

Marx comentava que as famílias do proletariado não eram concebidas na mesma forma que uma família burguesa. A família burguesa educava os filhos para exercerem cargos de comando e prestígio, mas não para trabalharem em serviços braçais ou dito inferiores. Seus filhos deveriam estudar em boas escolas e fazer universidade. Lembrando que Marx nasceu numa família burguesa judia. Ele mesmo vivenciou tal condição. Em contra-partida ele apontava que a família burguesa não queria permitir que o proletariado e outras classes pobres tivessem os mesmos direitos. Não interessava a eles que os pobres frequentassem escolas e/ou universidades. 

Outra crítica apontada por Marx em alguns de seus livros sobre economia como o Capital, era a questão do trabalho feminino e infantil. Segundo ele, a família burguesa não permitia que suas mulheres e filhos trabalhassem em fábricas ou em situações degradantes, porém, ignoravam esse zelo para as mulheres e os filhos dos pobres. 

Nesse ponto, ele lembra que mulheres burguesas dificilmente iriam trabalhar, porém, as mulheres do proletariado trabalhavam muito e recebiam bem menos do que os homens, mesmo que exercendo atividades iguais. Sem contar que enquanto a família burguesa defendia o zelo com as crianças, abominando que uma criança não deveria trabalhar, descartava tal opinião caso a criança fosse filha de um operário. De fato, as crianças ajudavam os pais em seus serviços, pois isso consistia na continuidade do ofício da família: sapateiros, tecelões, artesãos, ferreiros, comerciantes, etc. iniciavam seus filhos desde cedo em seus ofícios. Porém, a crítica de Marx se dava sobre o trabalho infantil em fábricas e a hipocrisia da família burguesa quanto a isso. 

NOTA: Das três filhas de Marx que viveram que se tornaram adultas, Caroline e Eleanor seguiram os passos do pai, tornando-se militantes socialistas.
NOTA2: As cinco filhas de Marx receberam o nome de Jenny, em homenagem a mãe delas. 
NOTA 3: Jenny Caroline Marx Longuet teve seis filhos: Harry, Jean, Edgar, Harry, Marcel e Jenny. 
NOTA 4: Jenny Laura Marx Lafargue teve três filhos, mas ambos morreram prematuramente. 
NOTA 5: Jenny Eleanor Marx Aveling não teve filhos. 
NOTA 6: Karl Marx teve nove netos e nove bisnetos. Se desconhece com exatidão o restante da sua descendência. 
NOTA 7: Marx teve um filho bastardo chamado Frederik (1851-1949), oriundo de um caso que teve com Helena Demuth (1820-1890), que trabalhou algum tempo como empregada e babá na casa da família Marx. No caso, ele nunca reconheceu o filho como sendo seu. Eleanor e Engels descobriram a respeito. A história do menino encontra divergências, pois alguns apontam que Engels teria sabido logo de início e ajudou a acobertar o caso. Outros alegam que Engels só descobriu posteriormente. 
NOTA 8: Marx apresentou-se relutante com os namorados e noivos das filhas, tendo sido um pai protetor e as vezes rigoroso de mais.
NOTA 9: A Escola Austríaca de Economia (ou Escola de Viena) tornou-se uma das principais opositoras ao marxismo e suas teorias econômicas. Entre seus fundadores estavam Carl Menger, Ludwig von Mises e Eugon von Böhm-Bawerk. Os membros iniciais da escola eram árduos defensores do modelo capitalista clássico. O mesmo modelo que Marx e Engels atacavam em seus livros e artigos. 
NOTA 10: A esposa de Marx, Jenny além de ter trabalhado fora em algumas ocasiões, debatia com o marido a respeito de seu trabalho, ajudava a editá-los e revisá-los. Inclusive ela escreveu algumas obras próprias também, apesar de serem pouco conhecidas. 
NOTA 11: Karl Marx é um dos personagens históricos que aparece no jogo Assassin's Creed Syndicate (2015). 
 
Referências bibliográficas: 
BEDESCHI, Giusipe. ComunismoIn: BOBBIO, Norbert (org.). Dicionário de política. Tradução de João Ferreira. Brasília, Editora da UnB, 1998. p. 204-220. 
BERLIN, Isaiah. Karl Marx: his life and enviroment. New York, Oxford University Press, 1959. 
GORENDER, Jacob. Apresentação. In: MARX, Karl. O Capital, vol. 1: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo, Boitempo, 2013. p. MARX, Karl. O Anti-Dühring. São Paulo: Jahar, 2001. 
MARX, Karl. O Capital, vol. 1: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo, Boitempo, 2013. 
MARX, Karl. Carta a Pável V. AnnenkovGerminal, v. 9, n. 2, 2017, p. 232-240.
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução e introdução de Florestan Fernandes. 2a ed. São Paulo, Editora Expressão Popular, 2008. 
MARX, Karl. Crítica ao Programa de Gotha
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Luis Cláudio de Castro e Costa. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
MARX, Karl. Manuscritos econômicos-filosóficos. Tradução, apresentação e notas de Jesus Ranieri. São Paulo, Boitempo, 2004. 
MCLELLAN, David. Karl Marx: a biography. 2a ed. London, Macmillan Press, 1995. 
MEHRING, Franz. Karl Marx: the story of his life. Translated by Edward Fitzgerald. New York, University Michigan Press, 1962. (Routledge Library Editions, Economics). 
PIANCIOLA, Cesare. Socialismo. In: BOBBIO, Norbert (org.). Dicionário de política. Tradução de João Ferreira. Brasília, Editora da UnB, 1998. p. 1187-1202. 
THOMAS, Paul. Karl Marx. Glasgow, Reaktion Books, 2012.